Beth: Vítima da própria ganância, cobiça os cavalos de Uzziah e está disposta a arriscar o orgulho e o auto-respeito para obter um deles.
O Bárbaro: Rico e excêntrico, filho de um sheik árabe, lendário por sua experiência com os cavalos e as mulheres.
A oferta de Uzziah é simples: Uma corrida. "Se você vencer", ele explicou a Beth, "terá direito a dois cavalos e transporte imediato de volta ao Cairo. Se perder... passará o resto do final de semana comigo. E não me negará nada."
CAPÍTULO I
- Esse foi o último? - Beth perguntou com certo desânimo. - Não há mais nenhum animal à venda? Era o terceiro haras que visitavam, e já haviam passado o dia anterior na fazenda Al Badeia, na periferia do Cairo, e outro no estabelecimento estatal de El Zahraa, onde eram criados os mais puros cavalos árabes de todo o mundo. Mas ninguém lhe mostrara um animal digno de seu dinheiro.
- Receio que sim, mademoiselle - respondeu o agente fran¬cês que Beth contratara no Cairo - mas vou perguntar nova¬mente. Ao ser interpelado pelo francês, o responsável pelo haras fitou-a com ar aborrecido, como se estivesse farto de perder tempo com uma mulher tão estúpida e teimosa. Pensando bem, sua atitude devia ser proveniente do hábito cultural de não negociar com mulheres. Qualquer mulher.
Beth respirou fundo. Não tinha tempo para chauvinistas. Na verdade, não tinha tempo para a maioria dos homens. Ainda não conhecera nenhum, exceto Pete, é claro, que a tratasse com o respeito devido a um semelhante. Mesmo na Austrália, sua terra natal, todos pareciam acreditar que eram inerentemente superiores ao gênero feminino.
Talvez o conceito tivesse alguma validade na pré-história, quando o tamanho e a força física eram necessários para à so¬brevivência e as fêmeas eram obrigadas a buscar a proteção dos machos. Mas hoje em dia, na chamada sociedade civilizada, não conseguia compreender o valor de tal atitude.
Além do mais, era mais alta e forte que boa parte dos homens que conhecera. Podia revolver montanhas de feno sem nenhum esforço, e era capaz de controlar um cavalo selvagem apenas com a força dos braços.
Mas os homens não valorizavam talentos tão pouco femininos. Queriam uma boneca obediente e perfumada em suas camas, uma égua no cio em seus estábulos particulares, para usar uma analogia do meio em que vivia.
Pois não era nenhuma boneca e, graças ao próprio desinteresse por sexo, descoberto há alguns anos, também não sentia-se fogosa como uma égua no cio.
Assim, aos trinta anos de idade, ainda era solteira, condição que pretendia manter inalterada. Os cavalos eram seus filhos, e retribuíam seu amor com lealdade, afeto e obediência. Nenhum marido seria capaz de substitui-los.
Finalmente Monsieur Renault concluiu a conversa com o árabe e disse:
- Lamento, Mademoiselle Carney, mas eles não têm nenhum outro garanhão na faixa de preço que estabeleceu. Não quer re¬considerar aquele?
Renault apontou para um cavalo cinza na baia próxima.
Beth encolheu os ombros, desconsolada. O animal não tinha o toque especial que procurava, e que reconheceria imediatamente, mas talvez...
Estava prestes a dar sua resposta quando o ruído de um heli¬cóptero chamou sua atenção. Curiosa, olhou para o alto e viu o enorme aparato negro voando baixo, suas hélices provocando enormes nuvens de poeira que os envolviam. O responsável pelo haras desculpou-se em seu idioma e correu na direção do estábulo principal.
- Deve ser um cliente importante - Beth comentou enquanto esfregava os olhos cheios de poeira. Felizmente não tinha o hábito de usar maquiagem, ou os cosméticos teriam derretido sob o calor intenso. Fevereiro ainda era inverno no Egito, mas alguém havia esquecido de avisar o sol.
- Importa-se se a deixar sozinha por alguns instantes, made¬moiselle? Quero dar uma olhada num certo cavalo que será co¬locado em exposição.
- Está querendo dizer que trouxeram um cavalo dentro de um helicóptero? Isso é impossível! Nem mesmo um puro sangue árabe tem temperamento tão dócil.
Monsieur Renault riu:
- Não, não. O cavalo veio ontem pela estrada. O helicóptero está trazendo o proprietário, um criador bastante rico é excêntrico. Ele é filho de um xeque árabe.
- Ah... outro árabe.
- Meio árabe, na verdade. A mãe dele era uma missionária inglesa.
- Uma missionária inglesa? Que combinação estranha!
- Dizem que a moça foi capturada por uma tribo de beduínos e oferecida ao príncipe como um presente. Ò soberano não tinha opção. Ou a aceitava em seu harém, ou provocava uma pequena guerra interna. Acho que ela... não estava exatamente de acordo com a união.
- Que absurdo! - Beth exclamou indignada, surpresa ao tomar conhecimento de ocorrências tão bárbaras em pleno século vinte. Mesmo que o tal príncipe tivesse mais de cinquenta anos, o ato ainda teria sido cometido nos anos vinte, ou trinta.
- Por outro lado, talvez a moça tenha mudado de ideia. Pelo menos não apresentou nenhuma queixa à embaixada britânica quando foi libertada, um ano mais tarde. Afinal, os príncipes árabes recebem lições sobre a arte de amar desde o início da puberdade.
- Humph! Como se uma de suas pobres vítimas apavoradas tivesse coragem para criticá-los naquela época. Provavelmente teriam suas línguas cortadas!
- Não estou falando de um tempo distante. O filho do príncipe árabe deve ter trinta anos, e... Bem, vamos deixar essa conversa para mais tarde, mademoiselle. Preciso ir ver esse cavalo.
Curiosa, Beth o seguiu pela alameda arborizada e perguntou:
- Por que está tão interessado. Que tipo de animal é esse?
- É uma mistura de árabe e cavalo de corrida. Parece que é capaz de saltar muito bem, e foi acertado que ele será exposto na pista de treinamento e oferecido em leilão, caso não apareça nenhum comprador.
Se a combinação conseguira combinar a medida exata de do¬cilidade da raça árabe e a força e o porte de um corredor, esse animal seria simplesmente perfeito para a arena de saltos.
E saltar era a paixão de Beth. Mas nunca pudera pagar por um cavalo que pudesse realizar o sonho dourado de representar seu país em eventos e competições internacionais, e até mesmo numa Olimpíada. Por isso estava ali, com as economias de toda uma vida no bolso e a disposição de adquirir um animal cuja linhagem pudesse garantir sucesso absoluto nos treinamentos. Ha¬via pensado que um árabe pudesse ser a resposta, mas a mistura citada por Monsieur Renault podia mostrar-se absolutamente per¬feita.
- É um garanhão? - perguntou ofegante.
- Um potro. Mas não é um puro sangue, mademoiselle. Du¬vido que esteja interessada num híbrido.
- Por que não? Se ele for capaz de saltar, é claro que estou interessada. Além do mais, não há mal nenhum em dar uma olha¬da, certo?
O francês parou e sorriu:
- Vocês australianos são otimistas. Se quer mesmo ver o animal, venha comigo. O proprietário é um homem ocupado, e não deve passar muito tempo fora de seus domínios.
Quando retomaram a caminhada, Renault acelerou a velocidade dos passos e Beth o acompanhou sem dificuldade, graças às pernas longas e bem tonificadas.
- E como se chama o criador excêntrico? Aposto que é um desses nomes árabes complicados. Xeque Bahdahrah de Bahdah-rahdarah?
O francês riu:
- Não. Ele é conhecido simplesmente como Uzziah.
- Uzziah - ela repetiu. - E onde ficam os domínios desse tal Uzziah?
- Em algum lugar ao longo da Costa Ocidental de Morocco, mas não conheço a localização exata. Ele defende sua privacidade como um demônio enfurecido. Para ser bem honesto, nunca vi o tal sujeito, e estou bastante interessado em descobrir como ele é. Dizem que sua aparência impressiona.
- Estou mais interessada em ver o cavalo - Beth respondeu com tom seco. - Quanto acha que esse garanhão pode valer? - era inútil alimentar esperanças pelas quais não poderia pagar.
- Não tenho a menor ideia. O haras jamais ofereceu um de seus animais à venda pública.
- Talvez a queda do preço do petróleo tenha forçado o filho do príncipe a organizar um bazar na garagem - ela comentou com sarcasmo, demonstrando todo o desprezo que sentia pela opulência dos árabes. Ou pela opulência de quem quer que fosse. O que faziam para ganhar tanto dinheiro? Nada! Apenas cavavam buracos pelos quais sugavam um dos recursos naturais do planeta. E ganhar dinheiro com tanta facilidade era simplesmente obsceno!
Os cinquenta mil dólares que conseguira acumular para realizar um sonho de vida representavam o resultado de quinze anos de economias espartanas, trabalho duro e orçamento cuidadoso. Che¬gara ao Egito através do mais barato pacote turístico que encon¬trara, e o filho do xeque voava em helicópteros modernos e vivia como um príncipe, só porque seu pai tivera a sorte de cavar buracos nos lugares certos.
Não era justo!
Respirando fundo, Beth concluiu que era inútil desgastar-se com as pequenas injustiças do mundo. Se o cavalo fosse caro demais, simplesmente esqueceria e partiria em busca de outro. Além do mais, ainda nem vira o animal. E se fosse manco, cor¬cunda e com o temperamento de uma mula teimosa?
Monsieur Renault guiou-a por uma trilha secundária que con¬tornava o estábulo principal e levava ao circuito de treinamento, onde tudo já havia sido preparado para uma seqüência de saltos. Cerca de vinte homens esperavam na pequena arquibancada co¬berta, alguns vestidos com os trajes típicos da região, e a maioria em roupas ocidentais. Roupas caras, a julgar pela aparência.
Um dos árabes usava uma túnica longa e branca e um chapéu vermelho do qual pendia uma espécie de véu que protegia suas costas. Um fez, usado pelos homens de Morocco.
Aquele só podia ser o excêntrico Uzziah. Beth sentiu uma estranha decepção ao ver o árabe moreno, de pele perfeita e apa¬rência mais que atraente para os homens da região. Seus olhos eram escuros, como os cabelos, mas não havia nada de especial no conjunto de traços. Pelo contrário, era mais baixo que os com¬panheiros e nada impressionante, como Renault comentara.
Mais um exagerada lenda machista que desmistificava, pensou satisfeita, virando-se para o circuito e examinando as barreiras, algumas extremamente elevadas e difíceis. Uma das seqüências era assustadora até para o mais experiente cavaleiro, e havia uma parede diante da qual até ela mesma tremeria.
Aparentemente, o cavalo seria realmente exibido diante dos possíveis compradores. Beth esperava que o proprietário soubesse que, mesmo bem treinado e experiente, um animal podia apre¬sentar sensível queda no rendimento depois de uma longa viagem, ou em ambientes estranhos. Especialmente os potros.
- Não quer ir sentar-se na arquibancada? - Monsieur Renault sugeriu.
- Não, obrigada. Prefiro ficar aqui.
- Vai derreter sob esse sol.
- Sou australiana. Um pouco de sol não vai me fazer mal algum. Quanto a você, é melhor ir proteger-se, antes que acabe com uma insolação.
Adoraria refrescar-se à sombra da arquibancada, mas odiava a maneira como os árabes a observavam, com uma mistura de desejo e luxúria.
Sabia que não era exatamente bonita, mas normalmente atraía a atenção masculina por ser mais alta que a maioria das mulheres. No entanto, desde que chegara ao Cairo, os olhos escuros dos homens a seguiam por toda a parte. Talvez fosse por causa da estatura e dos cabelos loiros, incomuns nas mulheres do país. Mesmo assim, a maneira como a olhavam a incomodava, e às vezes sentia vontade de jamais ter saído de Galston Gorge.
Mas, se houvesse permanecido em Galston Gorge, não teria a chance de comprar um animal capaz de realizar seu sonho.
Entusiasmada, Beth apoiou um pé na parte mais baixa da cerca e cruzou as mãos acima dela, usando os cotovelos como apoio. Os olhos azuis mantinham-se fixos no ringue.
Nem um cavalo à vista!
Para um homem tão ocupado, o tal Uzziah não parecia nada impaciente com o precioso tempo que perdia.
Monsieur Renault tinha razão. O sol estava abrasador e, suando, ela inclinou a cabeça e levou uma das mãos à nuca para verificar se os cabelos ainda estavam presos no coque que fizera horas antes.
Um relincho atraiu sua atenção para a arena e, atônita, Beth sentiu-se sem ar.
Um cavalo negro como a noite estava sendo levado para o centro do círculo, um animal como jamais vira igual antes.
- Oh, meu Deus! - murmurou, balançando a cabeça num gesto de incredulidade. - O que eu não daria por um cavalo como esse!
Um rapaz magro e franzino montou e segurou as rédeas com mãos trêmulas e amedrontadas. O animal era demais para um garoto, especialmente em condições tão difíceis. Agitado, o potro parecia prestes a rebelar-se a qualquer momento.
Mas então Beth notou que mais alguém segurava o cavalo. Um homem. O corpo e o rosto estavam ocultos pelo corpo do potro, mas podia ver suas pernas longas e atléticas e as botas de couro próprias para montaria.
De repente o potro virou-se e o homem mostrou o rosto. Uma de suas mãos mantinha-se na sela, firme, e a outra caía solta ao longo de seu corpo.
Ali estava um homem realmente impressionante! Boquiaberta, Beth o examinou com atenção desde os cabelos negros até a ponta das botas brilhantes. Por mais que admirasse o físico per¬feito, exibido sem pudor pela calça justa de equitação e a camisa negra aberta até a cintura, os anos que passara rejeitando todos os homens que se aproximavam dela, especialmente os que de¬monstravam qualquer intenção sexual, possibilitavam que o ana¬lisasse com objetividade e frieza, como avaliaria um cavalo.
Para ser bem franca, o potro negro a atraía mais que o homem que o conduzia. Afinal, o homem não significava nada. Era apenas um exemplar refinado do gênero masculino. Um ser humano como outro qualquer.
Seria capaz de descrevê-lo com detalhes, apesar da falta de entusiasmo. Aproximadamente um metro e noventa e cinco de altura, ombros largos e fortes, estômago plano, quadris estreitos e pernas poderosas.
Apesar dos cabelos negros e da pele morena, deduziu que ele não era um árabe. Era alto demais, e não tinha os traços do povo da região. O nariz era longo e reto, os ossos da face eram altos e extravagantemente esculpidos, e a boca ampla de lábios finos completava o conjunto forte e cheio de ângulos. Um rosto im¬ponente e inesquecível. Os cabelos eram diferentes, curtos na frente e mais compridos na nuca, onde uma fita de couro os mantinha presos num rabo de cavalo.
Se qualquer um de seus conhecidos usasse um corte de cabelos como esse na Austrália, seria alvo de piadas impiedosas. Mas, por alguma razão, não conseguia imaginar alguém capaz de atre¬ver-se a ridicularizar esse indivíduo. Diferente ou não, ele ema¬nava um ar formidável que era quase assustador.
Os olhos escuros brilhavam com um misto de impaciência e preocupação enquanto, em voz baixa, ele orientava o rapaz sobre a sela com palavras em árabe.
E tinha todo o direito de estar preocupado. O potro parecia inquieto, irritado, e Beth já imaginava que o resultado da apre¬sentação não seria exatamente o esperado.
Melhor assim. Se o animal saltasse mal, o preço cairia e ela poderia comprá-lo.
Sim, pois agora tinha certeza de que queria esse cavalo, e com uma determinação que envolvia coração e estômago e os contraía num nó de ansiedade.
Finalmente o cavaleiro sacudiu as rédeas e o potro partiu em direção aos obstáculos. Como já previa, ao aproximar-se da pri¬meira barreira, ele parou subitamente e recusou-se a saltar, de¬safiando o comando do jóquei que, nervoso, demonstrava toda sua inabilidade. Um peão correu para segurar as rédeas do potro e dominá-lo, mas o animal disparou num galope alucinado em torno do ringue e em poucos segundos aproximou-se da cerca onde Beth apoiava-se.
Podia ver o medo no rosto do cavaleiro. Não... era mais que medo! Pânico, desespero, pavor. O homem que conduzira o ga¬ranhão até o centro do círculo gritava como um alucinado em árabe, deixando claro que não hesitaria em demonstrar sua ira assim que pusesse as mãos no pobre rapaz.
- Bárbaro - murmurou irritada.
A decisão de agir foi automática e impensada. Pretendia salvar o garoto e a situação, mas não percebia que, assim, perderia a chance de realizar seu grande sonho.
Equilibrando-se sobre a cerca, esperou que o cavalo passasse bem perto de onde estava para agarrar as rédeas e prendê-las na estaca de sustentação à sua direita. Privado subitamente de sua liberdade, o potro relinchou e moveu a cabeça com verdadeiro desespero, tentando soltar-se.
- Depressa - ela orientou. - Salte da sela.
Mas ele a encarava com os olhos arregalados, a boca aberta e o peito ofegante.
Surpresa com sua reação, Beth deduziu que ele não compreen¬dia seu idioma. Jamais teria pensado que, em seu país, nenhuma mulher atreveria-se a falar com um homem nesse tom autoritário, mesmo que o homem em questão tivesse apenas quatorze anos de idade. Sua preocupação mais urgente era o gigante que aproximava-se rapidamente com ar furioso. Agindo sem pensar, pulou a cerca, agarrou o garoto pela cintura e arrancou-o de cima da sela sem a menor cerimônia. Ignorando os gritos do peão, Beth montou e segurou as rédeas com mãos firmes.
- E agora, belezinha, vamos ver o que realmente sabe fazer! - e lançou-se num galope alucinado, conduzindo o animal para o primeiro obstáculo que, felizmente, ficava no extremo oposto do ringue.
Quando aproximaram-se da barreira o garanhão hesitou como se ainda tivesse alguma esperança de livrar-se da mulher que o comandava, mas acabou obedecendo à ordem dada através das rédeas e saltou. Mais três barreiras foram vencidas sem nenhuma dificuldade, até que aproximaram-se do obstáculo triplo. Beth sabia que, se o primeiro salto não fosse perfeito, todos os outros estariam perdidos.
Respirando fundo, calculou a distância e puxou as rédeas. Es¬tava habituada com pistas de grama, e o solo de areia havia criado uma falsa impressão de proximidade. Obrigara o potro a pular antes da hora, e agora teria de fazê-lo vencer os dois obstáculos restantes sem o impulso necessário, ou acabariam caindo.
Apavorada, seguiu o instinto e saltou mais duas vezes sem permitir que desse os três passos costumeiros para o impulso, e felizmente conseguiu vencer todos os obstáculos com elegância e sem maiores problemas. Tratava-se realmente de um animal magnífico.
Dentre todos os espectadores, apenas um não aplaudia. E nem poderia, já que mantivera-se paralisado junto à cerca durante todo o tempo em que ela percorrera o trajeto do ringue.
Uzziah jamais vira uma mulher como aquela. E era capaz de cavalgar quase tão bem quanto ele!
Ao vê-la prender as rédeas em uma das estacas da cerca, fi¬nalmente moveu-se e foi tomado pela suipresa ao perceber o agudo estado de excitação sexual que dominara seu corpo. Não estava surpreso com o próprio desejo, mas com o fato de ter sido despertado por uma mulher tão diferente do tipo que sempre pre¬ferira ter em sua cama. Não era bonita, nem atraente, mas... havia algo nela que o deixava em chamas, e a urgência era tão intensa que provocou uma decisão súbita.
Determinado, disse alguma coisa ao jovem que assistira a tudo a seu lado e acenou para o homem em trajes típicos na arqui¬bancada.
O árabe levantou-se imediatamente e correu ao seu encontro, inclinando-se num gesto de reverência.
- Sim, meu amo?
- Quero que cuide da venda daquele cavalo infernal. Depois, convide a mulher para passar o próximo final de semana comigo em Morocco.
- A mulher? - Omar espantou-se. - Aquela mulher? - e apontou para Beth, que acariciava o pescoço do cavalo no extremo oposto do ringue.
- Está vendo alguma outra mulher por aqui? - Uzziah dis¬parou com impaciência. - Por que a surpresa? Acha que ela não irá, Omar? Talvez esteja certo, mas algo me diz que ela aceitará o convite. É selvagem e... ocidental. E nunca fui rejeitado por uma ocidental. O piloto está preparado para partir?
- Sim, meu amo, mas...
- Estarei esperando por você amanhã à noite. E não me de¬saponte, Omar. Preciso ter aquela mulher.
- Sim, meu amo.
Omar inclinou-se e Uzziah afastou-se apressado, levantando poeira.
Beth olhou em volta em busca do peão e sur¬preendeu-se ao notar que ele havia desaparecido. O árabe com trajes típicos corria em sua direção, e a expressão perturbada em seu rosto indicava que não estava nada feliz com o que havia feito.
Preocupada, admitiu que dera um passo precipitado ao montar o cavalo sem sua permissão e preparou-se para arcar com as conseqüências. Esperava poder fazê-lo compreender suas boas intenções.
- Peço desculpas por ter assumido o controle da situação, Sr. Uzziah - adiantou-se -, mas percebi que o rapaz estava apa¬vorado e temi que ele e o animal saíssem feridos da empreitada. Reconheço que fui presunçoso e atrevida, mas agi movida pelo instinto e espero que me desculpe. Afinal, tudo acabou bem, não? - sorriu. - A exibição facilitará a negociação do animal. Para ser franca, esperava comprá-lo, mas temo não ter a quantia ne¬cessária para adquirir um cavalo tão magnífico.
Sabia que estava falando demais, mas, encorajada pelo silêncio respeitoso do árabe, decidiu continuar.
- Meu nome é Beth Camey. Sou australiana, e possuo uma pequena escola de equitação em meu país. Sempre quis ter um animal propício para saltos, e quando vi esse potro, Sr. Uzziah, eu... eu...
Confusa, notou que a expressão do árabe tornava-se mais per¬turbada e precisou de alguns segundos para entender o que se passava.
- Oh! - exclamou. - Não conhece meu idioma! Que bo¬bagem a minha! Escute, vou procurar Monsieur Renault e então poderemos...
- Eu falo seu idioma, Srta. Camey, mas não sou quem está pensando. Meu nome é Omar, e sou um humilde criado de Sidi Uzziah.
- Você é...? Então quem...?
Droga! Monsieur Renault comentara alguma coisa sobre a ori¬gem inglesa do filho do xeque. Por que concluíra que ele estaria vestindo roupas típicas, e não um traje ocidental, como todos os outros homens na arquibancada? O grupo havia se dispersado. Alguns examinavam o cavalo com atenção, enquanto outros con¬versavam junto à cerca. Qual deles seria o famoso Uzziah?
- Meu amo já partiu - Omar informou.
- Partiu?
Apenas um homem havia ido embora, e aquele bárbaro com ares de peão não podia ser o proprietário do magnífico animal!
- Sim, partiu - Omar repetiu, apontando para o helicóptero que distanciava-se rapidamente no horizonte.
- Está dizendo que o... o homem que trouxe o cavalo para o rinque é o Sr. Uzziah? Aquele alto, com ombros largos e... e...
- Exatamente. Meu amo é realmente um homem impressio¬nante - o árabe sorriu orgulhoso.
Beth abriu a boca e fechou-a em seguida. Não podia discordar de uma afirmação como essa. Uzziah era realmente um homem de aparência extraordinária, mas, infelizmente, talvez não pudesse dizer o mesmo sobre seu caráter, uma vez que obrigava o pobre criado a chamá-lo de amo. Onde pensava viver? Na Idade Média? Não sabia que a escravidão havia sido abolida?
- Meu amo mandou-me agradecer pelo serviço que prestou cavalgado esse animal - Omar começou hesitante.
Mas a hesitação era desnecessária e sem fundamento. Como sempre Uzziah estava certo sobre o impacto que causava sobre as mulheres, e essa ocidental não representava uma exceção. Era óbvio que conseguiria cumprir a missão que lhe fora confiada. Como se não bastasse a aparência impressionante de seu amo, a ocidental ainda estava interessada no cavalo! E assim que a levasse para a casa de seu amo, Sidi Uzziah não teria nenhuma dificuldade em convencê-la a acompanhá-lo à suíte principal.
- Meu amo também disse que devo convidá-la para passar o próximo fim de semana em sua casa, como hóspede de honra. Ele quer agradecer pessoalmente e gostaria de poder lhe mostrar mais alguns de seus magníficos cavalos. Como disse que talvez não possa pagar por esse animal, Srta. Carney, é possível que encontre outro de seu interesse nos estábulos de meu amo.
Beth mal podia conter o entusiasmo. Não estava interessada em visitar o amo desse pobre coitado. Qualquer homem capaz de tratar os empregados como escravos merecia apenas seu des¬prezo. Mas se o estábulo de Uzziah estava cheio de cavalos como o que acabara de montar, tinha de aceitar o convite. Além do mais, já ouvira falar que os árabes costumavam oferecer presentes valiosos quando queriam demonstrar gratidão. E se ele lhe desse um cavalo como o potro negro que dominara pouco antes? Se a deixasse comprar um bom animal por um preço razoável, já ficaria bastante satisfeita.
- É muita gentileza de seu amo - Beth respondeu, escolhendo as palavras com cuidado. Tinha de esconder a antipatia que sentia pelo poderoso árabe, ou não conseguiria realizar um bom negócio. - Gostaria muito de poder aceitar o convite, mas tenho de voltar ao Cairo para embarcar no avião que me levará de volta para casa na próxima terça-feira. Acha que é possível ir a Morocco e voltar antes disso? Amanhã já é sexta-feira.
Omar sentiu-se ainda mais confiante. Então ela já sabia onde seu amo morava! Era evidente que andara fazendo perguntas e que, portanto, estava interessada. A reputação de Uzziah como amante perfeito o precedera, e o sucesso estava garantido.
- Cuidarei de tudo para que seja enviada à casa de meu amo amanhã mesmo, e garanto que estará no Cairo a tempo de em¬barcar no vôo de volta para casa.
Enviada? O árabe falava como se estivesse cuidando da remessa de um pacote!
- Mas, antes disso, tenho de providenciar tudo para o leilão do cavalo.
- Ah, é claro! Eu havia esquecido.
Como também esquecera Monsieur Renault. De qualquer ma¬neira, ele parecia bastante interessado na conversa que mantinha com um grupo de pessoas perto da arquibancada. Outros agentes, provavelmente. Ou clientes em potencial.
Omar afastou-se e Beth dirigiu-se à arquibancada. Ao vê-la, Monsieur Renault elogiou sua habilidade e sugeriu que tentasse participar da próxima Olimpíada.
- Eu adoraria, mas para isso preciso contar com o animal adequado. Como o que acabei de montar, por exemplo.
- Lamento que sua apresentação tenha elevado o preço do potro além de suas posses, mademoiselle.
- É verdade.
Quaisquer esperanças que pudesse ter com relação à compra do animal desapareceram assim que o leilão começou. O preço inicial foi estabelecido em cinqüenta mil dólares e disparou ime¬diatamente, atingindo quase o dobro dessa quantia. Quando o martelo foi batido por duzentos mil dólares, Beth sentia-se desapontada, mas não desanimada. Afinal, ainda tinha uma segunda possibilidade, tão excitante quanto a primeira.
- Não parece tão decepcionada quando esperava que estivesse - o francês observou.
- Tenho algo a lhe dizer, Monsieur Renault. Algo realmente incrível.
Ao ouvir o relato sobre o convite do filho do xeque árabe, o agente espantou-se:
- E pretende ir a Morocco?
- É claro que sim! Por que não?
- Não sei se sabe, mas Uzziah é um homem solteiro.
- E daí?
A aparição súbita de Omar impediu que o francês dissesse o que tinha em mente.
- Com licença, monsieur. Se pretende chegar à casa de meu amo amanhã à tarde, Srta. Carney, é hora de partir. Meu carro está esperando para levá-la de volta ao seu hotel.
- Mas eu pretendia voltar ao Cairo com Monsieur Renault.
- Tenho certeza de que ele não se importará com a mudança de planos. Tenho um telefone no carro, e poderemos tomar as primeiras providências imediatamente.
Beth encarou o francês com ar hesitante e o viu franzir a testa.
- Posso ter certeza de que Mademoiselle Carney será bem assistida?
- A hospitalidade árabe sempre foi elogiada, monsieur. A Srta. Carney terá todo o conforto e consideração.
- Sim, mas isso não garante que...
- Por favor, Monsieur Renault - Beth interrompeu. - Apre¬cio sua preocupação, mas tenho trinta anos de idade e sou per¬feitamente capaz de cuidar de mim mesma. Estou disposta a acom¬panhar Omar, e não tenho nenhum receio com relação à minha segurança.
Misericórdia! O francês comportava-se como se estivesse pres¬tes a oferecer-se ao comércio de escravas brancas! Ou estaria temeroso de que, como a mãe de Uzziah, fosse aprisionada num harém e mantida em cárcere privado?
A ideia a divertiu. Talvez Monsieur Renault não houvesse tido a oportunidade de ver Uzziah, ou saberia que o árabe era o tipo de homem que jamais precisaria de truques para ter qualquer mulher que desejasse. Não seqüestraria uma mulher sem graça, alta demais e sexualmente retardada para satisfazer seus desejos.
- Está pronta, Srta. Carney? - Omar perguntou.
- Sim, Omar. Adeus, Monsieur Renault, e muito obrigada por sua ajuda - e estendeu a mão para despedir-se.
Ignorando a mão estendida, ele aproximou-se para beijá-la no rosto, como era hábito entre os franceses.
- Tome cuidado - sussurrou.
O aviso provocou um arrepio que percorreu sua espinha, mas Beth desprezou a preocupação de Renault como totalmente in¬fundada. Talvez estivesse acostumado a lidar com mulheres mais frágeis. Se a houvesse visto em ação no bar onde ela e Pete iam tomar cerveja todas as sextas-feiras, certamente não estaria tão temeroso. Saberia que tinha um gancho de direita poderoso e uma língua ferina capaz de reduzir um homem a migalhas.
Um sorriso distendeu seus lábios. Se Omar ou Uzziah saíssem da linha, faria com que se arrependessem imediatamente.
- Vamos, Srta. Carney. Sidi Uzziah a espera para o jantar, amanhã à noite, e não me atreveria a desapontá-lo.
A sexta-feira amanheceu quente, mas a recepcionista do hotel avisou-a que a costa de Morocco podia ser bem mais fria que o Egito, especialmente à noite. Beth escolheu a jaqueta branca de mangas compridas e vestiu-a sobre uma camisa vermelha de man¬gas curtas, preparando-se para qualquer clima. Os cabelos estavam novamente presos, e a maquiagem reduzia-se a uma fina camada de batom.
Omar a esperava no saguão do hotel no horário combinado e elogiou sua aparência elegante e discreta sem exceder-se, o que a tranqüilizou. A preocupação de Monsieur Renault a enchera de receios, mas agora tinha certeza de que os temores não tinham nenhum fundamento.
Além do mais, se estivesse interessado, Uzziah teria ficado para convidá-la pessoalmente, em vez de enviar um criado.
A partir desse momento, Beth relaxou e decidiu aproveitar o fim de semana em Morocco, independente de conseguir realizar um bom negócio, ou não. As acomodações na luxuosa limusina negra que os levou até o aeroporto e na primeira classe do jato com destino a Casablanca fortaleceram sua decisão.
Da janela do avião, podia ver grandes extensões de deserto escaldante entrecortadas por pequenas faixas férteis, sempre pró¬ximas a um rio ou oásis. Depois de algum tempo, as dunas de areia foram dando lugar às montanhas cobertas por florestas den¬sas e verdejantes.
- Há quanto tempo trabalha para o seu... amo? - perguntou, divertindo-se com a dificuldade que tinha para pronunciar a pa¬lavra.
- Não trabalho para Sidi Uzziah. Eu vivo para ele.
- Quer dizer que é um escravo? - ela assustou-se.
- Não. Sou apenas um servo fiel. Sidi Uzziah salvou minha vida em certa ocasião, e minha honra muitas vezes. Em troca, jurei devotar minha vida a serviço dele.
- Disse que ele salvou sua vida? Como?
- Lamento, Srta. Carney, mas não posso dizer mais nada. Meu amo não aprovaria se soubesse que um criado andou co¬mentando detalhes de sua vida pessoal com uma mulher.
E pensar que chegara a acreditar que esse Uzziah pudesse ter alguma qualidade! Era mais chauvinista que todos os outros! Evi¬dentemente, sua metade inglesa havia sido devorada pela porção árabe. Se não tomasse cuidado, acabaria sendo obrigada a usar um céu em sua presença!
Francamente! Estaria a par dos acontecimentos do mundo atual? Saberia que as mulheres estavam no comando de diversos países? Ou preferia ignorar? Talvez por isso vivesse recluso em sua propriedade. Assim, poderia ignorar o progresso e viver como um senhor feudal.
Pois bem, tinha uma pequena surpresa para o chauvinista! Não pretendia inclinar-se diante de homem algum, nem mesmo que esse homem fosse o filho de um xeque árabe e tivesse o poder de lhe dar o cavalo com que sempre sonhara.
É claro que também não pretendia ser rude. Seria educada, e torceria para que ele não dissesse nada capaz de provocar uma reação imediata e instintiva.
- À que horas chegaremos na Casablanca? - perguntou, estranhando o silêncio prolongado de Omar.
- Por volta do meio dia.
- E quanto tempo levaremos para chegar aos domínios de seu amo?
- Mais duas horas de helicóptero.
- E como devo chamá-lo? Sidi Uzziah, como ouvi referir-se a ele ocasionalmente?
- Meu amo prefere ser chamado simplesmente de Uzziah.
Ora! O mundo é mesmo cheio de surpresas! Meia hora mais tarde, Beth estava começando a cochilar quando Omar comentou:
- Veja, Srta. Carney! O atlântico... e Casablanca.
Apesar de encantadora, a cidade parecia tão estranha quanto o Cairo. Tetos retos, casas brancas e diversas mesquitas com seus minaretes compunham o cenário de rara beleza. Mesmo assim, Beth estava começando a sentir saudades de casa, do cheiro do estábulo e dos campos verdejantes.
- Omar, temos de parar aqui para almoçar, ou podemos seguir diretamente para a casa de seu amo?
- Se prefere seguir viagem sem descasar... seu desejo é uma ordem.
- Obrigada.
Omar sorriu para si mesmo. Saber que ela estava tão ansiosa para encontrar seu amo era realmente gratificante.
Estavam voando há cerca de uma hora, quando Beth endireitou-se no assento e gritou:
- Meu Deus! O que é aquilo?
- Aquilo - Omar explicou satisfeito - é a casa de meu amo.
Uma casa? Aquela coisa com ares de fortaleza?
À medida em que o helicóptero aproximou-se, a residência de Uzziah assumiu um aspecto menos assustador, apesar das enormes paredes de pedra que a cercavam.
- É um castelo - ela constatou.
- Exatamente - o criado concordou, apressando-se a oferecer um rápido resumo histórico.
Construída no século dezesseis por um pirata, o castelo do¬minava uma pequena enseada onde o proprietário original lançava navios para atacar as embarcações mercantes que se aproximassem da costa Atlântica. Posicionada estrategicamente num patamar elevado, a cidadela possuía canhões cuidadosamente colocados que davam cabo de navios britânicos e portugueses, enquanto os barcos do astuto pirata eram mantidos escondidos num rio pró¬ximo.
O helicóptero deu uma volta completa sobre a propriedade e Beth pôde ver as aberturas nas paredes através das quais os ca¬nhões atingiam os inimigos. Era realmente fascinante! Pete não acreditaria quando ouvisse. Gostaria de ter uma máquina foto¬gráfica.
Surpresa, percebeu que estavam pousando numa espécie de anfiteatro bem no centro do castelo.
Varandas cercavam a área circular e central, suas arcadas lem¬brando bocas sem dentes em meio às paredes brancas. Inúmeros degraus de pedra partiam de todas as partes do anfiteatro em direção às varandas, onde dezenas de vasos de gerânios emprestavam um colorido quase tropical ao ambiente.
Finalmente o piloto desligou os motores e ela suspirou aliviada.
- Meu amo virá recebê-la pessoalmente, Srta. Carney - Omar informou enquanto soltavam os cintos de segurança. - Eu mesmo levarei a bagagem para os seus aposentos.
- Por favor, não se preocupe comigo, Omar. Sou perfeita¬mente capaz de carregar minhas malas.
- Tenho certeza que sim, Srta. Carney. Mas, como diz o ditado, em Roma, faça como os romanos. Enquanto estiver em Morocco, por favor, esqueça que é uma ocidental liberada e permita que a tratemos com todas as honras. E como fazemos por aqui.
- É claro - ela suspirou. - Não quero criar problemas. Normalmente sou... - e parou, atônita com a cena que descor¬tinava-se diante de seus olhos.
Uzziah estava descendo os degraus da varanda rumo ao heli¬cóptero, e usava o traje mais exótico que já havia visto em toda sua vida. Parecia um personagem das Mil e Uma Noites!
- Venha, Srta. Carney. Meu amo não gosta de esperar. Balançando a cabeça, Beth levantou-se para desembarcar. Pete ficaria realmente perplexo quando ouvisse toda essa história!
A porta do helicóptero se abriu e ela deparou-se com o mais estonteante par de olhos negros que já vira.
No Egito, tivera a impressão de que Uzziah não era exatamente bonito, mas agora que o examinava de perto... seria capaz de ficar olhando para aquele rosto perfeito por toda a eternidade!
- Meus cumprimentos, Srta. Carney - ele disse com tom profundo e pronúncia perfeita. - Seja bem-vinda à minha casa - e segurou-a pelos braços, erguendo-a e colocando-a no chão como se fosse uma boneca sem peso.
Beth ficou momentaneamente sem ação. Nenhum homem ja¬mais havia conseguido fazê-la sentir-se tão frágil e pequena!
Por outro lado, pensou, recuperando a compostura e o controle, sabia que ele era a reencarnação de Hércules! Na verdade, con¬seguia até ficar parecido com o herói lendário dentro daquelas roupas.
Como alguém conseguia usar uma calça de seda negra e um bolero de couro da mesma cor, bordado em tons vibrantes, sem tornar-se ridículo? Devia parecer ao menos efeminado, especial¬mente com aquela faixa vermelha em torno da cintura e os cabelos presos num rabo de cavalo!
Em vez disso, Uzziah parecia mais masculino que qualquer outro homem que conhecera. Músculos poderosos desenhavam-se ao longo dos braços morenos e do peito seminu, e o brilho intenso da pele dava a impressão de que havia sido massageado com algum tipo de óleo.
O aroma de sândalo que pairava à sua volta confirmava a impressão, e Beth entregou-se ao luxo de admirar o corpo perfeito por alguns instantes.
Afinal, que diabos estava fazendo? Se continuasse agindo desse jeito, o homem acabaria concluindo que estava interessada nele!
Impossível explicar que estaria igualmente impressionada com a perfeição física de um garanhão, e que seu olhar atônito não tinha nada a ver com atração ou interesse. Não podia sentir-se atraída por um homem capaz de permitir que outro ser humano o tratasse por amo!
Aborrecida por comportar-se como uma colegial idiota, Beth censurou-se mentalmente e tratou de recuperar a compostura, er¬guendo os ombros numa tentativa de mostrar-se imponente. In¬felizmente, ainda teria de esticar-se vários centímetros para al¬cançar a estatura do anfitrião, o que a obrigava a erguer a cabeça para encará-lo.
- O convite para o fim de semana foi muito gentil - disse com tom frio e polido.
Uzziah a encarou por alguns instantes e Beth teve receio de ter se mostrado altiva demais. Não queria ofendê-lo. Sua intenção era meramente corrigir qualquer falsa impressão que pudesse ter provocado com sua reação inicial. De repente, a esperança de finalmente conseguir o cavalo de seus sonhos começou a desfa¬zer-se. Desesperada, forçou um sorriso e experimentou uma imen¬sa onda de alívio ao ver que ele também sorria.
- Ah... Mas salvar minha reputação de criador foi muito mais que gentileza de sua parte.
Devia ter passado anos de sua vida trancado numa escola bri¬tânica para adquirir aquela pronúncia. Era óbvio que não havia sido educado nas areias do deserto da Arábia. Nem em Morocco...
- Serei eternamente grato - ele concluiu com uma inclinação graciosa.
Não é necessário, Beth pensou com ironia. Dê-me um de seus cavalos e estaremos quites aos olhos de Alá.
- Omar cuidou bem de você?
- Oh, ele foi muito atencioso. E pode me chamar de Beth - ela sugeriu com mais um sorriso educado. Ninguém poderia dizer que não estava se esforçando.
- Com todo o prazer...
- Omar disse que devo chamá-lo de Uzziah. Isso é verdade?
- É como prefiro ser tratado. Venha, vamos entrar e tomar um chá. Omar comentou que você recusou-se a comer ou beber qualquer coisa durante a viagem. Parece que estava ansiosa para chegar...
Beth virou-se para Omar com ar intrigado, mas ele estava cuidando de sua bagagem. Era evidente que havia telefonado do aeroporto de Casablanca, o que era perfeitamente razoável, mas preferia que não houvesse falado como se fosse uma idiota ansiosa para desfrutar da companhia de um árabe machista e pretensioso.
Admitia que a maioria das mulheres devia atirar-se aos pés de um homem tão sensual, e reconhecia que hoje ele comporta¬va-se com um charme absolutamente inesperado, especialmente depois da arrogância que demonstrara no Egito.
Mas, apesar da voz aveludada, da calça de seda e do sorriso resplandecente, sabia tratar-se de um bárbaro. Sob a aparência sofisticada existia um indivíduo primitivo, um homem que nem sempre seguia as regras da sociedade.
O aviso sussurrado de Monsieur Renault passou rapidamente por sua mente. Não acreditava que seu anfitrião pudesse ter qual¬quer intenção sexual, mas, para evitar problemas, decidiu sorrir menos.
- Chá é uma ótima ideia - disse com seriedade.
- Podemos entrar, então? - Uzziah sugeriu segurando seu braço.
Beth sabia que o gesto era apenas uma forma de cavalheirismo, mas o contato a incomodava. Assim que chegaram à varanda, aproveitou a primeira desculpa disponível para livrar-se da mão firme e quente que a guiava.
- Meu Deus! Nunca vi um piso tão lindo! - e abaixou-se para examinar os mosaicos. Eram realmente bonitos, feitos de pequenos fragmentos de cerâmica em diferentes tons de azul e colocados de forma a criar um intrincado padrão geométrico.
- Vai encontrar muitos outros exemplos da arte e da arqui¬tetura moura em minha casa. Amanhã a levarei para conhecer toda a propriedade. Por enquanto, acho que devia tomar seu chá e descansar um pouco antes do jantar. A viagem deve ter sido exaustiva...
Agora que parava para pensar, sentia-se realmente cansada.
- Talvez tenha razão.
Desta vez ele não tentou segurar seu braço e Beth o acompa¬nhou aliviada. Logo atravessavam um corredor de teto alto e arredondado, largo como uma sala e elegante como o interior de um palácio francês. Um tapete persa abafava o som dos passos sobre o piso de mármore e lanternas ricamente trabalhadas em bronze iluminavam o caminho.
Beth lançava olhares intrigados para os murais altamente eró¬ticos que adornavam as paredes, chocada com a nudez excessiva e com as posições e atividades dos corpos pintados. Sabia que algumas pessoas ficavam absolutamente fascinadas com esse tipo de arte, mas, pessoalmente, julgava-a aborrecida e até grosseira.
Como Pete costumava dizer sobre filmes pornográficos, quem já viu um, viu todos. Além do mais, tinha certeza que o artista havia exagerado ao reproduzir certas partes da anatomia mascu¬lina. Típico! Em sua opinião, tudo o que se dizia sobre sexo era um exagero. Os homens falavam muito, mas, quando chegava o momento da ação, a realidade era sempre uma experiência pe¬quena e sem graça.
- Não aprova o nu nas artes? - Uzziah perguntou.
Droga! A última coisa que queria era ofender o senso artístico de seu anfitrião. Devia gostar muito dos tais murais, ou não teria coberto as paredes com eles. E no entanto, lá estava ela, torcendo o nariz como se a tinta cheirasse mal.
- Oh, não! Eu gosto - mentiu. - A nudez é algo muito... natural.
- É exatamente o que penso. O mundo é muito cheio de preconceitos, especialmente com relação ao sexo.
Sexo? Mas não estavam discutindo a nudez? Felizmente alcançaram as pesadas portas de madeira que se¬paravam o corredor de outro ambiente e o assunto foi encerrado. Felizmente, porque odiava falar sobre sexo.
Uzziah girou as maçanetas de bronze e escancarou as portas, revelando uma visão estonteante. A sala em questão era maior que um salão de baile, e o espaço parecia ainda mais amplo graças ao contraste entre o piso de mármore e o teto alto e ar¬redondado de onde pendiam vários lustres de cristal. Frisos de gesso cobriam as paredes, contra as quais alinhavam-se vários vasos de cerâmicas que, separados por intervalos regulares, lem¬bravam sentinelas silenciosas. Na metade da sala, o piso erguia-se como uma plataforma e vários degraus garantiam o acesso ao ambiente diferenciado.
A mobília ficava justamente na porção mais alta. Divãs de veludo cobertos por almofadas de cetim agrupados em torno de mesas baixas de madeira nobre e escura, tudo sobre um tapete de padrão exótico e colorido. Além das mesas e divãs, a sala prolongava-se numa espécie de alcova semicircular, onde janelas de vidro em forma de arco eram cobertas por uma grade de aço retorcido em desenhos intrincados e pintado de preto. Podia-se apenas vislumbrar o azul do céu através dos arabescos de aço.
O castelo devia ser provido de ar condicionado, porque já notara os nichos típicos do equipamento nas paredes, apesar das peças de decoração e das cortinas delicadas que eram usadas para escondê-los.
O homem devia ser multimilionário, concluiu sem nenhuma admiração. Era óbvio que todo esse conforto provinha da fortuna de seu pai. Uzziah só precisava assinar um cheque para conseguir tudo o que desejava, de castelos históricos a cavalos de raça.
Seu único consolo ao pensar numa situação tão irritante era a certeza de que algumas coisas não podiam ser compradas pelo dinheiro. Coisas como amor e respeito, por exemplo. Mas, talvez esse Uzziah não precisasse de coisas tão singelas. Talvez estivesse satisfeito com substitutos, como sexo e escravos.
- Está franzindo a testa outra vez. Muitas mulheres apreciam a decoração de minha sala particular.
- E eu também - ela apressou-se, forçando um sorriso. - O castelo todo é realmente encantador, mas acabei de lembrar que deixei minha máquina fotográfica no hotel. Adoraria tirar algumas fotos para mostrar aos amigos.
Essa história de mentir estava se tornando um hábito. E, pior ainda, estava ficando cada vez melhor nisso. Ou não?
Por que seu anfitrião levantava a sobrancelha como se algo o intrigasse?
- É só isso? - ele sorriu. - Nesse caso, tenho certeza de que Omar poderá encontrar uma boa câmera emprestada - e aproximou-se da porta, erguendo o braço e puxando o cordão de um sino dourado que pendia do teto.
O chamado de Uzziah foi imediatamente atendido por uma linda jovem de longos cabelos negros e pele morena e suave.
Não usava nenhum véu sobre o rosto, e vestia-se com uma saia florida e uma blusa branca de delicados bordados. Vários colares de ouro adornavam seu pescoço, e grandes argolas do mesmo metal pendiam de suas orelhas, conferindo-lhe um ar mais espa¬nhol que árabe. Devia ter antecipado o desejo do amo, pois car¬regava uma bandeja com um serviço de chá de prata maciça e brilhante.
Depois de sorrir para a convidada e inclinar-se diante do amo, a jovem foi deixar a bandeja sobre uma das mesas localizadas na parte mais alta da sala.
- É só isso por enquanto, Aisha. Mas vou querer vê-la mais tarde...
- Oui, monsieur - a jovem respondeu em francês, apesar de compreender o que ele dissera em inglês. Era evidente que conhecia os motivos pelos quais Uzziah desejaria vê-la mais tarde, pois seu rosto estava vermelho quando saiu da sala.
Beth também tinha plena consciência das intenções de seu anfitrião, uma vez que ele não tentara esconder o desejo pela garota. Seu olhar penetrante acompanhara todos os movimentos da jovem, e havia um sorriso em seus lábios quando ela saiu e fechou a porta.
Beth julgava difícil esconder o desgosto. Talvez Aisha estivesse interessada, talvez não. De qualquer forma, duvidava que fosse consultada.
Mesmo assim, não podia dar-se ao luxo de julgar o compor¬tamento decadente do árabe sem correr o risco de trair as emoções através do olhar.
- Vamos lá, minha cara - ele suspirou, os olhos brilhando intensamente. - O chá nos espera...