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7 CHAVES

7 CHAVES

Autor:: Jhenny M.
Gênero: Romance
Após perder a mãe de forma trágica quando criança, Felipe culpa o pai e o amor que ela sentia pelo mesmo, passando a abominar tal sentimento que para ele não passa de um desatino. Determinado a viver como um lobo solitário, jurou que jamais se envolveria, aprendendo arduamente que não é tão fácil rejeitar uma ordem dada pelo coração.

Capítulo 1 Prólogo

Hoje acordei em um daqueles dias em que desejava não sair da cama, não que eu estivesse cansado ou precisasse dormir um pouco mais, mas essa data em especial me atormenta de tal forma que se eu pudesse deixar de existir ou simplesmente apagar, ao menos por hoje, eu o faria.

Há 23 anos atrás, nessa mesma data eu vivi o maior horror da minha vida, 8 de julho de 1998, eu tinha apenas 10 anos quando encontrei a minha mãe sem vida, no apartamento onde nós morávamos, eu, ela e minha irmã que na época tinha pouco mais de dois meses de vida. Durante anos culpei o meu pai pela sua morte e para mim o amor que ela sentia por ele foi a principal causa dos seus desatinos, logo, passei a abominar tal sentimento e a ideia de amar e ser amado.

Me tornei um lobo solitário, me considerava um homem livre e blindado no que se refere ao amor. Jurei para mim mesmo que o meu coração permaneceria trancado a sete chaves, porém não imaginava que poderia existir alguém capaz de desatar estas trancas com um simples sorriso e assim descobri da pior forma possível que não é tão fácil rejeitar uma ordem dada pelo coração.

Capítulo 2 Infância

Eu tive uma infância feliz, de certa forma, nós tínhamos uma boa vida, financeiramente falando, minha mãe era médica, como meu avô, o pai dela. A medicina foi um caminho que todas as suas filhas seguiram, mas a maioria delas não exerceu a profissão no fim das contas, incluindo minha mãe que largou tudo quando se casou com o meu pai. Ele era engenheiro civil, profissão que eu achava o máximo, adorava bisbilhotar os seus complexos projetos e quando tinha a oportunidade, acompanhá-lo em seu trabalho.

Roberto nunca foi do tipo presente, que se importava em me dar atenção ou brincar comigo, trabalhava muito e eu imaginava que isso era necessário, e geralmente ele compensava sua ausência com presentes, qualquer presente, eu tinha tudo que queria, exceto seu afeto.

Por outro lado, minha mãe era meu porto seguro, companheira e dedicada, havia abdicado de sua carreira para cuidar de nós, de mim e do meu pai, e se dedicava fielmente a isso. Helena, seu nome, era uma mulher doce e amorosa, creio que isso é de família pois todas as minhas tias são da mesma forma, e isso com certeza elas puxaram da minha avó, Carmen.

Infelizmente nós morávamos longe da minha avó materna, pois ela havia se mudado com o meu avô para Brasília há alguns anos, para que ele assumisse um cargo como servidor público. Junto com ela foram duas de minhas tias que ainda eram solteiras, e minha mãe que havia se casado recentemente com meu pai, acabou permanecendo em Porto Alegre. Minha madrinha, tia Anelise, também ficou, porém ela morava com o marido, Romeu, em uma cidade um pouco mais distante, na serra gaúcha, tio Romeu mexia com gado e eles sempre levaram um estilo de vida um tanto quanto diferenciado, eu diria um estilo mais, como poderia explicar, roceiro.

Tia Anelise tem um filho dois anos mais novo do que eu, Cristiano. Nós não éramos muito amigos na época, às vezes eles iam para Porto Alegre visitar a minha mãe, mas eu o achava insuportável, parecia um bicho do mato, só sabia falar de cavalos e além do mais, era extremamente mimado por toda a família, por ser o filho único da minha tia, após ela ter sofrido três abortos e acreditar que não poderia ter filhos. Ele havia nascido prematuro e frágil, literalmente um sobrevivente, segundo ela, devido a uma promessa que fez. O problema em questão é que meu primo era saudável, uma criança normal, porém aparentemente todos o enxergavam ainda como aquele bebê indefeso e a beira da morte, algo difícil de entender.

Eu adorava ir para Brasília visitar a minha avó Carmen, geralmente nós íamos nas férias e passávamos as festas de fim de ano por lá, porém eu odiava quando eles decidiam passar as férias no sul, porque isso significava que passaríamos o natal na fazenda da tia Anelise, e eu não conseguia entender como alguém em sã consciência poderia gostar de viver naquele lugar, no meio do mato. Ao anoitecer os pernilongos faltavam nos carregar pelos ares, mas eles eram o menor dos problemas, tendo em vista que era normal a casa ser invadida por cobras, sapos e aranhas enormes com certa frequência.

No ano anterior ao da morte da minha mãe, não tive sorte, minha avó resolveu ir com o restante da família para o sul, eu podia ver na expressão do meu pai que ele odiava quando isso acontecia tanto quanto eu, não posso negar que éramos muito parecidos nesse aspecto, estar na área urbana, no nosso luxuoso apartamento e longe daqueles bichos e insetos repugnantes, sem dúvidas era mais confortável para nós.

Minha avó Carmen, chegou em Porto Alegre acompanhada do meu avô e da minha tia Adelina, a única que nunca se casou por opção própria, sempre gostou de ser livre e viajar, viver a vida sem compromissos maiores, algo admirável vindo de uma mulher naquela época, levando-se em conta que a grande maioria só tinha dois objetivos, casar e ter filhos, deixando muitas vezes a vida profissional de lado. Junto a eles foram a tia Clarisse, com o marido e os dois filhos, Rafael e Clara.

Meu primo Rafael era um pouco mais legal que o Cristiano, ele também era dois anos mais novo do que eu, a diferença de idade dele para o Cris era de apenas alguns meses, mas na questão de maturidade a distância era gritante, talvez por não ser tão mimado quanto o outro primo, ele também gostava de videogames, futebol, e sabia conversar sobre outras coisas que não fossem os malditos cavalos. Isso até que os dois se juntassem, pois de uma forma estranha ele parecia adorar a fazenda, e se divertia com o Cristiano andando a cavalo, coisa que só tentei fazer uma vez, e depois de cair e fraturar o braço nunca mais cometi tamanha sandice.

No fim das contas, eu acabava sozinho, até queria me juntar a eles, mas não gostava das brincadeiras, principalmente as que envolviam proximidade com animais. Nos raros momentos em que conseguíamos brincar todos juntos, brincávamos de pique-esconde, ou contávamos histórias de terror, isso era divertido, exceto quando levávamos bronca por fazer a Clarinha, que tinha apenas 5 anos, chorar apavorada.

Naquela época, eu não me atentava muito aos problemas dos adultos, meus pais eram discretos quanto aos contratempos do seu relacionamento, eu sequer sabia que eles tinham qualquer problema, não os via brigando ou discutindo, mas também não os via tão próximos e amorosos como os pais dos meus primos. Aliás, essa diferença eu notava, os pais deles eram carinhosos, tio Romeu, o pai do Cris o chamava de campeão e vibrava sempre que ele mostrava ter aprendido algo novo, principalmente em relação aos cavalos, eles se abraçavam, ele o beijava, e tudo isso para mim era algo extremamente estranho vindo de um pai. Com o Rafael e a Clarinha não era diferente, e eu que cresci acreditando que era normal um pai ser mais distante, não entendia muito bem, mas sentia uma pontada de inveja. "Será que a culpa é minha?" pensava.

Diante da dúvida, imaginei que talvez não fosse o filho que meu pai esperava, talvez eu fosse o culpado por ele ser tão ausente, mas não conseguia entender o que fazia de errado. Se eu era tão ruim assim, por que minha mãe me tratava com tanto amor, da mesma forma que minhas tias tratavam meus primos? Decidi tentar uma aproximação.

Era noite de natal, nossa família já estava toda reunida na fazenda e meu pai estava distante, como sempre, notei que ele falava com alguém no seu celular, lembro-me que era um aparelho extremamente diferente do que usamos hoje, mais parecia até nossos telefones sem fio atuais. Ele aparentava estar chateado com algo, estava distraído em sua ligação sozinho num quarto, talvez buscando um local mais silencioso, imaginei que estivesse tratando sobre assuntos de trabalho como sempre. Me aproximei sorrateiramente a fim de não incomodá-lo, ele não me viu de imediato e continuou sua conversa.

- Eu sei meu amor, eu também dava tudo para estar com você, mas infelizmente enquanto não resolver toda essa situação, teremos que suportar... - Ele dizia. Estranhei imediatamente o fato dele chamar a pessoa que estava do outro lado de meu amor, afinal eu nunca tinha visto ele tratando alguém dessa forma, por que trataria alguém do trabalho assim?

- Também estou morrendo de saudade, não se preocupe, assim que eu voltar para Porto Alegre arrumarei uma desculpa para sair de viagem, e passaremos um tempo juntos, só nós dois! - Nem mesmo a minha inocência de criança foi o suficiente para deixar de interpretar o que isso queria dizer, meu pai não estava tratando de assuntos de trabalho, ele tinha uma amante.

- Pai... - Chamei propositalmente, ele se virou para me olhar com uma cara assombrada, como se eu fosse um fantasma.

- Desde quando você está aí? - Era notável o desespero em sua voz trêmula.

- Acabei de chegar. - Menti. Ele respirou fundo parecendo aliviado e rapidamente encerrou a ligação.

- O que você quer? - Seu tom era bastante irritado naquele momento, aparentemente não gostou que eu tivesse atrapalhado o seu romance patético.

- Nada, eu só estava passando. - Abaixei a cabeça e senti meus olhos pesarem, se enchendo de lágrimas. - Com quem o senhor estava falando? - Perguntei, sabendo que não deveria.

- Não é da sua conta, moleque! - Alterou a voz. - Não se meta onde não foi chamado e suma daqui, estava tratando de assuntos de trabalho!

"Mentiroso", pensei, erguendo a cabeça para olhá-lo nos olhos e uma lágrima escorreu. Nesse momento sua expressão suavizou e acredito que o pouco de afeto que sentia por mim o quebrantou de alguma forma.

- Desculpe filho, eu... Eu estou estressado, tenho algumas coisas para resolver, é só isso. - Falou num tom mais brando, arrependido.

Permaneci encarando-o com repúdio, as lágrimas ainda desciam, mas não conseguia dizer nada, e o que poderia dizer? Como deveria agir? Eu só conseguia pensar em minha mãe, em como isso a machucaria. Virei as costas ignorando suas explicações e pedidos de desculpa, Roberto provavelmente imaginou que eu estivesse daquela forma devido a sua ignorância, mas eu sabia que se não contasse para a minha mãe, seria tão traidor quanto ele.

Aquele foi um dos piores natais da minha vida, já não conseguia me distrair dos meus pensamentos. Meu pai voltou rapidamente e tentou de todas as formas me bajular, achou que quando desse o presente caro que havia comprado para mim, o videogame de última geração que eu tanto queria, rapidamente me animaria de novo. Mas vi a surpresa em sua face quando ignorei seu presente, sequer abri. Ele rasgou por si só o embrulho para que eu visse o conteúdo, meus primos se juntaram empolgados, exceto o Cristiano é claro, que pouco se importava com essas coisas, e naquele momento agi com tanto desprezo quanto meu pai merecia, todos estranharam, ninguém entendia a minha atitude, mas percebi que ele compreendeu, entendeu que eu sabia demais.

A partir daquele dia muita coisa mudou, passei a ficar mais atento com suas atitudes, e isso fez com que Roberto parasse até mesmo de me levar junto para o seu trabalho. Ele notou que havia algo errado comigo, pois agora era eu quem o evitava, que o ignorava, principalmente quando vinha com suas falsas demonstrações de carinho, após perceber que seus presentes já não me comprariam. Percebi também, que ele mudou a forma de tratar a minha mãe, carinhoso e mais prestativo, hoje entendo que o traste queria evitar que ela acreditasse caso eu abrisse a boca para contar o que sabia. A questão era que meu pai não sabia exatamente o que eu tinha ou não ouvido, e ele jamais me perguntaria, não arriscaria, e apenas tentava de todas as formas me fazer esquecer, me fazer acreditar que eu havia entendido errado, mas foi em vão.

Capítulo 3 O segredo

Roberto não foi esperto o suficiente para desistir da viagem que tinha planejado com a amante, esperou apenas um tempo e logo apareceu com a notícia de que precisava viajar a trabalho. Minha mãe acreditou, não seria a primeira vez, e eu me perguntava se das outras vezes também era mentira. A única certeza que tive, era que eu não poderia continuar escondendo tudo que sabia, minha mãe não merecia essa traição.

O traste passou duas semanas fora, raramente o via conversando com minha mãe pelo telefone, às vezes parecia mais que estava tentando descobrir se eu havia contado algo, sempre pedia para falar comigo, mas eu recusava, e minha mãe começou a estranhar minhas atitudes referentes a ele.

- O que está acontecendo, filho? - Me perguntou. Lembro-me perfeitamente de seu tom de voz suave, nunca a tinha visto alterar sua voz.

- Nada! - Respondi imediatamente, já sabendo onde ela queria chegar.

- Já faz um tempo que você tem agido de uma forma estranha com seu pai, aconteceu alguma coisa? - Insistiu.

A olhei fixamente nos olhos, como eu poderia mentir? E se eu falasse a verdade, quão mal ela ficaria? Não conseguia tomar uma decisão, me senti mal por estar traindo a confiança da minha mãe, me senti tão covarde quanto o meu pai, mas não queria vê-la sofrer.

- Não é nada. - Garanti, reprimindo um choro.

Minha mãe me abraçou, percebeu que eu não estava bem e respeitou o meu desejo de não me abrir naquele momento, mas aquela situação toda estava mexendo com a minha cabeça cada dia mais, eu imaginava que se ela descobrisse de outra forma e soubesse que eu já sabia, ia me odiar para sempre, jamais me perdoaria, e eu acabaria sozinho. Hoje vejo que ser digno do ódio dela seria o menor dos meus problemas.

Me tornei uma criança que já não brincava, passei a ter problemas na escola, me afastei dos meus amigos. As professoras perceberam e chamaram minha mãe para conversar, até encaminhado para uma psicóloga fui na época, e me perguntava se poderia me abrir com aquela estranha. No fundo era isso que eu precisava, me abrir e arrancar de mim aquele peso, que era muito para minhas costas, mas eu não conseguia, não sabia se deveria.

Os meses foram passando e meu pai deixou de se preocupar, no mínimo imaginava que se eu não havia dito nada até aquele momento, não diria mais. Acredito que tenha deixado de acreditar que eu de fato tivesse ouvido alguma coisa, em sua cabeça eu era apenas uma criança apresentando transtornos psicológicos. Então ele voltou ao normal, voltou a se afastar, parou de tentar fingir que me queria por perto, e da mesma forma, voltou a tratar minha mãe como antes. Para mim não fez a menor diferença, mas pude notar que ela sentiu, estava feliz com aquele breve momento de casamento perfeito e parecia não entender porque tudo havia mudado novamente.

Brigas e mais brigas, as discussões entre os dois se tornaram constantes, ao menos antes isso não acontecia, e na maioria das vezes os motivos eram os mesmos, meu pai sempre chegava tarde do trabalho, viajava com frequência e nunca estava disponível nos finais de semana. Minha mãe estava desconfiada, finalmente. Eu me perguntava o que aconteceria se ela descobrisse, eu tinha amigos com pais separados, não parecia ser tão ruim assim, até porque, a presença do meu pai não fazia diferença para mim. Desejei que ela descobrisse, queria que isso acabasse, minha mãe merecia ser feliz, mas eu a vi chorando sem que ela percebesse e aquilo que matou por dentro, logo vi que as coisas não seriam tão simples, ela sofreria no processo.

Minha mãe evitava discussões na minha frente, geralmente eles se trancavam no quarto, mas provavelmente não faziam ideia de que eu podia ouvir as vozes alteradas, ambos gritavam e na maioria das vezes o fim era o mesmo, meu pai saia de casa e dormia fora, enquanto minha mãe permanecia chorando. Lembro-me que em uma dessas discussões ouvi a palavra divórcio sair da boca do meu pai, e pior do que isso, foi ouvir minha mãe suplicando para que ele não fizesse aquilo. Como eu odiava aquele homem, ouvia tudo, chorando sozinho no meu quarto, tomando as dores da minha pobre mãe, como era doloroso ver a pessoa que eu mais amava nesse mundo sofrendo daquela forma.

Meu estado foi se agravando, me isolei de tudo e de todos, me fechei para o mundo ao redor, meu corpo ia para a escola, mas minha alma já não estava lá, eu não me relacionava com as outras crianças, não conseguia prestar atenção nas aulas e inutilmente as professoras continuavam insistindo em atormentar a minha mãe, que permanecia tentando explicar que estávamos passando por problemas familiares. Crises de ansiedade, síndrome do pânico, vários foram os transtornos com que me diagnosticaram na época.

Eu tinha pesadelos terríveis, em alguns deles perdia a minha mãe. Lembro-me de um, em que ela caia num imenso buraco negro, eu ouvia seu grito, mas não podia vê-la, era fundo e escuro, então pulei logo atrás dela tentando encontrá-la. Naquele dia acordei gritando na madrugada, um grito de pavor, meus pais entraram correndo em meu quarto, tentando entender o que estava acontecendo, mas eu mal conseguia ouvi-los e comecei a chorar desesperado, um choro doloroso, já não suportava mais aquela dor, aquela angústia.

Naquele dia, notei a preocupação no olhar do meu pai, eu não conseguia acreditar que ele me amava, mas se sentou ao meu lado e me abraçou, me acolhendo num ato protetor que jamais havia visto antes, então me acalmei. Minha mãe se sentou próximo de nós e segurou a minha mão.

- Foi apenas um pesadelo, meu amor! - Disse com o mesmo amor de sempre, mas ela estava chorando. Que motivos minha mãe tinha para chorar? Eu me perguntava, afinal ela não sabia o que eu tinha sonhado, e jamais deixaria que soubesse.

- Eu te amo, mamãe! - Falei em desespero. - Me perdoa? - Supliquei, só queria que ela não me odiasse por minha traição, por ter deixado que as coisas chegassem onde chegaram.

- Pelo que, meu amor? - Ela me olhava confusa, mas no olhar do meu pai não havia confusão, ele sabia que era o culpado.

- Eu sou um covarde! - Gritei.

- Por que está dizendo isso? - Minha mãe parecia preocupada com a minha sanidade mental, quando meu pai interferiu.

- Não, você não é! Você é um ótimo filho... - Ele me disse, e o vi chorar. Naquele momento não entendi o porquê, meus pais se entreolharam, minha mãe confusa e meu pai com pesar, com arrependimento.

- Posso conversar com ele um segundo? - Pediu para minha mãe, seu tom era suave. Ela apenas concordou sem questionar e saiu do quarto. Olhei para meu pai tentando entender, e ele enxugou suas próprias lágrimas, olhando fixamente em meus olhos. - Me perdoa, filho... Eu sei que errei com você! Não se culpe dessa forma, você não vai entender agora, mas os problemas que sua mãe e eu temos, não tem relação contigo, de forma alguma! Nós somos adultos, saberemos resolver as coisas, não precisa se sentir na obrigação de interferir.

- Por que o senhor não conta de uma vez para ela? - Supliquei, escondendo meu rosto em minhas mãos, imaginei que ele se chocaria com o meu pedido, mas não, somente colocou a mão em minhas costas.

- Ela já sabe. - Falou tranquilamente.

Ergui a cabeça para olhá-lo, incrédulo. Não pude acreditar que minha mãe sabia da verdade e ainda assim estava com ele. Meu pai pareceu perceber a confusão que assolou a minha mente naquele momento, eu era apenas um garoto, mas não era difícil entender que ninguém gostava de ser traído ou enganado.

- Eu só quero que você saiba, que independente do que aconteça, você sempre será nosso filho, amado por nós dois! - Ele disse com a voz falhando, engasgando com o choro.

- Você não me ama! - O olhei fixamente. - Nunca me amou, você não merece a minha mãe!

Pude ver o choque em sua expressão, ele perdeu as palavras quando me levantei correndo e fui ao encontro da minha mãe que estava na sala de cabeça baixa, chorando silenciosamente. Ela ergueu a cabeça para me olhar nos olhos e abriu os braços para que eu me aninhasse em seu colo.

- Não se preocupe, meu amor, tudo vai ficar bem! - Disse enquanto me envolvia num abraço apertado.

Meu pai se aproximou de longe e nos observou por um momento, ainda chorando e eu não entendia o porquê, não tinha motivos para estar triste, ele era a razão do nosso sofrimento e não o contrário. Algum tempo se passou e eu adormeci nos braços da minha mãe, quando acordei na manhã seguinte, já estava em minha cama. Olhei no rádio relógio que ficava em cima da cômoda e vi que tinha perdido a hora da escola, minha mãe não havia me chamado, me deixou descansar. Me levantei ainda sonolento indo na direção do banheiro, mas do corredor pude ouvir a voz da minha mãe, seguida pela voz do meu pai, estranhei o fato dele ainda estar em casa pois naquele horário já teria ido para o trabalho, os dois pareciam estar conversando tranquilamente, então resolvi espiar.

- Para mim, nossa família é o mais importante. - Minha mãe dizia. Notei que haviam lágrimas em seu rosto, mas também havia um leve sorriso. Ela não parecia estar chorando de tristeza, mas que motivo teria para estar chorando de felicidade? Entendi melhor quando meu pai a abraçou, aquilo não era a muito tempo algo normal de se ver. "Eles estão fazendo as pazes?" Pensei, e por um momento minha mente infantil se alegrou, voltei na direção do banheiro animado, escovei meus dentes e corri de volta para a cozinha, permitindo que eles me vissem dessa vez.

- Oh, meu amor, você está aí?! - Minha mãe disse, aguardando meu abraço. - Bom dia!

- Bom dia, filho! - Meu pai acenou de longe, com uma expressão aparentemente desconfortável, mas abriu um leve sorriso.

Forcei um sorriso de volta para ele, diante do que eu tinha visto, se minha mãe o perdoou e havia a chance de que fizessem as pazes, por que eu não poderia perdoar também? Meu pai abriu os braços e me aproximei timidamente, nos abraçamos de uma forma que eu não estava acostumado e ele sussurrou.

- Eu te amo, acredite... - Entendi que as minhas palavras na noite anterior o machucaram, ou ao menos abriram seus olhos.

Estranhamente nos sentamos todos juntos para tomar nosso café da manhã, o mesmo aconteceu durante o almoço e meu pai não foi trabalhar. Naquele dia, experimentei a sensação do que deveria ser uma família de verdade, mas no dia seguinte, meu pai foi para o trabalho normalmente e voltou arrasado por algum motivo que eu não saberia explicar.

Hoje entendo que todos os sorrisos que ele abriu a partir dali eram falsos, hoje enxergo que ele tentou voltar atrás na sua atitude e salvar a nossa família, mas que aquilo não o fazia feliz, tanto que falhou e alguns meses depois voltamos à estaca zero.

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