Rayka
Dizem que não existe lugar melhor no mundo que o nosso lar, e a cada vez que venho para Amarillo, sinto que esse ditado é verdadeiro, aqui sempre será meu lar, meu refúgio, meu porto seguro. Aproveito que estou aqui e vou dar uma volta pela cidade montada em Poseidon, meu cavalo da raça Shire, é bom poder cavalgar novamente e sentir o vento no rosto.
Essa é a primeira vez que venho para casa desde que decidi continuar morando em Boston, após a faculdade. Será lá que irei abrir um escritório de advocacia, junto com Vanessa, que prefere ser chamada apenas de Ness, Anelise, que chamamos só de Liz, e Sarah, que assim como eu, prefere não diminuir o nome. Ness e eu somos amigas desde crianças e crescemos juntas em Amarillo, ao chegarmos a Harvard, não conseguimos sermos colegas de quarto e foi assim que nos tornamos amigas de Sarah e Liz, nossas colegas de quarto respectivamente, e desde então, nosso quarteto tem sido inseparável.
No começo foi estranho morar em Boston, pois, lá o clima é mais fresco do que no Texas, sem contar que aqui era só dizer meu nome e todos já associavam ao meu pai, afinal, não tem uma pessoa no Texas ou nas redondezas que não conheça Andrew Powell, chamado de Rei do Gado, por conta das muitas fazendas que possui com gado para corte, além da fazenda em Dalhart, onde cria touros de elite para competições de rodeio.
Não foi fácil crescer com o peso da responsabilidade de ser filha dele, e como filha única, era esperado que eu fizesse alguma faculdade ligada ao ramo dos negócios do meu pai, porém, sempre gostei de defender as pessoas e por isso escolhi a faculdade de Direito, e meus pais me deram todo apoio em minha escolha.
No fundo, sei que meu pai esperava que eu abrisse um escritório aqui em Amarillo, onde ficaria sob a tutela e vistoria dele, e não nego que seria bom ficar perto da família e poder ir para a fazenda nos fins de semana, porém, em Boston, sei que minhas conquistas serão unicamente por meus esforços e isso é muito gratificante.
Como sempre acontece, perco a noção do tempo enquanto cavalgo pelos campos, só percebo que está tarde quando vejo que o sol já está se pondo no horizonte, trazendo nostalgia dos meus tempos de infância e adolescência.
Preciso voltar para casa para buscar a Liz e Sarah, que estão chegando. Tornou-se um costume anual nosso, passamos o Natal com nossas famílias e depois nos reunimos na casa de uma de nós, para a festa do Ano Novo antes de voltarmos à faculdade.
Após um banho rápido, peguei a Silverado de meu pai, é o mesmo modelo de picape que tenho em Boston, embora a minha seja preta e a do meu pai azul. Passo na casa de Ness para apanhá-la e irmos juntas ao aeroporto, como eu e Ness moramos na mesma cidade, ano sim, ano não, o encontro é aqui, e esse ano será em minha casa.
- Boa tarde Rayka. - Ness fala ao entrar na caminhonete.
Apesar do sorriso em seu rosto, a conheço tão bem quanto a mim mesma, e vejo em seus olhos que está inquieta.
- Boa tarde Ness, está tudo bem? - Pergunto enquanto dou partida.
Ness fica em silêncio, e só quando dobro a esquina, ela responde.
- Estou preocupada com a Liz.
Estranho... Quando falei com ela esta manhã, estava tudo bem, ela já estava saindo para o aeroporto. O que pode ter acontecido nas últimas horas para mudar isso?
- Por quê? Aconteceu alguma coisa?
- Sim, o Bryan não virá para casa, ele foi para Arlington.
Isso não é bom, Bryan é irmão mais velho de Ness, quando Liz veio pela primeira vez a nossa casa e o conheceu, se encantou com seu charme, eles ficaram naquela ocasião e desde então passaram a ter um relacionamento casual, sem nenhum compromisso sério. Pelo menos é assim para o Bryan, já que Liz não se envolve com mais ninguém e fica aguardando cada encontro que eles possam ter.
- A Liz já sabe disso?
- Não, ele ligou depois que ela embarcou e preferi falar pessoalmente para ela.
- Está certa, mas, você sabe que a Liz irá ficar arrasada quando souber que ele viajou. - Falo triste, por saber que minha amiga irá sofrer.
- Eu sei disso, pensei em tentar manter ele fora da conversa, pelo menos até chegar na sua casa.
- É uma boa ideia, afinal, o que Bryan está fazendo em Arlington? - Fiquei curiosa com a viagem de Bryan.
- Está junto com dois amigos do hospital, ao que parece, o primo de um mora na cidade e eles foram para uma festa que vai ter essa noite, Bryan disse à mamãe que vai ficar por lá e depois volta direto para Miami. - Puta merda, Bryan não facilita minha vida, ele nem se quer se deu conta que Liz estaria na cidade.
Bem típico de Bryan correr para uma festa, ele é assim desde o colégio e embora não me surpreenda sua atitude, me magoa o fato de ele não se importar com os sentimentos de Liz.
- Sério Ness, às vezes eu tenho vontade de arrancar o couro do seu irmão, pelo modo que ele trata a Liz.
- Calma Rayka, eu também não gosto dessa situação, mas nada de bater em meu irmão.
- Não seria a primeira vez que faço isso, por outro lado, quem sabe agora a Liz cai na real, para de se iludir e segue em frente.
- Viu, sempre tem um lado positivo em cada situação.
Chegamos ao aeroporto e após estacionar vamos para a área de desembarque, olho o painel de chegadas e partidas e vejo que o avião delas já está para pousar, menos de 15 minutos depois, já estamos todas no carro, prontas para ir para casa.
- Então Sarah, como foi na sua casa? - Pergunto.
Há dias percebemos que ela está triste, e como ela dizia que estava bem, nós não a pressionamos.
- Horrível, eu não devia ter ido para lá. - Sarah fala com a voz embargada.
Já imaginávamos que não seria fácil para ela estar lá, seu pai ficou furioso quando soube que ela não voltaria para San Diego, para cuidar da empresa da família, ele chegou até ameaçar a deserdá-la.
Porém, a ameaça só serviu para deixar Sarah mais determinada em não voltar, e por ela, nem teria ido passar o Natal em casa, foi apenas para atender ao pedido da mãe.
- O que houve Sarah? - Liz pergunta.
- Assim que cheguei, meu pai veio todo calmo dizendo que entendia que eu estava confusa e sendo má influenciada, que no fundo, eu não iria abandoná-lo e nem a empresa, quando eu falei que estava certa da minha decisão, ele virou outro homem, disse que ele pagou a melhor faculdade para que eu voltasse e cuidasse da empresa, que eu era uma decepção para ele. Que se eu continuar com essa ideia ridícula de morar em Boston, será por minha conta e risco, sem contar com nenhum centavo dele, brigar nem foi a pior parte, já estava preparada, o pior foi ele agindo como se eu não estivesse na casa, nem mesmo me dando um abraço no dia de Natal, e ainda fez questão de dizer alto para que eu ouvisse que sua única filha é Ana, que ela sim era seu orgulho e que a mesma irá estudar administração para cuidar da empresa.
Ele foi muito cruel com Sarah, ao insinuar que ela não é sua filha, ainda por cima usou a Aninha, um doce de menina, que sonha estudar literatura para trabalhar em uma editora e poder realizar seu maior sonho.
Pelo visto esse homem não conhece nada das filhas que tem e muito menos sabe respeitar as escolhas delas, espero que Aninha seja forte para lutar pelo que realmente quer e no futuro faça como Sarah, imponha suas vontades e corra atrás do que quer de verdade.
- Sarah, não consigo imaginar o quanto deve ter sido doloroso ouvir o que ele lhe disse, mas saiba que estamos aqui para lhe apoiar no que precisar, talvez quando ele ver como você estará feliz em Boston e tendo sucesso com nosso escritório, ele peça desculpa pelo modo que está agindo agora. - Ness fala.
- Obrigada Ness, mas as economias que tenho não será o bastante para entrar como sócia no escritório, preciso deixá-la reservada para conseguir pagar as prestações do apartamento até conseguir um trabalho.
Isso não é justo com ela, o projeto do escritório é um sonho das quatro, dinheiro nunca foi pauta nesta questão e não será agora que irá mudar, seremos bem-sucedidas em um futuro próximo e isso inclui todas.
- Nada disso Sarah, você fará parte da sociedade sim, não é porque seu pai não respeita suas escolhas que iremos te deixar de lado.
- A Rayka está certa, Sarah, esqueceu que somos uma por todas e todas por uma? - Liz fala.
- Está bem, obrigada a todas pelo apoio. - Sarah fala mais animada.
Rayka
- Agora vamos falar de outra coisa, Rayka quais seus planos para esses dias?
- Meu pai está preparando um delicioso churrasco a beira da piscina para hoje. - Como todo bom texano, meu pai ama um churrasco, por isso construiu uma área gourmet no subsolo de nossa casa, com uma piscina aquecida para usarmos no inverno. - E pensei em amanhã cedo irmos para a fazenda, dar uma volta por lá, e voltamos ao final do dia para a festa.
- Ah, não Rayka, você sabe que quero aproveitar esses dias para ficar com o Bryan. - Liz fala.
É claro que ela quer, olho para Ness e dou de ombros, ambas sabemos que Liz insistirá no assunto.
- Quanto a isso Liz, o Bryan não virá para Amarillo, ele decidiu passar o feriado em Arlington. - Ness fala.
- Não acredito que ele fez isso. - Liz fala, olho pelo retrovisor a tempo de vê-la limpando uma lágrima.
- Não chore Liz, ele não merece suas lágrimas, se ele fosse digno delas, não lhe faria chorar, vamos, levante a cabeça, você é uma mulher forte e merece ao seu lado um homem que lhe admire e lhe faça sentir ainda mais forte. - Falo.
- Na teoria isso é lindo, mas acontece que eu amo o Bryan e é com ele que quero ficar, só o que preciso é ter paciência com ele.
Realmente o amor cega as pessoas, como amiga, só o que posso fazer é dar meu conselho e deixar que ela escolha o melhor para si.
- Se pensa assim, vou respeitar sua escolha, mas como alguém que cresceu sendo vizinha dele, digo que Bryan e namoro não combinam na mesma frase. - Falo a verdade e espero que ela mude seu pensamento.
- Quem é você para falar sobre isso? Não tem um namoro sério há anos por medo, já que o último queria ter várias amantes assim como seu pai.
As palavras de Liz me machucam e me enfurecem, não pelo que falou de meus namoros, mas por ter colocado meu pai no meio, pois, ela sabe que não gosto que se refiram a meu pai dessa forma.
Sei que a vida amorosa dele não é o que se chama de comum, ele é casado com minha mãe e ambos são felizes, minha mãe diz que não se importa de meu pai sair com outras e até propôs um acordo há muitos anos, entre as regras, estão que meu pai não pode ter filho com nenhuma delas, para isso ele fez uma vasectomia e a cada quatro meses, faz um exame para garantir que está tudo certo, ele também não pode sair com ninguém de nossa cidade e nem trazê-las para nosso convívio.
Há sete anos meu pai foi ao Brasil para a Copa Mundial de Montaria e também para conversar sobre o projeto do Iron Cowboy, que teve o seu início no ano de 2010 e foi quando ele conheceu a Nicole e iniciou um relacionamento sério com ela. Meu pai sempre foi sincero com Nicole, dizendo que é casado e que não pretende largar a esposa e ela aceitou na boa poder ficar com ele apenas quando estivesse no Brasil e assim eles mantêm um namoro até hoje. Com o tempo, eu acabei me tornando amiga dela, que é uma pessoa gentil e ótima designer, já ficou até combinado que ela fará o projeto para nosso escritório.
Sei que Liz está chateada e até posso aceitar ela me atacar após o que falei, mas isso não justifica envolver meu pai e seu acordo com minha mãe. Para não causar um acidente, encosto o carro e me viro para trás, a fim de respondê-la olhando em seus olhos.
- Em primeiro lugar, se quer atacar alguém, ataque a mim, mas não fale do meu pai, pois, você sabe bem que a Nicole é namorada dele e não amante, então, não se refira a ela dessa forma.
Amante para mim é uma pessoa que só quer destruir uma relação e não tem sentimento verdadeiro ali.
- Em segundo, se eu não tenho namorado, é porque não quero, prefiro ficar sozinha a ser feita de objeto por um cara sem noção e irei esperar até encontrar um homem que me respeite para ter um relacionamento sério.
Só não sei onde encontrar um.
- E quanto a sua pergunta sobre quem sou, sou sua amiga com quem você divide um dormitório a mais de 6 anos, sou alguém que se preocupa com você, que não quer lhe ver sofrendo por ter seus sentimentos feridos por alguém que não te valoriza. E por fim, mas não menos importante, eu peço que não desconte em nós sua raiva do Bryan, pois, não temos culpa do que está acontecendo, tendo em vista o tempo que está com ele, é mais do que suficiente para saber que ele não pretende mudar.
Assim que termino de falar, me viro e me apoio no volante, se tem uma coisa que odeio é brigar com as meninas, não é fácil nossa convivência, onde cada uma tem uma personalidade diferente, mas fazemos nosso melhor, e por isso quando temos algum problema, sentamos e conversamos até tudo se resolver.
- Rayka. - Liz chama depois de um tempo e me viro para ela. - Desculpe-me pelo que falei.
Sei que uma hora teremos que conversar sobre esse assunto, mas agora não é o lugar e nem o momento para isso, sem contar que sei que Liz está fragilizada com sua situação com Bryan.
- Só vamos esquecer essa história e aproveitar esses dias antes de voltar para Harvard, está bem? - Falo com um sorriso.
- Está bem.
Ligo o carro novamente e continuo a dirigir até em casa, sem saber como animar o clima.
- Vocês não acreditam quem me ligou essa tarde. - Ness fala.
- Quem? - Sarah pergunta.
- Com certeza uma mulher, você é pura demais para um homem te ligar. - Falo rindo e fazendo todas rirem junto.
De nosso grupo, Ness é a única que ainda não teve sua primeira vez, pois, quer esperar pelo casamento por amor a sua alma gêmea. Eu, quando mais nova, até pensava igual a ela, mas mudei de ideia depois de namorar por dois anos com Kaleo, eu gostava muito dele e por essa razão me entreguei. Nosso namoro não durou após o fim do colegial, eu fui para Boston e ele para Austin, ficou difícil de nos vermos devido à distância e a quantidade de matérias que tínhamos para estudar, e então descobri a traição e tudo acabou.
Foi inclusive seu irmão mais velho Kaneki, um excelente cowboy, que trabalha na fazenda de meu pai, que me ensinou a montar em touros, eu era muito boa, mas como esse ramo é extremamente machista, isso sempre foi só um hobby meu.
- Muito engraçadinha você. Quem me ligou foi a Anne. - Ness fala.
Anne é assistente do escritório de advocacia em que todas nós fazemos estagio. Ela é uma mulher inteligente, porém muito rígida quando o assunto é trabalho, exigindo perfeição dos estagiários.
- O que ela queria com você? - Liz pergunta.
- Ela está fazendo um inventário de todos os casos que o escritório teve esse ano, e me ligou para dizer que o relatório que fiz do caso 2016.1110-95, está insatisfatório, pois foi pouco detalhista. - Ness explica.
- Afinal ela queria um relatório ou uma transcrição do caso? - Sarah pergunta.
- Não sei, acho que ela queria que eu escrevesse o crime com exatidão. - Ness fala.
- Afinal que caso foi esse? - Liz pergunta.
- Foi do assassinato da autora Julia Ashley, uma moça chamada Layana Rayssa, surtou após a autora matar seu personagem preferido em um livro e então invadiu a casa da mulher e a matou da mesma forma que o personagem havia morrido. O júri considerou o crime como premeditado e ela foi condenada à prisão perpétua. - Ness conta.
- Nessas horas agradeço por ter escolhido ser advogada e não escritora, esses leitores são malucos e perdem a razão por causa de um personagem ou por causa de um livro. - Falo rindo.
Finalmente chegamos a minha casa, estaciono a caminhonete e entramos, vamos em direção as escadas para que as meninas deixem suas malas em meu quarto e colocarmos nossos biquínis.
Assim que entramos no meu quarto, encontro dona Jaqueline, ela trabalha para meus pais desde que se casaram e se tornou minha babá quando nasci, para mim ela é como uma segunda mãe e lhe tenho muito amor e carinho.
Observo que ela está terminando de arrumar a cama, meu pai exagerou ao comprar uma cama gigantesca com quase quatro metros de largura. Por conta dessa extravagância dele, quando as meninas vêm, ficamos todas na minha cama.
- Boa noite, meninas, e sejam bem-vindas. - Dona Jaqueline fala.
- Obrigada dona Jaqueline. - Ness fala.
- Rayka, seu pai pediu para avisá-la que ele lhe espera na caverna. - Dona Jaqueline me informa.
- Está bem, vamos só nos trocar e já descemos. - Falo.
Ela sai do quarto e vou até o closet pegar um biquíni, acabo escolhendo um modelo de babados azul claro, e assim que todas estamos vestidas, descemos para a caverna, que é como meu pai se refere a área gourmet interna.
Rayka
Eu e as meninas ficamos na piscina, a discussão no carro é esquecida enquanto rimos e brincamos, quando a carne fica pronta, saímos da piscina e colocamos os roupões para sentar à beira da mesa.
Meu pai caprichou na refeição que consiste em Beef Brisket e Pulled Pork acompanhados de macarrão com queijo, purê de batata e pickles. Para sobremesa temos um Banana Pudding e sorvete de baunilha.
Após o jantar voltamos para meu quarto e depois de tomarmos um banho quente e colocar uma roupa confortável, deitamos na cama para ver um filme, coloco o filme Lobos com Jason Momoa como vilão, eu amo esse ator e ainda não tive chance de assistir esse filme
- Oh, lá em casa. - Falo ao final do filme. - Desse lobo mau, eu com toda certeza quero ser a chapeuzinho.
- Já sabemos qual o tipo de homem procurar para ser namorado da Rayka, um cara mais velho, que seja bem alto, com cabelo comprido e cara de bravo. - Sarah fala.
- Descrição perfeita, se achar um assim, pode entregar meu endereço. - Falo fazendo todas rirem.
Sarah pega o controle para escolher o segundo filme, depois de um tempo procurando, ela escolhe o filme Deuses do Egito com Gerard Butler no papel do vilão.
- Poxa meninas com uns vilões lindos assim fica difícil torcer para os mocinhos. - Falo quando Gerard aparece como o impiedoso Set.
Escuto meu celular tocar e ao ver quem está ligando, meu sorriso some na hora, eu não acredito que Bryan teve coragem de ligar para mim, ele deve saber que irei arrancar o coro dele por ter magoado a Liz.
Rejeito a ligação discretamente para que ninguém veja, principalmente a Liz, não estou a fim de falar com ele hoje e muito menos causar mais estardalhaço com a ida dele para Arlington e esquecendo de convidar minha amiga para ficar com ele.
Bryan torna a ligar e recuso novamente e puta merda ele não se toca, ele volta a ligar uma terceira vez, pelo visto ele não irá desistir e talvez possa ser algo grave, pauso o filme e atendo de uma vez.
- O que você quer? - Pergunto.
- Boa noite para você também, Rayka. - Bryan fala rindo.
- Fala logo o que quer antes que eu desligue.
Vejo que as meninas estão me olhando para saber com quem estou falando e pelo olhar de Ness, acho que ela já desconfia quem seja.
- Você me ama e não faria isso.
Ele só pode querer me irritar, mas não estou a fim de perder meu tempo com ele, prefiro continuar vendo o filme e babando pelo Gerard. Desligo na cara dele, sem nem responder.
Mal pego o controle e o celular volta a tocar, Ness começa a rir, provavelmente porque minha expressão não está das mais amigáveis.
- Vai ficar me atormentando a noite toda?
- Nossa que mal humor todo é esse?
- Jura que não sabe idiota? Só fala de uma vez o que quer e me deixa em paz.
- Ok. Ok. Já vi que está de TPM, enfim, te liguei, pois, Ness não atende o telefone e preciso conversar com ela, você sabe onde ela está?
Como assim? Não acredito que ele possa ter esquecido que eu e as meninas nos reunimos, ele não pode ser tão idiota assim, pensando bem é idiota a esse ponto mesmo.
- Ela está aqui do lado, vou passar o telefone. - Entrego o celular pra Ness e falo alto. - Seu irmão definitivamente é um idiota.
Como o telefone não está no viva-voz, só podemos ouvir o que Ness fala.
- O que você quer Bryan?
- Por que iríamos para Arlington?
O quê? Por que ele nos quer lá?
- Vou colocar no viva-voz e você explica isso para as meninas. - Ness revira os olhos e suspira fundo. - É Bryan, estamos todas juntas, como acontece todo ano antes do Ano Novo há 6 anos. - E assim confirmamos que ele esqueceu.
Ness ativa o viva-voz e afasta o celular dela.
- Boa noite Liz e Sarah. - Bryan fala.
Noto os olhos de Liz brilhando quando ele diz o nome dela, como ela se contenta com tão pouco vindo dele?
- Boa noite. - Elas respondem juntas.
- Então, eu liguei para fazer o convite a Ness e Rayka, mas como estão juntas, o convite vale para todas as quatro. Eu estou com dois amigos em Arlington e o primo de um deles foi desafiado para montar amanhã em um touro que nenhum cowboy conseguiu montar. - Isso certamente será interessante de ver. - Eu sei que a Rayka adora esse tipo de evento, por isso liguei, então o que me dizem de virem e passarem a virada por aqui?
- Olha Bryan, nós vamos conversar entre nós e se decidirmos ir, te avisamos. - Falo e desligo o telefone. - Então o que vocês acham?
Só de olhar para Liz, sei que ela está louca para ir e ficar com Bryan e isso me deixa triste, pois ela é melhor do que isso, ela merece mais que pequenos e meros momentos. Quanto a mim, não posso negar que fiquei curiosa para ver esse touro, que provavelmente não faz parte do circuito da PBR, já que não tem nenhum que seja invencível assim, até mesmo os touros de meu pai já sofreram algumas paradas.
- Vocês sabem que por mim, nós vamos. - Liz fala dando de ombros.
- Por mim o importante é estar com minhas amigas durante a virada para o novo ano, o lugar é o de menos. - Sarah fala.
- Não nego que adoro ver um rodeio e quero muito ver esse tal touro invencível que Bryan falou. - Falo com certa empolgação.
- Assim como Sarah, eu também não me importo de ir, e podemos tornar essa viagem uma boa aventura antes da formatura e antes de embarcarmos em nossa futura rotina profissional em busca de reconhecimento.
- Certo, vamos a Arlington então, irei pedir ao meu pai se podemos usar o jatinho dele, porque será bem mais rápido do que conseguir um voo comercial de última hora, e de lá mesmo seguimos de volta à faculdade.
Elas se levantam empolgadas já iniciando os preparativos para nossa viagem, saio do meu quarto e vou até o quarto de meus pais, bato na porta, ouço meu pai dizendo para entrar.
- Rayka, está tudo bem filha? - Minha mãe pergunta ao me ver.
- Está sim, é que o Bryan acabou de ligar nos chamando para encontrar ele em Arlington, e gostaria de saber se podemos usar o jatinho.
- Filha, claro que pode. - Meu pai fala sorrindo. - Mas só por curiosidade, o que vocês vão fazer em Arlington?
- Vai ter um desafio de montaria lá. - Falo.
- Rayka Griffin Powell, não me diga que você está pensando em ir lá montar. - Minha mãe fala brava.
Por mais tentador que seja a ideia, já faz anos que não monto e nunca fiz isso em público.
- Claro que não. Eu só quero ir, pois o Bryan disse que é um touro invencível e quero ver isso, é apenas curiosidade mesmo.
- O desafio do Richard. - Meu pai fala em tom desgostoso.
Não me recordo desse nome, mas pelo jeito que meu pai ficou, não deve ter boa relação com esse homem.
- Quem é ele? - Pergunto.
- Richard Rivera é um criador de touros de montaria, há alguns anos tentou se filiar à PBR, mas recusei a entrada dele, pois, os métodos que ele usa para treinar os touros são cruéis demais.
Agora entendo o desgosto de meu pai, ele sempre defendeu que não é preciso maltratar um touro para fazer dele um bom touro de montaria, pois é algo que está no DNA do animal, só precisa ser treinado para dar um lindo show. Por isso a PBR só aceita tropeiros que sigam esse conceito. E o pior é que por contas de alguns como esse tal de Richard, que o rodeio leva fama de maltratar animais.
- Depois disso ele começou a frequentar os rodeios clandestino e então começou a circular o boato que um de seus touros não deixa nenhum cowboy montado por mais de 5 segundos, e há seis meses ele vem desafiando qualquer cowboy que aceite montar no touro, prometendo pagar 2 milhões para quem ficar os 8 segundos. - Meu pai explica.
É um prêmio bem tentador, imagino quantos já não tentaram.
- Andrew, não foi esse touro que quase matou um cowboy esses dias? - Minha mãe pergunta.
- Foi sim, Dulce, ele deu um pulo e caiu de costas sobre o cowboy, o pobre rapaz escapou por pouco da morte.
- Essa coisa de montar é muito perigosa, deveria ser proibido. - Minha mãe fala.
Apesar de amar meu pai e respeitar sua paixão pelos rodeios, minha mãe nunca entendeu a emoção que existe na montaria, quando tudo se resume em 8 segundos. Ao vê-la dizendo isso, me recordo do sermão que levei quando ela descobriu que eu estava montando na fazenda, ainda posso ouvir os gritos que ela deu. Ela queria até que meu pai despedisse Kaneki por ter me ensinado a montar, só não conseguiu esse feito, pois meu pai sabia que era minha escolha montar e que Kaneki não poderia me impedir, só garantir que eu não me machucasse.
- Dulce já falamos sobre isso, viver em si já é arriscado, não é culpa do touro, ele apenas aprendeu a ver o homem como um inimigo, como algo que lhe trará dor.
Já sei que essa conversa vai render horas e não quero estar no meio dela, porque sei que no fim vai acabar sobrando para mim e não estou a fim de me complicar hoje.
- Eu vou voltar para as meninas, pode deixar que eu mesma ligo para o James e aviso sobre a viagem. Boa noite, pai, boa noite mãe. - Falo.
- Boa noite princesa. - Meu pai fala.
- Boa noite filha, e tenha juízo nessa viagem. - Minha mãe fala.
- Eu sempre tenho mãe. - Falo ao sair do quarto.
Ao entrar no meu quarto não vejo as meninas, porém escuto suas risadas vindo do closet e vou até lá, encontro as 3 provando minhas botas e acho graça da empolgação delas ao escolher as que vão usar.
- Posso saber o que está acontecendo aqui? - Pergunto me fazendo ser notada e assustando Sarah.
- Oi Rayka, já que vamos a um rodeio, devemos ir devidamente vestidas, mas nós não temos esse tipo de roupa aqui, só você tem. - Liz fala.
- Fiquem à vontade para explorar meu closet, só não peguem a bota marrom de cano médio com franjas, pois irei usar ela.
- Tudo bem, isso nos deixa com quantas para escolher? Umas 15? - Ness perguntou rindo
Ness sabe muito bem que tenho paixão por botas, por mim teria muito mais, porém tento me controlar.
- Para sua informação, eu não tenho 16 botas em meu closet, tenho 18 entre botas e coturnos, isso sem contar as 5 que tenho em Boston. E enquanto vocês se divertem vou ligar para o piloto e garantir nosso voo a Arlington, além de bons quartos no hotel.
Deixo-as ali e me sento na cama para fazer as ligações.