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986 Noites de Traição

986 Noites de Traição

Autor:: Jiang Mu
Gênero: Romance
Por 986 noites, a minha cama de casal não foi só minha. Meu marido, Caio Alcântara, herdeiro de um império imobiliário de São Paulo, era assombrado por um fantasma. E a irmã desse fantasma, Isabela, era o meu tormento. Toda noite, ela arranhava nossa porta, dizendo que tinha pesadelos, e Caio a deixava entrar, arrumando um edredom para ela no nosso quarto. Uma noite, Isabela gritou, apontando para mim: "Ela tentou me matar! Entrou no meu quarto enquanto eu dormia e me sufocou!" Caio, sem pensar duas vezes, berrou comigo: "Juliana! O que você fez?" Ele nem sequer olhou para mim, não quis ouvir a minha versão. Mais tarde, ele tentou se desculpar com um macaron, meu favorito, de pistache. Mas estava recheado com pasta de amêndoa, ao qual eu tinha uma alergia mortal. Enquanto minha garganta se fechava e minha visão escurecia, Isabela gritou de novo, fingindo um ataque de pânico por causa de comentários na internet. Caio, diante dos meus suspiros de morte e da histeria falsa dela, a escolheu. Ele a carregou para longe, me deixando sozinha para me salvar. Ele nunca voltou ao hospital. Mandou seu assistente me dar alta. Quando voltei para casa, ele tentou me acalmar, mas depois me pediu para dar o último presente do meu pai, meu órgão de perfumes, para Isabela, para o "estúdio de design" dela. Eu recusei, mas ele o levou mesmo assim. Na manhã seguinte, Isabela "acidentalmente" quebrou um frasco do perfume personalizado do meu pai, a última coisa física que eu tinha dele. Eu olhei para Caio, com as mãos sangrando, o coração em pedaços. Ele puxou Isabela para trás de si, protegendo-a de mim, com a voz gélida: "Já chega, Juliana. Você está histérica. Está perturbando a Isabela." Naquele momento, a última gota de esperança morreu. Para mim, tinha acabado. Aceitei uma oferta para ser perfumista chefe na França, renovei meu passaporte e planejei minha fuga.

Capítulo 1

Por 986 noites, a minha cama de casal não foi só minha.

Meu marido, Caio Alcântara, herdeiro de um império imobiliário de São Paulo, era assombrado por um fantasma. E a irmã desse fantasma, Isabela, era o meu tormento. Toda noite, ela arranhava nossa porta, dizendo que tinha pesadelos, e Caio a deixava entrar, arrumando um edredom para ela no nosso quarto.

Uma noite, Isabela gritou, apontando para mim: "Ela tentou me matar! Entrou no meu quarto enquanto eu dormia e me sufocou!"

Caio, sem pensar duas vezes, berrou comigo: "Juliana! O que você fez?" Ele nem sequer olhou para mim, não quis ouvir a minha versão.

Mais tarde, ele tentou se desculpar com um macaron, meu favorito, de pistache. Mas estava recheado com pasta de amêndoa, ao qual eu tinha uma alergia mortal.

Enquanto minha garganta se fechava e minha visão escurecia, Isabela gritou de novo, fingindo um ataque de pânico por causa de comentários na internet. Caio, diante dos meus suspiros de morte e da histeria falsa dela, a escolheu. Ele a carregou para longe, me deixando sozinha para me salvar.

Ele nunca voltou ao hospital. Mandou seu assistente me dar alta. Quando voltei para casa, ele tentou me acalmar, mas depois me pediu para dar o último presente do meu pai, meu órgão de perfumes, para Isabela, para o "estúdio de design" dela.

Eu recusei, mas ele o levou mesmo assim. Na manhã seguinte, Isabela "acidentalmente" quebrou um frasco do perfume personalizado do meu pai, a última coisa física que eu tinha dele.

Eu olhei para Caio, com as mãos sangrando, o coração em pedaços. Ele puxou Isabela para trás de si, protegendo-a de mim, com a voz gélida: "Já chega, Juliana. Você está histérica. Está perturbando a Isabela."

Naquele momento, a última gota de esperança morreu.

Para mim, tinha acabado.

Aceitei uma oferta para ser perfumista chefe na França, renovei meu passaporte e planejei minha fuga.

Capítulo 1

Era a noite de número 986.

Por 986 noites, a minha cama de casal não foi só minha. Na verdade, nunca tinha sido nossa.

O som começou fraco, um arranhão suave na porta de mogno do nosso quarto. Era um som que eu conhecia melhor que as batidas do meu próprio coração.

Meu marido, Caio Alcântara, se mexeu ao meu lado. Ele era o herdeiro de um império imobiliário de São Paulo, um homem cujo nome estava gravado em metade dos arranha-céus da Faria Lima. Mas, naquele quarto, ele era apenas um homem assombrado por um fantasma.

"Juliana", ele sussurrou, a voz pesada de sono e de um pavor familiar e cansado. "Ela está aqui."

Eu não respondi. Apenas mantive os olhos fechados, fingindo dormir. Era uma defesa inútil que eu tinha aperfeiçoado nos últimos três anos.

A porta rangeu ao se abrir.

Uma figura pequena, envolta em um robe de seda que pertencera à noiva falecida de Caio, Eleonora, entrou sorrateiramente. Era Isabela Matarazzo, a irmã mais nova de Eleonora. Minha cunhada por afinidade, meu carrasco na realidade.

Ela agarrava um travesseiro com detalhes de renda contra o peito. Era o travesseiro de Eleonora. Isabela dizia que era a única coisa que a ajudava a dormir, a única coisa que afastava os pesadelos da morte da irmã.

Na primeira vez que ela fez isso, quase três anos atrás, eu gritei. Caio ficou furioso, não comigo, mas com ela.

"Isabela, isso é inaceitável", ele dissera, a voz firme enquanto se colocava entre ela e nossa cama. "Este é o quarto da minha esposa. O nosso quarto."

Ele a tinha expulsado e, no dia seguinte, cortado seus cartões de crédito.

Naquela noite, Isabela teve um ataque de pânico tão severo que Caio teve que chamar uma ambulância. Os médicos disseram que o estresse pós-traumático dela havia sido perigosamente acionado.

Na noite seguinte, o arranhão na porta voltou.

Desta vez, Caio não a mandou embora. Ele suspirou, um som pesado de culpa, e saiu da cama.

"Só por hoje, Ju", ele me implorou. "A ansiedade dela está nas alturas."

Ele havia colocado um edredom e um travesseiro novos no divã no canto do nosso quarto.

Hoje à noite, como em todas as noites nos últimos 985 dias, ele fez o mesmo. Levantou-se da nossa cama, o colchão se movendo com seu peso, e foi até o armário pegar a roupa de cama que agora mantinha pronta para ela. Ele nem olhava mais para mim. Sabia que eu estava acordada. Ele apenas escolhia ignorar.

Isabela o observava com olhos grandes e marejados, um retrato perfeito de uma garota frágil e quebrada. Ela tinha vinte e três anos, mas interpretava o papel de uma criança aterrorizada.

Eu costumava sentir alguma coisa. Raiva. Humilhação. Desespero. Agora, eu só sentia um frio profundo e oco. O amor que eu tinha por Caio, antes um fogo ardente, era agora um leito de brasas moribundas.

Ele a conduziu gentilmente até o divã, ajeitando o edredom ao redor dela.

"Está tudo bem, Bela", ele murmurou, a voz suave, a voz que ele raramente usava comigo. "Você está segura aqui."

Ela agarrou a mão dele. "Caio, eu tive aquele sonho de novo. O acidente. A Eleonora... ela estava me chamando."

Eu ouvi a mentira. Já a tinha ouvido mil vezes. Mas Caio, ele ouvia o eco de sua própria culpa.

Eleonora havia morrido em um acidente de carro cinco anos atrás, empurrando-o para fora do caminho de um caminhão que vinha em alta velocidade. Ela salvara a vida dele e, ao fazer isso, o acorrentara à sua memória para sempre. A culpa dele era a corrente, e Isabela segurava a chave.

Ele se ajoelhou ao lado dela, acariciando seu cabelo. "Eu estou aqui. Prometi a Eleonora que sempre cuidaria de você. Não vou deixar nada te acontecer."

As palavras dele eram uma lâmina familiar se retorcendo em meu estômago. Ele era meu marido. Tinha feito votos a mim. Mas sua promessa a uma mulher morta sempre vinha primeiro.

Finalmente abri os olhos e me sentei, a seda da minha camisola estranha contra a minha pele. "Caio."

Ele se encolheu, virando-se para me olhar. Na luz fraca do corredor, pude ver o conflito em seus olhos. Ele me amava, ou pelo menos, dizia que sim. Mas ele era fraco, e Isabela havia se aproveitado dessa fraqueza até que ela se tornasse a característica definidora do nosso casamento.

"Juliana, por favor", ele implorou. "Hoje não. Ela não está bem."

Eu não olhei para Isabela. Não conseguia. Olhei para o homem com quem me casei, o homem que uma vez me olhou como se eu fosse o sol. Agora, eu era apenas uma complicação em sua penitência.

Lembrei-me do dia do nosso casamento. Ele segurou minhas mãos e me disse: "Você é minha segunda chance, Juliana. Você trouxe a luz de volta para a minha vida."

Eu acreditei nele. Pensei que meu amor poderia curá-lo. Fui uma tola. Ele não queria cura. Ele queria uma substituta para Eleonora, e eu, com meu cabelo loiro parecido e meu jeito quieto, me encaixei no papel. Quando ficou claro que eu era eu mesma, não um fantasma, Isabela começou seu cerco.

Ela começou com coisas pequenas. "Acidentalmente" derramando vinho tinto no meu vestido de noiva, que ela pedira para ver. "Esquecendo" da minha alergia severa a frutos do mar e servindo-os em um jantar de família. Me incriminando pelo roubo de uma joia de família. Todas as vezes, Caio ficava bravo, então Isabela tinha um colapso, e ele a perdoava, implorando para que eu fizesse o mesmo pelo bem de seu "frágil estado mental".

Saí da cama e fui para o banheiro, meus pés frios no mármore. Fechei a porta, o clique da fechadura um pequeno e patético ato de desafio.

Apoiei-me na pia, meu reflexo uma estranha pálida e cansada. Eu não podia continuar assim.

Peguei meu celular. Um e-mail estava na minha caixa de entrada, não lido pela terceira vez. Era uma oferta de Heitor Solomon, o dono de uma lendária casa de perfumes em Grasse, na França. Ele tinha sido jurado em uma competição que participei antes de me casar com Caio. Ele disse que meu talento era geracional. A oferta era para uma posição como perfumista chefe. Era uma tábua de salvação.

Minha fuga.

Meu dedo pairou sobre o botão "aceitar". Eu só precisava ser corajosa o suficiente para pressioná-lo.

De repente, um grito agudo rasgou o silêncio do quarto.

"Aaaah! Sai de cima de mim!"

Meu coração parou. Abri a porta do banheiro com força e voltei correndo.

Isabela estava no chão, se debatendo, as mãos arranhando a própria garganta. Ela olhava diretamente para mim, os olhos arregalados com um medo aterrorizante e teatral.

"Foi ela!", Isabela gritou, apontando um dedo trêmulo para mim. "Ela tentou me matar! Entrou aqui enquanto eu dormia e me sufocou!"

Eu congelei, minha mente lutando para processar a mentira descarada. Eu estava no banheiro.

Caio já estava ao lado de Isabela, o rosto uma máscara de pânico e fúria. Ele nem sequer olhou para mim para ouvir a minha versão. Ele apenas me olhou com pura decepção.

"Juliana! O que você fez?", ele gritou, a voz falhando.

"Nada!", eu disse, minha voz tremendo. "Caio, eu estava no banheiro. Você sabe que eu estava."

Isabela começou a soluçar, grandes suspiros teatrais. "Ela me odeia porque eu pareço a Eleonora! Ela quer apagar qualquer vestígio dela da sua vida!"

Caio a pegou no colo, segurando-a como uma boneca quebrada. Ele me fuzilou com o olhar por cima do ombro dela, os olhos frios.

"Peça desculpas a ela", ele disse, a voz baixa e perigosa.

"O quê?", sussurrei, a incredulidade me dominando.

"Eu disse, peça desculpas. Agora." Ele embalava Isabela, acalmando-a, enquanto seu olhar me condenava.

Naquele momento, vendo-o proteger minha algoz, a última brasa do meu amor por ele finalmente se apagou. Não foi um piscar. Foi uma morte instantânea e silenciosa, deixando nada além de cinzas frias e duras.

Capítulo 2

O som da porta da frente se fechando ecoou pela cobertura silenciosa. Caio levara Isabela para o pronto-socorro, por precaução. Era uma rotina que ele conhecia bem. Meu coração, que deveria estar acelerado de raiva, parecia estranhamente calmo. Era a calma de um campo de batalha depois que a guerra está perdida.

Esta casa, nossa casa, parecia um museu de uma vida que nunca foi realmente minha. As pinturas nas paredes eram as favoritas de Eleonora. O piano de cauda na sala de estar era o que ela costumava tocar. Até o cheiro dos lírios que a governanta colocava no vaso todas as manhãs era a flor preferida dela.

Voltei para o quarto principal. O edredom que Caio havia estendido para Isabela estava amassado no chão. O travesseiro de renda dela, o travesseiro de Eleonora, ainda estava no divã, um monumento arrogante à sua vitória.

A ordem de Caio da noite anterior pairava no ar. "Peça desculpas." Ele não acreditou em mim. Ele nunca acreditava.

Ele também me deu um castigo antes de sair. "Limpe este quarto. E quando eu voltar, quero ver que você jogou fora todos esses seus óleos com cheiro barato. O cheiro dá dor de cabeça na Isabela."

Meus perfumes. Meu trabalho. Minha paixão. Ele os chamava de óleos com cheiro barato.

Fui até o meu órgão de perfumes, uma bela escrivaninha em camadas que continha centenas de pequenos frascos de óleos essenciais e absolutos. Era o meu santuário. Um presente do meu pai, um perfumista, antes de falecer.

Minhas mãos tremiam enquanto eu começava a guardá-los, não para jogar fora, mas para salvá-los. Cada frasco continha uma memória, um pedaço da minha alma. Eu não podia deixar que ele destruísse isso também.

Terminei quando o sol começou a nascer. Eu estava exausta, mas não conseguia descansar. Precisava encontrar Caio. Precisava ver o rosto dele quando não estivesse sob o feitiço de Isabela. Uma parte pequena e estúpida de mim ainda esperava que ele percebesse seu erro.

Liguei para o celular dele. Caiu direto na caixa postal. Liguei para o hospital. A enfermeira disse que o Sr. Alcântara esteve lá, mas saiu horas atrás com a cunhada, que estava perfeitamente bem.

Uma sensação de enjoo revirou meu estômago. Verifiquei um site de fofocas de celebridades no meu celular, meus dedos tremendo.

Lá estava. Uma foto, com a hora marcada de apenas uma hora atrás. Caio e Isabela, não no hospital, mas em uma confeitaria exclusiva que funcionava a noite toda no centro. Ele estava sorrindo, dando um croissant na boca dela, seus olhos cheios do carinho gentil que ele antes reservava para mim. A legenda dizia: "Magnata imobiliário Caio Alcântara mima sua frágil cunhada Isabela Matarazzo após um susto de saúde tarde da noite. Será que tem algo a mais nessa história?"

As empregadas começaram a se mover pela cobertura, seus sussurros me seguindo. Eu podia sentir a pena delas. A Sra. Alcântara, a mulher que tinha que limpar o próprio quarto enquanto o marido estava em um encontro público com a irmã da noiva falecida. A humilhação era um peso físico.

Coloquei as caixas embaladas com meus óleos de perfume perto do elevador de serviço, dizendo ao mordomo que eram doações. Era uma mentira, mas era a única maneira de tirá-los da casa em segurança. Um amigo os pegaria mais tarde.

Eu estava limpando as últimas coisas que compartilhávamos de um armário quando Caio finalmente chegou em casa. Ele me encontrou segurando um álbum de fotos da nossa lua de mel.

"O que você está fazendo, Ju?", ele perguntou, a voz suave, como se nada tivesse acontecido.

"Limpando", eu disse, minha voz sem emoção. Joguei o álbum em um grande saco de lixo. "Me livrando do lixo."

"Lixo?" Ele pareceu magoado. "São as nossas memórias."

Isabela apareceu atrás dele, agarrada ao seu braço como uma trepadeira. "Caio, minha cabeça ainda dói. Você pode me fazer um chá?"

Ela olhou para mim, seus olhos brilhando com triunfo. Ela usava um de seus caros suéteres de caxemira, que ficava grande em seu corpo pequeno, fazendo-a parecer ainda mais infantil e vulnerável.

"Em um minuto, Bela", disse Caio, os olhos ainda em mim. Ele parecia genuinamente confuso com a minha frieza.

"Mas eu preciso agora", ela choramingou, o lábio inferior tremendo. "O médico disse que preciso ficar calma."

Ele suspirou, dividido. Era uma visão patética. Ele se virou para ir com ela, depois parou. "Conversamos mais tarde, Juliana."

Eu não disse nada. Apenas os observei se afastarem, o braço dele protetoramente em volta dela. Arrastei o saco de lixo cheio de nossas "memórias" para o duto do incinerador e o joguei sem pensar duas vezes.

Mais tarde naquela noite, ele me encontrou na biblioteca. Ele me trouxe um pequeno prato de macarons da mesma confeitaria que levara Isabela.

"Uma oferenda de paz", ele disse, um sorriso charmoso no rosto.

Olhei para o prato. "Você pediu desculpas a ela?"

O sorriso dele vacilou. "Juliana, não vamos falar sobre isso. Foi uma noite estressante para todos."

"Ela me pediu desculpas?", insisti, minha voz ainda baixa. "Por mentir? Por me acusar de tentar matá-la?"

"Ela não está bem", ele disse, a desculpa familiar soando oca até para seus próprios ouvidos. "Você sabe do estresse pós-traumático dela... ela fica confusa. Acha que está em perigo."

"Então você me puniu pela ilusão dela."

"Eu não te puni", ele disse, a voz subindo em frustração. "Eu só pedi para você ser compreensiva com a condição dela. Eu a deixei de castigo, sabia? Ela não pode fazer compras por uma semana inteira."

Uma semana inteira. O castigo era tão risível, tão insultuoso, que uma risada seca e sem humor escapou dos meus lábios. No corredor, eu podia ver Isabela deitada em um sofá, mexendo no celular, sem nenhuma preocupação no mundo.

"Entendo", eu disse, minha voz pingando sarcasmo. "Como ela vai sobreviver?"

Peguei um dos macarons do prato. Era de pistache, meu favorito. Um sabor que ele lembrava. Por um momento, um vislumbre do antigo Caio pareceu estar ali. Coloquei na boca.

O sabor era perfeito. Doce, com nozes, delicado.

E então a coceira começou.

Minha garganta começou a fechar. Minha pele explodiu em urticária. Minha respiração veio em chiados irregulares e em pânico.

Pistaches. Eu não era alérgica a eles.

Mas eu era severa e fatalmente alérgica a amêndoas. E este macaron, esta oferenda de paz, estava recheado com pasta de amêndoa.

Os olhos de Caio se arregalaram de horror ao ver meu rosto inchar, minha pele ficar vermelha. "Juliana! Meu Deus, Juliana!"

Ele se atrapalhou para pegar o celular e ligar para o 192. No mesmo momento, Isabela soltou um grito agudo do corredor.

"Caio! A internet! Estão dizendo coisas horríveis sobre você e eu! Estão me chamando de destruidora de lares! Não consigo respirar! Estou tendo outro ataque de pânico!"

Ela desabou no chão, soluçando histericamente.

A cabeça de Caio se virava de um lado para o outro, entre eu, ofegando por ar no chão da biblioteca, e Isabela, fazendo a performance de sua vida no corredor.

Ele olhou para mim, os olhos cheios de pânico e indecisão. "Juliana, eu..."

Então ele se virou e correu para Isabela.

"Está tudo bem, Bela, não olhe para isso. Eu estou aqui", ele a acalmou, puxando-a para seus braços. Ele a escolheu. Ele escolheu confortar o falso ataque de pânico dela enquanto minha garganta se fechava, enquanto eu estava morrendo.

Enquanto minha visão começava a escurecer, a última coisa que vi foi Caio carregando Isabela para longe, me deixando sozinha no chão. Minha mão, inchada e vermelha, alcançou minha bolsa, pela caneta de adrenalina que eu sempre carregava. Eu estava sozinha. Tinha que me salvar.

E naquele momento de traição pura e agonizante, lembrei-me de uma época em que ele teria movido montanhas por mim. Uma vez em que tive uma reação alérgica leve em um restaurante, e ele mesmo me carregou para o carro, quebrando todas as leis de trânsito para me levar ao hospital, nunca saindo do meu lado. Aquele homem se fora. Ou talvez ele nunca tivesse existido.

Capítulo 3

As luzes fluorescentes do quarto do hospital eram duras e impiedosas. Eu estava viva, mas não graças ao meu marido. Os paramédicos chegaram bem a tempo, respondendo à minha própria chamada sufocada para o 192.

Minha garganta estava ferida e meu corpo doía da reação violenta. Mas a dor física não era nada comparada à ferida aberta em minha alma. Ele me abandonou. Ele a escolheu.

Peguei meu celular, minha mão ainda um pouco inchada, e tentei ligar para ele. Na primeira vez, chamou, chamou e caiu na caixa postal. Na segunda vez, alguém atendeu.

"Alô?" Era a voz de Isabela, enjoativamente doce.

Uma raiva fria, tão pura e afiada que quase me fez engasgar, percorreu meu corpo.

"Onde está o Caio?", perguntei, minha voz um sussurro rouco.

"Ah, Juliana, você acordou!", ela chilreou. "O Caio está tão preocupado comigo. O estresse do seu... episódio... realmente atrasou minha recuperação. Ele está dormindo agora. Ficou acordado a noite toda cuidando de mim."

Eu não disse nada. Apenas apertei o telefone, meus nós dos dedos ficando brancos.

"Você deveria ter mais cuidado, sabia?", Isabela continuou, sua voz pingando falsa preocupação. "É tão egoísta fazer todo mundo passar por isso. O Caio ficou apavorado."

Eu desliguei. Não conseguia ouvir mais uma palavra. Joguei o telefone do outro lado do quarto e ele se espatifou contra a parede. A ação não fez nada para acalmar a tempestade dentro de mim. Arranquei o soro do meu braço, ignorando a picada aguda e a gota de sangue que se formou. Eu tinha que sair dali.

Eu estava assinando meus próprios papéis de alta, contra o conselho médico, quando ele finalmente apareceu.

Caio entrou correndo no quarto, o rosto uma confusão de preocupação. "Juliana! O que você está fazendo? Você não está bem o suficiente para sair."

Ele tentou me abraçar, mas eu me afastei de seu toque. Seus braços caíram ao lado do corpo, e ele pareceu perdido.

"Por que você não atendeu o telefone?", perguntei, minha voz desprovida de emoção.

"Eu... meu telefone estava no silencioso. Eu estava com a Isabela, ela..."

"Eu sei onde você estava", cortei-o. "Ela me contou. Ela também me disse como fui egoísta por ter uma reação alérgica."

O rosto dele empalideceu. "Juliana, ela não quis dizer isso. Ela só está..."

"Frágil", completei por ele. "Eu sei."

Nesse momento, o telefone dele tocou, o som estridente cortando o silêncio tenso. Ele olhou para a tela. O identificador de chamadas dizia "Enfermeira da Isabela".

Ele olhou para mim, os olhos suplicantes. "Eu preciso atender."

Ele atendeu, e toda a sua postura mudou. "O quê? Ela arrancou os pontos? Ela está bem? Estou indo para aí agora mesmo."

Ele desligou e se virou para mim, o rosto marcado pela preocupação. "Eu tenho que ir. A Isabela tentou se machucar."

Ele a estava escolhendo de novo. Mesmo depois de ela quase ter me matado e ele ter me abandonado, ele ainda a estava escolhendo. O padrão era tão previsível que era quase entediante.

"Eu volto logo, Ju", ele prometeu, a mão na maçaneta. "Eu juro. Nós vamos resolver isso."

"Não se incomode", eu disse.

Ele hesitou por um segundo, depois saiu correndo do quarto, me deixando sozinha mais uma vez.

Os dias seguintes foram um borrão de manchetes na mídia. Caio Alcântara era elogiado como um herói, um guardião dedicado à sua trágica cunhada. Havia fotos dele a levando para fazer compras para animá-la. Fotos deles jogando moedas na fonte do Theatro Municipal, um lugar que ele me levara no nosso primeiro aniversário. Fotos dele segurando a mão dela enquanto caminhavam pelo Parque Ibirapuera. Ele estava recriando minhas memórias com ela.

E eu? Eu era a vilã. A esposa cruel e ciumenta que não suportava ver a caridade do marido. Os tabloides me despedaçaram.

Caio nunca voltou ao hospital. Ele mandou seu assistente cuidar da minha alta e me levar para casa.

Quando entrei na cobertura, ele estava me esperando. Ele havia enchido a sala de estar com minhas flores favoritas, gardênias brancas. Havia um chef particular preparando minha refeição favorita. Ele estava tentando se desculpar sem nunca dizer as palavras.

Ele me puxou para um abraço, enterrando o rosto no meu cabelo. "Senti sua falta, Ju. A casa parecia tão vazia sem você."

O toque dele parecia uma violação. Fiquei rígida em seus braços.

Ele se afastou, procurando meu rosto. "Deixe-me cuidar de você. Deixe-me compensar."

Ele me levou para a mesa de jantar, puxando minha cadeira. Ele mesmo me serviu, seus movimentos cheios de uma ternura praticada e vazia.

Quando se sentou, ele estendeu a mão sobre a mesa e pegou a minha. "Eu estive pensando. Acho que é hora da Isabela encontrar seu próprio lugar."

Olhei para ele, surpresa. Era isso? Ele estava finalmente acordando?

"Mas", ele continuou, seu aperto em minha mão se intensificando, "ela está passando por um momento difícil. As memórias de Eleonora são muito fortes no antigo apartamento da família dela. Ela estava se perguntando... ela quer redecorá-lo, torná-lo novo. Ela precisa de alguma inspiração."

Meu coração afundou. Eu sabia o que estava por vir.

"Ela adora o seu órgão de perfumes", ele disse, os olhos evitando os meus. "Ela acha lindo. Ela quer usá-lo como peça central em seu novo estúdio de design. Só por um tempinho. Para... inspirá-la."

Ele queria dar a ela o último presente do meu pai para mim. A coisa mais preciosa que eu possuía.

"Não", eu disse, minha voz baixa, mas firme.

"Juliana, por favor", ele implorou. "Significaria muito para ela. Ajudaria a curá-la. É o último passo. Depois disso, ela se mudará, e poderemos ser nós de novo."

"Eu disse não, Caio."

Ele se levantou, a cadeira arrastando no chão. "É só uma mesa, Juliana! Por que você está sendo tão difícil? Depois de tudo que eu faço por ela, pela minha promessa a Eleonora, você não pode fazer essa coisinha?"

"Não é só uma mesa", eu disse, minha voz se elevando. "Era do meu pai."

"E Eleonora era o meu futuro!", ele retrucou, o rosto se contorcendo em angústia. "Eu devo isso a ela! Eu devo tudo a ela!"

A discussão era inútil. Eu estava cansada. Tão incrivelmente cansada.

"Tudo bem", eu disse, a palavra com gosto de veneno. "Faça o que quiser."

Levantei-me e fui embora, deixando-o ali em meio às gardênias e à comida gourmet. Fui para o meu estúdio, meu santuário.

Mais tarde naquela noite, fui acordada por um barulho vindo do andar de baixo. Um som de arrastar, de arrastar.

Saí sorrateiramente do meu quarto e olhei para baixo da grande escadaria.

Isabela estava lá, no hall de entrada principal, dirigindo dois carregadores. E com eles, meu órgão de perfumes. Ela estava de pé sobre ele, as mãos acariciando a madeira escura, um sorriso triunfante no rosto.

Caio também estava lá, observando da porta, sua expressão uma mistura de culpa e resignação. Ele me viu de pé nas escadas, mas não fez nada. Apenas observou enquanto eles levavam embora o último pedaço do meu coração.

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