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A Dama de Companhia

A Dama de Companhia

Autor:: Roseanautora
Gênero: Romance
Katrina era uma garota acostumada a uma vida boa. De uma hora para outra tudo mudou, quando seu pai perdeu todo o dinheiro da família. Então ela se viu como única responsável pelo sustento da família e cuidados com a saúde do pai acamado. O emprego como dama de companhia da rainha era o sonho de uma vida melhor para sua família. Mas ela nunca pensou que estar no castelo, junto da família real, seria tão triste e cruel e nem quantos segredos aquele lugar poderia esconder. Sua vontade era largar tudo aquilo e voltar a sua vida normal... Mas isso implicava ficar longe do príncipe Magnus Chevalier. E de alguma forma ele precisava dela... Agora Katrina se via envolvida com Magnus, Dereck e todos os segredos do reino de Noriah, inclusive um relacionamento com o líder de um grupo rebelde em que ela participava pelo fim da monarquia. Seria ela forte o suficiente para destronar a rainha Anne Marie Chevalier? Magnus a perdoaria quando soubesse quem ela realmente era? Não recomendado para menores de 18 anos.

Capítulo 1 Uma conversa séria

Acordei cansada naquele dia. A noite de balada havia me esgotado fisicamente. Eu poderia brincar de rica e ficar o dia todo na cama, fazendo pose e postando nas redes sociais. Mas eu não tinha dinheiro, tinha poucos seguidores e no fundo ninguém se importava com minha vida na internet, salvo um garoto ou outro que me mandava um emoji ou me convidava para sair. Costumavam serem sempre os conhecidos, em geral de aulas que cursávamos juntos na faculdade. Vez ou outra tinha um que eu não conhecia. Eu não costumava dar likes de volta. Eu não era viciada nas redes, mas gostava.

Um clique e minha foto estava lá, com a redtag #acordando da balada. Logo um like de Kim, com o comentário "Sempre linda". Claro, só podia ser ele. E por isso eu o amava tanto e ele era meu melhor amigo.

Tomei um banho e desci para o almoço de domingo em família. Minha mãe já estava com a mesa posta e Leon já roubava um pedaço de carne com seu garfo. Meu estômago embrulhou quando vi que ele comeria a carne. Embora eu não comesse carne, minha mãe nunca preparava uma refeição especialmente para mim. Eu tinha que me virar com o que tinha na mesa que me agradasse. Quando eu reclamava, ela sempre dizia:

- Pobre não tem direito a escolher o que vai comer.

Acho que na verdade ela queria dizer que pobre não poderia ser vegetariano, mas de alguma forma ela não queria me magoar. Sim, ela não fazia nada que eu realmente gostasse de comer, mas ainda assim se preocupava comigo. Acho que era coisa de mãe, que se preocupa, no entanto tenta fazer os filhos verem a realidade da vida.

Sentei-me à mesa e avistei uma salada apetitosa. Servi acompanhada de arroz branco. Minha mãe preparou um prato de comida para meu pai e depois levou para ele no quarto. Demorou até que ela conseguisse finalmente sentar para poder se alimentar.

- Comida gostosa. – elogiei.

- Obrigada. A partir de amanhã você me ajudará a preparar.

- Ok, eu posso fazer isso. Sou capaz.

Ela não disse nada. Talvez o fato de eu ter voltado tarde e acordado quase na hora do almoço a tenha deixado brava de alguma forma. Leon me olhou com um sorriso irônico e continuou a comer sua carne com vontade. Eu ri. Ele era um fofo, mesmo quando tentava me irritar.

- E Kevin? – perguntei.

- Kevin está por aí... Não aparece em casa desde sexta.

- Mas... Onde ele pode estar?

- Quem sabe? – ela disse tentando fingir que não estava preocupada.

Eu preferi não perguntar. Sabia o quanto era difícil conversar sobre meu irmão mais velho.

- Katrina, precisamos conversar depois. – ela falou seriamente.

Eu queria muito perguntar sobre o que, pois vi sua voz parecendo preocupada. Mas procurei não sofrer por antecipação. Assim que comemos, Leon foi assistir televisão e eu tirei a mesa. Lavei a louça e depois fui ao quarto ver meu pai.

Ele não parecia nada bem. Estava pálido e cansado além de emagrecer visivelmente a cada dia. Retirei o prato dele quase sem mexer da mesa de cabeceira e levei para cozinha. Depois retornei, deitei na cama ao lado dele e o abracei com carinho. Não importava o que ele tivesse feito e a culpa que ele carregava por ter perdido todo nosso dinheiro. Ainda assim eu o amava muito.

- Como se sente hoje? – perguntei acariciando o rosto dele.

- Cansado.

- Quem sabe amanhã poderíamos passear? – sugeri. – Só eu e você.

- Kat, querida... Eu não consigo mais sair desta cama. – ele disse com voz fraca.

- Claro que você consegue pai. É só fazer um esforço. Não há nada que diga que suas pernas estão com algum problema. – eu tentei animá-lo.

- Não. – ele disse.

Minha mãe entrou no quarto, colocou os óculos e sentou na poltrona. Percebi que o assunto realmente era sério: quase uma reunião de família. No entanto o problema pelo visto era eu. Fiquei atenta ao que viria.

- Bem, eu começo ou você, Adolfo? – ela perguntou para meu pai.

- Eu... Não teria coragem. – ele disse me olhando tristemente.

- Bem, Kat, você sabe que estamos falidos.

- Sim... Sei.

- Seu pai perdeu todo o dinheiro que tínhamos na mesa de jogo.

- Mãe, eu sei disto. – eu não queria que ela continuasse jogando na cara dele todo passado que já sabíamos.

Ele estava ali, deitado, deprimido, havia tentado contra a própria vida por conta de tudo que aconteceu. Não precisava ser mais punido ainda. Acho que a culpa que ele carregava era suficiente.

- Então... Vou direito ao ponto. Não temos mais um centavo para pagar a sua faculdade.

Eu fiquei atônita com aquele comunicado. A única chance que eu tinha de poder sair da vida que eu levava era estudando e seguindo depois uma profissão. No entanto minha mãe acabava de dizer que eu estava fora. O combinado havia sido que independente do que acontecesse, eu acabaria a faculdade. Eu era a única chance de a família poder ter um sustendo no futuro. Então fiquei ali, olhando para eles sem entender nada. Ela continuou:

- Sei que havíamos combinado outra coisa. Mas o dinheiro acabou por completo. Não sei por quanto tempo poderemos comer.

- Mas... Eu não sabia que estávamos nesta situação... Achei que...

- Achou errado. – ela falou rispidamente. – Tudo tem custo nesta casa. E a fonte esgotou-se por completo. Você precisa parar os estudos e procurar um emprego.

Um emprego? Eu não me recusava em procurar um emprego, só não tinha noção do que poderia fazer...

- Me desculpe. – disse meu pai me olhando arrependido.

- Não precisa se desculpar pai. – eu disse.

- Vai dizer que não foi culpa dele? – falou minha mãe ironicamente.

- Mãe, isso já passou... Não há mais o que fazer. Agora precisamos seguir.

- Eu não terminei. – ela continuou.

Olhei-a surpresa. Poderia haver algo pior que eu ter que deixar a faculdade? Aquilo era o sonho da minha família. Cresci sabendo que eu era inteligente e a escolhida para cursar o superior na família. No Reino de Noriah Sul, somente um dos filhos da classe E podia cursar a faculdade. Então eu era a escolhida. A justificativa para isso era fazer com que as pessoas tivessem menos filhos, podendo ter assim melhores condições de vida. Isso na nossa classe, pois as mais privilegiadas podiam ter quantos filhos quisessem e todos poderiam cursar a faculdade. Em minha opinião tudo era mentira: pobres não podiam ter filhos simplesmente porque eram pobres e o fato de escolher um para estudar era porque não podiam pensar, refletir, pois poderiam futuramente criticar a forma monárquica que vivíamos. Então a Família Lee não teria nenhum filho presente na faculdade. Logo, seríamos somente servos da monarquia. Aquilo doeu dentro de mim.

- Termine... – pedi não tendo certeza se queria que ela falasse.

- Seu pai perdeu também a casa.

Olhei para os dois sentindo meu coração bater descompassadamente. Seria aquilo verdade? Não bastasse meu pai ter perdido todo o dinheiro atual e futuro da família, inclusive o que havia guardado para eu estudar, também tinha posto em jogo nossa própria casa?

- Isso... É verdade? – perguntei confusa.

- Sim... – ele disse olhando para baixo. – Eu devia algum dinheiro e tive que dar a casa como segurança, pois...

-Pois ele estava sendo ameaçado, assim como toda nossa família. – terminou minha mãe sem rodeios.

Fiquei ali, sem saber o que dizer. Não tínhamos mais o meu dinheiro para faculdade e quem sabe em poucos dias não teríamos onde morar. Então nos restaria... Ir para a Zona K?

A Zona K era a última zona de morada. As zonas eram divididas de acordo com o poder aquisitivo das pessoas. O segundo item a ser levado em conta era o grau de estudo da família. E por terceiro os bens. Na K havia pobreza absoluta, sem emprego, morando em locais poucos dignos, podendo ser assaltado e levado o pouco que se tinha... Principalmente seu corpo e sua dignidade.

- Vamos arrumar um jeito para sair desta. – falei.

Minha mãe riu ironicamente:

- Não existe otimismo para este momento.

- Mas...

- A não ser que queira ser oferecida no baile de casamento.

- Não! – eu disse quase gritando.

O baile de casamento estava fora de cogitação. Era um evento anual onde os pais poderiam oferecer as filhas para quem estivesse disposto a aceitá-las. As garotas que lá estavam todos sabiam o motivo: falidas, degeneradas, violentadas, prostituídas e outras coisas que só os piores homens estavam dispostos a "obter". Era quase um contrato: você participava do baile, era escolhida e sua família recebia um cheque no valor que o homem quisesse ou achasse que você valia. Em troca se casava com ele ali mesmo e ia embora para onde quer que fosse o lugar de onde ele veio. Eu nunca soube de alguém que tenha sido feliz desta forma. E nos dias de hoje já era um ato extremamente criticado pelo povo, em especial pelas mulheres feministas. Ainda assim a rainha Anne Marie não havia acabado com aquele evento horrível e antigo.

As mulheres da Zona A e B também participavam de um baile com objetivo de casamento. No entanto ele era bem diferente do que ocorria da zona C em diante. Estas meninas mais afortunadas, de famílias ricas e muitas delas inclusive sendo de contato com a própria monarquia, tinham a oportunidade de conhecerem seus pares neste evento, onde inclusive a monarquia participava, podendo incluir até mesmo os príncipes da família Chevalier. Privilégio de algumas poucas meninas pertencentes às famílias mais ricas de Noriah Sul. Neste caso, os pais que pagavam pelos maridos, diferente do que acontecia no da nossa zona. Então, para garotas como nós, participar daquele baile era impossível, pois nossas famílias não tinham dinheiro para poder pagar por um bom casamento, que neste caso não dava a garantia de ter um bom marido da mesma forma que era o da nossa zona.

Os bailes de casamento eram grandes eventos no reino de Noriah Sul. As pessoas mais velhas ainda se apegavam a estes eventos antiquados. Mas tinha sim possibilidade de conhecer o amor verdadeiro fora de um baile de gala, independente de ser o da Classe A ou da C em diante. O problema é que o dinheiro e a condição financeira era o que mais importava naqueles pais para todo mundo. Então, estar falido era a pior coisa que poderia acontecer na família Lee. Para todos nós.

- E Kevin? – perguntei

- Kevin é outra história. – ela disse.

Capítulo 2 Sobre Kevin

Enquanto estava deitada em minha cama, não pude evitar as lágrimas. A faculdade era minha única chance de ser alguém na vida e ela estava acabada. Também perderia contato com meus colegas, sendo que alguns eu tinha bastante afinidade já. Isso também poderia me abrir portas, pois lá eu encontrava pessoas a partir da Zona C. Então no dia seguinte eu teria que abrir o jornal e procurar um emprego. E não importava do que fosse. Eu precisava ganhar qualquer dinheiro. Agora era minha função sustentar a casa. Poderia ser de Kevin, meu irmão mais velho.

Mas ninguém sabia onde poderia estar naquele momento. Já fazia tempo que Kevin ficava pouco em casa. Quando vinha, não coseguia disfarçar o cheiro de álcool e drogas ilegais. Várias vezes vi minha mãe indo encontrá-lo no portão e fazendo-o esconder tudo que tinha nos bolsos ou na mochila antes de entrar em casa para que ninguém visse o que ele tinha ali. Eu sempre fingi que não sabia de nada. Mas creio que todos, exceto Leon, sabiam o que realmente Kevin fazia. Eu não sabia ao certo se ele só usava ou se também vendia. Eu só tinha certeza de que ele não ajudava a família com um real. O fato de meu pai ter perdido todo nosso dinheiro fez com que ele se afastasse ainda mais da nossa casa e da nossa família. Ele era muito revoltado com a situação que Adolfo Lee, nosso pai, nos colocou. Kevin tinha 23 anos. Mamãe alega que desde o início sabiam que ele não seria o filho que ganharia a oportunidade de cursar a faculdade. Nunca se interessou pelos estudos. Então decidiram que teriam outro filho, neste caso, eu. Sempre fui muito focada e dedicada com tudo que me fosse pedido. Leon, por sua vez, foi um descuido de meus pais. Então eu sempre fui de alguma forma, a esperança da família, sendo pela possibilidade de poder conseguir um emprego ou até mesmo um marido rico que proporcionasse uma boa vida não só para mim, mas para minha família. O fato de todos me acharem bonita me dava ainda mais vantagem, afinal ser bonita e inteligente não era para qualquer um. E eu realmente tentava aproveitar todas as oportunidades que me surgiam.

Kevin Lee era um homem bonito, alto, moreno, olhos azuis, ou seriam verdes? Nossa família tinha o dom de ter olhos que mudavam de cor... Sempre no tom azul-verde, ou verde-azul, dependendo da claridade do lugar onde estávamos. Kim me dizia que meus olhos ficavam verdes quando eu estava brava, mas eu nunca tive certeza, até porque nunca fui olhar nos espelho quando estava furiosa. Mas meu amigo era extremamente observador, então de alguma forma eu não ignorava a opinião dele. Eu tinha os mesmos olhos de meu irmão.

Kevin Lee era disputadíssimo pelas garotas. Acho que não só pela sua aparência, mas também pelo tipo dele: misteriosos, seguro de si, atrevido, ambicioso. Eu e ele nos dávamos bem na infância. Conforme fomos crescendo, fomos nos afastando. Embora eu não fosse das mais obedientes, eu não costumava fazer muitas coisas erradas. Ilegais, quase nunca. Kevin, por sua vez, parece que procurava problemas, desde se envolver com mulheres casadas até entrar na vida dos entorpecentes. Ele era um problema constante para meus pais. No entanto mamãe sempre tentava de alguma forma protegê-lo, mesmo não estando de acordo com as coisas que ele fazia. Meu pai, depois de ser o responsável pela nossa falência, não se achava mais no direito de exigir respeito dos filhos. Eu continuei o respeitando e o admirando, pois ele ainda assim era um pai carinhoso e dedicado, mesmo tendo feito tudo que fez. Mas Kevin nunca viu desta forma e quando a pobreza chegou definitivamente na nossa casa, ele partiu. Vinha somente quando não tinha o que comer ou precisava de algo que só minha mãe poderia lhe dar tipo dinheiro que ela tirava eu não sei de onde, uma cama quente e um carinho materno.

Apesar de tudo, ele sempre apostou em mim como a esperança da família. E eu ficava feliz por ele acreditar que eu poderia um dia mudar toda nossa situação.

Naquela noite, ele apareceu em casa e quando percebi ele estava no meu quarto. Quando o vi, limpei as lágrimas. Não queria que ele me visse num momento de fraqueza ou que culpasse meu pai pelo meu sofrimento.

- Olha quem apareceu. – eu brinquei.

- Olá. – ele disse. – Nova cor de olhos?

Olhei sem entender muito bem e ele disse sorrindo:

- Vermelhos.

Eu sorri tristemente. Não sabia exatamente a que ele estava a par.

- A que devemos a honra da sua visita?

- Apague a foto que você postou na sua rede social.

- O quê?

- Eu vi... Parece se oferecendo aos homens.

- Kevin... Seu bobo. Não tem nada a ver isso.

- Claro que tem.

- Veio para casa para me mandar apagar minha foto?

- Também... Fiquei furioso quando meus amigos me mostraram.

- Ora, não sabia que seus amigos me seguiam.

- Mas seguem. Então, melhor começar a não expor tanto sua vida por aí.

- O que tem a ver?

- Eu não quero. – ele disse rispidamente. – Acho melhor você fazer o que estou mandando, senão vou ter que mandar mamãe exigir isso de você.

- Kevin, você não se atreveria.

- Eu já disse.

- Você soube que vou ter que sair da faculdade?

- Sim... Mamãe me contou. Adolfo Lee acabou com o sobrenome da nossa família.

- Kevin, não diga isso. Nosso pai errou, mas não pode ser punido para sempre.

- Nós seremos punidos para sempre... Será que você não entende? Qual sua chance de um bom casamento quando seu futuro marido souber?

- A estas alturas todos na Zona E já sabem disso, Kevin. E eu não me importo.

- Deveria.

- Deveria? E você também deveria se importar com tantas coisas, como o bem estar de sua família. Onde você estava quando precisamos?

- Katrina, eu não quero discutir isso com você. Não lhe devo satisfações. Como não moro mais nesta casa, a responsabilidade é toda sua.

- Você não vai me ajudar então?

Ele riu:

- Ajudar? Eu não tenho um emprego, como vou ajudá-la a sustentá-los?

- Arranje um emprego e volte para casa. Podemos dividir as despesas. Isso me ajudaria muito... E ajudaria você também.

- Não, obrigado.

- Kevin...

- Não. O pouco do dinheiro que mamãe tinha investiu em você e não em mim. Você deve isso a eles agora.

- Eu... Não tenho ideia do que vou fazer. – confessei.

- Opções não faltam. – ele disse ironicamente.

Eu bati no braço dele:

- Seu bobo. – eu sabia que pelo olhar dele a sugestão era algo inapropriado.

- Na última das opções, você pode trabalhar com seu amigo Kim.

- Eu não sei fazer isso...

- Quem não sabe pentear e maquiar?

- Eu. – falei sinceramente.

- O que você sabe fazer?

- Eu... Não sei no que eu sou boa.

- Acho que postar fotos nas redes sociais também não é seu forte. E não vai ganhar dinheiro com isso.

- Pode vender para os seus amigos. – eu disse rindo.

- Sua boba... Mas fotos sensuais podem dar uma boa grana. Tenho uns contatos se você quiser. Nossos pais nunca ficariam sabendo.

- Você está falando sério?

Eu fiquei ofendida e ele não disse nada. Por incrível que pareça, eu não duvidava que ele estivesse falando sério.

- Sua beleza pode render dinheiro.

- Acha que eu poderia ser modelo?

- Nunca vi modelos na Zona E... Mas tem boas garotas de programa. Poderia ganhar bem com isso.

- Kevin, acho que você não é meu irmão de verdade. Foi trocado na maternidade.

Ele riu e disse:

- Eu poderia ser seu cafetão.

Olhei-o preocupada e triste. Aquilo provavelmente era uma brincadeira.

- Kat, dinheiro é dinheiro e ninguém vive sem. Vivemos num dos países com a maior desigualdade social que existe nas redondezas. Então todo trabalho é digno.

- Não... Nem todos. Eu jamais venderia meu corpo. – afirmei.

- Se nada der certo, pode trabalhar comigo.

- Então você trabalha agora? Pode ajudar nossa família...

- O meu trabalho não dá muita grana... O suficiente para mim e meus vícios. Você sabe do que estou falando.

- O que está fazendo? No que está trabalhando?

- Eu... Não posso dizer.

- Então é ilegal?

- Não... Mas é imoral.

Dizendo isso ele saiu e foi conversar com minha mãe, enchendo-a de elogios para que ela o amasse ainda mais. Eu fiquei ali, pensando no fardo que eu tinha que carregar e em tudo que ele havia me falado. Kevin poderia nos trazer ainda mais problemas que já tínhamos. E eu tinha certeza de que este dia chegaria.

Capítulo 3 Garota esperta

Na manhã seguinte eu acordei cedo, coloquei uma de minhas melhores roupas, penteei meus cabelos deixando-os mais volumosos e fiz uma maquiagem leve. Iria para faculdade explicar aos meus amigos que eu precisaria abandonar os estudos e depois sairia à procura de um emprego. E eu não estava em condições de escolher muito.

Quando cheguei fui diretamente para sala. Eu estava bem adiantada, então poderia ver todos antes de começar a aula e me despedir. Logo chegou Kim. Abraçamo-nos e ele disse:

- Recuperada da balada?

- Sempre. – eu disse piscando.

- Por que não respondeu minhas mensagens ontem? – ele perguntou.

- Kim, se você soubesse tudo que aconteceu comigo... – falei sem conseguir esconder a tristeza.

- Então começa, querida.

- Nem sei por onde... Quer que eu comece pela parte que vou deixar a faculdade ou pela que vou ter que conseguir um emprego para sustentar a família?

Ele arregalou os olhos grandes e bem marcados com delineador preto.

- Como assim?

- Isso mesmo amigo...

Sentei sobre a mesa e ele fez o mesmo.

- Seu pai de novo?

- Meu pai... Não de novo... Agora é o fim mesmo. Ele perdeu tudo... Muito mais do que tínhamos. Inclusive... A casa.

- Mas... Como é possível?

- Porque é a minha vida, amigo. Nela tudo é possível e você sabe disso.

- Kat, seu pai colocou a casa que vocês moram em cheque?

- Sim... – falei um pouco sem jeito, mas sincera, pois ele era meu amigo da vida toda. Éramos confidentes, inseparáveis, unha e carne.

- Eu... Nem sei o que dizer.

- Não há o que dizer. – falei tristemente.

- Não há nada que você possa fazer para ficar?

- Não... Minha mãe já decidiu que será assim.

- E aposto que Laura Lee não pensa em chamar Kevin para as responsabilidades da casa, não é mesmo?

- Claro que não. E eu nem consigo culpá-lo, pois Kevin é um inconsequente. Seria somente para ele culpar ainda mais nosso pai.

- Mas... Seu pai é o culpado, Kat.

- Kim, você sabe que eu não gosto de culpá-lo. Meu pai é tudo para mim.

- Como Adolfo foi tão inconsequente? Não pensou em vocês?

- Kim, isso é um vício. Ele deve ter pensado em nós, mas foi mais forte que ele.

- Acho que Kevin puxou ao seu pai. E você sabe que adoro seu pai e não gosto nenhum pouco do seu irmão. E Laura, mesmo cobrando você demais por tudo, é uma mulher batalhadora. Tenho pena dela às vezes.

- Eu também. Por isso tento entender o mau humor dela, as mágoas, a vida triste que ela insiste em levar... E nem sempre a culpo pela forma como ela trata meu pai.

Logo chegou Diana. Cumprimentou-nos e sentou. Eu não contei todos os detalhes do que estava acontecendo para ela, mas anunciei que deixaria as aulas e procuraria um trabalho. Diana era discreta, não perguntou muito, mas alertou:

- Você está no terceiro semestre. Dificilmente encontrará um emprego na área da administração. Teria que estar pelo menos no sexto.

- Eu sei...

- Por que não tenta com o reitor?

- Como assim?

- Poderia explicar para ele a situação... Talvez ele se compadeça e lhe dê uma ajuda. Já ouvi histórias dele arranjar emprego dentro da faculdade para alguns alunos que precisavam.

- Eu... Nunca pensei nisto. – falei esperançosa. – Mas vou tentar, hoje mesmo.

Léo chegou em seguida. Já iria começar a aula. Ele me deu um beijo breve nos lábios e disse:

- O que houve? Está tudo bem?

- Eu preciso ir, Léo. Podemos nos falar depois?

- Sim... – disse ele confuso. – Mas se der, Kim e Diana lhe atualizam do ocorrido.

- Nos encontramos no clube secreto? – ele disse piscando.

- No fim da tarde. – confirmei.

O clube secreto era uma sala que encontramos dentro da faculdade onde eram guardados materiais que não usavam, sendo uma espécie de almoxarifado. Descobrimos que ninguém ia até lá então meus amigos e eu criamos uma sociedade secreta que se chamava: "queda à monarquia". Era um lugar que discutíamos o quanto éramos contra o sistema do nosso país, tendo à frente a Rainha Anne Marie Chevalier, que não se preocupava com as classes baixas. Focava em deixar os ricos cada vez mais ricos e tirava tudo que podia do proletariado. Por sorte meus amigos pensavam como eu.

Léo era meu quase namorado. Eu ainda não tinha aceitado, embora ela tivesse me feito o pedido várias vezes. Eu gostava dele, mas achava que era mais como amigo do que como namorado. Então vez ou outra saíamos juntos e trocávamos alguns beijos calientes. Ele era bonito, inteligente e pertencia à classe C. A família dele tinha boas condições financeiras e muitas propriedades. Ele havia ido para nossa faculdade por opção, podendo estar na de classe B, por exemplo. Ele apoiava as causas sociais e se importava com as pessoas. Se eu não arranjasse alguém por quem me apaixonasse, eu pensava em casar com ele no futuro. Mas antes daria uma chance a mim mesma. Eu nunca havia me apaixonado antes, embora tivesse saído com alguns garotos e aproveitasse bastante a minha vida.

Quando cheguei à sala do reitor, havia algumas pessoas na minha frente esperando para falar com ele. Eu decidi aguardar. Poderia sair e procurar emprego, mas se ele pudesse me ajudar, evitaria minha caminhada de estabelecimento em estabelecimento e a possibilidade de gastar meu salto mais caro.

Depois de uma hora esperando, a secretária mandou que eu entrasse. Ele estava sentado confortavelmente em sua cadeira, pouco interessado no que eu diria:

- Fale, senhorita Lee. – ele disse sem olhar para mim, focado nos papéis a sua frente.

O reitor Justus era um homem novo para o cargo. Não devia ter mais de 30 anos. Era muito estimado por todos e tinha fama de ser contra a monarquia, embora ninguém tivesse certeza absoluta. Eu o admirava pela garra dele em estar ali naquele cargo tão desejado.

- Reitor, eu gostaria de ver a possibilidade de conseguir um emprego dentro da universidade. – falei indo direto ao ponto.

Ele tirou os olhos dos papéis e finalmente me olhou. Ficou um tempo me contemplando, depois disse:

- Direta, não?

- Sim... De que adiantaria rodeios?

- Sabe algo sobre os empregos oferecidos aqui?

- Não. – falei sinceramente. – Mas sei que existem.

- Além do salário fixo mensal, há uma ajuda de custo para as aulas, podendo chegar a um desconto de quase 100% do valor do curso.

Respirei aliviada. Eu realmente não sabia daquilo. Era a oportunidade da minha vida.

- Eu... Fico feliz em saber. Sou uma garota dedicada. Gosto de estudar. Acho que dou conta de trabalhar e estudar e fazer bem as duas coisas. Será que poderia me dar um oportunidade? – falei sorrindo gentilmente.

- Por que quer um trabalho, senhorita Lee? Problemas financeiros?

- Sim. – confessei. – Se não conseguir o trabalho, vou ter que deixar os estudos.

- Hum... – ele disse levantando do lugar dele e sentando sobre a mesa, ficando bem na minha frente.

Fiquei um pouco incomodada e intimada com a presença dele tão próxima a mim. Mas fingi que estava tudo bem.

- A senhorita não deve saber que há certos requisitos para o emprego.

- Não... Mas gostaria de saber.

- Quer mesmo saber? – ele perguntou olhando descaradamente para meu corpo, de cima a baixo.

- Sim... – falei para ver até onde ele iria.

O reitor Justus pegou a mão e colocou sobre a minha perna. Eu não falei nada, continuei olhando-o. Ele foi subindo, virando para dentro da minha coxa. Quando quase chegou ao seu objetivo, eu fechei bruscamente minhas pernas, assustando-o. Ele tirou a mão, confuso.

- Este seria o requisito? – perguntei ironicamente.

- Pode ser... Depende de você.

- Então quer dizer que por merecimento não há emprego.

- Não no seu caso... Não há merecimento.

- Não gostaria de ver minhas notas? Poderia abrir o meu arquivo em segundos.

- Realmente não me interessa isso...

- Ok... Eu já não quero mais o emprego.

Ele riu:

- Imaginei. Pode sair. – ele disse voltando para sua cadeira.

Eu continuei:

- Mas eu quero um documento da universidade, como uma carta de recomendação, que fale sobre minhas excelentes notas e meu bom desempenho, dizendo também que estarão sempre esperando pelo meu retorno.

Ele riu alto, ironicamente:

- Você sonhou? Este tipo de documento não existe.

- Acho que poderia existir para mim, já que realmente sou uma excelente aluna e não quero dormir com o senhor para conseguir um emprego aqui dentro.

- Estou pensando em fazer um documento sim... Dizendo que você é uma péssima aluna.

- Acho que meus colegas do jornalismo adorariam saber o que é necessário aqui para conseguir um emprego.

- Está me ameaçando, senhorita Lee?

- Claro que não, reitor Justus. Só pensei em como seria se todos soubessem como funciona tudo aqui dentro. Confesso que eu fiquei decepcionada...

- Eu também... Você poderia ter o emprego, como eu disse.

- Mas eu não quero dormir com o senhor. – falei ironicamente.

- Pode ir, senhorita Lee. A conversa está encerrada.

- Eu... Ainda preciso do documento.

- Não há documento.

- Bem, então vou ter que divulgar tudo que aconteceu nesta sala nestes poucos minutos que estive aqui.

Ele levantou os olhos e pareceu não dar muita importância:

- Ninguém acreditaria em você.

Eu abri minha bolsa e retirei meu celular e disse:

- Em mim não, mas no áudio que eu gravei com meu celular, sim.

Ele levantou da mesa nervosa, passando a mão pela cabeça.

- Você... Gravou? Por que fez isso?

- Suas histórias já são conhecidas por aí, reitor. – eu menti.

- E... Como vou saber que você não passará adiante.

- Me dê o documento e eu mostro o áudio apagado.

Ele interfonou para a secretária e solicitou um papel conforme eu solicitei. Várias vezes ele teve que repetir, pois realmente era um documento nunca emitido pela universidade. Em alguns minutos a secretária entrou com meu documento em mãos, que ele assinou e me entregou. Peguei meu celular, mostrei para ele a última inscrição escrita "áudio" no meu telefone. Deletei e parti sem olhar para trás. Eu estava tão nervosa que parecia que minhas pernas não suportariam caminhar, de tanto que tremiam. Não havia áudio nenhum. Eu havia mentido... E ele tinha acreditado. Nem sei o que se passou na minha cabeça naquele momento. Mas fiquei orgulhosa de mim mesma. Ele havia me assediado e no fim eu que havia saído vitoriosa. Senti náusea ao pensar nele me tocando. Olhei para o papel e o abracei. Aquilo me abria algumas portas a mais.

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