Inverno na grande cidade. A noite envelhecia mais cedo, trazendo consigo a poeira branca que tingia a paisagem. Nas ruas,
flocos de neve desafiavam para-choques, gorros e corpos apressados. Os mais afoitos bailavam por entre os edifícios; os mais
preguiçosos adormeciam nos ponteiros do relógio daquele que foi
o primeiro arranha-céu de Boston, o Marriott Custom House.
Pouco mais adiante, em um restaurante fincado no bairro italiano de North End, parte dos funcionários se reunia nos fundos da
cozinha. Havia em seus olhos um brilho fosco de esperança pelo
retorno de um funcionário, cuja ausência completava três dias.
- Hoje ele não vem mais... – informou Zeca, passeando os
olhos pelo teto até debruçá-los fixamente no relógio. – Onde se
meteu esse garoto?
- Quem? – indagou a garçonete, que chegara àquele momento, olhando a pia abarrotada de louças sujas.
- Roberto, o lavador de pratos.
Senhor Rodrigues, o cara que teria de lavar toda aquela lou-
ça sozinho, começou a mexer no celular.
- Tá ligando pra quem? – perguntou o Zeca.
- Pra Amanda.
- Amanda? Que Amanda?
- A namorada dele lá de Nova Iorque. Alguma coisa estranha tá acontecendo. Desde que o Roberto sumiu não consigo
falar com essa garota.
O celular chamou, chamou... por fim caiu na caixa de mensagem:
- 我现在无法接听您的电话. 请留言.
- Aí, num tô dizendo?... Agora a mensagem tá em chineis!
- Olha, Rodrigues, não quero te assustar, mas tão dizendo
por aí que o Roberto foi deportado. E onde há fumaça há fogo.
- Então, deixa eu voltar ao trabalho e, a propósito, trata
de colocar um anúncio procurando outro funcionário – disse o
Rodrigues, começando a colocar os pratos na lava-louças.
- Tá bom, mas antes deixa eu ligar pro Zé.
- Zé, que Zé?
- O mineirinho que divide o apartamento com ele em East
Boston. Chegou uma mensagem. Essa notícia vai lhe interessar,
decerto. ...Parece que encontraram o Roberto.
"Roberto vazou", dizia a mensagem (traduzindo o mineirês: "foi embora"); chegou no Brasil só com a roupa do corpo.
Eita homem de coragem! Nem todo mundo tá disposto a voltar a
ganhar em real depois de pôr a mão nas verdinha$.
Escolhas à parte, agora podemos responder à questão:
"WHERE´S ROBERTO"2
?
- ...Tô falando com ele agora, me liga outra hora – respondeu o Zé, inconformado, voltando do trabalho, puto pra caralho.
- Roberto voltou para o Brasil??? Puta que pariu!!!!!!
Pois, é. Viajou sem visto, sem lenço e sem documento (literalmente). Comprou uma passagem só de ida. "Oh, vida!"
- He's crazy!3
- I know.4
Brincou com a sorte, se enrolou. Ou estava prestes a se enrolar? (Eehhhh... isso não vai prestar.) É o que o Zé, com muito custo, por celular, tentava explicar – caminhando apressado,
touca cobrindo-lhe os olhos, mochila nas costas, empacotado.
A jaqueta era do Boston RedSox, time de beisebol local muito
aclamado – nove graus negativos, um frio lascado – pelo menos
pra mim, que não estou acostumado –, mas pro Zé aquele frio
não era nada, que com naturalidade falava ao celular e gesticulava. Passava despercebido em meio a tanta gente, também apressada que, como ele, ia pro trampo ou voltava pra casa. Chineses,
coreanos, guatemaltecos, indonésios, armênios, colombianos e
mexicanos; hondurenhos, marroquinos, haitianos, salvadorenhos, paquistaneses, cubanos e dominicanos; gente de toda parte, dos mais diversos continentes. A maioria jamais pensava em
voltar pro seu país novamente. Já Roberto, minha gente... ah!!!
A realidade era bem diferente.
- Eu sabia, isso não ia acabar bem. Você vivia com o corpo
na América, a cabeça no Brasil e o coração também... ou então
vivia em outro mundo! E depois que começou a namorar pela
internet... aí lascou tudo. Até filmes você assistia dublado em
português! Como queria aprender inglês?
- Calma, Zé! Pensa no lado bom. Pelo menos, ele não foi
deportado.
- Unbelievable!5
– exclamou o dono do restaurante onde
Roberto havia trabalhado, sem entender a deserção do funcioná-
rio, de quem ele chegou, inclusive, a assinar os papéis para ele
ter se legalizado.
- What fuck he's doing in Brazil?6
- I don't know.7
Só sei que o Zé, agora dentro do seu apartamento, faltava
pouco para se descabelar de vez, enquanto o Roberto, mais precisamente no saguão de embarque do Aeroporto Internacional de
Goiânia, buscava argumentos para justificar a burrada que fez.
- "Preferi a língua universal do amor ao inglês."
- Ih, lá vem você com essas frases desses livros que não te
ajudaram pra nada. Você não aprende mesmo...
- "Amar se aprende amando."
- Eu sei, criatura, mas até quando você vai continuar errando?
- "Se eu errar que seja por muito, por amar demais, por me
entregar demais, por ter tentado ser feliz demais."10
- ...E por ser trouxa demais... por acreditar nesses namoros
virtuais que nunca dão certo. ...Como a Amanda, linda trapezista
morena de Chicago, que você conheceu, aliás, também na sala
de bate-papo, mas que na verdade era a mulher barbada do circo.
Sem falar da Amanda manicura, que a gente fez até vaquinha pra
trazê-la com o cunhado do Brasil, e depois descobrimos que ela
queria trazer o marido, um tremendo folgado...
Era assim mesmo, não tinha jeito. Nos namoros virtuais do
Roberto, sempre algo dava errado. Por isso, ele resolveu sair de
trás do computador e ir em busca de seu grande amor, que até
então ele só sabia o nome.
- Eu só não entendi uma coisa: se a sua namorada era de
Nova Iorque, como você foi parar no Brasil?
Ô, Zé! Cada coisa em seu lugar. O homem acabou de chegar. Deixa, pelo menos, ele esfriar "os pé", parar na cafeteria,
tomar um café. Com certeza, esse assunto ele vai esclarecer e
a gente, enfim, o desenrolar dessa história vai entender. Onde
ela começa e, principalmente, a forma surpreendente em que ela
termina.
Nova Iorque! Foi aqui que tudo começou.
Dizem que estar em Nova Iorque é como estar dentro de
um filme. A cidade tem diversos locais que serviram de palco
para grandes produções do cinema, TV e, é claro, deste livro que
você está lendo.
Central Park, local escolhido para o encontro de Roberto e
Amanda.
Para quem não sabe, em um namoro virtual, o encontro é
uma espécie de validação. Sem ele, nada feito. Tudo não vai
passar de uma possibilidade que você não realizou, não tocou e,
principalmente, não viveu.
Antes dessa etapa tão temida pelos apaixonados virtuais,
vêm as inevitáveis perguntas: "Será que vai gostar de mim?"
"Ai... como vou explicar que uso lentes de contato?...". Questões que só serão respondidas no grande dia, quando não será
mais possível utilizar o Photoshop ou ajustar a luz da câmera.
Assim, se o namoro der certo, vem a etapa mais importante, chamada "dia a dia" ou convivência. É nessa etapa crucial que vamos mostrar quem realmente somos; afinal, não teremos como
postar somente coisas boas e momentos felizes para quem está
ao nosso lado.
Isso ainda era um capítulo distante para Roberto e Amanda.
Eles estavam apenas no "começo do início" de uma relação que
já durava mais de 12 meses. Ou seria o "começo do fim"? Enfim,
eles apenas se conheciam virtualmente. Pode ser. Apesar de que,
hoje, com os vídeos, a possibilidade de um namoro a distância
dar errado é bem menor que há 20 anos, época de nossos pais,
quando os relacionamentos à distância eram exclusivamente por correspondência. Já imaginou?... Você ter que esperar 10,
15 dias ou até mais de um mês para receber uma carta de seu
namorado ou namorada?
Sorte do Roberto que hoje existe a internet. Ela pode ser a
sua tábua de salvação ...ou completa perdição. Isso vai depender
de como será seu encontro com Amanda, brasileira de origem
oriental com quem ele não mediu esforços para se encontrar,
viajando mais de três horas de Boston a Nova Iorque. Um encontro que tinha tudo para ser inesquecível e perfeito. E assim
foi em seu começo.
Ao abrirem as cortinas que revelavam os enormes tentáculos da cidade, também conhecidos como arranha-céus, no portão
de entrada de Nova Iorque, Roberto recebeu a primeira chamada
de vídeo quando o ônibus que o conduzia ainda trafegava pela
Ponte do Brooklyn.
Ao som da música "Hello", de Lionel Richie, Amanda apareceu. A menina trajava um alvo roupão de linho com detalhes
de arte chinesa realçado por um laço vermelho carmim; o talhe
do vestido, abrindo-se desde a cintura, deixava entrever o seio
delicado, mal encoberto por um ligeiro véu de renda finíssima.
Beleza oriental, "mimosa cor de mulher, aveludada pele da pubescência juvenil, tinha sua tez a cor das pétalas da magnólia,
quando vão desfalecendo ao beijo do sol". (José de Alencar,
1864).
- Amanda, que surpresa linda! – exclamou Roberto, emocionado.
- Que bom que gostou, meu amor. Como você está?
- Bem, apenas ansioso pra te encontrar...
- Fofo...
Amanda começa a bailar e, propositalmente, vai se desfazendo de algumas de suas poucas vestes, deixando Roberto
ainda mais ansioso para aquele encontro. De repente, a mú-
sica para. Inexplicavelmente, a garota sai de cena. Surge umchinês de meia-idade, ajustando o celular diante de si, bem à
vontade.
- Roberto, quanta honra! Pensei que não fosse mais te conhecer. Sou Chee Ho, muito prazer. – O rapaz já ia dizer um
palavrão, mas se conteve quando o chinês antecipou: – Calma,
não é nada do que você está pensando... estou aqui apenas para
apresentar meu produto, e o vídeo poderá esclarecer melhor o
que tenho pra lhe dizer.
Foi quando o chinês apertou o play de uma TV de LED a
seu lado, que começou a exibir um comercial, desses que todo
mundo já assistiu alguma vez na vida, pelos famosos canais de
tele shop. Logo apareceu a imagem de uma embalagem box com
a foto de Amanda estampada, ouvindo-se claramente a potente
voz do locutor, que dizia:
"Apresentamos... AMANDA, A GAROTA PERFEITA. O
primeiro programa de computador inteligente que resolverá de
uma vez por todas os seus problemas afetivos.
Ela será sua namorada, noiva, esposa, guardiã, estará com
você em todos os momentos, a qualquer hora do dia.
Seja como seu despertador:
- 'Bom dia, meu amor!!! Hora de ir trabalhar!'
Ou a ligação que faltava para deixar o seu dia mais feliz:
- 'Oi, meu amor! Está muito ocupado? Liguei pra dizer
que te amo, sabia?'.
Ou a esposa generosa que recebe o guerreiro ao final de
mais um dia de batalha.
- 'Como foi seu dia hoje? Eu tava morrendo de saudade!'
Passe momentos agradáveis com Amanda. Converse;
peça opinião; discuta problemas, encontre a solução. Ela tem
conhecimentos avançados em mais de 9.200 áreas específicas".
Você passará momentos agradáveis com Amanda. E poderá
ficar horas falando com ela, sobre diversos assuntos, mesmo os mais chatos e insuportáveis... e ela lhe responderá com comentários positivos como este:
- 'Nossa! A fórmula SpBk340980yx2 que você criou é
fantástica. Você é muito inteligente, meu amor!!!'."
Nesse momento, ouviu-se a voz do COMENTARISTA dizendo:
"Gente, veja bem o exemplo do vídeo anterior. Qual mulher
linda e atraente iria suportar um cara com um papo tão chato
como esse? A única é Amanda, claro, a esposa perfeita".
DEPOIMENTO DO COMPRADOR SATISFEITO 1:
- "Amanda é uma pessoa incrível! Outro dia, comentei
com ela o quanto eu estava descontente com o meu trabalho.
Ela, docilmente, me confortou:
- 'Não fica assim... Você é um homem generoso, bom. Por
dentro desse cientista que ajuda a fabricar armas, ogivas nucleares de destruição em massa, que podem acabar com a vida na
terra, pulsa um coração bondoso, uma alma sensível e caridosa.
O grande amor da minha vida!!!'.
A voz potente do locutor retorna:
"Não importa se você está certo ou errado, AMANDA foi
programada para sempre ficar do seu lado.
- '...Você é inocente, meu amor, um político honestíssimo.
Essa condenação foi um erro. Qualquer um no seu lugar aceitaria aquela mala de dinheiro!'.
O locutor avisa:
"E mais: conheça o AJUSTE DE PERSONALIDADE e escolha Amanda nas opções liberal, conservadora; submissa, indomável; marrenta e a fantástica... AMANDA BARRAQUEIRA!":
- 'Quem é aquela mulher com quem você estava conversando hoje, hem? – diz Amanda aos gritos – Fala! Você tá me
traindo com ela não, é? Seu ordinário, filho da puta!!!', – gritaria
seguida por uma barulheira de quebra de pratos.
Entra em cena o COMPRADOR SATISFEITO 2"Eu adorei! Essa opção é simplesmente fantástica! E o que
é melhor: quando eu perco a discussão, desligo o computador!"
E o locutor continua:
"Não perca tempo. Escolha a sua! Temos nas versões english, spanish, italian, french, chinese, brazilian.
Versões hétero, homo, bi, tri ou polissexual!!!"
Por fim, se viu o COMPRADOR SATISFEITO 3 em cena,
em uma praia com dia ensolarado, dizendo:
- "Baixei o aplicativo em meu celular e hoje estou com
'Ela' 24 horas por dia. Amanda mudou a minha vida! Acredite,
ela poderá mudar a sua também!!!". – o COMPRADOR SATISFEITO 3 é visto em um ângulo de cima, com as ondas batendo
em seus pés – ele com fone de ouvido, braços abertos, rodopiando, demonstrando estar muito feliz.
E o letreiro bem grande na tela em seguida.
AMANDA, A GAROTA PERFEITA.
Ligue já para o telefone que está em sua tela e adquirida
um box com 4 CDs mais o manual de instalação! E mais: você
ainda receberá essa moderna boneca inflável, que esquentará
ainda mais as suas noites. NÃO ESPERE MAIS! Chega de
solidão!
Ao final, Roberto se recusava a acreditar. Mas era a mais
pura realidade: Amanda não passava de um programa de computador, inteligente e bem programado, representado por uma imagem de uma mulher linda, inteligente, perfeita, que correspondia
às expectativas de quem estava do outro lado da tela.
- Então eu namorei esse tempo todo com um programa de
computador? :(
- Exatamente :) – respondeu o chinês – Um programa que
reproduz a garota dos sonhos; caso você se case com ela, a mulher que qualquer homem sonharia em ter, a esposa perfeita.
- Você é um trapaceiro.
- Não diga isso, seu ingrato! Deixei você utilizar o pro-grama por mais de um ano sem pagar nada. E agora estou lhe
ofertando 50% de desconto.
Roberto ficou em silêncio. E o chinês perguntou:
- E então, vamos fechar negócio?
Roberto nada respondeu. Apenas pensou: "No amor todos
os caminhos acabam de forma igual – desilusão"11. E logo aquela chamada foi encerrada.
Roberto estava arrasado. Era como se a Ponte do Brooklyn
tivesse desabado sobre a sua cabeça. Junto com ela, todo o seu
entusiasmo, expectativa, o buquê de flores que ele havia levado
e o seu coração despedaçado.
Então, ali mesmo, por celular, comprou sua passagem só de
ida para o Brasil, que seria no próximo voo.
"Quando o amor quer falar, a razão deve calar"12, pensou
no caminho.
- E foi isso que aconteceu, Zé... resolvi correr o risco, vim
para o Brasil ao encontro de um grande e verdadeiro amor. Juro
que esta será minha última tentativa. Agora preciso desligar.
Em outras palavras, Roberto ainda tinha uma carta na manga e pediu licença ao amigo assim que avistou uma senhora que
segurava um cartaz de boas-vindas com seu nome.
Após 10 anos morando no estrangeiro, Roberto finalmente
estava em solo brasileiro. Primeiro, numa breve escala no Rio
de Janeiro, onde, ainda no avião, ele contemplava maravilhado
a imagem do Cristo Redentor, o Corcovado. Depois, no seu destino final: Aeroporto Internacional de Goiânia, a capital onde,
mais uma vez, esse brazuca sonhador tentaria encontrar seu verdadeiro amor, apostando suas últimas fichas em Amanda, garota
que ele só conhecia pelo computador.
"O amor é a sabedoria dos loucos e a loucura dos sábios"13,
pensou ele ao se aproximar da senhora que segurava um cartaz
onde constava o nome do rapaz: "ROBERTO, SEJA BEM-VINDO! AMANDA E FAMÍLIA". Depois dessa, ele ganhou o dia!
- Dona Lúcia!!! – saudou ele a mulher que devia ter seus
cinquenta e tantos anos; alta, robusta, rosto arredondado sob
óculos de aros grossos, cabelos castanhos estilo Chanel e visível
verruga na testa.
- Roberto, meu querido! Como está se sentindo? – perguntou a senhora, abraçando o rapaz com certa intimidade.
- Um pouco desambientado, mas estou bem – respondeu ele.
- Isso é natural. Vamos. Tem um carro nos esperando lá
fora. Onde estão suas malas?
- Não as trouxe... – respondeu o rapaz, um pouco desajeitado, já que o encontro com Amanda não fora planejado.
- Não se acanhe, por favor. Quando eu era jovem, também
já fiz minhas loucuras de amor.
Agora mais descontraído, Roberto perguntou:
- E Amanda, melhorou?
- Melhor que veja com seus próprios olhos.- Espero que não seja nada grave.
- Não precisa se preocupar. Ela foi diagnosticada com um
simples transtorno, algo fácil de tratar.
- Nossa! Será por quê?
- Ah, meu querido... coisas inexplicáveis do ser, mas nada
que um pouco de repouso não possa resolver. – disse Lúcia, enquanto cruzavam o saguão do aeroporto.
- Ela tem dormido bem?
- Praticamente o dia todo, sob efeito de medicamentos;
dorme igual um bebê, mas, quando está acordada, vira a madrugada vendo TV.
Roberto ficou visivelmente preocupado com aquela informação. Permaneceu em silêncio, ensaiando uma indagação.
Chegando do lado de fora, estava prestes a fazer uma pergunta
bem direta, quando percebeu uma verdadeira comitiva à sua espera. Encostados em um veículo Opala 1978, estavam um homem forte, alto e cabeçudo, trajando uniforme de metalúrgico,
abraçado a uma moça, morena clara de cabelos pretos, esbelta
em uma calça justa de cintura alta; um passo a frente, uma garota gordinha vestida com camisa do Goiás Esporte Clube, baixa
estatura, espinhas no rosto e piercing no nariz exposto. Não obstante, ao vê-la sorrindo gentilmente, Roberto logo abandonou
seus pensamentos de preocupação, enquanto Lúcia prontamente
os apresentou com incontida satisfação:
- Roberto! Estes são meu irmão Carlos, o Carlão, sua namorada Rafaela, e minha sobrinha, Dirce.
- Oi, gente! – disse Roberto apertando a mão de Carlão e,
depois, a de Rafaela; por último, abraçou Dirce com um pouco
mais de liberdade.
- Acredito que ocê e a Dirce já devem de ter se falado
– comentou Lúcia, ao assumir o volante do antigo carro com
Roberto ao lado.
- Claro que sim! Dirce, a prima e confidente da Amanda...- ...E futura madrinha de casamento! – completou a moça,
animadíssima.
Já estavam em pleno trânsito caótico da cidade e o assunto
voltou a ser Amanda. Dessa vez, Roberto finalmente fez a pergunta que tanto ensaiara:
- A senhora falou que Amanda tem dormido sob o efeito
de medicamentos... Confesso que fiquei preocupado.
- Ora, pois, a coitadinha surtou feio... Felizmente, levamos ela a um bom psiquiatra – disse Lúcia.
- Estou surpreso com esse relato – ponderou Roberto. –
Afinal, fora o seu recente problema de insônia, Amanda sempre
me pareceu uma pessoa saudável...
- Pois é, menino, ela ficou assim de repente... pegou nóis
de surpresa.
- Ela tem plano de saúde?
- Infelizmente não. Isso, no Brasil, é pra gente endinheirada. Recebemos ajuda de uma associação.
- Que bom que existem pessoas boas neste mundo.
- Oh, bota boas nisso. Até cadeira de rodas eles deram pra
Amanda.
Roberto engoliu em seco. Lúcia voltou-se para a sobrinha
e perguntou:
- Por falar nisso... ô, Dirce... cê deu banho na Amanda,
hoje?
- Deu tempo não, tia...
Roberto quase pulou do banco.
- Um momento, dona Lúcia! Eu não sabia que o estado da
Amanda era tão grave! Pelo que a senhora me disse, ela sofreu
um simples transtorno...
- Exatamente... – começou Lúcia, explicando com voz
tranquila e serena. – Transtorno que a acompanha desde o dia
em que a pobrezinha nasceu... e piorou com esse namoro doceis
pela internet – finalizou com um "goianês" bem acentuado.- Por que não me falou isso antes? – questionou Roberto, sério.
- Sabe por quê, Roberto? – continuou Lúcia, dirigindo
tranquilamente, agora em uma via expressa – Eu, como mãe e
criatura do sexo feminino, sei que nada completa tanto uma mulher quanto o fervor de um amor correspondido, mesmo sendo a
distância! Então, apesar de achar que o romance doceis não iria
dar em nada, fiz vista grossa, deixei seguir.
- Por quê?
- Por não querer ver minha filha chorando pelos canto por
um amor não correspondido.
- Me desculpe, dona Lúcia! Mas quem ama de verdade
não mente dessa maneira.
- No amor e na guerra, vale tudo, meu rapaz.
- Sobretudo quando há interesses – espetou Roberto.
- Você está redondamente enganado. Minha filha não está
interessada em dinheiro, posição social, carro ou qualquer uma
dessas porcarias materiais; a ela isso de nada adiantará. Amanda
está paralisada da cintura pra baixo desde que nasceu, não fala,
e seus únicos momentos de felicidade são as horas em que passa
diante do computador, teclando com pessoas que sequer conhece, as quais imaginam que ela seja o protótipo da garota perfeita;
da mesma maneira que você a idealizou. Dessas garotas que só
existem no mundo virtual, lindas por fora, incrivelmente interessantes por dentro, descontraídas, saudáveis, corpos perfeitos;
donas de uma felicidade absoluta capaz de causar inveja às mais
perfeitas criaturas dos contos de fadas... Garotas que parecem
nunca ter sofrido nem vivido qualquer tipo de problema e que
estampam em suas páginas sociais frases, selfies, caretas, caras e
bocas em lugares interessantes. Uma vida colorida, donde o preto e branco e as chagas inevitáveis da vida só aparecem quando
elas desligam o celular ou computador.
- Fui enganado... fui enganado... – Roberto repetia para
si mesmo, olhando para a densa vegetação que ladeava a viaexpressa, enquanto Lúcia seguia dirigindo tranquilamente sem
perder o foco da conversa.
- Cê não foi enganado, Roberto. Amanda é uma menina inteligentíssima! Por infortúnio, vive naquela cadeira de rodas. Não é
a bela esportista por quem você se apaixonou; não é a universitária
que morava no Setor Bueno e agora faz estágio naquela empresa
de biomedicina. Na verdade, ela tem de estar todos os dias, desde
cedo, acompanhada da minha sobrinha, pedindo esmolas no farol.
E sua maior conquista na vida, desde que nasceu, foi ter conseguido
pronunciar três palavras: mãe, comida e água. Mas isso são meros
detalhes! – concluiu, dando um sorrisinho sarcástico.
- Detalhes uma ova! Isso foi um jogo de mentiras. Uma
tremenda sacanagem me fazer vir dos Estados Unidos pra cá
para descobrir que fui enganado. – Lúcia deu uma gargalhada, e
Roberto continuou ainda mais furioso: – Como fui idiota! Teclava com Amanda e falava ao telefone com outra pessoa!
Lúcia continuava gargalhando ainda mais, agora com os
ocupantes do banco de trás fazendo-lhe coro.
Sentindo-se como um palhaço de circo que acabara de levar
uma torta na cara, Roberto perguntou:
- Mas, vem cá, como a Amanda ficava sabendo do nosso
assunto ao telefone para continuar teclando depois?
- Colocávamos no viva-voz. Amanda ouvia tudo e ficava
encantada com suas histórias. Você é uma pessoa interessante,
Roberto! Já pensou em ser escritor?
- Olha aqui, dona Lúcia, não achei graça nenhuma nessa
história. Então, antes de me deixar na próxima parada, responda
somente uma coisa: quem falava comigo ao telefone?
- Você quer saber mesmo?... Ela está bem atrás de você.
- Dirce?!
- Isso mesmo – confirmou Dirce, apontando uma arma na
direção de Roberto. – Bem-vindo de volta ao Brasil! Agora abaixa a cabeça, seu otário, que a gente vai dar um passeio.