Eu, Sofia, a chef que transformou o restaurante de Marcos num sucesso, dei-lhe tudo: talento, amor, e anos da minha vida.
Mas acordei num hospital, a cabeça a latejar, para ouvir a voz dele, do homem que eu amava, a planear roubar-me um rim para a sua amante, Lorena.
Cada palavra era uma facada: a década de enganos, o aborto forçado, a exploração do meu trabalho, a sedução, o plano para me despojar de tudo.
Ele mentiu descaradamente sobre uma "complicação gástrica", e depois, com uma arrogância inacreditável, propôs-me casamento, só para me abandonar de imediato pela Lorena, a sua prioridade.
Nem o meu sangue, que o salvou de um acidente, o despertou.
Ele continuava a ver-me como um objeto descartável, pedindo as minhas receitas e as chaves do meu carro para a amante, enquanto eu as ouvia planear a minha humilhação final e a sua própria fortuna.
A dor física era um mero eco da traição que me destruía por dentro. A humilhação era esmagadora.
Mas a Sofia ingénua, a vítima que eu fora, estava morta.
Com uma raiva fria e uma determinação gelada, peguei no telemóvel.
"Tiago Albuquerque? Preciso de uma proposta. Em Lisboa. Quero sair daqui."
Do outro lado da linha, a sua voz calma prometeu: "Uma nova vida."
Sofia acordou com a cabeça a latejar, a boca seca.
O quarto estava escuro, apenas uma fresta de luz vinha do corredor.
Lembrou-se de Marcos a dar-lhe um comprimido.
"Um calmante, meu amor. Para dormires bem."
A sua voz soava distante na memória.
Ouviu vozes baixas do outro lado da porta.
Marcos. E Carlos, o seu amigo e enólogo.
"Ela vai ficar bem, Carlos. É forte."
A voz de Marcos era tensa.
"Um rim não é brincadeira, Marcos. E para a Lorena? Depois de tudo?"
Carlos parecia preocupado.
O coração de Sofia parou. Um rim? Para Lorena?
"Eu compenso-a," disse Marcos, a voz mais firme. "Peço-a em casamento. Dou-lhe o restaurante que ela sempre quis. Ela nem vai desconfiar de nada."
Compensá-la? Com um casamento? Um restaurante?
Pelo seu rim?
Sofia sentiu o corpo gelar.
A traição era uma lâmina fria a afundar-se no seu peito.
Anos de dedicação, de sacrifícios.
O estágio em Paris que abandonou para o ajudar a reerguer o restaurante da família dele.
O dinheiro que emprestou, as noites em branco na cozinha.
O filho que ele a fez abortar.
"Lorena não está preparada para ser mãe agora, Sofia. E eu também não. Depois, quando estivermos estáveis."
As palavras dele ecoaram na sua mente, cruéis e falsas.
Tudo por ele. Por Marcos.
E agora, ele planeava roubar-lhe uma parte do corpo. Para a sua rival.
A mulher por quem ele sempre fora obcecado.
A náusea subiu-lhe pela garganta.
Queria gritar, mas a voz não saía.
A porta abriu-se devagar.
Marcos entrou, um sorriso forçado nos lábios.
"Meu amor, acordaste. Como te sentes?"
Sofia olhou para ele, os olhos a arder.
"O que aconteceu?" conseguiu sussurrar.
"Tiveste uma complicação gástrica grave, querida. Os médicos tiveram de intervir. Mas vais ficar bem."
Ele mentiu. Mentiu descaradamente.
A dor na lateral do seu corpo era aguda, real.
Não era uma complicação gástrica.
Ele pegou na mão dela. Sofia sentiu repulsa.
"Preciso de ir," disse ele, desviando o olhar. "Lorena não está bem. Vou acompanhá-la numa viagem de tratamento urgente. Mas volto logo."
Claro. Lorena. Sempre Lorena.
Ele beijou-lhe a testa e saiu.
Deixou-a ali, mutilada e enganada.
As lágrimas finalmente vieram, quentes e amargas.
O seu mundo, construído sobre um amor que agora via ser uma farsa, desmoronava.
Sozinha, no quarto frio do hospital, uma raiva fria começou a crescer por baixo da dor.
Ela não ia ser a vítima para sempre.
Pegou no telemóvel com a mão trémula.
Procurou um nome na lista de contactos. Tiago Albuquerque.
O crítico gastronómico que elogiara o seu trabalho num festival há anos. Um contacto distante, quase esquecido.
Ele vivia em Lisboa. Longe.
Respirou fundo.
"Tiago?" A sua voz era fraca.
"Sofia? Que surpresa agradável. A que devo a honra?" A voz dele era quente, profissional.
"Preciso de uma proposta. Uma parceria. Em Lisboa." As palavras saíram num jorro. "Quero sair daqui."
Houve um silêncio do outro lado da linha. Curto, mas intenso.
"Sofia," disse Tiago, a voz agora mais séria, mas com um tom que ela não conseguiu decifrar. "Eu aceito. E ofereço mais do que uma parceria. Ofereço-te uma nova vida."
Uma nova vida.
Aquelas palavras ecoaram no vazio do seu desespero.
Talvez houvesse uma saída.
"Uma nova vida?" Sofia repetiu, a voz ainda fraca. "O que queres dizer com isso, Tiago?"
"Quero dizer que te admiro há muito tempo, Sofia. Desde aquele festival. O teu talento é imenso. Mereces mais do que tens tido."
Havia uma sinceridade na voz dele que a surpreendeu.
"Lisboa pode ser um novo começo. Tenho contactos, investimentos. Podemos abrir algo teu, algo que reflita a tua alma."
A alma dela. O que restava dela?
"Mas há condições, Sofia," continuou Tiago, o tom agora firme. "Quero exclusividade profissional. E quero que venhas de mente aberta, pronta para deixar o passado para trás."
Deixar o passado para trás. Era tudo o que ela mais queria.
"Eu aceito," disse Sofia, sem hesitar.
A decisão estava tomada.
Os dias seguintes no hospital foram um borrão de dor física e emocional.
Marcos ligava raramente. Mensagens curtas.
"Lorena está a reagir bem ao tratamento. Estou a tratar de tudo. Descansa."
Nenhuma pergunta sobre ela. Nenhuma preocupação genuína.
Carlos apareceu uma vez. Trazia flores.
"Ele não te merece, Sofia," disse ele, os olhos tristes. "Sempre te disse."
Sofia apenas acenou. Sabia que ele tinha razão.
Quando finalmente teve alta, sentia-se um fantasma.
O apartamento que partilhava com Marcos parecia frio, impessoal.
Ele não estava lá para a receber.
Uma semana depois, Marcos regressou. Bronzeado, sorridente.
Como se nada tivesse acontecido.
"Meu amor, que saudades!" Ele abraçou-a, mas Sofia não sentiu nada.
"Tenho uma surpresa para ti."
Ele levou-a ao vinhedo da família, um lugar que antes fora especial para ambos.
No meio das videiras, sob um arco de flores, ele ajoelhou-se.
Tirou uma caixa de veludo do bolso. Um anel de diamante enorme.
"Sofia Azevedo, queres casar comigo?"
A cena era digna de um filme romântico.
Mas para Sofia, era uma farsa cruel.
Ele queria comprar o seu silêncio, a sua complacência, com um anel e uma promessa vazia.
Antes que ela pudesse responder, um grito veio de perto.
"Marcos! Ai, Marcos, ajuda-me!"
Lorena. Claro.
Apareceu a mancar, o rosto pálido, agarrada ao braço de uma empregada.
"Acho que torci o tornozelo. Ai, que dor!"
Marcos levantou-se de um salto, a preocupação a tomar conta do seu rosto.
Correu para Lorena, esquecendo-se de Sofia, do anel, do pedido.
"O que aconteceu, meu anjo? Calma, estou aqui."
Ele pegou Lorena ao colo com cuidado, como se ela fosse feita de porcelana.
Lorena olhou para Sofia por cima do ombro de Marcos.
Um sorriso subtil, triunfante, brincava nos seus lábios.
"Desculpa, Sofia. Acho que estraguei o momento." A voz dela era falsamente arrependida.
Marcos levou Lorena para casa, deixando Sofia sozinha no vinhedo.
O anel ainda estava na caixa aberta, no chão.
Brilhava sob o sol, um símbolo da sua humilhação.
Ela não o apanhou.