Dois anos de casamento, e a minha cama continuava fria.
Mateus, meu marido, nunca me tocou.
A minha vida de luxo era uma fachada vazia.
Eu, Lara, a rainha do samba, tinha me tornado uma sombra obediente.
Até que, numa noite, o segredo gelado dele foi revelado.
Encontrei-o na capela privada, ajoelhado, não rezando a Deus.
Estava a adorar um vídeo da sua prima, Sofia.
A sua devoção era uma penitência, uma punição por um amor proibido.
Naquele instante, percebi: eu era apenas um escudo, um objeto para a sua fachada.
O meu coração estilhaçou-se.
O inferno abriu as portas. Sofia, a manipuladora, veio morar connosco.
Ela cortou o meu longo cabelo enquanto eu dormia, tentando apagar a minha essência.
Atirou-me uma garrafa à cabeça, deixando-me com uma concussão.
E ele? Mateus, o meu marido, sempre a defendeu, minimizando cada agressão.
O ápice da crueldade veio durante um sequestro.
Ele teve que escolher, e sem hesitar, salvou-a a ela.
Deixou-me para morrer no fogo.
E, para selar a traição, usou a minha pele para cobrir a pequena queimadura dela.
Sem o meu consentimento.
Senti-me a marioneta numa peça doentia.
Usada, violada, humilhada ao extremo.
Para Mateus, eu era apenas um problema a ser resolvido com dinheiro, um incómodo gestível.
Como pude ser tão cega?
O meu amor por ele, tão puro e apaixonado, tinha sido um sacrifício em vão.
Estava esgotada, mas uma nova centelha de raiva e determinação nascia em mim.
Eu não iria mais ser a vítima passiva dessa história macabra.
Eu não suportaria mais.
A minha voz, antes silenciada pela humilhação, finalmente gritou: "Eu quero o divórcio!"
Eu ia fugir.
Eu ia encontrar a Lara vibrante que o Rio de Janeiro conhecia e construir a minha própria felicidade.
Era a hora de renascer das cinzas.
Dois anos de casamento, e a minha cama continuava fria.
Mateus nunca me tocou.
Esta noite, a minha última gota de paciência secou. Peguei no telemóvel e liguei para o meu irmão, Tiago, em Portugal.
"Tiago, eu quero o divórcio."
A minha voz saiu firme, sem hesitação.
Do outro lado da linha, o silêncio durou apenas um segundo. "Finalmente, Lara. Eu apoio-te. Vem para Lisboa. A tua casa está pronta."
Senti um alívio imenso, como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros. Desliguei a chamada e olhei para o quarto luxuoso, mas vazio. Esta vida de fachada tinha de acabar.
Não conseguia dormir. A decisão pesava na minha mente, mas era um peso libertador. Levantei-me e caminhei pela mansão silenciosa. As luzes estavam todas apagadas, exceto por uma fresta de luz que vinha da capela privada no final do corredor.
Um som estranho chegou aos meus ouvidos. Um murmúrio baixo, quase um lamento.
Aproximei-me devagar, a curiosidade a superar o medo. Espreitei pela fresta da porta de madeira maciça.
A cena que vi congelou o sangue nas minhas veias.
Mateus estava ajoelhado em frente ao crucifixo. O seu rosário de ébano enrolado nos dedos brancos. Mas os seus olhos não estavam em Cristo. Estavam fixos num tablet apoiado no altar.
Na tela, uma jovem rodopiava num vestido de debutante branco. Sofia. A sua prima de criação, a menina que cresceu com ele como uma irmã.
Ele assistia ao vídeo repetidamente. A sua expressão era uma mistura de agonia profunda e desejo carnal. A sua devoção não era para Deus. Era uma penitência. Uma punição pelo amor proibido que sentia por ela.
A minha mente voltou no tempo.
Lembro-me do dia em que o conheci, numa gala de caridade. Mateus era diferente de todos os outros herdeiros. Quieto, com um ar ascético, quase sagrado. Fiquei imediatamente fascinada.
"Ele é estranho, Lara," o meu irmão Tiago tinha-me avisado nesse dia. "É um homem frio, distante. Não te metas nisso."
Mas eu vi-o como um desafio. Eu, a rainha do samba, a mulher vibrante que o Rio de Janeiro conhecia, iria derreter aquele coração de gelo.
Que tola eu fui.
Lembrei-me de todas as minhas tentativas falhadas. Noites em que usei a lingerie mais provocante, jantares que preparei com as minhas próprias mãos, danças de samba que executei só para ele no nosso quarto.
A resposta era sempre a mesma.
Um olhar indiferente.
"Estou cansado."
"Preciso de rezar."
Ele rejeitava-me sempre com uma frieza que me partia em mil pedaços. E eu, apaixonada, tentava de novo e de novo, cada vez com mais desespero.
Até ao dia em que ele me pediu em casamento. Foi abrupto, sem qualquer romance. Estávamos a tomar o pequeno-almoço em silêncio, como sempre.
"Acho que devíamos casar," disse ele, sem tirar os olhos do jornal.
O meu coração explodiu de alegria. Pensei que tinha finalmente conseguido. Que ele estava finalmente a abrir-se para mim. Aceitei com um sorriso que ia de orelha a orelha, cega pela esperança.
Agora, a ver aquela cena na capela, a verdade atingiu-me com a força de um murro.
O nosso casamento nunca foi sobre amor. Foi uma farsa. Uma maneira de ele se punir, de construir uma barreira entre ele e os seus verdadeiros desejos. Eu era o seu escudo, a sua penitência viva. Ele nunca me amou. Ele nunca me quis.
Ouvi-o sussurrar o nome dela, um som que era ao mesmo tempo uma oração e uma maldição.
"Sofia..."
Aquele nome, sussurrado com tanta dor e desejo, foi o meu ponto de rutura. A dor dentro de mim era tão aguda que deixou de doer. Ficou apenas um vazio gelado.
Virei-me e voltei para o quarto, a minha decisão mais firme do que nunca.
Na manhã seguinte, encontrei Mateus na sala de jantar. Ele lia o seu jornal financeiro, alheio a tudo.
"Mateus," disse eu, com a voz mais casual que consegui. "Vou passar umas semanas no Rio. Preciso de ver os meus amigos."
Ele nem levantou a cabeça.
"Faz o que quiseres."
A sua indiferença era a confirmação final. Ele não fazia ideia de que eu estava a despedir-me. Para ele, eu já nem sequer existia.
Assim que saí da mansão, a primeira coisa que fiz foi ligar ao advogado do meu irmão.
"Quero dar entrada nos papéis para a cidadania portuguesa e para o divórcio. O mais rápido possível."
Enquanto o carro me levava para longe daquela casa que nunca foi um lar, olhei para o meu reflexo no vidro da janela. Tinha suprimido tanto de mim mesma para caber no mundo austero de Mateus. A mulher vibrante que amava o Carnaval, que vivia para a dança, tinha desaparecido, substituída por uma sombra silenciosa e obediente.
Tinha deixado de usar as minhas roupas coloridas, de ouvir a minha música alta, de dançar até de madrugada. Tudo para ele. Tudo em vão.
Um sentimento de raiva começou a borbulhar dentro de mim. Raiva de mim mesma, por ter sido tão cega. Raiva dele, por me ter usado de forma tão cruel.
"Leva-me para o ensaio da Mangueira," disse ao motorista.
Precisava de me reconectar com a Lara que eu tinha perdido.
Cheguei à quadra da escola de samba e o som da bateria invadiu-me a alma. Era a minha casa. Vesti uma saia curta e um top brilhante que guardava no carro para emergências como esta. Encontrei a minha melhor amiga, Ana, no meio da multidão.
"Lara! Pensei que tinhas virado santa!" gritou ela por cima da música, abraçando-me com força.
"A santa morreu," respondi com um sorriso.
Entreguei-me à dança. Deixei o meu corpo mover-se com a energia contagiante do samba, uma energia que eu tinha reprimido durante dois longos anos. Dancei com uma fúria e uma alegria selvagens, sentindo-me viva outra vez. Era uma provocação, uma declaração de independência.
No meio de uma música, Ana agarrou-me no braço. A sua expressão era de choque.
"Lara, não olhes agora, mas o teu marido está ali."
Olhei na direção que ela apontava. Lá estava ele, num camarote no andar de cima. Mateus. A observá-lo com uma expressão gélida, o seu fato escuro e a sua postura rígida a destoar completamente do ambiente festivo.
O meu coração gelou por um instante. Mas depois, a raiva voltou. Ignorei-o. Dancei com ainda mais vontade, mais provocação.
Ele não reagiu. Um homem ao lado dele comentou qualquer coisa, e eu consegui ler os lábios de Mateus.
"Ela sabe o que faz. Não vai passar dos limites."
A dor da sua indiferença foi aguda. Para ele, eu era apenas um objeto previsível.
Mas então, algo mudou. A sua expressão tornou-se tensa. Os seus olhos fixaram-se noutro ponto da quadra.
Segui o seu olhar.
Sofia.
Ela estava lá, perto da bateria, a sorrir e a conversar com um dos músicos. Um rapaz bonito, que a olhava com admiração.
A reação de Mateus foi imediata e violenta.
Ele desceu as escadas a passos largos, a sua máscara de piedade a estilhaçar-se. Ignorou-me completamente, como se eu fosse invisível. Atravessou a multidão e agarrou Sofia pelo braço com força.
"O que estás a fazer neste lugar de perdição?" a sua voz era um rosnado baixo e furioso. "A comportares-te como uma leviana?"
Sofia olhou para ele, os olhos a encherem-se de lágrimas.
"Mateus, eu só vim ver o ensaio... Não fiz nada de mal."
A sua voz era a de uma menina assustada. Uma manipulação perfeita.
Ele puxou-a para longe, repreendendo-a em voz baixa, protegendo-a do mundo, protegendo-a para si mesmo.
Eu fiquei ali, no meio da pista de dança, a música a parecer subitamente distante. Tinha acabado de perceber uma verdade terrível. Ele não se importava com o que eu fazia, porque eu não era a sua tentação. Sofia era. E a simples ideia de outro homem a olhar para ela era o suficiente para o transformar num monstro ciumento e possessivo.
Sofia, sentindo-se ameaçada pela minha súbita rebeldia, usou o incidente como desculpa.
"Mateus, eu não me sinto segura. A Lara está a agir de forma tão estranha... Posso ficar convosco por uns tempos?"
E ele, cego pela sua obsessão, concordou.
Na noite seguinte, ela estava a mudar-se para a nossa casa. O meu inferno estava prestes a começar. Ela entrou na sala de estar enquanto eu estava a organizar uma prateleira com as garrafas de cachaça raras da minha família, o nosso maior orgulho.
"Esta casa é tão sombria," disse ela, com um falso ar de inocência. "Precisa de um pouco de vida."
Ela pegou na garrafa mais valiosa, uma edição limitada que o meu avô me tinha dado.
"Isto, por exemplo. Tão velho. Tão fora de moda."
Antes que eu pudesse reagir, ela atirou a garrafa contra a parede. O vidro estilhaçou-se, e o líquido precioso escorreu pela parede como lágrimas.
"Sofia!" gritei, em choque.
Ela virou-se para mim, o seu rosto doce transformado numa máscara de ódio.
"Não gostas, sua sambista de segunda categoria?"
Ela agarrou noutra garrafa. Eu tentei impedi-la. Ela empurrou-me e, no meio da confusão, atirou a garrafa na minha direção.
Senti uma dor aguda na parte de trás da minha cabeça. A minha visão ficou turva. A última coisa que vi antes de desmaiar foi o sorriso triunfante de Sofia.