Eles estavam sentados lado a lado no sofá da sala onde aconteciam as conferências reais enquanto as câmeras eram preparadas e arrumadas. O comunicado seria cerca de meia hora e Julia sentia seu estômago gelado a cada respiração que dava. Uma parte de si se sentia aliviada, como se um peso fosse enfim tirado de suas costas, mas outra parte estava arrasada. Ela amava o homem ao seu lado, mesmo que não fosse recíproco. O olhou de soslaio. Sebastian, o príncipe alfa, o herdeiro ao trono, parecia como sempre. Impassível, frio, distante. Como se nenhuma emoção transpasse em seu rosto.
E aquilo matava Julia. Mas ao mesmo tempo lhe dava força, aquele era o motivo de estarem ali.
Após quatro anos de casamento, iam anunciar o divórcio.
Julia não teria mais que seguir as regras da realeza. Não teria mais protocolos, ou ser obrigada a vestir as roupas que eles queriam, a comer o que eles queriam, a estar onde eles queriam na hora em que eles queriam. Julia não seria mais a responsável por trazer ao mundo o novo rei. Ela respirou fundo ao pensar. Não seria de seu ventre que o novo príncipe surgiria. Não mais.
Apesar de tudo, ela sentiria falta de algumas coisas. Não era de todo ruim as viagens ao redor do mundo, conhecer novas pessoas, poder defender causas e instituições, poder ouvir os menos favorecidos e realmente fazer algo por eles. Sebastian a ouvia nesses casos, e aquilo aquecia seu coração. As vezes a dava esperança... de que um dia ele a olhasse diferente... de que talvez... talvez... la no fundo de seu coração... Sebastian sentia algo por ela, e que aquele casamento não era apenas um casamento arranjado para ter um herdeiro...
Ela olhou o relógio. 5 minutos agora. 5 minutos para sua vida mudar por completo. 5 minutos para aquela aliança sair de seu dedo definitivamente. 5 minutos para ela começar a arrumar suas coisas para sair do palácio. 5 minutos para deixar de ser esposa de Sebastian. Para deixar de ser princesa...
E então ela levou um susto quando Sebastian se levantou bruscamente do sofá, puxando a gravata do pescoço - Me perdoem, eu preciso... preciso de um pouco de ar... já volto. - e saiu.
Julia arregalou os olhos em total descrença. Aquilo era totalmente atípico de Sebastian. Jamais vira esse tipo de comportamento no marido, o que a deixou completamente preocupada. Olhou para sua assessora, que também era sua irmã, e ela deu um aceno com a cabeça, como se a instigasse a ir atrás dele e então ela se levantou - Com licença, já voltamos. - disse com o coração acelerado, indo pelos corredores do palácio, a cabeça latejando de angustia e medo.
O encontrou no jardim aos fundos, onde não poderia ser visto por ninguém, apenas andando de um lado para o outro. Parecia desesperado.
- Sebastian? - Julia o chamou, andando em direção a ele, o vendo andar - Sebastian... esta tudo bem... você sabe que ninguém irá o odiar quanto a isso... - dizia o que vinha a sua mente, tentando o acalmar para voltarem e fazerem o comunicado - Sabe que também estou bem quanto a isso não sabe? Nós concordamos com tudo, eu concordei com tudo, com o Rei, assinei os documentos, esta tudo bem... essas coisas acontecem... você vai poder achar uma ômega que lhe agrade mais, vai ter seus herdeiros... você é o príncipe, vai ser um grande e maravilhoso rei, vou continuar te apoiando em tudo... - Sebastian tinha parado de andar para a olhar - Não me arrependo de ter me casado com você ta bom? Ta tudo bem. Divórcios são normais. Você vai ver, ninguém vai entender errado, ninguém vai...
Tudo aconteceu tão rápido que Julia nem viu chegar. As mãos de Sebastian estavam em seu rosto e os labios nos seus em um beijo afoito e desesperado. As línguas dançavam juntas, as respirações ofegantes e o marido jamais a tinha beijado daquela forma, tanto que ela nem conseguia corresponder apropriadamente, tanto era sua surpresa com o ato.
Sebastian se afastou, ainda segurando seu rosto com as mãos, sem dizer nada, e Julia levou as mãos em sua gravata, a arrumando em seu terno caro. Se viraram e voltaram pra dentro do palácio.
A cabeça de Julia latejava ainda mais. O que tinha significado aquilo? Tinha sido uma despedida? O que Sebastian estava fazendo?
Se sentaram novamente no sofá mas só o que Julia ouvia eram murmúrios. Sua visão estava turva, ela estava tonta. Sentiu a mão do marido na sua, como faziam nos comunicados, e então sua voz grave e potente. Sua voz de príncipe. Sua voz de futuro rei.
- Eu e minha esposa viemos desejar a todos um inicio de ano prospero. Estamos muito animados com o que esse ano pode nos trazer. Vimos que fizemos poucos comunicados nos anos anteriores e queremos mudar isso e ficarmos mais próximos de vocês, começando por esse. Desejamos a todos um excelente ano! - disse, até um pouco animado e Julia deu um meio sorriso ensaiado.
O que estava acontecendo afinal?
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Eram cerca de 3 horas da manhã e Julia estava sentada entre o vigésimo quinto e o vigésimo sexto degrau da longa escadaria do palácio. A cabeça encostada no corrimão, as lágrimas secas no rosto, as mãos juntas em cima das pernas. Estava vestida com o costumeiro pijama de seda cinza, um de seus pijamas de princesa. E sua cabeça ainda repassava as cenas de mais cedo.
Estava tudo escuro, a não ser por alguns pontos de luz espalhados pelo palácio, e ela estava sentada estrategicamente onde não pegava nenhum, mas onde ela conseguia ver a lua pela janela, e onde nenhum dos guardas poderiam a ver. Anos de experiência em se esgueirar por ai pelos corredores.
Ela devia estar divorciada aquela altura. Seu rosto devia estar em todos os noticiários do Brasil, quem sabe do mundo. Ela não devia estar ali. O que Sebastian estava fazendo? Eles tinham conversado, Julia disse que queria se separar, disse que não queria mais, disse que abriria mão de tudo, concordou com tudo que o Rei propôs, assinou todos os termos de confidencialidade, foram dias e dias naquele escritório, ela, Sebastian, o Rei, o ministro, advogados, todos tentando ao máximo preservar a coroa, preservar a imagem de Sebastian...
Julia respirou fundo. Apesar de tudo, jamais faria algo para prejudicar Sebastian, afinal, ele nunca a tratara mal, sempre a respeitara, em frente as câmeras ninguém jamais suspeitaria que eles nem se falavam fora delas. E Julia o amava demais para sequer cogitar a ideia de pensar algo contra o marido. Ele apenas não a amava de volta. Essas coisas acontecem.
Mas porque não tinha seguido com o comunicado? Porque não tinha seguido com o acordo? Todos da coroa sabiam, estava tudo acertado... Julia bateu a cabeça algumas vezes no corrimão. Ela não conseguia entender. Parecia que sua cabeça ia explodir.
Respirou fundo e então passou a mão no rosto, secando o que ainda tinha ali, então se levantou e desceu os degraus, encontrando alguns guardas que se curvaram em reverência. Ela apenas seguiu em frente, em direção a cozinha. Não era comum as pessoas da realeza irem até ali, o que era comum eram os empregados serem chamados para fazer os desejos deles, mas Julia as vezes gostava de sentir a liberdade de ir e vir.
Abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água, colocou na testa, e então se virou, fechando a porta e dando um pulo - Meu Deus...
- Desculpe, não achei que ia encontrar alguém aqui. - Sebastian disse sentado em uma cadeira distante, um copo na mão.
Julia engoliu em seco - Só... estou com dor de cabeça...
O alfa assentiu, se levantando, foi até uma prateleira no outro canto, abrindo e pegando um pequeno pote de dentro - Os empregados deixam alguns remédios aqui... tem analgésico... aqui, tem o que você toma pra dor de cabeça - disse oferecendo um comprimido e Julia o olhou alguns segundos antes de avançar e pegar o remédio de sua mão.
- Obrigada - disse colocando na boca e abrindo a garrafa de água, bebendo o líquido logo depois. Respirou fundo e fez menção em sair mas então escutou.
- Você ta bem?
Julia se virou para o olhar, banhada pela luz de um abajur. Com certeza Sebastian estava vendo seu rosto cansado, os olhos vermelhos, o cabelo bagunçado, a face confusa. Ela poderia perguntar, poderia o confrontar, estavam apenas os dois ali. Mas ela sabia melhor do que ninguém que as paredes daquele palácio tinham ouvidos, principalmente aquela cozinha, e principalmente a noite. Então ela apenas o olhou, deixando que seu olhar respondesse sua pergunta. - Boa noite Sebastian. - el disse de forma baixa, e voltou ao seu quarto.
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- Vossa Alteza - ela ouviu ser chamada na manhã seguinte. Não se sentia diferente, tanto que naquele momento estava olhando pela janela de seu quarto no mesmo torpor da noite anterior. - Aqui estão as roupas para a viagem a Inglaterra. - o empregado tinha uma arara cheia de mudas de roupas com etiquetas que Julia chegou mais perto para olhar. "Roupa de viagem". "Roupa para cumprimentar a Rainha Elizabeth" "Roupa para almoço real" "Roupa para visitar o palácio de buckingham" "Roupa para o baile real".
Ela deu uma curta risada - Esta tudo pronto não?
- Posso arrumar sua mala vossa alteza?
Julia passou a mão nas roupas - Achei que não teriam roupas para arrumar dessa vez...
- Julia! Digo... Vossa Alteza... - sua irmã e assessora entrou no quarto fazendo reverencia - Vim repassar com você a viagem para Inglaterra e seus compromissos lá. - Ela chegou mais perto, a puxando para um canto do quarto enquanto o empregado começava a arrumar sua mala. - Como está? O que aconteceu ontem? O que ia acontecer ontem?
Apesar de ser sua irmã, e sua assessora, o divórcio só estava entre ela, Sebastian e as pessoas com as quais o Rei quis compartilhar. - Eu estou bem Luíza... não se preocupe. Sebastian esta com alguns problemas, esta bastante nervoso esses dias... mas esta tudo bem, não se preocupe. Pode passar pra mim meus compromissos por favor.
Luíza a olhou, sabendo que ela estava mentindo, mas não podia fazer nada - O avião sai depois do café, que é daqui quarenta e cinco minutos, vocês vão tomar café todos juntos, o rei quer dizer algumas coisas... e depois...
Ela continuou falando e Julia fingia ouvir, como sempre. Doía seu coração, ela não podia confiar nem na irmã. Ela vivia em um mundo completamente fechado dentro de si.
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Uma coisa Julia sabia quando acordou no jatinho particular da Coroa quando foram avisados que iriam pousar no Reino Unido: ela não dormiu com uma coberta. Como era do costume, Sebastian estava sentado na poltrona ao seu lado, as mãos cruzadas em cima das pernas, elegantemente vestido com seu terno de "Cumprimentar a Rainha Elizabeth". Percebeu que ele tinha que se trocado, o cabelo estava arrumado, o olhar a frente, centrado. Julia se arrumou na poltrona, colocando o cinto de segurança.
- Posso esperar você se trocar quando pousarmos. - ela ouviu o marido dizer de forma baixa, sem a olhar.
- Podia ter me acordado, ou mandado alguém me acordar. - respondeu no mesmo tom.
- Ah eles vieram, eu não deixei te acordarem.
Julia virou a cabeça a ele de forma rápida - Porque?
- Passou por muitas coisas esses dias, precisava dormir. - disse dando fim a conversa, Julia sabia que não sairia mais nada então apenas respirou fundo, sentindo o coração bater mais rápido.
Ela gostava de viajar, gostava de estar em outros lugares. Já tinha vindo a Inglaterra antes, mas dessa vez tinham vindo em uma época fria demais, percebeu enquanto colocava o vestido e o blazer e saia do compartimento do avião onde tinha trocado de roupa. Sebastian a esperava e apenas acenou quando ela saiu. O vento estava mais forte fora do espaço quente do avião. As câmeras batiam fotos atrás de fotos enquanto eles entravam no carro que os levariam até a outra monarquia muito conhecida.
O Brasil e a Inglaterra viviam um acordo muito forte entre eles. Acordo esse que Julia nem ousava começar a entender. Ela dava sorrisos discretos, e ficava em silêncio, afinal, era apenas a princesa ômega, esposa do príncipe alfa, o herdeiro. Mas seu estômago revirara, morria de medo de cometer algum deslize e sem querer fazer o rei passar vergonha por sua causa.
Então se viu na mesa do chá da tarde. O que era sagrado na Inglaterra. O chá era servido, e então fatias de pão eram colocados a mesa. Julia suspirou, apertando as mãos debaixo da mesa. Olhou para os outros, O Rei a observando na outra ponta, a rainha Elizabeth distraidamente tomando seu chá, o príncipe Charles já estava comendo. Ela respirou fundo, uma, duas, três vezes e quando olhou o prato viu a mão de Sebastian gentilmente colocar duas fatias de pão sem casca nele.
- Sei que não gosta de pão com casca e sei que não gostaria de fazer desfeita com a rainha e nem com o meu pai. - o marido disse discretamente pegando o pão com casca que estava em seu prato e levando ao próprio.
O resto da tarde foi um borrão. Julia estava exausta. Era cansativo fingir uma felicidade que não existia. E era ainda mais cansativo tentar entender o que Sebastian estava fazendo. Ele jamais havia agido daquela forma antes, com esses gesto estranhos que a deixavam confusa. Ela ainda não sabia o porque de ainda estarem juntos, o que deixava sua cabeça ainda mais pesada.
E quando entrou em seu quarto, a primeira coisa que fez foi se jogar na cama. Queria dormir, queria ficar ali até irem embora. Não queria sair dali e enfrentar todos os compromissos que ainda tinham. Resolveu tomar um banho pra relaxar.
Saiu do banheiro arrependida. Sentia mais frio que antes e haviam mandado apenas meias de seda que não esquentavam em nada. Como queria ter trazido escondido suas meias quentinhas de lã. Ela sentou na beirada da cama, se enrolando na coberta, colocando o queixo nos joelhos levantados quando ouviu duas batidas na porta.
Ela arregalou os olhos - Quem é?
- Sou eu - a voz grave e baixa disse e Julia abaixou as pernas, o coração acelerando.
- Pode entrar. - tentou manter a voz firme mas ela tremeu um pouco quando Sebastian abriu a porta. Ainda vestido socialmente, mas dessa vez com um sueter e calças caqui, deu um meio sorriso raro de se ver e se aproximou.
- Vim trazer isso - disse mostrando uma bolinha em sua mão e Julia quase gemeu. Era uma meia de lã.
- Como... como...
- Você esqueceu uma no meu quarto uma vez e... bem... eu sabia que não iam colocar na sua mala, e pelo jeito que você veio de surpresa não achei que ia lembrar de trazer. - se aproximou mais.
Julia suspirou - Obrigada, acho que não ia conseguir dormir... ta muito frio aqui.
- Você é friorenta demais - Sebastian disse se aproximando mais e se abaixando ao seus pés.
- Se-Sebastian, o que esta fazendo? - o príncipe estava ajoelhado aos seus pés, e então Julia entendeu, ele tinha pegado a meia e começou a colocar nela - Não não não Sebastian, isso é tão errado...
- Não é. - disse terminando um pé e indo para o outro.
- Você é o príncipe herdeiro. - ela disse em um sussurro.
Sebastian terminou de colocar o outro pé e então ergueu o olhos para a olhar - Você é minha esposa.
Um silêncio preencheu o quarto enquanto os dois se olhavam, uma intensidade enchendo cada canto. Julia se viu presa pelos olhos de Sebastian, como se estivesse amarrada a eles, como se não tivesse nenhuma chance de se soltar. Como se aquelas palavras fossem um feitiço sem cura. E ela estava enfeitiçada.
Sebastian se aproximou mais, pegando seu rosto entre as mãos, mas diferente daquele dia no jardim que foi com fúria, dessa vez foi doce e até delicado demais. Seus lábios encostaram aos de Julia feito pluma, com todo cuidado do mundo, tanto que se Julia não se concentrasse ela poderia nem sentir. - Boa noite Ju.
Ela manteve os olhos fechados até escutar a porta se fechar. E não conseguia parar de pensar se aquilo tinha sido fruto de sua imaginação ou não. A única prova eram as meias de lã em seus pés.
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