Meu pai era meu mundo, e meu marido Tiago era meu porto seguro. Pelo menos, eu achava que era.
Uma noite, meu pai teve um ataque cardíaco. Desesperada, liguei para Tiago dezoito vezes, minhas mãos tremendo. Ele não atendeu.
Em vez disso, ele estava numa ligação de 67 minutos com Sofia, sua "amiga de infância", supostamente "ajudando-a com uma mudança" que já havia terminado horas antes. Meu pai morreu enquanto Tiago sussurrava no ouvido dela.
No funeral, entre lágrimas e falsa compaixão de Tiago, a ficha caiu. Sua mãe me atacou, chamando-me de ingrata por sequer pensar em deixá-lo, enquanto Sofia se fazia de inocente. Descobri fotos deles juntos, provando anos de mentiras.
Como um homem que jurou me amar pôde escolher uma "amiga" em detrimento da vida do meu pai? Este casamento era uma farsa? Quem era o verdadeiro Tiago?
Diante de seu olhar chocado no enterro, com a força de uma fúria renascida, eu disse as palavras que selariam meu destino: "Tiago, quero o divórcio." A luta pela minha liberdade e pela justiça do meu pai começava agora.
O funeral do meu pai foi num dia cinzento e sem chuva. O ar estava pesado, denso com uma tristeza silenciosa.
Eu estava de pé ao lado da minha mãe, a segurar a sua mão fria. Ela olhava para o caixão de madeira escura, o seu rosto pálido e sem expressão.
O Tiago, o meu marido, estava do outro lado, com a mão no meu ombro. Um gesto que deveria ser de conforto, mas que na minha pele parecia veneno.
Ele sussurrou ao meu ouvido.
"Clara, meu amor, estou aqui contigo."
Não me virei. Continuei a olhar em frente, para a terra remexida que em breve cobriria o meu pai para sempre.
A sua voz era um eco doentio da noite de terça-feira. A noite em que tudo acabou.
Eu estava na sala de estar, a ver televisão, quando ouvi um baque surdo vindo do quarto do meu pai. Corri para lá. Ele estava no chão, a mão no peito, a lutar por ar.
A primeira coisa que fiz foi pegar no meu telemóvel e ligar ao Tiago. O nosso apartamento ficava a apenas dez minutos da casa dos meus pais. Uma ambulância demoraria mais tempo.
A chamada foi para o correio de voz.
Liguei outra vez. E outra. E outra.
Nada.
Enviei uma mensagem, as minhas mãos a tremer tanto que mal conseguia escrever.
"Tiago, é o pai. Acho que é um ataque cardíaco. Preciso de ti agora. AGORA."
Enquanto esperava, tentei ajudar o meu pai. Ele olhava para mim, os seus olhos cheios de medo.
O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem do Tiago.
"Calma, Clara. Estou ocupado. A Sofia precisava de ajuda com as mudanças, o ex-namorado deixou-a na mão. Ligo-te mais tarde."
Ocupado. Ajudar a Sofia. A sua amiga de infância que estava sempre a precisar de alguma coisa.
Respondi de imediato.
"É uma emergência! O meu pai está a morrer!"
Liguei para a ambulância, a minha voz a falhar. Eles disseram que estavam a caminho.
A resposta do Tiago chegou cinco minutos depois. Cinco minutos que pareceram uma vida inteira.
"Não exageres. Deves estar em pânico. Ele tomou os comprimidos? Respira fundo. A Sofia está muito em baixo, não a posso deixar sozinha agora."
Naquele momento, o meu pai parou de respirar.
A cerimónia acabou. As pessoas começaram a dispersar-se, oferecendo condolências vazias.
O Tiago apertou o meu ombro com mais força.
"Vamos para casa, querida. Precisas de descansar."
Virei-me finalmente para ele. Olhei para o seu rosto, para a sua expressão de falsa preocupação.
"Não vou a lado nenhum contigo."
A minha voz saiu fria e firme, um tom que ele nunca tinha ouvido antes.
Ele franziu a testa, confuso.
"O que queres dizer? Claro que vamos."
"Não," eu disse, a minha voz a ganhar força. "Tu vais para casa. Ou para casa da Sofia. Não me interessa. Mas nós os dois acabámos."
Afastei a sua mão do meu ombro como se estivesse a queimar.
"Tiago, quero o divórcio."
O rosto do Tiago passou da confusão para a incredulidade.
"Divórcio? Ficaste maluca? O teu pai acabou de morrer, não estás a pensar com clareza."
"Pelo contrário," respondi, a minha voz cortante. "Nunca pensei com tanta clareza em toda a minha vida."
A minha mãe, que até então estava em silêncio, virou-se para o Tiago. Os seus olhos, embora vermelhos de chorar, estavam cheios de uma nova dureza.
"Ela disse que quer o divórcio, Tiago. E eu concordo."
O choque no rosto dele era quase cómico. Ele sempre contou com o apoio da minha mãe, sempre a viu como uma aliada dócil.
"Dona Helena, a senhora não pode estar a falar a sério. A Clara está de luto, está a dizer coisas sem pensar."
"O meu marido morreu porque tu estavas demasiado ocupado para atender o telemóvel," disse a minha mãe, a sua voz a tremer de raiva contida. "Não há nada que a Clara diga agora que seja mais irracional do que isso."
De repente, uma voz suave interrompeu a nossa conversa.
"Tiago? Clara? Está tudo bem?"
Era a Sofia. Aproximou-se de nós, o seu rosto uma máscara de preocupação. Estava vestida de preto, mas de alguma forma conseguia parecer delicada e frágil, não enlutada.
"Sofia, agora não," disse o Tiago, claramente desconfortável.
Ela ignorou-o e pôs a mão no meu braço.
"Clara, lamento muito a tua perda. O teu pai era um homem maravilhoso."
Recuei instintivamente.
"Tira a mão de mim."
A Sofia pareceu magoada. Os seus olhos encheram-se de lágrimas.
"Eu só estava a tentar ajudar..."
"Ajudar?" A minha voz subiu, atraindo os olhares das poucas pessoas que ainda restavam. "Tu ajudaste o suficiente. Graças à tua 'ajuda', o meu pai está morto."
"Isso não é justo!" disse a Sofia, a sua voz a ganhar um tom de indignação. "Eu não sabia! O Tiago disse que não era nada de grave!"
O Tiago interveio, tentando controlar a situação.
"Clara, para com isso. Estás a fazer uma cena. A Sofia não tem culpa de nada."
Olhei de um para o outro. A equipa perfeita. O herói e a donzela em apuros.
"Tens razão," eu disse, a minha voz a voltar a ser gelada. "A culpa não é dela. É tua. Só tua."
Virei-me e comecei a afastar-me com a minha mãe.
"Clara, espera!" gritou o Tiago. "Não podes simplesmente ir embora assim! Temos uma vida juntos!"
Parei e olhei para ele por cima do ombro.
"Nós não temos nada. Tu destruíste tudo na terça-feira à noite."