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A Dívida que nos Uniu

A Dívida que nos Uniu

Autor:: Sah Reis
Gênero: Romance
Pedro Alencar, 45 anos, é um fazendeiro rico, viúvo e solitário que vive isolado em suas terras desde a morte da esposa. Sua vida muda quando José Oliveira, incapaz de pagar uma antiga dívida, oferece a mão de sua filha Ana em casamento. Ana, de 22 anos, é bela, forte e determinada, mas também rebelde e apaixonada por liberdade. Forçada a aceitar o casamento arranjado, ela chega à fazenda decidida a não se submeter ao marido frio e distante. Entre confrontos, silêncios e desafios, a convivência dos dois é marcada por tensão. Mas um acidente inesperado faz Ana enxergar o homem por trás da dureza de Pedro. Aos poucos, o que começou como uma obrigação transforma-se em respeito, aproximação e um amor que nenhum dos dois esperava viver. Um romance intenso sobre destinos improváveis, segundas chances e corações que aprendem a amar.

Capítulo 1 Prólogo

O sol mal despontava no horizonte quando Pedro Alencar já estava de pé.

A fazenda despertava aos poucos sob seus comandos silenciosos: o mugido distante do gado, o ranger da porteira velha, o cheiro de terra molhada misturado ao aroma forte do café que ele mesmo coava no fogão a lenha. Aos quarenta e cinco anos, Pedro era um homem imponente... alto, ombros largos moldados pelo trabalho duro, mãos calejadas que pareciam feitas para segurar rédeas e arreios. Os cabelos levemente ondulados que exibiam fios grisalhos nas têmporas, e a barba por fazer dava-lhe um ar permanentemente fechado, quase inacessível.

Desde que enviuvou, ele se tornou ainda mais recluso. A filha adulta morava no exterior e raramente aparecia. A casa que antes ecoava risadas de criança e conversas animadas, agora guardava apenas o silêncio e o peso das lembranças. Vivia sozinho na casa, não tinha empregada para cozinhar ou cuidar de suas coisas, pois não queria ter alguém por perto andando a toda hora pela casa, então optou por ficar assim, apenas aceitou que uma vez na semana a mulher de um de seus empregados da fazenda vinha até a casa para limpar o ambiente.

Pedro repetia para si mesmo que estava bem assim. Porém uma dívida precisou ser cobrada.

Anos antes, José Oliveira pediu dinheiro emprestado para salvar sua propriedade. Pedro o ajudou sem pestanejar, eram vizinhos, conhecidos de longa data. Mas o tempo passou, os prazos venceram e o dinheiro nunca voltou. Quando Pedro finalmente decidiu cobrar, José apareceu com uma proposta que o pegou desprevenido.

- Tenho algo melhor do que dinheiro - disse José, o peito estufado de um orgulho antiquado. - Minha filha.

Pedro soltou uma risada seca, incrédula.

- Você enlouqueceu, José?

- Ana tem vinte e dois anos. É bonita, prendada. Sabe cozinhar, limpar, cuidar da casa como ninguém. Você é um homem sozinho nessa casa enorme... Ela seria uma boa companhia. Uma boa esposa.

- Eu não preciso de esposa. Preciso do meu dinheiro.

José baixou a voz, mas não recuou.

- Pense bem, Pedro. Você vive como um fantasma aqui. Ela traria vida de volta pra essa casa.

Pedro recusou na hora. Mas os dias seguintes foram longos. A solidão pesava mais do que ele admitia. As noites se arrastavam, a casa parecia crescer ao redor dele. Após uma semana de reflexões silenciosas na varanda, ele aceitou.

O que Pedro não sabia ou preferia ignorar, era que "obediente" era a última palavra que definia Ana Oliveira.

Quando soube do acordo, Ana transformou a casa dos pais em um campo de batalha. Gritou, chorou, quebrou pratos contra a parede, derrubou cadeiras.

- Eu não sou mercadoria, pai! - berrou ela, os olhos faiscando de raiva.

- Você não pode me vender como se eu fosse uma vaca!

José permaneceu impassível, a voz baixa e cortante.

- Você vai se casar com ele, Ana. Ou vamos perder tudo. É isso mesmo que você quer? Que eu sua mãe e sua tia já em uma certa idade vamos parar na rua? Eu devo muito dinheiro a ele, e nunca vou conseguir pagar, nem que eu leve uma vida!

- Isso é chantagem!

- É sobrevivência. E você vai obedecer sim!

Sob ameaças emocionais e pressão constante, Ana cedeu não por submissão, mas por exaustão e medo do que o pai poderia fazer com ela.

O casamento foi na fazenda de Pedro: simples, frio, quase funéreo. Apenas José, a mãe e a tia de Ana como testemunhas. Sem convidados, sem festa, sem sorrisos. Nem a filha de Pedro apareceu.

Quando o juiz declarou-os marido e mulher, não houve beijo, apenas um aceno seco e um aperto de mãos formal.

A primeira noite na mansão foi um teste de resistência para Ana.

O sol já se punha quando Pedro a levou para dentro da casa. A entrada principal exalava um cheiro de madeira antiga e cera de chão, misturado ao leve aroma de café que ainda pairava da cozinha. Os corredores eram largos, as paredes cobertas de retratos emoldurados de antepassados que pareciam observá-la com desaprovação. Tudo estava bem limpo e organizado, os móveis em madeira rústica que pareciam residir ali a muitos anos, tudo muito bem preservado.

Pedro caminhava à frente, sem dizer nada, carregando a pequena mala dela como se fosse um fardo qualquer.

Ele parou diante de uma das portas do andar superior.

- Esse é o seu quarto - disse ele, a voz grave e neutra, abrindo a porta.

- Tem tudo que precisa. Banheiro privativo, armário vazio. Se quiser trocar alguma coisa, me avise.

Ana entrou devagar. O quarto era amplo, com uma cama de casal antiga de madeira escura, lençóis brancos impecáveis, combinando perfeitamente com as cortinas e uma leve fragância de lavanda no ar. Também havia uma cômoda antiga e uma janela grande que dava para os pastos escuros. Um abajur de luz amarelada iluminava o ambiente, mas não conseguia afastar a sensação de vazio.

Pedro ficou na porta, sem entrar.

- Boa noite - murmurou ele, já se virando para ir embora.

Ana se virou rápido, o coração acelerado de raiva e medo misturados.

- Espera aí. É só isso? Você me arrasta pra cá, me casa na marra e agora me deixa sozinha nesse mausoléu?

Pedro parou, os ombros tensos. Virou-se devagar.

- Eu não arrastei ninguém. Você aceitou.

- Aceitei porque meu pai me encurralou! - rebateu ela, a voz tremendo. - Mas não pense que vou fingir que isso é normal. Que vou dormir tranquila sabendo que vendi minha liberdade por uma dívida alheia.

Ele a encarou por um longo momento, os olhos escuros indecifráveis.

- Ninguém pediu pra você fingir nada. Durma. Amanhã a gente conversa.

- E se eu não quiser dormir aqui? Se eu quiser ir embora agora?

Pedro deu um passo para dentro do quarto, a presença dele preenchendo o espaço.

- A porta está aberta. Mas lá fora tem estrada de terra, noite escura e nada além de mato. Se for embora, vai a pé.

E seu pai... bem, você sabe melhor do que eu o que ele faria.

Ana sentiu um nó na garganta. Ele não ameaçava, apenas constatava. E isso doía mais.

- Você é um bruto - sussurrou ela, virando o rosto para não deixar as lágrimas caírem.

- Talvez. Mas não sou mentiroso. - Ele fez uma pausa. - Se precisar de algo, meu quarto fica no fim do corredor. Não vou trancar a porta.

Sem mais palavras, Pedro saiu e fechou a porta com cuidado.

Ana ficou parada no meio do quarto, os braços cruzados sobre o peito como se pudesse se proteger do silêncio que a engolia. Sentou-se na beira da cama, os dedos apertando o lençol. Ouvia o ranger distante da madeira da casa se acomodando, o vento batendo nas janelas, o coaxar de sapos nos pastos. Nada de risadas, nada de música, nada da tia contando histórias na cozinha.

Pela primeira vez na vida, sentiu-se verdadeiramente sozinha.

Deitou-se vestida, sem nem tirar os sapatos. Olhou para o teto alto, as lágrimas escorrendo silenciosas pelas têmporas. Pensou na mãe, na tia, na liberdade que tinha perdido em um dia. Pensou em Pedro, aquele homem fechado, de poucas palavras, que a olhara com algo que não era raiva, nem pena. Era... resignação?

Não dormiu direito. Virou-se na cama enorme, o corpo tenso, ouvindo cada ruído da casa como se fosse uma ameaça. Em algum momento da madrugada, ouviu passos leves no corredor - Pedro, provavelmente, verificando algo na varanda. Ele não parou na porta dela. Apenas passou.

Ana fechou os olhos e sussurrou para si mesma:

- Isso não vai durar. Eu vou embora. De um jeito ou de outro.

Mas, no fundo, uma vozinha traiçoeira perguntava: E se não for tão ruim assim?

***

Os dias passavam e a convivência entre eles era uma guerra, Ana não cedia, Pedro a ignorava o que a fazia ficar mais irada com a situação.

Ana se recusava a bancar a esposa submissa. Respondia com ironia, questionava ordens, enfrentava Pedro sem hesitar.

- Se você acha que vou ficar aqui lavando sua cueca e cozinhando feijão como se nada tivesse acontecido, está muito enganado, disse ela certa manhã, cruzando os braços na cozinha.

Pedro ergueu uma sobrancelha, a voz grave e contida.

- Ninguém pediu pra você virar empregada. Mas enquanto estiver debaixo do meu teto, vai respeitar a casa.

- Respeitar? Você me comprou, Pedro. Respeito se conquista, não se exige.

Ele a encarou por um longo segundo, os olhos escuros indecifráveis.

- Então conquiste o seu espaço. Mas não espere que eu corra atrás.

Dormiam em quartos separados, quase não se falavam e quando se falavam eram trocadilhos de provocações.

A casa agora abrigava dois silêncios que colidiam como trovões distantes.

Ela o chamava de bruto nas costas.

Ele a chamava de imprudente quando ela saía sozinha pela propriedade.

E, ainda assim, algo invisível começava a se formar entre eles.

Capítulo 2 O Bruto e a Teimosa

Os dias se arrastavam na fazenda como o sol lento no céu do interior. Ana tentava manter a rebeldia acesa, mas a rotina imposta por Pedro ou melhor, a ausência de rotina imposta a desgastava. Ele não a obrigava a nada: não exigia que cozinhasse, limpasse ou se comportasse como "esposa". Apenas vivia como sempre vivera, e isso a irritava mais do que qualquer ordem.

Certa manhã, Ana apareceu na cozinha com uma blusa solta e jeans surrado, o cabelo preso num coque bagunçado.

- Vou dar uma volta pela propriedade - anunciou ela, como se fosse um desafio.

Pedro, bebendo café preto na mesa comprida, ergueu os olhos devagar.

- Cuidado com o curral do fundo. O touro novo tá arisco.

- Eu sei me virar - rebateu ela, seca. - Não preciso de babá.

Ele deu de ombros.

- Nunca disse que precisava.

Mas quando ela voltou horas depois, suja de terra e com um arranhão no braço, Pedro estava na varanda, esperando. Não disse nada sobre o machucado. Apenas estendeu um copo d'água gelada.

- Toma. Vai desidratar desse jeito.

Ana pegou o copo, mas não agradeceu.

- Não pedi sua ajuda.

- Eu sei. Mas você tá aqui. Então beba.

As farpas continuavam. Pequenas, afiadas, diárias.

Ana amava cozinhar, fazia por gosto, não porque ele mandasse, e também para passar seu tempo enquanto ela vivia ali, como prisioneira, como ela mesma vivia falando.

Ela preparava pratos que enchiam a casa de cheiro bom, carne de panela com batata, arroz soltinho, feijão temperado com alho e louro. Mas colocava o prato dele na mesa sem dizer uma palavra e comia na cozinha, de pé, olhando pela janela.

Pedro comia em silêncio na sala de jantar, olhando para o prato como se fosse um relatório de safra. Às vezes, quando achava que ela não estava vendo, observava as costas dela enquanto lavava a louça. Não dizia nada. Nunca dizia nada.

Ela falava com os peões, com os cavalos, com as galinhas. Respondia "sim senhor" e "não senhor" para ele com um tom que transformava qualquer educação em provocação.

Quando ele dava alguma ordem - "deixa esse portão aberto", "não deixa a porteira do curral encostada" -, ela obedecia, mas sempre com um comentário ácido depois.

- Se o senhor quer tanto mandar em alguma coisa, por que não manda no vento? - disse ela uma vez, enquanto fechava a porteira com mais força do que precisava.

Pedro apenas a encarou por alguns segundos. Depois virou as costas e foi embora, e sem que ela percebesse ele deu um leve sorriso.

E assim seguiam os dias... dois estranhos dividindo a mesma casa, o mesmo teto, o mesmo silêncio pesado.

Uma tarde ensolarada, Ana resolveu subir na mangueira mais alta do pomar. Ela queria as mangas mais maduras, as que ficavam lá em cima, quase fora do alcance. Subiu descalça, ágil como sempre foi, rindo sozinha do perigo. Quando esticou o braço para pegar a última, o galho cedeu. Não muito. Só o suficiente para desequilibrá-la.

Ela caiu.

O impacto foi seco.

A perna torceu de lado, o tornozelo virou num ângulo errado. A dor subiu como facada. Ana mordeu o lábio até sangrar para não gritar.

Mas foi obrigada a gritar mesmo assim logo em seguida quando tentou se apoiar no pé.

Minutos depois, Pedro apareceu correndo. Alguém o chamou do curral. Ele largou o arame farpado que estava esticando e veio sem chapéu, sem camisa de manga comprida, só com a regata suja de terra e suor.

- Ana!

Ele se ajoelhou ao lado dela, as mãos grandes e calejadas pairando sem saber onde tocar primeiro.

- Não mexe - disse ele, voz baixa, mas firme. - Deixa eu ver.

Ela tentou afastar a mão dele.

- Não precisa. Eu me viro.

- Cala a boca, menina!

O tom não era bruto. Era preocupado.

E isso a pegou de surpresa.

Pedro passou um braço por baixo dos joelhos dela e o outro nas costas. Levantou-a como se ela não pesasse nada. Ana abriu a boca para protestar, mas a dor latejante no tornozelo a calou.

Ele a levou para dentro de casa, subiu as escadas com cuidado, entrou no quarto dela e a deitou na cama. Foi buscar gelo na cozinha, voltou com uma toalha molhada e um balde. Sentou-se na beira da cama, segurou o pé dela com uma delicadeza que ninguém imaginaria possível em mãos tão grandes e ásperas.

- Vai doer um pouco - avisou.

- Eu aguento - respondeu ela, mas a voz saiu fraca.

Ele começou a colocar gelo devagar.

De vez em quando erguia os olhos para ver se ela estava bem. Quando ela fazia careta, ele parava, esperava. Não falava muito. Só fazia o que precisava ser feito.

Ana observava tudo aquilo em silêncio. O jeito como ele franzia a testa concentrado. Como os músculos do antebraço se moviam enquanto segurava o pé dela com cuidado. Como ele parecia... humano. Não o fazendeiro frio e solitário que ela pintou na cabeça. Não o homem que aceitou uma esposa em troca de uma dívida.

Era só... Pedro.

E, pela primeira vez desde que chegara àquela fazenda, Ana não sentiu vontade de brigar.

Ela apenas fechou os olhos e deixou que ele cuidasse dela.

Os dias se passaram, Ana se recuperou da queda, quase não sentia dor ao caminhar, porém apesar de ser grata por Pedro ter cuidado dela, a ideia de fugir daquele lugar, ainda pairava naquela cabecinha teimosa.

Então Ana começou a planejar sua fuga em segredo. Tinha algum dinheiro guardado que sua mãe havia lhe durante um bom tempo para comprar seu enxoval quando um dia se casasse, agora lhe serviria, visto que seu casamento não foi como um dia ela imaginou.

Observava os horários dos caminhoneiros que passavam pela estrada principal, para que pudesse conseguir uma carona até a cidade.

Certa noite, quando Pedro saiu cedo para verificar um gado doente, ela arrumou uma mochila pequena: roupas, documentos, um pouco de comida. O coração batia forte enquanto descia as escadas rangentes, a casa escura e silenciosa.

Chegou à porteira principal. A lua iluminava o caminho de terra. Mas, ao abrir o trinco, ouviu o som de cascos. Pedro apareceu montado no cavalo, vindo da direção oposta, como se soubesse.

- Indo a algum lugar? - perguntou ele, a voz baixa, sem raiva.

Ana congelou.

- Vou embora. Você não pode me impedir.

Ele desmontou devagar, aproximando-se.

- Não vou impedir. A estrada tá ali, ele disse -Porém pense bem, não terá mais volta.

- Eu não aguento mais isso - disse ela, a voz falhando. - Essa casa, esse silêncio, você me olhando como se eu fosse um erro que você comprou.

Pedro ficou quieto por um longo momento.

- Eu nunca te vi como erro.

Ana riu, amarga.

- Então por que aceitou?

- Porque eu tava sozinho. E porque... achei que talvez você pudesse mudar isso -Confessou.

Ela baixou os olhos, as lágrimas vindo sem permissão.

- Eu tentei fugir três vezes nos últimos meses. Toda vez você aparece. Como se soubesse.

- Eu sei porque te observo - admitiu ele, sem rodeios. - Não pra prender. Pra proteger.

Ana ergueu o rosto, surpresa.

- Proteger de quê?

- De você mesma. De decisões que você toma na raiva.

Ela deixou a mochila cair no chão.

- Me deixa ir, Pedro. Por favor.

Ele respirou fundo, olhando para o céu estrelado antes de voltar os olhos para ela.

- Tá bem. Você tá livre.

As palavras caíram pesadas no ar.

- Livre? - repetiu ela, incrédula.

- Livre. A dívida do seu pai eu perdoo. Amanhã mesmo mando o recibo pra ele. Você pode ir embora agora, pegar o primeiro ônibus na cidade, voltar pra sua vida. Sem culpa, sem obrigação. Eu não vou atrás.

Ana sentiu o chão sumir. Esperava resistência, briga, talvez até uma discussão acalorada. Não isso. Não a liberdade jogada aos seus pés como se não doesse nele também.

- Por quê? - perguntou ela, a voz quase um sussurro.

Pedro passou a mão na barba, o gesto cansado.

- Porque eu não quero uma esposa que fica por obrigação. Quero... se for pra ficar, que seja porque você quer. Não porque tem que ficar.

O silêncio se estendeu. Ana olhou para a estrada escura, depois para a casa grande atrás dele - as luzes acesas na varanda, o cheiro de café que ainda pairava, o som distante dos grilos. Pensou nas noites sozinha no quarto, nas vezes que ele cuidou dela sem pedir nada em troca, nas conversas curtas que aos poucos viraram algo mais. No jeito que ele a olhava agora: não como posse, mas como alguém que ele aprendera a respeitar.

Ela deu um passo à frente, em direção a ele, não à estrada.

- E se eu quiser ficar? - perguntou, a voz baixa, mas firme.

Pedro a encarou, surpreso pela primeira vez.

- Então fica. Mas não por pena. Não por medo. Fica porque aqui é onde você quer estar.

Ana respirou fundo, o peito subindo e descendo.

- Eu odeio você "às vezes". Odeio o que meu pai fez, odeio como tudo começou, odeio essa situação...

Ele não se moveu, apenas esperou, respirou fundo...

Ela continuou,

- Eu vi você cuidando do cavalo ferido semana passada. Vi você falando sozinho com a filha no telefone, tentando não mostrar que sente falta. Vi você me olhando quando acha que eu não percebo. E eu vi também seu cuidado comigo naquele dia - Ela fez uma pausa. - Eu não sei o que é isso ainda, está tudo muito confuso, mas...acho que não sei se quero ir embora agora sem descobrir o que se passa aqui dentro - tocou de leve no peito.

Pedro deu um passo lento na direção dela, a mão grande estendida, não para segurar, mas para oferecer.

- Então descobre... Aqui. Comigo!

Ana hesitou só um segundo. Depois, colocou a mão na dele. Os dedos calejados dele envolveram os dela com cuidado, como se temesse quebrar algo precioso.

- Não vai ser fácil - murmurou ela.

- Eu sei.

- E eu vou continuar te chamando de bruto.

- E eu vou continuar te chamando de teimosa.

Ana sorriu pela primeira vez, um sorriso pequeno, mas verdadeiro.

- Combinado. - apertaram as mãos.

Então eles voltaram para casa juntos.

A porta se fechou atrás deles, mas dessa vez não era prisão. Era escolha.

E, aos poucos, o silêncio da fazenda começou a ser preenchido por algo novo: risadas baixas, olhares demorados, toques que não precisavam de palavras. O romance que nascera de uma dívida agora florescia por vontade própria, sem cobranças e sem pressa.

Capítulo 3 O lugar certo

Os meses seguintes foram um exercício lento de convivência, sem pressa, sem promessas. Ana ficou , não porque se apaixonou de repente, mas porque, pela primeira vez, sentiu que podia respirar sem o peso de uma coleira invisível.

Pedro não cobrou nada. Não tentou beijá-la, não invadiu seu espaço, não perguntou "e agora?". Apenas continuou sendo quem era: um homem de rotina, de poucas palavras, mas de ações consistentes.

A amizade começou nas coisas pequenas, quase sem que percebessem.

Uma manhã chuvosa, Ana desceu para a cozinha e encontrou o café já coado, uma xícara fumegante esperando por ela na mesa. Ao lado, um prato com pão de queijo fresco, daqueles que ela mesma o ensinara a fazer semanas antes, quando reclamara que o dele ficava seco.

- Fiz errado de propósito pra você reclamar - disse Pedro, sem olhar para ela, concentrado em limpar a faca.

Ana sentou-se, pegou um pãozinho quente e deu uma mordida.

- Tá bom. Mas da próxima vez coloca mais queijo.

Ele deu um meio-sorriso, o primeiro que ela viu que não era forçado.

- Anotado.

Outra tarde, Pedro voltou do curral com o braço sangrando: um arame farpado o pegara fundo. Ana estava na varanda lendo um livro velho que encontrou na estante da sala. Quando o viu, largou o livro no chão e correu para dentro.

- Senta aí - ordenou ela, já pegando a caixa de primeiros socorros.

Pedro obedeceu sem discutir, sentando na cadeira da cozinha. Ana limpou o corte com cuidado, os dedos leves contrastando com a força que ele usava no dia a dia.

- Você é péssimo em se cuidar - murmurou ela.

- Nunca precisei.

- Agora precisa.

Ele a observou em silêncio enquanto ela passava o antisséptico e fazia o curativo. Quando terminou, Ana ergueu os olhos e encontrou os dele fixos nela, não com desejo, mas com uma gratidão quieta.

- Obrigado - disse ele, simplesmente.

Ana deu de ombros, desconfortável com a sinceridade.

- Não foi nada. Só não quero ter que limpar sangue do chão toda semana.

Mas naquela mesma noite, quando ela foi dormir, encontrou um copo d'água fresco na mesinha de cabeceira e um bilhete pequeno ao lado:

"Pra garganta seca da leitura.

Boa noite."

Ela guardou o bilhete na gaveta, sorrio sem jeito.

As farpas não sumiram, mas mudaram de tom. Viraram brincadeiras disfarçadas, provocações leves.

- Você ronca - disse ela certa manhã, servindo café para os dois.-Do meu quarto eu escuto o som - disse

Ele olhou sério e rebateu

- E você fala dormindo - disse em tom de provocação - Ontem mesmo quando passei pelo corredor, escutei que chamou alguém de "idiota teimoso".

Ana corou levemente.

- Era você.

- Imaginei.

Eles riram - um riso curto, mas genuíno.

Pedro começou a convidá-la para as tarefas da fazenda, não como obrigação, mas como companhia. Mostrava como castrar bezerros sem machucar, como identificar planta venenosa no pasto, como consertar cerca sem rasgar a mão. Ana aprendia rápido, e às vezes errava de propósito só para ver ele explicar de novo, com paciência que ninguém imaginaria que ele tivesse.

- Você é bom professor - admitiu ela uma vez, enquanto os dois sentavam na sombra de uma jaqueira depois de um dia longo.

- Você é boa aluna... Quando quer. -Completou.

- Às vezes eu quero - respondeu ela, olhando para o horizonte. - Às vezes eu só quero ficar quieta.

- Então fica quieta. Eu fico junto. -Ambos sorriram.

E ali ficaram. Sentados lado a lado, sem precisar preencher o silêncio com palavras. O vento balançava as folhas, o gado mugia ao longe, e pela primeira vez Ana não sentia o vazio da solidão - sentia presença.

Certa noite de lua cheia, Ana não conseguiu dormir. Desceu para a cozinha e encontrou Pedro na varanda, olhando o céu com um copo de água na mão.

- Insônia? - perguntou ela, parando na porta.

- Velha conhecida - respondeu ele. - E você?

- Pesadelo com meu pai - admitiu ela, sentando na cadeira ao lado. - Sonhei que ele aparecia aqui cobrando mais alguma coisa.

Pedro ficou quieto por um momento.

- Ele não vai aparecer . A dívida tá quitada. E se aparecer, eu cuido.

Ana olhou para ele, surpresa com a firmeza na voz.

- Você faria isso?

- Faria. Não por você ser minha esposa no papel. Por você ser... Ana.

Ela sentiu um aperto no peito - não de paixão, mas de algo mais profundo...confiança.

- Obrigada - sussurrou.

Ele apenas assentiu.

Com o tempo, o carinho se instalou nas pequenas gentilezas. Pedro deixava o rádio na estação que ela gostava quando cozinhava. Ana começava a preparar o café dele do jeito que ele preferia, forte, sem açúcar, com um toque de canela que ele nunca pedira, mas sempre sorria ao provar. Ele consertava a janela que rangia no quarto dela sem que ela pedisse. Ela deixava um prato de bolo de fubá na mesa quando sabia que ele tivera um dia ruim com o gado.

Não havia beijos, nem declarações. Não havia pressa, mas havia cuidado.

Havia amizade, havia um vínculo crescendo devagar, feito de respeito mútuo, de silêncios compartilhados, de risadas roubadas e de noites em que um simplesmente ficava perto do outro porque sim.

Uma tarde, enquanto colhiam laranjas juntos no pomar, Ana parou e olhou para ele.

- Sabe, Pedro... eu não imaginava que ia gostar de ficar aqui.

Ele colheu uma laranja madura e colocou na cesta dela.

- E eu não imaginava que ia gostar de ter você aqui.

Ana sorriu - um sorriso leve, verdadeiro.

- Então a gente continua assim? Sem forçar nada?

- Continua. No nosso tempo.

Eles voltaram para casa lado a lado, as cestas cheias, o sol se pondo atrás das montanhas. Não havia romance ainda,mas havia algo talvez mais raro: duas pessoas que, depois de tudo, escolheram continuar caminhando juntas, não por obrigação, mas porque, aos poucos, o caminho ao lado do outro começava a parecer o lugar certo.

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