Por cinco anos, sufoquei meu sangue real de Loba Branca para ser a "Companheira Escolhida" de Samuel, esperando por uma Marca que nunca veio. Cortei laços com minha família poderosa, aceitando um certificado de papel em vez de um vínculo de alma, tudo porque eu o amava.
Mas meu sacrifício não valeu nada. Samuel trouxe sua amante, Lívia, e uma criança para dentro da nossa casa, forçando-me a aceitá-las. Ele alegou que a criança era dele porque eu era "estéril", me humilhando para proteger seu ego frágil.
A traição se tornou mortal durante o café da manhã. Lívia colocou Acônito na minha comida, depois cortou o próprio peito para me incriminar. Quando Samuel entrou correndo, ele não checou os fatos. Ele me prensou contra a parede pelo pescoço, ignorando minhas vias aéreas inchando enquanto o veneno fazia efeito.
"Se ela morrer, você morre."
Ele me jogou no chão como lixo e correu com a amante para o hospital, me deixando sufocar sozinha. Tive que me arrastar até meu quarto, arranhando o piso, para alcançar o antídoto que meu pai me dera anos atrás. Enquanto eu vomitava a toxina, o último resquício do meu amor por ele foi expurgado junto.
Levantei-me e caminhei até o jardim de rosas no quintal - o símbolo do nosso casamento. Reguei tudo com gasolina e risquei um fósforo.
Antes que a Guarda Real chegasse para me levar para casa, prendi uma carta de rejeição na porta da frente com uma adaga.
"Eu rejeito você, Samuel. E a propósito, verifique seus arquivos médicos antigos. É você quem é estéril."
Capítulo 1
Ponto de Vista de Eva:
O papel parecia leve demais em minhas mãos. Era um pergaminho de alta qualidade, gravado com o selo dourado da Alcateia Lua Branca, certificando que eu, Eva, era a "Companheira Escolhida" do Alfa Samuel.
Em nosso mundo, a Deusa da Lua geralmente dá as cartas. Companheiros Predestinados, ligados pela alma e pelo cheiro. Mas para os azarados, a lei permite uma "Companheira Escolhida" - um vínculo legal, uma promessa de lealdade, geralmente seguida por uma cerimônia de Marcação.
Cinco anos. Eu estava encarando este certificado há cinco anos. E meu pescoço continuava intacto.
"Eva? Você está lá em cima?"
A voz de Samuel flutuou do corredor. Minha audição, mais aguçada que a de um humano, mas fraca para uma loba da minha linhagem, captou o passo pesado de suas botas. Eu havia suprimido minha loba por ele. Cortei laços com minha família poderosa para ficar com ele, um simples Alfa de Alcateia que dizia me amar.
Fui até a porta, pretendendo cumprimentá-lo, mas parei quando ouvi uma segunda voz. Era Jonas, seu Beta.
"Os Anciãos estão pressionando de novo, Alfa", Jonas sussurrou com urgência. "Eles querem um herdeiro. Estão perguntando por que a Luna não produziu um filhote em cinco anos."
Prendi a respiração. Essa era minha vergonha. Os médicos diziam que minha loba estava adormecida, meu ventre frio.
"Deixe que perguntem", a voz de Samuel foi desdenhosa.
"Mas o certificado..." Jonas hesitou. "Se ela descobrir que nunca foi arquivado no Conselho Lycan... que é apenas um cenário..."
"Ela não vai", Samuel retrucou. "Ela está cortada de sua família real. Ela não tem ninguém além de mim. Preciso do prestígio da linhagem dela para segurar esta Alcateia, Jonas. Mas preciso de um herdeiro também. É por isso que temos a Lívia."
Lívia. A Ômega frágil e doce que trabalhava no orfanato da alcateia.
"Lívia e a filhote estão bem", Samuel continuou, sua voz suavizando. "Tenho que ir vê-las. Temos que manter a mentira, Jonas. Eva é o troféu estéril. Lívia é a mãe real."
Meus joelhos cederam. Não caí, mas afundei contra o batente da porta. Minha loba interior, que dormia há anos, se agitou.
O certificado em minha mão amassou quando fechei o punho. Uma farsa. Um cenário.
Ouvi Samuel subindo as escadas. Levantei-me rapidamente, jogando o papel na gaveta. Quando ele abriu a porta, eu estava parada perto da janela, tremendo.
"Eva?" Samuel entrou, seu rosto se arranjando em uma máscara de preocupação. Ele cheirava a pinho da floresta - o cheiro dele - "Você parece pálida, querida."
Ele estendeu a mão para mim. Eu recuei.
"Estou bem", consegui dizer, embora minha voz soasse oca. "Apenas... pensando em nós."
"Nós?" Ele sorriu, aquele sorriso charmoso e confiante que me enganou quando eu tinha vinte anos.
"Deveríamos ir ao Cartório", disse eu, observando seus olhos. "Deveríamos dar entrada na Cerimônia de Acasalamento oficial. Os Anciãos estão falando, Samuel. Uma Marca os silenciaria."
Os olhos de Samuel desviaram para a esquerda. Uma microexpressão de aborrecimento. "Agora? Eva, você sabe como as disputas de fronteira estão ocupadas. Os Renegados estão inquietos."
"Levaria uma hora", insisti.
"Mês que vem", ele prometeu, beijando minha testa. Seus lábios pareciam gelo. "Eu prometo. Agora, tenho que ir. Jonas diz que há um problema na fronteira norte."
O telefone dele vibrou.
"Tenho que ir", disse ele, fingindo urgência. "Não me espere acordada."
Ele saiu apressado.
Eu não esperei. Peguei as chaves do meu carro.
Eu sabia onde ficava a "fronteira norte".
Dirigi até o orfanato da alcateia, um prédio de tijolos desgastados na periferia da cidade. Estacionei atrás de um bosque de árvores.
O SUV preto de Samuel estava lá.
Ele não estava lutando contra Renegados. Ele estava parado na varanda. A porta se abriu e Lívia saiu. Ela não se parecia nada comigo. Eu era alta, com traços fortes do norte. Ela era pequena, macia.
Ela se jogou nos braços dele.
Assisti, sentindo uma dormência fria se espalhar pelo meu peito, enquanto meu marido enterrava o rosto no pescoço dela. Ele inalou profundamente.
"Senti sua falta", ouvi ele dizer. Minha audição estava focando, a adrenalina aguçando meus sentidos.
"Você contou a ela?" Lívia perguntou, afastando-se.
"Ainda não. Seja paciente, bebê", Samuel acariciou o cabelo dela.
Uma garotinha, não mais velha que quatro anos, correu porta afora. "Papai!"
Meu coração parou.
Samuel se virou, o rosto iluminado com alegria genuína. Ele pegou a criança no colo. "Ei, Nina. Você foi uma boa menina para a mamãe?"
Mamãe.
A palavra pairou no ar, pesada e tóxica.
"Ela é nossa Luna", disse Samuel para Lívia, olhando para a criança, depois para ela. "Ninguém pode tirar nossa filhote. Eva é apenas... o espaço reservado. Ela paga as contas, Lívia. Você segura meu coração."
Abri a porta do carro. Não bati. Apenas saí.
Caminhei em direção a eles. O cascalho estalava sob minhas botas.
Samuel olhou para cima. A cor sumiu de seu rosto tão rápido que ele parecia um cadáver. Ele colocou a criança no chão, instintivamente se colocando na frente de Lívia.
"Eva", ele engasgou.
Parei a um metro e meio de distância. Olhei para ele, depois para Lívia, depois para a criança que tinha o nariz dele.
"Então", eu disse, minha voz tremendo com uma raiva tão fria que queimava. "Este é o problema da fronteira norte?"
Ponto de Vista de Eva:
"Eva, espere, deixe-me explicar!" Samuel deu um passo à frente, mãos levantadas. Ele soltou um rosnado baixo, um uso sutil de seu tom de Alfa destinado a fazer os membros da alcateia se submeterem. "Acalme-se."
Geralmente, a voz do Alfa faria meus joelhos tremerem. Mas hoje, a raiva no meu sangue agia como um escudo.
"Não", avisei. "Não se atreva a usar sua Voz comigo."
Olhei para a criança, Nina. Ela estava se escondendo atrás das pernas de Lívia. Respirei fundo, deixando o ar fluir sobre minhas glândulas olfativas.
Samuel cheirava a medo e almíscar. Lívia cheirava a baunilha e leite. E a criança...
Franzi a testa. A criança cheirava a Samuel. Era uma camada espessa de cheiro. Mas por baixo disso... não havia ligação genética.
Lobos podem cheirar laços de sangue. É biológico. Um pai e uma filha compartilham uma ressonância subjacente específica. Nina não tinha isso.
"Ela te chama de papai", eu disse calmamente. "Mas ela não tem o cheiro do seu sangue, Samuel."
Samuel congelou. Seus olhos dispararam para Lívia.
Lívia imediatamente caiu no choro. "Como você pode dizer isso?" ela soluçou, puxando Nina para mais perto. "Só porque você não pode ter filhos, Luna Eva, não significa que deva negar a nossa! Você é tão invejosa assim?"
"É verdade, Eva", Samuel disse rapidamente, agarrando-se à mentira. "Nina é minha. Eu... eu cometi um erro cinco anos atrás. Antes de sermos 'Escolhidos'. Eu não queria te machucar."
Ele estava mentindo. Eu podia sentir o cheiro acre do engano emanando dele. Ele não estava com medo de que eu o deixasse por traição; ele estava com medo de que eu fosse embora e levasse a influência da minha família comigo. Meu pai era um Alfa Líder. Samuel usava essa conexão para empréstimos e respeito.
"Você está mentindo", eu disse. "E você é patético."
"Mamãe, estou com medo", Nina choramingou.
"Está tudo bem, bebê", Lívia arrulhou, me fuzilando com o olhar através das lágrimas. "A moça má só está chateada porque ela é vazia por dentro."
Algo dentro de mim se partiu.
"Quero que você processe os papéis de adoção", eu disse, minha voz desprovida de emoção. "Se ela é sua filha, torne isso legal. Pare de escondê-la como um segredo sujo."
"Eu... sim, claro", Samuel gaguejou, claramente confuso com minha mudança repentina. "Eu farei isso."
"Vou para o carro", eu disse. "Não me siga."
Virei as costas. Enquanto me afastava, o vento carregou os sussurros de dois lobos de baixa patente limpando o pátio do orfanato.
"Você ouviu? O Alfa e a Lívia são registrados na Alcateia Riacho Vermelho. Companheiros reais. Dizem que ele só está esperando a Luna morrer ou ir embora."
Minhas mãos apertaram o volante até meus nós dos dedos ficarem brancos. A Alcateia Riacho Vermelho. Ele tinha um certificado real lá.
Sentei no banco do motorista, o silêncio do carro ensurdecedor. Alcancei o porta-luvas e peguei um celular descartável que eu mantinha para emergências. Disquei um número que não ligava há cinco anos.
A tela piscou e uma chamada de vídeo conectou.
Um rosto apareceu. Severo, com cicatrizes, com olhos cinzentos como uma tempestade de inverno.
"Eva?" A voz era profunda, retumbando como um trovão.
"Pai Alfa", sussurrei. Minha garganta apertou. "Eu... eu quero voltar para casa."
Meu pai, o Alfa da Alcateia Real do Norte, inclinou-se para mais perto da câmera. Ele viu meus olhos vermelhos, o tremor dos meus ombros. Um rosnado baixo começou em seu peito.
"Quem fez isso?" ele exigiu. "Foi aquele vira-lata com quem você se casou?"
"Cometi um erro, papai", solucei, a primeira lágrima finalmente caindo. "Não sou estéril. Ele... ele mentiu. Tudo é uma mentira."
"Arrume suas coisas", meu pai ordenou. "Estou enviando a Guarda de Elite. Eles estarão aí em dois dias. Não deixe ele tocar em você."
"Não vou", prometi.
"E Eva?"
"Sim?"
"Deixe sua loba acordar. Você é uma Loba Branca. Nós não nos curvamos para o lixo."
A chamada encerrou. Olhei no espelho retrovisor. Meus olhos, geralmente de um azul suave, estavam brilhando com um traço momentâneo de prata.
Dirigi de volta para a casa da Alcateia. Esperava que Samuel ficasse longe.
Mas na manhã seguinte, desci as escadas para encontrá-los lá. Samuel, Lívia e Nina. Sentados à minha mesa de jantar. Comendo panquecas.
"Bom dia, Eva", disse Samuel, sua voz forçando normalidade. "Eu os trouxe aqui. Pensei... já que você sabe, poderíamos tentar ser uma família. Pelo bem da Alcateia."
Ponto de Vista de Eva:
O cheiro de bacon e ovos enchia a cozinha, geralmente um aroma reconfortante, mas hoje fazia meu estômago revirar.
"Sente-se, Eva", disse Samuel, puxando uma cadeira. Ele estava agindo como o Alfa benevolente, forçando harmonia onde só havia traição. "Lívia fez o café da manhã."
Lívia levantou os olhos do prato, inocentes e arregalados. Ela estava usando um dos meus roupões de seda antigos. "Espero que não se importe, Luna. Eu não tinha nada confortável para vestir."
Encarei o roupão. Foi um presente da minha mãe.
"Tire isso", eu disse.
"Eva!" Samuel bateu a mão na mesa. "Seja razoável. É apenas tecido."
"Eu quero que a mamãe e o papai durmam comigo hoje à noite!" Nina anunciou alto, batendo a colher.
Lívia a fez calar, mas lançou um sorriso presunçoso em minha direção. "Shiu, Nina. A Luna é sensível."
Ignorei-os e sentei-me, principalmente porque minhas pernas pareciam fracas. Minha loba andava de um lado para o outro dentro da minha mente, arranhando as paredes da minha consciência, exigindo sangue. Ainda não.
"Aqui", disse Lívia, deslizando uma cesta de pães em minha direção. "Assei este pão especial. Tem erva-doce nele. Minha avó costumava dizer que ajuda com... problemas de fertilidade."
O insulto veio embrulhado em um sorriso.
Olhei para o pão. Parecia dourado e macio. Erva-doce era comum, inofensiva.
"Não estou com fome", eu disse.
"Por favor, Eva", Samuel suspirou, parecendo exausto. "Lívia está tentando fazer as pazes. Coma o pão. Mostre-me que você pode ser uma Luna que aceita sua Alcateia."
Aceita sua Alcateia. Ele queria dizer aceita sua infidelidade.
Estendi a mão. A ponta dos meus dedos roçou a crosta do pão.
Instantaneamente, uma sensação aguda e ardente subiu pelo meu braço. Parecia que eu tinha tocado em um fio desencapado. Minha pele queimou.
Puxei minha mão de volta.
"O que há de errado?" Samuel perguntou.
Encarei o pão. Minha loba rosnou.
"Isso não é erva-doce", sussurrei, olhando para Lívia. O sorriso dela vacilou por uma fração de segundo.
"Claro que é", disse Lívia, a voz trêmula. "Eu mesma colhi."
"É Acônito", eu disse, minha voz subindo.
Acônito. Mortal para a nossa espécie. Em pequenas doses, causa doença e aborto espontâneo. Em grandes doses, fecha a garganta e para o coração.
"Você está louca!" Samuel levantou-se. "Acônito? Na cozinha? Eva, seu ciúme te deixou insana."
"Toque, Samuel", desafiei-o. "Se é erva-doce, coma."
Samuel hesitou. Ele olhou para o pão, depois para Lívia. Os olhos de Lívia estavam cheios de lágrimas novamente. "Ela está me acusando de tentar matá-la! Samuel, não posso ficar aqui! Ela é perigosa!"
"Ela é perigosa", concordou Samuel, olhando para mim com nojo. "Eva, você está perdendo a cabeça."
"Eu posso sentir o cheiro!" Eu gritei. "Ela está me envenenando!"
"Chega!" Samuel rugiu. Ele usou o Comando de Alfa. O ar na sala ficou pesado, pressionando meus ombros como pesos de chumbo. "Silêncio!"
Minha boca se fechou contra a minha vontade. O poder do Alfa sobre um membro da alcateia era absoluto, a menos que o membro fosse mais forte. E agora, no meu estado enfraquecido, ele era mais forte.
"Vou levar a Nina lá para cima para brincar", disse Samuel, a voz fria. "Você e Lívia vão resolver isso. Peça desculpas a ela, Eva. Ou juro pela Deusa da Lua, vou trancar você no seu quarto."
Ele pegou a mão de Nina e marchou para fora.
Fiquei sentada lá, lutando contra o Comando, meu maxilar doendo.
Assim que Samuel se foi, as lágrimas desapareceram do rosto de Lívia. Ela pegou o pedaço de pão que eu havia tocado.
"Você tem um bom nariz", ela sussurrou, inclinando-se sobre a mesa. "Para uma cadela estéril."
"Por quê?" consegui ranger os dentes, o Comando diminuindo ligeiramente com a distância de Samuel.
"Porque esta é minha Alcateia agora", sibilou Lívia. Seus olhos brilharam em amarelo - a cor de um lobo comum. "Samuel precisa de um herdeiro. Dei a ele um falso para entrar pela porta. Mas assim que você estiver morta... darei a ele um verdadeiro. Ou talvez eu apenas pegue o dinheiro dele. Quem se importa?"
"Ele vai descobrir", eu disse.
"Ele vê o que quer ver", Lívia sorriu. Ela se levantou e contornou a mesa até mim. "E agora, ele vê uma ex-esposa louca e ciumenta."
Ela agarrou meu maxilar com uma força surpreendente. "Coma."