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A Cor do Nosso Reencontro

A Cor do Nosso Reencontro

Autor:: Maya Flora
Gênero: Romance
Em Valverde do Sul, as lembranças de um amor de juventude são as únicas cores que o tempo não conseguiu desbotar. Ísis Buonavitta e Giorgio Cezario foram, um dia, o porto seguro um do outro, até que as ambições familiares e as curvas da vida os lançaram em direções opostas. Dez anos depois, o reencontro acontece sob luzes muito diferentes. Giorgio é agora o implacável CEO das Empresas Cezario, um homem moldado pelo dever e pelo pragmatismo, com o futuro traçado ao lado de Soraya Sousa, uma jovem da alta sociedade cujo interesse pela sua fortuna só é superado por sua petulância. Ísis, por outro lado, retorna à cidade como uma talentosa artista plástica, armada apenas com seu cavalete e o sonho de abrir sua própria galeria. Quando ela descobre que o imóvel ideal pertence ao império do homem que partiu seu coração, o confronto é inevitável. Entre telas vibrantes e relatórios frios, eles descobrirão que o passado nunca foi totalmente enterrado. Conseguirá o cinza do mundo corporativo apagar o brilho de uma paixão antiga? Ou a arte de Ísis será capaz de devolver a cor à vida de Giorgio? Uma história sobre as segundas chances que o destino pinta, mesmo quando tentamos seguir em frente.

Capítulo 1 Prefácio: O Peso e a Leveza do Sangue

Toda família guarda segredos, mas algumas os transformam em lápides.

Nesta história, não encontramos apenas um romance interrompido pelo tempo, mas um campo de batalha onde o amor precisou lutar contra o veneno da herança. Valverde, com suas colinas serenas e sua elite impecável, serviu de palco para uma das verdades mais cruéis: a de que o sangue pode unir, mas também pode escravizar.

Acompanhamos a trajetória de Ísis Buonavitta, uma mulher que viu seu sobrenome ser manchado pela calúnia e seu coração ser fragmentado pela ausência. Do outro lado, Giorgio Cezario, o herdeiro de um império construído sobre alicerces de mármore e mentiras, que precisou desaprender tudo o que sabia sobre poder para entender o significado de proteção.

Entre eles, cartas nunca lidas, palavras interceptadas por mãos ambiciosas e a sombra de uma matriarca, Margareth, cuja maldade não conhecia fronteiras. Mas o destino, em sua justiça poética, trouxe Olívia - um pequeno ser de luz que se tornou a bússola para que esses dois corações perdidos encontrassem o caminho de volta para casa.

Este livro fala sobre a queda das máscaras. Fala sobre o momento em que a dor deixa de ser um fardo e se torna o adubo para um novo florescer. Através do sacrifício, do perdão e da coragem de enfrentar os fantasmas de uma falésia sombria, Ísis e Giorgio provaram que o amor não é apenas um sentimento, mas uma decisão diária de ser melhor do que aqueles que vieram antes de nós.

Ao virar estas páginas, prepare-se para descobrir que as feridas mais profundas só podem ser curadas quando paramos de fugir do passado e começamos a pintar o futuro com as cores da verdade.

Boa leitura. Que o amor de Ísis e Giorgio lembre a todos que, mesmo após a tempestade mais devastadora, o sol sempre encontra uma fresta para brilhar.

Capítulo 2 Tons de Cinza e a Tela Vazia

Valverde do Sul exibia uma de suas manhãs mais cinzentas quando o táxi parou em frente ao que um dia fora a gloriosa Galeria Buonavitta. Ísis respirou fundo, e o ar úmido e mofado, carregado de lembranças, encheu seus pulmões. O casarão antigo, com suas janelas empoeiradas e a placa torta, era uma sombra do vibrante centro de arte que sua avó, a excêntrica matriarca da família, havia mantido viva por décadas. Agora, a fachada descascada parecia gritar por socorro, refletindo um pouco do que ela mesma sentia.

**

- É aqui que começa tudo de novo, Ísis - murmurou para si mesma, ajustando a alça da sua mochila pesada, que continha mais pincéis e esperanças do que qualquer outra coisa.

Ela tinha acabado de chegar, após anos morando e estudando em capitais cosmopolitas, mas o chamado de suas raízes artísticas e o desejo de reviver o legado da família a trouxeram de volta. Valverde do Sul era sua tela vazia, e ela estava determinada a preenchê-la com as cores que a cidade parecia ter esquecido.

O primeiro passo era encontrar um novo espaço. O casarão da família, infelizmente, estava em condições deploráveis e as reformas seriam caríssimas. Ísis precisava de um lugar que pudesse transformar, que tivesse a alma da arte, mas que também fosse acessível. Foi então que seu amigo e corretor, Leo, mencionou o antigo galpão da Rua das Violetas – um espaço amplo, com ótima iluminação natural, perfeito para uma galeria e ateliê. O único problema, ele avisara, era o proprietário: as Empresas Cezario.

O nome fez um arrepio percorrer a espinha de Ísis. Cezario. Um sobrenome que evocava não apenas poder e dinheiro em Valverde, mas também a sombra de um passado que ela havia tentosamente varrido para debaixo do tapete da memória.

- Boa sorte com o "Doutor Cezario", Ísis - Leo brincou ao telefone, poucas horas antes da reunião. - Dizem que ele é... metódico. E implacável.

"Metódico e implacável", ela pensou. Como o tempo pode mudar uma pessoa. O Giorgio que ela conhecia era um menino com as mãos sujas de tinta e o riso fácil, que sonhava em construir pontes e desenhar arranha-céus imaginários em cadernos rabiscados. O Giorgio de hoje, o CEO, era uma lenda urbana, um fantasma de um futuro que ela havia abandonado.

Ela estava parada diante do imponente edifício de vidro e aço das Empresas Cezario, um arranha-céu que perfurava o céu cinzento de Valverde como um agulha. Lá em cima, no último andar, ela sabia que a reunião aconteceria. A reunião que poderia significar o futuro da sua arte ou o fechar de mais uma porta.

Enquanto subia os degraus de mármore polido, sentiu o peso do seu portfólio na mão, mas também a leveza de uma determinação inabalável. Ela não era mais a garota ingênua que pintava flores no jardim da avó. Era Ísis Buonavitta, artista plástica, e ela não se curvaria. Não para a herança de ninguém, muito menos para a sombra de um amor esquecido.

O elevador social das Empresas Cezario era silencioso e rápido, uma caixa de metal polido que parecia isolar o mundo exterior. Ísis observava seu reflexo no espelho: o vestido de linho leve e os cabelos ondulados um pouco rebeldes destoavam completamente das executivas de tailleur que cruzavam o lobby. Ela se sentia como uma mancha de cor em uma fotografia em preto e branco.

Quando as portas se abriram no 42º andar, o ar condicionado gelado a atingiu. A recepção era minimalista, decorada com móveis de design escandinavo e uma ausência absoluta de alma.

- Pois não? - A secretária, uma mulher cuja postura era tão rígida quanto a mobília, mal desviou os olhos da tela.

- Ísis Buonavitta. Tenho uma reunião com o Sr. Cezario sobre o imóvel da Rua das Violetas.

A secretária arqueou uma sobrancelha. - Ah, sim. A... artista. Aguarde um momento. O Sr. Cezario está terminando uma chamada com a noiva, a Srta. Sousa.

O estômago de Ísis deu um nó. Noiva. Ela sabia que ele teria seguido em frente, é claro. Dez anos é tempo suficiente para construir e destruir impérios, quanto mais para esquecer uma paixão de adolescência. Mas ouvir o título em voz alta, associado a um nome que exalava status, tornava tudo subitamente real.

Minutos depois, a porta de madeira maciça da presidência se abriu. Uma mulher jovem saiu de lá, saltos altos estalando no chão de granito. Vestia um conjunto rosa choque que gritava "caro" e ostentava um anel de diamante que poderia cegar alguém. Era Soraya Sousa. Ela lançou um olhar avaliador e nitidamente desdenhoso para Ísis, medindo-a da cabeça aos pés antes de seguir para o elevador sem dizer uma palavra.

- O Sr. Cezario a receberá agora - anunciou a secretária.

Ísis ajeitou o portfólio sob o braço, empertigou os ombros e entrou.

A sala era ampla, com janelas do chão ao teto que mostravam Valverde do Sul como um tabuleiro de xadrez lá embaixo. Atrás de uma mesa de carvalho negro, um homem estava de costas, observando a neblina da cidade. O terno grafite era impecável, moldado em ombros que pareciam carregar o peso de todo aquele edifício.

- Você é persistente, Srta. Buonavitta - a voz dele ecoou, mais grave do que Ísis lembrava, desprovida de qualquer calor. - Meu setor imobiliário já informou que o galpão não está disponível para locações... "alternativas".

- A arte não é uma alternativa, Sr. Cezario. É uma necessidade - Ísis rebateu, sua voz firme apesar do coração martelando contra as costelas. - E aquele galpão está morrendo no escuro. Eu posso dar vida a ele.

Giorgio Cezario girou a cadeira lentamente. O movimento foi calculado, quase predatório. Quando seus olhos finalmente encontraram os dela, o tempo em Valverde do Sul pareceu simplesmente parar.

O cinza dos olhos de Giorgio, que antes lembravam a cor do mar em dias de tempestade, agora pareciam feitos de aço frio. Mas, por um milésimo de segundo, Ísis viu uma rachadura naquela máscara. Um brilho de reconhecimento que ele tentou sufocar instantaneamente.

- Ísis? - O nome escapou pelos lábios dele como um segredo proibido.

- Olá, Giorgio - ela respondeu, sentindo o peso de cada dia de silêncio entre os dois. - Ou devo dizer... Sr. Cezario?

Ele se levantou, a altura agora imponente, a mão direita repousando sobre a mesa, onde um porta-retrato com a foto de Soraya parecia vigiar o ambiente. O silêncio na sala era tão denso que Ísis conseguia ouvir o tique-tique do relógio de luxo no pulso dele. O menino que pintava sonhos havia sido substituído por um homem que gerenciava realidades. E a realidade deles agora era um abismo.

Capítulo 3 O Peso do Sangue e o Valor do Silêncio

O silêncio na sala da presidência era quase físico, interrompido apenas pelo zumbido baixo do sistema de ventilação. Giorgio permanecia estático, como se uma lufada de vento pudesse desmoronar a fachada de mármore que ele levou uma década para construir. Ísis, por outro lado, sentia o sangue ferver - uma mistura de nostalgia indesejada e uma súbita vontade de rir da ironia do destino.

- Dez anos, Ísis - Giorgio finalmente disse, a voz recuperando a cadência profissional, embora um pouco mais rouca. - E você entra na minha empresa exigindo um galpão como se ainda fôssemos as crianças que pulavam o muro da Rua das Violetas.

- Eu não exijo nada, Giorgio. Eu vim fazer uma proposta de negócio - ela caminhou até a mesa dele, colocando o portfólio sobre a superfície polida. - O fato de você ser o dono do imóvel é apenas um azar estatístico. Ou sorte, se você ainda tiver algum senso estético guardado sob esse terno de mil dólares.

Giorgio olhou para o portfólio, mas não o abriu. Ele contornou a mesa, parando a poucos centímetros dela. O perfume dele - algo que lembrava madeira e chuva - atingiu Ísis como uma onda, trazendo flashes de tardes quentes em Valverde.

- Minha noiva, Soraya, quer aquele espaço para um showroom da marca de joias dela - ele declarou, e o nome da outra mulher pareceu uma barreira de gelo entre os dois. - O Grupo Cezario não investe em filantropia artística, Ísis. Investimos em lucro. E Soraya é o que Valverde espera de uma Cezario.

Ísis sentiu a alfinetada. "O que Valverde espera". Giorgio sempre foi prisioneiro das expectativas alheias, e agora ele parecia ter se tornado o carcereiro de si mesmo.

- Então é isso? - Ísis arqueou a sobrancelha, o orgulho Buonavitta brilhando em seus olhos castanhos. - O menino que queria desenhar catedrais agora se contenta em ser o balcão de negócios de uma moça mimada? Valverde do Sul mudou você, Giorgio. Ou talvez você só tenha revelado quem realmente era.

Antes que ele pudesse responder, o telefone sobre a mesa tocou. O visor exibia uma foto de Soraya fazendo um biquinho para a câmera. Giorgio não atendeu, mas o momento de trégua forçada acabou.

- Tenho cinco minutos antes da minha próxima reunião - ele disse, voltando à sua postura de CEO. - Me dê um motivo, um único motivo financeiramente viável, para eu não entregar as chaves daquele galpão para a minha noiva amanhã cedo.

Ísis sorriu. Era um sorriso desafiador, o mesmo que ela usava quando ele dizia que ela não conseguiria misturar certas cores.

- Porque se você me der aquele espaço, eu farei algo que o seu dinheiro não pode comprar: eu farei Valverde do Sul voltar a ter uma alma. E você sabe, no fundo dessa sua armadura, que o nome Cezario precisa de mais do que joias brilhantes para ser lembrado com respeito. Precisa de legado.

Giorgio hesitou. Por um instante, o olhar dele caiu para as mãos de Ísis, onde uma pequena mancha de tinta azul turquesa teimava em permanecer sob a unha do polegar. Aquele detalhe mundano e colorido parecia a coisa mais real naquela sala cinzenta.

- Deixe o projeto - ele murmurou, sem olhar para ela. - Vou analisar. Mas não espere milagres, Ísis. O mundo não é feito de aquarelas.

- O meu é, Giorgio. E você faz parte da pintura, queira ou não.

Ísis saiu da sala sem olhar para trás, os saltos batendo com força contra o granito. Ela sabia que tinha jogado uma isca perigosa. Giorgio estava noivo, estava rico e estava cercado por Soraya, mas o brilho que ela viu nos olhos dele por um segundo... aquele brilho ainda pertencia à menina que ele amou um dia.

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