Meu nome é Angelique Martins Bellerose, na noite passada completei 23 anos e decidi fazer a maior festa que a Itália já viu. Florença, capital da região da Toscana, foi o lugar que escolhi para fazer a comemoração cheia de luxo e extravagâncias, já que assim como a fênix eu renasci das cinzas.
Quem diria que a menina boba, rejeitada, abandonada pela mãe, feia e desajeitada um dia seria a CEO da marca mais famosa de vinhos bebidas da Itália?
Agora meu nome era constantemente citado em colunas e revistas como exemplo de beleza e inspiração para outras mulheres. Acontece que aparentemente também fui do topo do mundo, de todo o glamour e extravagância direto para a cama do meu faxineiro. Eu levei um susto enorme ao abrir os olhos assim que os primeiros raios de sol atravessaram a fresta das cortinas.
Eu estava nua, ao meu lado estava Brandon Haddock, ele dormia tranquilamente depois de sugar cada maldita gota de energia do meu corpo ontem a noite. Eu quase gemi, levando a mão até a cabeça, estava com enxaqueca. Bebi tanto que sentia que meus pensamentos fariam minha cabeça explodir.
Devagar eu saí da cama, catando minhas roupas em silêncio e me perguntando por que cargas d'água o álcool não tinha apagado minhas lembranças da última noite. Eu me lembrava de tudo, de cada detalhe e até dos sons que fizemos, mordi o lábio inferior ao terminar de me vestir. Pensando bem eu não queria esquecer.
Mas deveria.
Dei uma última olhada em Brandon antes de sair, sua pele cor de jaspe brilhava nas costas largas. O lençol branco cobria apenas seu traseiro, era uma cena bem bonita, eu devo dizer. Eu até pintaria se não fosse completamente absurdo ter transado com o meu funcionário.
Me forcei a sair do quarto como um furacão e fui direto para o meu. Respiro fundo andando em passos firmes no caminho, tudo bem, vai? Toda mulher é feita de altos e baixos, mas a minha vida já tinha virado uma verdadeira montanha russa quebrada.
Tudo começou há muitos anos atrás em uma manhã clara de um dia da semana que eu não sabia qual era porque só tinha 7 anos, mas sabia que estávamos no Rio de Janeiro. Minha mãe, Beatriz, levou a mim e a meu irmão mais velho até a porta de um lugar que eu não fazia idéia de qual era. Ela chorava, mas tinha dito que estava tudo bem e nem eu nem Ahren costumávamos duvidar dela.
- Escutem, amori della mi vita. – Ela se abaixou para nos olhar. - Mamma vai precisar sair. Quero que fiquem aqui e batam naquela porta antes de anoitecer, sì?
Eu ainda estava confusa então não concordei, diferente do meu irmão que foi rápido e certeiro na resposta.
- Sì! – Nossa mãe passou a mão na cabeça dele e nos beijou antes de ir embora, ela foi sumindo na rua até perdermos ela de vista de vez.
Meu irmão e eu nos sentamos na calçada, estava sol mas o vento estava fresco e a árvore grande próxima a nós fazia uma boa sombra, minha barriga roncou na hora do almoço e então comemos os sanduíches que estavam nas nossas mochilas, na hora do lanche da tarde repetimos o feito.
Uma velhinha passou e nos deu um pacote de biscoitos com recheio de chocolate e isso nos encheu de animação. Apareceram uns meninos bobos querendo soltar pipas e Ahren aceitou brincar desde que fosse há apenas alguns metros de distância, para que pudesse ficar de olho em mim.
Quando anoiteceu os meninos foram chamados pelos pais para entrar e comer, enquanto nós continuamos na calçada, e agora Ahren parecia um menino porco, com a cara e os pés todos sujos de terra.
Isso sem contar as mãos cheias de germes. Minha barriga roncou de novo mas dessa vez a comida já tinha acabado, a rua foi ficando cada vez mais deserta e menos carros passavam pelo local.
Quando uma moça rechonchuda saiu da porta que devíamos bater eu puxei a camisa do meu irmão.
- Ahren! – Apontei a moça. Ele arregalou os olhos azuis, lembrando que deu sua palavra que iria bater no tal portão e perdeu a hora com aqueles meninos chatos. Nós corremos para a senhora que já estava indo embora.
- Moça? Moça? Essa é a sua casa? – Meu irmão perguntou.
- Não. – Respondeu simpática. Meu irmão fez careta.
- O que é então?
- Aqui funciona o Abrigo Social Bom Jardim. Está procurando a casa de alguém, aquela ali é sua irmã? – A mulher apontou para mim com o chaveiro em mãos, eu revirei os olhos enquanto apoiava o queixo com as pequenas mãos, quis mostrar a língua para ela e só não fiz porque mamãe ensinava que era errado.
Eu estava com fome e suas perguntas estavam me irritando, por que não nos deixava entrar de uma vez e comer enquanto nossa mãe não voltava? Eu só queria um sanduíche.
- É, mas eu que sou o mais velho. Tenho 9, ela só tem 7.
- Entendi. – Ela fechou o casaco, procurando alguma coisa por perto. - E vocês estão sozinhos? Onde está a mãe ou o pai de vocês?
Bom, eu também me perguntava a mesma coisa, nunca conhecemos nosso pai e eu não sabia que lugar é esse tão longe que mamãe tinha ido para demorar tanto assim.
- Minha mãe saiu, moça. Ela disse para bater na porta antes escurecer mas eu brinquei tanto que esqueci. – Ahren explicou.
- Ela mandou você bater nessa porta?
Ahren assentiu quando a mulher apontou o portão por onde ela tinha saído. Depois disso a mulher pediu para olhar nossas mochilas, ela analisou o que tínhamos nas bolsas, Ahren não tinha percebido mas eu sabia que alguma coisa parecia errado porque a mulher ficou preocupada de repente.
Mas pelo menos ela nos deixou entrar.
A mulher se chamava Magda e deixou a gente chamá-la de Mag, tomamos banho e enquanto ela fazia uma sopa víamos desenho em um lugar grande com várias mesas. Como o que tinha no colégio.
Eu achei que mamãe voltaria logo mas mesmo depois da janta as horas foram passando e não houve nenhum sinal dela. Depois que o desenho acabou eu fui colocada para dormir no mesmo quarto que o meu irmão.
- A luz desse abajur vai ficar acesa, tá bom? Podem apagar se quiserem. Boa noite, crianças.
Ela passou a mão nos nossos cabelos antes de se afastar para sair.
- Mag? – Chamei do jeito que ela disse que poderíamos chamá-la.
- Sim, meu amor?
- Minha mãe vai demorar a voltar?
Magda sorriu, apesar do olhar dela me dizer que tudo ia ficar bem sua boca não me disse mais nada. Eu ainda não sabia, mas nossa mãe nunca mais iria voltar.
Nunca mais veríamos seu rosto novamente.
A partir daí minha vida foi de mal a pior bem rápido, os primeiros dias no orfanato foram os mais difíceis para mim. Eu estava triste, tristeza e fome eram duas coisas que me deixavam irritada.
Por que ela não voltava logo? Ela ia voltar? Ahren insistia em me dizer todos os dias que ela ia sim vir nos buscar, mas chegou uma hora que nem ele mesmo acreditava mais naquilo, só dizia para ver se eu ficava menos triste. Para completar eu não tinha nenhuma amiguinha ali, algumas crianças eram malvadas, alguns meninos escondiam brinquedos e puxavam os cabelos das meninas, outras eram muito barulhentas.
Um dia, do alto da escada eu olhei para saber como estavam as coisas lá embaixo. Coloquei o rosto entre as grades. Tinham dois meninos correndo e gritando, brincando de pique pega no meio da sala enquanto uma rodinha com 5 meninas brincavam de bonecas.
O laço vermelho brilhava cintilante no cabelo de Bárbara. Eu não sabia o porquê, mas as bonecas dela sempre eram as mais bonitas. As roupas dela sempre pareciam mais novas e na moda, e as outras garotinhas sempre tentavam imitar o visual dela com o pouco que tinham, os sapatos e acessórios de cabelo da Bárbara sempre pareciam caros.
É claro que as outras meninas viviam atrás dela.
Barbie, esse era o apelido dela, e sinceramente, paparicavam mais aquela menina do que a única boneca original da marca que revezávamos para usar.
Eu só queria ficar quietinha e em silêncio, então o balanço na grande árvore do jardim se tornou o meu lugar favorito, eu ia para lá todas as tardes.
- Você vai querer? – Ahren se aproximou, me mostrando um potinho com frutas cortadas.
Balancei a cabeça, eu não estava com nenhuma fome.
- Acha que ela está brava? Porque fiz xixi na cama? – Perguntei-lhe. Ahren deu de ombros, fazendo uma careta por causa do sol.
Os passarinhos cantavam coisas que eu queria saber entender.
- Acha que é por causa disso? – Perguntou ele, meu irmão mordeu um pedaço de maçã cortada depois de se sentar no balanço ao meu lado.
Dei de ombros.
- Não sei, ué. Pode até ser. Mamãe não gostava quando eu fazia xixi na cama.
– Ponderei.
Ora, e o que é que eu podia fazer? Não conseguia segurar a bexiga toda vez que tinha pesadelos. De tempos em tempos eu tinha uns sonhos esquisitos, alguém corria atrás de mim e chegava tão perto de me pegar que o xixi escorria pelas minhas pernas.
Pelo jeito não era só no sonho que isso acontecia.
- Escuta, Lili. E se ela foi viajar? Talvez já esteja até voltando.
- Mas ela não disse que ia voltar, disse?
Ahren parou para pensar. Ela não disse, eu tinha pensado naquilo um milhão de vezes. Ahren não teve tempo de formular uma resposta, o grupo de garotinhas que andavam com Bárbara se colocou em nossa frente e uma chuva de cascas de banana foi jogada diretamente em mim.
- MIJONA! – Cacau, a fiel escudeira dela, gritou me apontando o dedo, todas as outras repetiram. - MIJONA!
- MIJONA!! – Bárbara deu um sorriso cruel, naquele momento eu senti ódio correndo nas veias. Só o que me importava era agarrar naqueles cabelos loiros dela e não soltar mais.
- MIJONA!
- ELA NÃO É NENHUMA MIJONA! – Meu irmão levantou e gritou bem alto para me defender, fazendo as meninas calarem a boca.
- É SIM! – Bárbara deu um passo a frente, gritando mais alto que o meu irmão. - Sua mãe nunca vai vir te buscar porque além de feiosa você é uma Maria Mijona!
Eu olhei para ela com ódio, toda frustração e tristeza que eu vinha sentindo nos últimos dias foram parar nas minhas mãos e eu voei em cima dela. Agarrei seus cabelos, indo direto para o chão.
Bárbara gritou, as outras meninas se afastaram gritando e algumas correram para pedir ajuda. Meu irmão se manteve olhando enquanto eu dava uma surra nela, quem ela achava que era para me chamar de feiosa? Se não fossem as roupas e os acessórios ela ia parecer uma pata choca.
Não sei quanto tempo durou mas em algum momento vieram adultos para me tirar de cima dela. Fomos parar na sala da diretora, uma sentada do lado da outra, eu revirava os olhos enquanto era obrigada a ouvir Bárbara abrir o berreiro.
Nem preciso dizer por qual motivo eu levei a pior, fui pega no flagra, e ela teve sorte por eu não ter uma tesoura por perto ou poderia dar adeus aos seus fios dourados.
Bárbara tinha algum tipo de favoritismo estranho ali, o que na época eu não queria entender.
A partir desse dia eu me tornei a garota mais perseguida e odiada daquele orfanato, mas descobri que ser firme fazia com que tivessem medo de apanhar. Meu irmão me defendia como podia, ele se meteu em diversas encrencas para salvar a minha pele, já que eu insistia em fazer algumas brincadeiras de mau gosto para retribuir um pouco de tudo que a turminha da Barbie fazia contra mim.
Ouvir coisas ruins sobre si mesma constantemente da boca de várias pessoas faz com que em algum momento comecemos a duvidar da veracidade das afirmações. Eu era só a estranha, magricela e com a pele pálida demais. Quando fiz onze anos precisei usar óculos e um ano depois precisei de um aparelho para corrigir os dentes, de tempos em tempos eu tinha espinhas, o que rendeu uma gama de novos apelidos para a minha conta e uma baixa autoestima que me fazia querer fugir de espelhos.
Mas pelo menos eu era inteligente, sempre tirava ótimas notas e fazia questão de negar qualquer pedido de ajuda da turma da Barbie chorona.
Conforme os anos foram se passando eu finalmente pude tirar o aparelho quando completei os dezesseis anos, mas os óculos ainda eram meus companheiros por muito mais tempo.
As coisas não mudaram muito nós anos seguintes, as garotas não pararam de me atormentar e infelizmente nem eu e nem meu irmão fomos adotados durante os anos que vivemos ali. Para o meu azar Ahren completou dezoito anos e teria que partir do orfanato, me deixando sozinha com aquela turma insuportável.
Ahren me prometeu que iria sair e conseguir um emprego, assim, quando eu saísse dois anos depois nós teríamos um lugar para morar, mesmo que fosse alugado. Os dias foram maus depois que ele se foi, ocupei meu tempo com os estudos e com a leitura recreativa para fugir da realidade triste e monótona que tomou conta daquele lugar...
Até uma visita de caridade mudar tudo para mim pela primeira vez.
Fomos reunidos no salão principal do orfanato, a turma da Barbie cochichava sem parar e eu não entendi o motivo de tanta animação.
- Silêncio! – A diretora ordenou antes de começar. - Como sabem, a família Oliveira virá fazer a visita anual para fazer doações para a instituição.
A família Oliveira era uma das mais tradicionais e ricas do Rio de Janeiro, todos os anos, além de um bom valor em dinheiro eles doavam roupas de marca, brinquedos e sapatos para o orfanato. Era uma briga só na divisão dos ítens e eu sempre preferia ficar de fora.
- Estejam todos prontos amanhã às seis da tarde. Tomem banho, se arrumem direito e limpem as orelhas. Desta vez o filho do casal Oliveira também virá. Estamos entendidos? – Cruzei os braços, era mesmo necessário falar que tínhamos que fazer a higiene pessoal básica?
Bom, com os meninos daqui, talvez fosse essencial sim.
- Sim, senhora.
§
Naquela noite a turma da Barbie estava reunida ao redor da cama dela, infelizmente Bárbara dormia no mesmo quarto que eu e por isso não pude evitar ouvir os risinhos e cochichos ao entorno do que elas fofocavam.
- Uau! É esse? – Cacau perguntou quando Bárbara virou o celular para elas. Houveram alguns suspiros e risinhos contidos. - Qual é o nome dele?
- Alexandro, ele tem 18 anos e vai para a faculdade, vai ser um engenheiro. – Bárbara virou a tela de volta para si e encarou sei lá o que com cara de besta.
Revirei os olhos, besta ela já era por achar que um cara rico de 18 anos ia querer alguma coisa com um bando de garotas mimadas de 15 e 16. Cobri minha cabeça com o edredom e me forcei a dormir. No dia seguinte a presença do tal Alexandro Oliveira foi assunto o tempo inteiro, na mesa do café da manhã, pelos cantos no jardim e em todo lugar para onde as meninas andavam.
Quando uma das garotas disse que tinha separado o melhor vestido para colocar Bárbara olhou bem na cara dela e a expôs na frente do resto da turma.
- Esse vestido é horroroso, Maria Júlia. Acha mesmo que ele vai gostar dessa roupa? – As outras riram, fazendo Maria ruborizar de vergonha.
Eu dei de ombros, elas criaram a cobra por quem seriam picadas. Que agora abrisse os olhos e se afastasse da turminha da Barbie.
- O Alexandro só vai olhar para mim hoje, entenderam meninas? Nenhuma de vocês devem me atrapalhar.
Elas concordaram feito cadelinhas na coleira. Eu saí dali, esperei a hora certa e me arrumei minimamente bem para receber a família Oliveira. Nada exagerado, calça jeans, uma blusa social e sapatilhas, além de um rabo de cavalo que fazia parecer que eu iria para uma entrevista de emprego.
As dezessete horas todos estavam sentados nos sofás do salão principal. Quem olhava assim, todos limpos, arrumados e perfumados não imaginavam que aquele orfanato só faltava pegar fogo nos demais dias da semana. Uma hora depois a família Oliveira finalmente chegou, o casal distinto adentrou o salão acompanhados do filho e da diretora.
Tivemos que seguir todos os protocolos de dar boas vindas e apresentar nossos dotes a eles. Uma de nós preparou bolinhos, outras apresentaram concursos escolares que foram ganhos e eu apresentei um projeto de ciência que tinha ganhado o primeiro lugar na feira esse ano. Percebi que minha explicação prendeu a atenção deles, até mesma da senhora Oliveira que se mantinha esnobe e de nariz em pé.
Depois que as doações foram devidamente feitas, a diretora fez questão de deixá-los livres para ver as reformas que haviam sido feitas. Quando Alexandro se mostrou interessado em andar pelos cômodos Bárbara correu para falar com ele.
- Olá, eu me chamo Bárbara Paiva, mas todos me chamam de Barbie por aqui. É um apelido carinhoso que ganhei. – Ela estendeu a mão coberta por uma luva. Sim, Bárbara perdeu a noção do ridículo e se vestiu quase como uma princesa de época.
Alexandro a olhou sem muito interesse.
- Ah. Que... legal. Alexandro Oliveira. – Ele apertou sua mão.
- Nós sabemos seu nome. – Ela deu aquele sorriso venenoso que me fez revirar os olhos. - Eu posso lhe apresentar os cômodos.
- Agradeço, Bárbara. Mas gosto de explorar sozinho.
O brilho dela sumiu um pouco, mas seu sorriso falso continuou ali, finalmente eu estava me divertindo. Depois da cena e do casal Oliveira já estarem afastados eu fui me trancar no único lugar que me interessava naquele lugar, a biblioteca.
Me afundei na poltrona reclinável o máximo que podia, quase ninguém frequentava a biblioteca se não fosse para fazer pesquisas escolares.
Eu me transportei para dentro do meu livro assim que o abri, o personagem principal era um delegado que havia pedido a esposa e a filha e agora estava em busca de vingança, bom, estava até encontrar a linda Raquel Viana. Eu estava envolvida na narrativa, sentindo a dor do personagem no meu próprio coração.
- Mas que cavalo! Como pôde falar assim com ela? – Reclamei para as páginas.
- Com ela quem? – O susto me jogou direto para trás, fui com tudo para o chão, a poltrona virou bem em cima de mim.
- Ai! – Reclamei ao ser acertada na cabeça pelo encosto da poltrona.
O peso da poltrona sumiu de cima de mim, Alexandro tinha desvirado a poltrona e estava me olhando preocupado quando ergui os olhos.
- Você se machucou?
Eu me apressei em ficar de pé, ajeitando a blusa e o rabo de cavalo que agora devia estar todo torto. Meus óculos foram parar na boca e meu livro tinha rolado para onde só deus sabia onde.
- Não. – Eu limpei a garganta, colocando os óculos no lugar.
A sombra de um riso passou pelo rosto dele. Alexandro pegou algo no chão, meu livro.
- Com quem estava falando? Por acaso é maluca para falar sozinha?
- Eu estava falando com o meu livro. – Eu peguei meu xodó da mão dele.
- E o que foi que ele te respondeu?
Esse filho da mãe estava debochando de mim.
- Escuta, eu agradeço por me ajudar com a poltrona mas se veio aqui me falar gracinha já pode sair. – Cruzei os braços, erguendo o queixo como fazia com as cadelas da Bárbara.
Ele ergueu as mãos em sinal defesa.
- Eu só estava brincando, gostei do seu projeto de ciências. Você claramente é a mais inteligente desse lugar. – Alexandro deu uma olhada ao redor, como se não tivesse nada interessante por aqui.
- É mesmo? – Me interessei, ter uma pessoa famosa gostando do meu projeto de ciências pareceu vantajoso.
- Sim, como se chama?
- Angelique, Angelique Martins.
- Nome original. Você já sabe o meu. – Ele piscou um olho para mim. Abusado, não sabia se gostava ou não dele, mas seria mais fácil odiá-lo. - O que está lendo aí?
Eu não queria dividir, geralmente garotos menosprezavam a leitora de romances.
- Um livro qualquer.
- Um romance, imagino. – Ele pôs uma das mãos no bolso da calça. Até que era bonito, mas ainda sim não via motivo para todo fogo que as meninas tinham com ele. - O que mais você lê?
- Comecei a ler Hannah Arendt por causa de uma das personagens desse livro. Estou gostando.
- Tem bom gosto. – Alexandro puxou uma cadeira, se sentou e tirou um cantil de bolso da calça. - Já li Hannah Arendt para alguns trabalhos.
Ele deu um gole e me ofereceu o objeto de inox. Eu não precisava ser inteligente para saber que tinha bebida alcoólica ali dentro.
- Eu só tenho dezesseis anos.
- E daí? – Deu de ombros. Ponderei antes de pegar o cantil, nunca tinha bebido mas tinha curiosidade.
Virei o cantil na boca, o líquido desceu queimando pela minha garganta.
- Gosta daqui? – Indagou.
- Preciso responder essa pergunta? Ninguém gosta de morar em um orfanato, Alexandro. Esse aqui é péssimo por sinal, as Barbie girls me odeiam. – Voltei a me sentar na poltrona, agora com a postura ereta.
- Alex, só Alex. Posso falar com meus pais e conseguir uma transferência para você.
- Ah, não. Tenho preguiça só de pensar em tentar me encaixar de novo.
Alex deu de ombros.
- Se encaixar é fácil, basta fazer coisas que você não gostaria de fazer.
- Prefiro pagar o preço.
- Sorte sua, não tenho escolha a não ser fazer coisas que não gosto. Como por exemplo visitas de caridade. – Ele bebeu mais.
- Não queria estar aqui? – Perguntei.
- Não é que eu não goste de caridade, mas acho que uma doação pode ser feita sem que eu precise deixar de sair com os amigos. Qual é a necessidade desse protocolo todo?
- Gosta deles? Dos seus pais? – Minha pergunta aleatória o fez pensar. A vida dele devia ser boa, ele era rico, bastava uma palavra para que conseguisse investimento e apoio financeiro dos pais.
Bom, na verdade só a presença deles já devia ser alguma coisa.
- Gosto. Mas gostaria mais se fossem separados, eles brigam demais e enchem meus ouvidos. É por isso que estou me mudando.
- Vai morar sozinho?
- Sim. Acabei de fazer dezoito, posso fazer isso.
- Ele deve estar em algum lugar por aí. – Ouvimos a voz da diretora no corredor, pelo som dos saltos no chão a senhora Oliveira parecia procurar Alex impacientemente.
Nós levantamos e ouvimos atrás da porta até que as duas se afastassem. Alex guardou o cantil no bolso onde estava antes.
- Não diga que bebemos. – Pediu.
- Será nosso segredo. – Jurei. Ele mostrou um sorriso contido.
- Gostei de você. Talvez a gente se veja em uma próxima doação. – Alex piscou de novo e eu soube que não iria odiá-lo como pensei. Tinha gostado de seu jeito aparentemente despojado e sem amarras as regras.
Ele saiu, e o olhar que ele me lançou enquanto sumia pelo corredor me dizia que não seria a última vez que eu o veria.
- Uh! – Eu arfei buscando o ar ao sentir o corpo dele me pressionar contra a parede depois de um beijo que tirou meu fôlego.
Alex estava certo, nos vimos algumas vezes em outras doações que ele mesmo tinha feito questão de vir fazer mesmo sem a presença dos pais. Em uma delas ele marcou um encontro comigo, nos vimos em uma madrugada na rua atrás do orfanato. No início só conversávamos e ríamos de diversas situações, de certa forma encontramos conforto um no outro. Alex fugia das discussões infernais em casa e eu tinha meu momento de escape depois de ser atormentada pelas Barbie's Girls.
Eu me sentia diferente e livre, Alex passou a me levar a lugares que jamais sonhei em ir. Conheci o mar em um dos nossos encontros proibidos, e também foi em um deles que ele me deu o meu primeiro beijo.
O problema é que nós nunca mais paramos.
Quando nos víamos Alex me atacava e me beijava feito um animal. E bem, eu até que gostava... Era gostoso e de qualquer maneira nunca passamos de alguns amassos.
A parte mais divertida de tudo isso era rir em silêncio enquanto Bárbara se esforçava para chamar atenção de Alex a cada vez que ele aparecia no orfanato. Nós ríamos dela nas nossas escapadas noturnas.
Depois que conheci Alex os dias pareciam passar mais rápidos e mais leves. Um ano inteiro se passou e na próxima doação anual Alex e eu nos pegamos no banheiro mais próximo. Quando fizemos um ano e meio ele se lembrou da data e me levou até um quiosque na Barra da Tijuca para comer camarões.
Uma das coisas que eu gostava nele era que mesmo sendo rico e tendo um gosto requintado ele não se importava em fazer os passeios simples que mais me agradavam. Na verdade ele até gostava. Com roupas leves e um palito cheio de camarões nas mãos nós sentamos na faixa de areia perto do quebra mar da Barra para olhar a beleza na natureza.
- Olha só como sua boca está imunda, cheia de mostarda. – Juntou as sobrancelhas, brincando.
- E você vai me obrigar a limpar, é? – Provoquei-o entre uma mordida e outra.
- Não, vou limpar para você. – Ele capturou minha boca, passando a língua nos meus lábios antes de tentar me beijar e ser afastado pela minha mão suja.
- Você é nojento, sabia? – Impliquei enquanto o vento fresco movia alguns fios rebeldes do meu cabelo.
- Gostoso, você quis dizer.
- Hmm, talvez um pouco disso também. – Tirei uma mecha de cabelo do rosto. - Um ano e meio é um bom tempo, não acha?
- Acho, baby. Isso só prova que temos química, resta saber se teremos química também em outros aspectos. – Alex cheirou meu pescoço.
- Também prova outra coisa. – Encarei seus olhos castanhos especulaculativos.
- O que?
- Que podemos namorar, tecnicamente já é isso que estamos fazendo. – Mordi meu último camarão.
- Se já é isso que fazemos então para que mudar? Estamos bem assim, gata. – Alex beijou meu ombro desnudo.
- Mas eu quero compromisso, Alexandro. Não estou com você como forma de passatempo, para isso eu tenho meus livros. – Limpei meus dedos em um guardanapo.
- Relaxa, anjo. Vou dar um jeito nisso mais para frente.
- Vou te apresentar ao meu irmão assim que for oficial. Não quero viver escondida como se estivesse cometendo um crime, se ele descobre que estamos nos encontrando...
- Ele não vai. Em breve vou conhecê-lo e ele vai gostar de mim. Prometo.
- Mesmo?
- Claro que sim.
Depois daquela noite eu fiz inúmeros planos para nós dois, especialmente porque em breve eu iria sair do orfanato para morar com Ahren, ele cumpriu a promessa de conseguir um lugar para nós. Era alugado, mas pelo menos teríamos um teto sobre as nossas cabeças, ou telhas, quem sabe?
O problema é que os meses foram passando e Alex se esquivava de todas as minhas cobranças. Sua desculpa era que tinha falado com os pais e que eles odiaram a idéia dele assumir publicamente um namoro com uma garota de um orfanato. Traduzindo, uma garota pobre e sem sobrenome de peso.
Aquilo me matou por dentro, passei a odiar aquele casal fingido e dissimulado, eles queriam o que? Que Alex ficasse com alguém para ter um relacionamento de aparência tipo o deles? O que me deixava com mais raiva era Alex acatar esse absurdo mesmo morando sozinho, brigamos por causa disso e ele disse que os pais eram responsáveis por bancar seus estudos, e que por isso tinha que fazer suas vontades, para enfrentá-los ele precisaria arrumar um emprego e se bancar sozinho.
Pois eu só baixei a guarda quando ele provou que estava mesmo buscando um trabalho.
Segurei a onda e continuamos saindo escondidos por mais seis meses, mas quando fiz dezoito anos ele já tinha conseguido um bom emprego graças aos contatos influentes. Então eu lhe dei um ultimato: Ou iríamos namorar sério ou poderíamos parar de nos ver no momento que eu pusesse os pés para fora do orfanato.
- Assim você me quebra, gata. – Reclamou ele, no telefone.
- Vai ficar quebrado então, amor. Minhas malas estão prontas e estou me mudando amanhã mesmo, se não assumir o namoro você vai ser só mais uma coisa que eu vou deixar para trás.
- Tá certo, hoje mesmo vou mudar meu status de relacionamento e dizer aos meus pais que estamos juntos. Satisfeita?
- É o mínimo que pode fazer se gosta mesmo de mim. – Pontuei.
- É claro que gosto, e vou provar. Boa noite, anjo.
Quando eu acordei no dia seguinte dispensei o café, estava ansiosa para ir embora daquele lugar de uma vez por todas. A diretora reuniu todos no refeitório para que se despedissem de mim e depois me acompanhassem até a saída.
O que aconteceu a seguir foi impagável.
Ao chegar na sala Alex estava com um buquê enorme de rosas vermelhas e balões em forma de coração que tinham a frase que abalou as estruturas daquele orfanato e fez os queixos caírem.
"FELIZ DOIS ANOS DE NAMORO"
A partir daí foram só gritos, confusão e chororô. Assisti de camarote Bárbara perder o brilho e as outras meninas me olharem horrorizadas. Corri para os braços de Alex e lhe dei um beijo.
- Mas o que significa isso?! – A diretora se exaltou.
- Alex e eu estamos juntos há dois anos. Mas isso não é relevante agora que sou maior de idade e estou indo embora. – Respondi sorrindo.
- NÃO ACREDITO NISSO!!! Como é que você pôde escolher essa feiosa ao invés de mim, Alex?! – O rosto de Bárbara ficou vermelho feito cerejas frescas, seus olhos brilharam de ódio.
Alex deu de ombros, enlaçando minha cintura.
- Ela é mais interessante do que você, o que posso fazer?
- Urrrgh!!! – Ela gritou, batendo o pé e saindo da sala depois de esbarrar em algumas meninas da turminha.
O resto das meninas continuou de boca aberta. Cacau cruzou os braços, com nojo, como se estivéssemos cobertos de bosta.
- Você poderia ter escolhido qualquer uma, Alexandro. – Desdenhou ela.
- É. Mas eu não quis, fazer o que? – O olhei com um sorriso de orelha a orelha, eu amava aquele garoto. - A gente está vazando, vejo vocês na próxima doação.
Saímos do orfanato sob os olhares de fúria daquelas mal armadas. Aquela foi a manhã mais feliz da minha vida até ali.
- Eu vivi para ver esse momento acontecer! – Vibrei enquanto tomávamos café da manhã na primeira lanchonete que encontramos a caminho da casa do meu irmão.
- Vai ser ainda mais épico quando eu te mandar a gravação por e-mail. – Ele tirou o celular do bolso.
- Você gravou?!
- Acha que eu ia perder a chance de rever a cara delas?
Eu gargalhei tanto que meus óculos foram parar na minha boca. Depois de comermos Alex me levou embora e deixou na frente do endereço que meu irmão tinha me mandado por mensagem.
- Nenhuma chance de eu entrar? – Perguntou quando o carro parou.
- Não se quiser continuar vivo. Deixa eu contar a ele primeiro. – Alex me beijou antes de me ajudar a tirar minhas malas do carro.
Ele se despediu de mim com um tapa no meu traseiro e eu esperei que Ahren não estivesse vendo isso de alguma janela.
Um uber não iria se despedir com uma palmada daquelas.