Meu marido, Caio, me deu uma escolha: salvar a mãe da mulher que matou a minha, ou ele destruiria a vida da minha irmã.
Ele usou um vídeo forjado para ameaçar minha irmã Anabela, uma mentira cruel que arruinaria o futuro dela. Eu fiz a cirurgia, salvando a vida da mãe da minha inimiga, mas a chantagem levou Anabela a tirar a própria vida.
Quando o confrontei, ele não apenas partiu meu coração. Ele mandou seus Dobermans estraçalharem minhas mãos, as mãos de cinquenta milhões de reais que haviam salvado inúmeras vidas, esmigalhando os ossos e acabando com minha carreira para sempre.
Depois, ele me jogou fora, me deixando para morrer em uma estrada deserta depois que fui brutalmente atacada.
Eu perdi minha mãe, minha irmã e o trabalho da minha vida, tudo pelas mãos do homem que jurou me amar e proteger, o homem que uma vez salvei na mesa de cirurgia.
Mas enquanto eu estava em uma cama de hospital pela última vez, uma determinação fria e calculada se instalou no fundo dos meus ossos. Fiz uma única ligação para um homem do meu passado.
"Apolo", sussurrei, minha voz rouca, mas firme. "Estou pronta. Eu quero que ele seja destruído. Cada pedaço dele."
Capítulo 1
Ponto de Vista de Alícia:
O gosto ácido da traição já estava na minha boca, queimando, mas nada me preparou para o nó doentio no meu estômago quando Caio Barros, meu marido, chutou a porta da minha enfermaria particular, abrindo-a com violência. Ele não apenas a abriu. Ele a bateu contra a parede, o som ecoando a violência que ele exercia, mesmo contra objetos inanimados. Ele nem se deu ao trabalho de olhar para mim, seus olhos já fixos nos monitores que exibiam o rosto aterrorizado de Anabela.
Minhas mãos, seguradas em cinquenta milhões de reais, as ferramentas que haviam salvado inúmeras vidas, tremiam. Não de cansaço, não de uma cirurgia complexa, mas do pavor puro e dilacerante que ele despejava no meu mundo. Ele tinha acabado de exigir que eu salvasse a mãe de Aurora Carvalho, a mulher cuja filha matou minha própria mãe. E ele achava que podia me forçar.
"Você tem uma escolha, Alícia", a voz de Caio era baixa, quase um ronronar, mas cortou o ar estéril mais afiadamente do que qualquer bisturi. Ele estava ali, impecável em seu terno sob medida, um retrato da malícia calma. Seus olhos eram frios, distantes, como olhar para um poço profundo e escuro. Ele mal reconheceu minha presença, apenas o medo que viu refletido na tela.
Na tela, Anabela, minha irmã mais nova, chorava. Ela estava presa, sozinha, seu rosto machucado. Seus pedidos de ajuda eram abafados pela imagem granulada do vídeo, mas eu podia ouvi-los em minha mente, gritando. Caio havia forjado um vídeo, uma mentira, para destruir a vida dela, para destruir a minha vida. Ele segurava a reputação da minha irmã, todo o seu futuro, em suas mãos cruéis.
"Escolha, Alícia", ele repetiu, seu olhar finalmente se voltando para mim, fino e afiado. "A vida dela, ou a dela." Ele gesticulou vagamente em direção à tela, depois apontou um dedo, quase casualmente, para a forma imóvel da mãe de Aurora na maca. "Salve uma. Deixe a outra sofrer."
A raiva, fria e pura, surgiu dentro de mim. Minha garganta estava apertada, sufocada por acusações não ditas. "Como você ousa?", cuspi as palavras, minha voz rouca. "Como pôde fazer isso? Com a Anabela? Comigo?" Minhas mãos se fecharam, o sangue drenando dos meus nós dos dedos. Ele estava me fazendo escolher entre o futuro da minha irmã e uma mulher que representava tudo que eu odiava.
"Como eu pude?", Caio zombou, um sorriso de escárnio torcendo seus lábios perfeitos. "Você sabe exatamente por quê. Sua irmã cometeu um erro. E você, minha querida, me deve. Você nos deve." Seus olhos se demoraram na mãe de Aurora, um brilho possessivo e perturbador neles.
"Te dever?", as palavras saíram envenenadas dos meus lábios. "Eu não te devo nada! Você está me forçando a salvar a mãe da mulher que destruiu minha família. A mulher que matou minha mãe!" A memória era uma ferida aberta, sempre sangrando.
A morte da minha mãe. Quatro anos atrás. Uma motorista bêbada. Aurora Carvalho. A garota de ouro, intocável, privilegiada. Ela saiu ilesa, sem um arranhão, enquanto minha mãe sangrava até a morte no asfalto. Eu me lembrava do vidro quebrado, do metal retorcido, do silêncio doentio depois. O mundo parou naquele dia. O meu mundo, pelo menos.
Eu tentei de tudo. Advogados, polícia, um apelo desesperado por justiça. Mas a família de Aurora, as conexões de Caio, eles eram poderosos demais. Cada porta em que bati se fechou na minha cara. Cada via legal que explorei levava a um beco sem saída. Caio estava lá, uma sombra no fundo, sutilmente movendo os pauzinhos, manipulando o sistema para protegê-la. Ele sempre a protegia.
Minha carreira, aquela que eu construí tijolo por tijolo doloroso, sofreu. Eu me manifestei, me revoltei contra a injustiça. Meu hospital, meus colegas, eles me viam como instável, antiprofissional. Eles me tiraram dos meus casos mais desafiadores, depois, lenta e imperceptivelmente, me marginalizaram. Perdi meu status, minha reputação, tudo porque ousei buscar justiça.
E agora isso. Uma piada cósmica distorcida. A mãe de Aurora, uma mulher que eu nem conhecia, estava na minha mesa de cirurgia. Um tumor cerebral raro e agressivo. Apenas eu tinha a experiência para tentar uma cirurgia tão delicada. Apenas eu poderia salvá-la. A ironia era uma pílula amarga.
Eu recusei inicialmente, é claro. Minha consciência, meu luto, não permitiriam. Eu fui embora, pronta para enfrentar qualquer consequência. Mas Caio. Ele sempre tinha outra carta na manga. Ele me trouxe para cá, para esta instalação privada e isolada. Não pediu, mas forçou.
Foi então, nesta prisão estéril, que finalmente o vi como ele realmente era. Não o homem que eu amava, não meu marido, mas um monstro. Um manipulador, movendo os fios, e eu era apenas mais uma de suas marionetes. Aurora. Sempre foi Aurora. Eu era apenas uma substituta, uma versão mais talentosa da mulher que ele realmente desejava, aquela que ele nunca poderia ter.
Caio se inclinou, sua voz um rosnado baixo que vibrou através de mim. "O tempo está se esgotando, Alícia. Tome sua decisão. A ligação de Anabela se tornará pública em dez minutos. A dor dela já está em loop, não está?" Ele gesticulou para a tela silenciosa, um sorriso cruel brincando em seus lábios.
Um soluço engasgado escapou de mim. Não por mim, mas por Anabela. Seu rosto aterrorizado brilhou diante dos meus olhos novamente. Ouvi seu grito silencioso. Minha irmã. Minha irmã brilhante e vulnerável. Ele não apenas a arruinaria, ele a quebraria.
"Você prometeu", sussurrei, as palavras mal audíveis. "Você prometeu que a protegeria. Você prometeu que cuidaria de nós." As memórias de votos sussurrados, de abraços ternos, pareciam de uma vida inteira atrás. Um membro fantasma cruel.
Ele me ignorou, seu olhar fixo no cronômetro na tela, fazendo a contagem regressiva. Cada segundo era um golpe de martelo na minha alma. "O relógio, Alícia."
Minha determinação se estilhaçou. O amor pela minha irmã, a necessidade ardente de protegê-la, eclipsou todo o resto. Até mesmo meu ódio. "Tudo bem", engasguei, a palavra um veneno na minha garganta. "Eu farei. Apenas... não a machuque. Por favor, não machuque a Anabela."
Um lampejo de algo - satisfação? triunfo? - cruzou o rosto de Caio. Ele assentiu, um gesto desdenhoso. "Boa menina. Você sempre foi tão previsível." Ele caminhou até uma mesa lateral, pegou uma taça de champanhe e tomou um gole lento e deliberado. "Uma escolha sábia, minha querida."
Eu não respondi. Não conseguia. Apenas fiquei ali, encarando a maca, a mulher que era a mãe de Aurora. Minhas mãos, antes símbolos de cura, agora pareciam instrumentos da minha própria danação. Meu coração era uma coisa congelada e quebradiça no meu peito. As luzes da sala de cirurgia pareciam holofotes sobre minha humilhação.
Horas depois, a cirurgia foi um sucesso. Minhas mãos, apesar do tremor em minha alma, moveram-se com sua precisão habitual. Eu a salvei. Salvei a mãe da minha inimiga. Meu corpo doía, minha mente estava entorpecida. Apoiei-me em uma parede estéril, tentando respirar, tentando compreender a profundidade do que eu havia feito.
O telefone no meu bolso vibrou. Era Caio. Meu coração despencou. Ele havia prometido. Ele havia prometido.
"Caio? Anabela? Ela está bem?", minha voz era apenas um sussurro.
Sua resposta foi uma risada baixa e arrepiante. "Ah, Alícia. Você realmente achou que eu cumpriria minha palavra?"
O telefone escorregou dos meus dedos dormentes, caindo no chão com um baque. O som foi ensurdecedor. Meu mundo girou. Não. Ele não faria isso. Ele não podia.
"Seu desgraçado!", gritei, minha voz ecoando no corredor vazio. "Você prometeu! Onde ela está? O que você fez?"
Nenhuma resposta. Apenas o tom de discagem, frio e zombeteiro. Eu corri, meu pijama cirúrgico balançando ao meu redor, meu sangue pulsando em meus ouvidos. Eu sabia onde ela estaria. A velha ponte abandonada. Anabela sempre ia lá quando estava chateada. Era um lugar onde ela sentia que podia desaparecer.
Eu a vi imediatamente. Uma figura pequena, empoleirada precariamente na beirada, silhuetada contra o céu machucado do anoitecer. Minha irmã. Minha doce Anabela.
"Anabela! Não! Por favor, querida, não faça isso!", minha voz estava rouca, rasgando, mas era tarde demais. Ela virou a cabeça, seu rosto pálido e inchado, seus olhos vazios.
"Lícia", ela sussurrou, sua voz mal audível. "Ele venceu. Eu não consigo viver com isso. Não consigo. Me desculpe."
"Não! Anabela, por favor! Apenas me diga o que aconteceu! Nós podemos consertar! Podemos lutar contra ele! Apenas volte para mim!" Minhas mãos, as mãos que tinham acabado de salvar uma vida, se estenderam, desesperadas, fúteis.
Ela sorriu então, um sorriso etéreo e de partir o coração, e uma única lágrima traçou um caminho por sua bochecha. "Eu te amo, Lícia. Seja livre."
E então ela se foi. Um vazio onde minha irmã estivera. Um baque nauseante na água.
"ANABELA!", gritei, correndo para frente, mas braços fortes me envolveram, me segurando. Os guardas de Caio. Sempre lá, sempre observando. Eles me seguraram enquanto eu me debatia, meus gritos rasgando a noite. Eles me seguraram enquanto eu via a água escura engolir minha irmã inteira.
Minha mãe. E agora Anabela. Ambas se foram. Ambas levadas pelas maquinações cruéis deste monstro. Meu mundo era um deserto. Meu coração era uma bagunça estilhaçada. Eu não tinha mais nada. Nada além do inferno ardente e escaldante do ódio.
Meu corpo cedeu. O luto, o choque, a dor pura e inimaginável. A escuridão me envolveu, um cobertor misericordioso sobre um mundo que havia se tornado um inferno vivo.
Acordei em uma cama de hospital, as paredes brancas estéreis e as máquinas apitando uma paisagem familiar, mas estranha. Minha garganta estava irritada, meus olhos inchados e secos. Meu corpo parecia pesado, desconectado. Disseram-me que eu estava inconsciente há dois dias.
Estendi a mão para a mesa de cabeceira, minha mão tremendo, e procurei meu telefone. Havia apenas uma ligação que eu precisava fazer. Um número que eu havia salvado cinco anos atrás, um plano de contingência que nunca pensei que ativaria. Apolo Mendes.
Ele atendeu no segundo toque, sua voz calma, firme, uma tábua de salvação na minha tempestade. "Alícia? Está tudo bem? Não tenho notícias suas há anos."
"Apolo", sussurrei, o nome uma prece. "Estou pronta. Eu quero que ele seja destruído. Cada pedaço dele. Você ainda está oferecendo aquele emprego?" Minha voz era plana, desprovida de emoção, mas a intenção era clara.
Uma pausa, então sua voz, firme e reconfortante. "Sempre, Alícia. Considere feito. Apenas me diga do que você precisa."
Desliguei, uma determinação fria e calculada se instalando no fundo dos meus ossos. Minha próxima ligação foi para meu advogado de divórcio. Era hora de cortar todos os laços com o homem que havia tirado tudo de mim.
Ponto de Vista de Alícia:
Meus dedos pairavam sobre o botão 'enviar' da mensagem para meu advogado - uma instrução simples: iniciar o processo de divórcio. Antes que eu pudesse sequer pressioná-lo, a porta do quarto do hospital se abriu com uma violência familiar e chocante.
Caio.
Ele correu em minha direção, seu rosto uma máscara de preocupação, seus olhos arregalados com uma tristeza ensaiada. Ele me puxou para um abraço sufocante, seus braços me envolvendo com força. Meu corpo enrijeceu, cada fibra do meu ser recuando. Seu toque, antes um conforto, agora parecia uma violação. Eu podia sentir seu perfume, o cheiro de uma mentira.
"Alícia, meu amor, você acordou", ele murmurou, sua voz grossa com o que ele queria que eu acreditasse ser alívio. "Eu estava tão preocupado. Pensei... pensei que tinha te perdido."
As palavras reviraram meu estômago. Amor? Preocupação? Era tudo uma performance, uma farsa grotesca. Eu o empurrei, minha força surpreendendo até a mim mesma. Meu olhar, geralmente suave, era agora um brilho duro e inflexível. Não havia mais nada em meus olhos para ele além de ódio puro e inalterado.
Ele tentou pegar minha mão novamente, seus dedos buscando os meus, como se nada tivesse acontecido. "Vamos deixar tudo isso para trás, minha querida. Já providenciei sua reintegração no hospital. Você voltará para a cirurgia em pouco tempo. Tudo voltará ao normal."
"Normal?", zombei, uma risada amarga borbulhando do meu peito. "Você acha que pode simplesmente comprar de volta o que destruiu? Acha que minha carreira, minhas mãos, valem mais do que a vida de Anabela?" Puxei minha mão de volta, como se seu toque me queimasse.
As memórias, nítidas e dolorosas, inundaram minha mente. Nosso começo. Ele me perseguiu implacavelmente, um turbilhão de charme e presentes luxuosos. Ele me resgatou, ele disse, do fardo esmagador da morte da minha mãe, da injustiça que havia manchado o início da minha carreira. Eu era uma estrela em ascensão, uma neurocirurgiã brilhante, mas o escândalo ameaçava ofuscar meu talento. Ele prometeu me proteger, me dar uma vida livre de preocupações.
Lembrei-me do dia em que salvei sua vida. Um terrível acidente de bicicleta, um hematoma subdural. Disseram que ninguém conseguiria. Eu consegui. Trabalhei por dezoito horas seguidas, minhas mãos se movendo com uma precisão impossível. Ele acordou, olhou para mim e disse que eu era seu anjo. Naquele dia, eu realmente acreditei que era a mulher mais sortuda do mundo. Todos acreditavam. Nos chamavam de casal poderoso, um conto de fadas.
Mas sob a fachada brilhante, as rachaduras sempre estiveram lá. Sua possessividade, sua necessidade de controle, a crueldade casual que ele reservava para qualquer um que não fosse ele. E então Aurora reapareceu, um fantasma de seu passado, seu "amor que escapou". Meu coração afundou ao vê-lo olhar para ela, do jeito que ele antes olhava para mim. Eu era apenas um tapa-buraco, uma substituta até que a verdadeira estrela retornasse.
A porta se abriu novamente, me puxando de volta ao presente. Meu advogado de divórcio, Dr. Medeiros, entrou, sua pasta apertada na mão. O rosto de Caio empalideceu instantaneamente, um lampejo de pânico em seus olhos. Ele deve ter pensado que eu estava me preparando para processar Aurora. Ele sempre a protegia.
"O que é isso, Alícia?", Caio exigiu, sua voz subitamente afiada.
Eu o ignorei, pegando os papéis que o Dr. Medeiros estendia. Minha mão, firme agora, pegou o acordo de divórcio. Olhei para Caio, um sorriso frio e triunfante em meus lábios. "Isso, Caio, se chama liberdade."
Um suspiro de alívio escapou dele. Ele realmente achou que eu estava apenas atrás de dinheiro. "Finalmente. Você quer o que é seu por direito, então? Ótimo. Vou garantir que você seja bem compensada." Ele até parecia um pouco aliviado, como se um grande fardo tivesse sido tirado de seus ombros. Seu mundo girava em torno de riqueza, então ele não conseguia compreender nenhuma outra motivação.
Nesse momento, Aurora invadiu o quarto, seus olhos arregalados e marejados. "Caio! Minha mãe! Ela não está bem! Os médicos dizem que é... é uma complicação da cirurgia. Alícia, você tem que ajudá-la!"
A compostura de Caio se desfez. Ele agarrou meu pulso, seu aperto como um torno. "O que você fez, Alícia? Você sabotou a cirurgia de propósito? Foi essa a sua vingança?" Sua voz estava carregada de veneno, seu rosto contorcido de fúria.
Eu apenas o encarei, uma risada oca escapando de mim. "Vingança? Você quer falar sobre vingança? Enquanto minha irmã está morta por sua causa, você está preocupado com a mãe da sua preciosa Aurora?" Meus olhos queimaram nos dele. "Complicações pós-operatórias são comuns, Caio. Mesmo para os melhores cirurgiões. Você sabe disso."
Aurora, sempre a manipuladora, começou a chorar, ajoelhando-se ao lado da minha cama. "Alícia, por favor! Minha mãe é tudo para mim! Eu sei que você me odeia, e você tem todo o direito. Eu mereço toda a sua raiva. Mas, por favor, não deixe minha mãe pagar pelos meus erros." Suas palavras eram uma performance, suas lágrimas cuidadosamente cronometradas.
Os olhos de Caio endureceram. "Se algo acontecer com ela, Alícia, eu juro, você vai se arrepender pelo resto da sua vida. Vou garantir que você sofra de maneiras que nem consegue imaginar."
"Então assine", eu disse, minha voz perigosamente calma. "Assine os papéis do divórcio, e eu cuidarei dela. Considere isso o pagamento pela minha liberdade."
Sua mandíbula se contraiu, um músculo saltando em sua bochecha. "Você está me ameaçando?"
"Não, Caio", eu disse, minha voz mal passando de um sussurro, "estou apenas cobrando o que me é devido."
Ele arrancou a caneta do Dr. Medeiros, sua mão tremendo com fúria mal contida, e rabiscou sua assinatura no documento. A caneta afundou no papel, rasgando-o levemente. O som foi como um tiro. Acabou. Nós acabamos.
Entreguei os papéis assinados de volta ao Dr. Medeiros. "Processe isso imediatamente. Quero que este divórcio seja finalizado antes do fim da semana."
Dr. Medeiros assentiu, sua expressão sombria. "Levará algum tempo, Dra. Franco. Finalizar os detalhes, divisão de bens..."
"Não", eu o interrompi, minha voz afiada. "Não me importo com o dinheiro. Apenas com o divórcio. Quero ser livre. Dez dias. É tudo que preciso."
Caio me observava, um lampejo de incerteza em seus olhos, uma percepção crescente do que ele realmente havia perdido. Seu rosto era uma mistura de raiva e confusão.
Assim que o Dr. Medeiros saiu, eu me levantei, meu corpo ainda fraco, mas minha determinação de ferro. Aurora ainda soluçava dramaticamente, seus olhos se voltando para Caio em busca de segurança. Ele colocou um braço ao redor dela, seu olhar ainda fixo em mim.
"Vamos", eu disse, minha voz plana, já me movendo em direção à porta. "Mostre-me o quarto dela."
Aurora fungou, enxugando os olhos, e me guiou até a unidade de terapia intensiva. Assim que passei pela porta, um pesado vaso de cristal voou pela minha cabeça, estilhaçando-se contra a parede atrás de mim. Cacos brilharam no chão.
Ponto de Vista de Alícia:
O estalo agudo do vaso contra a parede foi instantaneamente seguido por uma dor lancinante na minha têmpora. Minha mão voou para a cabeça, voltando pegajosa de sangue. Cambaleei para trás, minha visão embaçando por um momento.
"Sua bruxa! Você tentou matar minha mãe!" A mãe de Aurora, a Sra. Carvalho, estava recostada na cama, seu rosto contorcido em uma máscara de pura fúria. Seus olhos, injetados e selvagens, me encaravam com uma intensidade que queimava.
Eu fiquei ali, sangue escorrendo pelo meu rosto, cerrando os punhos. A audácia. A cara de pau absoluta dessa mulher, depois do que eu suportei, depois do sacrifício final que fiz por ela. O pensamento de Anabela, caindo daquela ponte, ainda fresco em minha mente, fez meu sangue gelar.
"Você está bem o suficiente para atirar coisas, pelo que vejo", eu disse, minha voz plana, desprovida de emoção. "Isso é bom. Significa que você está se recuperando muito bem."
Virei-me para sair, o cheiro de desinfetante e privilégio imerecido me sufocando. Mas Aurora bloqueou a porta, sua mão mimada firmemente em meu ombro.
"Onde você pensa que vai? Você não vai sair até que minha mãe esteja completamente fora de perigo. Caio não vai deixar", ela ronronou, sua voz pingando falsa preocupação. A ameaça velada não passou despercebida.
Engoli o gosto amargo na boca, a raiva uma pulsação quente e latejante sob minha pele. Caminhei lentamente até a mesa de cabeceira, ignorando os olhares furiosos da Sra. Carvalho. Peguei uma bandeja estéril, meus movimentos precisos, profissionais. Minhas mãos, os instrumentos de cura, pareciam objetos estranhos.
Antes que eu pudesse sequer pegar um cotonete, uma ardência aguda floresceu em minha bochecha. A Sra. Carvalho me deu um tapa. Seus olhos ainda queimavam.
"Não ouse me tocar, sua assassina!", ela gritou, sua voz rouca. "Você matou o futuro da minha filha... não, você matou o futuro de Caio! Você não passa de uma interesseira! Minha Aurora me contou tudo sobre sua mãe e sua irmã. Uma bêbada e uma vadia, não é mesmo? Não é de se admirar que tenham tido um fim tão apropriado."
As palavras me atingiram como um golpe físico. Minha mãe. Anabela. As duas pessoas mais preciosas da minha vida, irrevogavelmente perdidas, e agora sendo caluniadas por essa mulher vil. Minha visão se estreitou. O mundo ao meu redor desapareceu, substituído por uma névoa vermelha e ofuscante.
Minha mão disparou, agarrando a garganta da Sra. Carvalho. Meus dedos se apertaram, espremendo. Seus olhos saltaram, seu rosto ficando de um roxo mosqueado.
"Você acha que sabe alguma coisa sobre elas?", minha voz era baixa, gutural, um som que eu mal reconheci como meu. "Você fala de assassinos? Sua filha matou minha mãe. E seu genro matou minha irmã. Eles tiraram tudo de mim. E você... você merece apodrecer no inferno junto com eles." Meu aperto se intensificou, os ossos frágeis em sua garganta pressionando contra minha palma. "Diga mais uma palavra sobre minha família, e eu juro, vou terminar o que a cirurgia não conseguiu."
Um empurrão súbito e violento me fez cair. Bati na parede com um baque surdo, minha cabeça batendo no gesso. Caio estava sobre mim, seu rosto contorcido em uma máscara de fúria, seus olhos em chamas. Ele me empurrou. Com força.
Ele puxou Aurora e sua mãe, agora ofegante, para trás dele, protegendo-as. Seu olhar, quando pousou em mim, estava cheio de um nojo arrepiante. "Você foi longe demais, Alícia. Eu sabia que você era ingrata, mas isso... isso é imperdoável. Você se tornou um monstro."
Aurora, sempre a vítima, agarrou-se a ele, soluçando dramaticamente. "Ela tentou matar minha mãe, Caio! Ela está completamente louca!"
A mandíbula de Caio estava cerrada. Ele encontrou meus olhos, sua voz fria e dura. "Peça desculpas. Agora."
Eu me levantei, meu corpo machucado, minha cabeça latejando. Cerrei os punhos, balançando a cabeça. "Nunca."
"Guardas!", Caio berrou, sua voz ecoando pelo corredor estéril. Duas figuras enormes apareceram instantaneamente. "Levem-na. Levem-na para o porão. E certifiquem-se de que ela fique lá até aprender seu lugar. Ela precisa entender com quem está lidando."
O porão. Meu sangue gelou. A adega. Não era apenas um porão. Era onde ele mantinha seus Dobermans. Bestas ferozes e rosnantes, treinadas para atacar qualquer coisa que se movesse. Ele chamava de sua sala de "alívio de estresse".
Meus olhos se arregalaram de medo. "Não! Caio, lá não! Por favor!" As palavras foram arrancadas da minha garganta, cruas de terror.
Mas seu rosto estava impassível, desprovido de misericórdia. Os guardas me agarraram, suas mãos como faixas de ferro em meus braços, me arrastando para fora do quarto. Lutei, mas eles eram fortes demais. Eles me puxaram para baixo, para o silêncio frio e úmido do porão.
O rosnado começou imediatamente. Profundo, ameaçador, ressoando na escuridão. Dois Dobermans enormes, seus olhos brilhando em verde na luz fraca, se lançaram contra as grades de seus canis, rosnando, dentes à mostra.
"Não! Por favor!", implorei, minha voz falhando. Lutei, desesperada, mas eles me arrastaram para além dos canis, mais fundo no espaço cavernoso. Eles abriram uma porta pesada com grades de ferro, me empurrando para dentro de um pequeno recinto vazio. Então eles bateram a porta, o clangor ecoando como um toque de finados.
Os Dobermans no porão principal agora estavam em um frenesi de latidos e rosnados, seus olhos fixos em mim. Eles rondavam do lado de fora da minha jaula, sua respiração quente contra as grades. Pressionei-me contra a parede mais distante, meu coração martelando contra minhas costelas.
"Caio! Por favor! Não faça isso!", minha voz era um grito desesperado. "Eles vão me matar!"
De cima, na casa principal, ouvi o som fraco e distorcido de sua voz. "Não até você implorar, Alícia. Não até você perceber seus erros."
Um rosnado aterrorizante irrompeu bem na minha frente. Um dos Dobermans havia encontrado um ponto fraco, uma brecha nas grades. Seu focinho passou, cheirando. Então, suas presas, longas e afiadas, cravaram-se em meu braço.
A dor, ofuscante e excruciante, rasgou através de mim. Gritei, me debatendo, tentando me afastar. Mas seu aperto era firme. Eu podia sentir seus dentes rasgando minha carne, moendo contra o osso. Eu estava presa.
Procurei meu telefone, meus dedos escorregadios de sangue, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Disquei para Caio, minha última e desesperada esperança.
"Caio! Eles... eles estão me atacando! Por favor! Me ajude!", minha voz era um gemido quebrado, mal audível sobre os rosnados.
Uma voz fria e calma entrou na chamada. Aurora. "Ela está apenas sendo dramática, Caio. Não a escute. Ela está te manipulando."
"Alícia, admita o que você fez", a voz de Caio, distante e sem emoção. "Admita que tentou matar a mãe de Aurora. Peça desculpas por caluniar a família dela."
"Não! Eu não fiz! Por favor! Minha mão! Está... está quebrada!" As palavras foram arrancadas de mim, mas era inútil. Ele não ouviria. Ele nunca ouvia.
O desespero, frio e absoluto, me dominou. Ele estava realmente me deixando morrer. Meu coração se encolheu em uma coisinha minúscula e enrugada. Este homem, meu marido, não era nada além de um monstro.
Um estalo súbito e agonizante. Meu pulso. As mandíbulas do Doberman se fecharam, torcendo, rasgando. Uma dor branca e quente ofuscante, depois um estalo nauseante. Minha mão ficou mole, pendendo inutilmente. O Doberman rosnou, balançando a cabeça, depois soltou, deixando uma massa mutilada de carne e osso.
Gritei, um som que rasgou da parte mais profunda da minha alma. Mas rapidamente morreu em minha garganta. A dor era intensa demais, consumidora demais. A escuridão nadou diante dos meus olhos. Pouco antes de desmaiar, vi Caio, seu rosto pálido e horrorizado, invadindo a porta do porão, correndo em minha direção. Ele me pegou em seus braços, sua voz um sussurro em pânico.
"Alícia? Meu amor? Me desculpe. Eu não queria que isso acontecesse."
Seu pedido de desculpas era uma piada cruel.