Melissa acordava com o som do despertador da Alexa, mas naquela manhã, o silêncio parecia mais alto do que qualquer voz artificial. O teto de gesso com luz de LED refletia o vazio que ela sentia por dentro. Vazia como aquele quarto branco demais, arrumado demais, como se ninguém realmente vivesse ali.
Filha de um empresário influente da Zona Sul e de uma socialite que fingia ter tempo pra tudo, menos pra própria filha, Melissa vivia num mundo de aparências. Ela tinha tudo: roupas de grife, viagens internacionais, amigas que postavam até a alma no Instagram. Mas não tinha paz. Não tinha emoção. Não tinha verdade.
Aos 19 anos, frequentava a faculdade de moda por pressão da mãe, mas sua paixão era desenhar o que ninguém entenderia naquela roda de elite. Roupas com cores vibrantes, texturas ousadas, cheias de rua, alma, corpo. Queria criar pra quem vive, não só pra quem desfila.
Naquela manhã de sábado, ela vestiu um cropped branco, uma calça de moletom da Off-White e desceu as escadas da mansão onde morava. O pai lia o jornal, como se o mundo ainda vivesse em papel. A mãe organizava um brunch beneficente que mais parecia uma passarela de egos.
- Melissa, não vai esquecer do evento à noite - disse a mãe, sem desviar os olhos do celular.
- Eu não vou - respondeu, mentindo com o olhar.
Ela já sabia onde estaria naquela noite.
Porque naquela semana, algo dentro dela começou a gritar. Algo que pedia mais. Mais vida, mais verdade, mais calor. E esse grito veio no dia em que o carro blindado da família ficou preso no trânsito da Linha Amarela, e pela janela ela viu... ele.
Camisa de time, corrente no pescoço, olhar de rei em território marcado. Um moleque do morro, andando com a cabeça erguida como se fosse dono da cidade. E mesmo de longe, mesmo por segundos, ela sentiu.
Não era medo.
Era desejo.
E desde então, Melissa só pensava em uma coisa: descobrir quem era aquele cara.
Nem que pra isso, tivesse que cruzar o asfalto proibido.