Já havia tomado duas garrafinhas de água mineral e ainda assim, o suor insistia em correr incansavelmente por meu rosto. Já estava a mais de duas horas percorrendo as ruas do Rio de Janeiro em busca de emprego e sob o calor de 40º graus, cheguei a perder as contas de quantos currículos deixei. O sol estava escaldante e me arrependi por não ter passado protetor solar na minha pele quando sai de casa pela manhã, provavelmente mais tarde, se tornaria impossível me distinguir de um camarão.
Mais tarde, enquanto voltava para casa, frustrada por não ter conseguido nada, meu olhar divagou para a rua ao lado e me peguei observando algumas pessoas que estavam sentadas em uma sorveteria, se refrescando com Sundaes deliciosos. Sim, eu poderia ter parado para tomar um, mas enquanto não conseguisse emprego, eu não poderia me render a esse luxo.
Estava desempregada a quase um mês e apesar de não ganhar muito como vendedora em uma loja de roupas, eu conseguia me manter e também pagar minha faculdade de Psicologia, mas se não conseguisse um emprego até a próxima mensalidade chegar, eu seria forçada a trancá-la e de maneira alguma eu queria ver as coisas chegarem a esse ponto.
Eu havia me mudado para o Rio de Janeiro exatamente no começo do ano. Havia conseguido ganhar uma bolsa de estudos de 50% na PUC e não poderia perder a oportunidade que havia recebido de ingressar em uma ótima faculdade. Admito que a princípio não foi fácil deixar minha família em Goiânia e ter que me mudar para tão longe, mas acho que me adaptei bem.
Assim que cheguei, aluguei uma casinha simples, bem distante do centro da cidade, tão distante que para chegar até a faculdade, precisava pegar três ônibus diferentes. O problema é que o aluguel já estava atrasado a um mês e a qualquer momento, o dono da casa poderia me colocar no olho da rua.
Cheguei em casa por volta das cinco horas da tarde, depois de ter pego dois ônibus diferentes. A casa em que morava era bem simples, era murada, com um portão de grades que levava a uma pequena varanda na frente, com alguns vasos de flores que já estavam ali quando me mudei, possuía uma sala, cozinha, um banheiro, um quarto e um jardim no fundo, era toda mobiliada e apesar de os móveis já estarem um pouco velhos e de vez em quando eu tomar alguns choques acidentais na geladeira que já estava toda enferrujada ou ficar presa nas enormes crateras que havia no estofado do sofá, eu gostava de estar ali.
No fim da tarde, tinha o costume de me sentar na varanda da frente e ficar olhando as estrelas no céu, o que só era possível ali, já que no centro, a vista era impossibilitada pelos grandes prédios.
Depois de destrancar a porta, deixei minha bolsa sobre a estante, bem ao lado da televisão e me joguei no sofá. Minha cabeça latejava e minhas pernas doíam tanto que parecia que eu havia acabado de correr uma maratona.
Cuidadosamente tirei minhas botas e mexi os dedos dos meus pés para me certificar de que eles ainda estavam inteiros. Estendi minha mão e apanhei minha bolsa, procurando por um dorflex, com um pouco de água que ainda restava na garrafa mineral, tomei um comprimido.
Apanhei meu celular e notei que haviam oito chamadas perdidas, era Vanessa, minha melhor amiga. Toquei na tela ligando para ela:
- Finalmente Sofia, pensei que tivesse sido assaltada! Liguei para você o dia todo! Onde estava? -Disse preocupada.
- Oi Vanessa, me desculpe, passei o dia inteiro fora procurando emprego, só cheguei em casa agora. –Ao falar, apresentei estar mais exausta do que o normal.
- Alguma boa notícia?
- Na verdade não, deixei um currículo em todos os lugares pelos quais passei, mas não acho que nenhuma das empresas que visitei vai me telefonar. Estou tão preocupada, não quero ter que trancar a faculdade. - Respondi sentindo toda a minha esperança se esvair.
- Sofia, já lhe disse que se quiser meu pai pode te ajudar. –O pai de Vanessa era banqueiro e sua mãe era advogada, eles tinham boas condições de vida e apesar do grande abismo social que havia entre nós, isso nunca foi um empecilho na nossa amizade.
- Sério Vanessa, agradeço demais o que você está me oferecendo, mas não posso aceitar, sou muito orgulhosa para desistir tão fácil assim, amanhã mesmo vou aproveitar que não temos aula na faculdade e vou sair bem cedo para procurar emprego.
- Queria tanto poder te ajudar... -Ela parecia se sentir impotente do outro lado da linha.
- Eu sei, mas não se preocupe, sei que vou conseguir encontrar
algo.
- Você já visitou algumas daquelas agências que te ajudam a
encontrar emprego? Geralmente surgem vagas como de assistente pessoal, babá. Essas coisas. Sei que você queria algo melhor, mas quem
sabe. -Uma pontinha de esperança pareceu ressurgir dentro de mim.
- Amiga, na situação em que estou, qualquer coisa que aparecer vai ser muito bem-vinda.
Pensei no conselho de Vanessa e depois de algumas buscas na internet, encontrei uma dessas agências no centro da cidade, teria de enfrentar outra maratona e um transporte público lotado, provavelmente pela noite meus pés me matariam, mas agora eu estava mais confiante do que nunca, era como se sentisse que dessa vez minha caminhada não seria em vão.
Enquanto pesquisava no notebook, deitada em minha cama, acabei sendo vencida pelo cansaço e adormeci antes que percebesse.
CAPÍTULO 2 – SOFIA
Na manhã seguinte, acordei por volta das cinco da manhã e mesmo com todo meu corpo doendo, me esforcei para conseguir sair da cama, teria de pegar uns dois ônibus para chegar até a agência. Por algum motivo, chegar mais cedo parecia aumentar minhas chances de conseguir algo.
Depois de uma ducha, peguei uma calça jeans no guarda-roupas e uma camiseta preta as vestindo, calcei minhas botas e fiz um rabo de cavalo no cabelo. Peguei minha bolsa e desci para a cozinha.
Preparei um café forte para conseguir vencer o dia e tranquei o portão da casa:
- Vai dar tudo certo desta vez. -Disse para mim mesma, enquanto guardava as chaves em minha bolsa e caminhava até o ponto de ônibus.
Peguei o primeiro ônibus às cinco e quarenta da manhã e o segundo às sete e meia. Para chegar até a agência tive de caminhar mais um pouco, chegando lá exatamente as oito da manhã.
Por mais que eu tivesse tentado chegar cedo, o local já estava lotado de pessoas. Devia ter imaginado que eu provavelmente não seria a única pessoa desempregada no Rio de Janeiro. Peguei uma senha e me sentei aguardando minha vez.
Depois de quase uma hora, uma atendente chamou o número que eu tinha em mãos:
- Bom dia, no que posso ajudá-la? -Ela perguntou, enquanto eu me sentava a sua frente.
- Bom dia, estou precisando muito de um emprego. -Era óbvio, todos ali estavam, mas do jeito que eu falei, fiquei parecendo mais desesperada que todos.
- Tem alguma preferência? Algo específico que queira fazer? -Ela perguntou, digitando algo no computador.
- Não exatamente, o que aparecer, para mim está ótimo.
- Tem experiência com crianças?
- Acho que posso dizer que sim, era eu quem cuidava da minha irmã mais nova.
- E com idosos?
- Acho que sim.
- Você fuma, bebe ou usa drogas?
Balancei a cabeça em negativa, seriam aquelas perguntas padrões?
- Não.
- Pode me dizer o seu nome?
- Sofia Montenegro.
- Está com seus documentos aí, Sofia?
- Claro, só um instante. -Depois de entregar meus documentos a atendente, ela teclou durante mais alguns instantes no computador, provavelmente estava preenchendo uma ficha.
- Pronto, Sofia -Ela me entregou meus documentos- Telefonaremos para algumas pessoas e caso algumas delas se interessem pelo seu perfil nós as informaremos.
- Está bem, obrigada.
Quando sai da agência, rezei para que eles me telefonassem o mais rápido possível, mas como não podia contar apenas com a sorte, aproveitei que já estava ali para deixar mais currículos. Porém, mas uma vez, não tive nenhuma resposta positiva.
Cheguei mais tarde em casa desta vez. Estava mais cansada do que nunca, a dor de cabeça insistia em permanecer e meus pés estavam mais doloridos do que no dia anterior. Também estava morta de fome, não havia engolido nada o dia todo.
Preparei um sanduíche com alguns ingredientes que encontrei na geladeira e me sentei no sofá, tentando finalizar um trabalho da faculdade ao mesmo tempo em que comia, o que não me impediu de derramar alguns farelos de pão sobre o meu notebook.
Estava completamente empenhada em terminar meu trabalho e ir logo para a cama. Meus olhos mal se mantinham abertos, quando meu celular tocou:
- Alô? -Atendi sem prestar muita atenção no número.
- Boa noite, Sofia Montenegro?
- Sim, sou eu. -Disse colocando o notebook de lado para me concentrar na conversa.
- Aqui é da agência, estou ligando para avisar que conseguimos um emprego para a senhora.
- Que tipo de emprego? -Perguntei animada.
- Uma família está precisando de uma babá, são duas crianças, ligamos para a casa e eles se mostraram bastante interessados no seu perfil. Mas claro, se a senhorita não estiver interessada, podemos continuar procurando algo...
- Não, é claro que estou interessada! Quando começo?
- Amanhã mesmo, vou lhe passar o endereço da casa.
- Está bem, muito obrigada! -Peguei uma folha e anotei atentamente o endereço que ele estava me passando. Aquele emprego seria a minha salvação.
CAPÍTULO 3 – SOFIA
O dia seguinte pareceu ter amanhecido mais radiante do que todos os outros, lógico que tudo não passava de coisa da minha cabeça, a expectativa de que finalmente havia encontrado algo, me fazia acreditar que tudo poderia dar certo naquele dia.
Depois de tomar um café da manhã bem reforçado -Não havia percebido antes, mas nos últimos dias, não vinha me alimentando bem, por conta da correria e do anseio em encontrar outro emprego, mas agora, com esse problema resolvido eu já podia ficar mais tranquila- sai de casa às cinco e meia da manhã e cheguei na faculdade exatamente dez minutos
antes do início da primeira aula. Estava tão animada, era impossível desfazer o sorriso que havia se formado em meu rosto.
- Bom dia, Sofia! –Vanessa falou assim que me aproximei. Minha única reação foi abraçar forte minha amiga- Algum motivo especial para estar me abraçando desse jeito? –Ela questionou curiosa.
- Eu decidi seguir seu conselho, fui a uma agência de empregos e ontem a noite me ligaram, dizendo que haviam encontrado algo para mim!
–Dizia eufórica.
- Isso é maravilhoso, Sofia! –Ela me abraçou forte- Fico feliz em tê- la ajudado de alguma forma. Mas, o que exatamente você vai fazer?
- Ainda não sei muitos detalhes, mas até onde entendi, serei babá dos filhos de um grande advogado aqui do Rio, não quis fazer muitas perguntas, mas acho que são bem ricos.
- São quantas crianças?
- São duas, uma menina e um menino, eles não me informaram a idade, mas deduzi que a menina ainda seja pequena e que talvez o menino tenha uns dez anos.
- Quando você vai começar?
- Hoje mesmo. Assim que sair daqui, irei direto para lá, ainda tenho que conversar com o pai das crianças sobre o fato de eu fazer faculdade pela manhã, talvez isso acabe se tornando um problema.
- Vai dar tudo certo, eu tenho certeza! –Ela se agarrou a mim, enquanto caminhávamos pelo corredor da faculdade– Será que esse seu patrão é gato ou é um daqueles executivos de cabelos grisalhos e barrigudo? –Ela disse depois de um bom tempo em silêncio.
- Por favor né, Vanessa? –A olhei de relance, revirando os olhos.
- Foi só um comentário inocente –Ela parou na minha frente- Mas lá no fundo, admita, você também está curiosa para descobrir! –Ela sorriu sorrateiramente- Toda mulher tem um fetiche por executivos! –Ela piscou, entrando na sala e se sentando em seu lugar, o professor já estava chegando para iniciar a aula.
Durante os primeiros minutos da aula, refleti sobre o que Vanessa havia dito, mas no final, sabia que não importava a aparência do homem, jovem ou velho, ele seria meu patrão, minha obrigação era cuidar dos seus filhos e eu não podia falhar, dependia desse emprego para poder continuar estudando e me mantendo no Rio.
Após as aulas, me despedi de Vanessa e disse que ligaria quando saísse do emprego para lhe contar as novidades. Precisei pegar apenas um ônibus para chegar até lá.
A casa estava localizada em um dos condomínios mais nobres da cidade. Assim que a minha entrada foi liberada, caminhei, conferindo o endereço no papel, não podendo deixar de reparar nas enormes mansões pelas quais passava.
Foi quando encontrei o número 342. A casa era tão grande quanto todas as outras casas vizinhas e a observando da rua, tive a sensação de que era muito maior por dentro.
Mesmo dominada pela ansiedade, atravessei o longo jardim que havia na frente em direção a porta, toquei a campainha e em poucos segundos, uma senhora, vestida em um uniforme preto, com babados brancos apareceu a porta:
- Bom dia, posso ajudá-la? –A senhora falou, ajeitando os óculos para poder me ver melhor.
- Eu fui contratada para ser a nova babá.
- É mesmo, fui avisada de que você viria hoje, por favor, entre –A senhora disse abrindo mais a porta e se afastando para o lado para que eu pudesse entrar.
Eu estava certa. Por dentro a casa parecia ser ainda maior do que por fora. Só a sala, já era maior que minha casa. A mobília parecia ter acabado de chegar da loja e haviam vários quadros espalhados pelas paredes:
- Qual é mesmo o seu nome? –A senhora perguntou, me arrancando de meus devaneios.
aquilo.
- É Sofia. Sofia Montenegro. –Respondi, ainda fascinada com tudo
- Perdão, sou péssima com nomes, mas devo dizer que eu mesma
cuidei para que a senhorita fosse contratada. Sou a governanta da casa.
- A senhora?
- Sim, a antiga babá pediu demissão a algumas semanas e como o senhor Oliver está sempre ocupado com o trabalho, resolvi tomar a iniciativa, não tenho o tempo que as crianças precisam e o perfil que a agência fez de você, me agradou bastante.
- Onde elas estão?
- As crianças? Devem estar chegando do colégio agora.
- Está bem, mas o que exatamente eu tenho que fazer?
- Estevan e Elena fazem muitas atividades extracurriculares. Sua tarefa é organizar o cronograma de atividades, levá-los as aulas e cuidar para que eles façam corretamente as tarefas. Acredito que seria mais adequado dizer que você seria a assistente pessoa das crianças, do que uma babá.
Estevan e Elena. Então era assim que eles se chamavam.
- O pai das crianças não está? Gostaria de acertar os detalhes da contratação com ele.
- Infelizmente tudo o que tiver que resolver, você terá que falar comigo. Oliver é um homem muito ocupado e quase nunca está em casa, mas não se preocupe, eu fico encarregada de cuidar de tudo o que acontece por aqui. Sobre o que você queria falar?
- Bem, eu curso faculdade de Psicologia na PUC pela manhã, talvez o meu horário acabe não dando certo com o das crianças.
- Não se preocupe, elas entram no colégio as sete e meia da manhã e só chegam em casa ao meio dia e meio, eu posso cuidar delas neste período, as atividades que eles fazem só ocorrem no período da tarde, mas acredito que você já estará aqui todos os dias quando elas chegarem.
- Sim, estarei. –Ao fundo, ouvi uma porta de carro sendo fechada.
- Eles chegaram –A senhora disse para mim, se encaminhando até a porta da frente. Quando a abriu, uma menininha de cabelos loiros e cacheados se atirou em seus braços.
- Como foi no colégio hoje, Elena? –A senhora perguntou à garotinha, que pareceu ter me notado parada ali no meio da sala somente naquele instante.
- Foi legal. –Ela respondeu, mas seus olhinhos verdes estavam fixos em mim.
- Oi, tudo bem? –Perguntei a ela, que demonstrando estar um pouco tímida, apenas acenou positivamente com a cabeça para mim.
Logo em seguida, um garoto também passou pela porta. Tinha cabelos e olhos castanhos, usava jeans, tênis e vestia a camiseta do colégio, a mochila escolar estava apoiada em apenas um braço e em sua mão, segurava uma pequena mochilinha cor de rosa, provavelmente da irmã:
- Quem é ela? –Ele encarou a senhora- Não me diga que...
- Eu a contratei para ser a nova assistente de vocês, Estevan. Ela os ajudará com as atividades escolares e extracurriculares.
- Eu tenho dez anos! Não preciso que ninguém cuide de mim! –Ele me encarou da cabeça aos pés e percebi quando seus olhos pararam nas minhas botas de couro marrom- Muito menos uma caipira! –Ele esbravejou saindo da sala.
- Estevan? –Ana o chamou, mas logo ouvimos a porta de um quarto bater. Um pouco sem jeito, dona Ana me encarou- Me desculpe Sofia, Estevan é um bom garoto, você verá, ele só estava um pouco irritado.
- Tudo bem, eu até entendo ele, acho que era do mesmo jeito nessa idade.
- Vou colocar a mesa para o almoço agora, volto em um instante. – Dona Ana falou, se retirando da sala e indo em direção a cozinha. Elena
permaneceu onde estava, me olhando curiosa.
- E então, quantos anos você tem? –Perguntei, se iria trabalhar ali, precisava conhecer melhor as crianças e a melhor forma de lidar com elas.
- Seis. –Ela me encarou- Como você se chama?
- Eu me chamo Sofia e você é a Elena, certo? –Ela afirmou com a cabeça. Me inclinei um pouco para ficar mais perto dela- Sabe de uma coisa Elena, acho que vamos ser ótimas amigas. –Pisquei para ela, que mesmo tímida, me lançou um sorrisinho banguela.
- Desculpe interrompê-las, mas o almoço está servido. –Ana disse retornando à sala- Será que você poderia chamar o Estevan para mim, Sofia? –Ela pediu- O quarto dele fica na segunda porta a direita.
- Claro, vou chamá-lo.
- Sofia, depois do almoço você gostaria de ver minha coleção de bonecas? –Elena perguntou, me olhando com seus olhinhos verdes, ela realmente era uma criança linda. Me perguntava se ela deveria se parecer com o pai ou com a mãe.
- Eu iria adorar! Vou chamar seu irmão agora, está bem? –Ela concordou, seguindo dona Ana até a sala de jantar.
Segui pelo corredor da casa, juro que eu poderia me perder facilmente ali. Mais uma vez, vi muitos quadros e muitas portas também. Bati na segunda porta a direita, como Dona Ana havia dito:
- Estevan, aqui é a Sofia, posso entrar? –Como não ouvi nenhuma resposta, girei a maçaneta cuidadosamente e o vi sentando na cama jogando vídeo game.
Em um canto estava o guarda-roupas, havia um criado mudo ao lado da cama, e a mochila escolar estava de um jeito que evidenciava que ela havia sido arremessada ao chão. Havia uma outra porta dentro do quarto que eu imaginei ser um banheiro e próxima a cama, havia uma estante com vários troféus.
Me aproximei para vê-los. Eram de campeonatos de futebol e na maioria deles, Estevan havia ganho em primeiro lugar:
- Uau, não sabia que você jogava futebol! Você é muito bom! – Comentei, o olhando.
- Assim como você não sabe mais um monte de coisas sobre mim.
–Ele disse ríspido, sem tirar os olhos da televisão.
- Você está certo, mas prometo que aprendo rápido. –Me sentei ao seu lado na cama. Por coincidência, ele estava jogando um jogo de futebol para X box- Será que eu posso jogar também? –Pedi e ele me lançou um sorrisinho de lado.
- Claro, mas se prepare para ser humilhada, eu sou tão bom neste jogo, quanto nos campos.
- Veremos. –Me levantei pegando o outro controle.
Ele iniciou um novo jogo e logo demos início a partida, nos primeiros minutos ele conseguiu marcar um gol, mas por mais que ele fosse bom, não conseguiu me derrotar e eu o acabei vencendo por 5x2.
- Espera, como você fez isso? Você é muito boa! –Ele me encarou impressionado depois que a partida acabou.
- Eu jogava este jogo com os meus primos quase todos os dias, acho que alguma coisa eu aprendi. –Pisquei para ele.
- Você precisa me ensinar como se faz aquele drible, nunca vi nada parecido antes!
- Claro, mas primeiro você tem que se desculpar por ter me chamado de caipira.
- Me perdoe Sofia, eu estava brincando, para ser sincero, eu realmente gostei das suas botas. -Suas desculpas eram irônicas, mas ainda assim, eram desculpas.
- Quer saber de uma coisa Estevan? Acho que nós dois vamos nos dar muito bem.
CAPÍTULO 4 – SOFIA
Depois do almoço, Elena me levou ao seu quarto para me mostrar suas bonecas, só não imaginei que fossem tantas. Ela deveria ter todos os modelos existentes no mundo da boneca Barbie, sem contar outros tipos de brinquedos, que ficavam guardados em prateleiras e em um baú.
O quarto de Elena deveria ser o quarto dos sonhos de qualquer garotinha. Suas paredes eram rosas e a cabeceira da sua cama lembrava a cama de uma princesa. Em seu guarda-roupas, haviam vestidos e calçados de todos os estilos. Ela parecia estar bem animada me mostrando tudo.
- Você gostou do meu quarto, Sofia? –Ela me encarava sorridente, enquanto guardava alguns brinquedos que havia acabado de me mostrar em seus devidos lugares.
- Claro! É muito lindo. Agora acho melhor você tomar um banho, daqui a pouco você tem que estar na sua aula de balé. –A lembrei, após consultar a programação para o dia que havia me sido passada pela dona Ana.
- Você vai ficar para me ver ensaiar? –Ela perguntou e por um
breve momento, senti uma carência muito grande naquela menina.
- É lógico! Você acha que eu perderia isso? –De imediato ela me lançou um sorriso- Agora vá banhar, não podemos nos atrasar. –Elena caminhou até o banheiro e eu fiquei a aguardando no quarto. Quando ela saiu, a ajudei a se vestir e amarrei seu cabelo em um coque. De tule e com as sapatilhas no pé, ela se sentia uma verdadeira bailarina.
Depois de pronta, descemos para a sala, onde Estevan já estava vestido em seu uniforme de jogador, pronto para ir para o treino:
- Sofia, o motorista já está ali fora esperando vocês –Dona Ana avisou- Não se preocupe, ele sabe exatamente o local onde cada um tem que ficar.
- Está bem. E então, vamos? –Olhei para Estevan e Elena- Vocês não vão querer se atrasar.
O motorista era um senhor de cabelos grisalhos, que abriu a porta educadamente para nós quando nos aproximamos. Ao dar partida no carro,
ele perguntou se eu estava trabalhando ali e apenas mencionei que era a nova assistente das crianças, depois disso, um silêncio impiedoso dominou todo o automóvel. Estevan parecia mandar mensagens pelo celular e Elena jogava algo em seu tablet:
- Quando a mãe de vocês chega em casa? –Resolvi puxar assunto.
- Ela não vem para casa, está em outro país, acho que se chama...
–Elena disse colocando o dedo indicador sobre os lábios, como se tal gesto fosse ajudá-la a se lembrar- Se chama Estados Unidos, é, isso mesmo, Estados Unidos, ela está lá. –Ela olhou rapidamente para mim e logo em seguida para o jogo novamente.
- Ela está viajando?
- Na verdade não, ela mora na Flórida, meu pai e ela são divorciados. –Estevan respondeu ao perceber minha confusão, provavelmente já sabendo que a irmã não conseguiria explicar aquilo.
- Me desculpem, eu não sabia. –Falei, um pouco arrependida por ter tocado no assunto.
- Tudo bem, já faz algum tempo. –Estevan parecia relaxado, mas eu percebi que o assunto o incomodou um pouco- Você estuda, Sofia? – Ele mudou de assunto, acho que havia percebido como eu havia ficado sem jeito e eu o agradeci por isso.
- Sim, eu estudo Psicologia na PUC.
- Legal.
- E você, joga futebol a muito tempo?
- Na verdade não, meu pai sempre gostou muito de música clássica e aos quatro anos eu comecei a fazer aulas de piano e violino, mas eu sempre odiei isso. Quando fiz nove anos, disse a ele que não queria continuar com as aulas, no começo ele ficou um pouco chateado, não disse nada, mas também não me impediu.
- Ele deve ter muito orgulho de você, ainda mais quando vê todos aqueles prêmios que você já ganhou! –Por algum motivo, ele não pareceu
muito animado com o que eu disse.
- Na verdade, não acho que ele goste muito, ele nunca assistiu a um jogo meu. Acho que ele iria preferir me ver tocando algum instrumento clássico no teatro municipal. –Ele forçou um sorriso e logo depois voltou a teclar no celular.
Não demorou muito para que chegássemos ao clube que Estevan treinava, ele abriu a porta e desceu do carro:
- Vejo vocês mais tarde!
A escolinha de balé também não ficava muito longe dali e em poucos minutos chegamos até lá. Desci do carro com Elena, enquanto o motorista esperaria por nós no estacionamento.
Entramos e de mãos dadas e ela me levou até a sala em que se realizavam suas aulas. Prontamente ela se soltou de mim e correu na direção de suas colegas, enquanto a professora parecia conversar com algumas mães, provavelmente esperando até todas as crianças chegarem.
Me sentei em uma cadeira e logo a aula começou. Elena parecia ficar muito feliz enquanto dançava e ela realmente parecia ter talento para aquilo, ela conseguia fazer movimentos que eu jamais conseguiria.
A aula durou aproximadamente uma hora e meia e depois disso, fomos liberadas:
- Você viu como eu dancei? –Ela me olhava empolgada. Já estávamos dentro do carro, indo buscar Estevan, que também já havia encerrado o seu treino.
- Sim, você foi incrível! Depois quero que me ensine alguns daqueles passos, está bem? –Sorri para ela, que pareceu animada com a ideia.
Depois que chegamos em casa, aproveitei que as crianças haviam
ido tomar banho e preparei um sanduíche com presunto e mussarela para cada um:
- Estevan, Elena, venham aqui! –Em poucos segundos os dois já estavam na cozinha- Preparei isso para vocês –Os dois se sentaram a
mesa e eu coloquei um prato com um sanduíche para cada um.
- Isso está muito bom, Sofia! –Elena disse, dando algumas mordidas no seu.