Edward caminhava segurando o braço onde o pai apertara anteriormente após um chacoalho bem dado. Sua face ainda doía por causa do tapa que havia levado, os cinco dedos enormes de Phillip desenhados perfeitamente num vermelho quase vivo.
Ele chorava sem conseguir parar. Depois de ouvir os gritos incessantes, decidiu andar por aí sem rumo, e fora para a floresta detrás do castelo.
As folhas secas do outono caídas no chão afofavam os seus pés. Ele odiava a chegada do outono e o fim do verão pois isso significava noites passando frio no convento onde não era permitido a lareira continuar acesa depois de certa hora. As crianças sempre reclamaram agonizantes, mas as freiras nunca atendiam seus pedidos de clemência.
Era uma tortura, na verdade. Edward odiava morar lá, odiava passar a maior parte do ano solitário e longe da sua casa, mas neste dia compreendera que nem em Alexandria e nem em Londres ele era bem-vindo.
Na verdade, o seu pai havia deixado bem claro que Edward não tinha uma casa. Ele só continuava a recebe-lo ali pelos laços de sangue e nada mais. Mesmo que não quisesse, ele infelizmente ainda era o seu filho e precisava arcar com a responsabilidade.
Contudo, Edward mal teria uma herança quando Phillip partisse – quase tudo estava no nome do seu irmão mais velho, Louis, o futuro duque.
Ele entendera de maneira bem dolorosa que estava sozinho. Passou os anos sabendo que seu pai não nutria nenhum tipo de sentimento positivo para com ele, entrementes, não esperava ser praticamente expulso da família.
Todavia, todo início de outono era a mesma coisa. Ele deixava a casa do pai – que o recebia sempre a contragosto – para voltar para o convento, onde por insistência do mesmo estudava para ser um futuro padre.
Edward, apenas com quinze anos, tinha a vida toda planejada por ele. Seria clérigo até o padre da catedral de Londres mudar de cargo e então assumiria. Na verdade, tal coisa fora comprada pelo pai, que não queria saber do filho mais novo. Dar a ele uma vida na qual não precisaria se preocupar em ver as suas fuças ou entregar-lhe uma pequena fortuna como herança era o melhor que podia fazer.
Desde que sua mãe morrera Edward soubera que o inferno, na verdade, habitava a terra.
Andou até se cansar. A tarde caía obscura pelas árvores, mas ele sabia que ainda tinha tempo para caminhar sem a noite tomar conta. O clima, ao menos, ainda estava agradável.
Cansou-se da floresta e decidira ir de encontro com a queda d'água que fazia barulho a uns metros dali. Quando era criança, Edward gostava de sentar-se sobre as pedras e assistir a correnteza descendo a enorme rocha com águas tão cristalinas que era bom para beber.
Fora de encontro a clareira no meio das árvores e estava ansioso para parar um pouco. Precisava se recompor, colocar as ideias no lugar e decidir o que fazer em relação ao seu constante desentendimento com o duque. Não queria mais ter que ouvir suas grosserias, tampouco voltar a viver no convento. O que faria?
Talvez morar num mosteiro não era uma má ideia. Lá, pelo menos, ficaria só com seus pensamentos.
Tentava limpar as lágrimas e parar de chorar quando ouviu vozes vindas da cachoeira. Paralisou seu corpo por um instante surpreso. Nunca vira ninguém ali além dele, sua mãe e Louis. Ainda era parte da propriedade do seu pai.
Decerto eram criados tomando banho.
Edward tinha passos leves por causa do convento. Quis dar meia volta e ir para o castelo, mas ficara curioso acima das risadas que começaram.
Parou detrás de uma árvore com um grande tronco e mirou sua visão para onde as pessoas estavam.
Se tratava de um homem e uma mulher. Eles tomavam banho juntos, seus corpos nus estavam colados um no outro.
O cara tinha cabelos castanhos e estavam bagunçados. Sua pele era branca, sua estatura alta e seus braços estavam em volta da moça. Ela, uma garota mais baixa, de longos cabelos castanhos, quase negros, muito cheios e que brilhavam à luz do sol.
Ela era diferente. Edward não soube dizer o porquê, mas sabia que era.
A garota era quase um vislumbre encantador. A pele brilhava tanto quanto o cabelo, e o seu corpo...
Bem, Edward nunca tinha visto uma mulher nua pessoalmente. Tinha já seus quinze anos de idade, mas morava num convento de meninos e lá havia apenas freiras bem velhas. Também não fora levado para casas de massagem como o seu irmão – levado pelo seu pai - para descobrir o que era ser um homem.
Edward seria padre, e padres não podiam se deitar com ninguém – pelo menos era isso o que ele havia ouvido por diversas vezes, e aprendido com os seus mestres.
E ele levava esses ensinamentos a sério mesmo que quase nenhum dos outros levasse.
Isso fizera com que ele aprendesse a domar o seu corpo pouco a pouco. Odiava as novas descobertas de um adolescente porque não conseguia entender o que estava acontecendo. Ele só sabia que tinha a ver com reprodução e mais nada. O prazer era desconexo porque era pecado.
Entrementes, seus olhos não piscaram enquanto assistia aquele par se divertir na cachoeira. Suas bocas estavam juntas num beijo quente, suas mãos deslizando no corpo um do outro e suas vozes abafadas emitiam gemidos.
Aquilo parecia bom. De repente, Edward desejara saber como era a sensação de ter alguém em seus braços entregue a uma paixão como aquela. De preferência alguém que brilhasse como aquela moça.
Escondeu-se mais um pouco quando notou que ambos caminhavam na água. Foram até uma das pedras e o homem deitou a garota numa delas.
Seus seios apareceram, e eles pareciam ainda mais bonitos do que Edward conseguia imaginar. O corpo de uma mulher era muito diferente de um homem. Infinita vezes mais belo, formado por curvas suaves e delicadeza.
Os cabelos dela foram espalhados pela pedra e caiam em cascatas quase negras. Edward sentiu o corpo arrepiar - e quase estremecer - desejando tocá-lo uma única vez. Achou que aquela cena daria um quadro erótico perfeito. Nenhuma das moças das pinturas que seu pai possuía era mais bonita do que ela. Nenhuma tinha aqueles cabelos.
O homem tocava a sua pele e beijava seu pescoço. Arrancava suspiros lentos dela, respiração ofegante, gemidos de prazer.
Edward estava estático e não conseguia sair do seu lugar. Parecia que suas pernas haviam congelado e nem o máximo esforço conseguiria tirá-lo dali.
Entrementes, ainda permanecia curioso. Sabia que os dois estavam fazendo amor, e queria saber como era, nem que fosse assistindo.
Se desculparia com deus depois por pecar, mas não queria tirar os olhos daquela cena, muito menos daquela moça que parecia ter o paraíso no próprio corpo...
De repente, quando menos esperava, o moço o encarou. Edward teria corrido se não tivesse um lampejo estranho: de repente, vira a si mesmo no rosto do homem. Ele um pouco mais velho, com os cabelos maiores, rosto mais másculo, mas ainda assim era ele.
Engoliu em seco e partiu dali antes que fosse xingado. Ele só podia estar enlouquecendo. Afinal, sabia que aquilo era impossível. Não tinha como Edward ver a si mesmo num futuro impossível de existir.
Ou tinha?
🌹 Aurora 🌹
Aquela noite era para ser agradável, afinal, Sebastian - o barão das rosas - estava em sua casa em Londres e, quando se encontrava por lá, Lady Rose tratava Aurora com o mínimo de cortesia que era possível. Conseguia esconder seus olhares de insatisfação e nojo para a menina, sempre com o objetivo de mostrar ao enteado que era uma boa madrasta. Claro, Sebastian nunca acreditou nisso, quando na verdade a própria já havia lançado seu veneno contra ele inúmeras vezes.
Lady Rose achava que Sebastian acabaria com a reputação da família sendo o futuro barão, pois o mesmo nunca fora recatado como o pai. E ela tinha medo que essa característica – que a própria Aurora havia também herdado – recaísse sobre Marianne e seu futuro brilhante. Contudo, precisou se retrair a tais comentários quando se deparou com o marido morto, e Sebastian como herdeiro de tudo.
Mas, mesmo travestida de uma falsa simpatia, ao menos a casa em que viviam parecia mais leve para Aurora, a irmã mais velha de Sebastian, que vivia dias de horror ao lado da madrasta.
Lady Rose a odiava. Dos pés à cabeça. Para ela, Aurora era a pessoa mais inútil e desgraçada em beleza na alta sociedade, e com sorte não conseguiria se manter por ali por muito tempo mais e sumiria do seu campo de visão, a ponto de nunca mais saber o seu paradeiro. Para ela, Aurora deveria ter morrido junto à Lilian, sua mãe, quando ambas tiveram uma grave pneumonia – e se Deus ouvisse suas preces de vez em quando, Sebastian pereceria também.
Mas não. A garota não só sobreviveu naquela época, como ainda estava viva, mesmo após ser mandada diversas vezes na chuva para fazer alguma tarefa sem importância nenhuma. No máximo, Aurora pegava um resfriado leve e pouco tempo depois estava curada e pronta para outra.
Felizmente Sebastian a amava mais do que tudo nesse mundo, e a protegia como conseguia. Chegou a convidá-la para ir morar com ele na casa de campo, contudo, voltou atrás após perceber que não conseguiria fazer-lhe companhia, e também a prejudicaria na árdua tarefa de conseguir um bom marido. Sebastian achava que Lady Rose a estimulava para ir aos bailes e cuidava para que ela também tivesse bons pretendentes, afinal, era de seu interesse que a menina saísse de casa e a deixasse a sós com seus planos para o ducado da filha.
Entretanto, Aurora só conseguia comparecer aos bailes quando Sebastian estava na cidade. No restante do ano, sua vida era reduzida a uma miserável existência, praticamente sendo tratada como criada pela madrasta e a irmã.
- Qual vestido quer usar, senhorita? – Irene, a criada mais velha, mas que ainda assim estava em idade de ter filhos, questionou enquanto encarava o pequeno armário repleto de vestidos novos de Aurora.
Ela tinha muitos, pois eram presente de Sebastian, e quase nunca tinha a oportunidade de usá-los.
Aurora passou os olhos negros como a noite – iguais aos de seu pai – por cada um deles à procura do último que recebera da modista. Era azul, quase tão claro quanto os olhos da irmã.
Franziu o cenho quando não o encontrou. Afinal, ela nunca havia o usado antes.
- Onde está o vestido azul de chifon? – Perguntou, passando mais uma vez pelo armário seus olhos curiosamente.
Ele era enorme, não dava para se esconder entre os outros. Ela ficara encantada com os detalhes e surpresa que o corte e escolha do tecido que havia pedido para a modista havia deixado o modelo ainda mais bonito do que imaginara. Mas ele não estava lá.
- Verei com Hilda, talvez ela tenha se adiantado e o pego para desamarrotar. – Tentou dar um sorriso tranquilizador para a menina, mas sabia que ela notara que havia algo de errado.
Irene saiu do quarto de Aurora, deixando-a só. O cômodo era um pouco apertado, afinal era o menor quarto da casa em que não dormia um empregado.
Sabendo que provavelmente se atrasaria caso o vestido não aparecesse, Aurora retomou a sua busca pelo traje daquela noite. Tinha muitos, felizmente nenhum repetido, mas nenhum tão bonito quanto o azul, afinal fora ela quem o imaginou e encomendou nos mínimos detalhes. Afinal, aquele tinha sido o presente de seu irmão para ela no seu aniversário. O vestido mais caro de todos, com mais camadas e mais nobre que ela poderia ter.
Suspirou, logo imaginando que Patrícia tivesse dado cabo em mais um deles. Ela sempre fazia aquilo quando notava que Aurora poderia chamar mais a atenção do que Mary, e a mínima menção de elogio para sua enteada lhe causava ânsia.
Exausta de encarar tantos modelos sem muita vontade, lembrou-se de um em especial: estava guardado num baú, era rosa e tinha pequenas flores bordadas em seu busto. Ela amava aquele vestido, e ele fora a inspiração para ela fazer o azul. Não era tão glamouroso, deixava-a com um ar mais infantil, mas ainda assim se sentiria especial nele.
Retirou-o de lá. As flores – pequenas rosas cor de rosa – a fazia associar o nome da família, e ela amava a sua, mesmo pensando que seu pai fizera uma escolha um tanto questionável quando se casara com Patrícia.
- Nenhum criado viu o vestido. – Irene advertiu, voltando para o quarto sentindo o fôlego escapando de seus pulmões. – Ora, este é lindo.
Aurora estendeu a saia para ela após analisar em frente ao espelho se o caimento ainda ficaria bom nela.
- Mande passar este então, por favor.
Irene saiu do quarto às pressas, deixando Aurora só mais uma vez. Como não tinha criadas para a bajular, costumava fazer seu ritual solitária antes de ir a um baile.
O que era ótimo, na verdade. Assim, nenhuma veria a tristeza percorrer seus olhos e cair em forma de lágrimas pelo seu rosto quando a angústia tomava o seu peito.
Aquela seria mais uma noite em que seu cartão de dança não receberia o nome de ninguém. Talvez do senhor Georgie Williams, melhor amigo do seu pai que a amava como se fosse sua filha, ou de algum outro velho que mal se importava com a sua falta de graça. A questão era que Aurora nunca era alvo dos bons homens, em parte porque não era loira e estupidamente feminina como as outras, em parte porque não tinha uma mãe agarrada em seu pulso caminhando entre os belos pretendentes apresentando a sua filha insistentemente até algum deles ceder.
Sabia que ela era um exagero à parte em coisas que não eram consideradas belas. Os cabelos escuros demais, assim como os olhos que eram tão grandes e lhe dava um ar de curiosa que ela não conseguia evitar. O rosto comprido, o queixo levemente pontudo, as sobrancelhas arqueadas que tanto foram alvo de comentários horríveis de sua madrasta. A boca voluptuosa que tanto a fez sentir vergonha em temporadas passadas quando a moda eram lábios tão finos e retos. Os seios pequenos demais, a ponto de mal aparecerem, não importava o quanto o espartilho era apertado.
A sua cor mais bronzeada do que as outras. Um pouco mais clara do que a sua mãe, que vinha de uma família miscigenada, mas ainda assim... traços que os outros abominavam, mesmo ela sem entender o porquê.
Aurora encarava o pó de arroz pensando se deveria carregar um pouco mais como fazia sempre a mando da madrasta. Odiava ter que fazer aquilo, pois, por mais que conseguisse mudar o tom de sua pele, nunca parecia que era ela mesma. Afinal, precisaria passar o resto de sua vida se escondendo dos outros?
Deixou a vontade de jogar o pequeno vidro pela janela e se concentrou em pentear seus cabelos que estavam cada vez mais longos, pois não conseguia pensar em um corte que a fizesse ficar possivelmente mais atraente – se é que isso era possível.
- Aqui está. – Irene voltou como uma rajada forte de vento, balançando o vestido tão maravilhada por ele quanto era pelo azul. – Ah, senhorita, deixe que eu a ajude. – Ofereceu quando notou a moça tentar enrolar os cabelos para prendê-los num penteado.
Irene tinha grande estima por Aurora. Viu a menina crescer e adquirir traços parecidos com a falecida lady rose, exceto pelos olhos, que eram exatamente como os do pai. A ensinara muitas coisas, e compartilhava um afeto de mãe e filha.
Aprontou Aurora com muito cuidado, vestindo-a e maquiando um pouco o seu rosto. Achava que ela era a garota mais bela da cidade justamente por seus traços diferentes, mas nenhum elogio parecia suficiente para elevar a auto estim da moça. Afinal, como poderia? Sua madrasta a desprezava e lançava palavras de grande mau gosto contra ela, como se fosse um pequeno porco que vivia entre os membros da família.
- Está maravilhosa, senhorita Rose. – Irene completou, dando um toque final em seus cabelos. Aurora não tinha muitas joias, mas uma pequena flor num grampo ganhava destaque em conjunto com as demais vestimentas.
- Obrigada. – Agradeceu, mas Irene sabia que era da boca pra fora. A menina nunca se sentira bela ou desejável, e admitiu isso muitas vezes para si.
Aurora e Irene desceram e aguardavam na sala. Sebastian estava atrasado, mas ele iria acompanha-las naquele baile.
Sabendo que deveria aproveitar a noite ao lado de seu irmão, ela suspirou e pôs um singelo sorriso no rosto.
Todavia, o mesmo fora apagado alguns minutos depois quando se deparou com sua irmã, Mary, descer as escadas radiante com o seu belo vestido azul.
Era para ser uma noite agradável. – Pensou Aurora novamente.
Sim, era. Mas tudo fora estragado, mais uma vez, por sua madrasta, que simplesmente roubara seu vestido azul e dera para Mary vestir. Sabia que fora ela porque sempre estava de olho em seu guarda roupas como quem censurasse suas escolhas.
Ora, ela nem precisava de vestidos. Mary tinha uma infinidade de modelos em seu closet, um mais belo do que o outro, que Aurora nem pensaria duas vezes caso sua irmã quisesse trocar naquele.
Mas não. Mais uma vez, ela esbanjava em sua face o fato de que podia fazer o que quisesse, ter o que quisesse e tomar o que quisesse dela.
Não bastava ter roubado a chance de Aurora se casar com o futuro duque, ela ainda fazia questão de lhe roubar seus vestidos!
Tudo aconteceu numa rajada de ódio súbito. O chifon rasgou em sua mão facilmente, tornando o mais belo de todos um traje de mendigo.
A briga entre Mary e Aurora começara sem precisar de um pio sequer, mas foi aos berros de Sebastian que fora separado.
- O que está havendo aqui?! – Indagou, ainda segurando a irmã mais velha que chorava de soluçar. – O que você fez, Mary?
Sebastian sabia que a culpa era da irmã mais nova, de alguma forma. Aurora não costumava chorar, só em ocasiões muito avassaladoras.
- Eu? – Como um pio de passarinho, a loira questionou fingindo-se de ofendida. – Foi ela que veio para cima de mim!
Sebastian colocou Aurora em sua frente e a encarou solidário.
- O que houve? – Perguntou com voz branda.
- Ela roubou meu vestido. – Aurora esclareceu baixinho, sentindo a garganta arder. – O seu presente de aniversário, que eu mesma basicamente desenhei.
Voltou seus olhos escuros cheios de ódio para os da irmã, que a encarava cheia de deboche.
- Não sabia que era seu. – Mentiu, assistindo sua mãe descer as escadas afobada e com perguntas no olhar. – Fora mamãe que me deu.
- Ora, o que está havendo aqui? – Lady Rose questionou, encarando o vestido destruído no corpo da filha.
- Aurora destruiu o meu vestido. – Mary precipitou-se a falar antes que Sebastian raciocinasse sobre aquilo direito.
- Esse vestido é meu! – Berrou a irmã mais velha, voltando a se alterar. – Vocês roubaram.
- Acalme-se, Aurora. – Sebastian pediu, tocando no braço da irmã.
- Pelos céus, Aurora, isso não são modos. – Patrícia comentou, tentando chama-la a atenção. – É apenas um vestido.
- Por que roubou o vestido dela? – Questionou o barão, pondo-se à frente da irmã. – Fora um presente meu.
Lady Rose coçou a cabeça pensando no que iria dizer e tentou sorrir.
- Ele deve ter se misturado no meio dos de Mary, não é? – Inventou uma desculpa qualquer, fingindo uma calma que não existia. – Não precisamos nos exaltar por isso. Certamente foi um erro dos serviçais.
- Ele estava no meu armário. – Aurora fitou a madrasta com ódio nos olhos. – Até ontem a noite. E eu não pedi a ninguém que o retirasse de lá.
Patrícia a fitou com amargura. Aquela garota ficará uns bons dias de castigo assim que Sebastian partisse de Londres.
- Tenho certeza que foi algum deles. – Afirmou, lançando um olhar gélido para Irene, que assistia a cena um pouco de longe. – Ou acha que eu e Marianne nos sujeitaríamos a isso?
Era exatamente isso o que Aurora acreditava.
- Está bem, chega! – Firmou Sebastian, segurando o braço de Aurora. – Estamos atrasados. Vá se trocar, Marianne, e devolva o vestido dela, por gentileza.
- Este trapo? – Debochou, subindo o chifon que se arrastava rasgado no chão.
- Faça esse favor. – O barão retrucou, nem um pouco feliz.
Assim que chegaram ao baile, Lady Rose notou que Mary havia escolhido um vestido não tão bonito quanto o que Aurora usava. Mas não tinha problema, porque, ao contrário de sua adorável filha, a irmã não ficava bonita em absolutamente nada. Nem um milagre conseguiria tirar dela aquela cor imunda ou aqueles traços grotescos.
Suspirou satisfeita assim que viu o cartão de dança da filha sendo preenchido sem o menor esforço, enquanto Aurora assistia grudada nos braços de Sebastian como se ele pudesse protegê-la do desprezo alheio também.
Aurora conseguia sentir a repulsa e o nojo a cada vez que Patrícia a encarava. Às vezes ela desejava que a menina virasse um pequeno inseto para pisar em cima com força, até vê-la esmagada em seu sapato. Só que Aurora nunca conseguiu entender o porquê, e em sua mente só havia aceito que as pessoas odeiam umas às outras sem causa aparente.
Após assistir a família Bright se dirigir para elas sem fazer o mínimo esforço de serem educados com Aurora, Sebastian afastou-se, afim de deixar a irmã respirar. Não parecia nada feliz naquela noite, e tinha razão para não estar.
- Que tal uma bebida? – Ofereceu à irmã, que suspirava desgostosa a cada segundo. – Ora, anime-se. Finja que Lady Rose não existe nesta noite, e verá como poderá ser agradável.
Ela também esperava que fosse, mas começara muito mal. Pensou que não deveria ter entrado num embate corporal com a irmã por causa do vestido, mas não pode evitar. Aquele não era nem o primeiro e nem o último que a madrasta faria questão de se apoderar, e ela estava mais do que cansada disso.
- Tudo bem. – Tratou de por um sorriso no rosto, mesmo que fingido.
- A darei muitos vestidos ainda, um mais belo do que o outro. – Falou o irmão, indo em direção à mesa de limonada e taças de champanhe. – Podemos ir à modista na semana que vem. Chame Heloísa para acompanhá-la e se divertirem um pouco.
Aurora sorriu um pouco mais, agora de verdade. Amava quando podia sair com sua melhor amiga para fazer qualquer coisa que fosse. E ter a companhia de Sebastian era ainda melhor, porque ela sabia que ele tinha uma queda nada secreta por ela.
- Tente isso, ficará mais animada. – Sebastian ofereceu uma taça de champanhe para a morena sem pudor algum.
- Não posso beber ainda. – Balançou a cabeça, negando.
- Claro que pode. – Empurrou a bebida para sua mão, fazendo-a segurar com firmeza. – Já está na hora de começar a fazer coisas de adulto.
Aurora não sabia se deveria aceitar ou recusar, dada às circunstâncias que seria julgada pelos demais convidados. Entretanto, tinha a ligeira impressão que ninguém a enxergava ali – e em nenhum outro canto.
Tomou um gole, sentindo as bolhas estourarem em sua língua. Gostou da sensação de cócegas e resolveu dar uma chance.
- Só não beba muito, não quero que fique bêbada. – Sebastian advertiu, assistindo a irmã rir. – Ótimo.
- Senhor Rose. – Queenie White, matriarca da família White e mãe de quatro adoráveis filhas, o abordou com grande simpatia. Vinha carregando duas rebentas em seu encalço, obviamente indo à caça ao marido, como sempre. – Fico imensamente feliz por finalmente vê-lo. Senhorita Rose, seu vestido é adorável.
Queenie foi a primeira pessoa a cumprimentar Aurora com uma reverência e um sorriso. Sebastian notara, e sentiu em seu coração que deveria ouvir ao menos o que aquela dama gostaria de dizer.
- Senhora White. Senhoritas. – Tratou de ser um amável cavalheiro e colocou um sorriso no rosto. – Como estão radiantes.
Aurora, muito observadora, concluiu que o irmão estava de bom humor naquela noite. Aparentemente se deixaria ser vítima das mães caçadoras de marido e dançaria com todas as moças possíveis. Sentiu uma pontada de inveja dele. Afinal, além de ter um título, herdado muitas riquezas e ser bondoso a ponto de essa ser a característica mais forte em si, Sebastian era bonito.
Os cabelos eram escuros e encaracolados como os dela, mas sua pele era da mesma cor de seu pai. Seus olhos castanho-claros, sua estatura alta. Tudo nele era encantador para qualquer mulher que observasse.
Ele só perdia, é claro, para Louis Thompson, o futuro duque de Alexandria. Afinal, Louis era mais alto, tinha olhos azuis extremamente expressivos e dono de uma beleza incomum. Qualquer garota que tivesse a sorte de se casar com ele certamente ergueria as mãos para os céus agradecendo a dádiva.
E essa garota de sorte era ninguém menos que sua irmã.
Aurora suspirou, novamente sentindo uma pontada de angústia no peito e deixando uma tristeza forte tomar conta de si. Tomou mais um gole do champanhe, depositou o resto com a taça na mesa e passou a ignorar a conversa calorosa entre Lady White e seu irmão. Aquela seria uma longa noite em que ela se sentaria ao lado das viúvas e rejeitadas e assistiria as pessoas dançarem felizes, enquanto a mesma não era cortejada por ninguém.
Já tinha dezenove anos e, desde que começou a debutar no ano passado, nenhum pretendente a visitou. Nenhum. Nem mesmo aqueles velhos tarados que só se importavam em ter companhia no fim da vida.
Mas, mesmo sabendo que não era vista por ninguém, Aurora costumava ignorar essa parte. Gostava de ir aos bailes porque quase nunca ia, e, mesmo que não dançasse, ver as moças dando risinhos envergonhados e encarando cavalheiros solitários nos cantos, procurando saber como atingir os seus alvos, a fazia criar histórias de amor em sua cabeça. Quando um casal mais antigo dançava, ela imaginava quando fora a sua primeira dança, como fora o cortejo, o pedido de casamento...
...Como fora primeiro beijo.
Aurora nunca conseguia imaginar como seria com ela – porque achava que morreria solteira - mas ao ver casais se formando, logo um conto de amor era produzido em sua mente. Normalmente mais fantástico do que como acontecera na vida real.
Por isso ela amava os bailes. Ela amava ver o amor nascer neles.
Mas naquela noite tudo parecia sem cor. Ela se sentia invisível, como de costume, contudo havia um embolo em seu estômago que não queria passar e se começasse a se debulhar em lágrimas ali mesmo certamente seria o centro das atenções. Engolira o choro diversas vezes no caminho para a mansão dos Bright, todavia, imaginava que seus olhos entregavam a sua amargura.
Afastou-se de Sebastian sem avisá-lo: precisava de ar, ficar um pouco só, quem sabe, deixar as lágrimas descerem para aliar seu âmago.
Olhou para cima na esperança de não ter ninguém no andar superior, mas viu Louis Thompson parado antes das escadas, encarando o salão exatamente onde Marianne estava. Pensou em ir cumprimenta-lo e quem sabe puxar algum assunto, porém sabia que ele também não gostava nem um pouco dela. Na verdade, Louis a descartou como pretendente antes mesmo de Patrícia colocar a filha à sua mercê diante o contrato.
Afastou o desejo de ouvir sua voz, nem que fosse por cortesia, e decidiu tomar rumo à sacada do jardim. Sebastian sumira na multidão, cercado por mais uma mãe desesperada.
✝ Edward ✝
A temporada de bailes em Londres chegaria ao seu fim naquele mês. Fora tedioso neste ano, especialmente pelo fato de que Marianne Rose, a mais bela flor da cidade e o diamante raro dois anos seguidos, está comprometida com Louis Thompson, filho do duque de Alexandria, desde os seus quatorze anos de idade.
Na verdade, Mary ainda não havia debutado. Contudo, no auge dos seus dezessete anos, era a atração principal de todas as festas por causa de sua beleza e elegância, e nenhum convite era negado por sua mãe, a baronesa Patrícia Rose, tão agraciada pela beleza quanto sua única filha.
Mary e Lady Rose eram muito parecidas. Os cabelos louros, tão radiantes quanto o sol, eram chamativos a ponto de brilhar apenas à luz de uma vela. Os olhos azuis eram quase quentes, era de se jurar, pois num momento de euforia pareciam faíscas lideradas pelo fogo.
A estatura de ambas era a mais impressionante: pareciam duas gazelas altivas, sempre muito delicadas, com seus pescoços finos que porventura ostentavam as pedras preciosas deixadas como herança pelo seu falecido marido, o ex barão Benedict Rose.
Contudo, mesmo Patrícia sendo uma bela viúva que ainda daria bons e belos filhos, a matriarca da família Rose não pensava em se casar novamente. Tinha planos concretos para sua filha que a faria se tornar tão rica a ponto de poder fazer o que quisesse posteriormente. E Mary sabia que, assim que pusesse seus belos e delicados pés no altar ao lado de Louis Thompson, deveria honrar com a promessa de encher sua mãe de joias dos pés à cabeça em agradecimento.
Era tudo o que Patrícia queria, e seu sonho seria realizado em pouco tempo, pois em menos de um ano sua filha se tornaria esposa do futuro duque de Alexandria.
Louis encarava a sua futura dama sorrindo para o patife Kirnan Bright enquanto ele a conduzia em passos de valsa segurando firme a sua cintura. Sabia que Mary jamais o deixaria passar dos limites, mas mesmo assim, sentia uma ponta de ciúmes quando a via sendo arrastada pelos salões de baile por tantos homens – esses que eram oponentes tão fortes quanto ele, admitia.
Entretanto, o filho mais velho do duque de Alexandria não precisava se preocupar. Mary seria dele. A moça mais cobiçada pelos demais desde que tinha treze anos de idade e começara a desabrochar, estava fadada ao casamento arranjado por causa de uma dívida moral do duque para com o antigo barão.
Ninguém nunca contestara tal dívida. Na verdade, quando soube, Louis deixou-se levar pelo dever e Edward, seu irmão mais novo, só tomou conhecimento do que acontecera alguns meses depois quando deixara o mosteiro para visitar seu pai.
Louis sorriu satisfeito quando percebeu Mary deixar Sir Bright falando sozinho e se afastou dele indo em direção à Patrícia. Gostava de observá-la de longe, sempre anotando em sua mente coisas que o desagradavam para chamar a atenção da mãe de sua noiva depois. Ele nunca era grosso com ela, mas protestava seus direitos à Lady Rose como se ela não soubesse criar Mary adequadamente.
Se Marianne seria uma duquesa, então ela deveria ser perfeita em tudo o que fizesse.
- Está quente aqui. – Edward pigarreou ao seu lado, observando com olhos vagos para o salão de festas da família Bright com tanto entusiasmo quanto o gato preguiçoso que encontrara na biblioteca anteriormente. Sua voz sempre pacífica, parecia palpável e quente ao mesmo tempo.
Como um futuro padre deveria ser – pensou Louis ao constatar a suavidade de sua voz sob a análise do irmão e sentir uma pontada de inveja por causa da leveza em que falava.
Edward era tão quieto que, às vezes, conseguia se esquecer de sua presença. Se não parasse por um instante para observá-lo, poderia jurar que não respirava. Louis não se lembrava da última vez em que ouvira o irmão mais novo levantar a voz e podia jurar que isto nunca houvesse acontecido.
Eddie, como ele o chamava quando era criança, mal emitia algum som, a menos quando tinha algo de positivo para falar. Vestia-se humilde quando visitava o pai, sempre com cores sóbrias e não se deixava levar por nenhuma moda. Aliás, mal as conhecia, porque ficava boa parte do ano isolado da sociedade vivendo com monges e estudando para ser o padre da igreja em que seu irmão se casaria um dia.
Assim como Louis, Edward tinha o seu papel a cumprir desde que nascera. E ele sabia que o clero fora a melhor opção – a mais cruel dada as circunstâncias, mas ainda assim...
- Da próxima vez tente não usar uma bata que vai até os joelhos em cima de uma calça. – Louis observou, notando a pesada veste de lã cor cáqui que o irmão trajava. – Ainda não é padre, pode usar roupas normais.
- Vossa graça não queria nem que eu viesse aos bailes. – Edward recordou, balançando a cabeça suavemente e lembrando-se dos comentários afiados feitos pelo seu pai quando o viu chegar à Londres. – Imagine se eu me vestir como você. – Ele finalmente encarou Louis, que franzia o cenho. – Seria, para ele, a vergonha da temporada.
- Acho que está exagerando. – Louis debateu, virando a cabeça e voltando a fitar Mary no salão.
- Estou? – Questionou o mais novo, com a voz tão firme e tão eloquente que era capaz de fazer qualquer um pensar melhor no que disse.
- Tudo bem. Entendo que papai possa ser um pouco... desprezível. Mas estamos velhos demais para seguir suas ordens e não fazermos o que queremos.
Edward encarou Louis sem expressão, mas com mil questionamentos em sua mente. Talvez Louis pudesse debater livremente com seu pai as suas escolhas, mas isso nunca fora opção para ele.
Sentiu uma pontada nas costas e recuperou a postura. Suspirou quase inaudível, de maneira que seu sofrimento não pudesse ser visto ou ouvido por qualquer um.
- Talvez ele entenda perfeitamente as suas escolhas, Louis, mas isso nunca coube a mim. – Edward sibilou, notando que havia perdido a atenção do irmão, que voltara a encarar Mary com olhos de predador.
Na verdade, sempre fora assim. Edward aprendera que sua dor ou seus problemas nunca foram pauta nas discussões com Louis, porque Louis simplesmente não se importava com nada além da sua vida perfeita de herdeiro do duque.
Ele passou toda a sua infância sendo paparicado e aprendendo a lidar com a realeza enquanto acompanhava seu pai. Estudara sobretudo história, matemática e arte na faculdade de Oxford quando completara seus dezoito anos. Viveu sozinho sendo bancado pelo duque enquanto esbanjava com prostitutas de luxo, satisfazendo-se entre um corpo e outro, enquanto Edward vivia num mosteiro limitado em Holy Island, na qual apenas meninos e homens destinados ao clérigo viviam – e não fizera nada mais em vinte e seis anos de sua vida.
Edward não tivera opção, pois ele não era bem vindo naquela família. O duque de Alexandria precisava de um herdeiro, apenas, e ter mais um filho dois anos depois era uma imensa bobagem. Ensinaria tudo o que o primeiro precisava saber, daria a melhor educação, doutrinaria a arte de ser um duque e o abençoaria como seu sucessor com grande orgulho. Contudo, apenas Louis bastava. Edward viera para a família como um intruso, e ele nunca fora poupado em saber disso.
Afastou-se dois passos de Louis quando percebeu que não lhe daria resposta. Estava acostumado a se calar mesmo perante à falta de educação alheia e guardar seus pensamentos para si.
- Eddie! – Ouvira uma voz estrondar ao seu lado com grande satisfação. Virou-se para ela, surpreendendo-se com a presença nada esperada de Sebastian, seu melhor amigo de infância que não via há uns bons anos.
- Sebastian. – Lançou-o um sorriso afável quando sentiu a palma da mão ser tomada por ele num aperto um pouco dolorido. – Como vai, barão?
Sebastian fez uma careta nada agradável ao ouvir aquilo. Odiava mais do que tudo esse título, por que ele simplesmente não gostava de ser tratado como um gentleman.
Na verdade, Sebastian era um grosseirão. Falava alto, não tinha boas maneiras e não se importava com isso. Mas era um homem bondoso e cheio de simpatia que adorava conversar com os outros, sem distinções. Edward sabia que era por causa de sua falecida mãe, que, sempre muito simpática, conquistara o coração do barão e se consagrou como sua primeira mulher. Não era muito comum, na verdade, pois ela era alguém de cor tentando conviver numa sociedade muito racista.
Edward nunca se importara com isso. Lembrava-se da primeira lady Rose com imenso carinho, pois ela o acolhera como uma mãe em sua casa quando a sua morrera. Ele e Sebastian tinham oito anos quando isso aconteceu. Um ano depois, ela também partiu, deixando uma tristeza imensa em seu coração.
- Não tão bem quanto gostaria, mas feliz. – Sebastian respondeu, e Edward não poderia esperar outra coisa vindo dele.
- Muitas mães desesperadas no seu pé nesta noite? – Tentou adivinhar, já que as mães de filhas solteiras sempre estavam deslizando pelo salão em busca dos melhores pretendentes para suas rebentas. E, mesmo com a péssima reputação de Sebastian, ele era constantemente alvejado pelas matriarcas com avidez.
- Precisamente. – Assentiu, rindo da expressão nada surpresa de Edward. – Demorei exatamente meia hora para conseguir chegar até aqui. E, para ser sincero, tenho dois minutos para conversar, já que tive o imenso prazer de ter que assinar tantos cartões de dança para essa noite.
Sebastian deu um sorriso nada feliz para o amigo, que não pode deixar de rir.
- Sorte sua não ter que passar por isso. – Ele lembrou, indo em direção à sacada para olhar o salão de cima. – Ora essa, onde está Aurora?
Sebastian observou a irmã mais nova e a madrasta conversando num canto com lady Miltred, que também estava acompanhada de sua filha debutante. A discussão parecia calorosa, mas fora interrompida alguns segundos depois quando Louis se aproximou delas.
Risinhos forçados foram dados a ele enquanto faziam uma reverência. Edward observou o quanto os olhos de Mary brilhavam quando seu irmão aparecia e tomava-lhe pelas mãos.
- Aurora? – Questionou, encarando Sebastian sem entender. – Sua próxima dança, imagino.
- O quê? – o moço de cabelos tão escuros que mais pareciam um breu encaracolado encarou o amigo incrédulo. – Claro que não. Aurora é minha irmã mais velha, não se recorda?
De repente, como num estalo, a mente de Edward formou a lembrança de um bebê nos braços de lady Rose quando ainda era viva. Claro, Sebastian tinha uma irmãzinha, filha da mesma mãe, e ela era mais velha do que Marianne.
- Oh, sim, perdoe-me. – Assentiu, passando os olhos pelo salão em busca de algo que pudesse se parecer com uma moça na versão feminina de Sebastian. Mas Edward sabia que, mesmo depois da recordação, não conseguiria imaginar como Aurora estaria a essa altura. – Ela está acompanhada do marido?
Sebastian fitou o amigo novamente, um pouco triste pelo fato de saber que ele vivia tão longe e mal sabia das coisas que aconteciam por ali. É claro, a última vez que Edward fora em sua casa ele havia perdido a sua mãe recentemente, e pudera, depois de muita insistência do senhor Rose para com o duque, passar uns dias com Sebastian para sua tristeza abrandar.
- Não, Aurora ainda não se casou. – Passando os olhos em cada canto, ele advertiu. – Está com dezenove anos agora. – Comentou, virando-se para Edward. – Ainda está debutando.
As palavras do amigo, notou o clérigo, pareciam sair com dificuldade. Edward espantou-se por um instante. Ora essa, se Aurora tem dezenove anos e é a filha mais velha do falecido barão, não deveria ser ela a cumprir o trato matrimonial? Por que Louis trocara a primeira irmã pela segunda? Se não tivesse feito isso, certamente já estaria casado a algum tempo com a primeira filha.
Suas dúvidas ficaram pairando em seus olhos enquanto assistia Sebastian suspirar insatisfeito e preocupado.
- Lá vem Srta. Violet. – Constatou, notando que a próxima música começaria em instantes e ainda não conseguira achar sua irmã.
- Lorde Rose. – Violet sorriu graciosamente para Sebastian a ponto de todos os dentes de sua boca aparecerem. Ela era uma jovem ruiva, muito bonita, cheia de curvas e, sem dúvida nenhuma, ansiosa por abocanhar o primeiro macho com um título que a quisesse.
Edward assistiu Sebastian suspirar sem medo de soar indelicado e a sua presença, como sempre, ser ignorada por todos. Era impressionante o que aquela bata fazia com ele. As moças sabiam que era clérigo e, mesmo sendo o futuro padre da catedral, nenhuma se importava em parecer que ele não estava ali, pois em toda a noite nenhuma delas havia se aproximado ou o cumprimentado por livre e espontânea vontade.
- Eddie, pode me fazer um favor? – Pediu Sebastian, dando-se por vencido. – Pode procurar Aurora para mim? Se não estiver muito ocupado, claro. Estou preocupado com o seu paradeiro. Ela é uma moça um tanto... Sensível.
- Será um prazer. – Afirmou soando um pouco mais alto do que o habitual por causa do som que recomeçava a soar no salão. – Qual a cor de seus trajes, por gentileza? – Questionou, tendo a esperança que o ajudasse a afunilar as opções entre as moças que ali estavam, já que mal se recordava dela.
- Rosa.
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Edward precisava encontrar uma moça trajando rosa naquela imensidão de solteiras. Uma senhorita de cabelos castanhos, provavelmente, então descartava as louras que usavam a mesma cor. Uma moça que ainda não estava casada, logo, as obviamente acompanhadas por maridos também foram deixadas de lado.
No final do afunilamento não sobrara ninguém. Notou que a maioria naquele ano usava azul - talvez fosse a cor da moda -, e pouco mais de uma dezena de moças estavam de rosa.
Caminhou com os olhos atentos sobre o salão, esbarrando em algumas pessoas que o encaravam curiosas e pedindo perdão quase para o ar. Poucas pessoas o conheciam. Quase ninguém sabia que o duque de Alexandria tinha mais um filho, afinal, ele não aparecia nunca. Este ano, em especial, gostaria de acompanhar as festividades da alta temporada e assistir os casais se formando. Sabia que no próximo ano casaria alguns deles, pois já estaria apto para ser padre e gerenciaria a principal catedral de Londres.
Estava quase desistindo e indo contar ao seu amigo que sua irmã provavelmente fora para casa - ou magicamente trocara de vestido ao notar que as demais estavam trajando azul, sobretudo.
Decidiu dar uma olhada na sacada que dava para o jardim para desencargo de consciência, afinal, ele não tinha nada para fazer ali além de observar. Como clérigo, não era bem visto que dançasse com uma moça, mesmo que inocentemente e na frente de todos.
A luz da lua clareava a sacada junto com os lampiões em parte do jardim. Aquela casa era imensa, só não era tão grande quanto a de seu pai. A família Bright não tinha um título, mas era muito rica, a ponto de oferecer dois ou três bailes em todas as temporadas, fora a quantia generosa que doava para a igreja e as ações sociais para com os pobres.
Edward sentiu cheiro de lírios frescos assim que chegou na beirada. Era delicioso e o fazia lembrar da sua infância, pois Lady Rose - a primeira mulher do barão e mãe de Sebastian - chamava-se Lilian e tinha grande apreço pelos lírios, espalhando-os pela casa em cada canto que pudesse. Ela, mais do que ninguém, combinava com o título de baronesa das flores.
Deixou o vento bater em seu rosto, sentindo-se aliviado pelo calor que sentia lá dentro. Na sacada estava muito mais agradável: a música soava calma e as vozes estavam abafadas.
Edward tinha um dom: de enxergar muito bem em ambientes escuros. Fora preciso se acostumar com o breu, pois as velas no mosteiro eram contadas e os monges viviam uma vida humilde. Desde os seus nove anos, quando fora deixado no convento primeiramente, aprendeu coisas de que pessoas comuns não precisavam, como, por exemplo, saber apreciar o som do silêncio e andar tão sorrateiramente que ninguém percebia a sua presença.
Percorreu o olhar mais uma vez varrendo o jardim, pronto para voltar para dentro e comunicar o barão que não havia encontrado sua irmã, quando sua vista foi estacionada pelo gazebo um pouco além de um arbusto que tampava parte da sua visão.
Uma moça estava ali. Sabia que era mulher por causa do vestido, mas não sabia se ele era rosa. Certamente seus cabelos eram escuros, e ele pediu intimamente, sentindo o coração pulsar forte como se fosse sair pela boca, que não fosse um casal num momento íntimo e vergonhoso.
Afastou uma lembrança parecida que guardava dentro de si e prosseguiu, pé ante pé, sem fazer barulho. Pensou que poderia pisar nas folhas secas para denunciar a sua presença e, caso fosse um casal, terem tempo de se recompor antes dele chegar.
Mas o gazebo estava próximo e ele não vira ninguém além da moça sentada na escada. Poderia ser Aurora, na verdade tinha de ser, a menos que ela tivesse partido ou se aventurara para dentro da casa dos Bright sem permissão.
Edward subiu os três degraus da escada e se aproximou lentamente. A moça, podia ver, tinha flores bordadas no busto do seu vestido e uma solitária em seus cabelos presos num coque baixo. Estava com a cabeça afundada em suas mãos e seus cotovelos apoiado nos joelhos, e ele pensou que, talvez, ela pudesse estar se sentindo mal.
Abaixou-se ao seu lado, sabendo que ela ainda não havia o visto se aproximar. Tomou cuidado para ela não se assustar, mas foi em vão.
A menina o encarou quando sentiu a sua mão encostada no ombro de supetão. Engoliu em seco, prendendo o ar por um segundo.
Edward nunca havia visto olhos tão bonitos em toda a sua vida. Não existia luz por perto, mas a lua banhava o breu de suas írises que brilhavam em lágrimas. Eles eram tão grandes, tão expressivos e estavam tão tristes naquele momento que Edward não pode deixar de se sentir solidário por ela, seja lá o que estivesse acontecendo.
- Senhorita Rose? - Só podia ser ela. A menina preenchia todas as descrições que sabia sobre a irmã mais velha de Sebastian.
- Senhor? - Ela respondeu, e ele notara que sua voz estava fraca, possivelmente por causa do choro anterior.
- A senhorita está bem? - Edward questionou, notando que sua mão ainda estava repousada em seu ombro. Sua pele estava quente mesmo por cima das vestimentas.
- E-eu... - Suspirou quando notou que sua voz estava embargada. - Estou. - Mentiu, enxugando as lágrimas que caíram em seu rosto.
- O que faz aqui? - Edward quis saber, olhando um pouco mais para os detalhes de Aurora. Ela parecia um pouco com sua mãe, exceto pelos olhos. Tinha um rosto redondo e comprido, mas bem harmonioso. Sua boca voluptuosa tremia enquanto ela tentava recuperar um fôlego calmo.
Foram os seus cabelos pendendo em seus dedos, no entanto, que o chamara mais a atenção. Edward tinha um segredo que era quase um sentimento guardado a sete chaves: ele amava cabelos escuros e longos. E isso tinha uma razão que ele jamais contaria para alguém em voz alta.
- Perdão. - Ela conseguiu falar firme. - Quem é o senhor?
Edward fixou seus olhos nos dela sentindo-se bobo. Claro, ninguém o conhecia, e ela provavelmente não se lembrava dele.
- Ah, sim, perdoe-me pela indelicadeza. - Coçou a garganta antes de continuar. - Sou Edward Thompson, irmão de Louis.
Aurora encarou aquele estranho que a abordou sem mais nem menos no escuro mal conseguindo enxergá-lo. Se tinha uma coisa que ela odiava em si mesma era mal conseguir ver quando a noite caía sem a ajuda de um lampião ou velas. Fora que seus olhos estavam embaçados pelo choro de anteriormente e isso nada ajudava.
Havia se sentado naquele gazebo na esperança de que ninguém sentisse a sua falta - o que ela tinha certeza que aconteceria. Mal acreditava, mas não estava disposta para assistir aquele baile naquela noite.
Pelo menos ali tinha cheiro de lírios, e ela, de alguma forma, se lembrava da mãe quando os sentia. Parecia que Lady Rose estava com ela quando a mesma estava perto das flores.
Chorava incessantemente, incapaz de parar. Sabia que seus olhos ficariam vermelhos, mas quem se importava? Decerto apenas Sebastian a enxergaria como realmente estava quando fosse a hora de partir.
Até aquele senhor aparecer e colocar sua mão - mesmo que bem leve - em seu ombro. Obviamente ela se assustou, pois não ouvira o mínimo barulho até o som de sua voz sair.
Não se lembrava que Louis tinha um irmão até aquele momento. Claro, ele era o amigo de Sebastian que de vez em quando ouvia. Achava que ele não apareceria até o casamento de Louis, mas estava enganada. Apenas sabia que ele era padre, e nada mais.
- Ah, claro. - Assentiu, forçando um pouco mais a visão para enxergar melhor o vulto dele. A lua estava cheia naquela noite, mas as lágrimas estavam prejudicando-a. - É um prazer conhece-lo, reverendo.
Edward fez uma careta, mas Aurora não conseguiu ver. Ninguém ainda havia o chamado assim, e ele se sentiu tão velho ao ouvir que quase deixou sair uma risada.
- Me chame de Edward, por gentileza. - Comunicou, finalmente retirando a mão do ombro de Aurora. Simplesmente havia esquecido que a estacionara lá, e só foi desperto quando sentiu uma cócega deslizante no dorso. - Ainda não fiz meu juramento.
Aurora o encarou um pouco confusa, mas assentiu. Nunca um homem pediu para ela o tratar pelo primeiro nome além de Georgie e Sebastian.
- O que faz aqui tão distante? - Quis saber antes dela responder. - Está certo que lá dentro está quente demais, mas não deveria...
Aurora o encarou um pouco confusa com toda aquela conversa repentina. Sentia-se constrangida pela sua presença, e ainda mais pelo fato de ele ser irmão de Louis.
- Eu estava... estou cansada. - Pigarreou, olhando para ele ainda fixamente na esperança da sua forma se concretizar. - Não estou nem um pouco disposta a enfrentar o baile.
Edward sabia que havia algo mais, pois ela ainda deixava uma lágrima ou outra rolar rosto abaixo.
- Claro. - Ele assentiu, lutando contra si mesmo a vontade de limpar aquela lágrima e, eventualmente, afagar o rosto daquela mocinha tão triste. - Sebastian estava preocupado com a senhorita e pediu que eu a procurasse.
Ah, só podia ser. Ninguém mais sentiria a minha falta se não fosse ele. - Pensou ela.
- Eu... ah sim, obrigada. Já estou indo. - Tentou mentir, achando que Sir Thompson provavelmente a deixaria em paz e iria dizer ao irmão onde ela estava.
Entretanto, ele continuou lá olhando para ela sem piscar. Sua forma ia ficando cada vez mais clara agora que seus olhos se secaram e acostumaram com a luz azul da lua.
Edward era um homem bonito. Aurora se surpreendeu quando conseguiu ver seus olhos claros, provavelmente azuis, iguais aos do irmão e do pai. Os cabelos estavam penteados para trás, e sua pele era tão clara que conseguia tingi-lo da cor do luar. A boca era rosada, muito rosada, na verdade.
Sentiu-se estranha encarando-o por muitos segundos, contudo estava curiosa. Suas vestimentas eram diferentes, recatadas e nem um pouco chiques. Entretanto, nele, aquela roupa parecia adornada por um corpo belo, não ao contrário.
- O senhor continuará aqui? - Pressionou finalmente com sua voz normal.
- Até decidir que está pronta para voltar. - Edward esclareceu e ela riu.
Gostou da sua risada. Ela saíra alta e sem vergonha alguma, exatamente como Sebastian fazia.
- Perdão, mas, não acha que será mal visto pelos outros? Quer dizer, estamos no escuro, no jardim... - Concluiu, forçando uma melodia vocal diferente agora.
- Não precisa se preocupar. - As formas de Edward estavam muito mais distintas agora. Ele parecia desenhado por deuses, na verdade. Era muito bonito, assim como seu irmão mais velho. - As pessoas não costumam me enxergar dessa maneira.
Aurora achou que ele havia dito isso porque estava para virar reverendo. Obviamente as pessoas o viam como alguém santo e que, na maior hipótese, estava ouvindo os lamentos e confissões dela no jardim.
Entretanto, não era o que ele quis dizer. Apesar de seus um metro e noventa e dois, as pessoas não o enxergavam porque não era - ainda - alguém importante e digno de curiosidade. Afinal, poucas sabiam que ele era filho do duque também, e menos ainda sabiam que não fizera os seus votos para se tornar um padre definitivamente.
- Aguardarei a senhorita se recompor, e a acompanharei de volta, se assim permitir. - A sua voz era mansa e tão calma quanto o barulho das ondas de um mar sereno. Era bonita, confortável e afetuosa.
Aurora sentiu uma onda quente, mas não a ponto de arder, tomar o seu corpo por causa da serenidade dele. Poderia ouvi-lo contar histórias por horas a fio, e certamente frequentaria a sua igreja quando decidisse que era hora de se tornar padre.
- Me dê um minuto, está bem? - Pediu dando-se por vencida, suspirando e inspirando forte para conseguir dar fim aos soluços que apareceram pouco tempo depois do choro começar.
- O tempo que for preciso.
Edward era gentil. Um homem carinhoso, certamente paciente. Ele só estava cumprindo o papel dele - ser uma imagem de deus na terra, um conforto nos momentos de terror.
Contudo, Aurora não era muito devota. Achava que deus a havia abandonado há anos. Pior, achava que ele nem sabia de sua existência, e que as poucas preces que havia feito a ele pedindo algo ou agradecendo sequer chegou ao seu ouvido.
Pensou em contar para Edward que ela não era católica em prática, mas ficou quieta. Não queria ouvir um sermão sobre como deus era maravilhoso e tinha planos perfeitos.
Na verdade, se ela tivesse dito isso, receberia uma outra resposta vinda dele. Edward não gostava de mentir para as pessoas. Costumava dizer que quem faz o futuro éramos nós mesmos, e para não esperar milagres divinos, pois deus tinha coisas melhores para se fazer além de arrumar um marido para as quatro filhas de alguma família rica e desesperada por mais poder.
Aurora ajeitou o busto do vestido e tentou limpar com as mãos as lágrimas que ainda estavam ali, recebendo um lenço de Edward logo após.
- Por que chorava, menina? - Ele finalmente perguntou, depois de tempos com aquele questionamento pairando em sua mente.
Ela o encarou. Não queria ter que dizer nada a ninguém, muito menos a um estranho.
- Não quero ser indelicado, mas às vezes falar é melhor do que guardar coisas para si. - A surpreendeu, dando um sorriso amigável para ela.
Ele tinha um sorriso bondoso também. Ele parecia um santo assim.
- E-eu... - Aurora sentiu a garganta doer. A mínima lembrança do quanto aquela noite estava sendo ruim para ela a deixava magoada. - Não foi nada.
- Ninguém chora por motivo nenhum. - Sua frase saíra quase como um sussurro. - Nem mesmo os bebês.
Aurora sorriu. Era verdade. E ela amava quando via bebês sendo aconchegados nos braços de uma mãe e sendo afagados até o choro cessar. Porém, ela sabia que nunca poderia fazer isso com o seu próprio filho, pois ela não os teria.
- Promete não contar para ninguém? - Questionou, voltando seu olhar para ele. Era complicado dizer coisas que tinham a ver com ela sem tocar no assunto de Louis, contudo, algo em sua voz, sua presença e seu carinho a fez confiar nele. E ele seria padre. Não poderia fazer fofoca.
- Prometo guardar tudo o que disser apenas para mim. - Edward assentiu, colocando novamente sua mão no ombro dela.
Aurora limpou mais uma lágrima que descia sem ser convidada com o lenço absurdamente branco que Edward dera a ela. Sentiu cheiro de roupas limpas em suas narinas quando fez isso e não resistiu em fungar até o perfume ficar guardado na lembrança.
- Minha madrasta me odeia. - Soltou ela, um pouco pesarosa por dizer esta palavra tão feia. Certamente Edward a daria penitências para cumprir após ouvi-la. - Odeia como se eu fosse culpada por todas as coisas ruins que acontece com ela. A ponto de fazer comentários nem um pouco saudáveis na frente dos outros sobre mim. Desde que fora viver com meu pai, desejou minha morte uma porção de vezes. E... - Ela fungou, sentindo que as lágrimas desceriam novamente. - Mary... bem... ela também não gosta de mim.
Edward se chocou com a dor que a menina falava. Aurora se segurava para não voltar a chorar, mas não conseguia.
- ... E está tudo bem, sabe? As pessoas não são obrigadas a gostarem da gente e até mesmo nutrir simpatia sem motivos. - Continuou tentando amenizar algo que na verdade era repugnante. - Eu realmente não quero que ela me ame..., mas estou... cansada.
Edward sentiu o próprio estômago contorcer e embolar de dor. Ele sabia exatamente que sentimento era aquele. Ele sabia que ser desprezado por sua família doía mais do que qualquer coisa nesse mundo.
Por que ele estava só desde que sua mãe partira - a única pessoa que o amara de verdade e se importava com ele.
Compadecer-se com Aurora não era exatamente o que ele sentia. A dor dela era a dor dele, e a dor dele era tão imensa quanto a dela.
O pai nunca o quis e o irmão nunca fora seu amigo também.
Surpreendeu-se por seus olhos, que se encheram de lágrimas também. Engoliu seco, suspirou baixinho e recuperou a postura antes de continuar.
- Eu entendo, Aurora. - Fora o que conseguiu emitir sem o sentimento transparecer na voz. - Perdoe-me, posso chamá-la assim?
Aurora assentiu sem olhar para ele.
- Eu sei exatamente o que está sentindo. - Sussurrou, mal acreditando que acabara de dizer aquilo. No geral, Edward nunca reclamava com ninguém sobre a sua família. Na verdade, apenas Sebastian sabia o quanto ele havia sofrido após a partida de sua mãe.
- Sabe? - Ela emitiu confusa, forçando seus olhos a fitá-lo.
- Você já ouviu falar no segundo filho do duque por aí, além da boca do seu irmão, que é o meu melhor amigo? - Edward indagou, assistindo-a descordar com a cabeça. - É porque eu sou praticamente um intruso naquela família. Eu mal existo para eles.
A moça engoliu o choro e passou a contemplar a face de Edward com compaixão. Ele parecia sereno, mas algo em seus olhos diziam que, por dentro, uma mágoa também o consumia.
- Eu sinto muito. - Solidarizou ela, entendendo exatamente o que ele disse.
Edward achava que não deveria ter dito aquilo. Afinal, se tratava do sofrimento de Aurora, não do dele. Na verdade, no clero, o sofrimento dele não deveria existir, pois as provações da vida eram uma dádiva divina.
Ele suspirou um pouco mais alto dessa vez, tratando de recolocar um sorriso amável no rosto. Não dissera nada de proveitoso para a menina, mas se sentia um pouco melhor em compartilhar com ela uma dor tão pessoal.
- Sua madrasta, tenho certeza, guarda uma grande amargura dentro de si capaz de consumi-la. - Afirmou, colocando em prática a sua observação. - Não se trata de você e, pode apostar que a culpa não é sua. - Continuou. - Ela a odeia porque sabe que você veio primeiro, que já estava lá quando ela se tornou a segunda Lady Rose.
Aurora não esperava por aquilo. Aguardava um sermão diferente, uma lição em que o padre diria para ela pedir perdão aos seus sentimentos de revolta. Talvez uma penitência por se sentir mal diante o desprezo alheio.
Contudo, Edward jamais faria isso. Ele jamais daria uma penitência a alguém que já sofre dessa maneira. Ele mesmo nunca o penitenciou por causa dos desprezos do pai, por que faria com ela?
- Não se culpe por se sentir mal. Da mesma forma que ela não precisa adorá-la, você não precisa aguentar seu desdém.
- Eu... - Aurora sentiu o rosto paralisar enquanto ouvia Edward. Aquele homem era completamente diferente do que ela imaginara. - É. Acho que tem razão.
Edward sorriu feliz por ela. Sabia que na prática não era assim que funcionava, mas tinha a esperança de que ao menos naquela noite ela se sentiria melhor.
Aurora conseguiu se recompor e botar um sorriso fraco no rosto. Edward ainda permanecia impecável externamente, porém, por dentro, mil coisas passavam na sua cabeça abalada. Louis deveria se casar com aquela garota, não com a sua irmã mais nova. Não tinha conhecimento sobre o que dizia no contrato, mas desconfiou dele. Ou isso, ou a aparência de uma mulher era muito mais importante para o irmão do que qualquer outra coisa - e ele não duvidou disso.
Sabia que Marianne era considerada a joia da alta sociedade. Contudo, Edward não conseguia ver nada nela além de uma dama formada por etiqueta, sem personalidade nenhuma.
Ou talvez a personalidade dela seja muito bem maquiada, assim como a de Lady Rose, e ela parecia um mar calmo, quando na verdade carregava um furacão dentro si.
Edward tomou o braço de Aurora e, juntos, saíram do jardim sem preocupações. Chegaram à sacada iluminada com muitos lampiões e finalmente puderam enxergar com mais precisão um ao outro.
Aurora surpreendeu-se ao notar que os olhos de Edward, na verdade, eram verdes. Não verdes super densos, mas um tão suave e bonito quanto a sua voz. Era uma cor diferente de todas as que ela já viu, e era sublime.
E sua pele era ainda mais branca do que ela conseguiu enxergar anteriormente.
Parecia fria como gelo, mas era quente o toque de suas mãos.
Edward notou que Aurora tinha duas covinhas nas bochechas quando sorriu. Era uma característica que a fazia parecer tão pura, e tão menina. Surpreendeu-se ao notar que ela parecia mais nova do que Marianne.
Seus dedos eram delicados, e a sua pele era dourada. Não exatamente como a de Lilian, mas ainda assim era.
Ela parecia um raio de sol no fim da tarde. Ou no início da manhã. Parecia mesmo...
Uma Aurora.
Edward sorriu para ela quando notou isso.
Fazia sentido.
🌹 Aurora 🌹
Aurora sentiu-se um pouco estranha ao se deparar com Edward a encarando mais a fundo neste momento. Certamente estava notando que ela não era tão bonita quanto Marianne, e sentiu seu rosto corar. Não queria que ele visse apenas sua aparência ou se deixasse levar por seus traços que sua madrasta tanto afirmou que eram grotescos.
Desviou o olhar do dele afim de que não percebesse a sua aflição. Sabia que a primeira impressão era importante, mas ela não conseguia deixar de parecer insegura conforme o tempo fora passando ao lado de Edward.
- Obrigada por me acompanhar, Reverendo. - Quando sentiu que conseguiria falar sem grandes problemas, gratificou. - Ah, perdão. Sir Thompson. - Corrigiu.
- Foi um prazer. - Edward simplesmente não conseguia tirar os olhos dela. Sentiu que precisava ser mais discreto, contudo, ainda estava curioso acima de sua figura. - Estas flores são muito cheirosas, não acha? - Tentou puxar algum assunto, dessa vez encarando o jardim.
- Sim. São lírios. - Ela sorriu, tão encantada quanto ele.
- Lembro-me de que sua mãe adorava. - Edward recordou em voz alta dessa vez.
- Conheceu minha mãe? - Confusa, Aurora perguntou.
- Claro que sim. - Edward sorriu para ela com uma doce lembrança em seus lábios. - Sua mãe era amiga da minha. Ambas adoravam passar as tardes na companhia uma da outra, tomar chá, jogar conversa fora e trocar confidências enquanto eu e Sebastian brincávamos em seus pés. Sou amigo do seu irmão desde que me entendo por gente.
Aurora espantou-se ao ouvir aquilo. Sebastian, às vezes, falava sobre Edward, mas nunca fora tão explícito assim.
- Também me recordo da senhorita. Mas ainda era um bebê na ultima vez que a vi.
A menina corou levemente com a pequena menção. Então, provavelmente, ele sabia que ela não era tão bela quanto Marianne antes mesmo de vê-la. Claro, ele havia a reconhecido no escuro gazebo.
Gostaria de se lembrar de Edward assim como ele se lembrava dela, todavia seria impossível.
- Perdão, qual era mesmo o nome da duquesa? - Questionou um pouco sem graça por não se recordar. - Não ouço muito sobre ela.
- Katherine. Kate, para os íntimos. - Edward não se importou com a pergunta. - Ela chamava sua mãe de Lily. E Sebastian me chama de Eddie.
Aurora sentiu-se uma estranha por não conhecer o passado da sua própria família. As coisas eram tão diferentes agora. Tão tristemente diferentes.
- Acho que nunca tive um apelido. - Falou mais para si do que no toque de desabafo que surgiu em seus lábios.
- O seu nome é um pouco complicado, não acha? - Comentou Edward, analisando-a. - Aurô, talvez? - Chutou, pouco se importando com a necessidade de se referir a ela daquela maneira tão pessoal.
Aurora fez uma careta ao ouvir aquilo. Definitivamente não gostara.
Edward riu dela, e podia se observar o quanto ele fazia aquilo com elegância.
- Rora? - Tentou mais uma vez, notando a menina levantar a sobrancelha nem um pouco feliz. - Au-au?
Dessa vez Aurora não pode deixar de rir alto e em bom som.
- Au-au? - questionou, sentando-se na beirada do muro de pedra que separava a sacada do jardim. - Como um latido de cachorro?
Edward não se conteve também e caiu na gargalhada, acompanhando-a. Fora involuntário, ele não conseguia pensar em mais nada.
- Perdoe-me. - Pediu assim que conseguiu parar de rir. - Não consegui pensar em nenhum adequado.
- Então se deu por vencido? - Indagou na esperança de que ele houvesse mais alguma alternativa. Receber um apelido pessoal de alguém que mal conhecia era estranho, mas ao menos estava se divertindo.
- Raio de sol. - Edward falou depois de alguns instantes de análise. - Acho que era assim que sua mãe a chamava.
Aurora não esperava por isso. Na verdade, nem Edward. Ele tinha em sua cabeça uma lembrança um pouco vívida de Lílian cantando para a neném em seus braços, e a chamando assim.
- Como...?
- Não sabe disso? - Surpreendeu-se ele, notando os olhos confusos de Aurora.
- Não. - A menina limitou-se a dizer. - Na verdade eu não me lembro mesmo.
Edward sentiu-se culpado por trazer tristeza novamente para srta. Rose. Mesmo que seus olhos fossem belos transbordados de lágrimas, como uma escuridão banhada por um mar triste, ele não queria que ela voltasse a chorar.
- Mm, ah... - Pigarreou, voltando a atenção dela para si. - Não acha que a noite está um pouco quente demais?
Edward tentou mudar de assunto novamente. Ele não sabia conversar com alguém sem parecer não natural. Na verdade, passara boa parte da sua vida calado, e mal compreendia como a socialização entre um homem e uma mulher funcionava. Afinal, tudo o que ele precisava fazer eram discursos mecânicos na igreja e ouvir as confidências dos fiéis sem julgá-los e lhe darem penitências logo após.
Confiaria nos seus instintos. Apenas para que ela ficasse às vistas quando Sebastian resolvesse procura-la novamente.
- Um pouco. - Concordou Aurora. - Na verdade, a cada ano tem ficado pior. Creio que um dia será necessário readequar nossos vestidos para suportar o calor.
Involuntariamente, Eddie encarou o corpo dela, passando os olhos dos pés cobertos ao corpete que sustentava pequenos seios para acima.
Não era objetivo da moça fazer com que o futuro reverendo a fitasse de cima a baixo, mas sim apenas fazer uma observação. Afinal, sentia-se tão mal às vezes usando tantas camadas de pano que tinha vertigens no meio das festas por causa do calor.
Esperou que Edward dissesse algo como: "as vestimentas de uma mulher não podem mostrar mais do que o necessário, senão é cometido pecado contra o homem."
- Acho que deveriam mesmo. - Entretanto, fora diferente o que dissera. Aurora cogitara que aquele moço na verdade não estudara coisa alguma num mosteiro, pois em algum tempo de conversa ele não dera um puxão de orelha nela sequer. - Tudo parece tão desconfortável e difícil de tirar.
Ambos sentiram um constrangimento subir à face neste instante. Ela queria fingir que não pensou maliciosamente quando ele a proferiu, e Edward sabia que era tarde demais para fingir que não pensara naquilo também.
- Quer dizer, para a senhorita, é claro. - As palavras saíram com dificuldade. Aurora sentiu vontade de rir da confusão dele. - Ou para todas as mulheres... enfim.
Ele era surpreendentemente diferente da imagem que ela tinha sobre um futuro padre. Edward corou e permaneceu assim por alguns segundos.
- O senhor tem razão. - Concordou, sentindo um ardor nas bochechas também. - São super difíceis de tirar. Às vezes precisamos de ajuda.
O toque malicioso nas palavras de Aurora fora proposital. Ela estava gostando de ver o rosto tão branco de Edward ficar rosado, atingindo um tom quase igual ao da boca.
- O que padres usam por baixo da batina? - Questionou algum tempo depois, quando percebeu ele abaixar a cabeça tentando esconder o desconforto da sua face.
- Ah... - precisou de um segundo para raciocinar antes da resposta. - Roupas comuns. É insuportavelmente quente também.
- Devem ser mesmo. - O constrangimento os atingiu em cheio naquele momento. Mas afinal, o que eles ainda estavam fazendo ali? A sacada estava completamente vazia, e apenas os dois a habitavam solitários.
Era óbvio que ninguém procurara Edward, assim como ela. Ele não era alvo de mulheres sedentas para casar, nem por suas mães desesperadas.
Não. Edward era um ser solitário e desprezado pelos outros como ela.
- Então, o que acha de uma limonada? - Ele ofereceu, descendo do muro da sacada, dando-se por vencido pelo constrangimento da última conversa. Não podia falar aquelas coisas, muito menos flertar com aquela moça.
- Eu adoraria. - Aurora aceitou o seu braço de bom grado, feliz por ter alguém a acompanhando desta vez no salão, que não fosse Sebastian ou Sir Williams.
- Encontrei vocês! - Seu irmão, entretanto, apareceu de repente antes de adentrarem. - Por onde andava, Aurora?
- E-eu... - a moça não queria contar sobre suas mágoas anteriores, e pensava numa desculpa qualquer.
- Estávamos aqui conversando. - Edward interveio. - Perdoe-me pela distração.
- Certamente Sebastian estava cercado de mães ávidas e muitas pretendentes adoráveis. - Aurora observou. - Não faria diferença alguma aparecer mais cedo ou mais tarde, não é, barão?
Sebastian notou Aurora de braços dados a Edward sorrindo para ele confortavelmente. Sabia que a irmã não costumava ter companhias masculinas - e nem mesmo se distrair conversando com alguma delas. Esteve prestes a interromper e separá-los para voltar com ela para dentro como um bom patriarca desconfiado faria, contudo, pensou que talvez um poderia fazer sala para o outro sem problema algum.
Edward seria padre. Ele não poderia se interessar por ela.
E Aurora tinha um ar mais feliz em sua face nesse momento. A menina que antes estava agoniada, parecia estar em paz agora. Sebastian entendeu imediatamente que fora por causa da companhia do melhor amigo.
- Estou dando um tempo aqui justamente porque não consigo mais dançar. - Esclareceu, encostando a coluna na parede de pedra. - Se eu precisar sorrir para mais uma mãe, juro que pedirei que leve meus dentes.
Aurora riu, sendo acompanhada pelo clérigo. Ela não sabia como era a sensação de ter pretendentes, mas imaginava o quão exausto seu irmão estava.
- Por que não acaba logo com este sofrimento e se casa? - Edward questionou sabendo que faria o amigo pigarrear insatisfeito com esta alternativa.
- Possivelmente porque Heloísa ainda não debutou. - Aurora sugeriu, lembrando-se da amiga que faria dezoito anos na próxima semana.
Sebastian bufou, certamente constrangido.
- Quem é Heloísa? - Edward perguntou, curioso.
- Minha melhor amiga.
- Eu sinto muito estima por Srta. Grace, mas estás equivocada para com minhas intenções, querida irmã. - Sebastian advertiu.
- Só porque ela é pobre a descartou sem pensar duas vezes.
O barão a encarou cheio de fúria no olhar. Era claro que aquilo não era verdade.
- De onde tirou essa besteira? - Questionou ele.
- Do fato de que a ama e não tem coragem de firmar compromisso. - Edward fitou a mocinha que ainda estava de braços dados a ele discutindo firme as escolhas do irmão. Ela parecia muito convicta.
- Ora essa, Aurora.
- Nem tente me convencer do contrário, Sebastian. - Levantou a mão, censurando-o. - Sei de tudo o que acontece entre vocês.
Sebastian passou de Aurora para Edward o seu olhar embaraçado. Ela, assim como ele, nunca fora de guardar suas opiniões, mesmo que muito complexas, apenas para si.
- O que acha que houve entre nós? - Indagou insatisfeito, torcendo para que Aurora não dissesse vulgaridades em voz alta com Edward ao seu lado.
Senhorita Rose fitou os dois homens ali encarando-a esperando uma resposta.
- Coisas que deveria confessar para um padre. - Sugeriu ela, apontando para Edward.
- Não, definitivamente não quero saber. - Descartou ele rindo da cara de seu amigo confuso. - Passo para o próximo padre que cruzar o seu caminho. Entretanto, senhor barão, se algo inapropriado aconteceu, devo lhe alertar que o matrimônio se faz necessário.
Sebastian sentiu que estava sendo escorraçado ali por um complô que ele nunca imaginou se formar. Sua irmã e seu amigo pareciam um casal tão íntimo que o fez chacoalhar a mente em dúvidas.
- É claro que sim. - Aurora afirmou, entrando como cumplice de Eddie num pacto quase silencioso de encurralá-lo.
- Quer saber, acho que vou voltar lá para dentro. - Deu dois passos para a porta, decidido a evitar aquela conversa. - Vocês vêm?
Aurora suspirou. Ali estava perfeitamente agradável para ela. Apenas a companhia de Edward a fez feliz, e sentiu que não queria perder a paz.
Entretanto, ambos entraram e foram para o meio da multidão calados. O que quer que tivesse acontecido entre eles naquela noite, naquele jardim e naquela sacada - um laço de amizade, entendimento e embaraço - sabia ela, ficaria apenas guardado em sua mente.
Esperava que Edward se tornasse seu amigo assim como era de Sebastian.