A música ecoava pela praça central, envolta em luzes de neon, corpos brilhando de suor e uma energia elétrica que parecia suspender o ar. Era uma festa comunitária, organizada pela prefeitura, com barracas de comida, bares improvisados e uma área VIP para convidados regulares.
Valéria não esperava ficar tanto tempo. Ela havia saído por compromisso, com alguns amigos, mas o clima vibrante acabou cativando-a. Seu vestido curto de cetim vermelho grudava em sua pele, e o calor da noite - somado a alguns drinques - a fez se sentir um pouco mais relaxada do que o normal.
E então ele os viu.
Dois policiais patrulhavam o perímetro do evento, atentos, mas relaxados. O mais novo tinha um sorriso fácil, um olhar travesso e uma atrevimento encantadora. O outro... bem, o outro era outra coisa.
Ele era mais alto, tinha um corpo sólido e um olhar sério. Ele não estava sorrindo. Ele não falou. Mas sua presença por si só já era imponente. Ele tinha aquele ar de autoridade que não precisava de palavras para se fazer sentir. E o uniforme parecia ter sido feito sob medida para ele.
-Você está babando? - uma amiga sussurrou em seu ouvido, rindo.
Valéria se virou rapidamente, envergonhada, mas era tarde demais. O jovem policial, aquele com o sorriso travesso, aproximou-se deles.
-Você está se divertindo? - ele perguntou com uma piscadela atrevida.
Eles conversaram por um tempo. O nome dele era Ivan. Ele tinha 27 anos e um dom da palavra que competia com o ritmo do reggaeton ao fundo. Antes de partir, ele se aproximou um pouco mais de Valéria.
"Me dê seu número", ele disse suavemente. Quando meu turno terminar, quero ver você. Sozinho.
E ela deu a ele. Talvez fosse a adrenalina, talvez fosse o álcool, ou talvez fosse porque o outro policial, o mais quieto, aquele que nunca falou com ele uma vez, ainda assombrava sua mente como uma tatuagem mental.
Depois das duas da manhã, Valéria foi até o ponto de encontro. Um lugar escuro, longe da agitação, atrás de uma quadra esportiva. Ivan a esperava, recostado em sua motocicleta de patrulha, sem colete à prova de balas, com um sorriso travesso.
"Achei que você não viria", ele disse, antes de se inclinar e beijá-la. Foi um beijo lento e brincalhão, com as mãos dele acariciando sua cintura e a promessa de mais. Ela se deixou levar, fechando os olhos.
E de repente, ele sentiu isso.
Outra presença.
Uma sombra emergiu da escuridão como uma aparição. Era ele. O outro. O policial silencioso.
Seu passo era firme, seguro, e seus olhos não deixavam os de Valéria. Ele não disse uma palavra. Ele simplesmente se aproximou... e olhou para ela. Como se soubesse o que estava fazendo. Como se soubesse que ela não conseguiria resistir.
E ele não conseguiu.
Antes que ela pudesse racionalizar o que estava acontecendo, Ivan se afastou, confuso com a interrupção, e ela já estava se virando para encarar o outro homem. Seu coração batia forte no peito. Não havia lógica. Não houve explicação.
Houve apenas um beijo.
Explosivo. Apressado. Dominante.
Os lábios do policial silencioso a pegaram sem pedir permissão, e seu corpo a segurou com força enquanto ele a empurrava contra a parede. Ele a beijou como se não tivesse intenção de parar, como se tivesse esperado a noite toda por aquele momento, e Valéria - que nem sabia seu nome - sentiu suas pernas fraquejarem.
Sensações a inundaram: o toque do uniforme dele contra sua pele era delirante. A mistura de texturas, o peso daquele colete contra o peito, o tecido áspero da camisa encharcado pelo calor da noite, agitavam seus sentidos. Ela sentiu cada ponto de contato como se sua pele respondesse com eletricidade, queimando onde ele roçava nela.
Suas mãos grandes e firmes não lhe deixaram espaço para recuar. Não lhe permitiram recusar nada. Eles seguraram sua cintura com uma certeza brutal, como se soubessem que ela não iria escapar. E eu não ia fazer isso.
Suas pernas grossas e firmes, definidas por anos de patrulhas e treinamento, marcavam os limites entre os quais ela estava presa. Ele tentou dar um passo para trás, mas não adiantou. Ele não permitiu. E ela... ela também não queria que eu fizesse isso. Não pude deixar de agradá-lo. Havia algo extremamente viciante em abrir mão do controle.
Ivan olhou para eles, imóvel. Ele não disse nada.
E ela, presa entre a vertigem e o desejo, soube naquele instante que algo havia começado. Algo fora de controle. Algo que eu não seria capaz de lidar... e que, no fundo, eu não queria parar.
Valéria ajustou o vestido o melhor que pôde, ainda respirando pesadamente, o coração batendo forte no peito e os lábios inchados pelos beijos que ainda queimavam. A noite, quente e úmida, de repente se tornou irrespirável. Ela se afastou da parede, com a cabeça girando, e olhou para o mais novo dos dois, aquele que a havia convidado, aquele que ela supostamente tinha ido ver.
Ivan estava sério. Seu sorriso fácil desapareceu.
-Isso era um plano? "Ela perguntou, tentando soar firme, mesmo sabendo que sua voz estava trêmula. Vocês dois vieram ver o que estava por vir?
O jovem balançou a cabeça, irritado, olhando para baixo.
-Um plano? Não. Ele não sabia que nos veríamos. Eu faço. Ele simplesmente apareceu. Como de costume. Para estragar tudo.
-E quem é? - ela sussurrou. Ele não conseguiu evitar.
-O nome dele é Elias. E ele é um bastardo. Um abusador, se quer saber. Ele sempre consegue o que quer. Ele sempre acha que pode pegar o que quer', ele disse com os dentes cerrados.
Valéria engoliu em seco. Eu não sabia como me sentir. Seu corpo ainda formigava, vibrava por dentro. A culpa tentou se instalar, mas não conseguiu encontrar espaço. Porque, embora sim, tivesse sido um roubo, uma interrupção... também tinha sido um dos beijos mais intensos da sua vida.
Ivan olhou para ela com decepção. E ele não disse mais nada.
Elias não retornou. Apenas o eco de sua presença permaneceu no ar, como um fogo que nunca se apaga.
"Vou te acompanhar até o carro", disse Ivan, sem entusiasmo.
Eles caminharam em silêncio por um caminho de terra, mal iluminado por um poste de luz bruxuleante. Ao chegar ao carro, Valéria agradeceu em voz baixa. Ele mal olhou para ela.
"Tome cuidado", foi tudo o que ele disse antes de se virar e ir embora com passos pesados.
Valéria entrou no carro com as mãos ainda tremendo. Ele fechou a porta, ligou o motor, mas ele não pegou. Ele ficou ali no escuro, com as luzes do painel brilhando em seu rosto, uma sensação de completa desordem.
Eu ainda conseguia sentir o gosto daqueles lábios ásperos. Havia algo no jeito como ele beijava que era diferente de tudo que eu já havia experimentado antes. Direto, rude, como se não estivesse acostumado a pedir permissão. O toque das mãos dele - ainda com as luvas táticas, deixando apenas parte dos dedos livres - despertou um desejo animal em sua pele, como se cada carícia tivesse uma corrente elétrica por trás.
E sua respiração... irregular, quente contra o pescoço dela. Essa maneira de segurar bem no limite. Esse poder de desarmá-la com um único olhar.
Valéria tentou se convencer de que deveria ficar com raiva. Que tudo estava errado. Isso a pegou de surpresa.
Mas a verdade era diferente.
Eu estava feliz. Feliz pra caralho.
Porque, mesmo que ela não tenha dito isso em voz alta, mesmo que ela não tenha permitido, seu corpo falou por ela. Ele estremeceu só de lembrar. Ficava úmido a cada cena que ele revivia quando fechava os olhos. Ela mordeu o lábio, desejando que ele não tivesse ido embora.
E, no meio de tudo isso, uma pergunta a atormentava, a deixava louca, a fazia querer sair correndo e procurá-lo nas sombras:
Como vou vê-lo novamente se nem sei seu nome?
E então ele soube.
Eu precisava manter contato com Ivan.
Mesmo que não fosse justo. Mesmo que não fosse honesto.
Convencê-lo a dar a ela o número de Elias foi a coisa mais inteligente a fazer. A única coisa que fazia sentido agora.
E ele iria fazer isso, mesmo que tivesse que jogar seu próprio jogo.
Desde aquele encontro, Valéria não foi a mesma.
A rotina estava desmoronando em suas mãos, e seus pensamentos - todos eles - estavam escapando para o mesmo canto escuro e quente onde sua respiração havia parado e os beijos tinham gosto de perigo.
Elias.
Eu mal havia trocado duas frases com ele.
Mas seu corpo ainda se lembrava dele como se ela o conhecesse a vida toda.
E isso, por mais absurdo que parecesse, a deixava louca.
Ivan continuou escrevendo para ele. Ele era constante, divertido, um pouco insistente... e necessário. Ele era o único elo daquele uniforme que havia deixado marcas invisíveis em sua pele.
Então, quando ela concordou em vê-lo novamente, não foi por interesse romântico. Era por estratégia.
Eles se conheceram em um bar mal iluminado, com música suave e bebidas caras. Ivan chegou primeiro, tão sorridente quanto da última vez, embora com algo diferente nos olhos. Como se eu soubesse.
"Estou feliz que você veio", disse ele ao vê-la entrar.
Ela sentou-se naturalmente, cruzando as pernas, o vestido perfeito, o perfume ainda mais provocante do que na primeira noite.
-O que você fez desde o evento? - ele perguntou, tentando parecer casual.
Valéria sorriu, mas seus olhos não eram doces, mas penetrantes.
"Pense", ele respondeu.
-Pensar em quê?
-No que aconteceu naquela noite... e no que não aconteceu.
Ivan acomodou-se em seu assento, visivelmente desconfortável.
-Você quer dizer Elias?
Ela sustentou o olhar dele. Direto.
-Sim. Para Elias. Para você. Para o que parecia. Eu não esperava, mas aconteceu. E agora não consigo tirar isso da minha cabeça.
Ivan suspirou, como se algo pesasse sobre ele.
-Olha, não é que eu queira falar mal dele, mas... ele não é uma pessoa fácil. Não é mensurável. Ele sempre quer controlar tudo. Às vezes ele não sabe quando parar.
"E ainda assim... não parou", disse Valeria, sem nenhum traço de culpa.
Ivan olhou para ela em silêncio. O ar entre eles ficou carregado. Ela aproveitou aquele momento.
-E se isso acontecesse novamente?
-Que?
-O que aconteceu. Você. I. Naquela noite.
O rosto de Ivan ficou tenso. Ele desviou o olhar, esfregou a mão na nuca, sentindo-se extremamente desconfortável.
-Valéria, isso não foi algo planejado. Foi uma loucura. Ele apareceu, te beijou como um animal, e você... você não disse não.
"Porque eu não queria dizer não", ela o interrompeu. Não me faça fingir agora. Eu estava lá. Eu senti tudo.
Ivan olhou para baixo. Ele brincou com o copo nas mãos.
-Não sei se gosto da ideia. Ele e eu... não estamos bem. Nunca chegamos lá.
"Mas eu gosto da ideia", ela disse, quase num sussurro.
Ivan olhou para ela e viu algo em seus olhos que nunca tinha visto antes: determinação misturada com desejo. Uma mulher que sabia o que queria, mesmo que não conseguisse explicar. E isso, em vez de assustá-lo... o excitou.
-E se ele recusar? - ele perguntou com uma voz profunda.
-Então eu consigo encontrá-lo. Mas prefiro que venha de você. Que você... proponha isso a ele.
Ivan tomou um longo gole. Sua expressão era uma onda de orgulho ferido e curiosidade.
"Eu não prometo nada..." ele murmurou.
Mas Valéria já estava sorrindo.
Eu sabia que ele faria isso.
Porque quando uma noite deixa marcas na pele, cedo ou tarde, todos querem repeti-la.