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A Chance

A Chance

Autor:: Pauliny Nunes
Gênero: Romance
"Eu quero o divórcio" essas eram as palavras ditas por Hugo que ecoaram pelo quarto e pela mente de Beatriz. Hugo e Beatriz eram casados há quase dez anos. Começaram a namorar quando faziam o curso de Administração. Após formados decidiram que era o momento de casar. Hugo se tornou Analista Sênior na rede de farmácias do pai de Beatriz. E Bia decidiu se envolver com projetos sociais. Eles são considerados o casal perfeito por todas as pessoas que os conhecem. Mas até mesmo o casal perfeito tinha seus problemas. As brigas constantes, decisões conflitantes e diferenças irreconciliáveis permeavam a vida de Hugo e Beatriz. Até que um dia Hugo decidiu que era hora de pôr um ponto final, naquele que um dia foi um relacionamento feliz. Porém, durante o processo do divórcio, surge alguém do passado na vida de Beatriz a fazendo enxergar além dela mesma. Até o destino mudar o jogo. Agora, Beatriz precisa tomar uma decisão que mudará sua vida e lhe dará a Chance de ter o que realmente deseja.

Capítulo 1 1

Vidros e retratos quebrados, roupas pelo chão e um silêncio quase absoluto no quarto. Pode-se dizer que um furacão passou por ali. O cenário veio se repetindo com maior frequência durante os últimos meses e já não espantava mais os vizinhos e nem os moradores. Aliás, os moradores estão presentes na cena caótica, cansados e pensativos.   Beatriz está sentada na cama de cabeça baixa e Hugo está próximo à porta do banheiro, encostado, com seus olhos fechados.     

Outrora aquele cenário significava mais uma incrível e tórrida noite de amor, mas agora representa somente o ódio de ambos.   

- Eu quero o divórcio... Eu preciso do divórcio... Eu preciso viver novamente – revela Hugo,  quebrando o silêncio. Ele decide se aproximar daquela mulher com quem a pouco tivera uma briga terrível. Ajoelha-se na frente dela e olha fixamente em seu rosto.   

O rosto, sim, o rosto da mulher por quem passou anos,  apaixonado. A quem jurou amor eterno. Ainda é o mesmo rosto daquela jovem que conheceu no réveillon. Uma história que ele adorava contar para aqueles que perguntavam como eles se conheceram, mas agora já nem sequer faz questão de recordar.     

Hoje é um rosto pálido com algumas rugas, mas é ainda um belo rosto.  O nariz ainda é fino, ornando com o formato do rosto. Ainda têm as três pintas próximas ao olho esquerdo, bem como as sardas. Os olhos, aqueles olhos que ele jura terem sido desenhados, arredondados e ao final são levemente puxados. Os olhos castanhos mais expressivos que conhecera, já não lhe dizem nada.    

 - Eu conheci alguém – confessa Hugo que segura às mãos de Beatriz- Não nos envolvemos ainda. Na verdade só tomamos um café, mas eu me senti vivo de novo. É como se eu pudesse... Se eu pudesse amar outra vez!   

Aquelas palavras vieram como um soco em Beatriz. Pela primeira vez ela olha no rosto de Hugo. Busca fervorosamente que ele estivesse arrependido, mas só encontra naqueles olhos negros como a noite, a verdade das palavras ditas.     

- Eu juro que tentei Bia – continua Hugo colocando a cabeça em seu colo -Juro que eu tentei resgatar o nosso amor, só que ambos sabemos que ele acabou. Bem como nossos sonhos...  Pelo amor de Deus, diga algo! 

- Dizer o quê? Você já decidiu tudo por nós – ironiza Bia, o afastando de seu colo - Diga-me, qual a opção que eu tenho? – segura o rosto de seu marido-Eu ainda te amo! Você é o amor da minha vida! Você é a razão da minha existência! E MESMO SABENDO DE TUDO ISSO, VOCÊ NÃO QUER MAIS! NÃO ME QUER MAIS!   

- Nós não nos suportamos mais Beatriz! Olha nossas brigas! Olhe para nós! Acabamos de brigar e já começamos de novo – retruca Hugo se levantando. Não pode mais levar aquilo adiante então, de costas, determina- Eu sairei de casa hoje mesmo e amanhã entrarei com a papelada. Peço que assine o divórcio em memória do que vivemos.    

- Vai para a casa dela? – pergunta Beatriz sarcasticamente. Ela vai em direção ao Hugo - Vai brindar a morte do nosso "amor eterno" com ela? Contará para ela que o mesmo amor que jurou para mim, agora fará com ela?   

- Ela nem sabe de nada.  Nem tenho certeza se é ela quem eu vou amar... –  responde Hugo que se vira para Beatriz - Irei para casa do Jorge e peço que você não me siga.    

- Lamento informá-lo, mas dessa vez não irei – retruca Beatriz, amargurada. - Tenho meu orgulho e já que está decidido, vá embora. Leve suas coisas e vá. Mas leve tudo! TUDO!    

- Não se preocupe, pois farei isso. Só peço que assine os papéis do divórcio, por favor – pede Hugo, sério.

- Acha mesmo que vai levar o dinheiro da minha família com você, seu golpista? – acusa Beatriz que agora está com um abajur nas mãos - Isso nunca vai acontecer. Você sairá dessa casa do jeito que entrou: sem um tostão no bolso!

- Eu conquistei tudo isso aqui! – alega Hugo, exaltado. Ele aponta o dedo para Beatriz e continua - Eu cresci na empresa! Tenho tanto direito quanto você. Aliás, você só gastou todo o dinheiro todos esses anos.

- Com caridade! – retruca Beatriz, jogando o abajur em Hugo. Ele consegue desviar, deixando o abajur se despedaçar na parede, o que aumenta mais a fúria de Beatriz - Seu babaca, insensível.

- Chega! Estou cansado disso! – grita Hugo, segurando Beatriz - Acabou!

- Ainda bem que não tivemos filhos, assim eles não veriam o pai vigarista que você é – dispara Beatriz fazendo força para sair das mãos de Hugo. Ela sabe que ter filhos é o que ele mais deseja e por isso as palavras irão machucá-lo. - Ainda bem que não cometi esse erro.

Ele a solta, como previra Beatriz, a jogando na cama. Os olhos negros de Hugo demonstram toda dor que sente ao ouvir aquelas palavras. Como ela pôde? Pensa, transtornado. Sem dizer uma palavra foi em direção à porta deixando Beatriz atônita na cama. Hugo jamais poderia imaginar que o relacionamento deles acabaria daquela forma.

****

Hugo vai para cozinha atrás da secretária do lar, Helena, uma senhora de sessenta anos que sempre trabalhou para a família de Beatriz. Ela está sentada conversando com o motorista, Antônio, um rapaz recém-contratado pelo casal.  

- Helena, por favor, vá até o meu quarto e faça minhas malas. E amanhã preciso que todas as minhas coisas estejam empacotadas. O endereço onde irá enviá-las é o do Jorge – informa Hugo olhando para os ímãs de geladeira. Ele procura um número de táxi. Geralmente era ali que Helena os deixava para ela mesma usar.

- Sim, senhor – responde Helena caminhando em direção ao quarto.

- Para onde o senhor quer que eu o leve? – pergunta Antônio, já em pé ao lado de Hugo.

- Para lugar nenhum, irei de táxi dessa vez – responde o patrão enquanto pega um número de táxi da geladeira.

Não sabe na verdade se vai para a casa de seu amigo ou para um hotel, mas naquele momento, qualquer lugar é melhor que a sua casa.

****

Quando Helena entra no quarto, encontra Beatriz chorando convulsivamente na cama.  

- Dona Beatriz não fique assim... – pede a empregada, sentando na cama - Logo  Seu Hugo vai voltar para casa novamente... Como sempre.

-Não, Leninha. – nega Beatriz entre soluços - Dessa vez não. Dessa vez é o fim. O fim de tudo! Ele já tem outra! Ele me trocou! 

- Ô Dona Beatriz,  isso passa. Tudo nessa vida passa. E vocês formam um casal tão unido. É só uma fase – levanta da cama - Vou arrumar as coisas do patrão.   

- Ele quer as coisas dele? – questiona Beatriz, brava, levantando da cama. Vai ao closet e começa a jogar todas as roupas e sapatos de seu marido - Então leve tudo! E o que não for, queime! EU não quero nada do Hugo nesta casa! Se ele não quer mais, eu muito menos! 

Helena olha para sua patroa, atônita, nunca vira Beatriz tão transtornada. Entra no closet e abraça Beatriz. Ela a conhece desde pequena e sempre tratou à jovem como se fosse à filha que nunca tivera.

- Acalme-se, Dona Beatriz. Isso é só uma fase – acaricia a cabeça de Beatriz - Tudo vai dar certo.

- Será, Leninha? Será mesmo? – questiona Beatriz entre soluços.

- O que for para ser, senhora, será – garante Helena.

Depois de muita resistência, finalmente Helena consegue colocar Beatriz na cama e começa a arrumar as coisas de Hugo, sob o olhar perdido da bela senhora Gouvêa Abraão.

****

 Quando Hugo sobe novamente, suas malas estão feitas e colocadas no meio da sala. Ele pensa em ir até o quarto dar um adeus a Beatriz, mas resolve que não, pois ela poderia implorar para que ele fique coisa que não está disposto a fazer, pelo menos não dessa vez.  Pega as suas coisas e sai, pela última vez, duplex.

Ao ouvir a porta da sala se fechando, Beatriz pensa em levantar, mas seu corpo não lhe obedece. Então ela deita em sua cama e volta a chorar. Deseja que tudo aquilo fosse somente mais um dos seus pesadelos.

Capítulo 2 Um ano depois…

As primeiras semanas foram bem fáceis para Beatriz, pois aquela não é a primeira vez em que Hugo saía de casa e diz que nunca voltará. Depois de três meses, os primeiros papéis para assinatura do divórcio chegaram e ela rasgou cada envelope sem abrir. A partir do quinto, ela passou a queimá-los. Até que começou a deixar acumular.

Ela passou a sair de casa para fazer somente o essencial, que incluía os eventos de caridade e ir à casa de sua mãe, Miranda Gouvêa, a quem sempre recorreu para saber o que fazer. O medo começa a tomar conta de sua mente, talvez dessa vez ele tomasse coragem e não voltaria.

- O que eu faço agora? Se ele não voltar... Eu não... Não sei o que fazer – comenta Beatriz tentando segurar as lágrimas. Sabe que sua mãe odeia drama, ainda mais em um restaurante.

- Mantenha a mesma postura de sempre: recuse. Uma hora ele cansa e percebe que esse divórcio não o beneficiará em nada. A imagem dele será destruída perante as todas as empresas do Rio de Janeiro. Isso eu garanto. – bebe um gole de seu suco e continua - Não demonstre emoção em público, querida. Você não quer aparecer nas revistas de fofoca, não é mesmo?

- Mas já faz um ano – começa Beatriz, sendo interrompida pela chegada do garçom com os pratos das duas. Assim que ele sai, ela continua - Já era para ele ter voltado para casa. Acho melhor eu ir atrás dele e pedir perdão...

- Não fará isso – interrompe Miranda demonstrando uma leve irritação pela fraqueza da filha. Corta sua salada e continua- Ele tem de ir atrás e não você. Ele é quem deve agradecer por você permitir que ele entrasse para a família.

- Eu sei, mas a Sônia acha que talvez seja o que ele deseja que eu vá atrás dele – murmura. Ela para de falar, pois lembra que não havia contado para mãe a respeito da conversa com sua melhor amiga.

- Eu disse para não contar a ninguém – repreende sua mãe a encarando - Como se atreve a expor essa situação?

- Ela é minha melhor amiga e você a conhece. A Sônia jamais contaria a alguém sobre meu casamento.

- Vamos ver. Mas o que ela sabe sobre casamento? Ela nem é casada, ainda. Escute o que eu estou falando: mantenha a mesma postura em que está agora e ele voltará para casa. Ele precisa mais de você do que o contrário, afinal não levará nada da nossa família. Era um pobre coitado e agora acha pode querer exigir algo. Se o seu pai estivesse vivo, daria um jeito nesse aproveitador. Alguém mais sabe sobre tudo isso?

- Não. Somente ela. Pedi total discrição. – garante.

Beatriz então olha para aquela bela senhora que agora come tranquilamente seu almoço. Ninguém diria que sua mãe já tinha cinquenta anos. Seus cabelos estão pintados de loiros em nada lembram os cabelos castanhos que tivera. A mesma cor dos de Beatriz, muitos conhecidos dizem as duas se parecem muito. Porém, sua mãe usava Botox para que as rugas não marcassem seu belo rosto. Coisa que a Beatriz não tem qualquer pretensão, já está com trinta e um anos recém-completados e não havia feito nenhum procedimento estético, diferente de muitas de suas amigas. Acha sua mãe uma mulher muito bonita e bem mais experiente que ela, porém não tem certeza de que esteja certa com relação a Hugo, mas não pretende contrariá-la.

Terminam de almoçar e Beatriz volta para o seu Duplex na Barra da Tijuca. Toda vez que entra, sempre lembra que foi ideia do Hugo, pois ele ama a praia e o apartamento fica bem de frente. Agora ela percebe o quão grande, vazio e frio é aquele lugar. Sente falta de seu esposo, quase pode vê-lo sentado no sofá da sala assistindo televisão, ou na varanda admirando a vista, ele se virando e sorrindo para ela... Beatriz sacode a cabeça, tentando apagar aquelas imagens, vai para o quarto, onde abre o closet: a parte de Hugo está vazia. Deita-se ali, como faz sempre durante todos aqueles meses. Um pensamento triste lhe ocorre: Talvez Hugo nunca mais volte.

****

- Dona Beatriz? – chama Leninha, batendo forte na porta da suíte da patroa - Dona Beatriz levante, são quase seis horas!

Mas Beatriz não quer levantar, bem como em todas as manhãs desde o término. Na verdade naquele dia ela não precisa acordar cedo, afinal é sábado.

- Dona Beatriz, a senhora precisa se levantar esqueceu que hoje é o jantar da Dona Sônia? O jantar de despedida de solteira! - informa a empregada preocupada.

Então Beatriz olha para o despertador em sua cabeceira. Realmente são seis horas, mas da noite! Como eu pude esquecer? E como irei me arrumar, pensa Beatriz nervosa.

- Leninha, entre! – ordena Beatriz saltando da cama - Rápido, me ajude a escolher algo para vestir! E o que farei com o cabelo?

- Acalme-se, Dona Beatriz. Use o vestido azul-marinho tomara que caia com a echarpe – vai até o closet pegar o vestido e a echarpe. Lá dentro sugere - Faça um coque meio solto, assim não fica parecendo que acordou agora. Use aquele conjunto de Safiras que seu Hugo lhe deu.

- Mas nem morta que vou com aquele conjunto. Pegue para mim o vestido verde bandeira, os scarpin pretos e o meu par de brincos de ouro dado pela minha mãe. Irei de coque... Oh, meu Deus! – exclama com as mãos na cabeça, desesperada - Esqueci-me do presente!

- Dona Beatriz, sua mãe já comprou. E já foram entregues – responde Leninha, colocando o vestido na arara do quarto para Beatriz.

-Agradeça-a, por favor – senta na penteadeira. Assim que olha para seu reflexo no espelho da penteadeira, exclama – Nossa como estou péssima!

-Desculpe-me se isso pareceu atrevimento, mas chamei a Dona Lizz para fazer sua maquiagem – confessa Leninha, colocando suas mãos rechonchudas nos ombros de Beatriz - A senhora precisa estar belíssima nesse jantar. Quem sabe conhecer alguém.

- Obrigada, Leninha, você sempre acerta. É como se fosse minha mãe – elogia, enquanto segura à mão de sua secretária - O que seria de mim sem você?

- A senhora continuaria sendo a Beatriz Gouvêa Abraão... Desculpe-me. – pede a empregada, se lembrando que o último sobrenome pertence ao Hugo.

- Tudo bem, Leninha, eu ainda sou a Senhora Abraão, ele gostando ou não – vira para o espelho novamente - Tenho de estar linda para que chegue aos ouvidos dele o quanto estou bem.

- E por falar nisso, o senhor mandou novamente aqueles papéis para a senhora. Eu os deixei em sua mesa.

- A minha resposta continua sendo a mesma: Não vou dar-lhe o divórcio. Se ele quer falar comigo que venha até aqui. Agora chame a Lizz, por favor.

Enquanto Leninha ia chamar Lizz, sua hair stylist, Beatriz olha para o espelho encarando a sombra da mulher que foi um dia. Ele tirou tudo de mim, até minha beleza. Eu não vou ceder tão fácil, não cometerei o mesmo erro duas vezes. Se eu não posso ser feliz, ele muito menos.

****

Lizz é uma excelente hair stylist, apesar de sua total falta de bom senso. Já está terminando de arrumar os cabelos castanhos de Beatriz, quando a bela jovem de cabelos vermelhos estilo Chanel, não resiste e começa a falar:

- Espero que goste do penteado. Fiz bem diferente da nova namorada do Hugo – dispara, olhando para Beatriz com seus grandes olhos verde enquanto a vira para ver o penteado. - Não se preocupe, seu segredo está muito bem guardado.

- Como soube disso? – pergunta Beatriz, preocupada, a encarando pelo espelho.

- O Hugo me ligou pedindo para arrumar sua acompanhante para um jantar hoje de casamento – responde, passando o batom nos lábios de Beatriz. - Acho que eles vão ao mesmo lugar que você.

- Impossível – retruca imediatamente Beatriz - Eu vou a um jantar de despedida de solteira da minha melhor amiga. Ele provavelmente irá para outro evento. Diga-me, como ela é?

- Não se preocupe, ela é bem diferente de você. Demorei horas para deixá-la razoável – sorri, passando a mão nos cabelos vermelhos - Espero que essa saia justa não aconteça.

- Não vai acontecer – responde Beatriz, secamente, olhando para sua imagem no espelho. Ela gostaria muito de acreditar que a mulher não era bonita, porém sabe que Lizz pode ter dito a mesma coisa para a outra, afinal, assim ela garante uma nova cliente. - Ele não ousaria levá-la para a festa da minha amiga. É falta de educação.

- Sem dúvida – concorda Lizz, se afastando para visualizar o seu trabalho. Ela bate palmas - Magnífica!

Então Beatriz sorri, mas em sua mente permanece aquela amarga possibilidade.

Capítulo 3 Quando Beatriz chega ao Copacabana Palace...

Percebe o quão o evento está lotado de homens e mulheres. Mas não é um jantar de festa de solteira? Deveria ter só mulheres aqui, pensa enquanto procura a noiva. Estremece só de pensar que pode estar no local errado.

Depois de muito procurar, enfim encontra Sônia perto do bufê com um grupo de pessoas e percebe que há muito não a via. Agora sua amiga usa os cabelos longos e naturalmente ruivos, está com a silhueta mais esbelta, ou talvez fosse o belo vestido verde rendado tomara que caia que dava esse efeito. Sônia está sorrindo mostrando seu anel de noivado a um casal quando percebe a presença da amiga. Bia não pôde deixar de notar que sua amiga ficou tensa assim que a viu. Então decide apontar para o banheiro feminino mostrando que iria esperá-la e o que obteve foi um leve aceno de cabeça.

Chegando ao banheiro, Sônia encontra Beatriz olhando atentamente para o espelho, e zomba sorrindo:

- Está um pouco velha para brincar de sério com o espelho, Bibi – abraça a amiga - Que saudades eu estava de você! Achei que não viesse hoje.

- Eu sei que tenho sido relapsa com você, minha amiga, mas é que tenho passado por um momento difícil e você, melhor que ninguém, sabe disso – explica, segurando as mãos de Sônia. - Mas não vamos falar de mim. Olha você está de linda! Uma diva! Quem fez isso? Diga o nome para eu ir fazer uma consulta.

- Obrigada, mas isso tudo aqui é puro amor... – passando as mãos ao lado do corpo - e 30 mil reais. Você realmente está bem? – pergunta Sônia fazendo cara de preocupada - Olha, se você quiser ir embora, Bibi, eu compreendo, sua cara está condenando que não quer estar aqui.

- Sô, eu quero ficar – responde encarando a amiga com um sorriso amarelo - Você sabe que se fosse o contrário, eu nem estaria aqui.

- Tem certeza? Talvez meu jantar não lhe faça bem – reforça enquanto afasta de Beatriz, para olhar e arrumar os cabelos que estavam de lado no espelho

- Aliás, não era para ser uma despedida de solteira? – questiona Beatriz encarando a amiga.

- Sim, era. Porém o Jorge achou melhor que fizéssemos um jantar de ensaio para que TODOS os nossos amigos pudessem participar – responde Sônia observando a amiga pelo espelho - Eu não quero que fique para baixo.

- O que quer dizer com isso? Tem algo que está me escondendo Sônia? – pergunta Bibi, desconfiada, apoiando na pia para fixar o olhar em Sônia. Sua amiga abaixa a cabeça a fazendo entender o que está acontecendo- Hugo também está na festa? Ele está aqui, não é?

- Sim... E veio acompanhado – responde Sônia, olhando para Bibi pelo espelho na defensiva - O que eu poderia fazer? Ele é amigo do Jorge, melhor amigo. Assim como você é minha melhor amiga! A gente não pode eliminar um ou outro. A gente não sabia que vocês iriam se separar...

- Acompanhado? Mas nós estamos casados! Imagine o que as pessoas vão dizer! O nome da minha família saindo nas capas das revistas de fofocas será um desastre! – reage Beatriz ignorando o pedido de desculpas de Sônia - Onde ele está? Em qual mesa? E quem é a amante, ordinária, que está com ele?

- Amante? Bibi, vocês não se falam tem um ano! Vocês não estão mais juntos! E isso está bem claro para todos aqui – repreende Sônia segurando os braços da amiga - Por favor, não crie confusão com ele, está bem? Esse jantar é importante para mim e para o Jorge.

- Eu? Causar confusão? Já pediu isso para ele? – pergunta Beatriz, revoltada, apontando para a porta. Ela se sente injustiçada por Sônia pedir uma coisa daquelas. - Não fui eu quem trouxe um acompanhante para a festa, pois jamais vou fazer isso com você. Agora ele...

- Já pedi – interrompe Sônia, se afastando da amiga. Ela coloca uma das mãos no ombro de Beatriz. Sabe que a reação de Bibi poderá ser pior depois do que está prestes falar - E como eu sei que você não está saindo com ninguém, eu a coloquei na mesa dos solteiros. Tem uma pessoa que está ansiosa para lhe ver... Ou melhor, rever.

-Eu sou uma mulher casa, Sônia. – retruca Bibi, ríspida.

- Amiga... – tenta argumentar Sônia sendo interrompida pela porta do banheiro sendo aberta.

- Quem ousa tirar a estrela principal do salão? – questiona a mulher de meia idade que entrou no banheiro - Filha, tem convidados a sua espera.

- Olá, Margout – cumprimenta Beatriz a senhora que é mãe de Sônia - Desculpe a indelicadeza, mas tive de ser egoísta para conseguir conversar com minha melhor amiga.

- Mas você teve e terá muitos dias para conversar com ela, Bibi. Acho que seu marido deve estar preocupado com sua ausência à mesa – comenta a senhora sorrindo enquanto alfineta Beatriz.

- Mamãe! – repreende Sônia.

-Sem dúvida Margout, nós já terminamos por agora – responde se afastando de Sônia. Esforça-se para que as próximas palavras saíssem as mais firmes possíveis. - Eu vou só retocar a maquiagem e irei para minha mesa.

- Só não demore muito, Bibi, não quero que perca o brinde. Afinal você tem um discurso a fazer – informa Sônia enquanto faz um olhar de desculpas.

Após as duas saírem, Beatriz senta no banco de madeira, pensando em como suportaria aquela noite.

****

- Martini, Senhora? – pergunta o garçom para Beatriz.

- Sim, por favor – responde Bibi entregando sua sexta taça para ele com um sorriso débil - E não pare de trazer! Eu lhe proíbo... Proíbo de me abandonar... Você não pode me abandonar... Sério, não pode.

O garçom olha sem jeito para Beatriz que o segura pela manga da camisa. Ele acena freneticamente que sim, implorando que ela o solte. Bia então o solta lhe dando um largo sorriso.

- Bom garoto... Bom garoto – elogia virando para a mesa. Todos os que estão sentados ali olham para Beatriz, horrorizados com sua atitude. Então ela levanta a taça para o centro da mesa - Um brinde a todos os que o cerimonialista colocou erroneamente nessa mesa! Que é o meu caso Ahahaha... Vamos brindar gente... Sério... Nossa, vocês... Vocês... São muito para baixo... Igual ao meu marido... Pois é... Eu tenho marido... Colocaram-me errado aqui... Eu devia... Devia estar em outra mesa... Eu disse para Sônia que isso ia acontecer... Sabe... Eu sei que fui uma péssima madrinha... Mas eu não teria... Não teria contratado esse, pessoal... Agora vê se pode... Colocar uma mulher casada em uma mesa de solteiros.

Por mais que ela tente se enganar dizendo que está na mesa errada, todos sabem a verdade. Então decide olhar para o salão e procurar por Hugo e sua acompanhante. Deseja circular no salão para saber onde estão sentados. Cada homem que passa com o porte físico de seu marido, chama sua atenção, enquanto toma seu Martini. Onde será que ele está? Pensa impaciente.

- Os noivos estão para o outro lado. Ou está me procurando?

- Na verdade, não estava à procura dos noivos... Eles não estão perdidos para eu ter de procurá-los – responde Bia, se virando sorrindo. - Muito menos à sua procura, Flávio.

Flávio Peixoto Wilkinson, ou lorde Wilkinson, é o próximo duque de Wilkinson de sua família britânica e primo de Sônia. Seus olhos verdes já fizeram Beatriz suspirar quando mais jovem. Foi o seu primeiro beijo, bem como foi o primeiro de muitas garotas.

- Tudo bem – concorda Flávio tomando a taça das mãos de Beatriz - Acho melhor se controlar um pouco, Bee, se não desperdiçará o belo champanhe do brinde.

- Eu sei me controlar, Flávio... Diferente de você na minha festa de aniversário. – alfineta, tomando a taça da mão dele - Eu aposto que foi a Sô que mandou você aqui, não foi?

- Você conhece bem a Sô, ela anda bem preocupada. – explica Flávio que se senta à mesa. - Na verdade, eu também...

- Ahahaha, Flávio, você preocupado? – questiona Bibi que dá um gole na bebida o encarando - Essa eu pago pra ver. Logo você que só olha para o próprio umbigo.

- Para você perceber a gravidade da situação. – responde Flávio passando a mão nos belos cabelos loiros - Eu realmente estou preocupado com você. – finaliza encarando Beatriz.

- Eu prefiro você sendo egoísta. Conte-me da sua vida... Como está a Inglaterra? Já se mudou para lá? – pergunta Bia mudando de assunto.

- A Inglaterra está fantástica. Ainda não me mudei, pois tenho umas coisas inacabadas aqui no Brasil.

- Você é o homem mais sortudo do mundo, sabia? Tem tudo o que sempre quis. Um emprego que te permite ficar em dois países, além de conhecer outros. E o melhor, não ama ninguém. Sério, se eu fosse homem, queria ser você – comenta enrolando a língua ao falar a última palavra.

- Na verdade eu ainda não tenho tudo o que quero – confessa tocando na mão de Beatriz. Seus olhos verdes a encaram que fica vermelha na hora. - Eu vou pegar um aperitivo para nós. Não queremos ficar altos antes do brinde.

Beatriz tem certeza que com "Nós", ele quis dizer "Ela". Enquanto Fábio se afasta, Beatriz se vira, encontrando Hugo no salão. Ele está conversando com algumas pessoas enquanto abraça uma mulher loira de cabelos curtos enrolados e o corpo mais cheio de curvas do que o dela. Como por impulso, não sabe se é da bebida ou de vontade própria, ela pega sua taça e vai em direção aos dois.

- Olá, meu amor! – cumprimenta efusivamente, fazendo Hugo virar em sua direção - Até que enfim te encontrei! Você acredita que o cerimonialista me colocou no lugar errado. Onde estamos sentados? – pergunta segurando no braço de seu marido.

Hugo afasta seu braço gentilmente dando leves tapinhas na mão de Beatriz. Sua expressão está calma, porém seus olhos estão gélidos.

- Olá, Beatriz – cumprimenta Hugo, secamente. Vira-se para os demais - Peço licença a todos, preciso falar com minha Ex-mulher – explica enfatizando o ex.

Dá um beijo em sua acompanhante, dizendo algo em seu ouvido e se retira com Beatriz para o lobby.

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