O rochedo no fim da praia parecia bastante atraente para quem estava prestes a terminar sua vida, a paisagem era bastante agradável...
As rochas estavam frias e úmidas, quanto mais próximo da agua mais escorregadias elas ficavam, a beira do rochedo uns dois metros a baixo as ondas batiam violentamente, as gotículas de agua salgada espirravam para todos os lados, eu podia senti-las em meu rosto quando a brisa forte de vento as traziam para cima, tinha um gosto leve de mar salgado, um cheiro suave, uma mistura de peixes e algas marinhas, aqui e ali era possível ver alguns pequenos caranguejos se escondendo nas frestas das rochas.
O que mais me atraia para aquele lugar era a beleza das cores do ouro no pôr do sol e o esverdeado do mar, o som das aves passando todo fim de tarde voltando para seus ninhos numa floresta próximo à costa, a brisa ali era inigualável quase se podia ouvir a voz do vento a cantar com amargura, talvez por ele amar tanto aquele curto momento de intimidade entre as cores, o mar e a despedida do sol. Foi então que olhei para a praia de areias brancas e fina, e lá estava ele sentado olhando igualmente o pôr do sol, senti um aperto no peito... o fato de eu ver uma beleza maior em um fenômeno cotidiano num local mais privilegiado fazia-me sentir um certo remorso. Os lindo cachos acobreados do cabelo dele ao vento me fizeram esquecer o motivo de eu estar ali naquele lugar, mais um passo e tudo o que eu havia passado seria afogado e esquecido assim como as ondas que arrebentavam uma após a outra nas rochas. Elas eram como eu... apenas queria dar um fim a própria vida.
Continuei a fitar aquele homem, então ele virou o rosto e olhou-me, o último raio dourado de sol tocou seus olhos e então aquele brilho revelou a cor do mais puro mel, ele me encarou por uns segundos, era como se soubesse algo sobre mim, algo que nem eu mesma poderia saber. Eu sai correndo do rochedo, descuidada escorreguei e machuquei o joelho, na hora não dei importância a dor, queria apenas chegar a praia e encontrá-lo, finalmente senti a areia ainda quente e fina em meus pés... ele não estava mais ali.
Caminhei lentamente até o local onde o vi sentado, a areia ainda guardava seus rastros, não consegui compreender, ele deveria ter passado por mim ao sair da praia, mesmo que estivesse caminhado pela beira da praia eu ainda o veria, tirei os olhos dele por um único minuto quando escorreguei.
Vi algo na areia que me chamou atenção, era uma concha tinha um tom rosado acetinado, era linda tinha uma espiral perfeita, nenhuma rachadura, abaixei-me e peguei-a, tive uma sensação estranha, era como se tivesse visto aquele objeto antes. Uma rajada mais forte de vento soprou subitamente contra meu rosto, trazendo alguns grãos de areia para meus olhos, passei uma das mãos no rosto, descuidada soltei a concha, o vento cessou então olhei novamente em volta, senti algo no rosto, um leve calor, era confortante, mas estranho, voltei a visão para areia em busca da linda concha que havia encontrado, sumiu, não estava ali, como era possível?
Estava em minhas mão, soltei por um instante, aquilo me deixou atordoada, voltei correndo pro carro e tentei dirigir até a cidade sem causar acidentes, um turbilhão de pensamentos me engoliam enquanto eu segurava o volante. Dirigi por uma longa estrada de chão, de um lado a vasta floresta varzeada, recentemente inundada pela maré cheia deixando pequenos lagos em meio ao capim que ia ficando mais alto dando espaço as grandes arvores que compunham a mata, nas arvores centenas de garças, flamingos e colhereiros já estavam se acomodando em seus ninhos esperando a noite. Do outro lado uma imensa área enlameada, a qual fazia a felicidade dos búfalos durante o dia que iam se refrescar em seu banho de lama. Sempre tive medo dessas criaturas monstruosas, negras de chifres imensos, principalmente quando estavam à beira da estrada, mas eu estava tão pensativa que não dei a mínima para eles hoje. Finalmente avistei o asfalto gasto e esburacado, dirigi por mais uns trinta minutos, cheguei em casa segura, ainda viva, respirando, coração batendo.
Morei a vida inteira naquela casa, quase fora da cidade, grande e com um primeiro andar, tinha uma arquitetura meio antiga, de tijolos com varanda de madeira em volta, janelas grandes e compridas com vitrais coloridos na parte superior, parapeito de granito, um pequeno jardim na frente com flores simplórias, uma área de terra em cada lado com alguns arbustos uma velha goiabeira com alguns galhos que adentravam a varanda, nos fundos um grande quintal com arvores frutíferas, coqueiros, mangueiras, cajueiros, bananeiras e meu preferido bem no meio um grande e velho jambeiro, no lado direito do qu
intal havia um galinheiro e um cercado para os patos.
Eu precisava pensar, subi as escadas fui para o meu quarto, escancarei as janelas, joguei-me na cama e fiquei olhando o céu lá fora, estava negro, já eram dezenove horas, pequenos pontos de luz enfeitavam o véu da noite, um clarão por trás de algumas nuvens mais baixas chamaram minha atenção, olhei rapidamente pro calendário pendurado na parede ao lado da cama, era a primeira noite de lua cheia no mês.
Era dezembro meu mês preferido, as meninas da faculdade que alugavam os outros quartos de minha casa tinham partido para passar as férias de final de ano com suas famílias, finalmente eu estava só, em meu silencio, minha casa, meu sossego. O rosto dele voltou a minha mente, aqueles olhos... Era como se já o tivesse visto antes, mas onde? Eu não me esqueceria facilmente de alguém tão ímpar como ele.
Foi então que a brisa fria da noite soprou janela a dentro fazendo a cortinas de tule balançarem, senti o cheiro doce das flores das mangueiras na rua, então vi a lua... Linda amarela, redonda, enorme saindo por trás das nuvens, parecia tão sombria mas ao mesmo tempo fascinante. Fiquei deitada inerte em minha cama, enquanto a lua cheia ia subindo lentamente pelo céu, o cheirinho doce na brisa me fez adormecer, foi então que o vi novamente, estava sentado em minha janela admirando o luar, ele virou, deu um leve sorriso para mim, então disse:
_A noite está linda. Consegue sentir o cheiro das mangueiras em flor? Eu amo este perfume doce, me lembra você.
Dei um pulo da cama, eram seis e meia da manhã, o leiteiro batia no portão. Olhei para a janela aberta, ele não estava lá. Passei as mãos no cabelo e amarrei com um elástico, desci as escadas e fui até o portão.
_O de sempre senhorita Elise? Perguntou o leiteiro.
_Sim. Respondi a ele.
Paguei, entrei novamente em casa, ao passar pela sala percebi que não havia trancado a casa antes de dormir, olhei em volta, tudo parecia no lugar, a tv, o aparelho de som, o sofá, e o mais importante a tela que minha mãe havia pintado para mim quando eu era apenas um feto em seu ventre.
Continuei em direção a cozinha, a mesa estava arrumada com uma toalha de estampa floral amarela, havia uma cesta com pães e uma garrafa de café.
Ainda não fui a padaria, como haveriam pães na minha mesa? Pensei.
O cheiro do café quente ainda pairava no ar.
_Bom dia Elise, está atrasada.
Meu melhor amigo acabara de entrar pela porta que dava acesso ao quintal. Ele se chamava Pedro, era alto, forte corpo meio esbelto, moreno bronzeado, tinha lindos olhos negros, cabelos pretos, curto arrepiado. Conheço ele desde que usávamos fraldas, estudamos juntos por toda nossa vida escolar, dividíamos nossos segredos e sofrimentos, até que um dia ele partiu, foi pra capital estudar biologia.
_Esqueceu que eu viria né? Disse Pedro.
Pulei em seus braços e o abracei tão apertado, não consegui segurar, as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto... Meu desabafo começou a sair como um rio quando rompe uma barragem.
_Me senti tão sozinha e perdida, não sabia o que fazer, tive um sonho, nele vi meus pais sendo engolidos pelo mangue, a maré estava cheia e encobria a ponte que atravessava o manguezal, minha mãe escorregou em uma das tabuas, a ponte se quebrou, meu pai tentou segurá-la mas os dois acabaram caindo juntos na água, eu estava em uma parte segura da ponte, gritei por meus pais, quando ia pular na água para tentar salvá-los uma mão segurou-me, então acordei gritando. Minha mãe ouviu meu grito correu assustada e entrou no quarto preocupada, ela disse q era só um pesadelo, então ela pediu que eu fosse tomar café pois iríamos para a praia em alguns minutos. Desabei novamente em prantos...
_Calma Elise, tudo vai ficar bem, estou aqui com você, não me diga que está assim por causa de um simples pesadelo. Disse Pedro.
_Não foi só um pesadelo, como eu estava contando... naquele dia íamos a praia do Araruna, e fomos, porem o dia estava estranho, não vimos aves na beira da estrada, nem búfalos, o tempo parecia parado, deixamos o carro no fim da estrada e seguimos pela ponte que atravessava o mangue, então veio aquela sensação de dejavu. Tentei explicar à Pedro
_Meu pesadelo estava se tornando real, tão real quanto o chão em que pisávamos, eu vi meus pais caindo na agua, porém o fundo de lama do mangue prendia seus pés e eles não conseguiram sair da água, eles iam afundando lentamente até se afogarem, por vezes tentei pular para ajudá-los, mas algo me impedia, uma mão me segurava forte pelo braço, e uma voz doce e leve como a brisa do mar dizia ao meu ouvido:
_Você não pode salvá-los Elise, se pular irá morrer, ainda não é sua hora.
_Por vezes aquela mesma frase ecoava em meus ouvidos como o vento sibilando nas janelas em dias de ventania, por dias sonhei com o que havia acontecido. Eu revivia a morte dos meus pais constantemente eu meus sonhos, tentei até me matar, nem lembro quantas vezes tentei, sempre algo estranho acontecia para me impedir, conviver com a culpa não tem sido fácil, eu sabia o que iria acontecer, eu vi em meu sonho, porque não impedi Pedro? Porque? Dividi toda minha angústia com Pedro. _ Não foi sua culpa Elise, você tentou ajudá-los, mas paralisou na hora, talvez se você tivesse pulado na água também se afogaria. Vai ficar tudo bem, você vai ver, tudo vai ficar bem, estarei aqui com você, prometo não te deixar mais sozinha. Disse Pedro tentando me acalmar. _ Meus pais eram biólogos Pedro, você sabe o quanto eles amavam esta ilha, eles se conheceram aqui, construíram a vida deles aqui, foi aqui que eu nasci, tudo o que sei aprendi com eles, porque esta ilha tinha que tira-los de mim? Porque? Retruquei à Pedro.
_ Elise se acalme, vem tomar café comigo, olha pra você, está descabela, tem até mancha de baba no canto da boca, vai tomar um banho e trocar a roupa, não quero que meu amigo conheça você assim, coitado vai é tomar um susto quando lhe ver. Falou Pedro.
Percebi que Pedro tinha razão, fui para o banheiro tirar a cara de ontem, tomei um longo banho, lavei os cabelos, fui até o quarto vestir-me, peguei uma bermuda jeans e uma camiseta branca, me olhei no espelho, percebi que o tempo tinha realmente passado desde a última vez que me olhei de verdade em um espelho, minha pele estava bronzeada do sol, minha altura parecia não ter mudado nada, talvez eu ainda tivesse meus um metro e sessenta, continuava com o mesmo corpo esbelto, meus cachos ruivos estavam mais compridos, quase na cintura, era hora de cortar e dar forma... Meu olhar parecia triste...
Fui até minha caixa de maquiagem, peguei um delineador de olhos e passei, coloquei um pouco de cor nos lábios com brilho rosado de morango, disfarcei as olheiras com corretivo. Então olhei novamente pros meus cabelos, resolvi por fim penteá-los e amarrar com elástico formando um rabo de cavalo.
Desci rapidamente as escadas para matar a saudade do meu velho amigo de infância, entrei na cozinha e fui abraçar Pedro novamente, foi então que ouvi uma voz vindo de trás de mim dizendo bom dia, me virei e olhei, um calafrio dominou meu corpo, minha visão começou a escurecer, fui perdendo os sentidos, apenas ouvia algumas vozes ao longe, até que elas cessaram e o silencio tomou conta de mim.
Comecei a sentir o vento em meu rosto, fui abrindo os olhos de vagar e me situando, percebi que estava em minha cama, comecei a pensar que tinha sido mais outro sonho, então sentei-me. _Elise finalmente você acordou, nos deixou muito preocupados, o Pedro foi chamar um médico pra te examinar, você demorou muito para acordar. Como se sente? Quer um copo de água? Falou o rapaz de pé ao lado da minha cama.
Era ele, não consegui acreditar, era como nos meus sonhos, falando comigo, parecia tão real, os olhos cor de mel tão lindos e brilhantes, os cabelos cobrindo a nuca com cachos acobreados levemente bagunçados, a pele clara corada do sol. Fiquei olhando ele por uns instantes pensativa, não consegui responder nenhuma das perguntas, mesmo assim era só um sonho, porque eu falaria com um sonho? Não é real mesmo... De repente a voz de Pedro chamou por mim.
_ Elise finalmente você acordou, que susto me deu. Como você está? O médico veio vê-la. Falou Pedro muito preocupado.
O Dr. Ricardo sentou ao meu lado e foi me examinando, ouviu meus batimentos cardíacos com um estetoscópio, examinou minhas pupilas, mediu minha pressão arterial. Então concluiu: