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A Babá e o Mistério de Nikolas - Duologia Amores Intensos

A Babá e o Mistério de Nikolas - Duologia Amores Intensos

Autor:: Bruna Barros
Gênero: Romance
Entre o interesse e o mistério poderia nascer um amor arrebatador e inconcebível entre a babá e o CEO? Laura Flores, íntegra e curiosa, está tentando romper as barreiras de um relacionamento conturbado e fracassado. Desempregada, torna-se babá dos filhos de Nikolas Delamont, CEO do Banco Central, casado, indecifrável e que nutre uma paixão antiga por um amor do passado. E é pela curiosidade que Laura será enredada nos mistérios da enorme e viva mansão que seu chefe tenta esconder, aprofundando-a em um abismo sem fim de amor e paixão que a transformará no terceiro elo dos Amores Intensos de Nikolas Delamont.

Capítulo 1 Prólogo e capitulo 1

Prólogo

Enigma é a definição de algo por suas qualidades e particularidades, contudo, difícil de entender.

Era exatamente dessa forma que eu via Nikolas Delamont e foram tais incógnitas que fizeram com que eu me aprofundasse cada vez mais nos mistérios que a mansão tinha a esconder.

Eu estava pronta para o trabalho que teria com as crianças Delamont, apenas não estava para o que viria a enfrentar, dia após dia, naquela casa que mais parecia estar viva e escondia segredos dos seus próprios moradores; a intensidade em forma de furacão que era Nikolas e no quanto me deixei emaranhar em seu jogo de sedução, o que me tornou elo dos seus Amores Intensos.

Capitulo 1

Mesmo sendo uma sexta-feira, a ansiedade e o nervosismo batem na minha porta antes das seis da manhã, e não tenho outra alternativa que não seja levantar da minha cama macia e quentinha. Hoje é o meu primeiro dia em um trabalho novo e não poderia estar mais agitada. Estou entrando num ramo completamente diferente de tudo o que estou acostumada e serei babá de três crianças.

Conforme a crise, eu já estava há quase um ano sem conseguir um emprego decente, somente trabalhos temporários e que pagavam pouco, contudo, graças a indicação de minha amiga Luce, minha vizinha e confidente, consegui um emprego que pagasse bem e que não precisasse me matar de trabalhar como em meu último numa loja de roupas. Moramos no mesmo andar de um prédio no Grajaú, Rio de Janeiro. Ela é prima distante de minha futura chefe. Luce é a louca que está sempre dividindo comigo seus relacionamentos de um único dia enquanto malhamos na academia do prédio. Ela é dois anos mais velha do que eu, possui uma língua afiada demais até para mim e parece nunca ser capaz de "fechar a matraca". Tudo isso sem deixar de incluir os momentos impróprios para tal comportamento.

Mesmo sendo uma figura engraçada, Luce possui um rosto angelical e está sempre tentando prender seus cabelos escuros no alto da cabeça mesmo sabendo que é um fato quase impossível, uma vez que eles são tão curtos que mal alcançam sua nuca. Seu sorriso matador, como ela mesma o intitula, está sempre chamando a atenção de homens - casados ou não -, porque ela realmente não liga para isso. Pedro, meu companheiro, sempre diz que sou doida por ouvir as loucuras dela, mas quem sou eu para julgá-la? Não é porque minha amiga gosta de um tipo de vida que eu precisaria fazer igual, e jamais a deixaria de lado por preferir ser solteira e ter sua independência. Luce pode ser a louca dos relacionamentos, mas é responsável e independente. Ela é enfermeira e ama o que faz.

Direciono-me praticamente dormindo em pé até o banheiro e encontro o meu namorado tomando banho. Suspiro pesado. Se fosse noutra época - uns cinco anos mais ou menos -, eu entraria sem pudor algum e tomaria um banho caliente com ele, mas há tempos não é assim. Hoje, transamos mais por obrigação. Não é preciso mencionar, mas esse trabalho está sendo mais confortável para ambas as partes do que gostaríamos, pois nem eu nem ele sabíamos como lidar com essa situação já que eu estava desempregada e ele sempre reclamando por trabalhar em algo que nunca gostou, porque eu não podia ajudar nas despesas. Nossa relação está desgastada há tempos, e nunca pensei que me sentiria bem em passar todos os dias da semana noutro lugar que não fosse a minha casa. Pedro e eu morávamos em Belo Horizonte e decidimos que vir para o Rio seria uma forma de recomeçarmos longe de tudo, fato que incluia o lugar onde nascemos e a vida difícil que levávamos. Ele, em condições precárias com a família, e eu tentando seguir em frente depois de tudo o que havia acontecido na casa onde morei com vó Berta. Nunca poderia continuar lá depois de tudo; é difícil explicar, mas meio que meu companheiro e eu fugimos para tentarmos uma vida melhor.

Nosso relacionamento durante muito tempo foi perfeito e conseguimos realizar nosso sonho de podermos estudar numa boa faculdade e dar sentido às nossas vidas depois de uma infância difícil. Mas o tempo passa e com ele o amor, a paixão e o desejo. Hoje, sinto que vivemos juntos por comodidade e companheirismo, e o amor já não parece tão forte assim. Uma vez, após confessar para Luce que transávamos apenas uma vez por semana, ela me fez entrar num sexy shop.

Comprei lingerie nova, uma cinta liga maravilhosa, um produto que fazia esquentar até a alma e fiquei esperando-o chegar do trabalho durante horas. Eu já havia relaxado algumas vezes, porque o produtinho era realmente poderoso, e imaginem a minha decepção quando o vi entrar em casa bêbado? Naquela noite fiquei acordada de raiva, com um tesão acima do normal e com pensamentos impuros sobre o meu marido. Mas não um pensamento carnal, eu pensei que estava sendo traída. Chorei horrores no dia seguinte, sozinha. Nunca contei a ele sobre isso. Pedro saiu para trabalhar no dia seguinte, e eu continuei na minha, jogando tudo na lixeira e jamais voltando a uma loja dessas na

vida. Foi frustrante, mas pior mesmo foi depois quando a fatura do cartão chegou na conta dele. Pedro reclamou por horas, pois eu havia gastado mais do que o normal e, como sempre, jogou na minha cara minha falta de emprego.

Aquilo foi a gota d'água.

Me formei em ciências contábeis e ele em engenharia de produção, mas a maior frustração da vida dele é não poder exercer a profissão, alegando que precisa trabalhar para pagar as contas. Me dá é vontade de jogar a profissão na cara dele, isso sim. Decido fazer o café, enquanto ele termina seu banho, e direciono-me para a cozinha. Um tempo depois, ele aparece com os cabelos escuros molhados e com uma toalha amarrada na cintura. Meus olhos caem sobre o seu peitoral largo e musculoso, e lembro-me que já não transo há quase duas semanas. Meu ciclo menstrual veio na semana anterior, e nessa ele tem estado tão cansado que me limitei a esperar uma oportunidade de jogar-me nos seus braços.

- Bom dia, Laura! - Trocamos um beijo estalado enquanto ele beberica o meu café.

- Uai! - ele ri ao ouvir o sotaque de nossa cidade. Já estamos no Rio há quase seis anos e fizemos alguns cursos on-line para tentar minimizá-lo, mas todos que nos ouvem sabem que não somos daqui.

- Já estou sentindo a sua falta, sabia? - diz deslizando um dedo sobre a minha barriga, através do cós do baby-doll. Seu olhar está estreito e intenso, e isso me dá certeza no que está pensando: sexo quente na mesa da cozinha. Pedro me coloca sentada na beirada da mesa e faz com que minhas pernas se prendam ao redor de sua cintura.

Nos beijamos de forma intensa e logo depois relaxamos da melhor forma que sabemos.

Eu realmente precisava disso!

Capítulo 2 Capitulo 2

Após estar vestida e com as malas prontas, nos despedimos e prometo voltar no próximo final de semana. Esse, estarei com as crianças. Um meio de conhecê-las melhor, mas também porque foi o acordo feito com os meus novos chefes. Como ainda não estive com eles, apenas sei que são ricos, possuem três filhos e que saíram em uma nova lua de mel. Como foi através de Luce que tudo foi tratado, fiquei sabendo por alto o que precisaria fazer.

A única coisa que tenho certeza, é que a minha futura chefe estava louca para ter alguém de confiança em sua casa, neste fim de semana, para que ela pudesse viajar com o marido.

Encontro um carro de última geração na entrada do condomínio onde moro, e sei que está me esperando. Josefo, o motorista, pega as minhas malas e, após guardá-las com todo o cuidado, começa a dirigir. O senhor de idade avançada, nos encaminha para a zona Sul da cidade, o que não é surpresa para mim, uma vez que eu já sabia que a mansão se localizava em Vargem Grande. Durante a viagem, o motorista fala um pouco sobre sua família e menciona que todos trabalham na mansão durante anos.

Ele comenta que sua esposa, a senhora Damiana, é a governanta da casa, enquanto seus filhos Izabela e Gustavo também têm suas funções lá dentro. Izabela, como ajudante de cozinha, e Gustavo, como jardineiro e motorista. O senhor tagarela comenta, todo orgulhoso, que sua filha faz curso de administração de empresas, e que Gustavo faz educação física aos trancos e barrancos. É com muita tristeza na voz que ele menciona que seu filho está numa fase em que só quer saber de festas e bebidas, e que está trazendo bastante desgosto para sua esposa. Ele me pergunta quantos anos tenho e se faço alguma faculdade, e respondo enquanto presto atenção nas ruas disformes que passam por nós numa velocidade impressionante:

- Tenho vinte e cinco e terminei o meu curso de contabilidade há um ano, mais ou menos.

- Ah, ele tem vinte e três. - Faz uma pausa, conforme paramos em um sinal. - Você tem cara de novinha, menina, e aliás, amei seu sotaque. - Solta uma risadinha fofa. - É de onde?

- Minas, Belo Horizonte.

- Amo, Minas. - Ele diz que está preparando uma viagem para a próxima semana com a esposa, mas logo volta a falar sobre os filhos: - A Iza tem vinte aninhos, vocês três serão grandes amigos, pode ter certeza.

- Espero que sim! - digo animada, e mudamos de assunto: - E quanto às crianças?

- Bom, elas são boas crianças. Os gêmeos estão sempre aprontando, mas é coisa da idade mesmo, a Alice é uma mocinha já, meio emburrada, mas é uma boa menina. A senhora Sophia e o senhor Nikolas são boas pessoas também, mas ela não é mãe de Alice.

- Ah, não?

- Não! Mas não diga nada que te falei, ninguém gosta de falar nisso naquela casa. - Ele faz uma pausa. - Não falamos no nome dos mortos para não os acordar.

De repente, Josefo freia o carro bruscamente, e meu corpo bate com força no assento da frente. Um carro, do nada, costurou o nosso, e quase batemos. Noto-o ofegante, e percebo estar nervosa também.

- Você está bem, menina? Assinto ao olhar para o meu corpo e constatar que não possuo nenhum arranhão. - Eu disse que nunca devemos mexer com os mortos! - ele solta uma risadinha fraca, e sorrio também, contudo, por dentro, sinto algo bem estranho.

O restante da viagem foi feita em silêncio, e percebo que acabei adormecendo em algum momento, pois, acordo assustada com o som da voz de Josefo me chamando. Encaro a minha volta e noto que entramos num condomínio fechado, onde um vasto jardim me recebe com flores de várias cores, e arbustos quadrados cercam o caminho. Passamos por uma praia particular, e fico deslumbrada. Já me vejo pegando sol com as crianças enquanto fazemos um piquenique olhando para o mar.

Há um parquinho fofo no meio do caminho e, de onde estamos, consigo vislumbrar a mansão. Ela é bem maior do que eu imaginava. O carro estaciona em frente, um tempo depois, e assim que saio do carro noto que ela parece ser três vezes maior do que pensei.

- Bem-vinda à mansão Delamont.

Encaro, perplexa, o senhor ao meu lado, que sorri para mim. Eu não fazia ideia para quem trabalharia até esse momento. Como contadora formada, meu dever é saber o nome da família mais poderosa do Brasil, financeiramente falando, e pensar que irei trabalhar para o bancário Delamont, torna-se demais para mim, porém, isso me traz esperanças, porque posso demonstrar-lhe o meu trabalho e, se eu tiver muita sorte, ainda conseguir um emprego no Banco em meu ramo. Não acredito que Luce deixou passar essa informação. Encaro novamente a propriedade e observo com mais clareza a mansão. Ela não é moderna, muito pelo contrário, sua aparência é antiquada e parece mais um mausoléu. A cor branca está sem vida, e a única coisa que a faz mais bela é o jardim bem cuidado à sua volta e a forma como a propriedade me lembra um palácio das histórias da Disney, com direito a pináculos, mas bastante desleixado. Meus olhos correm pelas janelas, e uma, em especial, me chama atenção, uma vez que vejo a cortina remexer-se rapidamente. Franzo a testa.

- Quem dorme ali? - Aponto para o cômodo, e Josefo faz o mesmo.

- Ninguém, aquele quarto está desativado há anos. Observo-o sem entender nada e volto o meu olhar para ela. A cortina cinza parece intacta, assim como a janela, como se nada tivesse acontecido. Pisco os olhos, algumas vezes, sentindo os pelos do meu corpo se arrepiarem, porém, não sinto nenhuma brisa. Josefo traz-me de volta à realidade incentivando-me a entrar na mansão. Sinto que minhas pernas tremem. É tudo novo, e tenho medo exatamente por isso. Não sei o porquê, mas acho que minha vida mudará bruscamente nesta casa.

- Fique calma, menina, tudo dará certo, você vai gostar daqui! - Como se lesse meus pensamentos, Josefo fala baixinho, colocando a mão nas minhas costas. Confirmo com a cabeça, devagar, ao olhar para ele. De repente, volto há alguns anos vendo-me no leito de minha mãe. Meu pai falando a mesma coisa, porém, não ficou.... Nunca ficou.... E agora, estou aqui.

Respiro fundo e entro.

Capítulo 3 Capitulo 3

Ao entrar na propriedade, deparo-me com o hall. Há dois lances de escadas, que dão para o segundo andar, e, entre elas, uma sala de estar, que dá para outra de jantar. Sei disso porque de onde estou, consigo enxergar uma mesa grande e tão antiquada quanto o restante dos móveis que descansam ao meu redor. Porém, o que chama a minha atenção é o enorme quadro que se encontra na parede do saguão, pintado à mão, de uma mulher com um forte vermelho nos lábios e os cabelos pintados com um tom de marrom claro. Imagino ser a dona da casa.

Há um relógio de coluna fincado no chão ao meu lado direito, e um grande candelabro de cristal causa-me um furor fantasmagórico, fazendo com que a sensação sinistra retorne. Ouço um pigarreio, e dou um pulinho ao encarar uma senhora com rosto pálido parada ao meu lado. De onde essa mulher saiu, meu Deus?

- Prazer, Damiana - diz ao esticar seu braço enrugado na minha direção. Nos cumprimentamos, e lembro-me que esta deve ser a esposa de Josefo. Tenho essa certeza, quando eles se abraçam enquanto me encaram. - Seja bem-vinda, senhorita Laura Flores.

- Obrigada.

- Espero que a viagem tenha sido agradável.

- Foi bastante, o Sr. Josefo falou muito sobre sua família - sorrio, vendo que ficou satisfeita ao me ouvir.

- Ele é um velho esperto! - Ela sorri para o esposo e emenda: - Venha, vou lhe mostrar o seu quarto. - Assinto e tento pegar minhas malas, porém ela completa: - Pode deixá-las aqui mesmo, pedirei para alguém levá-las até os seus aposentos depois.

Assinto.

Subo as escadas, logo atrás dela, e viramos o corredor à direita. Damiana explica para mim que este corredor dá tanto para o meu quarto quanto para os das crianças. Passamos pelo quarto de Alice e o dos gêmeos Dora e Felipe. Há outro quarto, mas ela não diz nada, portanto, não pergunto também. O meu fica no final do corredor.

Ao entrar, noto o quanto é espaçoso, acho que caberiam dez "Lauras" facilmente aqui dentro. A cama é gigante, e não vejo a hora de me jogar nela. O guarda-roupas é bem grande também, e creio que consiga encaixar todas as roupas que trouxe comigo. Há uniformes, porém de números maiores do que o meu. A governanta diz que a antiga babá já era idosa e que deixou os uniformes praticamente intactos. Pelo o que entendi, ela não havia conseguido conciliar os dias de trabalho com a família, e não se habituou. Quando pergunto o motivo, Damiana desconversa. Sou informada que no horário do almoço serei apresentada às crianças e logo depois conhecerei o restante da casa. Os Delamont já viajaram e, por esse motivo, os conhecerei apenas no domingo quando estiverem de volta. Damiana não fala muito sobre eles, e prefiro não comentar também. É meu primeiro dia e quero me manter nesse emprego pelo menos até conseguir algo melhor. Não volto para casa desempregada.

Após todas essas informações, fico sozinha. Sento na cama, a fim de esperar alguém me avisar quando o almoço estiver pronto. A ansiedade me define, e não me contenho em enviar mensagens para Luce e para Pedro informando que estou viva e com saudades. Minha amiga diz que está torcendo por mim, e Pedro comenta que sentirá, muito, a minha falta. Acho meio forçado ele dizer isso nesse momento, mas não questiono.

Entro em algumas redes sociais para ver se as horas passam com mais rapidez e, depois de algum tempo, o telefone finalmente toca, e sou informada que já está na hora de descer. Seja o que Deus quiser! Desço pelo mesmo caminho que fiz antes para não me perder. Assim que alcanço o último degrau, já consigo escutar algumas vozes e percebo que estão discutindo por alguma coisa.

- Eu não vou comer isso, já disse! - Ouço algo ser jogado no chão e percebo que deve ter se estilhaçado em mil pedaços por causa do barulho.

- Não faça isso, Dora, muitas pessoas não têm o que comer! - Damiana fala alto, mas percebo que não há firmeza na voz.

Paro e continuo escutando.

- Não tô nem aí, não vou comer isso e pronto. Quero ver me obrigar! - A mesma vozinha fala num rompante, e me faz arregalar os olhos.

- "Cala", você é muito chata, "melmo"! - Outra voz soa, e percebo se tratar de um menino, provavelmente, o outro gêmeo.

- Será que vocês poderiam se comportar pelo menos uma vez na vida? - Outra voz anuncia, parecendo, irritada.

- Aff, eu não tenho paciência, mãe! - Quem grita agora é uma mulher, e é o bastante para me fazer caminhar até eles.

Dou de cara com uma bela jovem de olhos escuros - como a noite - e levemente puxados. Seu corpo é atlético e ela é pelo menos uns dez centímetros mais alta do que eu. Tudo bem que isso não quer dizer muita coisa diante dos meus 1.58 centímetros de puro egocentrismo; pareço mais a irmã postiça dos sete anões. Seus cabelos estão presos num coque, mas percebo que são tão escuros quanto os olhos. Ela me olha de cima a baixo e franze o cenho.

Observo a cena a minha frente e assisto as três crianças me encararem de volta.

A menina mais velha cruza os braços e seus olhos azuis me examinam. Ela possui belos cabelos loiros e ondulados, que caem sobre os ombros. Noto o quanto é magrinha e que possui o rosto cheio de sardas, igual a mim. Sorrio, mas ela não sorri de volta e emburra mais a cara. Do outro lado, há uma garotinha que ao me ver faz uma careta. Sorrio e faço uma careta para ela também. Pestinha, bonitinha, que ela é. Cabelos lisos escorridos e escuros como os do seu irmão gêmeo. Os dois possuem olhos em um tom de verde bem mais claro que os meus, que são verdes escuros.

- Esta é a senhorita Flores, crianças! - diz Damiana. - A nova babá de vocês.

- Não pedi por uma babá, já sou crescida e sei cuidar de mim mesma. - A emburrada diz alto e senta-se em uma das cadeiras.

- É? - indago. - Então, acho que poderia cuidar dos seus irmãos por mim e limpar toda essa bagunça também, porque não tô com saco para perder meu horário de almoço.

A menina me encara como se tivesse nascido chifres em minha cabeça. Ela faz menção de falar, mas Damiana a corta:

- Laura, esta é minha filha, Izabela. - A governanta aponta para a garota de olhos puxados, que encara as próprias unhas. Assinto, percebendo que ela não gostou muito de mim.

- É fogo? - O menino se aproxima de onde estou e levanta um dos bracinhos para pegar meus cabelos. Sorrio. Ele é fofinho! Abaixo-me devagar, a fim de ficar da mesma altura que ele, mas o pimentinha puxa com força uma mecha grossa do meu cabelo fazendo-me gritar e ainda gargalha. - O fogo "aldeu"! - Suas irmãs o acompanham na gargalhada, e escuto Izabela fazer o mesmo.

Reviro os olhos. Não tenho paciência para criança mimada!

Gargalho também e faço o mesmo com o dele vendo-o gritar mais alto que eu.

- Ei, não faça isso com o meu irmão! - A mais velha brada, e noto Damiana me encarar com olhos arregalados. Acho que ela está acostumada a fazer todas as vontades desses pestinhas.

- Vocês puxam, eu puxo. Vocês gritam, eu grito. Vocês gargalham, eu gargalho. Simples assim, toma lá dá cá!

A loirinha bufa. Dou de ombros e sento-me numa das cadeiras. Observo a mesa posta e noto que há um frango assado parecendo delicioso. Ele foi envolto por algumas rodelas de laranja, e vários tomates cereja cerca-o. Após fatiar alguns pedaços, coloco-os em meu prato e aguardo os demais se sentarem. Os olhos das crianças estão esbugalhados, e os de Damiana parecem tensos.

- Vocês vão se sentar ou ficarão olhando para a minha cara? Porque não me importo de comer esse frango inteiro sozinha! - digo como um meio de descontração e parece dar certo.

A encrenqueira gêmea é a primeira a se sentar. Assim que vejo-a fazer isso, meus olhos são puxados automaticamente para o chão e noto que o objeto que ela quebrou, provavelmente, era uma travessa de brócolis, uma vez que há pedaços dele espalhados por todos os lados junto com estilhaços de porcelana. Reviro os olhos e continuo comendo. Logo depois, noto Felipe seguir a irmã, puxando uma das cadeiras em silêncio, enquanto Damiana serve seus pratos. Izabela sumiu do cômodo, e observo Alice começar a mastigar enquanto, uma vez ou outra, seus olhos irritados recaem sobre mim. Gargalho internamente, esses pirralhos não me conhecem.

Almoçamos sem interrupções. Eles me olhando, de vez em quando com caras emburradas, e eu fazendo o mesmo, transformando um simples almoço em praticamente uma disputa dos jogos vorazes. Mexer comigo na hora do almoço é pedir para morrer. Assim que terminamos, as crianças são instruídas por Damiana a se arrumarem para a escola e a me cumprimentar, porém, elas sobem para os próprios quartos sem falar nada. Felipe é o último e, ao vê-lo dar meia volta e vir em minha direção, me animo, não quero ser inimiga deles, mas também não preciso que me desrespeitem.

- Até mais, Cabelos de Fogo! - Ele ensaia uma dancinha de minhoca com dor de barriga e no fim me mostra a língua.

- Arreda o pé daqui, moleque! - Levanto-me, prestes a pegá-lo e ensiná-lo boas maneiras, mas ele dá uma risadinha - até fofinha - e, antes de sair correndo, caçoa:

- "Aleda"...

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