Tossi de novo. Meu marido, Cary, ergueu o rosto perfeito daquele decote generoso (como ele não sufocava?) e me encarou com raiva.
"Ninguém te ensinou a bater?" ele rosnou, irritado.
"Desculpe. Na próxima vez, penduro um sino na maçaneta. Aí você ouve", respondi, rangendo os dentes.
"Meu Deus, Cary. Sua secretária é tão grosseira. Devia demiti-la", resmungou a loira.
Quase senti pena. Ela não sabia que selara o próprio destino. Cary odiava que mexessem em seus negócios.
"Lisa, pode ir", ele disse, gelado. O ar pareceu congelar.
Mas ela não percebeu. A mão foi até o cinto dele. "Sei que você está excitado. Posso resolver agora. Até ficaria mais picante com plateia."
Em um segundo, Cary a empurrou. Ela caiu no chão.
Ele pegou o telefone. "Segurança. Tirem a Lisa do prédio. Não a deixem voltar."
Em momentos, os seguranças a arrastaram para fora, desesperada.
O escritório ficou em silêncio. Só eu e Cary. Mas não me senti vitoriosa - no fundo, eu era igual a ela.
Seus olhos queimavam em mim, intensos a ponto de furar minha pele. A mensagem era clara: eu precisava de um bom motivo para estar ali, ou acabaria pior que Lisa.
Ele nunca quis uma esposa ciumenta. Tinha me avisado no dia do casamento.
Antes que explodisse, peguei rápido um documento. "Precisa da sua assinatura aqui."
Forcei-me a folhear até a página certa. Meu coração batia tão forte que parecia sair do peito. Não ousei olhá-lo nos olhos - um gesto e ele me leria como um livro aberto.
Cary pegou a caneta e rabiscou a assinatura sem ler. Ele nunca precisava ler - porque eu nunca errava.
Mas naquele instante, parei de respirar - até ele terminar de assinar nossos papéis de divórcio.
Meu coração disparou de novo. Consegui. Estava livre. Divorciada. Deveria sentir alegria, mas um vazio profundo me invadiu. Três anos de casamento, acabados.
Precisava sair antes que ele notasse algo.
Mas então sua mão forte agarrou a minha. "Ah!" Soltei um grito. Ele descobriu?
Em vez de soltar, Cary me puxou para o seu colo com facilidade, a mão deslizando sob meu sutiã.
Se não tivesse acabado de ver a cena com a loira, talvez - só talvez - topasse uma aventura no escritório.
Mas o ciúme já me corroía por dentro. Sem pensar, levantei a mão e dei um tapa forte em seu rosto. Plaf! O som ecoou no silêncio.
"Que porra é essa? Enlouqueceu? Ousa me bater?" Ele me empurrou, incrédulo.
"Sim." Nem tentei negar. As câmeras provariam.
Seus dentes rangeram. Não duvidava - se ele quisesse morder minha garganta, meu sangue jorraria pelo carpete luxuoso.
Antes que virasse uma cena de crime, tentei fugir. Mas a altura dele era vantagem. Com um passo, agarrou meu braço.
"Como você ousa?!" Ele rugiu como um animal. O medo me dominou.
"Responda! Como ousa me bater? Eu sou seu chefe!" Seu aperto aumentou. Mais um pouco e meu pulso quebraria.
"E meu marido", revidei. Mal disse as palavras, me arrependi. Que humilhação viria agora?
Como previsto, Cary congelou. Abri a boca para explicar, mas ele de repente me soltou, com um sorriso cortante. "Querida, por que isso importa agora? Nunca se importou quando eu beijava outras."
Porque eu precisava do seu dinheiro, idiota. Mas agora sua mãe já me pagou. Claro que não podia contar - o acordo de confidencialidade nos prendia. Pelo menos por trinta dias.
Fingindo submissão, murmurei: "Deve ser a TPM. Sabe como os hormônios afetam a gente."
Os lábios de Cary formaram uma linha fina, seu olhar afiado como o de um predador. Engoli seco, ainda segurando os papéis do divórcio. Se ele os visse, sua mãe cortaria o pagamento na hora.
De repente, meu celular tocou. O nome da mãe dele piscava. Salvação. "É sua mãe", falei rápido. "Ela só quer checar se ainda sou uma esposa adequada."
Cary sabia que ela nunca aprovou nosso casamento. Mas ele me precisava. Casar comigo foi sua rebeldia contra o preconceito dela.
Ele acariciou meu rosto e sussurrou: "Não importa o que ela diga, nunca me divorciarei de você. Nunca acharia uma esposa mais perfeita."
Uma esposa perfeita. Alguém que tolera as traições do marido. A ironia era sufocante.
"Agora vá. Confio em você para lidar com ela." Seu tom voltou a ser gelado. Mantive a compostura, virei e saí.
"O Miles vai te trazer um presente depois. Esqueceu? Seu aniversário está chegando", Cary gritou.
Minha espinha gelou. Por um instante, minha determinação vacilou.
Cary era irresistível - o rosto de capa de revista, o corpo esculpido e dominante. Rico, extravagante, generoso demais com a esposa. Poderia me dar o mundo.
Mas tinha um defeito fatal: não me amava.
Três anos atrás, ao assinar o contrato, ele foi claro: sem sentimentos. Não prometia fidelidade, mas seria um marido responsável.
E foi. Quem quebrou a regra fui eu.
"Obrigada", forcei, duas sílabas abafadas. Sem olhar para trás, fechei a porta.
Lá fora, Miles esperava. Sorri para ele.
"Sra. Galloway, o presente do presidente para seu aniversário."
Olhei a caixa elegante. Reconheci a marca. O colar lá dentro valia uma fortuna. Minha penteadeira estava cheia daquilo. Nunca os usei.
Não passava de uma esposa invisível de CEO. Não precisava aparecer em eventos com Cary. Como os colares, era um pássaro na gaiola.
Talvez pudesse dar um sentido a aquilo.
Devolvi o pingente à caixa, fechei com um clique e a coloquei na bolsa. "Pode me fazer um favor?"
Miles piscou e assentiu. "Claro."
"Coloque isso em leilão online. É edição limitada - deve valer bastante. Doe todo o valor para uma instituição de caridade."
Antes que ele reagisse, entrei no elevador. As portas se fecharam.
Uma lágrima solitária escorreu. Limpei rápido. Nada de chorar. Estava apenas deixando um homem que não me amava. Só isso.
Meu celular tocou de novo. Olhei.
Respirei fundo e apertei o verde. "Cary assinou. Vou te enviar a foto."
Desliguei, fotografei a assinatura e enviei para minha sogra, Tanya Grant, com uma mensagem:
[Cumpri minha parte. Agora cumpra a sua. Minha conta: xxxxx]