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A Carta Infeliz de Mentiras

A Carta Infeliz de Mentiras

Autor:: Min Xiaoxi
Gênero: Moderno
Por dez anos, esperei que meu amor de infância, Heitor, se casasse comigo. Mas todo ano, nosso futuro era adiado por um ridículo ritual de família em que ele precisava tirar uma carta de tarô da "Sorte". Por três anos, ele tirou a carta do "Azar", suportando penitências brutais que o deixaram cheio de cicatrizes e quebrado. Eu acreditava que era o destino. Então, no quarto ano, eu o vi tirar a carta da Sorte. Meu coração disparou. Estávamos finalmente livres. Mas em um movimento rápido e treinado, ele a trocou por uma do Azar, escolhendo mais sofrimento. Fiquei paralisada de choque. Mais tarde, ouvi-o confessar ao seu primo. Ele vinha trocando as cartas há quatro anos. Ele não podia se casar comigo ainda por causa de sua assistente, Ariela. Ela havia ameaçado fazer algo drástico se ele a deixasse. Ele disse que devia isso a ela. Meu mundo desmoronou. Cada chicotada que ele levou, cada momento de dor que compartilhei, era uma mentira. Uma farsa encenada para outra mulher. Ele havia escolhido a culpa que sentia por ela em vez do amor que sentia por mim. Ele até me acusou de uma crueldade monstruosa baseada nas mentiras dela, gritando: "Não acredito que perdi dez anos com alguém tão vingativa. Peça desculpas à Ariela. Agora." Aquele foi o momento em que soube que o homem que eu amava tinha desaparecido. Então, eu fui embora. Voei para o Rio de Janeiro e me casei com outro homem. Mas assim que encontrei meu novo começo, Heitor invadiu o local, seus olhos selvagens de arrependimento, implorando para que eu voltasse. E logo atrás dele estava Ariela, seu rosto contorcido pela loucura, uma faca brilhante na mão.

Capítulo 1

Por dez anos, esperei que meu amor de infância, Heitor, se casasse comigo. Mas todo ano, nosso futuro era adiado por um ridículo ritual de família em que ele precisava tirar uma carta de tarô da "Sorte". Por três anos, ele tirou a carta do "Azar", suportando penitências brutais que o deixaram cheio de cicatrizes e quebrado. Eu acreditava que era o destino.

Então, no quarto ano, eu o vi tirar a carta da Sorte. Meu coração disparou. Estávamos finalmente livres. Mas em um movimento rápido e treinado, ele a trocou por uma do Azar, escolhendo mais sofrimento. Fiquei paralisada de choque.

Mais tarde, ouvi-o confessar ao seu primo. Ele vinha trocando as cartas há quatro anos. Ele não podia se casar comigo ainda por causa de sua assistente, Ariela. Ela havia ameaçado fazer algo drástico se ele a deixasse. Ele disse que devia isso a ela.

Meu mundo desmoronou. Cada chicotada que ele levou, cada momento de dor que compartilhei, era uma mentira. Uma farsa encenada para outra mulher. Ele havia escolhido a culpa que sentia por ela em vez do amor que sentia por mim.

Ele até me acusou de uma crueldade monstruosa baseada nas mentiras dela, gritando: "Não acredito que perdi dez anos com alguém tão vingativa. Peça desculpas à Ariela. Agora."

Aquele foi o momento em que soube que o homem que eu amava tinha desaparecido. Então, eu fui embora. Voei para o Rio de Janeiro e me casei com outro homem.

Mas assim que encontrei meu novo começo, Heitor invadiu o local, seus olhos selvagens de arrependimento, implorando para que eu voltasse. E logo atrás dele estava Ariela, seu rosto contorcido pela loucura, uma faca brilhante na mão.

Capítulo 1

Meu estômago despencou, uma pedra fria e dura afundando dentro de mim enquanto eu observava a mão de Heitor se mover, rápida e treinada, trocando a carta da sorte por uma de mau agouro. O baralho antigo e gasto, abençoado por gerações pela matriarca da família Lacerda, continha nosso destino, ou assim eu pensava. Por três anos, ele manteve Heitor cativo, forçando-o a penitências exaustivas, adiando nosso futuro. E agora, diante dos meus olhos, ele estava orquestrando nossa ruína.

Era o quarto ano desse ritual ridículo, uma tradição familiar sagrada que ditava que Heitor, o herdeiro da dinastia Lacerda, só poderia se casar com seu amor de infância – eu – depois de tirar uma carta de tarô da "Sorte". Ele havia falhado três vezes. Cada falha vinha com um preço.

No primeiro ano, Heitor tirou a carta do "Azar". Ele foi submetido a uma semana de meditação solitária e jejum no desolado refúgio da família na serra de Petrópolis. Ele voltou esquelético, seus olhos fundos, e desabou no momento em que me viu, o que o levou ao hospital por dias. Eu odiava aquele ritual. Era bárbaro.

No segundo ano, ele a tirou novamente. Desta vez, a penitência foi física. Suas costas foram açoitadas, não com um chicote, mas com cordas antigas e nodosas, deixando vergões grotescos que levaram meses para cicatrizar. Ele não gritou uma única vez, mas eu ouvi seus gemidos abafados por trás das portas fechadas da capela da família. Senti cada golpe profundamente na minha própria carne. Implorei à mãe dele para parar, mas ela foi inflexível, seu rosto uma máscara de pedra.

No terceiro ano, a carta, novamente, foi "Azar". A punição então foi uma provação de uma semana no gelo, onde ele foi submerso em riachos de montanha quase congelantes, despido de calor e conforto. Ele quase morreu de hipotermia. Lembro-me dos médicos balançando a cabeça, sussurrando sobre danos irreversíveis aos órgãos. Sentei-me ao lado de sua cama, segurando sua mão, lágrimas escorrendo pelo meu rosto, ouvindo sua respiração fraca e irregular. Ele olhou para mim, seus lábios azuis, e conseguiu um sorriso fraco. "Só mais um ano, Laura", ele sussurrou, "então estaremos finalmente livres."

Eu acreditei nele. Eu sempre acreditei. Cada vez, ele emergia mais fraco, mas sua determinação, ele afirmava, queimava mais forte. Ele me amava. Tinha que amar. Estávamos destinados.

Este ano, eu não suportaria vê-lo sofrer sozinho. Eu tinha chegado, determinada a compartilhar sua penitência, a provar meu amor inabalável e convencer sua família rígida de que nosso vínculo era mais forte do que qualquer superstição. Deslizei para as sombras da capela da família, meu coração batendo forte, bem no momento em que a matriarca colocou o baralho de cartas diante dele.

Ele fechou os olhos, respirou fundo e tirou uma carta.

Meu coração saltou. A carta, mesmo à distância, brilhava com uma luz dourada. O rosto severo da matriarca suavizou, um leve sorriso tocando seus lábios. Era a da sorte. Estávamos finalmente livres. Uma onda de alívio me invadiu, tão potente que quase dobrou meus joelhos.

Então, a mão de Heitor, tão familiar, tão amada, moveu-se com um movimento sutil e treinado. A carta dourada desapareceu, substituída por uma opaca e sombria. A carta do "Azar". Minha respiração ficou presa na garganta. Eu não conseguia emitir um som. Meu corpo inteiro congelou, cada músculo travado, minha mente uma tela em branco, aterrorizada.

Ele assentiu gravemente para a matriarca, um retrato de resignação solene. "Parece que meu destino permanece inalterado, avó", disse ele, sua voz plana, desprovida de emoção. "As estrelas ainda conspiram contra mim."

A matriarca suspirou, seu sorriso desaparecendo imediatamente. Ela acenou para o primo de Heitor, Bruno, que estava por perto. "Prepare o de sempre", ela instruiu, sua voz tingida de decepção.

Bruno assentiu, seu olhar distante, já aceitando o inevitável. Ele não questionou. Ninguém nunca questionava. Era o jeito dos Lacerda. Mas eu tinha visto. Eu tinha visto tudo.

Minha mente disparou, tentando encontrar uma explicação, uma razão. Por quê? Por que ele faria isso? Por que ele escolheria mais dor, mais adiamento, quando a liberdade estava literalmente em sua mão? A traição me atingiu mais forte do que qualquer golpe físico. Era um fogo ardente em meu peito, transformando tudo que eu conhecia em cinzas. Era por atenção? Era um jogo doentio? Não, Heitor não era cruel. Ele não podia ser. Isso tinha que ser um engano.

Então, ouvi vozes logo na esquina, perto do antigo arco de pedra. Heitor e Bruno.

"Você está louco, Heitor?" A voz de Bruno era baixa, carregada de exasperação. "Mais um ano? Você realmente tirou a carta da Sorte desta vez! Todos nós vimos!"

A voz de Heitor estava cansada, quase derrotada. "Eu não podia, Bruno. Ainda não."

"Ainda não?" Bruno zombou. "A Laura veio até aqui, pronta para pular no fogo com você! Ela passou por um inferno por causa desse ritual estúpido, por sua causa! Quanto mais ela pode aguentar?"

Heitor suspirou, um som profundo e trêmulo que perfurou meu coração. "Eu sei. Eu vejo isso toda vez que ela olha para mim. Mas e a Ariela? Ela tem sido minha sombra por oito anos. Oito anos, Bruno. Ela desistiu de tudo para me seguir, para trabalhar para mim. Ela me ama. Ela me disse ontem à noite que não suporta a ideia de eu me casar com outra pessoa. Ela disse que iria embora, desapareceria, faria algo drástico se eu seguisse em frente."

Meu sangue gelou. Ariela. Ariela Vargas. Sua assistente. A garota quieta e insignificante que sempre parecia estar à espreita na periferia. Oito anos. Ele a conhecia há oito anos. Os mesmos oito anos em que estivemos noivos.

"E você acredita nela?" A voz de Bruno era afiada. "Você acha que ela realmente faria algo? Ou ela está apenas te manipulando? Porque parece muito com manipulação para mim, Heitor. Você está sacrificando a Laura, seu futuro, por uma assistente manipuladora. E quanto à Laura? Você não tem ideia do que ela passou - do que nós passamos, por causa da sua... culpa. Sua obrigação."

"Não é só manipulação", Heitor rebateu, sua voz soando genuinamente dolorida. "A família dela, a origem dela... ela não tem nada, Bruno. Eu sou tudo que ela tem. Ela sacrificou tanto por mim. Eu devo isso a ela."

"Você deve a ela?" Bruno repetiu, a incredulidade pesada em seu tom. "Você deve à Laura sua lealdade, sua honestidade, seu futuro inteiro! Não à Ariela, que se agarra a você como uma sereia a um naufrágio. Isso não é caridade, Heitor. Esta é a sua vida. E a da Laura."

"Eu só preciso de mais um ano", Heitor implorou, sua voz falhando. "Mais um ano para resolver isso. Para ter certeza de que ela está estabelecida, segura. Então eu me casarei com a Laura, eu juro."

"Mais um ano?" Bruno riu, um som amargo e oco. "Você tem dito isso por quatro anos, Heitor. Quatro anos que você tira a carta da 'Sorte' e a troca pela do 'Azar'. Quatro anos que você se submete a essa tortura, e a Laura à dela. E para quê? Pela Ariela? Você ao menos se escuta?"

Meu mundo desmoronou. Quatro anos. Ele tinha feito isso por quatro anos. Cada chicotada, cada febre hipotérmica, cada momento agonizante de dor que eu o vi suportar, tinha sido uma farsa. Uma mentira. Ele havia escolhido aquilo. Ele havia escolhido Ariela em vez de mim, em vez do nosso futuro, em vez do nosso amor. A luz dourada da carta da sorte, a esperança que ela representava, tinha sido um truque cruel, uma miragem que ele mesmo havia conjurado e depois destruído.

Apertei os punhos com tanta força que minhas unhas cravaram nas palmas das mãos. A dor física era uma pulsação surda em comparação com a ferida aberta em meu peito. Minha cabeça girava, um vórtice nauseante de traição e incredulidade. Ariela. Sempre foi a Ariela. A assistente silenciosa que eu mal havia notado, que sutil e insidiosamente se entrelaçou no tecido da vida de Heitor, tornando-se a força silenciosa e destrutiva entre nós.

Cada olhar amoroso que ele me deu, cada toque terno, cada promessa de para sempre sussurrada durante aquelas noites intermináveis de hospital - tudo estava manchado agora. Uma teia de mentiras, cuidadosamente tecida, projetada para me manter amarrada enquanto ele jogava um jogo perigoso de obrigação e culpa com outra mulher. Minha respiração engasgou, um soluço silencioso rasgando minha garganta. Heitor Lacerda, o homem que eu amava, meu amor de infância, era um mentiroso. E ele a havia escolhido.

Capítulo 2

A voz da minha mãe me puxou de volta do abismo do desespero. "Laura? Você está aí? Como foi? Você e o Heitor finalmente vão se casar?"

Fechei os olhos com força, pressionando uma mão trêmula nos lábios para abafar o choro que ameaçava escapar. Eu não conseguia falar, nem uma única palavra. Minha garganta estava apertada, meu peito doía. O telefone parecia um peso de chumbo na minha mão.

"Laura?" Sua voz, geralmente tão forte, agora continha um tremor de preocupação. "Seu silêncio... ele tirou a carta do Azar de novo?" Ela fez uma pausa, um suspiro pesado do outro lado. "Eu entendo, querida. Eu realmente entendo. Mas, meu bem, isso não pode continuar. Você merece felicidade. Felicidade de verdade. Não este ciclo interminável de dor."

Suas palavras eram um bálsamo e uma ferroada. Dor. Sim, dor sem fim. Mas agora, eu sabia que não era o destino. Era uma escolha. A escolha dele.

"Seu pai e eu... mudamos completamente os negócios da família para o Rio de Janeiro agora", ela continuou, sua voz mais suave, quase suplicante. "É um novo começo para nós. E, querida, há alguém aqui... alguém que sempre te admirou. Ele é estável, gentil, e ele te valorizaria."

Eu ouvia, entorpecida. Caio Menezes. Minha mãe já o havia mencionado antes, um poderoso magnata do Rio, alguém que eu conheci brevemente quando criança. Eu havia descartado como um arranjo ocioso, nunca pensando que se tornaria minha rota de fuga desesperada.

"Pense nisso, Laura", minha mãe insistiu. "Você deu a ele tantos anos. Quatro anos dessa... dessa farsa. Você merece mais do que migalhas, meu amor."

Migalhas. Era exatamente com isso que eu estava vivendo. Restos de afeto, velados por mentiras. Minha visão embaçou. Quatro anos. Quatro anos esperando, acreditando, compartilhando seu sofrimento fabricado. Eu vim aqui hoje pronta para me sacrificar, para suportar sua penitência, apenas para descobrir seu elaborado engano. Eu desperdicei tanto tempo, tanto amor, em um fantasma de homem. O pensamento fez meu estômago revirar. Minha ingenuidade agora parecia um pesado manto de vergonha.

"Eu vou fazer isso, mãe", sussurrei, as palavras mal audíveis, mas firmes. "Organize. Eu vou me casar com o Caio."

Um suspiro aliviado fluiu pela linha telefônica. "Minha querida menina. Eu sabia que você era forte o suficiente para fazer a escolha certa. Eu cuidarei de tudo. Apenas... seja forte."

Desliguei, minha mão tremendo. A decisão estava tomada. Chega de incerteza. Chega de mentiras.

Eu sabia que Heitor estaria saindo da capela a qualquer minuto, pálido e enfraquecido por sua penitência auto-infligida. Vi Bruno direcionando os paramédicos para trazerem uma maca. Meu coração se contorceu. Uma parte de mim, a velha e ingênua Laura, ainda queria correr para ele, para confortá-lo. Mas a nova Laura, aquela que acabara de testemunhar sua traição, se conteve. Enxuguei as lágrimas do meu rosto, forçando minha expressão a uma máscara de calma. Ele não me veria desmoronar. Não agora. Nunca mais.

Ele emergiu, apoiado por dois homens fortes, seu rosto gravado com a dor familiar, seus olhos vidrados de exaustão. Ele me viu, e um lampejo de pânico cruzou seu rosto. Ele claramente não esperava que eu estivesse lá, ou que estivesse tão composta.

Eu apenas dei a ele um sorriso pequeno e apertado. "Você parece cansado, Heitor", eu disse, minha voz surpreendentemente firme.

Ele soltou um suspiro trêmulo, uma onda de alívio o invadindo. Ele deve ter pensado que eu não tinha visto nada. "Laura", ele sussurrou, sua voz fraca. "Eu te disse para não vir. Não quero que você me veja assim." Ele tentou me alcançar, mas seus braços estavam fracos demais. "Sinto muito, meu amor. Mais um ano. Eu prometo, no próximo ano, finalmente nos casaremos."

Meu sorriso não vacilou, mas por dentro, eu zombei. Próximo ano? Não haverá um próximo ano, Heitor. Não para nós.

Os paramédicos o colocaram gentilmente na maca. Ele parecia tão vulnerável, tão patético, mas meu coração permaneceu um bloco de gelo. Fomos colocados no carro da família para a viagem ao hospital. Ele deitou a cabeça no meu ombro, sua respiração superficial. "Foi tão difícil desta vez, Laura", ele murmurou, sua voz como a de uma criança. "Mas pensar em você... me fez superar."

Olhei para os vergões frescos em suas costas, as linhas vermelhas raivosas cruzando sua pele pálida. Uma onda de ironia amarga me invadiu. Toda essa dor, auto-infligida por uma mentira. Era uma paródia grotesca do amor.

Bruno, sentado à nossa frente, olhou para Heitor com uma mistura de pena e exasperação. "Não a deixe esperar muito, Heitor", disse ele, sua voz baixa, mas firme. "Algumas mulheres não esperam para sempre, mesmo por um Lacerda."

Heitor riu fracamente. "A Laura? Ela esperaria por mim até o fim dos tempos. Ela sabe que eu valho a pena. Certo, meu amor?" Ele apertou minha mão, seu olhar inquisitivo.

Eu simplesmente afaguei sua bochecha, oferecendo outro sorriso vazio. Você acha, Heitor? Você está prestes a descobrir o quão errado está.

No hospital, eles o levaram para um quarto particular. Sentei-me na sala de espera, minha mente entorpecida, repassando a cena na capela, a conversa entre Heitor e Bruno. As peças do quebra-cabeça se encaixaram, formando uma imagem de manipulação e traição que era quase dolorosa demais para compreender.

Ele finalmente se acomodou em seu quarto, parecendo um pouco melhor depois de receber soro e analgésicos. Ele alcançou minha mão, seus olhos cheios de uma ternura fabricada. "Senti sua falta, Laura. A cada segundo desta penitência, eu pensei em você."

Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu com um estrondo. Ariela Vargas estava lá, seus olhos vermelhos e inchados, seu cabelo geralmente arrumado, desgrenhado. Ela parecia frenética, em carne viva. Meu sangue gelou, reconhecendo o rosto da minha algoz.

"Heitor! Oh, Heitor!" ela chorou, correndo para o lado dele, praticamente me empurrando. "Por que você fez isso de novo? Por que continua se punindo por ela? Você sabe o quanto eu te amo! O quanto eu preciso de você!"

Heitor se encolheu, seus olhos disparando para mim, um flash de pânico em suas profundezas. "Ariela, o que você está fazendo aqui? Saia!" ele sibilou, sua voz surpreendentemente forte apesar de seus ferimentos.

"Sair?" A voz de Ariela se elevou, carregada de histeria. "Depois de tudo que eu fiz por você? Depois de todos esses anos que estive ao seu lado, vendo você sofrer, enquanto ela vive sua vida perfeita, esperando que você pule por arcos? Você não vê, Heitor? Ela não vale a pena! Ela nunca esteve lá por você como eu estive! Ela não te entende, não como eu entendo!"

Ela agarrou a mão dele, segurando-a desesperadamente. "Apenas desista dela, Heitor! Por favor! Deixe-a ir. Você pertence a mim. Você sabe que pertence. Você está cansado disso, não está? Dessa farsa interminável por uma mulher que não aprecia verdadeiramente seus sacrifícios?"

Heitor arrancou sua mão, seu rosto endurecendo em uma máscara de pura fúria. "Como você ousa, Ariela? Como ousa falar assim da Laura? Ela é minha noiva, minha futura esposa! Eu a amo! E eu só me casarei com ela! Você não é nada além de minha funcionária, e você vai se lembrar disso!" ele rugiu, sua voz ecoando pelo quarto.

Ariela recuou, seu rosto ficando pálido. Seus olhos, cheios de lágrimas, pareciam completamente desolados. "Mas... mas você disse..." ela engasgou, sua voz mal um sussurro.

"Eu não disse nada!" Heitor retrucou, seu olhar queimando nela. "Vá! Saia daqui agora mesmo! Se você disser mais uma palavra contra a Laura, você está demitida! Você me entendeu?"

Ariela cambaleou para trás, sua mão voando para a boca, seus olhos arregalados de dor e incredulidade. Ela balançou a cabeça lentamente, uma única lágrima traçando um caminho por sua bochecha pálida, e então ela se virou e saiu correndo do quarto, um soluço estrangulado escapando de seus lábios.

Heitor a observou ir, sua mandíbula tensa. Então, como se um interruptor tivesse sido acionado, ele se virou para mim, seu rosto suavizando, uma ternura forçada retornando aos seus olhos. "Sinto muito, meu amor", ele murmurou, alcançando minha mão. "Ela está apenas... um pouco emotiva demais. Ela não quis dizer isso. Você sabe que eu só tenho olhos para você."

Deixei-o segurar minha mão, mas meu olhar se desviou para a outra mão dele, a que Ariela havia segurado. Seus dedos, geralmente tão relaxados, ainda estavam firmemente enrolados, os nós dos dedos brancos sob a pele. Um lampejo de algo - não raiva, mas uma emoção profunda e complexa - passou por seus olhos quando ele olhou para Ariela. Não era o olhar de um homem que sentia apenas pena por uma funcionária. Era o olhar de um homem que estava profunda e inextricavelmente envolvido.

Lembrei-me de Heitor rindo comigo, prometendo-me a lua e as estrelas, e senti uma nova onda de náusea. Ele costumava ser tão aberto, tão direto. Nós costumávamos compartilhar tudo. Eu costumava pensar que o conhecia melhor do que ninguém. Ele era minha rocha, meu primeiro e único amor. Agora, eu via um estranho. Um homem manipulador que podia mudar suas emoções como uma luz.

"Heitor", eu disse, minha voz plana, "há quanto tempo a Ariela é sua assistente?"

Ele enrijeceu, afastando um pouco a mão. "Ah, sabe, alguns anos. O tempo voa." Ele riu, um som nervoso e forçado.

"Quantos?" insisti, meu olhar inabalável.

Ele hesitou, depois suspirou. "Talvez... seis anos? Por aí. Mas ela é apenas uma assistente, Laura. Você sabe como meu trabalho é exigente. Ela cuida de todas as coisas mundanas."

Seis anos. Não oito, como Bruno havia dito. Bruno, que o havia avisado. Bruno, que havia chamado de manipulação. Bruno, que havia chamado de farsa por quatro anos.

"Entendo", eu disse, uma calma arrepiante se instalando sobre mim. "E se ela continuar a causar problemas?"

Ele estufou o peito, um flash de sua antiga arrogância retornando. "Então eu a demitirei, é claro. Imediatamente. Ninguém desrespeita minha noiva."

Suas palavras eram frias, afiadas, mas não tinham peso para mim. Meu coração, ainda se recuperando da traição anterior, agora parecia um bloco de gelo. Ele estava mentindo. Ele estava mentindo para Ariela, e estava mentindo para mim. Ele nunca a demitiria. Ele estava muito ligado a ela, por culpa, por obrigação, ou por algo muito mais profundo que ele se recusava a reconhecer. Ele a manteve por perto, permitiu que ela acreditasse em uma versão distorcida da realidade, tudo isso enquanto me enrolava com promessas vazias.

O homem diante de mim era uma casca vazia do Heitor que eu conhecia. Um mestre do engano, tecendo uma teia emaranhada de mentiras e emoções fabricadas. Ele não apenas me amava menos; ele me amava de forma diferente dela. E essa diferença era um abismo que eu não podia mais transpor.

Capítulo 3

Uma sensação sufocante me pressionou. Eu não conseguia respirar o ar daquele quarto de hospital, denso com as mentiras de Heitor e os apelos desesperados de Ariela. Murmurei algo sobre precisar de ar fresco e praticamente corri para fora, deixando Heitor com uma expressão confusa e magoada. Bom. Ele merecia.

A cidade lá fora era um borrão enquanto eu chamava um táxi, minha mente uma bagunça caótica de imagens e palavras. Quatro anos. Ariela. Ela não suporta a ideia de eu me casar com outra pessoa. Você deve a ela. Cada frase era uma nova facada no meu coração.

Quando finalmente cheguei ao meu apartamento, desabei no chão de madeira frio, a força se esvaindo dos meus membros. Lágrimas, quentes e furiosas, escorriam pelo meu rosto, borrando os contornos familiares da minha sala de estar, o cômodo que eu um dia enchi com sonhos de um futuro compartilhado com ele.

Enquanto eu procurava minhas chaves, um pequeno chaveiro de couro gasto escorregou da minha bolsa e caiu no chão. Era um presente de Heitor, anos atrás. Anexada a ele estava uma foto desbotada de nós no colégio: dois adolescentes sorridentes, nossos braços um ao redor do outro, a cabeça dele aninhada na minha. Estávamos no baile anual da escola, nossos olhos brilhando com adoração inocente. Ele havia sussurrado "para sempre" naquela noite, seu hálito quente contra minha orelha. "Nós sempre estaremos juntos, Laura. Você é meu destino."

Tracei seu rosto sorridente com um dedo trêmulo, lembrando da alegria pura e inalterada daquele momento. Ele tinha sido tão sincero, tão devotado. O que aconteceu com aquele garoto? Quando ele se tornou este homem emaranhado e enganador? A percepção de que ele havia, conscientemente e repetidamente, escolhido me machucar, construir nosso futuro sobre uma base de mentiras, era uma dor física. Ele havia permitido que Ariela, sua assistente patética e manipuladora, se infiltrasse em seu coração, tornando-a a guardiã de sua culpa e obrigação. Ele a deixou envenenar nosso amor. E eu, como uma tola, engoli cada gota amarga.

"Não", sussurrei, a palavra um som cru e gutural arrancado da minha garganta. "Chega."

Meu destino não era estar amarrada a um homem que me via como um fardo a ser apaziguado enquanto ele administrava as emoções de outra mulher. Meu destino não era um futuro construído sobre dor fabricada e promessas vazias. Meu destino estava em minhas próprias mãos. Eu estava indo embora. Eu ia para o Rio de Janeiro. Eu ia me casar com o Caio.

O pensamento de nunca mais voltar, de deixar esta vida, esta cidade, este apartamento para trás, era ao mesmo tempo aterrorizante e libertador. Era a única maneira de cortar verdadeiramente os laços que me prendiam a Heitor e suas mentiras.

Levantei-me, enxugando as lágrimas com as costas da mão. O tempo de chorar havia acabado. O tempo de agir havia começado. Comecei a esvaziar sistematicamente meu apartamento, cada item uma lembrança pungente de uma vida que agora havia acabado. Cada fotografia, cada presente, cada memória compartilhada foi cuidadosamente colocada em caixas. O processo foi agonizante, uma escavação brutal do meu coração. Heitor estava tão entrelaçado no tecido da minha vida, cada canto deste apartamento continha um pedaço dele. Até o simples ato de escolher uma caneca favorita parecia um ato de traição contra meu eu passado. Como eu poderia descartar tanta história? Tanto amor?

Mas eu tinha que fazer. Eu tinha que arrancá-lo. Cada pedaço.

Decidi até vender o apartamento. Era a única maneira de fazer um corte limpo, de garantir que não houvesse nenhum vestígio remanescente do nosso passado compartilhado. Este ato físico de desmantelar minha vida era um espelho da cirurgia emocional que eu estava realizando em mim mesma.

Nos dias seguintes, Heitor enviou uma enxurrada de mensagens e ligações. "Você está bem, meu amor?" "Por que você não está respondendo?" "Sinto sua falta." "Posso ir aí?" Eu li todas, um distanciamento frio se instalando em meu âmago. Respondi com respostas curtas e vagas, alegando que estava ocupada empacotando, cansada, ou apenas precisava de espaço. Ele aceitou, sempre aceitando minhas desculpas, nunca pressionando demais, confiante em minha devoção inabalável. Sua confiança solidificou minha resolução. Ele realmente acreditava que me possuía.

Depois do turbilhão de vender o apartamento e arranjar tudo com minha mãe, os papéis legais e documentos para minha nova vida estavam quase completos. Naquela noite, assim que terminei de assinar a última papelada da venda do apartamento, meu telefone tocou. Era Heitor.

"Laura! Meu amor! Adivinha? Saí do hospital!" Sua voz era leve, alegre, como se nada tivesse acontecido. "E eu tenho a surpresa mais incrível para você! Precisamos recuperar o tempo perdido. Nosso aniversário está chegando, lembra? Tenho algo especial planejado."

O aniversário. Nosso décimo ano. Uma década de um amor que agora, para mim, não passava de cinzas.

"Onde você está?" perguntei, minha voz calma, quase sem emoção. Meu coração não palpitou. Era uma batida fria e constante. Era isso. O ato final.

"Estarei aí em vinte minutos", disse ele, parecendo satisfeito. "Apenas me diga para onde ir. E se prepare, algo incrível está por vir!"

"Não precisa", respondi, um fantasma de sorriso tocando meus lábios. "Vou te poupar a viagem. Na verdade, estou no nosso antigo lugar, aquele onde você me disse que me amava pela primeira vez." Dei a ele o endereço do restaurante, o mesmo lugar onde nosso jovem amor havia florescido. Parecia apropriado. O começo e o fim.

Isso não era mais sobre uma surpresa. Era sobre encerramento. Para mim, pelo menos. Ele não tinha ideia do que estava por vir.

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