Ponto de Vista Charles Prescott
O castelo de Cramburg era minha casa, meu trabalho e meu refúgio durante o ano letivo. Voltar para a casa na Rua Quatro na pequena cidade de Semset, era tão inútil quanto desagradável. Como se nada além dessas paredes me trouxesse qualquer consolo, na escola eu podia me manter ocupado.
Foi entre essas paredes, também, que a vi pela primeira vez.
Estava parada em uma faixa iluminada no hall de entrada, vinda da porta por onde ela havia passado como se aquela luz fosse feita para ela, seu vestido de verão era tão escuro quanto o chapéu que protegia sua cabeça, seus saltos quebravam o silêncio de agosto quando ela se movia lentamente, tentando espiar os corredores.
- Posso ajudá-la?
Ela se virou para mim, lábios entreabertos que logo se curvaram em um sorriso, nariz e bochechas queimados do sol, ela tirou o chapéu pontudo puxando para baixo pela aba e seu rosto sumiu atrás dele por um segundo antes que eu pudesse ver seus olhos de novo.
- Olá, eu sou Angelique Lacey. Você é o diretor Jones?
- Você disse Jones?
- Sou eu - o homem surgiu de algum lugar das sombras, andando animadamente como nunca vi, tinha penteado o cabelo, ao que parece, depois de anos – David Jones, diretor de serviços diversos.
Ele estendeu a mão para ela e a jovem Lacey a segurou sem mudar sua postura. Jones pediu que ela o acompanhasse, seu tom de voz era surpreendentemente cordial e até mesmo Pequena Lili parecia confusa, tropeçando nas próprias patas caninas.
- Obrigada - Lacey levantou uma sobrancelha para mim.
- Professor Prescott.
- Obrigada, Professor Prescott - o sorriso de novo, quebrando qualquer defesa minha e me fazendo sorrir de volta, pelo menos eu esperava que parecesse um sorriso.
Lacey seguiu o homem e tive pena ao pensar nela sentada na saleta minúscula e úmida do faxineiro. Esse pensamento me deixou paralisado enquanto ela caminhava com curvas volumosas bem desenhadas sobre os saltos.
Antes de virar no corredor, Angelique olhou para trás e ainda sorria.
Não importava o que Jones estava aprontando era uma questão de tempo até chegar a mim. Como o esperado, não demorou até que eu fosse chamado à sala do verdadeiro diretor.
O escritório estava totalmente silencioso enquanto eu subia as escadas, ao chegar no topo a cena era outra.
Angelique estava sentada à frente do diretor, um inclinado para o outro, a postura impecável da moça mostrava resiliência, as mãos juntas no colo deixavam claro sua posição inferior. Arthur mantinha um cristal translucido apontada para a cabeça dela, puxando algumas memórias avermelhadas com delicadeza.
Ele as colocou em um cristal e em seguida o encaixou em um estojo próprio então levantou os olhos para mim, fazendo Lacey virar o rosto por cima do ombro, seu sorriso se abriu.
- Ah, Charles - o diretor mostrou um sorriso mecânico - creio que já conhece a Srta. Lacey.
Dei alguns passos à frente.
- Nos apresentamos brevemente - eu já estava apreensivo com a formalidade desnecessária.
- Ótimo, a Srta Lacey está sendo contratada por Cramburg como - ele fez uma pausa e agitou as mãos como se buscasse as palavras certas - serviços diversos.
Uma empregada. Isso me intrigou, como uma jovem bonita e educada se coloca em um cargo tão baixo?!
- Seja bem-vinda.
- Obrigada, professor Prescott.
Tinha algo no jeito que ela me olhava de baixo, que mexia com meus pensamentos mais secretos.
- E no que posso ser útil? - me dirigi ao diretor.
- Acredito que David já abusou da paciência da Srta Lacey o suficiente por hoje, se você puder levá-la até o dormitório dos empregados.
- Claro, você me acompanha? - por um momento minha mão pareceu ter vida própria, mas consegui conter o impulso de oferecer para que Angelique a segurasse.
- Sim, obrigada diretor - ela olhou com cumplicidade para o homem que assentiu.
Eu segui na frente, no lado de fora da sala, Jones esperava ansioso andando de um lado para outro.
- Procurando o que fazer?
- Ah, não. Sei muito bem o que estou fazendo - ele olhou para além de mim - Angie, vou te mostrar seu quarto.
- O diretor me incumbiu dessa tarefa.
- Eu já estou indo para lá, meu quarto é bem ao lado - era nítido como ele se forçava para manter a cordialidade.
- Às quatro da tarde? Ao invés disso, pode tirar os chicletes presos embaixo das mesas na minha sala de aula.
- Em relação a isso, estou esperando a Srta. Lacey, para ensinar o trabalho.
- Sei - fiz um sinal para Lacey e segui pelo corredor em direção às escadas.
Os aposentos dos empregados eram na parte mais afastada das masmorras, virando à esquerda depois da última sala e descendo alguns degraus. Era de pedra, escuro e úmido.
- Espero que não tenha problemas respiratórios.
- Não, senhor.
- E não deixe que Jones te coloque para tirar todos os chicletes das carteiras ou vai acabar lavando todas as privadas também.
- Sou assistente dele, acho que não tenho muita escolha - a voz dela saia suave e baixa, parecia treinada para obedecer, apesar de sua resposta ter mostrado insatisfação.
Parei na frente da porta antiga e virei para ela.
- Não é assistente, não há como existir um cargo abaixo de Jones. Ele é um braçal.
Ela engoliu em seco, mas então sorriu novamente. Abri a porta que rangeu em um barulho agudo.
- Esse é seu quarto, deve colocar um segredo.
- Um segredo? Não tem chave?
- O segredo é a chave. Deve informá-la ao diretor futuramente.
- Como eu faço?
- Não sabe usar um encantamento simples?
- Eu não tenho magia, Professor.
Angelique não desviou o olhar do meu, ao contrário do que eu poderia pensar ela se manteve firme e impassível, agiu com total naturalidade.
- Entendo - procurei no seu rosto qualquer sinal de vergonha ou pesar em ser um braçal, não encontrei - nesse caso, irei providenciar uma chave.
- Obrigada.
Apesar do seu queixo erguido e voz calma, o sorriso havia sumido. Não a culpo, meu olhar de decepção ao ser informado da sua condição estava explícito.
Assenti brevemente antes de seguir meu caminho de volta até o tédio sublime das férias de verão.
Não me considerava alguém superior, mas os braçais estavam cada vez mais escassos por um motivo, eram mais fracos, suscetíveis a doenças invisíveis, não possuíam magia e, normalmente, se juntavam em grandes fazendas de cultivo.
Não era uma realidade que eu conhecia, nos últimos vinte e cinco anos, dei aula de magia e encantamentos em Cramburg.
Eu e Lacey estávamos em lados diferentes na dinâmica do mundo e quanto antes entendêssemos isso, seria melhor.
***
Ponto de Vista Angelique Lacey
Ele não olhou para trás, assim era melhor. Mesmo que eu tenha observado o professor até que ele sumisse no corredor.
Onde eu estava com a cabeça? Acreditar que todos os sorrisos que dei a ele a suas retribuições singelas fossem gestos suficientes para superar minha posição social e ganhar algum respeito.
Ouvi um latido distante e me apressei em entrar no quarto, fechei a porta deixando o ambiente escuro, a única luminosidade vinha das vinhas da cerca viva que brilhavam, bloqueando o sol do outro lado da janela.
Andei até minhas malas no chão e tirei uma luminária a pilha, que coloquei sobre a escrivaninha. O quarto era pequeno, uma cama de solteiro usava a janela como cabeceira, ao lado da porta a escrivaninha, na parede lateral um armário pequeno e na frente deste havia uma porta que dava para o banheiro, um chuveiro a gás, um vaso e uma pia pequena sem banheira ou gabinete, nenhum luxo além do espelho trincado.
- Vamos, Angie. Transforme isso em um lar, é melhor que onde estava.
Abri as malas e comecei a separar as roupas, depois de tirar as teias de aranha do armário o espaço foi logo preenchido pelos vestidos. Fiz a cama com lençóis brancos e coloquei o objeto cilíndrico de gel debaixo do travesseiro.
- Você fica aqui, querido.
A escrivaninha tinha alguns livros, mas nenhuma foto, as malas vazias foram para cima do guarda-roupas.
Não encontrei nenhum interruptor ou tomada, a eletricidade ainda não tinha chegado o castelo, gastaria todo o pagamento em pilhas mesmo que elas parecessem durar dez vezes mais do que dizia a embalagem.
O relógio apontava nove horas da noite quando resolvi tomar um banho para dormir.
Tirei as roupas, a pele suada respirou melhor sem o espartilho apertado e relaxei minha postura, felizmente não havia nenhum espelho de corpo inteiro para me lembrar que assim como minhas habilidades, meu corpo também era decepcionante. Vesti o roupão e entrei no banheiro minúsculo.
Sem água.
- Ah, não.
Primeiro pensei em usar a água da pia mas essa também estava seca, eu não tinha escolha a não ser procurar outro banheiro, imaginando que um castelo desse tamanho tivesse algum.
O corredor estava absolutamente escuro, mas mal havia pisado nos degraus que davam para o corredor seguinte quando vi Prescott mais a frente, ele vinha em minha direção com a lamparina acesa, mas parou até que eu o alcançasse.
- Problemas, Srta Lacey? - sua voz era ríspida.
- Sim, não tem água no quarto.
- Não é usado a muito tempo, o encanamento deve estar obstruído. Tenho certeza de que Jones pode olhar pela manhã.
- Ele cuida de tudo sozinho?
- Não mais, já que você está aqui.
Ele passou por mim retomando o caminho, respirei fundo e me senti obrigada a me humilhar mais uma vez.
- Você sabe onde encontro um banheiro com chuveiro? - decidi usar um tom mais seco, sem sorrisos.
Prescott olhou por cima do ombro e balançou a cabeça.
- Certo, vou perguntar ao David.
- Espere - Prescott se virou para mim bruscamente, a lamparina quase encostou no meu peito e ele a desceu até o umbigo - não pode andar pelo castelo vestida assim quando os alunos estiverem.
Eu assenti abaixando a cabeça. Ele tinha razão, eu precisava ter em mente que meu espaço de conforto foi reduzido naquele quarto.
- E não temos banheiros para banho no castelo, exceto nos quartos. Pode esperar até amanhã ou - ele fez uma expressão de desgosto e desviou o olhar - usar o meu.
Cresci sabendo que moças não devem entrar sozinhas em quartos desconhecidos. E mesmo que meu corpo pedisse um banho depois de toda a agitação da chegada, eu recusei.
- Acho que um lavabo já seria útil.
- Como queira, há um no final do corredor, antes de subir para o térreo.
Segui para direção indicada, dessa vez fui eu quem não olhou para trás, o banheiro era destinado aos alunos, duas fileiras de cabines individuais e uma pia longa na frente, felizmente havia um ralo próximo às torneiras.
Me senti envergonhada por Prescott saber o quão baixo eu havia chegado, não pelo cargo de faxineira, isso eu não me importava. Mas um braçal, tomando banho em um lavabo qualquer, dormindo em um quarto que mais parecia uma cela.
A água estava gelada, o banheiro escuro e cheirando a naftalina, mesmo assim, o que mais me incomodava era o grande espelho na minha frente que me obrigava a encarar meu corpo nu, todas as imperfeições que mesmo a pouca luz eram tão nítidas e incômodas que não consegui ignorar a voz dela que continuava repetindo em minha cabeça.
'Olhe para você. Entenda seu lugar.'
Ponto de Vista Angelique Lacey
Jones não ficou nada feliz em saber que precisava trabalhar naquela manhã antes de me colocar para raspar chicletes o dia todo. Ele se esforçava para tratar os outros com respeito, tanto que parecia que ia explodir a qualquer momento, mas para mim ele apenas sorria e dizia 'claro, Angie', mesmo que eu nunca tivesse dito para me chamar assim.
Não havia muita gente que chamava meu nome e certamente ninguém nos últimos quinze anos usava esse apelido.
- Esses canos estão obstruídos a anos - ele disse assim que saiu da sala carregando uma mala de ferramentas, David seguiu pelo corredor e me coloquei atrás dele.
- Eu não quero atrapalhar, David. Posso ficar em outro quarto por enquanto.
- Do que ia adiantar? O encanamento é o mesmo para toda a ala dos funcionários - ele rapidamente percebeu a forma rude de suas palavras e sorriu sem jeito - Angie.
- Mas você disse que está obstruída a anos.
- Sim.
- E o seu quarto fica na ala dos funcionários.
- Sim, sim.
- Onde você toma banho?
- O sol já está queimando, devia ter trazido um chapéu.
Ele estava certo, o sol ardeu na pele assim que pisei do lado de fora e ainda tivemos que andar em torno do castelo até a parte de trás, a tubulação externa passava pela superfície, pela área arborizada e parecia terminar no lago.
- Aqui está - David se abaixou examinando uma raiz que atravessava o cano.
A terra sob meus pés estava úmida e fofa, quase como um pântano.
- A água está vazando esse tempo todo?
Ele deu de ombros e começou a serrar a raiz, ouvi um som estranho atrás de mim e olhei na direção, mas não vi nada, a poodle de Jones se agitou também.
- Você ouviu? - perguntei para a cadela - porque eu ouvi.
- Devem ser ratos, Lili adora comer ratos.
- Que cadela encantadora - a verdade é não fui com a cara de Pequena Lili, o que parecia recíproco e estúpido ao mesmo tempo.
Cães no geral não me incomodam mas o bicho me olhava esquisito, e parecia me avaliar com cautela sempre que me aproximava, como se desconfiasse de mim.
- Ah, você está aí - se aproximou uma mulher jovem, saltando as pequenas pedras, ela olhou de Jones para mim e então apontou - quem é essa?
- Minha assiste...
- Angelique Lacey - interrompi antes que ele me diminuísse - serviços diversos.
- Se são dois agora, por que as minhas carteiras ainda estão arranhadas? Precisam polir todas antes do retorno dos alunos.
- Sim, professora Dafne. Mas preciso arrumar o encanamento para a Angie, talvez amanhã.
Ela torceu o nariz para mim e devolvi um sorriso discreto antes que ela partisse. Mas o que ela queria? Que servisse o café na sala dos professores cheirando a suor?
- Todo mundo nessa escola vive de mau humor?
- Meu humor é excelente quando não tenho que lidar com os alunos, vê? - ele abriu um sorriso enorme, eu ri mas então ouvi aquele som de novo.
Claro que eu sabia que a floresta era cheia de animais selvagens e comuns mas isso não me deixava menos nervosa. Lili levantou as orelhas, me deixando alerta e então correu para trás de um arbusto, olhei para Jones que pareceu muito aborrecido.
- O que está esperando? Vai atrás dela.
Eu me assustei com a brutalidade que ele falou e me apressei em fazer o que pediu. Dei a volta no arbusto que se agitava e Pequena Lili estava prestes a abocanhar o pescoço de um coelho.
- Não - empurrei a cadela que me acertou uma patada no dorso da mão - ai, sua...
Respirei fundo e peguei o coelho na mão, era pequeno, possivelmente um filhote e estava muito assustado.
- O que está havendo?
- A sua cadela - me levantei saindo de trás do arbusto - ela quase matou esse filhote.
- Como eu disse, ela gosta de comer ratos.
- É um coelho.
- Como eu disse - ele abriu o sorriso novamente - quer saber, Angie. Porque não vai dar uma volta enquanto eu termino isso? Deve demorar algumas horas.
Foi gentil da parte dele, olhei atravessado para a cadela que parecia furiosa, indo se esfregar no dono atrás de carinho. Naquele momento decidi proteger o bebê da poodle malvada com a minha vida.
O jardim não ficava longe dali e achei que estar perto caso David precisasse de ajuda era o mínimo que eu poderia fazer. Meu rosto já estava dolorido e queimado do Sol quando decidi parar sob uma sombra.
- Você vai amar sua nova casa, o quarto mais parece uma cela de prisão - aproximei o rosto e o coelho moveu seu focinho na direção do meu nariz.
***
Ponto de Vista Charles Prescott
Entrei na sala dos professores cumprimentando brevemente os que ali estavam, essa não era a sala mais confortável em Cramburg mas era a única que dava uma visão completa do jardim, assim eu podia aproveitar a vista sem me queimar no Sol.
Peguei um livro que pretendia ler e me sentei na poltrona ao lado da janela para segundos depois Angelique Lacey quebrar a monotonia de arvores e grama com sua presença, indo se abrigar em uma sombra bem no meu campo de visão.
- Essa garota ainda vai causar problemas - Dafne entrou batendo o pé.
- Quem, Dafne? - Erika questionou de imediato, atraindo minha atenção para a conversa.
- A nova faxineira, fazendo Jones perder o dia todo com o encanamento enquanto tem muito para se fazer nas salas.
- Está com problemas?
- Sim, as carteiras estão riscadas.
- Não entendo por que precisa do Jones para isso, normalmente eu só o chamo quando quero que tire algum animal peçonhento.
- É o trabalho dele.
- Sim, mas...
Aquele assunto não estava tão interessante quanto pensei, me concentrei no livro e dois minutos depois em Lacey, suas mãos em concha seguravam uma bola de pelos negros junto ao rosto.
Havia uma história infantil sobre uma jovem bonita que se enfiava em uma floresta para fugir da madrasta e falava com animais, mas não consegui me lembrar o nome.
As horas de passaram sem que ela se movesse, sua postura e resiliência era tão impecável que sua presença se tornou monótona e passei a reparar em outras coisas, principalmente na sombra em que ela estava, á direita da árvore, mesma posição que estava quando Lacey chegou.
Intrigado, inclinei na poltrona observando as outras árvores pelo longo caminho em torno do castelo, as sombras acompanhavam a posição do Sol.
Jones chegou e depois de alguns segundos, Lacey colocou a pequena bola de pelos entre os seios, acomodando qualquer que fosse o animal entre os montes macios que tanto chamavam a atenção. Ela acompanhou o zelador e logo sumiram de vista.
A sombra em que ela estava deslizou rapidamente para o lado oposto ficando na mesma posição das outras.
- Braçal, sei.
Aquilo me deixou intrigado o suficiente para agir, fechei o livro e saí daquela sala rumo ao escritório do diretor. Arthur não parecia ocupado, como sempre.
- Faz algum tempo que não vem conversar comigo, Charles.
- Não há muitos assuntos durante as férias.
- E o que mudou? - ele levantou uma sobrancelha - ou seria, quem?
- Eu não sabia que Cramburg precisava de outra pessoa para serviços de limpeza e manutenção.
- Claro que não - ele sorriu apesar de eu achar que sua resposta foi em tom de provocação - mas esse castelo é muito grande para Jones e Pequena Lili cuidarem sozinhos, ainda mais com as exigências dos professores.
- E acha que foi uma boa escolha? Não seria mais apropriado uma pessoa com magia?
- Então já sabe da condição dela.
- É real? Ela é um braçal?
- É o que ela diz, não é?! - a condescendência dele me incomodou, mesmo no fundo eu sabendo que só precisa ser direto e perguntar e essa relutância era um defeito meu - acha que eu devia demiti-la?
- Não faz diferença, a menos que ela atrapalhe meu trabalho.
- Achei que você, mais que qualquer pessoa, gostaria de ter Lacey por perto. Tendo em vista o passado que tiveram.
- Passado? - eu fiquei absolutamente confuso - eu não a conheço.
- Então, não se lembra - ele se levantou e caminhou pela sala até um pequeno armário no canto de onde tirou um pequeno estojo de cristais - creio que me viu emprestando algumas memórias da Angelique, acho que essa pode te interessar.
Peguei a memória em sua mão e lentamente caminhei até a poltrona, o avermelhado e levemente, fechei os olhos e inclinei na poltrona colocando o cristal sobre a testa, ele começou a girar e logo as coisas em volta haviam mudado, eu não queria admitir mas aquilo me deixava ansioso, se Angelique cruzou comigo no passado não viu nada bom sobre mim. Mesmo assim abri meus olhos sem pensar.
A visão começou confusa, estava balançando muito, eu conseguia ver uma calçada que ia passando rapidamente e mechas de cabelo na frente e logo percebi que Angelique estava sendo carregada.
- Aqui - disse a voz masculina de quem a segurava no colo.
Ela foi posta dentro do carro, no banco traseiro, o homem segurou o rosto dela com as duas mãos e a beijou na testa de forma longa e apertada, era nítido o nervosismo dele.
- Papai já volta, está bem? Fique parada e quieta.
- Pai? - sua voz era tão infantil que não devia ter mais de cinco anos.
- Eu te amo, Angie.
Ele fechou a porta, ela ficou com medo, virando a cabeça de um lado para o outro nervosamente, não estava vendo o pai. Levou alguns minutos até que ele voltasse, ainda mais ofegante. Mas assim que ele encostou no veículo um homem apareceu, apontando a varinha para o homem, um extremista mascarado.
Levantei a cabeça, eu próprio estava em choque, me lembrava daquela cena. O ebelde era eu, Edward tinha vários sobrenomes, um para cada cidade onde parava. A insurgência estava atrás dele há anos desde que ajudou uma desertora a entrar na França de forma ilegal.
Naquela noite, estávamos em cinco, averiguando uma área depois que um taverneiro informou que Edward foi visto por ali. Eu o encontrei, não pude fazer alarde para que ele não fugisse, mas o encurralei, ele podia ter corrido mas não fez isso, parou com as costas em um carro, olhei para o vidro e a vi, uma garotinha assustada com os olhos completamente abertos.
Os cabelos dela flutuavam em torno do rosto como se estivessem embaixo d'água.
"Minha filha não", ele suplicou. Eu tive que fazer uma escolha, matar os dois, matar ele e deixar que os outros acabassem com a menina ou deixá-los partir. Optei pela última, Edward entrou no carro e deu partida, usei um feitiço para distrair do som do veículo e fingi ser atingido.
Nunca consegui explicar o que houve naquele dia e tive que passar pela vergonha de admitir que fui nocauteado por um braçal inferior.
- Isso foi á mais de quinze anos. Eu era diferente - disse sem conseguir encarar o diretor, a vergonha pelas coisas que eu fiz me machucaram.
- Você salvou os dois.
- Por que ela acredita que é braçal?
- As feridas são mais profundas do que parecem e essas eu não posso te mostrar - ele caminhou até a porta e a abriu para que eu passasse - tenho certeza que vai descobrir sozinho.
Ponto de Vista Angelique
Aquele lugar era imenso e estava tão sujo que seria melhor derrubar e construir outro no lugar, algum com placas de metal ao invés de pedras nas paredes. Mais fácil de limpar.
Eu tinha acabado de sair do escritório do Diretor de ensino e seguia rumo a sala de artes quando o pequeno coelho se agitou dentro da minha blusa.
- Espere, peludinho - disse tirando ele do vão entre meus seios - você está me fazendo suar.
O coloquei entre as toalhas limpas no carrinho de limpeza que eu era obrigada a empurrar para todos os lugares, inclusive pelas escadas, o que me tomava muito tempo.
Suspirei pesado ao chegar na entrada da sala de artes.
- Como eu vou subir aí?
A sala ficava no alto de uma torre e para acessar era preciso subir uma escada de madeira íngreme, e passar por um alçapão no final.
Levantei a porta um pouco e ela caiu para o outro lado com um estrondo, a mulher dentro da sala se assustou emitindo um grito agudo.
Olhei para a mesa na sua frente, arrumada com diversas cartas de tarot. Pensei que a adivinhação servisse para prever o que ia acontecer, como ela não sabia que eu ia entrar?
- Desculpe, professora Erika. Eu preciso cuidar da sala.
- Claro, entre.
Subi o restante da escada e me coloquei em pé para então olhar para baixo e ver o carrinho no piso anterior, patético e inútil.
- Acho que vou precisar subir e descer muitas vezes.
- Não se preocupe, querida. Pode limpar se sentir útil mas eu já faço isso todas as manhãs - a professora levantou a mão e com um feitiço simples as almofadas que serviam de assento bateram uma contra a outra liberando o pó delas.
- Obrigada - suspirei aliviada - me poupou uma hora de trabalho.
- Se está com um tempo sobrando, por que não se senta?
Eu não disse que tinha tempo sobrando, mas alguns minutos de descanso não faria mal, além disso, a sala me trazia uma sensação de conforto como nunca senti. Era como se estivesse em casa, não no grande casarão em que cresci, aquilo nunca foi um lar.
O cheiro forte de café deixava tudo ainda mais aconchegante.
- Já leram seu futuro, Srta. Lacey?
- Pode me chamar de Angie. E não, eu não sou maga.
- Mas isso não importa - Erika apontou uma poltrona no meio da sala onde me sentei sem questionar - basta que a leitura seja feita por uma vidente legítima e para sua sorte - ela fez um gesto com as mãos de cima para baixo apontando o próprio corpo - eu sou.
- Isso me deixa um pouco nervosa, mas estou curiosa.
Erika me entregou uma xícara de café cheia e se sentou à minha frente, dei o primeiro gole, tinha muito pó e nenhum açúcar.
- É assim mesmo, leve o tempo que precisar. Enquanto isso porque não me fala de onde você é?
- Desculpe, mas parece um truque.
Ela riu mas aquiesceu.
- Então eu falo de mim, em primeiro lugar, não gosto de silêncio - por isso a vi falando sozinha pelo castelo - sou subjugada com frequência por minhas poucas habilidades fora a artes, mas o que eles se esquecem é que sou descendente de Cassandra Erika, isso é muita coisa.
- Eles seriam os outros professores?
- Precisamente.
Entreguei a xícara vazia para ela, contendo marcas de pó acumulado no fundo, ela a apanhou com as duas mãos como algo extremamente valioso que pudesse cair e se quebrar, virando de um lado para outro.
- Há um homem.
- Em Cramburg? Espero que não seja o Jones - eu ri, mas Erika pareceu nem ouvir a minha piada, o que me deixou sem jeito.
- Ele vai enganar você, vai te usar para um propósito sombrio - a voz de Erika ficava mais cavernosa à medida que falava, quase podia ouvir o eco dentro da minha cabeça - ah, querida. Ele vai te destruir.
- Aí diz o nome de quem eu tenho que evitar?
Ouvi um latido afastado, Erika levantou os olhos para além de mim vendo algo mais para o fundo da sala, olhei por cima do ombro e o vi com metade do corpo para dentro do cômodo.
- Essa coisa quase foi devorada - o professor Prescott levantava o coelho pelas orelhas bem, acima de sua cabeça - de novo.
- Ah, sim. Acontece o tempo todo - me levantei apressada correndo até ele e pegando o animal da sua mão, o coelho esfregou as orelhas doloridas com as patas - obrigada por salvá-lo.
- Devia cuidar melhor das suas coisas - Prescott resmungou - como os chicletes embaixo das carteiras na minha sala.
- Eu estou indo agora mesmo - coloquei o coelho de volta no aconchego do meu corpo e Prescott me olhou atravessado antes de sair, olhei para Erika que deu de ombros - ele é sempre tão mau humorado?
- Acho que passar muito tempo na sala de magia no porão não deixa ninguém feliz e como diretor da magia e encantamentos, Charles tem muitas preocupações.
- Engraçado como todo homem nesse castelo parece ser diretor de alguma coisa, eu só dirijo o carrinho de limpeza.
- Só não os deixe irritados, sabe... o ego - Erika riu.
- Obrigada pela leitura, Erika.
- Volte mais vezes, as coisas podem mudar.
Eu assenti e me despedi, eu já tinha ouvido os outros professores falarem sobre ela, suas previsões eram quase sempre fantasiosas então não me preocupei com o tal homem. Na verdade, ter um homem já seria lucro.
Além disso, ninguém poderia me destruir, não mais do que eu já estava. Meu coração acelerou e o coelho se agitou.
- Tudo bem, amiguinho. Vou ficar calma por você.
***
Ponto de Vista Charles Prescott
Ela demorou quase meia hora depois que eu já havia chegado e entrou sem bater, estava suada, com a pele brilhando e empurrou o carrinho barulhento para dentro.
- Desculpe, professor. Descer às vezes é mais complicado.
- Deixe o carinho lá fora.
Ela assentiu e o empurrou novamente. Parecia perdida e desastrada, de um jeito que me faria sorrir se não estivesse esperando há dias pelo serviço. Angelique entrou com uma espátula e uma escova.
- Quais mesas, professor?
- Todas elas - respondi sem tirar os olhos do livro na minha frente, mas assim que ela se virou eu a observei, seu corpo bem desenhado parecia moldado por um escultor, era irreal.
Não sou um homem de muitas amantes, mas sei bem como é um corpo feminino e impossível para uma mulher com o quadril tão largo ter uma cintura tão fina e seca. Eu tinha um palpite, mas, como uma faxineira passaria o dia todo usando espartilho?
E ao mesmo tempo que parecia estúpido também me provocava.
Lacey se ajoelhou no chão e levantou o rosto para a parte de baixo das carteiras, a espátula trabalhando rápido, parava vez ou outra para secar o suor da testa. O longo cabelo preto preso em um coque frouxo dava uma falsa aparência de seriedade.
Vê-la assim, ajoelhada, vermelha, transpirando e com a respiração pesada levou meu pensamento para outra situação, uma em que aquele espartilho fosse a única peça cobrindo seu corpo.
Fui interrompido por uma pequena dor aguda no tornozelo, arrastei a cadeira de uma vez e vi o meu inimigo, a bola de pelos pretos tentando mastigar o cadarço do meu sapato.
O levantei pelas orelhas.
- Seu...
- Desculpe, professor. Ele adora o porão é úmido e quente como uma toca de coelho, faz com que ele se sinta em casa.
- Eu já disse para cuidar das suas coisas.
- Bem, eu não posso colocar um simples rastreador no rabo dele - ela riu, desaforada - pode soltá-lo?
Soltá-lo. Sim, eu poderia apenas deixar ele no chão para sair saltitando até sua dona, mas a forma como ela ignorava sua magia me irritou, teimando em agir como um braçal quando era uma maga, rindo da minha capacidade intelectual mesmo que não soubesse.
- Pegue - arremessei o animal através da sala de encontro a ela, Angelique soltou um gritinho assustado e o coelho parou no meio do caminho para então, cair apenas um metro de encontro ao chão, ele correu até Lacey que o devolveu ao seu decote.
- Onde estava com a cabeça? Me assustando desse jeito - ela se levantou rápido, me olhando com seus olhos furiosos.
- Viu o que acabou de fazer? Você impediu que ele caísse.
- Isso não tem graça alguma, se não desse tempo de você segurar com esse feitiço ou sei lá ou sei lá o que.
- Não, Lacey. Não fui eu - como ela podia ser tão estúpida? Mas deixá-la zangada não foi minha intenção - está bem, mas devia cuidar melhor dele.
- Eu estou tentando, mas você e Pequena Lili não estão ajudando nem um pouco.
- Ah, por favor - aproximei a cadeira da mesa novamente - nem deu um nome a ele. E por falar nisso, não é ele. É ela.
- Como sabe?
Não respondi, só havia um jeito de saber se um filhote era macho ou fêmea e não estava disposto a explicar diferenças desse tipo para uma mulher adulta.
- Não sei que nome dar, é difícil escolher.
Ela resmungou, Angelique fazia muito isso. Eu não estava nem um pouco interessado em ter essa conversa novamente então decidi dar eu mesmo um nome para aquela coisa.
- Aléxo.
- Você disse que é uma garota.
- Não importa.
- Não parece nome de coelho.
- É um verbo grego, significa proteger - ela me olhou com a maior cara de dúvida - por ela ter mais capacidade de cuidar de você que você dela.
Eu esperei uma resposta atravessada, mas essa não veio, Angelique abaixou os olhos e acariciou a cabeça do coelho, estava triste.
- É o mesmo significado do nome de meu pai.
- Hum. Se ele te protegesse, não estaria trabalhando como faxineira em uma escola.
Ela se levantou devagar e se aproximou mesmo sem ser chamada.
- Eu não tenho vergonha do meu trabalho, preciso dele - seus dedos passaram sobre a mesa tirando uma camada de pó, ela olhou com a testa franzida e esfregou os dedos - acho que vocês precisam de mim também, mas não fale do meu pai, ele era um homem bom.
- Era?
- Sim, morreu quando eu tinha seis anos.
- Sinto muito - minha resposta foi sincera, mas carregada de uma angústia incomum - se me der licença - disse já me levantando - preciso ver o diretor, leve o tempo que precisar mas termine isso hoje.
- Sim, senhor - levei um segundo para entender que ela havia batido continência.
- Não repita isso.
Subi as escadas andando o mais rápido que consegui, cheguei ofegante à frente da porta e entrei enquanto ela ainda me anunciava.
- Um ano? Eu arrisquei a minha vida pra salvar um homem que viveu mais um ano?
- E está zangado comigo por isso? - sua calma me irritava ainda mais.
- Por que me mostrou a memória? Não fez diferença alguma.
Minha confusão era tanta que eu nem conseguia pensar em como me afetava ou o porquê.
- Achei que ter uma pessoa salva por sua misericórdia pudesse te lembrar do porquê estamos nessa missão.
- Missão - dei de ombros e caminhei pela sala a fim de me acalmar - já faz dez anos, ele está morto. Precisa parar de ver a insurgência em cada canto, acabou.
- Sabemos que não, aliás, como está sua animação para o próximo ano?
- Igual a todos os outros.
- Mesmo sabendo que chegará sua aposentadoria?
- Eu ainda tenho um ano de paz. Não vou pensar nisso por enquanto.
Arthur se sentou em frente a mesa e pegou sua caneta, dizendo sem palavras que não estava a fim de conversa.
- E quanto a Angelique?
- Ela não teve o pai a maior parte da vida, uma figura masculina e mais velha pode ser benéfica a moça.
- Quer que eu seja o pai dela?
- Eu não quero nada, Charles. E você?
- Ela precisa de aulas de magia.
- A Srta. Lacey já passou da idade escolar - ele abaixou os óculos me olhando por cima deles - a menos que algum professor queira lhe dar aulas particulares.
- Talvez a Erika, eu não tenho tempo para isso.
Ele assentiu e deixei a sala.
Aulas particulares era exatamente no que eu estava pensando desde que a vi sob a sombra da árvore, mas o meu tempo era valioso, se Angelique o quisesse, não sairia barato.