SINOPSE
Vinte e cinco dias.
Vinte e cinco homens.
Um romance exagerado ao extremo.
Para algumas mulheres, uma visita ao vestiário dos Strudford Storms seria um sonho realizado. Para Gemma, é só mais um dia no trabalho.
Ou pelo menos era, até o time colocar uma proposta na mesa que Gemma não pode recusar.
A proposta?
Vinte e cinco encontros quentes pra provar para Gemma que, as vezes, a melhor escolha é não fazer nenhuma escolha...
Você nunca viu um harém como esse.
DEDICATÓRIA
Para o Papai Noel
Que ainda não nos disse se este livro nos coloca na lista de bonzinhos ou dos travessos...
Capítulo 1
GEMMA
"Que ique registrado: o rei das comédias românticas, Tom Hanks, jamais cancelaria um encontro perfeito."
Reviro os olhos enquanto ajeito o celular entre a orelha e o ombro, tentando equilibrá-lo enquanto preencho a papelada que os donos precisam sobre o progresso da reabilitação do Ben. Por mais que eu saiba que ele está pronto para voltar ao campo, isso não vai acontecer tão cedo.
"Duas coisas. Primeiro, quando foi a última vez que Tom Hanks fez uma comédia romântica? Tipo, uns dez anos atrás? Ele está muito ocupado fazendo ilmes de verdade agora."
O suspiro de Cara é tão alto que quase me assusta e me faz deixar meu celular cair. "Retire o que disse, seu monstro que odeia comédias românticas!"
"Histórias de amor melosas e irreais não são a minha praia. Você sabe disso. Eu sou realista."
De jeito nenhum vou admitir que passei o último im de semana fazendo uma maratona de ilmes da Meg Ryan sozinha no sofá. Talvez eu possa assistir aos ilmes da Kate Hudson neste fim de semana. Ou posso icar realmente maluca e desenterrar a coleção da Molly
Ringwald...
Maldito Colin por cancelar de novo.
Cara bufa. "Tudo bem. Vamos concordar em discordar. E qual era a segunda coisa?"
Faço uma pausa com a caneta apontada para a papelada do time, pois não me lembro do nome do médico especialista do Ben. Falei com ele semana passada.
"Hum?"
"Você disse que tinha duas coisas. Essa era uma, qual é a outra?"
"Ah, certo." Respiro fundo. "A segunda coisa é que eu não preciso de um herói romântico na minha vida porque sou feliz com o Colin."
Ela dá uma risadinha por um instante, até perceber que eu não estou rindo junto. "Ah, você está falando sério."
Me dou conta de que hesitei antes de me apressar em defender Colin novamente. "Talvez se você lhe desse outra chance-"
"Inferno, não," ela me interrompe. "Passar tempo com aquele idiota de bico de caneta faria parecer que eu aprovo suas escolhas de vida, e de initivamente não aprovo." A voz dela é leve e provocadora, menos a parte em que chamou Colin de idiota de bico de caneta.
"Bico de caneta? Sério?"
Cara tem a tendência de pegar insultos da liga juvenil de hóquei que ela ajuda. O que signi ica que todos os seus insultos soam como se viessem de um menino de onze anos... porque vieram mesmo.
Eu estava prestes a mudar de assunto quando uma mão agarrou a porta do meu escritório e a empurrou completamente, abrindo-a. Milo entrou, com um buquê de rosas vermelhas frescas em uma das mãos.
Por um instante estranho, penso que ele está me trazendo rosas e meu estômago dá uma cambalhota.
"Uma entregadora acabou de deixar isso aqui para você", ele explica.
Concordo com a cabeça e estendo as mãos para pegá-los, mas ele os deixa cair no canto da minha mesa antes que eu tenha a chance, o maço pendurado sem cerimônia na beirada. Nem me dou ao trabalho de pegar o cartão, porque nós dois já sabemos de quem são.
"Cara, preciso ir. Te ligo mais tarde."
Ela começa a protestar, mas eu desligo na cara dela no meio da frase. Ela icaria no telefone para sempre se eu deixasse, porque ela não tem um emprego ixo no momento. Se ela não tiver notı́cias minhas em breve, vou ter que mudar meu plano de celular.
"Cyrus quer você em campo hoje."
Não me surpreende. Quando comecei neste emprego, como única preparadora fı́sica em tempo integral do time de rúgbi Strudford Storms, eu passava a maior parte do tempo no escritório. Agora, dois anos depois, é raro o Cyrus-o capitão do time-não me chamar para o campo. Não que eles realmente precisem de mim na maioria dos dias.
Acho que ele faz isso só para me irritar na maior parte.
"Claro, já saio."
En io o celular no bolso de trás enquanto me levanto e pego minha bolsa no armário de trás. Há um kit de primeiros socorros comum que os treinadores mantêm no campo, mas eu guardo uma coleção mais completa de coisas na minha própria bolsa. Incluindo uma porção danada de pacotes de gelo instantâneos, considerando que parece ser a única coisa que eu distribuo como doces de Natal.
Quando me viro de volta para a porta, Milo ainda está olhando ixamente para as lores abandonadas no canto da minha mesa. Talvez
eu devesse pegar um copo d'água para elas ou algo assim.
"O que ele fez desta vez?" Milo olha ixamente das lores para mim.
"Nada." Dispenso a pergunta com um gesto de mão. Apesar do que todos pensam, Colin é bom para mim. Não vou icar reclamando dele por ter cancelado um encontro bobo. Mesmo que eu tenha aproveitado para fazer as unhas hoje de manhã.
"O cara te compra um monte de rosas vermelhas, sendo que as suas favoritas são as amarelas."
Sinto minhas bochechas corarem enquanto Milo me encara. Nem sei por que ele sabe disso. Me dou muito bem com o time, mas não é como se icássemos conversando sobre lores, sentimentos e essas coisas. A última conversa de verdade que tivemos foi uma discussão sobre se abacaxi combina com pizza.
Eles não concordam, aliás.
"Flores são lores", respondo diplomaticamente, já que Milo não parece disposto a deixar isso para lá. Ele hesita no meu escritório mesmo quando passo por ele. "Vamos lá, então. Se você se atrasar para o treino, os treinadores vão fazer o time todo dar voltas."
Isso o faz se mover, embora eu não consiga deixar de notar o jeito cuidadoso como ele me observa enquanto segura a porta do complexo aberta para que eu saia, enquanto caminhamos em direção ao campo. Com um pouco de vergonha, me aproximo de Marty-o treinador principal.
Ele mal me lança um olhar rápido antes de voltar sua atenção para o campo. "Dillon está lento hoje."
Analiso o jogador em questão por um instante, já pressentindo qual é o problema. Mesmo assim, continuo observando-o enquanto corre pelo campo, certi icando-me de que não há nenhum sinal de que ele esteja mancando, indicando um problema maior.
Depois de um minuto, respondi: "Diga a ele para parar de icar acordado até tarde."
Pelo jeito que ele faz uma careta, dá para perceber que a ideia é tão atraente quanto ele pedir para o time dar algumas voltas nus pelo campo.
Marty balança a cabeça e solta uma gargalhada sonora. "Diga isso pra ele. Nenhum desses garotos me ouve. Mas você é tipo a mãe do
time, talvez consiga convencê-lo a entrar na linha, certo?" Entro imediatamente no modo de motivação interna.
Tudo bem, Gemma. Agora não é hora de reclamar de sexismo para o cara que garante seu salário ixo e um lugar na primeira ila para assistir a alguns dos... admito, treinos mais quentes do esporte pro issional. Além disso, não se ofenda com a insinuação dele de que esse time de homens bonitos a vê como uma igura materna.
Eca.
Dou uma olhada nas minhas calças jeans-que tenho comprado num corte um pouco mais alto do que antes. Prometi a mim mesma que só usaria calças skinny na próxima semana.
Em campo, Mateo derruba Anthony com muito mais força do que o necessário para um treino tão tranquilo como esse. Os dois caem no chão em meio a uma avalanche de músculos e palavrões explosivos.
"Droga", murmurei baixinho.
"E", resmunga o treinador em concordância. Me viro para ele com os olhos arregalados bem na hora em que ele grita para o time: "Cuidado lá fora! Não adianta se lesionar antes mesmo da temporada começar." Ah, sim.
Lesões.
Era nisso que eu estava pensando também. De initivamente não estava pensando em como o tackle1 é a parte mais emocionante do rúgbi ou em quanto tempo fazia que um homem não me derrubava daquele jeito.
Pelo canto do olho, vejo Marty olhar na minha direção. "Então, você vai falar com o Dillon?"
Começo a responder com um sonoro não, mas a mesma hesitação de sempre me invade. O técnico Marty Kringle me deu um baita presente ao me contratar logo depois da faculdade. Eu sempre imaginei trabalhar com hóquei ou beisebol, mas foi o rúgbi que me encontrou.
"Vou falar com ele", concordo inalmente. Porque, por mais que eu não queira bancar a mãe superprotetora, desapontar o Marty é o que eu menos quero.
O resto do treino transcorre sem problemas. Quando começam a inalizar, Marty me diz que não preciso icar para o alongamento. Ele está ansioso para que eu entregue a papelada do Ben para garantir que tudo esteja em ordem com o time. Ao me virar para voltar para dentro, sinto olhares ixos na minha nuca. Olho para trás, para o campo, e vejo Cyrus me encarando enquanto me afasto.
Ele detesta quando saio do campo mais cedo. Não sei qual é o problema dele. Não é como se eu já não passasse tempo demais com o time. Mas parece que, se dependesse dele, eu icaria rondando o time o tempo todo.
Merda. Talvez eu seja a mãe do time.
GEMMA
"O q-quê cê tá f-fazendo a-aqui?"
Cara me encara boquiaberta, com horror nos olhos, enquanto me observa desde a calça de pijama felpuda com estampa de peru até a boca cheia de sorvete de chocolate duplo que cometi o enorme erro de colocar segundos antes de ela invadir minha casa.
"Isto é pior do que eu pensava." Ela olha para as calças novamente.
"Muito pior."
Antes que eu tenha a chance de me defender uma dama deveria poder se comportar como um monstro no conforto da sua própria casa ela se vira nos calcanhares e sai furiosa pelo corredor em direção ao quarto. Com uma sensação de desconforto, levanto-me rapidamente para segui-la.
Eu realmente não deveria me surpreender quando ela abre a porta mais próxima e recua visivelmente. "Gemma?"
Engulo o resto do meu sorvete. "Sim?"
"Por que o seu armário cheira como o interior de uma cueca de atleta?"
Droga. Eu devia ter trazido o sorvete para poder encher a boca de novo e evitar ter que responder a essa pergunta. Ela continua me olhando com expectativa, então sei que não vou escapar sem dar alguma resposta.
Confesso, meio envergonhada. "Disse ao Hank que o ajudaria com a roupa depois que ele usasse alvejante nos seus calções de treino." Pela segunda vez este ano.
Cara massageia as têmporas e respira fundo, tentando se acalmar, mas parece se arrepender quase que instantaneamente. Ela tosse por um segundo antes de soltar um longo suspiro e me encarar como se estivesse prestes a me dar uma bronca daquelas. E considerando que Cara é provavelmente a pessoa menos séria que conheço, minhas bochechas coram de forma antecipada.
"Gem." Ela sabe que eu detesto quando me chamam assim. Parece nome de menino-Jim. "Lavar a roupa dos jogadores não é meio que uma... coisa de namorada?"
"O Hank não tem namorada." Aliás, não me lembro da última vez que algum deles teve uma namorada séria.
"Esse não é o ponto principal."
Ela balança a cabeça como se não tivesse tempo para isso, mesmo tendo sido ela quem tocou no assunto. Ela tinha todo o direito de ignorar o cheiro de roupa suja de homem que emanava do meu armário. Aliás...
"Por que você está no meu armário?"
Tento contorná-la para fechar a porta, mas ela me impede com um olhar penetrante e um beliscão no meu antebraço.
"Ai!" Protesto.
"Não vamos icar nessa de icar deprimida." Ela aponta para a minha calça. "Talvez por um Tom Hanks, mas não para um cara chamado Colin Seaman." Abro a boca, pronta para defendê-lo como sempre, mas ela levanta a mão. "Seaman, Gemma."
"Tudo bem, é um nome infeliz, eu entendi", admito, na esperança de que isso a faça calar. E apenas mais um item na longa lista de argumentos que Cara usa contra Colin. Mas, na verdade, não importa se ela gosta dele ou não, porque eu gosto.
"Gemma Seaman", ela diz, com a maior naturalidade.
Meus ombros enrijecem quando ela pronuncia o nome como se fosse um conceito totalmente estranho, algo que jamais aconteceria. Estou com Colin há dois anos, então a ideia de me casar com ele um dia não me parece tão absurda.
"Onde está aquele vestido vermelho?" A ouço murmurar para si mesma enquanto mergulha de volta no meu closet.
"Cara, não. Esta não é uma noite para usar vestido vermelho."
Ela reaparece com o vestido erguido triunfantemente em uma das mãos. "Querida, se esta não é uma noite para usar vestido vermelho, então eu não sei o que é. A vida não pode ser tão cruel a ponto de alguém com a sua bunda icar sozinha em casa o im de semana inteiro."
"E quarta-feira."
Ela ignora minha correção enquanto en ia o vestido nas minhas mãos. E um vestido vermelho justo, com decote coração, que realça todas as minhas curvas. E o mesmo vestido que a Cara sempre quer que eu use quando o Colin cancela os planos, porque ela jura que é o vestido que vai 'convencer alguém muito, muito mais gato' (palavras dela, não minhas) a me roubar.
Usei esse vestido há apenas algumas semanas-ironicamente, a última vez que a Cara me arrastou para uma balada depois de eu ter levado um bolo-e só me lembrei de buscá-lo na lavanderia há alguns dias. Um pânico nervoso começa a me invadir ao perceber quantas vezes minha melhor amiga tem me obrigado a usar esse vestido ultimamente.
Como é que eu não percebi o quão ruim as coisas icaram com o Colin?
Tento imaginar o que meu pai vai dizer quando eu contar para ele... porque eu vou. Sempre tento. Depois da Cara, meu pai é meu melhor amigo. Mas ele ainda é pai. Ele vai ser ainda menos compreensivo do que a Cara com o Colin furando mais um encontro.
"Vou ligar o babyliss", oferece Cara com um sorriso ino e cúmplice enquanto eu ico ali segurando o vestido sem protestar mais.
Pelo menos, se eu sair hoje à noite, poderei dizer ao meu pai que não iquei sentada sem fazer nada. Ou pior, melhor dizendo, admitir que passei o dia de pijama mais feio, comendo sorvete direto do pote e debatendo se era muito cedo para começar a assistir ilmes de Natal.
Respiro fundo, já tendo esquecido por que aquilo era um erro. Com uma crise de tosse, fecho a porta do armário com força, na esperança de que o cheiro ique contido sem contaminar todas as minhas roupas antes de eu ir lavar as roupas do Hank neste im de semana.
Por que eu sequer concordei em lavar a roupa fedorenta dele?
Me lembro do brilho nos seus olhos cor de avelã, enquanto me olhava esperançosamente quando perguntou se eu tinha alguma sugestão. O Hank é um pouco... safado. Mas ele tem olhos de tirar o fôlego. E eu? Sou apaixonada pelo time.
Não tem jeito. Tenho muita di iculdade em dizer não para qualquer um dos caras. Nos tornamos amigos ı́ntimos nesses dois anos desde que o time foi formado. E tudo bem, talvez eu seja um pouco permissiva com os jogadores. Mas peça para qualquer mulher tentar negar um pedido de um time de jogadores de rúgbi incrivelmente atraentes e veja como ela se sai.
Cara coloca a cabeça para fora do banheiro. "Por que você ainda não se vestiu?"
"Estou trabalhando nisso", resmungo enquanto me dirijo à cômoda. Se vou sair com esse vestido, preciso encontrar uma calcinha melhor do que essa de algodão que estou usando por baixo da minha calça festiva de peru.
Ela desaparece novamente enquanto troco minha calcinha de dormir por um sutiã tomara que caia reforçado e uma calcinha de renda que sei ser a favorita do Colin. E o único ato de rebeldia que tenho no momento: vestir a calcinha favorita dele quando sei que ele não vai vêla.
Essa atitude passiva-agressiva tem que parar.
As coisas eram diferentes quando nos conhecemos. Eu estava terminando a faculdade quando Colin era apenas um advogado iniciante no escritório do pai. Jantamos juntos muitas vezes até tarde da noite, conversando sobre nossas ambições e o futuro.
Eu achava que bastava que, de modo geral, parecı́amos querer as mesmas coisas na vida. Estabilidade. Reconhecimento. Sucesso. Agora já não tenho tanta certeza.
Enquanto visto o vestido vermelho, me preparando para o que Cara tiver reservado para nós esta noite, afasto os pensamentos sobre Colin. O estável e viciado em trabalho Colin não é o tipo de homem em quem uma garota quer pensar quando chega a noite do vestido vermelho.
Duas horas
Foi esse o tempo que passamos na balada chique para onde a Cara me arrastou, antes de eu icar muito, muito mais bêbada do que estive em muito tempo. Os shots que tomamos lá em casa antes do nosso carro chegar não ajudaram. E nem o luxo constante de caras me oferecendo bebidas, que a Cara vem incentivando a noite toda.
"Você nunca sabe onde o prı́ncipe encantado pode aparecer", ela me lembra quando eu rejeito mais um cara sem rodeios.
"Aquele cara era mais Tom Selleck do que Tom Hanks na era das comédias românticas."
Ela olha com saudade na direção em que o cara desapareceu. "Ei, nunca menospreze um cara com um bigode grosso. Imagina quanta testosterona ele deve ter correndo nessas veias!"
"Não é assim que funciona a barba", consigo dizer, sem arrastar as palavras a ponto de icar incompreensı́vel. "Além disso, eu recebo bastante testosterona quando estou no trabalho. Testosterona quente e máscula."
Cara cai na gargalhada como se eu tivesse acabado de contar a piada mais engraçada do mundo. Tento me lembrar do que acabei de dizer, mas meu cérebro, afetado pelo álcool, não colabora.
Eu não deveria ter tomado aqueles últimos shots.
"Ei, olha!" Cara grita de repente por cima da música, apontando para a minha esquerda.
Eu me viro e olho duas vezes ao ver um rosto familiar. Meu cérebro me diz para desviar o olhar e agir como se não o tivesse visto. E é o que eu faço.
Cerca de trinta segundos depois, ouço alguém me chamando pelo nome.
Ah, merda.
Não é como se o time nunca tivesse me visto beber antes-sou presença constante nas noites de cerveja e asas de frango com eles- mas eu nunca ico bêbada com eles. O que de initivamente estou agora. Muito bêbada.
"Gemma."
Sinto a mão grande e quente de André pousar no meu ombro enquanto ele chama meu nome novamente.
Me viro com o que tenho certeza ser o sorriso mais sem graça de todos os tempos enquanto tento dizer, entre "Oi" e "Aloha", sem conseguir pronunciar as palavras certas. Sinceramente, não sei qual delas saiu da minha boca.
Por falar em pelos faciais...
Meus olhos percorrem o maxilar de André e a barba bem cuidada que ele mantém. Leva um minuto inteiro para eu perceber que ele está falando comigo. Quando inalmente percebo, ele já está em silêncio, com um olhar estranho. Estou bêbada demais para interagir com alguém que é praticamente um colega de trabalho. Olho para o lado procurando por Cara, mas de repente ela sumiu.
"Você está bem?" Pergunta André, e desta vez estou prestando atenção o su iciente para saber o que ele disse.
Assinto com um entusiasmo muito maior do que o necessário enquanto junto as mãos atrás de mim, desejando de repente ter outra bebida só para ter algo para fazer com as mãos. Só não percebo a tempo que juntar as mãos dessa forma tem o efeito colateral de curvar meu corpo, fazendo com que meu peito se projete na direção dele.
Os olhos de André percorrem meu corpo de cima a baixo.
"Se eu não te conhecesse, diria que você está me secando", deixei escapar com uma risada nervosa.
Seus olhos se arregalam ao me encarar enquanto ele diz, com muita solenidade: "Eu jamais faria isso."
Embora sua voz seja séria, seus olhos escuros brilham com divertimento. Ele olha ao redor como se estivesse esperando alguém, e meu estômago se revira ao perceber que ele provavelmente está procurando seu encontro ou algo do tipo.
"Devo ir procurar-"
"Seu namorado", ele completa por mim.
Eu faço uma careta. "Eu ia dizer que deveria ir procurar a Cara."
"Pensei que você tivesse um encontro hoje à noite?" Ele parece tão confuso quanto eu, sabendo que ele sequer sabia que eu tinha um encontro hoje à noite. Não sei por que isso me surpreende. O time já provou diversas vezes que tem uma capacidade estranhamente boa de se lembrar de detalhes que eu mal me lembro de ter mencionado.
Assim como o fato de eu preferir rosas amarelas às vermelhas.
Dou de ombros em resposta, sem querer admitir em voz alta que levei um bolo, de novo. Não importa, seus olhos brilham como se ele soubesse mesmo sem eu dizer uma palavra.
"Vamos dançar." Ele estende a mão para mim e eu a encaro como uma cobra pronta para atacar. "Vamos lá", ele insiste com uma piscadela, "eu não mordo a menos que você peça."
Sinto meu corpo todo corar com a insinuação dele, enquanto minha mão parece se estender sozinha para pegar a dele. Isso é uma péssima ideia. A parte bêbada de mim, porém, acha que é uma ideia muito, muito boa, então deixo André me puxar para o meio da pista de dança lotada.
E só dançar. Não há nada de errado nisso.
Mas um sinal de alerta começa a soar na minha cabeça quando chegamos ao centro da pista, e André me vira de forma que minhas costas iquem coladas ao peito dele. Eu também adoro dançar, então, quando ele começa a se mover no ritmo animado que preenche a boate, me pego começando a me mover com ele, ignorando aqueles sinais de alerta que pareciam tão importantes momentos antes.
E a primeira vez que passo um tempo realmente a sós com o André -ou com qualquer um dos caras, na verdade. Normalmente, tudo é uma atividade em grupo.
Desta vez não.
Eu me esfrego nele enquanto uma música emenda na outra, as batidas se misturando e nossos corpos se sincronizando. Fico esperando que ele peça para dançar com outra garota. Deus sabe, tem tanta garota bonita por perto que ele poderia se entreter por horas, mas ele continua dançando comigo como se não houvesse mais ninguém.
Dançamos por um longo tempo até que minha garganta esteja tão seca que mal consigo articular as palavras para dizer que preciso beber algo. Agua, se eu quiser ter alguma esperança de sobreviver ao dia de trabalho amanhã.
Enquanto André me guia até o bar, sinto o ambiente começar a girar. Me agarro nele para me equilibrar, e ele me olha com preocupação. Estávamos nos divertindo dançando, mas até ele precisa perceber que esta noite acabou para mim. Ele me ajuda a sentar em um banco no outro extremo do balcão.
"Acho que vi sua amiga lá atrás. Fique aqui, que eu a chamarei para você." As palavras estão certas, mas a expressão dele está completamente errada.
Parece que a última coisa que ele quer fazer é terminar a noite.
Não que eu o culpe. Esta tem sido a experiência mais divertida que tive em muito tempo, e estamos aqui há pouco tempo-dou uma olhada no meu relógio, mas aı́ me lembro que não estou usando meu relógio.
Não tenho ideia de que horas são.
Passam-se alguns minutos até que eu não aguente mais a tontura. Fecho os olhos e pressiono a mão na testa para tentar fazê-la parar. Não sei quanto tempo iquei sentada ali antes de sentir as mãos de André novamente, desta vez me ajudando a levantar enquanto eu o encarava com os olhos semicerrados. Eu havia me esquecido de quão alto ele era no intervalo entre ele me sentar e reaparecer.
Ele me abraça pela cintura enquanto tento me irmar no chão. Depois de um segundo, desisto e me inclino para o seu lado.
Cara aparece de repente na minha frente. "Não está feliz por eu ter feito você sair?" Pergunta ela com um enorme sorriso no rosto.
Em resposta, emito uma espécie de grunhido, a rotação é tão intensa que não consigo fazer mais nada. Percebo que vou me arrepender amargamente de todas aqueles shots que tomei quando chegar a hora de acordar para trabalhar.
André começa a andar, segurando irme em mim para que eu o acompanhe. Cara se posiciona do meu outro lado, perto o su iciente para que eu sinta sua presença, mas não tão perto a ponto de nos tocarmos. E um pouco estranho, no entanto, já que estou tão acostumada a ver Cara tão bêbada quanto eu quando saı́mos. Por que ela não precisa de ajuda para ir até o carro que está esperando?
Estou tão distraı́da com meus pensamentos e as voltas intermináveis que a princı́pio não percebo que André está falando em voz baixa e suave.
"Era só uma dança", ouvi-o dizer, e eu queria estar lúcida o su iciente para dizer que sei. Não tenho certeza por que ele achou necessário esclarecer isso. Perdi alguma coisa?
Mas percebo que ele não está falando comigo quando Cara responde: "Claro, amigo. Diga o que quiser para si mesmo."
A última coisa que ouço antes da minha cabeça bater no encosto do banco do carro é a risada dele. E então meu último pensamento da noite me ocorre: quando foi a última vez que ouvi meu namorado rir?
GEMMA
Soltei um longo gemido ao me arrastar para fora do carro no estacionamento do Strudford Storms. Meu rosto inteiro se contraiu em protesto no instante em que o sol da manhã bateu em mim, lembrandome de todos os pecados da noite passada.
Volto correndo para o carro para pegar meus óculos de sol, justamente quando outro carro para ao meu lado.
Oliver sai, o rosto se contorcendo imediatamente em preocupação ao me ver curvada. Ele se apressa em vir até mim, mesmo que eu tente dispensá-lo com um gesto. "Você está bem?"
"De ressaca", murmurei.
Sinto minhas bochechas esquentarem enquanto Oliver cacareja para mim como uma galinha protegendo seus pintinhos. A expressão no rosto dele... ele bem que poderia estar se preparando para me repreender por estar na rua até tarde em uma noite de aula.
Outro carro para do outro lado da rua do Oliver, e eu solto um longo suspiro de alı́vio. Desculpa, cara. Eu ia te jogar debaixo do ônibus. A forma alta de André desce do SUV, me olhando com cautela enquanto os cantos da minha boca se erguem num sorriso.
"Ei, Oliver?" Inclino a cabeça com falsa preocupação. "Você provavelmente deveria conversar com o André sobre ter icado fora até tarde ontem à noite, antes do treino de hoje cedo."
Oliver olha duas vezes para mim e para o André. "Vocês dois saı́ram juntos?"
O tom insinuante da voz dele faz minhas bochechas corarem. Estava tão ocupada planejando minha escapada que não parei para pensar em como soaria a minha voz, sabendo que André também tinha icado fora até tarde ontem à noite.
"Não estávamos juntos; simplesmente nos encontramos por acaso", explico.
André dá um sorriso de canto, claramente gostando da reação do seu companheiro de equipe. "E, a gente se encontrou e a gente se divertiu bastante. Não se deixe enganar por ela, essa garota dança muito bem."
A boca de Oliver se fecha numa linha reta enquanto ele lança um olhar acusador na direção de André. Palavras infelizes à parte, consegui exatamente o que queria. Distração.
"Hum... vejo vocês lá dentro!"
Dou um aceno completamente desnecessário enquanto começo a me afastar. Os dois ainda estão presos em uma estranha disputa de olhares, então dou meia-volta e aproveito a oportunidade para fugir. Meu pobre cérebro de ressaca não consegue lidar com uma confrontação sobre meus hábitos fora do horário de trabalho.
Os rapazes podem estar em con inamento durante a prétemporada, mas eu não.
Dou uma risadinha ao entrar no prédio. Talvez o Oliver seja a 'mãe' do time, e não eu.
Consigo chegar ao meu escritório ilesa. A manhã está bem tranquila, já que os rapazes estão treinando em vez de jogar-o que signi ica que não há motivo para me chamarem, a menos que haja alguma lesão.
O que, felizmente, não acontece.
No inal da manhã, a ressaca ainda estava me castigando. Fechei os olhos e deitei a cabeça na mesa por alguns minutos, tentando aliviar a dor de cabeça latejante e a sensação de enjoo que pareciam ter se instalado para icar.
Permaneço nessa posição por mais tempo do que deveria, mas é a primeira vez que sinto um mı́nimo de alı́vio desde que saı́ da cama esta manhã. Começo a perder a noção do tempo enquanto a madeira fria da escrivaninha me embala quase de volta ao sono.
Sinto arrepios nos braços ao ter a súbita sensação de estar sendo observada. Minhas costas se endireitam completamente enquanto me sento, paranoica de que um dos treinadores esteja prestes a me encontrar meio adormecida na minha mesa.
Não é um treinador, porém. E Cyrus. Um Cyrus sem camisa e muito, muito suado.
Ele parece ter vindo direto da sala de musculação. Cruzo as pernas debaixo da mesa enquanto observo uma linha de suor escorrer pelo seu corpo, rolando sobre os músculos abdominais bem de inidos. Quase não me controlo antes de soltar um gemido baixo e passar uma vergonha enorme.
Já faz muito tempo que não tenho um momento a sós com meu namorado, isso é fato. Se eu não conseguir um alı́vio logo, até os pôsteres de atletas no meu escritório vão acabar sendo demais para mim.
E todos aqueles caras estão completamente vestidos.
"Você precisava de alguma coisa?" Pergunto, torcendo para que Cyrus não perceba o jeito que minha voz falha.
"Ouvi dizer que você saiu com o André ontem à noite." Ele fecha a porta do meu escritório com o quadril, e eu mordo o lábio para não pedir que ele a deixe aberta.
Os homens fofocam pior do que as garotas.
Eu balanço a cabeça negativamente. "Não, nós apenas estávamos na mesma boate."
Ele passa a mão pela barba por fazer enquanto caminha para dentro do meu escritório como se fosse o dono do lugar. Ele é assim em todos os lugares. Se move como se o mundo inteiro lhe pertencesse-e sua con iança faz com que a maioria das pessoas o trate como tal.
Pessoalmente, tento não deixar que ele me manipule muito, mas é mais fácil falar do que fazer quando ele está seminu e me encarando como se estivesse planejando me devorar no almoço.
"Não diria que é do tipo que curte baladas", ele pondera. Começo a corrigi-lo, Cara adora a vida noturna, mas então percebo que não é dessa amiga que ele está falando. Cyrus talvez seja a única pessoa no mundo que parece gostar ainda menos do meu namorado do que a própria Cara.
Eles se encontraram algumas vezes ao longo dos anos- principalmente em eventos bene icentes do time-e os dois entraram em con lito todas as vezes.
Colin jura que é porque Cyrus se sente ameaçado por ele, mas, para ser sincera, não consigo imaginar Cyrus se sentindo ameaçado por ninguém. Colin pode ter dinheiro, mas Cyrus tem um fı́sico que permite levantar meu namorado no supino sem o menor esforço. E para alguém como Cyrus, um verdadeiro atleta de corpo e alma, isso vale muito mais do que qualquer coisa.
"Saı́ com minha amiga Cara."
Cyrus acena lentamente com a cabeça. "Sua amiga alta."
E claro que ele se lembra de quem ela é. Cara é linda e con iante-o tipo de mulher que caras como Cyrus simplesmente não esquecem. Porque ela é basicamente a versão feminina dele. Então sim, é claro que ele se lembra da minha linda amiga, apesar de tê-la encontrado apenas algumas vezes quando ela aparece de surpresa-sempre na esperança de lagrar os caras exatamente no mesmo estado de nudez em que
Cyrus está agora.
Ela morreria se soubesse que ele está sem camisa no meu escritório agora mesmo.
Meus dedos se movem lentamente em direção ao meu celular, imaginando o quão bravo o capitão do time icaria se eu pegasse o celular no meio da conversa para mandar uma mensagem. Talvez eu até conseguisse mandar uma foto...
"O que aconteceu com o seu encontro?"
A pergunta é como um balde de água fria jogado na minha cabeça. Meus olhos automaticamente se voltam para o porta-retratos na beira da minha mesa. Meu aniversário de seis meses com Colin-e a única viagem que izemos juntos.
Percebo que Cyrus ainda está esperando minha resposta, então digo simplesmente: "Surgiu um imprevisto".
"Isso é uma grande besteira." Fecho a boca com força para evitar dizer algo que só me colocaria em apuros. Não que importe, já que aparentemente ele não terminou. "Que tipo de homem deixa a
namorada sair para dançar com outro homem?"
"Eu já te disse que não estava lá com o André."
"Mas você dançou com ele."
Cruzo os braços sobre o peito em um gesto defensivo. "Era só uma dança."
"Não é assim que ele conta." Um canto do lábio dele se curva num sorriso irônico. As vezes, Cyrus me irrita profundamente. Se mete na minha vida, me dá trabalho porque sabe que a última coisa que eu quero é ter um relacionamento conturbado com o capitão do nosso time.
"Você realmente precisava de alguma coisa? Porque se você já terminou de me importunar..." Minha voz some, sem nenhuma desculpa plausı́vel em mente.
Cyrus percorre a distância entre o centro da sala e minha mesa com dois passos. Imponente, sentado na cadeira da escrivaninha, seus olhos percorrem cada centı́metro do meu corpo que conseguia ver. Estou realmente muito feliz por estar posicionada embaixo da mesa de forma que ele não consiga ver o quão apertadas estão minhas pernas neste momento.
Seu sorriso irônico se transforma em um sorriso preguiçoso.
"Algumas mulheres gostam quando eu as importuno." "Mas eu tenho namorado", respondi de repente.
Ora, Gemma. Ele sabe disso. Ele não está dando em cima de você.
"Não me esqueci dele nos últimos trinta segundos, desde que falamos sobre ele." Não consigo decidir se estou imaginando ou se realmente ouço irritação em sua voz-ela desaparece um instante depois. "Os caras estão terminando, e depois vamos assistir à gravação."
"Certo, então provavelmente vou sair mais cedo?" Odeio o jeito como isso soa como uma pergunta-como se eu estivesse pedindo permissão a ele.
Ele acena com a cabeça lentamente.
Cyrus começa a sair, mas para com a porta entreaberta. Ele não olha para trás enquanto diz: "Não se esqueça que hoje é a noite de asas de frango no Midtown."
"Eu estarei lá."
Estou sempre presente.
Cervejas e asas de frango. Nunca perco um encontro com o time. E um evento e tanto, com todos os vinte e cinco juntos e eu, bem no meio. No começo, Cyrus chamava isso de integração da equipe, mas na verdade acho que ele só gostava da atenção que recebia por estarem todos juntos. Principalmente no Midtown, o point deles, onde até hoje existe a possibilidade de garotas fazerem ila na esperança de chamar a atenção de algum dos Storms.
Talvez não ganhem tanto dinheiro quanto estrelas do futebol americano ou do basquete pro issional, mas os jogadores do Strudford Storms conseguem contratos nada desprezı́veis e todos eles são tão incrivelmente atraentes que a maioria das mulheres simplesmente se derrete na presença deles.
Mas eu não.
Esse time? Somos amigos. Não importa quantas vezes eu quase babe ao ver um deles sem camisa. A noite das asas de frango no Midtown pode muito bem ser a representação fı́sica da friendzone. E você pode me encontrar lá com a equipe toda quinta-feira à noite, religiosamente.