Levei uma marmita térmica com ensopado para a mansão particular do meu noivo, preocupada que ele estivesse estressado com a fusão das nossas alcateias.
Mas, em vez de um retiro de meditação, entrei em um pesadelo.
Pelas janelas que iam do chão ao teto, vi Ivan brincando no tapete com um filho secreto, enquanto uma mulher chamada Kiara observava tudo como uma rainha.
Eu congelei ao ouvir a voz de Ivan atravessar o vidro.
"A Aliana é só um peão no jogo. Ela tem cheiro de hospital e de medo. Assim que eu conseguir o território, vou rejeitá-la."
Meu coração se estilhaçou, mas a dor se aprofundou quando ele riu dos meus pais.
"São os pais dela que pagam por esta mansão, Kiara. Eles sabem de tudo. Preferem uma aliança forte a uma filha que é uma decepção."
Meus próprios pais estavam me drogando para roubar minhas patentes médicas. Eles achavam que eu era fraca. Achavam que eu era apenas uma Curandeira submissa.
Enxuguei minhas lágrimas e abri o cofre dele com os códigos de administrador que ele esqueceu que eu instalei.
Peguei os registros financeiros, os testes de DNA falsificados e os acordos de roubo.
Naquela noite, na festa de aniversário do seu filho secreto, eu não levei um presente.
Eu levei um projetor.
Mostrei a confissão deles para todo o Conselho, rompi o laço de companheirismo em público e desapareci nas Terras do Norte.
Seis meses depois, um Ivan arruinado e sem-teto se arrastou até a minha clínica, implorando para que a lendária Loba Branca o salvasse.
Ele ergueu o olhar, chocado ao me ver ali, de pé, brilhando com um poder prateado.
"Você rejeitou a dádiva da Deusa", eu sorri, deixando minha aura de Alfa esmagá-lo no chão. "Agora, saia."
Capítulo 1
Ponto de Vista: Aliana
Eu senti o cheiro da traição antes mesmo de chegar à porta.
Minhas mãos ainda tremiam um pouco, um efeito colateral da cirurgia de doze horas que eu tinha acabado de realizar. Ser a Curandeira Chefe da Alcateia Queiroz não era um título que eu levava na brincadeira. Exigia precisão, paciência e uma conexão com o dom de restauração da Deusa da Lua que poucos lobos possuíam.
Ajeitei a marmita térmica em meus braços. Dentro havia um ensopado de javali, cozido lentamente com alecrim e pinhão. Era o prato favorito do Alfa Ivan. Meu noivo. Meu companheiro.
Ou assim eu pensava.
Estacionei meu sedan modesto a um quarteirão da mansão isolada que Ivan dizia ser seu "retiro de meditação". Ele me disse que precisava de espaço para lidar com o estresse da fusão iminente entre sua Alcateia Bittencourt e a do meu pai, a Alcateia Queiroz. Ele disse que o sangue de Alfa em suas veias o tornava volátil, e ele não queria me machucar acidentalmente com sua aura.
Eu acreditei nele. Como uma tola, eu acreditei.
O segurança no portão hesitou quando me viu.
"Senhorita Queiroz", ele gaguejou, seus olhos disparando em direção à casa principal. "O Alfa deu ordens estritas..."
"Eu sou a futura Luna dele", eu disse, minha voz baixa, mas carregada com a autoridade que eu raramente usava. "Você realmente quer explicar a ele por que deixou sua companheira esperando no frio?"
Ele empalideceu e abriu o portão.
Enquanto eu subia pela entrada sinuosa, o vento mudou. Foi quando o cheiro me atingiu.
Lobos têm sentidos muito mais aguçados que os humanos. Nós vivemos pelo nosso olfato. O cheiro de um companheiro deveria ser a coisa mais reconfortante do mundo, como voltar para casa. O cheiro de Ivan - pinho fresco e chuva - geralmente acalmava minha loba interior.
Mas esta noite, seu cheiro estava denso no ar, enjoativo e pesado. E estava misturado com outra coisa.
Orquídeas e almíscar. Artificial. Doentiamente doce.
Meu estômago se revirou. Eu conhecia aquele cheiro. Kiara Matos.
Parei atrás de um grande carvalho perto da varanda. As janelas do chão ao teto estavam sem cortinas, exibindo a sala de estar como um palco.
Eu o vi.
Ivan estava no tapete, de quatro, rindo. Ele não era o CEO Alfa, estoico e aterrorizante que o mundo conhecia. Ele estava brincando. Em suas costas, um menino pequeno, Leo, puxava suas orelhas.
E ali, sentada no sofá de couro macio, bebendo vinho, estava Kiara. Ela parecia uma rainha inspecionando seu reino.
Minha loba interior, geralmente uma presença quieta e submissa, soltou um gemido baixo e confuso. *Companheiro? Por que o Companheiro está com ela?*
Aproximei-me sorrateiramente, usando as sombras. Minha audição se aguçou, filtrando o farfalhar das folhas e o tráfego distante, focando nas vozes lá dentro.
"Você realmente deveria contar para ela, Ivan", Kiara ronronou. "Cinco anos é muito tempo para manter um bichinho de estimação. Ver aquela vadia brincando de casinha está ficando velho."
Ivan se levantou, erguendo o menino sem esforço sobre os ombros. "Paciência, Kiara. A fusão é na semana que vem. Assim que os papéis forem assinados e o território dos Queiroz for legalmente meu, ela se torna inútil."
"Mas ela é sua Companheira de Alma", Kiara provocou, embora houvesse veneno em sua voz. "Não dói mentir para ela?"
Ivan zombou. O som foi como um golpe físico no meu peito.
"Aliana é um peão", ele disse friamente. "Ela tem a linhagem dos Queiroz, mas é fraca. Foi criada por humanos. Ela tem cheiro de hospital e de medo. Ela não serve para ser a Luna do Império Bittencourt. Você serve."
Senti o sangue sumir do meu rosto. Um peão.
"Além disso", Ivan continuou, caminhando para beijar a testa de Kiara, "eu nunca completei a Marcação. O laço existe, mas é fraco. Posso rejeitá-la quando eu quiser."
Levei a mão à boca para abafar um soluço. A Marcação. Ele sempre dizia que queria esperar até a nossa noite de núpcias, por respeito. Não era respeito. Era uma brecha.
"E os pais dela?", Kiara perguntou. "Eles não vão ficar felizes se você largar a filhinha preciosa deles."
Ivan riu de novo. "Ricardo e Eleonora? Quem você acha que paga por esta mansão, Kiara? Eles sabem. Preferem uma aliança forte comigo à felicidade de uma filha que consideram uma decepção. Eles acham que a Aliana é 'mole demais' para liderar."
Meus joelhos cederam. Eu afundei na grama molhada.
Meus pais. Minha própria mãe e meu pai. Eles estavam pagando pela casa onde meu companheiro mantinha sua amante e o filho deles.
Meu celular vibrou no meu bolso. Olhei para baixo, com a visão embaçada. Uma mensagem de Ivan.
*Amor, estou preso na fronteira lidando com alguns Renegados. Vai ser uma noite longa. Não me espere acordada. Te amo.*
Olhei pela janela. Ivan estava servindo mais vinho para Kiara, sorrindo aquele sorriso encantador que eu pensei que pertencia apenas a mim.
Minha loba interior não gemeu desta vez. Ela ficou em silêncio. Um silêncio mortal e frio que era muito mais aterrorizante do que sua dor.
Eu não invadi a casa. Eu não gritei. Deixei a marmita térmica com o ensopado na base do carvalho.
Então, me virei e fui embora. O amor em meu coração estava esfriando rapidamente, endurecendo em algo afiado e irregular. Algo que parecia vingança.
Ponto de Vista: Aliana
Na manhã seguinte, Ivan chegou em casa cheirando a traição.
Eu estava na cozinha, preparando um café que não pretendia beber. A porta da frente se abriu e ele entrou, impecavelmente arrumado em um terno novo. Mas por baixo da colônia cara, eu podia sentir o cheiro dela. O almíscar de orquídea estava impregnado em sua pele, entrelaçado em cada poro.
"Bom dia, linda", disse Ivan, aproximando-se por trás de mim.
Ele passou os braços pela minha cintura. Minha pele se arrepiou. Parecia que milhares de insetos estavam correndo sobre mim. Minha loba rosnou, um som profundo e gutural que ecoou no meu crânio. *Traidor. Imundo.*
Ele se inclinou para beijar meu pescoço, bem no lugar onde a marca de um companheiro deveria estar.
"Estou com dor de garganta", eu disse, afastando-me bruscamente. "Não quero te deixar doente antes da fusão."
Ivan parou, um lampejo de irritação cruzando seus olhos antes que ele o mascarasse com preocupação. "Você trabalha demais, Ali. Deveria descansar. Assim que nos casarmos, você não precisará mais trabalhar no hospital."
*Porque você planeja me trancar ou me jogar fora*, pensei.
"Talvez", forcei um sorriso. "Vá tomar um banho. Você está com cheiro de... mato."
Assim que a porta do banheiro se fechou e a água começou a correr, eu agi.
Não fui para o quarto. Fui para o escritório dele.
A porta estava trancada com um scanner biométrico. Ivan achava que eu era apenas uma Curandeira simples, uma mulher de coração mole que remendava guerreiros. Ele esqueceu quem cuidou da instalação do sistema de segurança da propriedade.
Peguei meu tablet e o conectei ao sistema de automação da casa. Eu não precisava do dedo dele. Eu tinha os códigos de administrador que ele foi preguiçoso demais para mudar do padrão de fábrica.
"Acesso Concedido", a tela piscou.
A fechadura se abriu com um baque suave.
Entrei e fui direto para o cofre na parede. A senha era fácil - o aniversário dele. Narcisista.
Lá dentro, encontrei o que estava procurando. Uma pilha de registros financeiros.
Folheei-os, meus olhos de cirurgiã escaneando os dados. Transferências mensais de duzentos e cinquenta mil reais para uma empresa de fachada registrada no nome de Kiara. Anotações sobre "Pensão do Filhote".
E então, uma pasta azul.
Eu a abri. Era um relatório de teste de DNA para Leo.
Indivíduo: Leo Matos.
Paternidade: 99,9% de Compatibilidade com Ivan Bittencourt.
Meu coração martelava contra minhas costelas, mas meu cérebro estava frio. Olhei mais de perto os gráficos de dados. Eu lido com genética diariamente. Algo estava errado. Os marcadores de alelos na segunda página não batiam com o resumo da primeira.
O resumo dizia "Compatível". Os dados brutos sugeriam... outra coisa. Inconsistências.
Parecia adulterado. Mas havia outra coisa na pilha. Uma minuta de contrato intitulada "Acordo de Transferência de Patentes".
Li por cima, minha respiração falhando. Não era apenas sobre território. Era sobre o meu trabalho. Minha pesquisa sobre regeneração celular acelerada - valendo bilhões para as empresas farmacêuticas. O contrato estipulava que, após o casamento, toda a minha propriedade intelectual seria transferida exclusivamente para a Alcateia Bittencourt.
"Seu desgraçado ganancioso", sussurrei.
Peguei um pen drive e copiei tudo - as transferências bancárias, os e-mails entre Ivan e meu pai, o relatório de DNA falso e a minuta de roubo de patentes.
De repente, a câmera escondida no canto da sala zumbiu.
Uma dor aguda perfurou minha têmpora. Uma Conexão Mental.
Não era Ivan. Era uma voz estranha, invasiva, deslizando para dentro da minha cabeça como óleo.
*Achou o que estava procurando, vira-lata?*
Kiara.
Ela não era da minha alcateia. Ela não deveria ser capaz de se conectar mentalmente comigo. Devia estar usando um totem de bruxa.
*Fique fora da minha cabeça*, projetei de volta, protegendo minha mente.
*Eu só queria te mostrar uma coisa*, a voz dela riu.
Meu celular vibrou. Uma mensagem com foto.
Era uma selfie. Kiara, vestindo nada além de um lençol de seda, e em seu pescoço havia um colar. Um pesado pingente de prata com uma pedra da lua azul.
O Colar da Matriarca Queiroz. O colar da minha avó. Aquele que minha mãe jurou que estava sendo polido na joalheria para o meu dia de casamento.
*Fica melhor em mim, não acha?*, a voz de Kiara ecoou em minha mente. *Sua mãe me deu ontem. Ela disse que combina com uma verdadeira Luna.*
Eu encarei a tela. A dor que ameaçava me afogar evaporou. Em seu lugar, um fogo se acendeu. Uma fúria branca, ofuscante.
Eles me despiram da minha dignidade. Eles zombaram do meu amor. Eles roubaram meu direito de nascença.
Olhei para o meu reflexo no monitor escuro do computador. Meus olhos, geralmente de um tom avelã quente, brilhavam com uma luz pálida e prateada.
Minha loba interior se levantou, sacudindo as correntes de submissão que eu havia colocado nela por anos para me encaixar nesta família "civilizada".
*Chega*, ela rosnou. *Nós caçamos.*
Retirei o pen drive, limpei minhas impressões digitais do cofre e saí.
Ponto de Vista: Aliana
Eu não precisava ver mais nada. Eu tinha a prova do crime, o motivo e a arma.
Dirigi direto para o único lugar onde Ivan não me procuraria: um pequeno e bagunçado escritório de advocacia acima de uma padaria no distrito beta.
"Você tem certeza disso, Ali?"
Débora, minha advogada e melhor amiga, olhou para os documentos espalhados pela mesa de centro. Seus olhos de bruxa estavam arregalados de choque.
"Olhe a minuta da patente, Debs", eu disse, apontando para a cláusula que encontrei no cofre. "Eles não querem apenas a terra. Eles querem minha mente. Minha pesquisa."
Débora examinou a página, sua expressão escurecendo. "Eles estão planejando te prender completamente. Assim que você assinar a certidão de casamento, você se torna propriedade. Seus pais aprovaram isso?"
"Meus pais redigiram", eu disse, minha voz morta.
Débora bateu a mão na mesa. Faíscas de magia roxa saltaram de seus dedos. "Isso é ilegal! É uma violação dos Acordos! Podemos amaldiçoá-los. Eu posso fazer as bolas do Ivan murcharem e caírem."
"Tentador", eu disse secamente. "Mas não. Eu quero machucá-los onde realmente importa. O status deles. O dinheiro deles. O orgulho deles."
Empurrei o papel em sua direção. "Está pronto?"
"Ato de Desligamento da Alcateia", Débora leu o título. "Assim que você assinar e registrar isso no Conselho, você se torna essencialmente uma Renegada. Você perde a proteção da Alcateia. Qualquer um pode te atacar."
"Eu fui atacada pela minha própria Alcateia por vinte e quatro anos", eu disse, pegando a caneta. "Vou arriscar a sorte na selva."
Assinei meu nome. Aliana Queiroz. A tinta parecia preta e final.
"Registre no momento em que o relógio marcar dez horas esta noite", instruí. "É quando a festa começa."
"Para onde você vai?"
"Para o Norte", eu disse. "Para o território da Lua de Sangue. Eles valorizam Curandeiros mais do que linhagem."
Levantei-me e a abracei. "Obrigada, Debs."
"Acaba com eles, Alfa", ela sussurrou.
"Eu não sou uma Alfa", corrigi.
"Você será", ela sorriu misteriosamente.