Eu estava grávida de oito meses e esperava o meu marido para o nosso jantar de aniversário de casamento, quando recebi uma chamada chocante: Pedro sofrera um acidente.
Corri para o hospital, a minha barriga pesada a dificultar cada passo, apenas para encontrar Pedro sem um arranhão e a minha meia-irmã, Sofia, numa maca, sendo tratada com uma ternura que nunca me dedicara. Naquele mesmo momento, perdi o nosso bebé.
Ao acordar no hospital, o vazio na minha barriga era avassalador, mas a crueldade de Pedro, Sofia e da minha madrasta, Clara, era ainda mais cortante. Eles me humilhavam, me prendiam em casa como uma empregada, e Pedro chegou a vender todos os pertences do nosso filho morto, usando o dinheiro para pagar as despesas da Sofia.
Como podia a dor da perda do meu filho ser tão secundária para eles? Por que me tratavam com tanto desprezo e malícia, enquanto a "irmã" ferida era a vítima a ser adorada? Eu estava quebrada, mas uma dúvida gelada começava a tomar forma.
Uma noite, ouvi Pedro e Sofia a sussurrar: "Foi para melhor. Um bebé complicaria tudo. Quando ela estiver completamente quebrada, não lutará por nada." O meu coração gelou. A morte do meu filho não foi um acidente. Foi um plano. E naquele instante, a vítima morreu, e uma nova Ana nasceu, com um único propósito: a sua vingança.
Eu estava no funeral do meu próprio filho.
Ele nunca viu a luz do dia, nunca respirou.
O pequeno caixão branco parecia mais uma caixa de sapatos.
O padre murmurava palavras que eu não conseguia ouvir, o som abafado pelo zumbido nos meus ouvidos.
O meu marido, Pedro, estava ao meu lado, mas a sua mão não estava na minha.
Ele segurava o braço da minha meia-irmã, Sofia, que chorava histericamente no seu ombro.
"Oh, meu pobre sobrinho! Meu anjinho!"
A sua dor parecia maior que a minha.
Eu não derramei uma lágrima, apenas senti um vazio gelado no meu peito.
Pedro olhou para mim, a sua expressão era uma mistura de irritação e pena.
"Ana, pelo menos tenta parecer triste. As pessoas estão a olhar."
Eu olhei para ele, depois para Sofia, e finalmente para o pequeno caixão branco.
O meu filho estava morto por causa deles.
Uma semana antes, eu estava grávida de oito meses.
Era o nosso aniversário de casamento, Pedro prometeu-me um jantar especial.
Eu esperei por ele, a mesa posta, a comida a arrefecer.
Ele nunca apareceu.
Liguei-lhe dezenas de vezes, mas ele não atendeu.
Por volta da meia-noite, recebi uma chamada de um número desconhecido.
Era um polícia.
"A senhora é Ana, esposa de Pedro?"
"Sim, sou eu. Aconteceu alguma coisa?"
"O seu marido sofreu um acidente de carro. Ele está bem, mas a passageira ficou gravemente ferida. Estamos no Hospital da Luz."
O meu coração parou.
Corri para o hospital, a minha barriga pesada a dificultar cada passo.
Encontrei Pedro no corredor, sem um arranhão.
Mas ele não estava sozinho.
A minha madrasta, Clara, e a minha meia-irmã, Sofia, estavam com ele.
Sofia estava numa maca, a perna engessada, a cara pálida.
Quando Pedro me viu, a sua cara não mostrava alívio, mas sim aborrecimento.
"O que estás a fazer aqui? Eu disse que estava bem."
"Quem era a passageira?"
A minha voz tremia.
Sofia começou a chorar.
"Ana, não culpes o Pedro. A culpa foi minha. Eu senti-me mal e pedi-lhe para me levar a casa... o carro derrapou na estrada molhada."
A minha madrasta, Clara, abraçou-a protetoramente.
"A minha pobre menina! Tão frágil. Pedro, obrigada por cuidares dela. Se não fosses tu, nem sei o que teria acontecido."
Pedro colocou a mão no ombro de Sofia.
"Não te preocupes, Sofia. Eu estou aqui."
Eles pareciam a família perfeita.
Eu era a intrusa.
Naquele momento, uma dor aguda atravessou o meu ventre.
Eu agarrei-me à barriga, ofegante.
"Pedro... o bebé..."
Ele olhou para mim, a sua impaciência era óbvia.
"Não comeces com dramas agora, Ana. A Sofia precisa de mim."
A dor intensificou-se, e eu senti um líquido quente a escorrer pelas minhas pernas.
Sangue.
Eu caí de joelhos.
O mundo ficou escuro.
Acordei numa cama de hospital.
A primeira coisa que senti foi o vazio.
A minha barriga estava lisa.
O meu bebé tinha-se ido.
Uma enfermeira entrou, a sua expressão era de compaixão.
"Sinto muito, senhora. Fizemos tudo o que pudemos, mas o stress e a queda provocaram um parto prematuro grave. O seu filho não sobreviveu."
As palavras dela flutuavam no ar, sem sentido.
Eu olhei para a porta, à espera que Pedro entrasse.
Ele não veio.
Em vez disso, a minha madrasta, Clara, apareceu.
A sua cara não mostrava qualquer simpatia.
"Finalmente acordaste."
Ela sentou-se na cadeira ao lado da cama, cruzando os braços.
"O Pedro está a tratar da papelada da alta da Sofia. Ela está traumatizada, coitada."
Eu olhei para ela, a minha voz era um sussurro rouco.
"O meu filho morreu."
Clara deu de ombros.
"Acontece. És jovem, podes ter outros. Agora, o mais importante é não sobrecarregar o Pedro com os teus problemas. Ele já tem muito com que se preocupar com a Sofia."
"Preocupar com a Sofia?"
"Sim. O acidente foi feio. O carro dele ficou destruído. E ele estava a fazer um favor à irmã dele. Não podes culpá-lo por isso."
Irmã. Ela nunca foi minha irmã.
"Onde é que eles estavam a ir no nosso aniversário de casamento?"
Clara evitou o meu olhar.
"A Sofia não se estava a sentir bem. Ele foi um bom cunhado e foi ajudá-la. Devias estar grata."
A porta abriu-se e Pedro entrou.
Ele parecia cansado e irritado.
Quando me viu acordada, o seu rosto não se suavizou.
"Clara, podes deixar-nos a sós?"
Ela levantou-se e saiu, lançando-me um olhar de aviso.
Pedro ficou de pé junto à janela, de costas para mim.
"Como te sentes?"
A pergunta era fria, distante.
"O nosso filho morreu, Pedro."
Ele suspirou, um som longo e exasperado.
"Eu sei, Ana. É uma tragédia. Mas não podemos mudar o que aconteceu."
Ele finalmente virou-se para mim.
"Olha, a Sofia precisa de apoio agora. A perna dela está partida, vai precisar de meses de fisioterapia. Ela vai ficar connosco por uns tempos."
A minha cabeça girava.
"Ficar connosco? Na nossa casa?"
"Sim. Onde mais é que ela ficaria? A mãe dela tem de trabalhar. Eu sou o único que a pode ajudar."
"E eu? Eu acabei de perder o nosso filho."
Ele passou a mão pelo cabelo, frustrado.
"Ana, não sejas egoísta. O que queres que eu faça? Eu não posso trazê-lo de volta. Temos de ser práticos. A Sofia precisa de nós."
Naquele momento, eu soube.
O meu casamento, tal como o meu filho, estava morto.
"Eu quero o divórcio."