Eu segurava a mão de Melissa, nervoso. Ela estava se contorcendo de dor, no banco de trás da viatura, e o policial dirigia em alta velocidade.
- Não vai dar tempo, Bruce!
- Calma, meu amor! Vai dar tempo sim!
Mel apertou minha mão quando veio outra contração. Doeu bastante, mas suportei em silêncio. Era melhor ela fazer força na minha mão do que lá embaixo e Cristopher resolver sair dentro de uma viatura, depois de todo estresse que Melissa passou com o sequestro.
- Senhora, acha que é melhor parar a viatura pra fazer seu parto?
- Não!!! - gritamos juntos. Sabíamos que tinha alguém à nossa espreita que não estava no local do sequestro. A polícia achou melhor fazer vigilância sobre a gente depois que invadiram o cativeiro, até que prendessem o mentor intelectual.
Quando entramos na viatura, o sargento estava dando instruções de como seriam os batedores e a gente seria levado para um hotel até que a ação policial julgasse seguro voltarmos para nossa casa.
Mas quando o soldado entrou ao volante, Mel falou pra ele: Dirija para o hospital mais próximo, por favor.
- Querida, ele não é motorista particular e os paramédicos já te examinaram. Está tudo bem.
- Não está. A tensão do cativeiro me fez ter contrações o dia inteiro. Achei que eram Braxton Hicks, mas minha bolsa acabou de estourar!
- Vou levar a senhora para a ambulância...
- Não. Quero ter meu bebê no hospital! O curso para gestantes diz que ainda tenho pelo menos mais uma hora antes de dilatar totalmente. Não vamos perder tempo mudando de veículo. Dirija!
O policial ligou as sirenes e arrancou, enquanto falava com a central sobre o ocorrido.
Mel começou a se contorcer, as contrações estavam de dois em dois minutos pelo que pude perceber. O hospital mais próximo estava a sete minutos dali, conforme eu ouvi a central informando. Ao fim da primeira contração, que eu achei que dois em dois minutos não era bom, ouvimos a central mandando o policial sair do caminho, porque estávamos sendo seguidos.
Quando ele mudou a rota, ouvimos o primeiro tiro e outra contração! Tinha passado dois minutos? Acredito que não, mas a tensão do momento deveria ter adiantado! A central mandou seguir nosso caminho que a polícia estava lidando com aquilo. O policial abaixou bastante o volume da central, eu olhei e vi sirenes ao longe. Ele despistou! Respirei aliviado e outra contração! Melissa se contorcia!
O policial disse que o homem foi preso e que estávamos a 5 minutos do hospital. Ele dirigia ensandecido conforme as contrações iam aumentando. Os três sabíamos que o perigo não tinha passado de fato!
No momento que a gente disse pra ele não parar, a Central avisou:
- Equipe médica para parto de emergência aguardando vocês a dois minutos.
- Entendido!
Olhei para Melissa, ela sorriu aliviada. O barulho, o carro retorcido, demorei um segundo pra entender que sofremos um acidente. Melissa foi arremessada para cima de mim, eu bati a cabeça e não vi mais nada!
Eu estava tão feliz! Porque isso tinha que acontecer? Esse era meu pensamento enquanto olhava o corpo de minha mulher dentro de um saco no necrotério do hospital pra onde fomos encaminhados depois do acidente!
Meu nome é Bruce Stain, sou CEO da Stain Inc. Tenho um complexo de escritórios imobiliários no centro comercial de Nova York. E uma cobertura no Central Park Tower. Eu cheguei no topo! Mas foi com muito sacrifício. Melissa e eu começamos a namorar ainda adolescentes, cheios de planos e sonhos. Estudamos, nos destacamos e montamos nossa primeira imobiliária. Sempre fizemos tudo juntos e crescemos juntos. Sempre sabendo que tínhamos que fazer tudo direitinho, porque um casal de negros vindos do subúrbio, quando se destacava virava logo alvo!
No ano anterior, convenci Melissa que já tínhamos atingido níveis muito superiores a nossa expectativa, e estava na hora de ela desacelerar e ter nosso bebê. Não foi uma decisão fácil pra ela, mas depois que a tomou, fez exatamente como sempre fazia em sua vida: se dedicou totalmente a gravidez, ao enxoval, a tudo! Foi uma gravidez tranquila e Cristopher já era muito amado.
No mês passado, recebemos uma proposta para estender nosso nome para Inglaterra e Portugal. Eu não queria ir, mas Melissa achou uma proposta irrecusável. Programei tudo como ela queria e viajei para a Inglaterra, me reunir com alguns possíveis investidores. Queria resolver tudo em 10 dias e voltar, com pelo menos uma semana de folga antes do nascimento de Cristopher.
Mas recebi fotos anônimas de um homem entrando em meu apartamento. Eu tinha certeza de que era um mal entendido de alguém que estava querendo armar pra cima da minha esposa. Como uma mulher grávida de 38 semanas recebia um amante em casa, com sua mãe morando com a gente?
Liguei para o meu COO, que foi até meu apartamento e uma hora depois me fez uma chamada de vídeo, com a polícia em meu apartamento, minha sogra ferida. Melissa tinha sido sequestrada! Voltei pra casa imediatamente, as negociações já tinham começado. Michael estava tratando de tudo com a polícia. Meu nível de stress era absurdo, então eu imaginava o nível de stress da minha mulher, esperando meu filho.
Michael era meu melhor amigo! O branco pobre que não teria como sair dos subúrbios e acabaria entrando na criminalidade. Eu não aceitava! Quando Mel e eu nos casamos, ainda trabalhando para os outros, o buscamos para morar com a gente e estudar. Sempre fazíamos tudo juntos!
Quando meus pais morreram, Michael já tinha o apartamento dele, já estava quase se formando, mas ainda éramos o trio de amigos inseparáveis. Ele quem cuidou de tudo pra mim, e me deu a idéia de pegar o dinheiro da casa dos meus pais e começar meu próprio negócio. Meus dois irmãos viviam em Washington com suas famílias, minha irmã em New Orleans. Concordaram que eu ficasse com a pouca herança que meus pais deixaram e se desse certo, depois eu lhes devolvia. Tínhamos nossas economias, Mel e eu e assim começamos nosso império! Logo trouxemos Michael pra ser meu vice e por todos esses anos e processos, nunca ficamos separados.
Minha sogra, Mary Jane, é mãe solteira, nunca conhecemos o pai de Mel, mesmo depois que ficamos ricos e famosos. Mel sempre dizia:
- Tem um ditado chinês que fala assim: "prego que se destaca, toma martelada"! Somos dois pregos negros, meu bem. A porretada vem! Logo meu papai querido vai aparecer cobrando os direitos dele sobre nosso destaque.
Mas nunca aconteceu! Mary Jane saiu do subúrbio e demos a ela um apartamento há dez minutos do nosso. Era dessas negras escandalosas que adorava pink, unhas postiças enormes e apliques de cabelos longos, muito jovem para ser avó. Tudo que era postiço, Mary Jane usava e gostava muito do status que a gente podia proporcionar a ela. Tinha uma coisa que ela fazia questão e ensinou Melissa: todos os colaboradores do lar deveriam ser brancos!
- Meninos, não é questão de racismo, mas de equilibrar as coisas. Os brancos adoram ter um negro servindo eles. Porque vamos fazer o mesmo? Não! Oportunidades iguais para todas as raças!
Michael dizia que era racismo sim, mas acabava acatando a força da natureza que era minha sogra. E dessa forma, lá estávamos nós: uma família completamente estranha, mas que se amava e se ajudava. Precisávamos de uma criança pra alegrar nossas vidas, e quando Melissa completou sete meses de gravidez, Mary Jane fechou o apartamento dela e se mudou para o nosso para ajudar a cuidar da filha e do neto, enquanto ela trabalhava de casa!
Quando acordei do acidente no dia seguinte, que minha sogra estava ao meu lado, eu sabia que Mel não tinha resistido. Se tivesse um mínimo de esperanças, Mary Jane estaria do lado da filha...
Cristopher James Stain nasceu forte, saudável, pesando 3,6 kilos e com 52 cm. As enfermeiras chamavam ele de bebê giga. Diziam que nasceu criado. Mary Jane ficava com ele o tempo todo, rodeada de enfermeiras.
Quando o levamos pra casa, tivemos uma conversa:
- Você precisa olhar para o menino, Bruce. Precisa pegá-lo no colo e mostrar a ele todo o amor que você lhe tinha antes dessa tragédia! Ele não é culpado por Melissa não ter resistido ao acidente. Ela já não estava viva quando usaram a regra dos cinco minutos pra fazer a cesariana. Graças a Deus deu tempo e ele está aqui com a gente, vivo, forte, saudável e lindo! Precisamos seguir com a vida a partir dele.
- Contrate babás! Eu tenho uma reunião. Com licença!
Eu não conseguia olhar para meu filho, essa era a realidade. Não conseguia esquecer todo o horror que Mel e eu passamos pra ele nascer. Eu não culpava Cristopher, eu culpava a mim!
Michael veio morar com a gente, pra dar uma força. Eu era grato a ele, estava ajudando bastante a Mary Jane com os Cris. Eu não conseguia, não podia olhar meu filho e saber que não pude proteger a mãe dele, e o deixei sem ela!
Faziam quase 30 dias que estávamos em casa, e eu não olhei nenhuma vez para o Cris. Vi de relance que ele era mais clarinho que Mel e eu, o que fortalecia nossa teoria de que o pai dela era branco. Ela tinha os olhos cor de mel, quase verdes. E essa lembrança me fez chorar de saudade dela novamente.
Saí sem dar tchau para os dois que brincavam com meu filho no quarto enquanto trocavam. No dia anterior, tive uma pequena discussão com Mary Jane. Ela disse que estava sobrecarregada e que eu deveria pelo menos contratar a babá para o menino. Que ela não estava encontrando ninguém que ele se adaptasse. Falei pra ela parar de frescura, que ela não tinha um mês e meio pra querer escolher quem iria cuidar dele. E avisei que ia sair de viagem. Ia voltar para a Inglaterra, fechar o negócio interrompido pelo nascimento do meu filho. Eu preferia pensar assim: o nascimento do meu filho, não a morte da minha esposa!
Quando cheguei no escritório, tinha uma confusão na recepção. Um senhor com um terno gasto, tentava a todo custo passar pela segurança, e as recepcionistas assustadas, estavam atrás dos seguranças, o que me fez acreditar que talvez o homem tenha sido agressivo. Me aproximei, perguntando o que houve, e o homem branco, na casa dos seus 50 anos, se voltou para mim, bravo:
- Eu estou procurando o senhor Bruce Stain, eu quero falar com ele e esses brutamontes não me deixam passar.
- Talvez porque o senhor esteja tentando passar com grosseria e não com a educação que esse prédio exige!
- O senhor Stain perdeu todo o respeito que conquistou com suas ações.
- O que o senhor disse?
- Por favor, senhor, se retire ou vou ter que chamar a polícia. - Um dos seguranças falou, pegando nos braço do homem e tentando tirá-lo dali a força.
- Largue ele, agora! Eu sou Bruce Stain, o senhor quem é?
- Meu nome é Jhon Allister, e eu sou morador do complexo B.
- Não sei do que se trata, mas deve ser muito importante para o senhor, por favor, me acompanhe e vamos conversar.
Depois que fiz as recepcionistas registrarem o homem e o levei até meu escritório na cobertura pelo elevador privativo, ele me contou que minha empresa comprou o complexo B e exigiu a desocupação imediata para a construção de um shopping center.
Eu não fiz isso e não autorizei. O complexo B era um emaranhado de casas populares, uma área não tão nobre de Nova York. O complexo A tinha sido modernizado, com estrutura e paisagismo de condomínios de classe alta, e vendido para novos ricos. A população tinha sido transferida para a periferia da cidade. Agora os moradores do complexo A, com a soberba de quem entrou na sociedade abastada de Nova York, não queria estar de frente para a pobreza e simplicidade. Fazia um tempo que o mercado imobiliário estava com aquele problema e eu já tinha dito que não iria me envolver, embora tivesse recebido várias propostas milionárias para isso.
Eu prometi ao homem que ia tentar descobrir o que aconteceu quando eu voltasse da Inglaterra, e ele com toda autoridade, me perguntou:
- E onde minha filha e eu vamos ficar até lá?
- Vocês não foram remanejados?
- Fomos despejados. Quem era proprietário de suas casas foram indenizados, mas quem alugava suas propriedades como eu e uma boa parte, não tem pra onde ir assim, de uma hora pra outra. Eu estou desempregado, minha filha está fazendo estágios não remunerados como enfermeira para conseguir o diploma dela. Como vou alugar outro lugar? E assim como eu, existem muitos nessa situação.
- Quantos anos tem a sua filha?
- 21 anos, senhor.
- Ela é branca?
- Que pergunta mais sem cabimento é essa?
- Me desculpe. Eu estou precisando de uma babá, mas a minha sogra só aceita pessoas brancas.
- O senhor vai dar um emprego para minha filha?
- Sim, e para o senhor também. Sabe dirigir?
- Claro que sei.
- Ótimo, a partir de hoje o senhor é motorista do meu filho e sua filha a babá dele. E vão morar no meu apartamento, nas dependências para empregados. Porque sua filha precisa dormir no quarto com o Cristopher. Eu vou apurar o que aconteceu, e tentar segurar as obras. Mas até lá, essa é a solução que encontro pra vocês, tudo bem?
- O senhor existe?
- Vim da periferia, meu amigo. Eu nem consigo imaginar o que é ser despejado do lugar onde você sempre morou, mas sei o que é não ter dinheiro nem pra comprar um sapato, quanto mais um imóvel.
Mandei o homem ir com a filha conversar com Mary Jane, e comecei me preparar para os dois problemas ao mesmo tempo: Inglaterra e complexo B!