Era difícil ver o mundo através de um prisma cor de rosa, ou ver o copo meio cheio, quando a vida fazia questão de mostrar a cada instante o quanto você era uma perdedora de merda. Quando estava no alto daquele prédio, ela olhava para baixo e decidia se devia pular ou não.
Ficou ali por umas duas horas e chegou a conclusão que estava sendo muito dramática. Ainda havia caminhos a seguir, aquele não era o fim.
Desde a adolescência estava acostumada a ficar deprimida, com o que os outros faziam a ela e dessa vez não seria diferente. Ficaria mal uns dias e depois se levantaria, precisava se levantar. Desceu todos os dez andares do prédio que ficava no centro da cidade e foi caminhando a esmo, entrando no primeiro bar aberto que encontrou. O bar parecia um daqueles pubs dos filmes, com o ambiente pouco iluminado e uma decoração em que a madeira predominava. Ela escolheu sentar-se no balcão, para ficar mais próxima do bar.
Ir a bares também não era um costume seu, com 22 anos de idade, aquele era o primeiro em que entrava na verdade. Quem costumava fugir para ir a bares era Maria do Céu, ela era mais de ficar em casa lendo ou vendo tv, definitivamente a típica jovem nerd.
Regina havia sido desde sempre o que costumavam chamar de vítima da sociedade. Não era pobre, nem se enquadra em nenhuma das diversas categorias de minorias sociais, talvez apenas por ser ser mulher. Era uma jovem de família rica, que nasceu em berço de ouro, como diziam.
Seus pais Maria do Céu e João Vicente eram amorosos e dedicados, nunca lhe faltou absolutamente nada. Porém isso tudo não impediu que ela crescesse com fortes estigmas, sofrendo bullying dos colegas por toda a infância e juventude.
Sempre foi muito tímida e introvertida, diferente da amiga Maria do Céu. Como suas mães eram melhores amigas, deram seus nomes às filhas. Cada uma ganhou o nome da mãe da outra. As duas meninas cresceram como irmãs, inseparáveis e Regina precisava admitir que Céu sempre havia sido sua maior defensora.
Desde muito cedo havia descoberto que precisava usar óculos, sem eles enxergava pouco, o que fez com que se tornassem seus companheiros de toda a vida. Também não ligava muito para moda e tendências, vestia o que considerava confortável e comia muito bem, o que não a fazia não estar sempre no peso considerado adequado, suas roupas giravam sempre em torno do número 42, e quando era criança, era mais gordinha ainda. Por ser dessa forma, o bullying veio forte e ela teve poucos dias que pode considerar bons na sua vida escolar.
Também não teve namorados, apenas um para ser exata, o motivo dela ter subido em um prédio com a intenção de pular, e estar ali naquele bar agora, bebendo o que quer que fosse aquela coisa alcoólica.
Maria do Céu deveria estar igual uma louca atrás dela, já devia ter ligado para os pais de ambas para comunicar o ocorrido e todos deveriam estar em polvorosa, com o seu desaparecimento. Não poderia demorar muito mais, afinal a boa moça que era não iria querer matar ninguém do coração.
Porém a pessoa que estava ali sentada naquele bar, só pensava em beber mais uma dose. Faltava muito pouco para terminar a faculdade, pelo menos não teria que ver toda aquela gente por mais muito tempo, não consegui pensar naquilo tudo sem sentir vontade de vomitar.
Quando Leonardo se aproximou, ela vivia na sua costumeira solidão e isolamento social, ele demonstrou interesse nela de imediato, e a convidou para sair. Ela perguntou-se porque não aceitar? Ele era uma gracinha, mas estava longe de ser um galã de filmes e novelas, para ela pensar que aquilo poderia ser alguma piada de mau gosto ou plano diabólico.
Eles saíram por um tempo, tinham gostos parecidos e se davam bem, Regina acabou se envolvendo emocionalmente devido a sua imaturidade com relacionamentos. Ele parecia aceitá-la perfeitamente e aos poucos os encontros levaram a um namoro.
Diferente dela, que estudava Análise e desenvolvimento de sistemas, Leonardo estava no último período do curso de Marketing. Demonstra bastante interesse na empresa do pai dela, que ela julgava ser por serem da mesma área, que ledo engano.
Ela não sabia, mas o nomorado havia se candidatado a uma vaga de estágio na empresa Global Marketing e não havia sido selecionado. Ela nunca teve contato com os amigos dele, quando saíam sempre sozinhos e para lugares públicos e tranquilos.
Nos seis meses em que namoraram, ele nunca foi um cara levado pelas paixões, o que para ela estava ok, pois esse também não era o seu perfil. Haviam trocado poucos beijos, mais por protocolo do que por outra coisa.
No meio da tarde daquele dia, ela estava indo embora da faculdade e o encontrou ele com os amigos, quando se aproximou notou um certo ar de constrangimento e todos ficaram muito quietos de repente. Ela o chamou pois haviam combinado de ir ao cinema mais tarde.
– Leonardo eu preciso falar com você. - Ela disse, parando atrás dele e ajeitando o óculos no nariz.
Ele se virou e a encarou muito sério.
– Mas eu não tenho mais nada para falar com você.
Ela ficou confusa, não entendendo porque ele estava usando aquele tom, ainda mais na frente de outras pessoas.
– Não entendi!
Ele parecia impaciente, como se não quisesse ter aquela conversa
– Só me deixa em paz garota. Eu andei com você o semestre todo, achando que iria me ajudar a conseguir uma vaga na empresa do seu pai. Mas você nem falou de mim para ele não é?
– E porque eu deveria ter falado?
– Ué, você não andava por aí me chamando de namorado? Eu achei que teria alguma vantagem com isso. Ou pensou realmente que eu ia querer ficar com você por livre e espontânea vontade?
Ele não estava fazendo questão de falar baixo, e todos ao redor estavam escutando. Uns disfarçaram um sorriso, outros riram abertamente. Havia até aqueles que dirigiam olhares de pena em direção a ela.
– Então quer dizer que tudo isso foi por uma vaga na empresa do meu pai? Foi tudo um teatro?
– Pelo menos eu não precisei me esforçar muito, se você fosse daquelas que fica querendo vários amassos eu não teria aguentado. Se olha no espelho, você é patética, fica andando por aí de cabeça baixa tropeçando nos próprios pés. Se veste como se vivesse no século passado e não fala duas palavras sem gaguejar de insegurança.
Regina abaixou a cabeça, muito envergonhada da cena que ele estava fazendo.
– Você não precisa me dizer essas coisas, terminar já iria bastar.
– Sabe porque não iria bastar? Porque era bem capaz de você ficar me mandando mensagem ou ligando insistindo. Eu quero deixar bem claro que eu nunca mais pretendo ser visto com você. Que eu quero que volte para o buraco onde se esconde. Quero que se exploda você e aquela empresa de merda do babaca do seu pai.
Regina não quis escutar mais nada, se virou e saiu andando em qualquer direção. Depois de alguns minutos começou a receber mensagens de Céu, que inacreditavelmente já sabia o que havia acontecido. Algum imbecil havia gravado boa parte do esculacho que ele deu nela e postou nas redes sociais da faculdade, em poucos minutos viralizou ela ali parada, enquanto ele acabava com ela.
Recusou todas as chamadas da amiga e desligou o telefone. Caminhou pelo centro da cidade se sentindo miserável até que resolveu entrar naquele prédio comercial.
Agora, depois de ter bebido um pouco, sentia-se mais calma. Aquilo tudo era uma merda, mas era apenas mais uma das merdas que aconteciam com ela.
Ela já deveria estar acostumada a ser o alvo dos deboches de todos ao redor, mas na realidade ainda doía muito. Ser desrespeitada com ser humano, relegada ao status de coisa, abominável, torpe, ridícula.
Essa era a sua vida, talvez devesse viver reclusa, como uma eremita. Quando se formasse, sua profissão permitia que trabalhasse em casa e não precisaria ter nenhum contato pessoal com outro ser humano. Seria perfeito, viva a tecnologia.
Regina estava sentada no bar com um copo nas mãos, perdida em seus devaneios de bebada. Não fazia ideia de como parecia desgrenhada, seus cabelos que eram muito ondulados, estavam totalmente bagunçados, escapando do rabo de cavalo, devido a ter ficado exposta ao vento no alto do prédio por um tempo.
O rosto estava amassado e vermelho de chorar e limpar as lágrimas. Quando ela já pensava em como faria para ir embora, se estava em condições de pedir um carro sozinha, um estranho se aproximou e se escorou ao lado dela no balcão do bar. Devido a miopia e a visão turva das lágrimas ela teve que fazer um esforço para focar em seu rosto.
Percebeu que nunca havia o visto antes, tratava-se de um cara de pele branca e cabelo castanho, com um desses cortes curtos da moda. Os braços que estavam escorados no balcão eram fortes, e evidenciaram um corpo com músculos aparentes, a camiseta preta lisa os deixava à mostra.
O estranho certamente frequentava alguma academia, para ter um corpo daqueles. Era incrível como a bebida levava seus pensamentos por caminhos misteriosos, os bíceps do cara no bar por exemplo. Ela seguia devaneando quando o estranho falou.
- Eu acho que já bebemos o suficiente por hoje, é melhor chamar um carro e ir para a casa em segurança.
- Fique à vontade, quer meu telefone emprestado? - Ela disse, quando se deu conta que ele falava com ela.
- Eu estou falando sobre você. É você quem vai para a casa agora.
Regina ficou sem saber o que responder ao estranho, porque ele estaria falando com ela sobre ir embora, ou melhor, porque estaria ordenando que fosse para casa.
- Eu acho que você está me confundindo com outra pessoa, eu não te conheço.
- Sim, eu também não te conheço, mas vi que você chegou sozinha, bebeu mais do que consegue aguentar e pode ter problemas para chegar em segurança a sua casa. E como eu sou um rapaz muito gentil, vim te ajudar a chamar um carro.
- Mas eu ainda não vou a lugar algum, estou bem aqui
O estranho deu um longo suspiro e puxou o banco que estava ao seu lado para se sentar, deixando evidente que planejava ficar ali.
- Agora você já pode ir embora, eu estou bem e vou ficar.
Regina disse dirigindo-se a ele.
- Eu sei, mas quer saber, eu vou ficar por aqui também. Esse lugar é bem melhor do que o que eu estava, fica mais perto da bebida.
Ela revirou os olhos, julgando que tinha arrumado um problema.
- A propósito, me chamo Ronan e você?
- Regina.
- Muito prazer em te conhecer Regina.
- Talvez sim, talvez não.
Ela respondeu simplesmente, tando mais um gole do seu copo.
- E então, vai me dizer o que te trouxe aqui essa noite?
- Não acredito que isso seja da sua conta!
Era incrível como aquele cara era insistente, ela estava fazendo questão de ser nem um pouco simpática e mesmo assim ele não ia embora.
- Eu sei, mas isso é tipo, uma conversa de boteco. Sabe, as pessoas costumam jogar conversa fora em bares, nem todos ficam no balcão bebendo até cair.
Ele disse, insinuando que era o que ela estava fazendo ali. Ela pensou por um momento e sorriu amargamente.
- Quer saber, você é um estranho em um bar, que está sendo incrivelmente inconveniente. A pessoa perfeita para ouvir os meus lamentos, talvez no final possa me dar até algum conselho ou palavra de apoio. Ou talvez possa apenas rir comigo disso tudo, você que vai decidir, ninguém mandou que interrompesse o meu mento de paz e reflexão, agora aguenta.
Ela disse isso e lhe contou tudo o que havia passado, enquanto ele pedia uma bebida para si mesmo. A escutava atentamente, parecendo genuinamente interessado. Ao final do relato ele ficou um minuto em silêncio como se ponderasse sobre a situação.
- Realmente, isso tudo foi uma droga! Mas não acha que subir naquele prédio foi meio exagerado?
- É, mas o bom é que eu não levei muito tempo para me dar conta disso. Eu só... estou tão cansada de ser isso.
Ele a encarou novamente com expressão de curiosidade.
- Ser o que exatamente?
Ela deu de ombros ao responder.
- A que sempre é ignorada, humilhada por uns ou superprotegida por outros. Não existe um meio-termo, e isso é um saco. Eu só queria espaço para ser eu, sem ter que atender expectativas de ninguém.
- E tem certeza que está realmente sendo você? Desculpe, mas depois de tudo que me contou, eu não posso evitar pensar que, na verdade, está em uma grande casca confortável.
- Depois de tudo que te contei, você acha que eu vivo confortável com isso?
- Não, mas acho que já virou uma forma de se proteger. Sendo e vivendo dessa forma, você já sabe o que esperar do mundo e das pessoas. Eu sei que o novo pode ser ainda mais assustador.
Regina ficou apenas o encarando por um momento, como se o achasse desequilibrado. Enquanto ele continuou falando.
- Não entenda mal, eu não acho que tenha realmente algum problema em você ser como é. Acredito que o seu maior problema é a falta de confiança mesmo.
- Como assim, olha para mim? Sou a tentação do bullying em pessoa.
Ele a avaliou atentamente por um momento.
- Realmente, você está horrível agora! Mas eu acho que tem mais a ver com ter chorado muito em cima de um prédio em que ventava muito.
Ela deu um leve tapa no braço dele, para revidar o comentário, conversar com ele estava sendo surpreendente fácil, como se fossem velhos amigos. Talvez fosse o efeito da bebida, ou todo aquele clima de bar que ele havia mencionado.
- O quê? Nem sendo o homem mais cavalheiro do mundo, eu poderia dizer que sua aparência está boa agora! Está assustadora com esses cabelos e essa cara toda inchada, se eu dissesse qualquer coisa diferente disso seria muita falsidade.
- Obrigada pelo apoio, você é a própria gentileza em pessoa.- Ela respondeu sarcástica.
- Pode sempre contar comigo querida para apoiá-la. Mas o primeiro passo para uma mudança e libertação é decidir, você quer realmente ser o que está sendo? Gostaria de ser diferente ou mudar algo? Porém, tem sempre que ter em mente que toda a mudança tem que ser por você. Para se encontrar como pessoa. Porque quanto mais você sabe quem você é ou o que quer, menos vai deixar as coisas te aborrecerem.
- Até que inacreditavelmente esse não é um conselho ruim.
Ele fingiu estar ultrajado enquanto devorava todos os amendoins de cortesia que estavam na frente deles.
- É claro que não! Eu dou bons conselhos, você sairia ganhando se me tivesse como "coach" de estilo de vida, relacionamentos, essas coisas. Mas é só uma dica.
- Desculpe, mas eu acho engraçado pensar que existe mercado para isso
- Meu bem, existe mercado para quase tudo. Todos os tipos de necessidades precisam ser atendidas.
Regina pensou um pouco sobre o que ele havia proposto.
- Só por curiosidade, quanto sairia uma consultoria desse tipo?
- Te garanto que seria um valor bem acessível. É um serviço relativamente fácil, e nem se compara com acompanhar senhoras idosas em momentos de lazer.
Ela demorou um tempo para se dar conto do que ele havia sugerido com o comentário.
- Eu não acredito, você é um garoto de programa!
Ele olhou para os lados como se conferisse se alguém havia escutado e fez um sinal com o dedo para que ela abaixasse o tom de voz.
- Eu não disse isso, foi só um exemplo. Não que eu nunca tenha feito nada do gênero, você sabe que jovens sempre precisam de um tênis ou celular novo
- Eu acho que vou vomitar. Sério, isso é nojento.
Ele riu muito da expressão de desconforto dela. Era um sorriso bonito, Regina pensou, devia mesmo fazer sucesso com as senhoras idosas.
- Era brincadeira, precisava ver a cara que você fez. Mas dizer que vai vomitar, com certeza se enquadra em um desrespeito com essa categoria que trabalha árdua e honestamente.
- Agora é tarde, eu já imaginei a cena. E nunca vou ter certeza se era real ou não. Vou ter que conviver com isso.
Ele deu de ombro ainda sorrindo e comendo mais amendoins. Tomou apenas uma cerveja e não pediu outra.
- E então temos um acordo de trabalho?
- Eu não posso aceitar nada sem saber valores.
- E eu não posso discutir valores com uma pessoa alcoolizada. Faz assim, vou salvar seu número e eu te chamo para combinarmos tudo.
Ele pegou o celular dela que nem sequer possuía uma senha, digitou o número dele e fez uma chamada para salvar o dela.
- Agora é melhor mesmo nos irmos! A sua família deve estar muito preocupada com você.
Ele tinha razão, não era justo fazer aquilo com eles. Ela pegou o celular e respondeu para a mãe e para a Céu que estava bem e já iria para a casa.
- Eu vou chamar um motorista.
- Relaxa! Agora que já somos íntimos e sou quase seu funcionário, eu te levo para casa.
Ela pareceu muito em dúvida. Mas algo a impelia a confiar nele.
- Não acho que seja adequado eu entrar no carro de um desconhecido, ainda mais tendo já bebido.
- Teoricamente, eu sou menos desconhecido que o motorista do aplicativo.
Disse Ronan levantando-se e pagando as últimas bebidas. Ele foi em direção a porta e ela o seguiu às suas costas.
- E se a sua preocupação é entrar em um carro de um estranho, te garanto que isso não vai acontecer.
Ele disse já na calçada, apontando para uma bonita e assustadora moto estacionada na frente do bar.
- Nem em sonho que eu vou subir nessa coisa, isso deveria ser chamado de quebra pescoço.
Ele sorriu e entregou um capacete reserva a ela.
- Eu garanto que é totalmente segura, e eu sou um ótimo piloto. Você vai chegar sã e salva em casa. Esqueceu que a última chamada no seu celular foi para o meu? Eu não poderia fazer nada contra você. Considere isso como um primeiro passo para a mudança, fazer algo que nunca fez, sentir a sensação de liberdade que uma motocicleta traz.
Ela estava ainda indecisa segurando firme o capacete, estava um pouco tonta devido às doses que havia tomado.
- Eu bebia além da conta e se eu cair?
Ele subiu primeiro e indicou onde ela devia colocar os pés para montar na carona.
- É só se segurar em mim como se a sua vida dependesse disso. E depende, acredite. Eu não irei muito rápido, procure acompanhar os meus movimentos.
Ela colocou o capacete e subiu da forma que ele havia indicado e colou as pernas no quadril dele, o mais apertado que conseguiu. Envolveu os braços ao redor de sua cintura em um apertado abraço.
- Está pronta? Vamos lá.
Regina nunca havia andado em uma motocicleta, a sensação era, simultaneamente, de liberdade e pavor. Aquele negócio parecia desafiar as leis da gravidade em cada curva que ele fazia. Sentia um frio na barriga e, ao mesmo tempo, a sensação de euforia. Ela indicou o endereço e eles chegaram sem problemas na casa dela. Ela desceu da moto e entregou a ele o capacete.
- E então, o que achou?
Ronan lhe perguntou.
- Bem, parece que eu sobrevivi!
- Que dramática. - Ele disse voltando a colocar o próprio capacete que havia tirado. - Amanhã eu te ligo.
Ele deu partida na moto e em segundos, sumiu de sua vista. Indo muito mais rápido do que havia andado quando a carregava. Nesse momento, sua mãe abriu a porta da casa.
- Regina, por onde você andou, aquilo era o barulho de uma motocicleta? Como pode desaparecer, assim tem ideia de como ficamos preocupados? A Maria do Céu está surtando e o seu pai também. Que cheiro é esse, você andou bebendo?
A mãe a atropelava com colocações e perguntas, visivelmente ainda muito nervosa.
- Eu já avisei a Céu, disse que depois falava com ela. Sim, eu andei bebendo, mas considerando que sou maior de idade, não tem problema nenhum nisso. E sim era uma motocicleta. Como todos já devem saber, eu tive um momento muito ruim, encontrei um amigo em um bar e ele me trouxe para casa em segurança.
- E desde quando você tem um amigo, com uma moto e frequenta bares?
Ela passou pela mãe e entrou na casa, querendo apenas deitar na sua cama.
- Não sei mãe, talvez essa seja a nova Regina. Eu sou adulta, então vocês vão ter que aceitar, agora que você já sabe que eu estou bem, eu gostaria muito de tomar um banho e dormir.
Ela entrou no próprio quarto fechando a porta, deixando a mãe do lado de fora. O relacionamento delas sempre havia sido de amizade e companheirismo, mas ela precisava de um tempo agora. Aquele dia havia sido caótico, e toda aquela loucura do cara no bar era muito para a cabeça dela. Precisava pensar no que fazer e se queria realmente a ajuda dele.
Ronan foi direto para casa, uma kit-net que estava alugando no centro da cidade. Poderia considerar que obtiveram sucesso em sua missão, mas isso não o deixava orgulhoso de si mesmo. Quando o seu primo Caleb ligou para pedir ajuda, ele não podia negar, devia muito a ele, foram criados como irmãos. Os pais deles era irmãos, e compartilhavam um ódio mortal por um primo que havia deixado sua empresa para um estranho e não para eles.
Caleb havia sido contaminado com esse ódio, pois viu o pai se lamentar até sua morte, acabando-se na bebida. Já Ronan não dava a mínima para tudo aquilo, acreditava que cada um fazia o que bem entendesse com o que era seu.
Mas o primo estava obstinado a recuperar o que acreditava pertencer a sua família. Estudou administração e conseguiu um emprego na empresa, devido o seu bom desempenho subiu rapidamente de cargo, virando um dos homens de confiança do CEO, Andreas.
O dono tinha uma filha única na casa dos 20 anos, o plano de Caleb era seduzi-la e casar com ela, tornando-se a melhor opção de Andreas para substituí-lo como CEO, e assim conseguir dar um golpe e recuperar tudo.
O papel de Ronan naquilo tudo era distrair a melhor amiga dela, para que Caleb tivesse espaço com Maria do Céu. Deveria manter Regina ocupada para que o primo entrasse em ação. Ele havia se mudado da pequena cidade onde a família morava a pedido do primo, que alugou um lugar para ele, e dava uma mesada para que se mantivesse.
Naquela tarde ele havia ligado dizendo que Maria do Céu tinha ido procurar o pai para avisar da situação de Regina, Caleb imediatamente mandou Ronan até sua faculdade e ele conseguiu segui-la quando ela saiu. Já estava quase subindo no prédio atrás dela, quando ela desceu e caminhou até o bar. Ele deu um tempo para ela e depois se aproximou.
No dia seguinte iniciaria aquela história maluca de coach, coitada da menina, ela não merecia ser sacaneada mais uma vez. O que aliviava um pouco sua consciência é que talvez realmente pudesse ajudá-la a ser mais livre e se sentir melhor. De qualquer forma, não podia negar isso ao amigo, o jeito era ir em frente com o plano.
No dia seguinte Regina acordou com o telefone tocando insistentemente, a dor parecia que ia partir sua cabeça ao meio, maldito álcool. Verificou e era a Céu, tinha que atender ou ela nunca desistiria.
- Alô, o que foi o mundo está acabando?
- Pelo visto, sim, já que fui informada que você estava bebendo em um bar e depois foi levada para casa por um homem desconhecido em uma motocicleta. Isso é a prova de que o mundo como eu o conheço está chegando ao fim.
- Deixa de ser dramática Maria do Céu, está muito cedo para isso. Minha mãe é rápida mesmo para passar as novidades.
Ela disse ainda deitada de bruços na cama, com o telefone no viva voz.
- Você nem tem ideia, ela ligou ontem mesmo para a minha mãe. Mas eu só recebia a fofoca hoje pela manhã. Você deve estar mal mesmo já são mais de 10 horas e ainda está dormindo. O que aconteceu com aquele papo de "pela manhã eu sou mais produtiva"?
- Aconteceu algumas doses a mais de uma bebida bem docinha, e como eu sou muito nerd, já adiantei quase todo o meu TCC, não preciso ser tão produtiva assim.
- Regina, ainda bem que falta pouco para a formatura, não precisa mais ver aqueles idiotas da faculdade. Só tem que aguentar mais um pouco. Mas me fala quem era o cara da moto, eu exijo saber.
- Era só alguém que conheci, um cara legal.
- Hum, e você planeja ver ele outra vez?
A amiga perguntou em tom sugestivo.
- Pode parar com isso, eu já consigo até ver a fic se formando na sua cabeça cor de rosa. Talvez eu o veja ou talvez não, ainda não decidi.
- E eu posso saber a origem desse relacionamento?
- Que relacionamento Céu? Eu conheci ele ontem e ele é um cara legal, só isso.
- E é bonito?
Céu perguntou ainda curiosa.
- Deve ter quem ache.
Regina não quis dizer que ele parecia saído diretamente de um filme de romance New adult, para não alimentar as fantasias da amiga.
- Tudo bem, eu permito que depois do que aquele idiota do Leonardo fez, você embarque em uma aventura altamente erótica com um desconhecido. Mas tome cuidado e usem camisinha.
- Céu, você desconhece o conceito de limite. Mas obrigada pelo conselho, eu vou anotar.
- Sério amiga, você merece ser feliz, só não vai tentar fazer nada em cima de uma motocicleta, você não tem prática, pode ser perigoso cair.
- Está bem depois dessa eu estou desligando. Nós nos falamos depois, tchau.
Ela desligou ainda sem acreditar nas sugestões da amiga, aquilo era descarado demais até para ela. O telefone tocou quando tentava dormir outra vez. Ela nem abriu os olhos, só atendeu, sabendo que era Céu novamente.
- Tudo bem, eu já anotei aqui, temos que usar camisinha e é perigoso transar em cima da moto, vou lembrar de não fazer isso!
Houve um silêncio do outro lado da linha e logo em seguida uma risada grave masculina.
- Nossa, eu fico aliviado, porque eu também sempre uso e não me arriscaria a tentar na moto, não sei se confio tanto assim nas minhas habilidades.
Puta que pariu, não era a Maria do Céu, aquilo fez ela despertar totalmente e sentar na cama com o telefone no ouvido.
- Ronan? Foi mal, eu achei que era a minha amiga, ela tinha me ligado antes.
- E eu devo supor que estavam falando de mim?
- Não! Sim! É que minha mãe já espalhou a notícia que cheguei bêbada e com um cara de moto, daí você pode imaginar as coisas que eu já escutei. A mente de senhoras e jovens mulheres é um terreno muito fértil.
- Eu posso imaginar. Mas vamos nos encontrar hoje para acertar os detalhes do nosso acordo? Eu posso te buscar.
- Acho melhor não, para não gerar mais boatos. Vamos nos encontrar em um cafe que eu costumo ir, vou te mandar o endereço. As 14 horas pode ser? Depois eu tenho que ir à faculdade levar uns documentos.
- Pode ser, nos vemos lá então.
Ele desligou, e ela tratou de levantar e tomar um banho. No horário marcado ela estava no café esperando ele, quando ele entrou pela porta, ela teve certeza que a bebida não tinha modificado sua percepção, ele realmente era de cair o queixo. Moreno, alto e com o corpo bem definido. Ficava maravilhoso com aquelas camisetas que ficavam justas devido ao porte físico e as calças jeans. Escapando da manga da camiseta, era possível ver um pedaço de uma tatuagem que ela não conseguiu definir bem o que era. Ele a procurou por um momento entre as mesas, quando a viu, sorriu e veio em sua direção.
-- Olá!
- Oi.
- Como está se sentindo hoje, muita ressaca?
Ele perguntou.
- Até que não, só acordei com dor de cabeça. Mas e então, vamos começar por onde?
- Bem, acredito que se o maior problema é a falta de confiança, vamos começar tentando resolver isso.
Ela o escutava atentamente, mas ficou curiosa.
- E isso seria como?
- Por exemplo, suas roupas. Não me olhe assim, não tem nada realmente errado com elas. Mas você acha que elas te valorizam, te dão confiança?
Ela se avaliou por um momento antes de responder.
- Eu sempre amei esse estilo vintage.
- Vintage é legal, mas se te deixa parecida com uma pinup, e não como uma avó. Lembrando que essa é só a minha opinião, você pode parecer uma avó se quiser. Esse é um verdadeiro corpaço, bastante volume em todos os lugares, se usasse roupas que ajudassem a evidenciar isso, acredito que fique mais confiante.
- Como sabe como é o meu corpo? Sempre me viu muito coberta. E o que você chama de corpaço, os outros chamam de gorda.
- Querida, são muitos anos de experiência, avaliando mulheres.- Ele disse com um ar safado.- E para uma pessoa obesa te faltam uns bons 50 quilos. Também não tem nada de mais ser gorda, cada um tem o corpo que tem, e sempre vai ter alguém para apreciar. Só acho realmente que precisa de umas roupas novas, só no caso de você querer se arrumar diferente algum dia.
Ele não precisou falar mais nada, ela se levantou e pegou a bolsa.
- Você me convenceu, vamos para o shopping.
Ele se levantou sorrindo e a seguiu.
- É disso que estou falando, uma garota decidida. Vamos fazer compras!
Ele deu uma ênfase animada na palavra compras, como se estivesse muito empolgado.
- Não posso esquecer que tenho que estar na faculdade até as 18 horas.
- Relaxa, depois eu te levo e a gente chega lá rapidinho.