Fui trancada na adega de vinhos pelo homem que eu amava. Gabriel, meu marido, me acusou de sabotar seu projeto mais importante, humilhando-o na frente de todos.
Ele me arrastou para o frio congelante para que eu "refletisse sobre meu erro".
O que ele não sabia era que sua melhor amiga, Eliza, havia subornado um funcionário para ligar a refrigeração no máximo, me condenando a uma morte lenta e dolorosa.
Enquanto meu corpo entrava em coma, minha alma assistiu a tudo. Vi Gabriel abraçar a verdadeira culpada e ouvi-o dizer que eu merecia aquilo.
Vi o beijo da traição e a confissão triunfante de Eliza.
Eles acharam que tinham vencido, mas um milagre aconteceu: eu sobrevivi.
E quando acordei, diante de seu arrependimento desesperado, joguei em sua cara a verdade mais cruel que ele tentou esconder.
"Gabriel", eu disse, jogando na cama o anel de noivado que ele me deu. "Este anel... um dia, pertenceu a ela, não foi?"
Capítulo 1
Irene Girão POV:
Quando as portas pesadas da adega se fecharam atrás de mim, meu corpo tremeu, não só pelo frio que já começava a roer meus ossos, mas pela certeza fria de que Gabriel, o homem que eu amava, tinha me condenado à morte. O eco metálico do ferrolho se arrastando foi o som mais cruel que já ouvi. Minha respiração falhou. O ar parecia mais denso, mais gelado a cada segundo.
"Gabriel, por favor!" Minha voz saiu embargada, um sussurro fraco contra o barulho do sistema de refrigeração que ganhava força. O som parecia uma fera faminta. Eu bati no metal pesado da porta com os punhos. Dói. Mas a dor física era pequena.
Ele não respondeu.
A escuridão engoliu as poucas frestas de luz que vinham da fresta da porta. Eu estava sozinha. Mais sozinha do que nunca. A adega de vinhos da casa de campo da família Marques era um lugar que eu nunca gostei. Fria, úmida, cheirava a terra e vinho velho. Agora era minha prisão.
Minhas mãos estavam pálidas, as pontas dos dedos já começando a ficar roxas. O suor frio escorria pela minha testa, não de calor, mas de puro terror. Eu me encolhi, tentando abraçar meu próprio corpo, mas era como abraçar o vento. O vestido de seda que eu usava agora parecia uma segunda pele, incapaz de me proteger do frio cortante.
Foi Eliza. Eu sabia.
A imagem do rosto furioso de Gabriel, distorcido pela raiva, ainda queimava na minha retina. "Você sabotou meu projeto, Irene! Humilhou-me diante de todos! Como pôde?" Sua voz era um trovão. Ele se recusou a me ouvir, a ver a verdade. Seus olhos, antes tão cheios de amor, estavam cheios de ódio.
"Eu não fiz nada, Gabriel! Foi a Eliza!" Eu gritei, mas as palavras se perderam no ar gelado da mansão. Ele apenas me arrastou para cá, para a adega, seu aperto firme no meu braço. "Você vai ficar aqui até refletir. Até pedir desculpas pelo que fez!"
Desculpas? Por algo que eu não fiz?
O rosto de Eliza, com seus olhos de cervo inocente e um sorriso quase imperceptível, brilhou na minha mente. Aquele sorriso que sempre me incomodou. Aquele sorriso que, agora, eu entendia ser de triunfo. Ela sempre esteve lá, desde que me casei com Gabriel. A amiga de infância, a confidente, a sombra que nunca se afastava.
"Você é tão boa, Eliza", Gabriel disse uma vez, quando eu reclamei das suas invasões de privacidade. "Ela é como uma irmã para mim. Ela nunca faria nada para te machucar."
Ele estava cego.
Eu respirei fundo, tentando acalmar o pânico que apertava meu peito. Eu precisava pensar. O que Eliza tinha feito? Como ela conseguiu me incriminar? O projeto... o projeto do Grupo Marques, o mais importante do ano. Ela me acusou de vazar informações confidenciais para a concorrência. Uma sabotagem perfeita.
Minhas pernas falharam. Eu caí sentada no chão de pedra, sentindo o frio subir pelas minhas pernas. O chão estava úmido. O cheiro de mofo e vinho agora era esmagador. Eu me levantei novamente, cambaleando, tentando me mover, fazer o sangue circular.
O sistema de refrigeração zunia ainda mais alto, um lamento mecânico que parecia sugar todo o calor do ambiente. Eu sabia que essa adega era industrial. Era feita para manter vinhos raros em temperaturas extremas. Se estivesse no máximo...
Um calafrio percorreu minha espinha, que não era apenas do frio. Era a sensação de algo mortal se aproximando. Eu comecei a bater na porta novamente, mais forte. "Me tirem daqui! Por favor! Está muito frio!"
Nenhuma resposta. Apenas o zumbido implacável.
Eu me virei, procurando por qualquer coisa que pudesse me ajudar. Garrafas e mais garrafas de vinho se estendiam em prateleiras escuras, como pequenos caixões. Eu não era uma especialista em vinhos. Eu odiava o cheiro. Agora, eu só desejava que cada uma dessas garrafas estivesse cheia de algo quente.
Minha visão começou a embaçar. Eu senti meus lábios racharem, minha garganta secar. Eu abri a boca para gritar de novo, mas nenhum som saiu. Eu estava perdendo a voz. O medo me paralisou, mas também me deu uma faísca de raiva. Eu não podia morrer assim. Não podia deixar Eliza vencer.
Eu me arrastei até a parede, usando as prateleiras como apoio. Meus dedos estavam tão dormentes que mal sentia o metal gelado. Eu precisava encontrar uma saída. Era uma adega remota, na casa de campo. Ninguém viria me procurar tão cedo. Gabriel tinha me deixado aqui para "refletir".
Ele não sabia. Ele não podia saber que Eliza tinha subornado alguém. Que ela me queria morta.
Eu me forcei a rastejar, meus joelhos raspando no chão de pedra. Meus olhos tentavam se ajustar à escuridão, procurando qualquer coisa. Uma alavanca, um botão de emergência, uma fresta... qualquer coisa.
Mas só havia mais prateleiras, mais garrafas, e o frio que se intensificava, esmagando-me. Minha mente, antes tão lúcida, agora divagava. Eu via o rosto de Gabriel, mas não o furioso. O Gabriel que me pediu em casamento, o Gabriel que me prometeu amor eterno.
Uma lágrima congelada escorreu pelo meu rosto.
Ele me traiu. Não apenas com suas palavras, mas com sua crença na mentira de Eliza. Ele me jogou aqui.
Eu senti uma dor aguda no peito, mais do que o frio. Era uma dor de coração partido, de uma confiança destruída. Era o gaslighting, a traição devastadora que corroía minha alma.
Lembrei-me dos olhares de Eliza, seus comentários sutis que minavam minha confiança, sua maneira de se fazer de vítima para Gabriel. Ela sempre foi o anjo, eu sempre a intrusa.
Meus membros pesavam. Eu já não conseguia mais me mover. Minha pele ficou pálida, quase azul. Meus dentes batiam uns nos outros incontrolavelmente. A tremedeira era tão forte que parecia que eu ia quebrar.
Eu cai no chão novamente, dessa vez sem forças para me levantar. O chão de pedra gelado me abraçava, me puxava para baixo.
O sono. Eu queria dormir. Mas eu sabia que dormir seria... o fim. Eu lutei, forcei meus olhos a ficarem abertos.
"Gabriel..." Eu sussurrei, mas o nome se transformou em gelo nos meus lábios. Não havia mais perdão. Não havia mais amor. Havia apenas uma dor profunda e um vazio crescente.
Eu senti uma estranha leveza. O frio não doía mais tanto. Era uma sensação de paz. E então, eu vi.
Meu corpo. Lá, no chão da adega, encolhido. Os lábios azuis, a pele translúcida, as unhas roxas. O vestido de seda amarrotado.
Era eu.
Mas eu estava de pé. Observando-me. Eu não conseguia sentir o frio. Eu não conseguia sentir a dor. Eu era uma sombra, um sussurro no ar gelado. Um "eu" que flutuava acima do meu corpo inerte.
A porta da adega se abriu, uma fresta. Elias, o assistente de Gabriel, espiou para dentro. Seus olhos arregalados, o terror estampado em seu rosto. Ele se abaixou, tentando me ouvir, parecia.
Meu corpo no chão não se mexeu. Estava imóvel. Sem vida.
"Sra. Marques... Irene?" Ele chamou, a voz trêmula.
Eu queria gritar, queria dizer a ele que eu estava aqui, que eu não estava morta. Mas nenhum som saiu do meu novo, etéreo ser.
Ele correu para dentro, ajoelhando-se ao lado do meu corpo. Ele tocou meu pulso, depois meu pescoço. Seus olhos se encheram de pânico. Ele puxou o rádio. "Gabriel! Encontrei Irene! Ela... ela está à beira da morte por hipotermia!"
As palavras chegaram aos meus ouvidos como um eco distante. À beira da morte.
Mas eu estava aqui. De alguma forma, eu estava aqui. E eu vi. Eu vi a verdade que Gabriel se recusou a ver. Eu vi o horror no rosto de Elias. Eu vi meu próprio corpo, a prova da crueldade deles.
Uma força invisível me puxou para cima, para fora daquele lugar gelado, para longe do meu corpo sem vida. Eu não sabia para onde eu estava indo, ou por quê. Mas eu sabia que não era o fim. Era apenas o começo de algo.
Irene Girão POV (como alma):
Eu flutuava, sem peso, sem dor. Era como se o vento me carregasse. Eu não tinha um corpo, mas ainda tinha consciência. Eu via, ouvia e sentia, mas de uma maneira nova, etérea. Meu último vislumbre foi do meu próprio corpo sendo levado da adega por paramédicos, envolto em cobertores de emergência. A visão era chocante, como ver um estranho, mas eu sabia que era eu. O "eu" que eles tinham quase matado.
Fui arrastada para a mansão, para o calor aconchegante que antes me acolhia. Agora, tudo parecia distorcido, falso. Os móveis opulentos, as tapeçarias caras, as obras de arte – tudo era uma casca vazia, assim como o amor de Gabriel.
Lá, na sala de estar, estavam eles. Gabriel e Eliza. A cena me fez sentir um nó, mesmo sem garganta para apertar. Eles estavam sentados perto da lareira, que estalava alegremente, jogando sombras dançantes nas paredes. Gabriel segurava uma xícara de chá. Eliza, com um cobertor fino sobre os ombros, parecia frágil, como uma flor delicada. Seus olhos estavam vermelhos, inchados, como se ela tivesse chorado por horas.
"Gabriel, eu estou tão preocupada com a Irene", ela disse, a voz suave, quase um lamento. "Ela nunca faria isso. Ela deve estar tão arrependida."
Eu, a Irene que flutuava invisível no ar, senti uma onda de náusea. Arrependida? Por ter sido quase assassinada pela sua manipulação, Eliza?
Gabriel suspirou. Ele pegou a mão dela e a apertou. Seus olhos estavam cheios de preocupação, mas não por mim. Por Eliza. "Eu não sei o que pensar, Eliza. Ela me traiu de uma forma tão cruel. Aqueles documentos... o projeto da empresa..."
Eliza balançou a cabeça, as lágrimas escorrendo pelo rosto dela, cuidadosamente. "Eu sei, meu amor. Mas talvez... talvez ela não tenha percebido a gravidade. Ou talvez ela estivesse sob muita pressão."
Meu amor? A raiva inchou dentro de mim, uma brasa fria no meu novo ser. Eles estavam agindo como um casal apaixonado, lamentando meu "erro" enquanto eu lutava pela vida no hospital. A traição de Gabriel doía mais do que o frio da adega.
"Eu te disse que ela não era boa o suficiente para você", a voz de Eliza era um sussurro, quase inaudível. "Ela é de um mundo diferente, Gabriel. Ela nunca entenderia a pressão do seu império."
Eu observei Gabriel acenar lentamente, a testa franzida em preocupação. Ele estava engolindo cada palavra dela, cada gota de veneno disfarçada de compaixão.
A porta da sala de estar se abriu abruptamente. Elias entrou, pálido, com o cabelo despenteado e os olhos arregalados. Ele parecia ter corrido uma maratona. "Senhor Marques! A Irene... ela foi levada para o hospital."
Gabriel se levantou, a xícara caindo e quebrando no chão. O som estilhaçou o silêncio falso. "O quê? O que aconteceu?"
"Hipotermia severa, senhor. Ela... ela está em coma. Os médicos não sabem se ela vai sobreviver." Elias gaguejou, evitando o olhar de Gabriel.
Eliza soltou um grito abafado, levando as mãos à boca. Ela parecia chocada, horrorizada. Uma atriz perfeita.
Gabriel olhou para ela, depois para Elias. Seus olhos estavam cheios de uma confusão sombria. "Coma? Como assim coma? Eu só queria que ela refletisse um pouco!"
Refletir? Eu queria gritar, queria rasgar a fachada de Eliza, queria sacudir Gabriel até que ele enxergasse a verdade. Mas eu era apenas um observador.
Eliza se agarrou ao braço de Gabriel, os olhos marejados. "Gabriel, eu te disse para não ser tão duro. Eu disse que ela era sensível. Isso é tudo culpa minha! Eu deveria ter impedido você!"
Ela se fez de vítima de novo. O veneno escorria dela como mel.
Gabriel a abraçou firmemente. "Não, Eliza. Não é sua culpa. Ela mereceu. Ela me traiu."
Eu senti um frio que não era da adega, mas da alma. Mais profundo, mais cortante. A indiferença dele. A cegueira dele.
"Mas... mas o frio da adega", Elias tentou argumentar, a voz hesitante.
"Eu mandei trancar, Elias! Não mandei ligar as geladeiras no máximo!" Gabriel rosnou, sua voz baixa e perigosa.
Eliza estremeceu nos braços dele. "Gabriel, por favor, não se culpe. Eu sei que foi um acidente. Ela deveria ter pedido desculpas antes."
Ela estava reforçando a ideia de que eu era a culpada. A raiva em mim era tão intensa que eu desejava poder incendiar a sala.
Gabriel a afastou um pouco, olhando em seus olhos. "Você tem razão. Ela teria evitado tudo isso se tivesse assumido a responsabilidade." Ele olhou para Elias. "Prepare o carro. Vamos para o hospital. E você, Eliza, fique aqui e descanse. Você não está bem."
"Não! Eu quero ir com você! Eu preciso ver a Irene. Eu me sinto tão culpada", ela choramingou, sua voz um fio.
"Não. Você está fraca. Eu irei sozinho. Elias, fique com ela", Gabriel disse, sua voz mais suave quando se dirigiu a Eliza.
Ele saiu apressado da sala, deixando Eliza e Elias.
Eliza observou as costas de Gabriel desaparecerem, e então o sorriso. Aquele sorriso sutil, de triunfo. Ela olhou para Elias, um brilho nos olhos que ele não podia ver, mas eu sim.
"Pobre Gabriel", ela sussurrou, mais para si mesma do que para Elias. "Tão ingênuo. Ele realmente acredita que eu me preocupava com a Irene."
Elias a olhou com uma expressão de desconfiança, mas não disse nada. Sua lealdade a Gabriel o mantinha em silêncio. Mas eu podia sentir a dúvida nele. A semente da verdade estava plantada.
Eliza se afastou da lareira, deu um passo lento em direção à janela, observando o carro de Gabriel partir. Ela parecia satisfeita, seu rosto uma máscara de falsa tristeza.
Eu observava, minha raiva crescendo. Ela se livrou de mim. Ela pensou que tinha me eliminado. Mas eu estava aqui. Testemunhando tudo.
Essa mansão, que um dia foi o lar dos meus sonhos, agora era o palco de um pesadelo. Eu me lembrava de como Gabriel me apresentou a ela, os olhos brilhando. "Nosso lar, Irene. Nosso futuro."
Que piada cruel.
Lembrei-me dos primeiros dias de casamento, da alegria. Mas então, Eliza voltou. Ela tinha morado no exterior por anos. Ela era a "melhor amiga" de Gabriel desde a infância. Quando ela voltou, supostamente para lidar com assuntos familiares, Gabriel insistiu que ela ficasse conosco.
Eu me opus, é claro. Eu disse que era inadequado. Mas Gabriel, sempre tão arrogante, não me ouviu. "Ela precisa de apoio, Irene. Ela é como uma irmã."
"Ela pode ficar em um hotel, Gabriel. Ou comprar a própria casa", eu disse, tentando manter a calma.
Ele ficou furioso. "Você é mesquinha, Irene! Eliza é da família! Você está com ciúmes de quê?"
Ele me acusou de ciúmes. Ele me fez sentir como a vilã.
Ele me sufocou com a lealdade dele a Eliza, uma lealdade cega que me exilou da minha própria casa, do meu próprio marido.
Eliza sempre foi a "irmã" que ele nunca teve. A mulher que o entendia "melhor que ninguém". E eu, a esposa, fui relegada a uma posição secundária.
Ele até me mudou do quarto principal. "Eliza precisa do quarto mais confortável. Ela não está bem. Você pode ficar no quarto de hóspedes por um tempo, querida."
Eu me lembro da minha reação, a mistura de choque e mágoa. "Nosso quarto, Gabriel? Você quer que eu saia do nosso quarto para ela?"
"É temporário, Irene. Pare de fazer drama. Você está agindo como uma criança." Ele disse, sem nem olhar para mim.
Eu me mudei para o quarto de hóspedes, uma parte de mim morrendo a cada passo. E Eliza... Eliza se instalou no quarto principal como se fosse dela por direito. Eu vi as roupas dela no closet, as maquiagens dela na penteadeira. Meu espaço, minha vida, foram invadidos e usurpados.
Gabriel me disse que era para o bem dela, que ela precisava de conforto. Ele me disse que eu estava sendo egoísta.
Eu me lembrava de como tentei lutar, tentei discutir, mas Gabriel sempre a defendia. Sempre me fazia sentir como se fosse a errada, a ciumenta, a insensível.
Ele nunca me amou. Não de verdade. Se ele tivesse me amado, ele teria me defendido. Ele teria me ouvido.
A dor que eu sentia agora, como uma alma, era um eco da dor que senti quando ele me expulsou do nosso quarto, do nosso leito. A adega era apenas o ápice de uma série de traições.
Eliza se virou, um sorriso satisfeito. Ela se sentou no sofá, pegou o celular. Seus dedos voaram pelo teclado. Eu me aproximei, curiosa. O que ela estava fazendo?
Ela estava enviando uma mensagem. Para um número desconhecido.
"Feito. A vadia está fora do caminho."
Meu coração, que não batia mais, parou.
Eliza estava confessando. Ela estava comemorando. Ela estava... rindo.
Irene Girão POV (como alma):
A risada silenciosa de Eliza ressoou na sala, um som que só eu, em meu estado etéreo, podia ouvir. Ela teclava no celular, a mensagem fria e direta. "Feito. A vadia está fora do caminho." O ódio que senti naquele momento foi como um raio, atravessando minha existência sem corpo. Ela não só me arruinara, mas também se gabava disso.
Eu olhei para o meu corpo, ou para onde ele deveria estar. No hospital, segundo Elias. Em coma. Mas com minha alma aqui, testemunhando a verdade. Uma verdade que Gabriel estava cego demais para ver.
Gabriel, que agora estava de volta à sala, parecia um pouco mais calmo, mas ainda visivelmente abalado. Seus olhos estavam focados em Eliza, que rapidamente escondeu o celular e voltou à sua pose de fragilidade.
"Eliza, você está bem?" Ele perguntou, a voz suave, preocupada.
Ela assentiu, os olhos marejados. "Sim, Gabriel. Só... pensando na Irene. Queria que ela estivesse bem."
As palavras dela eram uma afronta, um soco no meu peito invisível. Eu a observei, a raiva fervendo. Como ele podia ser tão tolo?
Gabriel se sentou ao lado dela, puxando-a para um abraço. "Não se preocupe com ela agora. Os médicos estão cuidando. Você precisa descansar." Ele beijou a testa dela, um gesto de carinho que um dia foi meu. Meu estômago se revirou, mesmo sem estômago.
"Mas e você, Gabriel? Você está tão abalado", ela sussurrou, a voz carregada de falsa preocupação. "A culpa não é sua. Eu sei que você nunca faria nada para machucá-la de verdade."
"Não sei, Eliza. Eu estava tão furioso. Aqueles documentos... o projeto. Eu não podia acreditar que Irene faria algo assim." Ele suspirou, o rosto enterrado no cabelo dela.
Meus joelhos invisíveis falharam. Era a mesma velha história. Mais uma vez, ele me acusava, e Eliza o "confortava". Lembrei-me de inumeráveis ocasiões em que Gabriel me repreendeu por "reagir exageradamente" às suas "piadas", ou por "estar com ciúmes" de Eliza. Ele sempre invalidava meus sentimentos, me fazendo duvidar da minha própria percepção. Gaslighting. Era isso. Eu senti isso tantas vezes, mas nunca tive um nome para isso.
Lembrei-me de uma noite, meses atrás, quando um rato apareceu na cozinha. Eu tinha terror de ratos. Gritei, pulando na cadeira, pedindo ajuda a Gabriel. Ele estava no escritório com Eliza, "trabalhando".
"Gabriel, por favor! Tem um rato na cozinha!" Eu gritei, a voz embargada pelo pânico.
Ele apareceu, mas não veio ao meu resgate. Olhou para mim com impaciência. "Irene, por favor, pare de fazer drama. É só um rato. Eliza nunca faria essa cena."
Eliza estava atrás dele, com um sorriso de canto de boca. "Não se preocupe, Gabriel, eu lido com isso." E ela, a "frágil" Eliza, pegou uma vassoura e enxotou o rato, se exibindo.
Gabriel me olhou com desapontamento. "Está vendo? É só um rato. Você é tão sensível."
Eu chorei naquela noite, não apenas pelo rato, mas pela sua indiferença. Pela forma como ele sempre me comparava a Eliza, sempre me diminuía. Eu me convenci de que eu era mesmo dramática, sensível demais. Eu me forcei a ser mais forte, a não reclamar, a engolir a dor.
Agora, eu desejava poder voltar no tempo e gritar com ele, mostrar a ele o monstro que Eliza realmente era. Mas eu era impotente. Uma alma presa, observando meu próprio inferno se desenrolar.
"O que você vai fazer agora, Gabriel?" Eliza perguntou, a voz suave, quebrando meus pensamentos. Ela se afastou um pouco dele, olhando-o com adoração. "Com a Irene no hospital... e a mídia vai começar a falar."
Gabriel franziu a testa. "A mídia... é verdade. Isso vai ser um escândalo. Eu preciso limpar meu nome. Isso pode afetar o Grupo Marques."
Meu peito invisível se apertou. Seu nome. A empresa. Nunca eu. Nunca meu sofrimento.
"Precisamos encontrar um culpado", ele disse, mais para si mesmo do que para Eliza. "Alguém que vazou os documentos. Alguém que me incriminou."
Eliza sorriu, um brilho nos olhos. "Sim, Gabriel. Claro. Você é o CEO. Você não pode ter seu nome arrastado na lama."
A farsa era tão óbvia. Eu estava morta clinicamente, e ele estava preocupado com sua imagem.
Gabriel se levantou, a raiva voltando aos seus olhos. "Ele é quem vai pagar por isso. Elias!" Ele chamou.
Elias entrou na sala, parecendo hesitante.
"Elias, eu quero que você encontre quem vazou os documentos. Encontre quem realmente sabotou o projeto", Gabriel ordenou, a voz firme. "Eu não vou deixar que Irene me coloque nessa posição. Limpe meu nome."
Elias hesitou. Seus olhos encontraram os de Eliza por um segundo, uma troca rápida que ninguém mais notou. Mas eu vi. Eu vi a sutil tensão, a desconfiança em Elias.
"Mas senhor... a Irene..." Elias começou, mas Gabriel o interrompeu.
"Não importa Irene agora! A prioridade é proteger a empresa e meu nome! Acha que ela fará o mesmo por você? Ela tentou destruir tudo que construí!" A voz de Gabriel era um trovão. "Eu quero a cabeça do culpado, Elias. Não me importa quem seja. Faça o que for preciso."
Elias assentiu lentamente, seus olhos baixos. "Sim, senhor. Farei o que puder."
Ele saiu da sala.
Eliza se levantou e foi até Gabriel, abraçando-o novamente. "Você é tão forte, Gabriel. Eu sempre soube. Você vai superar isso."
Eu observei a cena com uma mistura de horror e fascínio. Ela era tão boa em sua manipulação, tão perfeita em sua atuação. Eu, a Irene fantasma, era a única que podia ver através dela.
Eu queria poder gritar para Elias, dizer a ele para olhar para Eliza. Dizer a ele que ela era a cobra, o veneno. Mas eu não tinha voz. Eu era apenas uma testemunha, uma alma impotente.
"Eu te amo, Gabriel", Eliza sussurrou, e eu a vi levantar a cabeça, depositando um beijo suave nos lábios de Gabriel.
Meus olhos se arregalaram, embora eu não tivesse olhos de verdade. Gabriel a beijou de volta, com paixão, com desejo.
Era isso. O beijo da traição. O beijo de Judas.
A dor que senti naquele momento superou tudo. Não era o beijo em si, mas a total e completa falta de respeito por mim, que estava à beira da morte no hospital. Ele não esperou nem minha "reflexão". Ele nem sequer fingiu luto.
Eu flutuei para trás, para longe da cena, sentindo-me mais leve ainda, como se a dor estivesse me diluindo ainda mais. Meu novo corpo etéreo, embora imune ao frio, ainda ardia com a mágoa.
"Eu te amo também, Eliza," Gabriel murmurou. "Você é a única que sempre esteve ao meu lado. A única que realmente me entende."
Aquele era o Gabriel que eu achava que conhecia. O Gabriel que eu amava. E ele estava perdido. Completamente cego. Completamente dela.
Eu não sabia o que era mais doloroso: a traição dele, a manipulação dela, ou a minha própria impotência.
Mas uma coisa eu sabia. Se eu tivesse uma chance, se eu voltasse, eu não seria a mesma mulher. Eu não seria a vítima. Eu faria Eliza pagar. E Gabriel... ele pagaria também.
Minha alma, antes atormentada, começou a se solidificar com uma nova determinação. Eu não morreria. Eu não podia. Eu tinha que voltar. Eu tinha que expor a verdade.
O vento invisível que me carregava, agora parecia mais forte. Eu estava sendo puxada para longe da mansão, para longe daquela cena repugnante. Para onde? Eu não sabia. Mas eu senti que estava sendo levada para onde a verdade precisava ser encontrada. Para onde Elias iria.