No meu décimo aniversário de casamento, encontrei meu marido, um famoso terapeuta de celebridades, nu com a nossa empregada. Ele chamou aquilo de "terapia somática". Eu estava grávida do nosso bebê milagre e, em segredo, lutava contra um tumor cerebral.
Mas quando a amante dele fingiu uma queda e um aborto, me culpando por tudo, ele a escolheu.
A queda me fez perder meu bebê de verdade. Enquanto eu sangrava no chão, meu marido zombou: "Para de show, Alícia", e a levou correndo para o hospital.
Depois, ele me internou numa clínica psiquiátrica, me pintando publicamente como delirante para proteger sua reputação e seu caso.
Ele achou que tinha se livrado de mim para sempre.
Mas ele não sabia que minha irmã me tiraria de lá. Ele não sabia que eu forjaria minha própria morte para escapar.
Agora, eu voltei. E estou prestes a ensinar ao bom doutor uma lição sobre as consequências de seus atos.
Capítulo 1
Meu aniversário de dez anos de casamento. Acordei com um sorriso, o cheiro de café fresco enchendo nosso quarto, mas Caio já tinha saído. Havia um bilhete em seu travesseiro dizendo "paciente urgente". Era sempre um paciente urgente, sempre uma crise que o afastava de nós, de mim. Meu peito se apertou, uma dor familiar. Eu queria que aquele dia fosse diferente.
Passei a manhã assando seu bolo de nozes com doce de leite favorito, a cozinha tomada pelo aroma doce e reconfortante. Eu cantarolava uma música, imaginando seu rosto surpreso, seu sorriso raro e genuíno. Vesti o vestido de seda que ele uma vez disse que me fazia parecer um anjo, uma esperança tola florescendo em meu peito de que ele realmente voltaria para casa para comemorar.
À tarde, ele ainda não tinha voltado. O bolo estava intocado. A esperança em meu coração diminuiu, substituída por uma pulsação surda. Liguei para sua clínica, mas a assistente disse que ele estava em uma "sessão profunda de terapia somática", estritamente sem interrupções.
Terapia somática profunda. Meu marido, Dr. Caio Mendes, o renomado terapeuta das celebridades, era um mestre nisso. Ele acreditava na cura de traumas através de técnicas corporais. Era sua assinatura, seu caminho para a fama e a fortuna.
Uma sensação incômoda, uma garra fria no meu estômago, me disse para ir até ele. Embalei uma fatia do bolo, uma garrafa térmica com seu chá especial favorito e dirigi até sua clínica particular em pleno Jardins. A clínica estava silenciosa, a sala de espera vazia. Caminhei pelo corredor familiar, meus saltos estalando suavemente no mármore polido. A porta de sua sala de terapia particular estava entreaberta.
Eu a empurrei, um pequeno sorriso brincando em meus lábios, pronta para surpreendê-lo. O sorriso congelou. Minha respiração falhou. A garrafa térmica escorregou dos meus dedos trêmulos, caindo no chão com um estrondo, o chá se espalhando em uma poça escura e quente.
Caio estava lá, no luxuoso sofá de veludo da terapia, de costas para mim. Nu. E Carla Rocha, nossa ex-empregada, demitida há apenas duas semanas por furtar bugigangas caras, também estava. Ela estava montada nele, a cabeça jogada para trás, o cabelo um emaranhado selvagem contra as almofadas impecáveis. Sua pele, normalmente pálida, estava corada de um vermelho carmesim. Suas costas, visíveis para mim, eram uma tela de marcas vermelhas, frescas e raivosas, evidência inconfundível da paixão brutal que os consumira.
Um som gutural escapou de sua garganta, um gemido primitivo que rasgou o silêncio, confirmando a intimidade que eu estava testemunhando. Meus ouvidos zumbiam. Minha visão se afunilou. Não. Isso não está acontecendo.
"Ah, Caio", Carla sussurrou, a voz carregada de uma falsa vulnerabilidade, "Você me salvou. De novo. Eu não sei o que faria sem você."
O braço de Caio, sobre as costas dela, se apertou. Ele murmurou algo que não consegui ouvir, mas a ternura em seu tom foi uma faca se retorcendo em meu coração. O tipo de ternura que ele não me mostrava há anos. Nem um pingo dela.
O som da garrafa térmica se quebrando, o barulho da cerâmica no mármore, finalmente perfurou a bolha deles. Carla gritou, saindo de cima de Caio, tentando se cobrir com uma almofada. Caio, já a empurrando, virou-se, seus olhos arregalados de choque, que rapidamente endureceram quando me viram.
"Alícia?" Sua voz era um sussurro tenso, cheio de incredulidade. "O que você está fazendo aqui?"
Antes que eu pudesse formar um pensamento coerente, a porta da clínica se abriu com violência. Um homem corpulento, cheirando a cerveja barata e desespero, invadiu o local. Beto. O ex-marido de Carla. Seus olhos, vermelhos e selvagens, pousaram em Caio.
"Seu desgraçado!" Beto rugiu, o rosto contorcido de raiva. "Você jurou que não ia mais tocar na minha mulher!" Ele avançou sobre Caio, um soco selvagem atingindo o queixo dele. Caio cambaleou para trás, um grunhido de surpresa escapando de seus lábios.
Carla, agora encolhida atrás de Caio, choramingou: "Beto, para! Ele estava me ajudando! Ele é meu terapeuta!"
A confusão atraiu mais gente. Funcionários da clínica, depois policiais uniformizados, sirenes soando fracamente do lado de fora. A cena era um quadro caótico de nudez, chá derramado e violência crua.
Caio, sempre o profissional, rapidamente se recompôs, ajeitando o cobertor que Carla agora enrolara em si mesma. Ele olhou para ela, os olhos cheios de preocupação. "Você está bem, Carla?" Ele então se virou para a polícia, o rosto uma máscara de autoridade calma. "Oficiais, isso é um mal-entendido. Minha paciente, a Sra. Rocha, estava passando por uma sessão radical de terapia somática para tratar seu estresse pós-traumático grave e ideação suicida. O ex-marido dela, o Sr. Moody, interpretou mal a situação."
Ele disse isso com tanta convicção, com tanta seriedade profissional, que os policiais pareceram genuinamente confusos. Eles olharam de Carla, ainda trêmula e chorosa, para Beto, que agora estava sendo contido, gritando coisas incoerentes.
Carla, sempre a atriz, assentiu fracamente, lágrimas escorrendo pelo rosto. "Ele... ele estava me ajudando. Eu estava tão quebrada. Ele está tentando me salvar."
Os olhos de Caio piscaram na minha direção, um olhar breve, quase imperceptível, de irritação, e então rapidamente voltaram para Carla, tranquilizando-a com um aceno gentil. Ele a estava protegendo. A reputação dela, a dignidade dela. A minha? Eu era apenas a esposa inconveniente que entrou na hora errada.
A polícia, perplexa com o jargão médico de Caio e o sofrimento teatral de Carla, decidiu que não era uma briga doméstica no sentido tradicional, mas um bizarro "incidente terapêutico". Levaram Beto por agressão, deixando Caio para "cuidar" de sua "paciente".
Caio se aproximou de mim, os lábios uma linha fina. "Alícia, você não deveria ter vindo aqui. Isso é altamente antiprofissional, e você comprometeu um delicado processo terapêutico."
Minha cabeça latejava. As palavras tinham um gosto amargo na minha boca. "Antiprofissional? Você estava transando com a nossa empregada, Caio!"
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo perfeitamente penteado. "Não é o que você pensa. É uma abordagem complexa e experimental para casos extremos. Carla estava no limite."
Eu o encarei, meu coração se transformando em gelo. Ele estava mentindo. Ou ele realmente acreditava em sua própria ilusão egoísta. Ele desviou o olhar, depois voltou para Carla, que agora estava sendo ajudada por outro terapeuta. "Preciso garantir que a Carla esteja estável. Isso foi muito traumático para ela."
Ele me deixou ali, em meio à porcelana quebrada e ao chá derramado, suas costas uma muralha de indiferença. Eu o vi ir, meu peito apertado. O homem que eu amei por uma década, o homem que eu persegui incansavelmente, tinha acabado de escolher uma vigarista manipuladora em vez de mim.
Dirigi para casa no piloto automático, o mundo lá fora um borrão de luzes e ruídos. Nossa casa elegante, antes um santuário, agora parecia um túmulo. Entrei em nosso quarto, o lugar onde compartilhamos tantos momentos íntimos, onde construímos uma vida, ou assim eu pensava. Meus olhos caíram na foto de casamento emoldurada na mesa de cabeceira. Parecíamos tão felizes, tão apaixonados. Uma piada cruel.
Lembrei-me dos primeiros dias, da minha paixão tola por ele. Ele era mais velho, estabelecido, um homem brilhante, mas distante. Eu era uma jovem herdeira, acostumada a conseguir o que queria, mas ele foi o único que resistiu. Ele rejeitou minhas investidas, alegando que estava muito focado em sua carreira, muito ferido por um relacionamento passado. Mas eu vi algo nele, um vislumbre de vulnerabilidade sob a fachada estoica. Eu tinha certeza de que poderia derretê-la.
Eu o persegui incansavelmente, enviando-lhe presentes, frequentando suas palestras, encontrando desculpas para estar perto dele. Meus amigos me chamavam de obcecada. Minha família se preocupava. Mas eu estava convencida de que era a pessoa certa para ele. E, eventualmente, depois de anos, ele cedeu. Ele disse que viu minha sinceridade, minha devoção inabalável. Ele disse que eu era a luz que poderia guiá-lo para fora de sua escuridão autoimposta.
Eu acreditei nele. Derramei todo o meu amor, minha fortuna, meu próprio ser para fazê-lo feliz. Pensei que tinha conseguido. Pensei que tinha conquistado seu amor, seu respeito. Mas hoje, eu vi a verdade. Ele nunca me amou. Ele amava a imagem que eu apresentava, a esposa estável e rica. Ele amava a maneira como eu o adorava, alimentava seu ego.
Ele voltou horas depois, o rosto calmo, quase sereno, como se nada tivesse acontecido. Ele passou por mim na sala de estar, indo direto para a cozinha. "Você vai fazer o jantar, Alícia?" Sua voz era plana, desprovida de qualquer emoção.
Minhas mãos se fecharam em punhos. A fachada se quebrou. "Caio, e a Carla? O que foi aquilo hoje?"
Ele se virou, uma leve carranca no rosto. "Eu te disse. Terapia somática. Ela é uma paciente muito frágil. Estava suicida. Eu não tive escolha."
"Sem escolha?" Minha voz subiu, rachando de incredulidade. "Você teve uma escolha, Caio! Você poderia tê-la encaminhado para outro lugar! Você poderia ter me contado! Você poderia ter escolhido sua esposa!"
Ele suspirou, os olhos distantes. "Alícia, você está sendo irracional. Isso é uma questão médica. Você não entende as complexidades de tratar um trauma tão severo." Ele usou sua "voz de terapeuta", calma e condescendente. A voz que ele usava para acalmar pacientes difíceis, para descartar verdades inconvenientes.
Senti uma onda de tontura me invadir, uma percepção arrepiante de que ele nunca admitiria o que tinha feito. Ele distorceria, racionalizaria, patologizaria minha reação. Ele me tornaria o problema.
Ele me encarou, seu olhar clinicamente avaliador. "Você parece agitada, Alícia. Talvez precise descansar. Posso providenciar um sedativo, se quiser."
Meu sangue gelou. Ele estava tentando me manipular, medicar minha dor muito real até transformá-la em um delírio. Mas ele não sabia de tudo. Ele não sabia que eu estava grávida. E ele não sabia sobre a bomba-relógio em minha própria cabeça.
Uma determinação feroz se acendeu em meu peito, queimando o desespero. Não. Eu não seria medicada, não seria descartada. Eu tinha que me proteger. Eu tinha que proteger meu bebê. Eu tinha que lutar.
"Não", eu disse, minha voz mal um sussurro, mas firme. "Eu não preciso de um sedativo. Eu preciso de uma cabeça clara. E eu vou conseguir uma."
Eu me afastei dele, deixando-o parado na cozinha, sua máscara de terapeuta firmemente no lugar. Minha mente corria, formando um plano. Um plano desesperado e perigoso. Um plano alimentado pela traição e por uma necessidade feroz e primitiva de sobreviver.
As palavras do médico ecoavam na sala de exames estéril, frias e clínicas. "O tumor, Alícia, é agressivo. E seu útero... é um milagre você ter conseguido engravidar. A estrutura dele é única, quase um evento único para você. Levar essa gravidez adiante colocará uma pressão imensa em seu corpo, exacerbando os riscos do tumor. Precisamos considerar a interrupção."
Minha barriga, uma curva suave mal perceptível, parecia ao mesmo tempo estranha e preciosa. Um milagre. Uma bomba-relógio. Senti o contraste agudo, a ironia amarga. Aqui estava eu, lutando por uma vida que mal tinha dentro de mim, uma vida pela qual estava disposta a sacrificar tudo. Enquanto isso, Caio arriscava sua carreira, seu casamento, por uma mulher que claramente o estava manipulando. Por uma mulher com quem ele estava dormindo no nosso aniversário.
Por que a Carla? A pergunta queimava em minha mente, um fogo implacável. Por que ela?
Caio tinha sido evasivo quando o pressionei mais cedo, um brilho de algo indecifrável em seus olhos antes de retomar sua fachada de terapeuta. "O trauma dela é profundo", ele disse, "e ela confia em mim explicitamente."
Lembrei-me de quando contratei Carla. Ela era desajeitada, esquecida, quebrava coisas com frequência. Caio ficara irritado, até sugeriu que eu a demitisse. "Ela é incompetente, Alícia. Seus padrões estão caindo."
Mas então, Carla começou a aparecer com hematomas, alegando abuso doméstico por parte de Beto. Caio, com seu complexo de salvador, amoleceu. Seus olhos, geralmente frios e analíticos, carregavam um toque de algo que se assemelhava a pena, até mesmo um lampejo de curiosidade, sempre que Carla falava de seu "sofrimento". Eu, a tola ingênua, até tentei ajudar Carla a encontrar um abrigo seguro, oferecendo-lhe dinheiro, mas ela recusou, apegando-se à ideia de "ficar perto" de seu agressor por medo de retaliação. Agora eu via o jogo dela. E Caio, o renomado terapeuta, caiu direitinho na conversa dela.
"Então, meu caro marido", murmurei em voz alta na sala vazia, uma risada amarga escapando dos meus lábios, "minha tentativa de 'salvá-la' com meios éticos falhou. Mas você, você resolveu os 'problemas' dela com seu corpo. Que maravilhosamente eficaz."
Mais tarde naquela noite, enquanto eu olhava para o teto, tentando ignorar a dor surda na minha cabeça e a náusea crescente no meu estômago, o celular de Caio vibrou. Uma mensagem. Depois outra. Seu rosto, iluminado pela tela, suavizou. Um sorriso gentil, terno e caloroso, tocou seus lábios. Era um sorriso que eu não via dirigido a mim há anos.
Lembrei-me da nossa própria intimidade, ou da falta dela. Ele sempre fora clínico, quase distante. "Hormônios do estresse, Alícia. Não são propícios a uma conexão profunda. Devemos manter uma distância saudável para um bem-estar mental ótimo." Suas palavras, antes aceitas como sabedoria, agora soavam como uma piada cruel. Ele usara sua profissão, sua especialidade, para criar um abismo entre nós, para me negar a própria conexão que ele estava dando tão livremente a Carla.
Ele me convenceu de que meus desejos eram "doentios", "codependentes". E eu, tolamente, acreditei. Agora eu entendia. Não era sobre hormônios ou bem-estar. Era sobre ela. E era físico. Desejo cru, carnal. Algo que ele me negava, mas se entregava com Carla.
Ele quer o corpo dela. O pensamento me atravessou, afiado e limpo. E com essa percepção, um profundo sentimento de abandono me invadiu. Eu finalmente vi. Ele não me queria. Ele nunca quis de verdade.
Meu coração, que se agarrava a uma esperança fantasma, finalmente cedeu. Cansei. As palavras se formaram silenciosamente, uma declaração quieta e resoluta. Eu cansei de perseguir um fantasma, cansei de lutar por um homem que não queria ser pego.
Na manhã seguinte, Caio saiu do chuveiro, o leve cheiro de um perfume diferente misturado com sua colônia habitual. Ele encontrou meu olhar, depois desviou rapidamente, passando a mão no pescoço, como se para esconder algo. Uma leve marca vermelha, um chupão, era visível logo abaixo de sua mandíbula.
"Terapia somática, Caio?" perguntei, minha voz plana, desprovida de emoção.
Ele se encolheu. "É... um efeito colateral do trabalho de tecidos profundos. Às vezes, os pacientes expressam gratidão fisicamente." Ele soava absolutamente ridículo.
"Certo", eu disse, sem me preocupar em esconder o sarcasmo.
Ele pigarreou. "Talvez seja melhor dormirmos em quartos separados por um tempo, Alícia. Meu trabalho é incrivelmente desgastante e preciso de um descanso ininterrupto." Outra desculpa. Outra parede.
Eu apenas assenti. O silêncio se estendeu, pesado e sufocante. Segui os movimentos de me preparar para o meu dia, minha mente já a quilômetros de distância.
Mais tarde naquela noite, o telefone ao lado da cama de Caio vibrou. Eram 2 da manhã. Ele se sentou abruptamente, seus movimentos bruscos. "Carla?" ele sussurrou no telefone, a voz carregada de preocupação. Ele vestiu algumas roupas, pegou as chaves do carro e saiu pela porta em minutos, sem uma palavra para mim.
Fiquei ali, ouvindo o silêncio, depois, lentamente, com cuidado, saí da cama. Minha cabeça latejava, mas um novo tipo de clareza se instalara em mim. Eu precisava ver. Eu o segui, meu carro seguindo o dele pelas ruas desertas, as luzes da cidade se transformando em rastros de cor. Ele parou em frente ao prédio de apartamentos decadente de Carla. Exatamente como eu suspeitava.
Um momento depois, ele saiu, meio carregando, meio arrastando Carla, que estava mole em seus braços. Suas roupas estavam rasgadas, uma mancha de sangue visível em sua testa. Ele parecia frenético, sua compostura habitual completamente desaparecida. Ele a colocou cuidadosamente em seu carro e partiu em alta velocidade em direção ao pronto-socorro mais próximo.
Eu o vi ir, lágrimas embaçando minha visão. Ele a levou correndo, uma mulher que ele afirmava ser apenas uma paciente, para o hospital no meio da noite, seu rosto marcado por um medo e preocupação genuínos. Ele, o homem que higienizava meticulosamente as mãos após cada paciente, que uma vez me repreendeu por deixar um único fio de cabelo no chão do banheiro. Agora, ele não se importava com o sangue, a sujeira, a bagunça. Ele se importava com ela.
Meu coração se partiu, de novo. Mas desta vez, foi uma quebra limpa. Chega de se agarrar a ilusões.
Eu observava das sombras do corredor do hospital, minha própria dor um contraponto surdo à agonia aguda em meu peito. Caio, vestido em seu terno caro, o rosto pálido e tenso, estava assinando papéis no posto de enfermagem. Sua mão tremia levemente enquanto ele rabiscava sua assinatura, os olhos fixos no formulário. Meus ouvidos, se esforçando, captaram a pergunta da enfermeira.
"Parentesco com a paciente, Dr. Mendes?"
Ele hesitou por uma fração de segundo, depois ergueu os olhos, a voz clara, embora tensa. "Marido dela."
A palavra "marido" me atingiu com força, tirando o ar dos meus pulmões. Meu "marido". Ele que uma vez se recusou a sequer reconhecer nosso relacionamento publicamente por medo de "repercussões profissionais". Ele insistiu que mantivéssemos nosso noivado em segredo por meses, citando sua necessidade de "manter uma imagem objetiva". Ele valorizava sua reputação acima de tudo. Mas por Carla, ele jogaria tudo fora. Por Carla, ele estava disposto a mentir, a arriscar tudo.
Ele então correu de volta para o quarto de Carla, seus olhos cheios de uma preocupação crua e agonizante que eu nunca, jamais, vira dirigida a mim. Ele era capaz de uma emoção tão profunda. Só não por mim. Ele estava quebrado por ela, assim como estava por sua imagem pública. Ele quebraria todas as suas regras, abandonaria todos os seus princípios, por essa mulher.
Ele sentiu meu olhar, sua cabeça se virando bruscamente. Mas eu já tinha ido, me misturando novamente às sombras do hospital, deixando-o para sua nova vida, sua nova "esposa".
Quando ele finalmente voltou para casa horas depois, a primeira coisa que fez foi ir direto para a lavanderia. Eu o observei, escondida nas sombras da sala de estar, enquanto ele meticulosamente, quase reverentemente, lavava à mão a camisa manchada de sangue que usara. A mesma camisa que ele tivera tanto cuidado para não me deixar ver. O homem que usava luvas brancas para trocar uma lâmpada, agora esfregando o sangue de Carla. A ironia era uma pílula amarga.
Ele passou por mim, ainda alheio, indo direto para a cozinha. "Carla teve uma noite difícil", disse ele, evitando meu olhar. Ele começou a preparar uma tigela fumegante de caldo, o aroma rico enchendo a casa. Ele não me ofereceu nada. Ele nem mesmo olhou para mim.
Ele despejou cuidadosamente o caldo em uma garrafa térmica, pegou um buquê de flores frescas e se dirigiu para a porta. "Vou voltar para o hospital. Ela precisa de mim." Ele fez uma pausa e acrescentou: "Foi um erro deixá-la sozinha."
Eu o vi ir, a garrafa térmica de caldo na mão, as flores agarradas com força. Sua preocupação, sua devoção, era toda para ela. Meu próprio jantar, deixado frio na mesa, era um lembrete gritante do meu lugar em sua vida: lugar nenhum.
Meu celular vibrou. Uma notificação. Carla Rocha. Uma nova postagem em suas redes sociais. Uma foto dela, pálida mas sorrindo, aninhada no ombro de Caio, o braço dele ao redor dela. A legenda: "Meu herói. Ele me salvou de novo. Tanta dor, mas o amor dele torna tudo suportável."
Meu herói. O amor dele. Lembrei-me das vezes em que estive doente, ferida. Ele oferecera conselhos clínicos, uma receita. Nunca este abraço terno, esta declaração pública. Meu estômago revirou, uma onda familiar de náusea me invadindo, mas desta vez não era apenas o tumor. Era nojo puro e absoluto.
Uma leve aperto no peito, uma pressão sufocante. Eu precisava de ar. Eu precisava respirar. E eu precisava de respostas.
O escritório de Caio. Seu "santuário". Um lugar que ele guardava com uma possessividade feroz, alegando que era para "pensamento profundo" e "confidencialidade do paciente". Era o único lugar em nossa casa que ele sempre mantinha trancado, o único lugar em que eu nunca havia entrado. Eu costumava brincar sobre isso: "É onde ele guarda todos os seus segredos, querido", na esperança de arrancar uma confissão brincalhona. Agora, eu sabia que era onde ele guardava os segredos dela.
A porta estava destrancada. Um descuido, ou talvez ele estivesse muito consumido por Carla para se lembrar. Meu coração disparou quando a abri. O ar estava impregnado com o leve cheiro de sua colônia, misturado com algo doce e barato - o perfume de Carla.
Meus olhos percorreram a sala, pousando em sua mesa. Em meio a revistas médicas e arquivos de pacientes espalhados, um pequeno caderno com estampa floral estava semi-oculto. O diário de Carla. Meus dedos tremeram quando o peguei.
Eu o abri, meus olhos devorando a caligrafia apressada.
15 de outubro. Ele olhou para mim hoje. Do jeito que ele olha para seus preciosos pacientes. Tão gentil. Tão preocupado. Se ao menos ele soubesse da bagunça em que estou. Se ao menos ele soubesse com que homem estou casada.
3 de novembro. Ele me ofereceu um vale-compras para um supermercado. Para ajudar com o "abuso". Ele é tão fácil de manipular. Ele acha que está ajudando. Ele acha que está me salvando.
20 de novembro. Ele me demitiu hoje. Meu coração se partiu, mas faz parte do plano. Fazê-lo se sentir culpado. Fazê-lo sentir minha falta. Eu vi o olhar em seus olhos. Ele quer ajudar.
1º de dezembro. Ele me visitou! Ele disse que não conseguia parar de pensar em mim. Conversamos por horas. Ele foi tão gentil. Tão compreensivo. Ele até tocou minha mão.
15 de dezembro. Ele veio de novo. Desta vez, em seu escritório. Ele disse que era apenas "terapia somática". Mas seus olhos, eles vagaram. Ele me quer. Eu sei disso. E eu o quero. O dinheiro dele, a fama dele. Tudo.
17 de dezembro. Nosso aniversário. Hoje! Eu sabia que ele viria. Ele não conseguiu resistir. Ele é meu agora. Ele é tão bom na cama, tão apaixonado. Ele fingiu que era terapia, mas nós dois sabíamos. Ele se sente culpado, no entanto. Ele me prometeu uma grande quantia em dinheiro, uma casa, uma nova identidade. Apenas por ser "sua paciente". Ele está preocupado com sua reputação, mas se importa mais comigo. Ele me disse que cuidaria da Alícia. Ela é tão sem noção, nem vai suspeitar.
Minha visão embaçou, não com lágrimas, mas com uma raiva fria e ofuscante. Cada palavra era uma nova facada, cada frase uma revelação de traição grotesca. Eles estavam dormindo juntos há semanas, provavelmente meses. Em seu escritório. Em nossa casa. Enquanto eu, a esposa dedicada, planejava nosso aniversário. Enquanto eu carregava seu filho, nosso bebê milagre.
Ele não apenas me traiu. Ele orquestrou minha tortura emocional. Ele me deixou acreditar em suas mentiras, me deixou sofrer, tudo isso enquanto dava a Carla um roteiro para o engano. "Ele cuidaria da Alícia." Que monstro.
Senti-me uma completa idiota. Um peão em seu jogo nojento. O tumor na minha cabeça latejava, uma batida implacável contra meu crânio, mas não era nada comparado à agonia em meu coração. Meu casamento estava morto, muito antes de eu os encontrar. Fora assassinado, lenta e meticulosamente, pelas duas pessoas mais próximas a mim.
Minhas mãos se fecharam em torno do diário, meus nós dos dedos brancos. Lágrimas finalmente escorreram pelo meu rosto, quentes e ardentes, borrando as palavras vis. Como ele pôde? Como eu pude ser tão cega?
Por que você simplesmente não me contou? Gritei interiormente para Caio. Por que a farsa elaborada? Por que a crueldade?
Meu celular ainda estava na minha mão. Mudei para a câmera, meus dedos firmes apesar do tremor em meu corpo. Clique, clique, clique. Cada página, cada palavra incriminadora, capturada. Evidência.
Coloquei cuidadosamente o diário de volta onde o encontrei, um leve sorriso brincando em meus lábios. Ele ainda estava no hospital, bancando o herói para sua "paciente". Ele não saberia. Ainda não.
Saí do escritório, a porta se fechando suavemente atrás de mim, apagando o cheiro de Carla. Minha próxima ligação foi para o CEO da minha empresa. Eu precisava organizar algumas coisas na companhia. Eu precisava agir rápido. Eu precisava ir embora.