Eduardo Ferraz
O céu está cinza. E eu odeio metáforas óbvias, mas não posso evitar pensar que até o tempo parece lamentar a perda dela.
Fico parado ao lado do caixão fechado, com a expressão que aprendi a usar em todas as reuniões de negócios: inabalável. Mas hoje, por dentro, estou em ruínas.
Isabella.
Minha esposa. A mulher que me deu tudo. Até a própria vida.
- Meus sentimentos, senhor Ferraz.
A voz é abafada. Aperto a mão de alguém que não reconheço e tento manter a compostura. Os pêsames se repetem, como uma fila interminável de palavras vazias. Nenhuma delas traz Isabella de volta. Nenhuma delas me prepara para o que me espera a partir de agora: criar sozinho o filho que ela deixou para trás.
Enzo.
Nunca pensei que diria isso, mas... eu o culpo. O bebê. Ele viveu, Isabella não. É um pensamento cruel, eu sei. Mas é o que sinto. E o que sinto não tem filtro hoje.
Vejo minha sogra sentada num banco da frente, com os olhos inchados de tanto chorar. Ela ainda me odeia. Sempre odiou. Nunca me perdoou por ter tirado Isabella da casa dela. Agora, imagino, ela deve me culpar também pela morte da filha.
Talvez com razão.
O padre fala sobre luz, sobre eternidade, sobre almas boas que partem cedo demais. Eu não ouço. Só fixo os olhos na madeira escura do caixão e me pergunto como algo tão cheio de vida como Isabella pode caber ali dentro agora.
Os funcionários da funerária se aproximam. Vão fechar o caixão de vez. Meu coração dispara. Uma parte de mim quer gritar, impedir. Mas a outra parte... a parte que sobrevive, é fria. E essa parte vence.
Não choro. Não na frente deles. Eles esperam isso de mim: firmeza, domínio, força. O CEO Eduardo Ferraz não pode se desmontar diante de um caixão.
Eu respiro fundo e viro as costas antes de ver o caixão sumir sob a terra. Não suporto. Já enterrei demais em uma vida só.
Quando volto para casa - ou melhor, para a mansão onde moro - tudo está exatamente como Isabella deixou. As flores no vaso, a manta dobrada no sofá, o perfume dela ainda pairando no ar. Aquilo me sufoca.
Passo direto pela sala, subo as escadas e entro no quarto que ela preparou com tanto amor para Enzo. Ela passava horas ali, decorando cada canto com bichinhos de pelúcia e tons pastéis. A cadeira de amamentação está encostada perto da janela, como se ainda esperasse por ela.
Mas quem está lá embaixo, no berço, é uma criança de poucos dias, pequena demais, frágil demais. E minha.
Enzo dorme. Os olhos fechados, a respiração leve. Parece em paz. E talvez esteja, já que ainda não sabe a tragédia que aconteceu ao nascer.
Eu não consigo me aproximar. Apenas olho de longe. Como se aquele fosse o filho de outra pessoa. Como se aquela parte da história ainda não me pertencesse.
- Senhor Ferraz?
A enfermeira contratada pela agência aparece na porta, com uma expressão tensa.
- Ele precisa mamar daqui a pouco. Precisa decidir se vai continuar com o leite da doadora ou tentar a fórmula. - A mulher hesita, como se não soubesse se deveria dizer aquilo. - Sei que é difícil, mas talvez o senhor queira... segurá-lo.
Seguro? Não. Eu não sei nem por onde começar. Não quero. Não posso.
- Continue com o que achar melhor - respondo, seco. - E me avise se houver alguma emergência.
Ela balança a cabeça e se afasta. Eu volto para o meu escritório, o único lugar onde ainda tenho alguma sensação de controle.
Ligo o computador, abro planilhas, contratos, relatórios. Tento me perder nos números. Mas as palavras de Isabella ainda ecoam na minha mente.
"Você vai ser um ótimo pai, Edu. Mesmo que esteja morrendo de medo agora."
Ela me disse isso uma semana antes de entrar em trabalho de parto. Nós rimos. Brincamos sobre trocar fraldas, noites sem dormir, cheirinho de bebê. E agora... tudo o que tenho é silêncio.
Bato com força o punho na mesa.
Eu não pedi para ser pai. Pelo menos, não sozinho. Era pra ser nós dois. Eu ia cuidar da empresa, ela cuidaria do Enzo. Depois, juntos, a gente encontraria equilíbrio. Mas não assim. Nunca assim.
Naquela noite, o choro me acorda. Agudo, constante, desesperado.
Pela primeira vez, eu mesmo desço até o quarto dele. A enfermeira ainda está lá, mas parece exausta.
- Posso tentar - digo, hesitante.
Ela me olha, surpresa, mas não questiona. Apenas entrega o bebê em meus braços.
Enzo é tão leve que parece uma extensão do ar. Quando encosto o rosto no dele, sinto um calor estranho. Algo que não sei nomear. Ele se acalma, como se reconhecesse meu toque.
- Você é inocente nisso tudo - murmuro, num sussurro quase engasgado. - Não devia ter nascido nesse caos.
Ele boceja. E eu... eu sinto algo partir dentro de mim.
Uma rachadura. Pequena. Mas definitiva.
Nos dias seguintes, a rotina me consome. Reuniões com advogados, arranjos com a empresa, ligações de acionistas preocupados com a minha ausência. Todos querendo saber quando volto, quando reassumo meu trono. Como se eu fosse um rei exilado que precisa voltar ao castelo.
Mas não consigo. Não ainda.
Meu pai liga. Meu irmão aparece. Todos oferecem ajuda, mas ninguém entende. O que perdi não foi só uma esposa. Foi a minha bússola. A parte boa de mim. Aquela que me fazia ser menos máquina e mais humano.
Sem Isabella, sou só... uma versão crua e solitária de mim mesmo.
- Senhor Ferraz?
A enfermeira está parada na porta do meu escritório novamente. Já é a terceira vez que a vejo ali hoje.
- Sim?
- Preciso avisar que meu contrato vence amanhã. A agência quer saber se vai renovar ou contratar outra cuidadora.
Penso por alguns segundos. Ela é eficiente. Mas a cada dia parece mais nervosa, mais desconfortável ao meu redor.
- Pode encerrar.
Ela balança a cabeça. Parece aliviada. Ou talvez culpada. Mas não me importo. Preciso de alguém que aguente ficar aqui. Alguém que... que consiga cuidar dele. Do bebê.
Porque eu ainda não consigo.
Na noite seguinte, volto ao quarto de Enzo. Fico ali, em pé, observando ele dormir.
- Eu devia ser seu herói, sabia? - sussurro. - Mas a verdade é que... sou só um homem tentando não desabar.
Ele mexe as mãozinhas, resmunga algo no sono. Eu não entendo nada sobre bebês. Mas pela primeira vez, percebo que quero entender.
Que talvez... só talvez... ainda haja uma chance de fazer isso dar certo.
Mesmo que doa.
Mesmo que eu tenha que aprender tudo do zero.
Mesmo que o preço seja encarar minha culpa todos os dias.
Encosto a mão no berço. Enzo segura meu dedo com os dele. É só um gesto. Um gesto pequeno.
Mas talvez seja o começo de tudo.
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Um Mês Depois
Eduardo Ferraz
O silêncio me sufoca.
Ele não é um silêncio qualquer. É denso. Pesado. Mortal.
Ecoa em cada canto desta casa enorme, agora vazia, fria, sem cor. O mesmo lugar onde ela ria alto, onde planejava decorar o quarto do bebê com ursinhos e quadrinhos delicados, onde jurou que nossa vida mudaria para melhor. Mudou. Só que para pior.
Isabella morreu há um mês. Um maldito mês.
Toda manhã é igual. Acordo cedo, visto o mesmo terno escuro, ajeito a gravata com mãos trêmulas, olho para o berço vazio no quarto ao lado e fecho a porta. Não porque me esqueci que ele está lá dentro. Mas porque ainda não consigo encarar o bebê que me tirou o amor da minha vida.
É cruel pensar assim. Eu sei. Mas é como me sinto.
- Senhor Ferraz, o bebê está chorando de novo - avisa Marlene, a governanta, com os olhos carregados de pena. - A babá pediu demissão hoje de manhã. Disse que o senhor não quer segui-la nas orientações e que isso está afetando a rotina do menino.
O menino. Meu filho. Aquele que chora o tempo todo, que me olha com olhos enormes e inocentes como se estivesse me pedindo algo que não sei como dar.
- Suba lá e veja o que pode ser, então - respondo, seco, sem tirar os olhos da tela do notebook.
Marlene hesita, mas obedece. Ela é a única que ainda resiste nessa casa. A última leal à família Ferraz. Não por afeto, mas por dever.
Volto ao trabalho como se fosse a única tábua de salvação. Mergulho em relatórios, em fusões de empresas, em estratégias de expansão internacional. Na mesa ao lado, uma mamadeira vazia repousa como lembrete de que minha vida mudou para sempre. E não do jeito que eu esperava.
Isabela sonhava com esse bebê. Já tinha escolhido o nome: Enzo. Não me consultou. Apenas decidiu. E eu aceitei, porque tudo que ela queria, eu dava um jeito de fazer acontecer. Menos salvá-la.
Meu celular vibra. É uma mensagem de Cláudia, minha cunhada. Não abro. Não quero condolências, visitas ou conselhos de ninguém. O luto, descobri, é um buraco onde a gente afunda sozinho.
À noite, sento no sofá da sala e encaro o retrato de Isabella. A moldura dourada parece brilhar no escuro. Ela sorri naquela foto. Grávida de sete meses, com a mão sobre a barriga, como se já soubesse que não estaria aqui para conhecer o filho.
E eu? Eu estou aqui, respirando, funcionando, mas quebrado por dentro. Sem nenhuma expectativa de que algo mude na minha vida.
***🩵***
Na manhã seguinte, Marlene entra no escritório com uma prancheta e expressão séria.
- Com todo respeito, senhor Ferraz, o senhor precisa contratar outra babá. O bebê está com cólica, chora muito, e nenhum de nós tem preparo para lidar com isso por conta própria. E...
Ela faz uma pausa. Baixa os olhos.
- E ele sente falta de colo. De carinho.
Sinto um nó no estômago. Detesto a forma como ela fala. Como se eu fosse um monstro por não querer tocar no meu próprio filho.
- Publique um anúncio. Mande chamar uma agência. Faça o que for preciso - murmuro, exausto.
- Já fiz. Marquei entrevistas com algumas candidatas para hoje à tarde. A primeira chega em uma hora.
Assinto com a cabeça, sem dizer mais nada. Afinal, eu não tinha uma solução para o caos que a minha vida se encontrava, imagina solucionar o problema de um filho que eu sequer conseguia olhar.
Parece monstruoso, mas estou perdido. Sem saída. Sem expectativa. Sem vida. Portanto, como oferecer algo para um bebê que eu sequer possuo?
"Céus! A minha vida tornou-se um inferno, e eu não sei como sair desse buraco sem fundo que meus dias se tornaram."
Uma hora depois, a campainha toca.
Estou sentado à mesa da sala de estar, de frente para a primeira candidata. Vinte e tantos anos, muito falante, salto alto e perfume doce demais. Fala como se fosse vender um curso de maternidade. Eu mal escuto. Ao final da entrevista, agradeço e a dispenso com um "entramos em contato".
As outras três seguem o mesmo padrão. Currículos impecáveis, sorrisos forçados, linguagem treinada. Não quero alguém para cumprir tabela. Quero alguém que... que saiba olhar para aquele bebê sem culpa. E que possa oferecer algo que eu como pai deveria dar: afeto.
E então, quando já penso em desistir de tudo, Sofia entra.
Ela não tem o perfil das outras. Veste jeans e uma camisa branca simples. O cabelo está preso num coque bagunçado. Não carrega uma pasta cheia de diplomas, nem fala com entusiasmo forçado. Mas assim que senta na minha frente, me encara de forma direta, firme. Sem pena. Sem bajulação.
- Por que está aqui? - pergunto, direto.
- Porque eu preciso do trabalho. E acho que posso ajudar.
- Tem experiência com bebês?
- Tenho mais experiência com dor do que com fraldas. Mas aprendo rápido.
Minha sobrancelha se ergue. Aquilo me intriga.
- Isso não é uma resposta comum para uma entrevista.
- Nem a sua vaga é comum, senhor Ferraz. Eu pesquisei sobre o senhor. Sei o que aconteceu. Não estou aqui por pena. Estou aqui porque acredito que esse bebê precisa de alguém que olhe para ele como um ser humano, não como um fantasma.
O impacto das palavras dela me atinge em cheio.
Sofia permanece com o olhar firme. Não se abala com meu silêncio.
- Eu cuido dele. Dou banho, mamadeira, carinho, tudo que for preciso. Só preciso de um teto e um salário justo. E uma coisa em troca - ela diz.
- O quê?
- Que o senhor não me impeça de fazer o que ele precisa: colo, afeto, presença. Se quiser continuar distante, é sua escolha. Mas não me atrapalhe.
É a única que ousa me desafiar. A única que fala como se realmente estivesse preocupada com ele - o bebê. Não comigo. Não com a mansão. Não com o sobrenome Ferraz.
Não sei o que me dá. Talvez cansaço. Talvez alívio. Mas aceno com a cabeça.
- Está contratada.
Ela não sorri. Apenas se levanta e diz:
- Obrigada. Vou começar agora.
Enquanto sobe as escadas, escuto a voz suave dela chamando o bebê pelo nome. Enzo. Pela primeira vez, o nome não soa como uma sentença.
Fico parado ali por longos minutos, sentindo uma coisa estranha dentro de mim.
Talvez... esperança.
Ou talvez só o começo de algo que eu ainda não consigo entender.
Mas sei que, de algum jeito, minha vida está prestes a mudar mais uma vez.
E não tenho ideia do que isso significa. Mas a sensação de que nada será como antes preenche os meus pensamentos, e talvez, essa seja a tampa que faltava para fechar o buraco sem fundo que se encontrava a minha vida desde que Isabella se foi.
A única questão é: Será que estou pronto?
Sofia Carvalho
O choro dele corta o ar antes mesmo de eu chegar no quarto.
É agudo, desesperado, como se implorasse por algo que nem sabe nomear. Corro os últimos degraus da escada e entro devagar, tentando não parecer uma estranha - embora seja exatamente isso. Uma estranha em uma casa silenciosa e cheia de fantasmas.
O bebê está vermelho, com o rostinho todo enrugado, as mãozinhas fechadas em punho, as pernas se debatendo no ar. Ele parece tão pequeno naquele berço enorme, cercado por móveis de grife e zero afeto.
- Ei, neném... calma - sussurro, me aproximando devagar.
Não espero permissão para pegá-lo no colo. Eu simplesmente o faço.
Ele é leve. Quente. Treme um pouquinho. Seu corpinho se encaixa no meu peito com uma naturalidade que me desmonta.
- Tá tudo bem, Enzo... agora você tem alguém, tá bom?
Ele ainda chora, mas com menos força. Como se sentisse que, dessa vez, alguém ouviu. Eu não tenho superpoderes, só tenho braços e coragem para usá-los. E às vezes isso já muda tudo.
Ando pelo quarto, embalando devagar. Canto baixinho um trecho de uma música qualquer, uma que minha mãe cantava quando a vida era menos difícil. Ele vai se acalmando aos poucos, até que o choro vira um soluço cansado. E logo depois, o silêncio.
Dessa vez, um silêncio bom.
Enzo adormece no meu colo.
E junto com ele, um pedaço do meu coração se acomoda ali também.
Algo dentro de mim dizia que eu estava no lugar certo, e que nesta casa precisam de mim muito mais do que se poderia imaginar.
***🩵***
Eduardo
Assisto à cena da porta entreaberta.
Ela não me vê. Ou finge não ver.
Sofia caminha pelo quarto com meu filho nos braços como se fizesse isso há anos. Como se ele fosse dela. Como se fosse... natural.
Algo dentro de mim se parte. Um lado meu quer invadir o quarto, arrancá-lo dos braços dela. Outro lado quer se ajoelhar e agradecer.
O bebê parou de chorar. Depois de dias. Depois de semanas.
Nem mesmo Isabella, no fim da gravidez, conseguia acalmá-lo como essa mulher desconhecida acabou de fazer.
Meu coração aperta. Tento engolir a dor que vem como um soco. Não por ciúme. Mas por culpa. Pela certeza de que eu falhei de novo. Que um estranho faz o que eu não consigo.
- Ele dormiu - ela diz, de repente, me encarando pela porta.
Merda. Ela me viu.
- Percebi - respondo, tentando parecer indiferente. - Você tem jeito com crianças.
Ela dá de ombros.
- Acho que só tenho jeito com gente que precisa de colo. E ele precisava.
- E se ele se acostumar demais?
Ela arqueia uma sobrancelha.
- Não é isso que bebês fazem? Se acostumarem com o afeto? Ou o senhor prefere que ele se acostume com a solidão?
Fico sem resposta.
Ela não abaixa a cabeça, nem pede desculpa. Apenas volta para o berço e o deita com cuidado, ajeitando a mantinha azul-clara que cobre o corpinho adormecido.
- A mamadeira dele tá desregulada. Tinha leite demais, provavelmente indigesto. E ele tá com a barriguinha inchada. Pode ser cólica. Com banho morno e massagem, melhora.
Ela dizia com uma naturalidade incrível. Era como se já tivesse cuidado de criança por anos.
- Você aprendeu isso em algum curso? - pergunto curioso, e recebo outra resposta sem filtro.
- Aprendi na vida.
Engulo seco. Não estava acostumado a receber respostas ácidas, e sim, oferecer. Fico silencioso. Não pergunto mais. Ela sai do quarto e fecha a porta atrás de si com a delicadeza de quem já entende os barulhos dessa casa.
Fico ali, parado, observando meu filho dormir pela primeira vez em paz.
E me odeio um pouco por não ser eu o responsável por isso.
***🩵***
SOFIA
À noite, Marlene me mostra onde vou ficar. Um quarto pequeno, mas aconchegante, nos fundos da casa. Ela me oferece um chá, conversa educadamente, mas noto que me observa com curiosidade o tempo todo.
- Você surpreendeu o patrão. Ele não costuma contratar ninguém assim... no impulso - ela comenta.
Dou um sorriso pequeno.
- Eu acho que ele só está cansado.
Ela assente. Mas antes de sair, faz um comentário que me deixa alerta:
- Só toma cuidado pra não criar expectativas. O senhor Ferraz já perdeu demais pra arriscar confiar em alguém de novo.
Fico pensando nisso enquanto organizo minhas roupas na pequena cômoda. Não estou aqui pra que ele confie em mim. Estou aqui por Enzo. Pela criança que não tem culpa de nada disso.
Mas, no fundo, sei que o caminho vai ser mais complicado do que imagino.
***🩵***
EDUARDO
Não durmo. Apenas me deito e espero o dia seguinte.
As palavras de Sofia ficam ecoando na minha mente. "O senhor prefere que ele se acostume com a solidão?"
Eu não preferi nada disso. A solidão me invadiu sem pedir licença. Levei Isabella pro hospital com dores. Horas depois, saí de lá com um bebê nos braços e um atestado de óbito no bolso.
Como se sobrevive a isso?
Levanto da cama antes do sol nascer. O quarto de Enzo está silencioso. Sofia já está lá, sentada na poltrona ao lado do berço, com ele no colo, dando a mamadeira com tanta naturalidade que me pergunto se ela já foi mãe.
- Você sempre acorda tão cedo? - pergunto, parando na porta.
Ela ergue os olhos, sem se assustar.
- Sempre. Aprendi que o mundo acorda cedo, mesmo quando a gente quer continuar dormindo pra sempre.
Quase sorrio. Quase.
- Quer que eu tente? - pergunto, apontando o bebê.
Ela me olha por alguns segundos antes de assentir e levantar.
- Sente-se. Apoie o braço. Ele gosta de firmeza.
Sigo as instruções, meio travado. Ela me entrega Enzo com cuidado, e o peso dele nos meus braços me pega de surpresa. Parece leve... e ao mesmo tempo... tão imenso.
Ele me olha. Aqueles olhos escuros, inocentes, curiosos.
Por um momento, sinto algo. Algo bom. Algo... assustador. Algo que não deveria sentir... Mas, sinto.
- Ele está mais calmo - comento, sem encará-la.
- Porque está começando a confiar - ela diz, pegando a mamadeira e ajudando a ajeitá-la.
- Confiar em mim?
- Em você. Em mim. No mundo.
Um silêncio cortante surge entre nós.
Ela se afasta devagar, me deixando ali com meu filho no colo.
E, pela primeira vez, sinto que talvez - só talvez - eu consiga oferecer o que ele merece e precisa: amor de pai.
***🩵***
SOFIA
Observo de longe.
Eduardo segura o bebê com um nervosismo doce, como quem carrega um segredo frágil demais. Por trás daquele terno impecável e da postura controlada, existe um homem ferido. Um homem tentando ser pai. Tentando ser qualquer coisa além da dor.
Ele é fechado. Rígido. Mas não é frio. Eu vejo isso.
A dor não é ausência de sentimento. É excesso.
E ali, naquela manhã silenciosa, sei que algo começa a mudar.
Talvez devagar. Talvez com tropeços.
Mas é um começo.
E começos, eu aprendi, são preciosos demais para desperdiçar. E o que estiver ao meu alcance para ajudá-los, eu farei sem exitar. Sem explicação eu me apeguei a esse bebê, e algo me diz que a minha chegada nesta casa não foi por acaso. Enzo precisa de mim tanto ou mais do que eu preciso dele. Necessito recomeçar, e aqui parece ser o lugar perfeito para que eu possa voltar a viver.