A água subia rapidamente, batendo ao meio da porta do carro.
Grávida de oito meses, estava presa, sozinha, e em pânico.
Liguei ao meu marido, Marco, desesperada.
A sua voz? Irritada.
"Sofia? O que se passa? Estou a meio de uma coisa!"
Ele estava a ajudar a "amiga" Clara, ouvi a risada dela.
A desculpa? Uma infiltração no teto.
Ele desligou-me na cara.
A água gelada invadiu o carro, sem rede para os bombeiros.
Uma dor lancinante. Sangue.
Perdi o nosso filho sozinha, encharcada, abandonada.
No hospital, vazia, Marco e a mãe culparam-me, acusaram-me de louca.
"Não tens juízo nenhum?"
Ele escolheu uma goteira em vez de mim e do nosso filho.
Como pôde o homem que me jurou amor eterno abandonar-me assim?
Deixar-me à beira da morte por uma... infiltração?
A raiva gelou o meu luto.
"Quero o divórcio!"
Ele e a mãe recusaram, chamaram-me "instável".
Mas a verdade era muito mais cruel.
Não só negligência.
Ele desviara o nosso dinheiro para Clara há anos.
Uma fraude fria, durante o nosso casamento.
Eles queriam destruir-me.
Mas eu tinha a prova.
E uma gravação chocante de todo o seu abandono.
Agora, eles iriam pagar.
A água subia depressa, já batia a meio da porta do carro. O motor tinha morrido há minutos. Lá fora, a tempestade rugia, e a rua transformara-se num rio de água suja e destroços. Eu estava presa. Grávida de oito meses.
O pânico apertava-me o peito. Agarrei no telemóvel com os dedos a tremer. A primeira pessoa para quem liguei foi o meu marido, Marco.
A chamada demorou a ser atendida. Quando ele finalmente falou, a sua voz estava distante, irritada.
"Sofia? O que se passa? Estou no meio de uma coisa."
"Marco, ajuda-me," a minha voz saiu fraca, trémula. "O carro ficou preso na inundação na Baixa. A água está a subir muito depressa."
Houve uma pausa do outro lado. Ouvi uma voz feminina ao fundo, a rir de alguma coisa. Era a Clara, a amiga de infância dele.
"Não consigo ir aí agora," disse ele, com uma impaciência que me gelou. "A Clara teve uma infiltração no apartamento, o teto está a pingar. Estou a ajudá-la a pôr baldes e a mover os móveis."
Uma infiltração. Baldes. E eu estava a afogar-me dentro de um carro.
"Marco, isto é sério," insisti, as lágrimas a começarem a escorrer. "Eu não sei o que fazer. Por favor."
"Liga para os bombeiros, Sofia. Eles servem para isso," respondeu ele, seco. "Tenho de ir. A Clara está a chamar-me. Depois falamos."
"Não desli..."
Ele desligou.
Olhei para o ecrã do telemóvel, incrédula. Ele tinha desligado. Olhei para a minha barriga, onde o nosso filho se mexia, agitado. O meu filho, que ele dizia amar mais que tudo.
A água começou a entrar no carro, gelada, a molhar-me os pés. O nível subia sem parar. Tentei ligar para os serviços de emergência, mas a rede estava em baixo. Nenhuma chamada saía.
Uma dor aguda e súbita atravessou-me o ventre. Uma cãibra violenta, diferente de tudo o que já tinha sentido. Curvei-me sobre o volante, a gritar. A dor veio outra vez, mais forte. Senti algo quente a escorrer-me pelas pernas.
Era sangue.
O meu mundo desabou. Entre a água que subia e a dor que me rasgava, a única coisa em que conseguia pensar era na voz distante do meu marido.
"A Clara está a chamar-me."
Acordei com o cheiro a desinfetante e o som baixo de um monitor cardíaco. Estava num quarto de hospital. A luz branca do teto magoava-me os olhos. A minha barriga estava vazia. Lisa.
Uma enfermeira entrou e sorriu-me com pena.
"A menina teve sorte. Os bombeiros encontraram-na a tempo."
Olhei para ela, mas não consegui falar. A minha garganta estava seca. A pergunta que eu queria fazer estava presa, pesada demais para sair.
A enfermeira pareceu entender. O seu sorriso desapareceu.
"Lamento muito. Devido ao stress e à hipotermia, entrou em trabalho de parto prematuro. Fizemos tudo o que podíamos, mas não foi possível salvar o bebé."
As palavras dela não faziam eco. Apenas caíram num vazio dentro de mim. O bebé. O meu filho. Tinha desaparecido.
A porta abriu-se e o Marco entrou, seguido pela mãe dele, a Helena. Ele tinha uma expressão preocupada, mas não me pareceu genuína. A Helena olhava para mim com reprovação.
"Sofia, estás bem? Fiquei tão preocupado," disse o Marco, aproximando-se da cama.
Não respondi. Apenas o encarei.
A mãe dele interveio, com a voz áspera de sempre.
"Preocupado? Ele esteve a noite toda sem saber de ti! O que é que foste fazer para a Baixa com uma tempestade daquelas? Não tens juízo nenhum?"
"Mãe, agora não," disse o Marco, mas sem grande convicção.
"Agora sim," insistiu ela. "Se tivesses ficado em casa, como uma pessoa normal, nada disto teria acontecido. Dás cabo da vida do meu filho com estes dramas."
O meu olhar continuava fixo no Marco.
"Eu liguei-te," disse eu, a voz a sair como um sussurro rouco. "Pedi ajuda."
Ele desviou o olhar. "Eu sei, mas a Clara precisava de mim. Era uma emergência."
"Uma infiltração," disse eu. "A emergência dela era uma infiltração."
"Não fales assim," disse ele, a irritação a voltar. "O teto dela podia ter caído! Eu disse-te para ligares para os bombeiros."
"Não havia rede," respondi, sentindo uma calma assustadora a tomar conta de mim. "Eu perdi o nosso filho, Marco. Sozinha. Enquanto tu punhas baldes debaixo de uma goteira."
Ele ficou em silêncio. A Helena bufou.
"Não culpes o meu filho pela tua imprudência."
Virei-me para o Marco, ignorando-a.
"Quero o divórcio."