Olhei para o relógio na parede do meu quarto. Acho que adiei o inevitável pelo tempo que meu corpo aguentou. Eu precisava ir até a Casa da Alcateia para desejar um feliz aniversário ao futuro Alfa. O tormento da minha vida. O melhor amigo do meu irmão. O futuro Alfa Miles. Hoje ele completa 17 anos e finalmente conhecerá seu lobo Alfa. Sinceramente, ele já era egocêntrico o suficiente, achando que o mundo girava em torno dele, sem precisar de um lobo para inflar ainda mais o ego. E não seria um lobisomem qualquer.
Ah, não, Miles Davenport estava destinado a ser um Alfa, então teria um lobo forte e poderoso, o que só alimentaria sua arrogância.
O mais louco é que, era uma vez, Miles também tinha sido um dos meus amigos mais próximos. Na minha infância... Amizades desse tipo surgem quando seu pai é o Beta do Alfa. Os filhos passam muito tempo juntos e acabam virando amigos. Meu irmão mais velho, Jordan, tornou-se o braço direito de Miles. Seu amigo mais próximo e aliado, o que era natural, já que seria o seu Beta quando chegasse a hora. Mas, com o passar dos anos, a amizade entre Miles e eu mudou.
A amizade desapareceu à medida que ele se tornava o astro do esporte mais popular da nossa escola. No fim das contas, ele sempre seria popular - afinal, era o próximo Alfa -, mas como um dos melhores atletas, ele era idolatrado. Assim como meu irmão. Todas as garotas da escola os cercavam como se fossem astros do pop ou algo assim; era bizarro. Eu não passava de uma fonte de diversão para ele e seus amigos atletas. Uma nerd. Diferente das rainhas da beleza que o seguiam por toda parte. Simplesmente alguém de quem zombar.
Passei de alguém que gostava de estar com o futuro Alfa para alguém que o odiava, em questão de um ano letivo. Ele se achava a última bolacha do pacote e, honestamente, se ele fosse um presente de Deus, eu faria questão de devolver...
"Bailey!" ouvi minha mãe gritar lá de baixo, avisando que eu estava realmente atrasada. Eu sabia que Jordan já tinha ido para a Casa da Alcateia há algum tempo com meu pai para encontrar o amigo e o nosso Alfa.
"Já vou!" gritei de volta, olhando para os livros na minha mesa, desesperada para continuar o trabalho que estava fazendo. Eu preferiria mil vezes continuar estudando para ganhar os créditos extras e entrar na faculdade que eu queria, em vez de ir à festa daquele valentão metido que eu era obrigada a considerar quase da família, já que ele era filho do melhor amigo do meu pai.
Levantei-me e fui até o espelho, ajustando o vestido skater preto que escolhi para hoje. Algo simples e discreto, fácil de passar despercebida, mas ainda assim um vestido, caso alguém perguntasse por que não me esforcei. Com minhas sandálias pretas de salto tratorado, eu parecia apresentável, não que alguém fosse olhar para mim. Hoje, todos os olhares estariam no aniversariante, como sempre. Ele faria questão disso. Joguei meu cabelo castanho cacheado para trás antes de sair pelo quarto, já temendo as horas que viriam pela frente...
Minha mãe estacionou o carro em frente à Casa da Alcateia, enquanto minha irmã mais nova, Morgan, ficava puxando meus cachos só para me irritar. Ela sabia que eu preferiria estar em qualquer lugar, menos aqui, e estava adorando cada segundo. "Ah, você quer ir para casa, Bailey-zinha?" ela provocou.
"Parem vocês duas. Vamos, o pai de vocês está esperando lá dentro. Vamos encontrar o aniversariante." disse mamãe, animada, completamente alheia ao quão horrível aquela festa poderia ser. Ela também adorava o Miles. Por tê-lo visto crescer ao lado do meu irmão, ela parecia achar que ele era perfeito. Isso sempre me tirou do sério.
"Ele nem vai notar que estamos lá." resmunguei enquanto a seguia pelos degraus da sede, balançando a cabeça para minha irmã e o quanto ela estava produzida demais. Ela definitivamente parecia querer impressionar alguém hoje. Uma pequena parte de mim se perguntou se ela esperava ser a companheira predestinada de Miles. Afinal, ele conheceria seu lobo Alfa hoje. Ele passaria pela primeira transformação e hoje poderia ser o dia em que sentiria sua companheira por perto! Havia tanto burburinho na escola sobre isso; tantas garotas estavam ansiosas com a possibilidade de serem sua companheira predestinada. A escolhida para ele pela Deusa da Lua. Aquela destinada a ficar com ele. Muitas delas estavam desesperadas para que fossem elas. Enquanto isso, eu estava desesperada para ser qualquer outra pessoa. Não conseguia imaginar nada pior! Mas, vendo o esforço que minha irmãzinha fez hoje, começo a achar que ela era uma das muitas lobas que mantinham essa esperança...
Caminhamos pelos corredores da sede, que estavam lotados de membros da alcateia. Hoje era um dia de celebração, o aniversário do futuro Alfa. E não qualquer aniversário, o dia em que ele atingia a maioridade. O dia em que conhecia seu lobo Alfa. As paredes da sede estavam decoradas e a música tocava alto em vários alto-falantes espalhados pelos cômodos.
"Opa, desculpa!" disse uma loba rindo ao quase me derrubar após esbarrar em mim. Eu preferiria estar em qualquer lugar, menos aqui. Isso aqui estava agitado e barulhento demais para o meu gosto. Apenas lancei um olhar feio para as costas da garota enquanto ela se afastava, sem a menor preocupação.
Segui minha mãe e minha irmã - que quase saltitava enquanto andava - em direção à sala principal. Só posso assumir que minha mãe mandou um link mental para o meu pai para avisar que tínhamos chegado, e ele disse que estavam lá, caso contrário, passaríamos o dia todo procurando por eles! Parecia que quase todos os membros da alcateia tinham aparecido para comemorar o aniversário do porra do Miles Davenport.
A sala de estar estava apinhada, a música tocava no último volume e todos pareciam estar se divertindo. Todos, menos eu. Cruzei o olhar com o meu irmão, que estava encostado na parede, no ponto mais distante da porta por onde tínhamos acabado de entrar. Ele assentiu na minha direção antes de simplesmente desviar o rosto.
'Podia ter se esforçado um pouco, Bailey', ele mandou por link mental. 'É um aniversário, não um funeral, sabia?'
Senti meu coração apertar com as palavras dele. Ótimo, os insultos já tinham começado, o que significava que seria apenas questão de tempo até o Miles começar também. Os dois pareciam adorar trabalhar em equipe desse jeito. Sentiam um prazer enorme em me atormentar. Eu era apenas um ano mais nova que eles e tinha a esperança desesperada de que as ofensas e xingamentos diminuíssem conforme eles amadurecessem, mas, se mudou algo, foi para pior. Tudo porque eu não era como as garotas em quem eles tinham interesse, eu tinha certeza disso. Eu não era como as outras. Eu me tornava um alvo fácil, minha mãe dizia, tudo porque eu gostava de estudar. Gostava de ler e aprender. Dizia que eu só dificultava as coisas para mim mesma. O plano era facilitar as coisas encontrando um jeito de ir embora dali...
"O Jordan disse que seu vestido parece que você está indo a um velório, Bailey", Morgan provocou, bagunçando meus cachos de novo. Meu longo cabelo castanho caía em ondas grossas e rebeldes pelas minhas costas. Eles me deixavam louca às vezes. Especialmente quando meu irmão e minha irmã decidiam mexer neles.
"Pois é, vesti um vestido, como vocês pediram", retruquei, me afastando deles, já sentindo a raiva subir, tentada a simplesmente dar meia-volta e ir para casa a pé, apenas para ser puxada pela minha mãe.
"Nós vamos desejar um feliz aniversário ao Miles. Você vai ficar pelo menos um pouco. Não preciso ficar explicando aos seus tios, mais uma vez, por que você abandonou um evento social, Bailey", minha mãe alertou, com um tom ranzinza. Eu jurava que ela já devia ter lido meus pensamentos sobre ir embora da festa. Tenho certeza de que ela odiava me ter como filha, provavelmente desejando uma que fosse mais sociável e que gostasse de fazer parte de tudo, em vez de uma que preferia estar com a cara enfiada num livro.
"Aaaah, feliz aniversário, Miles!" ouvi minha irmã berrar ao meu lado. Juro que ela falou num tom tão agudo que só cachorros conseguiriam ouvir. A Deusa sabe por que ela está tão animada. É só o aniversário dele. Ele provavelmente nem liga, nunca liga...
Quando olhei para cima, os olhos azuis dele estavam cravados em mim. Levantei o olhar para encontrá-lo e vi suas íris mudarem para um azul mais escuro... seria o lobo dele? Vi uma careta de desprezo surgir em seu rosto antes de ele sair repentinamente da sala. O que diabos foi aquilo?
'Vem aqui fora agora', Miles mandou subitamente por link mental, e devo dizer que ele parecia longe de estar impressionado. Isso, somado à expressão de raiva em seu rosto, me dizia que algo estava errado. Ele preferia que eu não tivesse vindo? Bom, ele não era o único...
'O quê?' questionei, completamente confusa. Ele estava irritado com o jeito que eu me vesti também? Pelamor, era só um vestido. Isso realmente importava? Se fosse por isso, eu iria embora agora.
'Lá fora. Agora', ele exigiu mais uma vez, parecendo ainda mais irritado, o que me fez perceber que eu não tinha muita escolha a não ser obedecer, então escapei da festa em direção às portas.
Encontrei Miles andando de um lado para o outro na base da escada, com uma mistura de confusão e raiva no rosto. Por que ele precisava de mim aqui? Alguém para descontar a raiva? Eu não estava disposta a aceitar isso, tinha certeza... No momento em que ia me virar para sair, ele olhou para cima.
"Demorou pra cacete", ele disparou.
Franzi a testa, sem entender do que se tratava tudo aquilo, mas nada fazia sentido enquanto eu o encarava do topo da escada. Seus olhos azuis mudaram para aquele tom escuro de novo, como aconteceu lá dentro, me pegando de surpresa. O lobo dele estava claramente na superfície...
"O que foi, Miles? Quer que eu chame o Jordan?" perguntei.
"Não, não quero! Não quero ninguém sabendo disso", ele rosnou, um rosnado baixo escapando de seus lábios, embora eu não soubesse se era para mim ou se o lobo dele estava irritado com ele mesmo...
"Acho que não estou entendendo..." comecei.
"Logo vai entender", ele desdenhou, e eu apenas o olhei confusa. Nada do que ele dizia fazia sentido. Até que ele continuou. "Só hoje eu percebi. A ideia me dá nojo. Por que a nossa própria Deusa da Lua pregaria uma peça dessas comigo, eu não sei. Eu sou um Alfa. A porra de um Alfa. Eu mereço uma companheira forte. Uma companheira linda de quem eu possa me orgulhar. Não uma mosca-morta patética e frágil."
Meu corpo tremeu com suas palavras. Não. Eu ainda não tinha ganhado minha loba. Eu ainda não deveria saber disso. Por que... por que logo ele? "Eu sou sua companheira predestinada?" questionei com a voz trêmula. "Você tem certeza?"
"Você está duvidando de mim, porra?" ele gritou. "E não vai ser por muito tempo. No momento em que você ganhar sua loba, eu decidirei a hora certa de te rejeitar."
Meu coração se contorceu e apertou com o pensamento. A rejeição deveria ser a coisa mais dolorosa possível. Por que ele iria querer rejeitar a companheira escolhida para ele pela nossa própria Deusa da Lua? Eu sou tão repulsiva assim?
Um Ano Depois
Outra festa de aniversário para o nosso querido futuro Alfa. "Nosso", mas não meu. Eu odiava aquele desgraçado. Partiu meu coração sem pensar duas vezes. E até hoje nunca entendi o que fiz para merecer aquilo. Fora as ofensas constantes, sempre perguntando por que ele ia querer alguém como eu. Eu parecia ter cara de Luna para ele? Não fazia ideia. O que diabos seria "cara de Luna" aos olhos dele? Com certeza alguma loira burra. Eram sempre essas as lobas com quem ele gostava de passar o tempo dentro da nossa alcateia. As que adoravam o chão onde ele pisava. As que faziam qualquer coisa que ele pedisse. As que, sinceramente, eu duvidava que lessem algo além das tarefas da escola.
"Bailey!" minha mãe gritou do pé da escada. "Dá para se apressar?!"
"Preciso mesmo ir nessa festa?" respondi. "Tô te dizendo, o Miles não vai se importar se eu não aparecer!"
"Mas os seus tios vão. E não vou explicar de novo por que você sumiu." minha mãe continuou a gritar. "Você tem noção de quantos eventos perdeu este ano só porque vive com a cara enfiada nesses livros?"
"É, Bai-Bai. Nerdzinha. Não admira que você não tenha amigos." minha irmã Morgan zombou da porta do meu quarto.
"Vai se ferrar." sibilei. "Tenho amigos."
Saí do meu quarto furiosa e desci as escadas rumo à família que me esperava. O plano era simples: dar parabéns ao aniversariante - não que ele se importasse - e dar um jeito de fugir para casa o quanto antes.
"Ew, você vai com essa roupa?" Morgan perguntou.
Olhei para a calça preta justa e a regata branca que eu estava usando. Ótimo. Eu nunca vencia. Nada que eu vestia tinha a aprovação da minha irmã, aparentemente coroada rainha da moda sem que eu soubesse. Problema dela. Eu estava pronta e ponto final. E, sinceramente, achei que combinava com minhas sandálias pretas tratoradas.
Fiz cara feia para ela e saí pela porta. "A gente vai ou não?" rosnei para todos, mal podendo esperar pelo mês seguinte, quando eu finalmente iria para a universidade. Longe deles. Longe dessa alcateia.
A festa já estava pegando fogo quando chegamos, música estourando das caixas de som enquanto casais se agarravam em qualquer canto disponível. Desviei os olhos enquanto atravessávamos os corredores da Casa da Alcateia rumo ao lounge, onde sem dúvida encontraríamos Miles reinando sobre o povo dele. Todo importante, como sempre gostou de se achar.
'Por que você tá aqui?' a voz do Miles invadiu meu link mental antes mesmo de eu colocar os pés na sala.
Ótimo. 'Não tive escolha. Acredite, eu preferia estar em qualquer outro lugar.' retruquei.
Eu já estava mais do que cansada do jeito como ele me tratava. Sim, ele planejava me rejeitar. Decidiu que eu não servia pra ele, mas podia ter parado por aí. Eu não precisava ser tratada como uma pária social só porque ele decidiu que eu não era boa o suficiente. Não acho que eu merecia isso. Já tinha aguentado bullying demais no colégio só porque eu gostava de estudar.
'Ah. Desculpa? Você tá insinuando que não viria à festa do seu futuro Alfa?' Miles respondeu, cheio de arrogância.
'Miles, você acabou de perguntar por que eu vim. Agora quer saber se eu não viria? Se decide.' rebati.
'Lembre quem eu sou, Bailey. Você não tá acima de mim. Nunca vai estar. No máximo poderia ter sido minha igual se eu te achasse adequada pra ser minha companheira, mas não. Você não alcançou essa honra.' ele zombou.
A raiva disparou dentro de mim. 'E você acha que eu não teria te rejeitado?' rosnei, me virando para a saída, sem querer passar mais um segundo ali. Mas, de repente, senti uma mão agarrando a alça da minha regata, me puxando de volta.
Meus olhos subiram e encontraram os dele, escuros. Miles. Me encarando de cima, com aquele desprezo típico. O futuro Alfa da Alcateia. O homem mais arrogante que eu já conheci. Por sorte, eu não precisava mais ter o vínculo, já que o idiota decidiu rejeitar sua companheira destinada antes mesmo de me dar uma chance.
"Indo aonde, Bailey?" ele perguntou, a voz cheia de veneno.
"Bom, você perguntou por que eu estava aqui, então achei que queria que eu fosse embora." respondi.
Miles inclinou a cabeça até ficar na minha altura e inspirou fundo, como se estivesse saboreando o meu cheiro. Ele andava fazendo muito isso ultimamente, e eu achava bizarro. Mas ignorei quando ele aproximou o rosto e sussurrou: "Hmm, acho que meus pais não iam gostar nada se você fosse embora. A "inteligente" da Bailey... Deus me livre." Ele encostou a testa na minha. "Só fica longe de mim e não estraga minha noite."
Balancei a cabeça, indignada, enquanto ele se afastava. Por acaso ele achava que eu fazia questão de estar perto dele? Eu queria estar em qualquer lugar, menos ali!
"Bailey, por que você tá incomodando meu amigo?" ouvi meu irmão, Jordan, exigir ao se aproximar, chamando a atenção de várias pessoas ao redor. Maravilha. Nada como começar uma fofoca na alcateia. Aposto que o Miles iria adorar.
"Eu não estava incomodando ninguém, ele veio falar comigo. Perguntar por que eu vim." respondi, e meu irmão riu. Ele era tão idiota quanto o Miles. Minhas amigas viviam reclamando de irmãos superprotetores; o meu era o contrário: ele era o líder do bullying. Tinha vergonha da irmã não ser popular e "só pensar em livros". Acho que, no fundo, minha família inteira me via como um mico.
"Bom, ele tem razão. Você nem vai participar das comemorações. Vai ficar num canto lendo." ele zombou.
"Bom, isso certamente é mais intelectualmente estimulante do que qualquer coisa que vocês fariam." dei um sorriso torto enquanto me afastava dele, que ficou parado, confuso. Aposto que nem entendeu o que eu quis dizer. O assustador é que ele vai ser o próximo Beta da alcateia. Deus nos ajude. Entre ele e Miles, eles só tinham um único neurônio - e tenho certeza que ainda dividiam o coitado! E mesmo assim, acho que era recarregável e vivia perdendo energia! Eles só se formaram no colégio porque pagaram gente pra fazer o trabalho deles.
Enquanto eu escapava do lounge lotado e subia as escadas tentando achar um esconderijo, ouvi passos atrás de mim. Virei rápido, torcendo para ser apenas alguém indo ao banheiro. Mas, claro, a sorte não estava do meu lado. Miles vinha logo atrás, com as sobrancelhas erguidas, claramente irritado.
"Ei. Quero falar com você." ordenou ele.
"Você não pediu pra eu ir embora um minuto atrás?" perguntei.
"Acho que não. Foi mais sobre por que você tava aqui." Miles disse com um sorriso convencido, sentando no degrau comigo.
"Miles, a alcateia inteira tá aqui pelo seu aniversário. O que quer falar comigo pode esperar." dei de ombros, querendo desesperadamente um pouco de paz - o que, com aquela música batendo, ia ser difícil.
"Não. Por que você não me disse que ia embora?" ele disparou, como se estivesse ofendido por eu não ter contado. Por que eu contaria?
"Por quê? A gente não é amigo, Miles. E você ainda nem é meu Alfa. Eu combinei tudo com meus pais e com seu pai, como Alfa da alcateia." expliquei, sem entender por que isso o irritava. Se fosse por ele, eu já deveria estar longe.
"Mas você vai embora." ele murmurou.
"É o que acontece quando a gente entra na faculdade. Pois é." falei, dando outro ombro.
"Não tinha nenhuma mais perto de casa?" ele sibilou. "Porque parece que você escolheu a mais longe possível."
"O que isso importa pra você? Você me odeia. Eu não vou estar aqui e você vai finalmente ter o seu desejo realizado de se livrar de mim." retruquei, cansada das ordens dele. Eu lutei por aquilo. Estudei. Meus pais conversaram com meus tios, o Alfa e a Luna, para me deixarem estudar fora. Era o meu sonho. Eu não tinha nada me prendendo. E com o Miles me rejeitando como companheira e como Luna, eu não tinha motivo nenhum para ficar. Não que alguém soubesse disso. Esse era nosso segredinho.
Apesar da conexão intensa desde que minha loba despertou, eu achava ele repulsivo. Ele me enojava. As dores de ligação quando ele dormia com as várias lobas que o procuravam só tornavam mais fácil detestar o homem que ele se tornou. Eu não fazia ideia do que eu tinha feito para merecer esse tratamento, além de não ser popular. Mas eu sabia que merecia coisa melhor do que ele.
Miles me lançou um olhar, por um momento quase pensativo, quase gentil, antes de endurecer de novo. "Exato. Nada de ter que olhar pra falha patética que a Deusa da Lua cometeu ao me ligar a você. Pelo menos não por alguns anos. Vai ver, você até conhece alguém lá. Espero que sim. Assim você não precisa voltar, porque eu, como Alfa, vou procurar minha Luna."
"Miles, sinceramente, não tô nem aí se você encontrar outra pessoa." falei, já me levantando para ir embora. Eu realmente não queria passar mais um segundo com ele.
Quando tentei me afastar, ele agarrou minha mão e me puxou de volta, me fazendo sentar novamente ao lado dele no topo da escada. "Sempre tão certinha, né Bailey? Diz que não liga? Vamos ver. Bom, isso vai ser nos meus termos. Eu, Miles Davenport, rejeito você, Bailey West, como minha companheira predestinada." ele começou, e perdi o chão quando as palavras dele começaram a fazer sentido. A realização - e a dor excruciante do que estava acontecendo - ficou forte demais para suportar.
Três Anos Depois
Percorri a longa estrada de volta para a alcateia. Odiava esse trajeto. Era como voltar para o inferno. Alcateia Lotus Shadow. Minha versão pessoal do inferno. Esses três anos longe de casa estudando foram maravilhosos. Finalmente me tornei a mulher que eu sempre soube que deveria ser. Confiante. Segura de mim mesma. Corajosa. Simplesmente eu. E agora uma professora plenamente qualificada.
Como loba, você passa tantos anos da vida sendo dita que seu foco deve ser encontrar seu companheiro destinado. Se estabelecer com ele e criar um vínculo forte. Um amor. Uma família. Bem, depois de aceitar que meus sonhos ingênuos de adolescente jamais se realizariam - graças à Deusa da Lua me parear com um companheiro tão incapaz de amar qualquer pessoa além de si mesmo - decidi que meu foco seria minha carreira. Meus estudos sempre foram algo que me trouxeram muito orgulho. Adorava aprender e decidi que queria passar esse dom adiante. Não me importava mais com o que os outros pensavam de mim. E, enquanto estava na universidade, foi maravilhoso estar cercada por outras pessoas que sentiam o mesmo. Finalmente me sentia parte de algum lugar.
E acho que foi exatamente isso que me permitiu virar a mulher que eu deveria ser. Só que agora, eu tinha que voltar para a alcateia, porque eles exigiram. O trato era o seguinte: assim que eu terminasse a faculdade, eu voltaria para casa. A menos que, claro, eu tivesse encontrado meu companheiro predestinado. Mas, no fundo, eu sabia que isso nunca ia acontecer. Porque o meu companheiro já estava lá. Reinando na nossa alcateia. Se achando o dono do mundo. Pelo que eu ouvia, ele andava dormindo com qualquer loba que cruzasse o seu caminho, depois de ter me rejeitado daquele jeito.
Parei meu carro na guarita da alcateia. Harley, um dos guerreiros da nossa alcateia que estava de guarda, se aproximou da minha janela. "Identificação", ele ordenou.
Franzi a testa para ele. Não me lembro de ter sido pedida identificação antes ao voltar para casa, mesmo nas vezes em que havia visitado, embora, para ser justa, essas visitas tinham sido poucas e esparsas. Eu só voltava quando era necessário. Tinha passado a detestar esse lugar, e voltar havia se tornado cada vez menos prioridade para mim durante o tempo em que fiquei fora.
"Harley, sou eu. Bailey." Expliquei, segurando o riso pelo erro dele.
Harley se inclinou para me ver melhor. "Caramba! Desculpa, Bailey, não te reconheci. Você mudou o cabelo... e está sem óculos. Você está ótima", disse ele, dando de ombros e desviando o olhar em seguida, claramente sem jeito pela gafe.
Dei um sorrisinho de canto com a reação dele. Sim, meu cabelo estava bem mais domado do que antes. Os cachos tinham dado lugar a fios lisos e alinhados que caíam pelas minhas costas. Os óculos de leitura também tinham ficado no passado; eu tinha feito cirurgia a laser enquanto estava fora. Além disso, agora eu usava uma maquiagem leve para realçar meu rosto. Era bom ver que alguém tinha notado a diferença.
"Sem problema. Ainda precisa da identificação?" Perguntei.
Ele sorriu para mim. "Acho que sei quem você é. Que bom te ver." Ele acenou com a cabeça em reconhecimento enquanto o portão se abria para mim. "Quem sabe a gente se encontra por aí enquanto você estiver de volta." Ele acrescentou quando comecei a sair com o carro.
Apenas sorri. Acho que agora nada me impediria de me aproximar de quem eu quisesse. Não que eu estivesse muito interessada nisso no momento, mas também não era como se eu tivesse um companheiro me esperando. E não era como se o Miles estivesse fazendo questão de se manter solteiro. Toda vez que eu vinha aqui, ele aparecia com uma loba diferente no braço. Desfilava com elas pela alcateia como se fossem troféus, só para trocá-las por outra na minha visita seguinte. Ele estava virando um verdadeiro galinha. E, para mim, uma piada completa.
Segui pelas estradas quietas e familiares da nossa querida e velha alcateia. O sol da tarde se punha no céu enquanto eu guiava o carro pelo caminho até a casa da minha família. Com certeza minha mãe estaria lá me esperando, talvez meu pai, se já tivesse chegado do trabalho. Meu irmão e minha irmã, não tinha certeza. Os dois ainda moravam com meus pais, mas ficavam indo e voltando para a casa de amigos, e meu irmão estava de olho em se mudar para a suíte do Beta na Casa da Alcateia em breve, se preparando para assumir o papel do meu pai quando chegasse a hora. De qualquer forma, eles raramente se apressavam em voltar para casa quando sabiam que eu estava chegando. Não acho que me ver estava no topo da lista de prioridades deles...
Parei o carro na rua em frente à nossa familiar casa de família. Mal conseguia acreditar que estava em casa. Presa de volta aqui. O nó no estômago apertava com força diante da perspectiva de muitos anos encalhada aqui. Miserável e infeliz, sem saída, agora que meu companheiro destinado tinha me rejeitado. Não que alguém além de Miles e eu soubesse disso. Não. Ele havia decidido que seria visto como fraco se os outros soubessem que um Alfa tinha contrariado a escolha da poderosa deusa da lua. Então, era nosso segredo. Ou ele faria com que eu pagasse de formas que eu não queria nem imaginar, aparentemente.
E, para ser honesta, eu não queria nem pensar no assunto. Ele tinha me deixado ir para a faculdade depois de ser o último a convencer o meu tio - o atual Alfa e pai do Miles - e os meus pais, que ainda estavam indecisos. Ou, pelo menos, era o que ele dizia. Se isso era verdade ou não, eu provavelmente nunca saberia, mas foi por esse motivo, e só por ele, que eu aceitei fazer o que ele tinha pedido.
Se ele realmente fez o que disse, então tinha me permitido realizar o sonho de cursar pedagogia longe da alcateia. Ele me deixou ser apenas eu mesma, e não a 'filha do Beta'. E eu floresci por causa disso. Mas agora eu tinha que voltar. Retornar ao lugar ao qual, teoricamente, eu pertencia. E, embora estivesse com o diploma na mão, não tinha perspectivas reais para o futuro. Eu estava, muito provavelmente, presa aqui.
Saí do carro, mais determinada do que nunca a encontrar trabalho, quando ouvi a voz da minha mãe. "Bailey!" Ela me cumprimentou da varanda, um grande sorriso no rosto. "Você está linda, meu bem."
Sorri de volta para ela enquanto me aproximava da porta da frente. Só para ver Miles saindo da casa ao lado da nossa. A casa do Alfa. Poderia ter escolhido um momento pior para chegar?
Os olhos dele encontraram os meus, me lançando um olhar sombrio antes de olhar para minha mãe. "Oi, Tia Brianna. Você não disse que ela chegava hoje."
Minha mãe sorriu para Miles como se ele fosse a melhor coisa do mundo, o que na maioria das vezes era de fato o que ela pensava. "Ah, acho que esqueci de mencionar. Bailey voltou para ficar, Miles. Que maravilha, não é?"
Mais uma vez, Miles me lançou um olhar sombrio. "Hmmm. Uma maravilha mesmo." Ele disse com um desdém considerável na voz.
"Fique fora do meu caminho a menos que eu ordene o contrário, entendeu?" Miles me comunica pelo elo mental enquanto se dirige para o carro.
"Você não vai falar com ele, Bai?" Minha mãe tentou. "Ele vai ser Alfa daqui a um ano, sabia?"
"Ah, não tem problema, Tia Brianna. Bailey vai ser dispensada desta vez. Tenho certeza de que ela está cansada da viagem. Mas com certeza vou encontrá-la por aí. E sim, ela vai ter que se acostumar comigo como seu superior. Seu Alfa." Ele disse com um sorriso irônico, e com essas palavras meu estômago se contraiu em nós. Não acho que consigo ficar aqui... Não só preciso encontrar trabalho, preciso encontrar trabalho fora da minha alcateia, para poder me mudar e me livrar do meu Alfa psicótico e ex-companheiro!