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A Dama Mais Astuta

A Dama Mais Astuta

Autor: ClaraM
Gênero: Romance
Na calma (mas nunca realmente tranquila) sociedade de um condado inglês, todos parecem concordar em uma coisa: nada desperta mais agitação do que a chegada de novos cavalheiros à temporada de casamentos da Inglaterra. Quando um jovem herdeiro retorna ao condado e, junto dele, um duque decide passar a temporada longe de Londres, nada permanece calmo.
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Capítulo 1 Filho do Conde Está de Volta

Era uma verdade quase universalmente aceita em Ashfordshire que nenhuma senhora podia comprar um novo vestido sem, ao mesmo tempo, adquirir notícias frescas sobre os vizinhos.

Lady Alexandra Whitlock, cuja inclinação natural era unir elegância à curiosidade, encontrou na manhã em que visitou a modista francesa o mais tentador dos boatos: Lorde Jonathan Blackwood, herdeiro do maior solar do condado, retornara de Cambridge, e, oh, maravilha!, parecia pronto a considerar o matrimônio.

A revelação não lhe chegou em uma carta selada com cera, mas sim durante o tilintar das tesouras de Madame Duval, a costureira de Market Ashford, que, enquanto ajustava a manga de um vestido azul-celeste, suspirou teatralmente:

- Dizem, milady, que o jovem lorde já passeia por Blackwood Manor, com ares de futuro esposo.

Se a senhora Whitlock apenas arqueou a sobrancelha, acredite o leitor: era apenas fachada.

Por dentro, a mente dela já imaginava as inúmeras possibilidades. Porque, convenhamos, um herdeiro retornado, com fortuna intacta e um título a brilhar sobre a cabeça, é para uma mãe de cinco filhas quase tão precioso quanto uma mina de ouro recém-aberta.

Três das senhoritas Whitlock estavam justamente prestes a experimentar os tecidos sobre a mesa de Madame Duval: tafetás em tons de marfim e verde-musgo, musselinas que ainda guardavam o perfume das caixas vindas de Paris.

Catherine, a primogênita, mantinha-se composta e atenta às peças novas; Mary, a segunda, observava em silêncio, o olhar repleto de ironia; e Eleanor, a terceira, agitava-se com impaciência, exigindo fitas cor-de-rosa que Madame Duval, com um suspiro arrogante, retirava de uma gaveta.

Lá fora, na rua estreita de paralelepípedos, o rangido de uma carruagem mal lubrificada misturava-se ao grito dos vendedores de flores.

- Minhas queridas - anunciou Lady Alexandra, ajeitando as luvas -, se o lorde Blackwood está mesmo de volta, temo que Market Ashford não terá um minuto de sossego nos próximos meses.

Mary, que era a única das filhas a manter o hábito perigoso de pensar, não resistiu a um sorriso discreto. Sabia muito bem que nenhuma chama se alastrava mais rápido que um rumor de noivado no condado.

E, caso fosse verdade que Jonathan buscava esposa, ah, pobre de Oakwood Hall, a tranquilidade seria coisa perdida.

Capítulo 2 Sem convite

De volta da costureira, Lady Alexandra Whitlock desceu da carruagem diante de sua residência com o ar triunfante.

Oakwood Hall não era a mais imponente das casas do condado, mas suas paredes de pedra clara, a hera que subia pelas janelas e a pequena alameda ladeada por tílias lhe conferiam uma respeitabilidade suficiente para sustentar, ainda que com esforço, o título de seu dono.

Afinal, ser cavaleiro da Inglaterra era honra distinta, mas não garantia salões repletos de criados nem jardins que se perdiam no horizonte.

Sir Henry estava, como de costume, no salão de leitura: um cômodo forrado de estantes que guardavam livros antigos e um persistente cheiro de pó.

Encontrava-se acomodado em sua poltrona de couro, óculos na ponta do nariz, mergulhado nas colunas do The Times.

A lareira estalava suavemente, espalhando pelo ambiente o odor de carvão queimado.

- Meu caro Henry! - exclamou Lady Alexandra, entrando de súbito, ajeitando as luvas. - Tenho novidades que hão de lhe agradar muitíssimo.

Sir Henry pigarreou, baixando o jornal apenas o suficiente para observar a esposa por sobre as lentes.

- Se for a respeito das novas fitas cor-de-rosa que Eleanor tanto desejava, temo não partilhar do mesmo entusiasmo.

- Ora, não seja irônico! - ela retirou o chapéu com gesto nervoso, depositando-o sobre a mesa. - Refiro-me a algo de real importância. Lorde Jonathan Blackwood retornou de Cambridge.

Sir Henry voltou ao jornal.

- Imagino que os Blackwood saibam perfeitamente onde fica sua própria mansão.

- Henry! - ela aproximou-se, apoiando-se no braço da poltrona, querendo arrancar-lhe a atenção à força. - Não percebe? Ele está de volta, e, segundo todos os indícios, pronto para contrair matrimônio.

O cavaleiro suspirou, folheando outra página.

- Minha querida, o país vive em agitação com as reformas no Parlamento, trabalhadores se amontoam em protestos, e notícias da França dão conta de mais revoluções. Ainda esta semana li sobre tumultos em Paris, e você espera que eu me preocupe com a vida sentimental de um rapaz que mal saiu da universidade?

Lady Alexandra endireitou-se, erguendo o queixo num gesto quase régio.

- A vida sentimental desse rapaz, como lhe chama, pode significar o futuro de nossas filhas. Cinco delas, Henry, cinco! E todas precisam de casamentos honrosos, ou acabaremos soterrados na mediocridade.

Sir Henry fechou o jornal com um estalo.

- Casamentos honrosos não se obtêm invadindo a propriedade alheia - o Sir rebateu, já imaginando a ideia de invasão da esposa.

- Não se trata de invasão, mas de cortesia! - retrucou ela com veemência. - Devemos ir a Blackwood Manor apresentar nossos cumprimentos. É apenas o que a civilidade exige de vizinhos distintos.

- Civilidade? - Sir Henry arqueou as sobrancelhas. - Parece-me mais uma emboscada matrimonial.

Lady Alexandra soltou um suspiro dramático, passeando pela sala como uma atriz em pleno palco.

- Sempre tão prático, Henry. Mas veja: se não nos apresentarmos, correremos o risco de parecer indiferentes. E se outra família, digamos os Cavendish, for mais diligente, perderemos a oportunidade de estar na boa graça do herdeiro.

O cavaleiro fitou-a longamente, um meio sorriso despontando no canto dos lábios.

- Você é incansável, Alexandra.

- Incansável e determinada, meu caro. - Ela voltou a ajustar as luvas, embora já as tivesse tirado. - Diga o que quiser, mas iremos a Blackwood Manor. Eu, ao menos, irei.

Sir Henry recostou-se na poltrona, retomando o jornal com o ar resignado de quem já conhecia o desfecho de tal disputa conjugal.

- Pois bem... desde que não espere que eu conduza o coche até lá sem convite.

- Ora, Henry, se o mundo dependesse apenas de convites, quantos casamentos teriam sido celebrados até hoje?

E, com isso, Lady Alexandra deixou a sala, passos firmes ecoando pelo corredor de madeira, enquanto Sir Henry, sozinho, balançava a cabeça entre divertido e apreensivo, perguntando-se em silêncio se não seria mais fácil enfrentar os tumultos de Paris do que as ambições matrimoniais de sua própria esposa.

Capítulo 3 Ouro não substitui pulmões

A sala de estudos em Oakwood Hall não era grandiosa, tampouco ornada de dourados e estuques como as dos palácios que Lady Alexandra tanto admirava nos relatos de viagem.

Era, no entanto, funcional: paredes claras, estantes carregadas de volumes didáticos, um globo terrestre com o eixo inclinado e, sobre a lareira apagada, retratos sérios de antepassados que, a julgar pelas expressões, jamais sorriram em vida.

Mary estava sentada à mesa com Sophie, a caçula, ajudando-a a decifrar, com infinita paciência, as letras miúdas de um livro de histórias bíblicas. A menina franzia a testa diante das palavras difíceis, enquanto Mary a corrigia com brandura, apontando com o dedo delicado e sussurrando:

- Aqui não é "berre", querida, mas "bere"- "Bere-shit"... veja? É "Bereshit", o começo de tudo.

Sophie soltou uma risadinha nervosa, mais interessada em brincar com a pena de escrever do que em absorver a lição.

Do outro lado da sala, Catherine presidia as práticas musicais: Eleanor dedilhava as teclas do piano com entusiasmo imprudente, arrancando notas rápidas e trôpegas; Grace, de postura impecável, parecia mais interessada em admirar o reflexo de seus próprios cachos escuros na tampa envernizada do instrumento do que em aprender a compor um acorde decente. Catherine, com paciência, corrigia ambas, batendo o compasso com a régua de marfim.

De repente a porta abriu-se com um estalo dramático.

- Ah, minhas filhas, - exclamou Lady Alexandra, adentrando feito uma rajada de vento - vosso pai é o homem mais impossível de toda a Inglaterra!

Todas pararam. Sophia deixou a pena escorregar no chão, Eleanor errou a nota e produziu um som tão agudo que até Grace se sobressaltou. Catherine ergueu o olhar, severa, mas nada disse. Mary, por sua vez, fitou a mãe com a calma irônica de quem já esperava tempestade.

Lady Alexandra arremessou as luvas sobre uma cadeira. Caminhava de um lado ao outro da sala, gesticulando com as mãos finas.

- Imagine, meninas, vosso pai, ao ouvir que o herdeiro dos Blackwood regressou de Cambridge e está pronto para casar-se, não demonstrou senão tédio! Tédio, vejam só! Estava mais preocupado com... oh, com eleições, reformas, tumultos em Paris, como se alguma dessas coisas tivesse a menor relevância para esta família!

Grace tapou a boca para conter uma risada, mas não resistiu a um comentário:

- Talvez papai queira casar-nos com um francês revoltoso...

Eleanor riu alto, ganhando um olhar de repreensão de Catherine, que tentava manter alguma ordem.

Mary, porém, limitou-se a inclinar levemente a cabeça, observando a mãe.

- Sim, zombem à vontade! - continuou Lady Alexandra, erguendo o indicador - Mas quando virdes as Cavendish dançando nos salões de Blackwood Manor e sendo convidadas para jantares finos, lembrar-vos-eis desta hora em que vossa mãe, em sua infinita sabedoria, vos advertiu!

Sophie, olhos muito abertos, murmurou baixinho:

- Mas, mamãe, eu ainda nem sei ler direito... como poderei dançar no salão?

A frase provocou uma onda de risadinhas entre as irmãs, exceto Catherine, que manteve o semblante sério.

Lady Alexandra lançou-lhes um olhar indignado.

- Ora, basta! Riam, mas hei de arranjar-vos casamentos dignos. Ainda que seja preciso arrastar vosso pai pelas orelhas até Blackwood Manor!

Com isso, atirou-se a uma cadeira estofada, respirando fundo. As filhas trocaram olhares cúmplices, cada uma retornando lentamente à sua tarefa, mas não sem um último risinho abafado que fez Mary esconder o rosto no livro de Sophia.

•••

O quarto das irmãs Whitlock não era vasto, tampouco decorado com exuberância. Duas camas de madeira clara ocupavam as paredes opostas; havia uma pequena cômoda onde descansava um jarro de porcelana com água fresca, ao lado de uma vela que lançava sombras dançantes pelas paredes. As cortinas de linho já haviam sido fechadas, abafando o som distante dos grilos e o ocasional ranger da casa sob o vento.

Mary estava diante do espelho oval, penteando seus longos cabelos escuros com movimentos firmes e pacientes. Catherine, já deitada, com o lençol até o peito, observava a irmã com um meio sorriso, enquanto brincava com a fita azul que usara durante o dia.

- Não acha curioso, Mary - começou Catherine, com aquele tom entre confidência e malícia -, que todos estejam tão excitados com o retorno de Jonathan Blackwood?

Mary arqueou uma sobrancelha, sem desviar o olhar do reflexo.

- Curioso? Não sei se é curioso ou previsível. O herdeiro do condado volta depois de dez anos e de repente todas as mães começam a suspirar como se fosse o príncipe encantado.

- Oh, mas não deixa de ser encantador - insistiu Catherine, apertando a fita entre os dedos. - Ele sempre foi tão distinto...

Mary riu baixo, um riso abafado que se confundiu com o estalar da vela.

- Catherine, tínhamos o quê? Sete, oito anos quando o vimos pela última vez? Nessa idade todos os rapazes parecem distintos, até mesmo quando estão com o nariz escorrendo.

- Você sempre tão mordaz, Mary. Mas convenhamos, já estamos na idade. A mamãe não fala de outra coisa, e, para ser sincera, eu não me importaria em casar-me com qualquer jovem que tivesse aprovação dela e do papai. Desde que fosse adequado.

Mary virou-se lentamente, pente ainda na mão, e fixou a irmã com olhos sérios, azuis como os da mãe, e declarou:

- Eu, por outro lado, não suportaria passar a vida ao lado de alguém que me causasse repulsa. Não digo que precise ser um herói ou um poeta, mas ao menos alguém com quem se possa conversar sem sentir tédio ou desprezo .

Catherine suspirou, apoiando o queixo na mão e resmungou:

- Conversar... sempre você com suas conversas. E se a pessoa for riquíssima, de família impecável, mas sem nenhum assunto?

Mary voltou a sentar-se diante do espelho, recolhendo uma mecha de cabelo e prendendo-a com habilidade.

- Nesse caso, seria como viver numa casa dourada, mas sem ar para respirar. E, por mais valioso que seja o ouro, ainda não ouvi dizer que ele substitua os pulmões.

A irmã riu, rolando na cama igual uma criança.

- Ah, Mary, às vezes penso que você é velha demais para a sua idade.

- E eu penso que você se contenta fácil demais - retrucou Mary, mas havia doçura em sua voz, não reprovação.

O silêncio voltou por alguns instantes, preenchido apenas pelo chiar da vela. Catherine, já sonolenta, murmurou:

- Seja como for, amanhã a mamãe há de falar do senhor Blackwood outra vez. E depois de amanhã também.

Mary sorriu, apagando a chama com um sopro.

- Nesse ponto, não há como escapar.

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