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A Ala 17

A Ala 17

Autor: Yniel Leimas
Gênero: Máfia
+18.Um dark romance intenso, com tensão psicológica, mergulhando no perigo e na linha tênue entre o amor e a obsessão. Emely Miller é uma estagiária de psiquiatria doce e determinada. Matthew Volok é o herdeiro da máfia russa, frio e perigoso. Quando ele é internado na Ala 17 do hospital psiquiátrico onde ela trabalha, um acordo improvável os une: um casamento forçado que pode salvar a mãe de Emely e garantir o trono de Matthew na Bratva
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Capítulo 1 O paciente novo

Pov - Emely

Há duas coisas que me disseram no primeiro dia de estágio : nunca tranque a porta sozinha com um paciente e nunca demonstre medo.

Mas ninguém me avisou sobre o que fazer quando o medo e a curiosidade parecem a mesma coisa.

A manhã começava como todas as outras no Hospital Psiquiátrico de Blackwood. Silêncio pesado nos corredores, cheiro de desinfetante e café passado, passos abafados pelo linóleo cinzento.

Eu ajustava o jaleco branco ainda largo demais nos ombros , quando o Dr. Harrison me chamou à sua sala.

- Miller, você vai acompanhar a admissão da 17.

Meu estômago deu um nó.

A Ala 17 não era para qualquer um. Era onde colocavam os pacientes que os outros funcionários tinham medo de atender. Criminosos com laudos psiquiátricos. Casos que ninguém queria tocar.

E eu, com meus 22 anos, e com 1,53m de altura me sentia tão pequena no meio de tudo isso.

- Por que eu? - perguntei, tentando disfarçar o tremor na voz.

Harrison nem levantou os olhos do prontuário.

- Porque você é a única estagiária que não pediu transferência depois de ouvir o nome dele.

Ele.

- Matthew Volok - li no papel. Trinta e um anos. Transferido por acordo federal. Diagnóstico preliminar: transtorno de personalidade antissocial com traços psicopáticos.

- Leia as anotações de enfermagem - Harrison completou, empurrando o dossiê na minha direção.

- Ninguém consegue ficar sozinho com ele mais de quinze minutos. Três seguranças já pediram remoção.

Engoli em seco.

- Ele fez alguma coisa?

Harrison finalmente levantou os olhos cansados.

- Esse é o problema, Miller. Ele não fez nada. E isso é o que assusta.

O corredor da Ala 17 era mais estreito que os outros. As luzes tremiam levemente, como se até a eletricidade tivesse medo de estar ali.

Dois seguranças flanqueavam a porta de isolamento. Um deles careca, braços cruzados, olhar vidrado sussurrou quando passei:

- Boa sorte, doutorinha.

Não era desejo de sorte. Era quase um pêsame.

Respirei fundo. Enfiei a chave na fechadura. A trava cedeu com um clique pesado.

A porta abriu.

E lá estava ele.

Sentado na cama de solteiro, costas retas, pernas cruzadas. Como se esperasse visita. Não como um paciente mas sim como um rei num trono improvisado.

Cabelos pretos, longos, alinhados para trás. Pele clara com um tom ligeiramente bronzeado, como se carregasse o sol onde não havia janela. Olhos cinzentos como uma de tempestade.

A primeira coisa que pensei foi que ele era bonito demais para estar ali.

A segunda foi que ele sabia.

- Enfim - ele disse, e a voz era grave, pausada, como quem tem todo o tempo do mundo.

- Uma pessoa nova.

Fechei a porta atrás de mim.

E tranquei.

O erro número um levou menos de dez segundos.

- Sr.Volok - comecei, sentando na cadeira oposta. A ficha clinica tremia levemente nas minhas mãos.

- Eu sou Emely Miller, estagiária de psiquiatria. Vou conduzir sua avaliação de admissão.

Ele não respondeu. Só olhou.

Os olhos cinzentos percorreram meu rosto, meu pescoço, as mangas do jaleco - pararam nas minhas mãos que tremiam ligeiramente.

- Você tem medo de mim - ele disse. Não era pergunta.

- Tenho medo de todos os pacientes até conhecer eles.

A mentira saiu lisa. Ele sorriu. O sorriso não era quente, não era frio. Era observador.

- Estagiária - repetiu, como se provasse a palavra.

- Quantos anos?

- Vinte e dois.

- Hm. - Ele inclinou a cabeça.

- Parece ter quinze.

O baque no peito foi imediato. Raiva ou vergonha? As duas.

- Vamos começar com algumas perguntas padrão - continuei, ignorando.

- Você sabe por que está aqui?

- Sei exatamente por que estou aqui, Emely.

- Não me chame de Emely.

- Não gosta do seu nome? - Ele parecia genuinamente curioso.

- É bonito. Soa como... mel.

Fechei os olhos por um segundo.

Profissionalismo, Miller. Profissionalismo.

- Vamos manter a relação formal, Sr. Volok.

- Matthew.

- Isso não é um nome formal.

- Matthew - repetiu, como se o problema fosse meu entendimento.

- Você vai me chamar de Matthew. E vai sentar um pouco mais perto.

- Por que eu faria isso?

- Porque eu não vou te morder.

- Você parece exatamente o tipo de pessoa que faria algo pior que isso.

O silêncio durou três batidas do meu coração.

E então ele riu.

Não foi alto. Não foi assustador. Foi... humano. Curto, baixo, como se ele tivesse esquecido como se fazia aquilo.

- Gostei de você, doutorinha.

- E eu não gostei de você.

- É tudo até aqui - sussurrei, levantando.

Tranquei a porta atrás de mim ainda tremendo com a presença desse homem.

E sinto que isto está longe de acabar.

Capítulo 2 Emely

Pov - Matthew

O silêncio da noite na Ala 17 era diferente do silêncio da Rússia.

Lá fora, em São Petersburgo, o silêncio significava que algo estava prestes a explodir. Aqui, significava apenas que os seguranças estavam entediados e os pacientes dopados.

Eu ficava acordado de propósito. Não por insônia , por estratégia. O homem que dorme em território inimigo é o homem que morre primeiro.

A cama era desconfortável. O lençol, áspero. O travesseiro cheirava a amaciante barato e desespero.

E ainda assim eu pensava nela.

Emely.

O nome ecoava no teto baixo do quarto de isolamento. Eu o repetia em silêncio, testando as sílabas.

E-me-ly.

Ela tinha mãos que tremiam, mas uma voz que não quebrava. Olhos castanhos escuros que tentavam ser duros e falhavam miseravelmente.

Ela não era como os outros.

Os outros funcionários entravam no meu quarto como quem entra num campo minado. Andavam nas pontas dos pés. Falavam devagar. Fugiam com qualquer desculpa.

Ela entrou, trancou a porta (erro amador), sentou na cadeira mais próxima (erro maior ainda) e me encarou como se eu fosse um problema a ser resolvido, não uma ameaça a ser evitada.

Isso era... refrescante .

Na manhã seguinte, eu já sabia o horário dela.

Chegava às 7h43. Dezessete minutos antes do turno oficial. O cabelo preso de um jeito diferente a cada dia, mas sempre com alguns fios soltos.

Naquela quarta-feira, ela apareceu no corredor às 7h46.

Eu estava sentado no chão do meu quarto a cama era desconfortável demais para qualquer coisa além de dormir. Os braços repousavam sobre os joelhos dobrados. Posição relaxada.

Mentira. Tudo em mim era ameaçador. Eu só sabia disfarçar.

- Bom dia, Sr. Volok.

- Matthew.

Ela suspirou. A pasta foi parar no chão ao lado da cadeira.

- Bom dia, Matthew. Hoje temos entrevista de rotina. Vinte minutos.

- Pode ser mais.

- Não pode.

- Você não quer ficar mais tempo comigo?

Ela me olhou por cima da prancheta.

- Não.

Mentira.

Sentei na cama. Ela ficou na cadeira. Um metro e meio de distância. Ar condicionado ligado. Porta trancada novamente.

- Porquê psiquiatria? - perguntei, antes que ela abrisse a primeira pergunta do formulário.

- Eu quem faço as perguntas.

- E eu quem não responde se não receber uma resposta antes.

Ela hesitou. Os olhos castanhos piscaram duas vezes rápidas tique nervoso. Morder o lábio inferior. Caneta girando entre os dedos.

- Um familiar - respondeu por fim.

- Alguém próximo precisou. Não conseguiu ajuda boa.

- E você quer ser a ajuda boa.

- Quero ser melhor do que a que ele teve.

Havia uma história ali. Uma cicatriz recente, pelo jeito como ela desviou o olhar. Não era o momento de cutucar. Ainda.

- E você? - ela perguntou, recuperando o controle.

- Porquê não está na Rússia?

- Férias forçadas.

- Sua ficha diz que você é chefe de uma organização.

- Diz?

- Você nega?

- Você acreditaria se eu negasse?

Ela anotou alguma coisa.

- Não

O resto da entrevista foi tedioso. Perguntas sobre infância (privilegiada, solitária, violenta), sobre sintomas (nenhum), sobre medicações (recuso todas). Ela anotava tudo com uma letra miúda e organizada. Perfeccionista.

Quando o cronômetro apitou vinte minutos exatos ela se levantou.

- Até amanhã.

- Emely.

Ela parou. A mão na maçaneta.

- Você tem medo de mim?

A pergunta saiu mais baixa do que eu planejei.

Ela não virou o rosto. Só respondeu:

- Tenho medo é de começar a não ter mais.

A porta fechou.

Fiquei olhando para o espaço vazio onde ela esteve.

Começar a não ter mais medo.

Ela não sabia o perigo que isso representava. Para ela.

Nem para mim.

Mais tarde, o segurança careca Dmitri, ucraniano, ex-militar, fácil de ler , veio trazer o jantar. Bandeja com purê, carne cinzenta e um copo d'água.

- Gostou da novata? - ele perguntou, empurrando a bandeja pela abertura.

- O que você sabe sobre ela?

Dmitri deu de ombros.

- Não muito afinal ela é apenas uma estagiária. Mas ao que parece a mãe está doente precisa de um rim, alguma coisa assim.

Meus dedos pararam no meio do caminho até o copo.

- Como você sabe disso tudo.

- Nós ouvimos algumas coisas .

Ele saiu e trancou a porta.

Comi o purê em silêncio.

Mas se meu plano desse certo , se eu saísse daqui antes do previsto eu precisaria de toda a informação possível.

Capítulo 3 Uma crise

Pov - Emely

O despertador tocou às 6h da manhã, mas eu já estava acordada há horas.

A luz do quarto ainda era azulada, madrugada resistindo em sair. Meu celular estava embaixo do travesseiro , eu tinha dormido com ele ali, esperando.

Nenhuma mensagem.

Levantei e fui direto para a cozinha. A chaleira apitou. Café. Caneca azul. A mesma de sempre.

Ligue para sua mãe pensei. Vai, Miller. Só para saber.

Apertei o contato da mãe primeiro. Nada.

Depois de dois toques alguém atendeu e não era a minha mãe.

- Enfermaria renal, bom dia.

- Sou filha de Antonella Miller. O que aconteceu com ela?

A voz da enfermeira hesitou.

- A Sra. Miller foi admitida na emergência às 3h da manhã. Teve uma crise. Está estabilizada agora, mas ficará em observação.

O mundo girou um pouco.

- Eu... e ninguém me ligou.

- Ela pediu para não acordar ninguém. Disse que a filha trabalha muito.

Fechei os olhos. Claro que disse.

- Vou para aí agora.

- A sua mãe estará recebendo alta amanhã se não houver complicações. Não precisa vir correndo.

Não precisa vir correndo.

Como se eu conseguisse fazer qualquer outra coisa.

Peguei o ônibus das 7h20.

Não para o Blackwood. Para o Santa Lúcia.

No caminho, mandei mensagem para o Dr. Harrison:

"Emergência familiar. Não consigo ir hoje. Peço desculpas."

Ele respondeu três minutos depois. Um ok seco. Harrison não era do tipo que perguntava "está tudo bem?".

O hospital Santa Lúcia cheirava a flores artificiais e desinfetante agressivo. Subi para o terceiro andar. Corredor branco, macas, carrinhos de soro.

Mãe estava na cama 12.

Antonella Miller sempre foi uma mulher forte cabelo ruivo desbotado pelo tempo, mãos que trabalharam a vida inteira. Mas naquela cama, com o soro pendurado e olheiras fundas, ela parecia pequena.

- Não era para você vir - ela disse, sem abrir os olhos.

- Pois eu vim.

Sentei na cadeira ao lado. Pega na mão dela. Fria. Sempre fria .

- Foi só uma oscilação. A médica disse que meus níveis...

- Mãe!

...Estão piores, sim!

O nó na garganta apertou.

- Vamos encontrar um doador - falei a mesma frase que repetia há meses.

- Vamos.

Ela finalmente abriu os olhos. Claros. Cansados.

- Emely, você não precisa carregar isso sozinha.

- Quem mais vai carregar?

Ela não respondeu.

Ficamos assim o resto da manhã. Silêncio. Mãos dadas. O barulho da máquina de soro pingando.

Às 13h, a enfermeira trouxe comida. Comi sem sentir gosto.

Minha mãe dormiu e eu fiquei olhando pela janela.

Matthew.

O nome veio sem aviso. A imagem dele sentado na cama, olhos cinzentos me medindo.

"Você parece exatamente o tipo de pessoa que faria algo pior que isso."

Hoje eu estava afundando em algo que eu não sei se um dia vai mudar.

Saí do hospital de Santa Lúcia às 18h. E a noite já tinha caído.

No caminho de volta, passei em frente ao Blackwood. As luzes do estacionamento estavam acesas. Dava para ver as janelas da Ala 17 do outro lado do pátio e as grades, sempre grades.

Ele estava lá dentro.

Matthew.

Eu não devia pensar nele. Não hoje.

Mas pensei.

E o pior: uma parte de mim queria estar ali. Na cadeira de plástico. Com a prancheta. Com ele me olhando como se me desmontasse peça por peça.

"Você tem medo de mim?"

"Tenho medo de começar a não ter mais."

Peguei o ônibus para casa.

Naquela noite, dormi com o celular na mão.

E sonhei com aqueles olhos cinzentos.

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