Vivian Lima
O vento frio bate em meu rosto, não sendo o suficiente para afastar as lembranças. Meu peito dói, dói o quanto pude ter sido burra de não perceber que meu noivo e minha irmã eram amantes. Fui deixada no altar, parece que no último segundo meu ex teve coragem o suficiente para fugir com a cunhada. Chega a ser hilário a minha situação, em um momento minha vida está perfeita com pouco meses de vida e sendo a alegria de nossa família. No outro, seu pai decide viver uma vida longe de nós. Me abandonando no altar e esquecendo da existência de sua filha. Não os vejo desde então, faz quatro meses.
Quatro meses, abandonada no altar.
Quatro meses que minha filha não ver o pai.
Quatro meses lutando para deixar o passado no passado.
Mas a vida precisa continuar, não? Minha menina de seis meses precisa da mãe sendo forte. Engoli em seco e fecho meu casaco, saio da varanda do restaurante adentrando o hotel. Sou a gerente de um dos hotéis mais famosos do Rio de Janeiro, a responsabilidade sendo grande, não posso perder tempo com minha vida amorosa fracassada. Apresso os passos para recepcionar pessoalmente um grupo de empresários. Terá conferências no Rio de Janeiro, o hotel está com a hospedagem esgotada e o atendimento precisando ser o mais rápido possível.
Meu chefe não gostará de ter reclamações. Guio um grupo de empresários até o salão que aconteceria o evento, outros contratados fizeram o mesmo. Desejo um bom dia e vou para meu escritório, cumprimento algumas pessoas durante o caminho. Alguns hóspedes estão conosco todos os anos e costumam passar férias neste hotel quando estão no Rio.
Lutando para deixar meus pensamentos de lado, sou rápida em orientar algumas camareiras para a limpeza dos quartos dos empresários que acabei deixar no salão. Conto os segundos para o expediente acabar.
- Gostaria de falar com o gerente do hospital. - A voz grossa carregada por um sotaque inglês me desperta. - Há de ter alguém útil nesse lugar.
Endireito a postura e rodo nos meus calcanhares, indo para a recepção. A pequena Gabriela parecia uma criança na frente daquele homem que até então está de costas para mim.
- Olá, sou Vivian Lima, a gerente do hotel. - Sou simpática, mantendo o profissionalismo.
Posso imaginar mais um riquenho arrumando confusão à toa. Meu nível de paciência não está alta hoje, lidar com público, principalmente com gente que pensar ter o rei na barriga me irrita. Lembrando que ganho bem e perder meu emprego é algo que não pode acontecer, escolho sorrir e fingir ter uma calma que não existe. Calma não existe, meu emocional está uma merda, definitivamente não estou pronta para a sociedade.
O homem alto, de semblante sério, vira lentamente para me olhar. Sabe aquele homem viril que a gente sente a masculinidade de longe? Estou bem na frente de um e mesmo odiando os homens nos últimos meses tento ignorar a beleza desse. É apenas mais um arrogante e rabugento.
Seu olhar percorre todo o meu corpo antes de me olhar nos olhos.
- Você? - Pergunta em desdém.
Calma, Vivian.
- Em que posso ajudá-lo, senhor?
O desconhecido olha ao redor, arqueando as sobrancelhas. Está brincando comigo ou o quê? Gabriela não parava de olhar para ele encanto com a sua beleza. Com 1,90 no mínimo de altura, meus saltos altos me impedem de ser uma nanica na sua frente.
A parte de trás da sua cabeça sendo mais raspado, deixando em cima mais alto e um franjão se deixar os fios negros cair em seu rosto. Vestindo um terno que pagaria todas minhas contas e bancava uma viagem para fora do Brasil. A pele bronzeada pelo calor brasileiro, o tornava um pedaço de mal caminho. Ele é grande e com ombros largos.
- Realmente trabalha aqui? - Inclina a cabeça levemente para o lado.
Ah, preconceito a essa hora do dia não.
- Algum problema, senhor? - Mantenho minhas mãos em frente do corpo. - A minha cor de pele atrapalha em algo?
Posso dizer que minha vida é fácil por ser negra em um país preconceituoso, seria uma mentira descarada. Convenhamos, o preconceito está além das fronteiras e não deixo que esse homem saia do seu país para dilatar o seu ódio aqui.
- O quê? - Fica surpreso com as minhas palavras. Surpreso ou ofendido? Não sei, quem deveria estar ofendida sou eu.
Não posso perder meu tempo e meu emprego por causa dele.
- Senhor...? - Ergo a mão minimamente no ar, querendo que fale seu nome.
O corpo em forma e bem estruturado, estufa o peito. Só me faltava o ego desse homem.
- Nathan LeBlanc. - Pronúncia o sobrenome francês com magnitude.
Em francês, Blanc significa "O branco". É uma piada com a minha cara? Já em alemão quer dizer brilhante, reluzente ou bonito. Sabemos que o sobrenome combina perfeitamente com ele. Palhaçada a essa hora do dia, não poderia deixar para mais tarde? Não almocei ainda.
- Sr. LeBlanc poderia me dizer o que precisa? - A essa altura Gabriela está ocupada com seus afazeres.
Nathan LeBlanc arruma o terno em seu corpo, voltando a formalidade.
- A fechadura do meu quarto está com defeito, Srta. Lima. - Pega o cartão de acesso no bolso. - Não consigo entrar. A moça que está na recepção poderia ter me ajudado, se não tivesse perdido o tempo dela tentando me seduzir. Devo acreditar que todos são assim? Quando me recomendaram este hotel, não me informaram as entrelinhas.
Olho para Gabriela e rapidamente some da recepção. Um problema a mais para resolver, pensei que ela tivesse parado com isso. Houve algumas reclamações no mês passado, Gabriela está querendo perder o emprego? Não gosto de demitir as pessoas, principalmente quando sei que elas precisam. Gabriela não está cooperando.
- Peço desculpa pelo ocorrido, mandarei agora mesmo alguém para seu quarto. - Não estou surpresa em relação à fechadura da porta.
Faço sinal para um dos funcionários, relatando o que aconteceu e que levasse a pessoa especializada para arrumar. O filho do meu querido chefe está responsável pelo hotel, na última reunião relatei os problemas e a atualização das fechaduras usada com o cartão ou senha. O sistema que ele contratou é péssimo. Gosto desse hotel, mas deixar Reinaldo Amarante cuidando desse lugar maravilhoso é um crime.
- Peço que se acomode em nosso restaurante aproveitando bebidas e comidas típicas. - mostro a direção que deveria seguir. - Assim que o problema for resolvido, logo será avisado e novamente peço desculpa pelo transtorno.
O Sr. LeBlanc me parece ser alguém muito importante e ter uma recomendação ruim da sua parte pode afetar o hotel. Sendo importante ou não, gosto de ajudar e dar o melhor atendimento possível. Nem sempre tenho a mesma troca, pelo menos faço a minha parte. Me olhando de um jeito cético, o sorriso debochado surge em seus lábios.
- Deixei de ser um preconceituoso para um ótimo hóspede agora?
Mordo a ponta da língua para não dar uma resposta afiada. O seu sorriso aumenta sabendo qual era as minhas intenções. Para minha surpresa ele se aproxima, inclinando o corpo levemente para frente. Tem um cheiro bom, seu rosto tão perto vejo a pinta sutil embaixo do seu olho esquerdo. Olhando bem o contorno parece um raio, seria um sinal de nascença?
- Quero deixar claro que não questionei o motivo de trabalhar neste hotel pela sua cor, pensei que fosse uma hóspede, querendo ajudar a mulher sem noção da recepção. - Agora sou eu que estou surpresa. - A elegância no andar, o olhar e boca afiada está mais do que pronta para caminhar em meio aos leões no mundo dos negócios
Fico sem saber o que dizer. Seus lábios entre abre parece satisfeito com a minha reação, Sr. LeBlanc me dá uma última olhada antes de seguir para o restaurante. O que acabou de acontecer? Houve segundas intenções nessa conversa? Oh, não. Os homens que frequentam esse lugar costumam ser diretos e safados demais, tendo muito dinheiro na conta, se acham donos do chão que pisa. Balanço a cabeça e trato de esquecer o episódio que acabou de acontecer.
Meu escritório! Volto a seguir o meu caminho.
- Mas que porra garoto! Olha, o que você fez. - A gritaria perto da entrada do hotel começa a chamar atenção.
Reconheço o Sr. Oliveira que tenta limpar o sorvete que ficou em sua roupa. O menino olha para o homem na sua frente assustado, Sr. Oliveira não poupa palavras em direção ao garoto. Vou até eles em passos firmes.
- Por favor, Sr. Oliveira. - Entro na frente do menino. - Chamará atenção desse jeito.
- Que se foda, Vivian. Olha o que esse garoto fez? - A ponta para a camisa social suja.
Olho para o menino de cabelo castanho escuro que está tão assustado, é nítido que não foi de propósito. Ele aparenta ter 9 ou 10 anos. Me abaixo na sua frente.
- Ei, está tudo bem. - Sorri, querendo acalmá-lo. - Onde estão seus pais? Se perdeu?
- Vivian, é comigo que tem que se preocupar. - Sr. Oliveira choraminga. - Tenho uma palestra agora para apresentar.
Ignoro o velho reclamão. Quem tem coragem de gritar com uma criança desse jeito? Sr. Oliveira se preocupa apenas com ele mesmo e não é de hoje. O garoto não está prestes a chorar, mas seu rosto assustado e confuso mostra que não está entendendo o que falamos. Deve ser filho de algum gringo. Preciso achar os pais dessa criança logo.
- Você fala inglês? - Pergunto em inglês. Sou influente em inglês, francês, alemão e espanhol.
Seu olhar encontra o meu, ele balança a cabeça concordando. Ah, perfeito.
- Qual é o seu nome?
- Meu nome é Dylan. - Apreensivo, olha para o chato do Oliveira. - Desculpe.
- Não se preocupe. - Seguro em seu queixo com delicadeza. - Vamos encontrar...
- Ah, mas eu mesmo faço questão de achar o pai desse garoto. - Sr. Oliveira segura no ombro do garoto e o puxa.
Dylan grita assustado e com a mão livre segura em mim, não quero ir com o Sr. Oliveira. Antes que pudesse impedir o homem mais velho e pedi que deixasse a criança em paz, a voz grossa que reconheço me faz estremecer.
- Achou! E não estou gostando de vê-lo tocando no meu garoto. Então escuta bem. - Ergo minha cabeça, sendo a fúria no olhar de Nathan LeBlanc. - É melhor soltar meu filho agora, infeliz.
Sr. Oliveira começa a gaguejar. Dylan dá a volta por mim e fica ao lado do pai, Nathany está bem perto, Dylan fica entre nós dois. Continuo abaixada olhando a cena.
- Eu... eu... Não sabia que era seu filho, Sr. LeBlanc. Sinto muito... - Dá um sorriso maior que a boca. - Foi um momento de estresse, tenho uma palestra agora e ficarei feliz de ter a sua presença. Sabe como é a nossa vida.
Sr. Oliveira, não nos permite chamá-lo pelo primeiro nome. Seria difícil lembrar agora, é um dos empresários do ramo de alimentício, é enjoado de mais e um dos hóspedes que mais me dá trabalho. Foi desnecessário gritar com a criança e todos sabemos disso, os funcionários ao redor guiaram os hóspedes para não olhar o clima tenso que acontecia.
- O que aconteceu? - O gringo olha para o filho, o menino não se incomoda com o olhar do pai. Parede está acostumado.
- Estava procurando o senhor, comprei o sorvete e não estava com o dinheiro. Não vi ele, papai. - Dylan olha para o pai. - Acabei esbarrando meu sorvete nele. - Aponta para mim. - Ela me ajudou.
A conversa entre os dois era em inglês. Nathan me olha e estende a mão para mim, seguro tendo a sua ajuda para levantar. Dylan deve ter conseguido o sorvete no restaurante, ele não deve saber que a conta está associada ao quarto do pai e só quando for embora pagaria a conta ao todo.
- Mas são águas passadas e...
Nathan pega o sorvete de casquinha da mão do filho e esfrega na cabeça do Sr. Oliveira. Arregalo os olhos. Meu Deus!
- Se encostar no meu filho mais uma vez a sua reputação, se é que tem uma, não será o suficiente para o que farei com você. - Nathan avisa. - Srt.ᵃ Lima?
Pisco algumas vezes, engolindo em seco e olho para Nathan.
- Oi?
- Nos acompanha?
- Ah, claro.
Nathan segue com seu filho para o elevador. Aceno rapidamente para meus colegas de trabalho, um para ajudar o Sr. Oliveira e o outro para limpar o sorvete que caiu no chão. Em passos rápidos vou atrás do Nathan e seu filho, não posso esquecer da formalidade e chamá-lo pelo sobrenome.
- Pai, está muito calor. - Dylan respira fundo.
As portas do elevador se abrem, cheio pelo horário.
- Vou pedir que levem seu sorvete no quarto.
Entramos no elevador, muitos o cumprimentaram. Nathan fica no fundo do elevador, Dylan ao seu lado esquerdo e eu a sua frente no lado direito. Não é possível que terei que ouvir suas reclamações sobre o Sr. Oliveira, ai que raiva daquele velho. Ah, não! Reinaldo ficará uma fera, porque com toda certeza Sr. Oliveira reclamará no ouvido do meu chefe temporário e vendo nas câmeras que não fiz nada para impedir, será a minha cabeça na mira.
Perdida em meus pensamentos, não impeço o homem que anda para trás dando espaço para outra pessoa entrar e antes que se esbarra em mim. Sinto uma mão grande e firme ao redor da minha cintura, me deixo ser guiada. Nathan segura em minha cintura de modo protetor e me puxa deixando-me em sua frente. Ele não me solta, me mantendo presa nele.
Nathan LeBlanc
A chegada no Brasil não poderia ter sido mais calorosa, o calor do lugar me faz sentir saudades do frio de Nova York. Dylan é o que mais sente falta, meu filho esteve no Brasil uma vez. Era tão pequeno que não se lembra, tinha 2 anos e ainda pequeno não gostava do calor do país. Estamos de volta, a trabalho preciso participar de algumas conferências e ele está ciente do meu tempo corrido. Dessa vez, quis viajar comigo. Como agora mora permanente comigo, Dylan tem participado das viagens de negócio que faço. Não quis ficar com meus pais, ou com a mãe. Pensar na Bárbara faz minha cabeça doer, conseguindo me estressar mais do que o incidente na recepção.
Vivian está como uma estátua, a mantenho junto a mim. Como não tenta se afastar, não a solto. A mulher será facilmente esmagada nesse elevador, é lentamente liberado espaço, mas chegando no meu andar que estou hospedado não havia soltado Vivian. A mulher da pele bronzeada em tom escuro é bonita e quando nos falamos na recepção me despertou curiosidade em saber mais sobre ela. Preciso me corrigir, estou no Brasil a trabalho e não por causa de mulher. Já tenho uma ex-esposa para torrar a paciência que não tenho. Deslizo minha mão até encontrar a sua.
- Estou logo atrás de você. - Sussurro em seu ouvido, quando as portas do elevador se abrem.
Não foi com segundas intenções, pelo amor de Deus, minha mãe criou um homem e não um molestador de mulheres. Talvez posso ter sido invasivo e novamente procuro me corrigir. Vivian fica tensa, por um instante não se move. Aperto sua mão, como um despertar ela se move. Dylan segura em minha mão e somos os únicos a sair do elevador. Vivian rapidamente se afasta. Sigo pelo corredor de mãos dadas com Dylan, meu filho parece estar mais tranquilo. Passo o novo cartão na fechadura da porta e Dylan entra correndo no quarto.
Entramos e fecho a porta.
- Sr. LeBlanc, o que aconteceu...
- Contratei uma babá que está atrasada. - A interrompo. - Meu filho está tendo dificuldade para se adaptar ao calor do seu país. Pode me ajudar colocando alguém de confiança para o acompanhar enquanto participo de algumas conferências? Dylan entende o português, mas sua pronúncia não é das melhores.
Vivian tem seu cabelo preso em coque, a roupas que usa é mais sofisticada, totalmente diferente dos outros funcionários. O uniforme de alta costura, faz parecer um terno feminino da Prada. O rosto oval está com uma leve maquiagem, não é preciso usar muito, a mulher é linda. Desvio meu olhar a procura do Dylan, meu filho está deitado no sofá e assistindo televisão.
- O hotel hoje está muito movimentado, o trânsito no Rio está horrível, esse deve ser o motivo do atraso da babá para não ter chegado. - Vivian apoia um braço no outro e alisa o queixo com os dedos. - Posso dar um jeito!
Ergo uma sobrancelha.
- Parece bem animada em ajudar o meu filho.
Ela me olha sem entender.
- Gosto de crianças. - Dá de ombros. - São os seres mais inocentes, todo cuidado é pouco.
Gosto de suas palavras.
- Então só não gosta dos pais delas?
Ela fica séria.
- Fui educada com você.
- Me acusou de ser preconceituoso.
- Não falei isso. - cruza os seus braços.
Parece que quando o assunto sou eu o humor dela muda rapidinho.
- Não precisava, o seu rosto dizia tudo.
- Papai. - Dylan me chama. - Não briga com a Tia Vivian, ela é legal.
Olho para o meu filho estranhando essa proteção de repente. Dylan não é assim, é uma criança grata, mas demora a ter esse contato direto com a pessoa.
- Isso, escute seu filho. - Vivian se aproveita da proteção e passa por mim. - Olha, pode ir para seu compromisso. Consigo alguém para ficar com ele.
Vivian sorri em direção ao Dylan, mesmo que ele não estivesse olhando-a. Me pego a olhando por mais tempo que devia. Que merda está acontecendo comigo?
- Ok, Dylan tem celular, entre em contato comigo a hora que precisar. - Caminho em direção à porta.
- Sim, papai. - Responde sem tirar os olhos da televisão.
Não faço questão de olhar novamente para Vivian e saio do quarto. Tenho estado no Rio de Janeiro para dar uma palestra e participar de algumas conferências sobre negócios. O dia será longo, não me sinto à vontade para deixar meu filho, mas tenho seguranças o suficiente dentro e fora deste hotel. Sou dono de uma empresa multinacional que carrega meu sobrenome, são carros clássicos e esportivos. Não sei como Vivian não me reconheceu quando falei o meu nome e sobrenome, todos conhecem a LeBlanc, exceto se ela não seja muito ligada a carros.
Não devo me importar com o que ela conhece ou não, é no mínimo um pouco ofensivo, mas vou superar.
O dia como planejado acaba sendo corrido, participo de duas conferências e dou uma palestra. Meu chefe de segurança me deixa ciente de que Dylan estava com Vivian, no fim ela tomou conta do meu filho. Para onde ela vai, ele vai junto. Assim que a babá contratada chegou, virou mais uma sombra atrás de Vivian, porque Dylan queria continuar andando com a mulher.
Continuo surpreso com essa ligação repentina do meu filho com essa mulher que ele viu pela primeira vez. Ele estando bem é o que importa, sigo com os meus afazeres. Encontro com aquele sujeitinho que agarrou meu filho à força, passo por ele mostrando o ser insignificante que é. Em sua tentativa de falar comigo o ignoro. Parece que é um empresário da área alimentícia, não quero ser visto com esse cara. À noite encontro com Dylan em seu quarto, o menino havia tomado banho e agora se preparava para jantar.
- Como foi seu dia? - Sento ao seu lado.
- Foi legal. - Dylan come sua feijoada e sorri, aprovando o gosto.
- Você e aquela mulher...
- Tia Vivian. - Me corrige.
Paro o garfo no ar. Olho para meu filho, o que essa mulher fez com ele? Dylan continua comendo. Desde o meu divórcio com a sua mãe, Dylan tem encontrado dificuldade de se relacionar com outros adultos e crianças. Faz um ano que decidi terminar de vez meu relacionamento com Bárbara Franco, nosso relacionamento não estava dando certo há um bom tempo. As brigas ficaram constantes e começou a afetar as crianças, tenho um filho mais novo. Meu caçula de 5 anos, Mikael, escolheu ficar ao lado da mãe nessa separação.
Ele me culpa por deixar a Bárbara e sempre diz que fui eu que destruí a nossa família. É difícil ouvi-lo dizer essas palavras, mas sei que só está dizendo o que ouve, Bárbara faz questão de falar mal de mim e principalmente na frente dele. Dylan sempre foi mais unido com a sua mãe e foi uma surpresa quando ele pediu para morar comigo.
- Papai?
- Sim?
Dylan para de comer, ele parecia sem saber como dizer as próximas palavras. Meu filho mais velho parece bastante comigo, puxou o cabelo da mãe em um castanho escuro, mas de resto é uma cópia minha mais jovem. Dylan tem o mesmo sinal que eu embaixo do olho esquerdo.
- Você pode ajudar a Tia Vivian?
Fico sério. Essa mulher pediu algum favor ao meu filho se aproveitando da inocência dele? É de estranhar aquela vontade toda de ajudá-lo e aceitar ficar com ele.
- Dylan, seja lá o que ela tenha te pedido...
- Não, pai. Ela não me pediu nada. - a pressa em dizer. - É que... acho que ela está triste. Algumas vezes o seu olhar fica distante e é nítido a tristeza em seu rosto.
- Somos adultos, temos problemas. - E não vou me envolver nos dela.
Volto a comer.
- Papai?
- Oi?
- Queria que o Mika estivesse aqui. - Dylan suspira.
- Eu também. - Sinto a falta dele e a sua distância me machuca.
Terminamos o jantar, dessa vez não estou hospedado em um quarto duplex. Como sabia que mal teria tempo para o meu próprio filho e fazer um passeio decente durante a uma semana que estaremos no Rio de Janeiro, decidi que dividiremos a cama e poder ter um pouco do seu colo. Dylan dorme rápido, passo a mão pelo seu cabelo, a tranquilidade em seu rosto me acalma. Um de nós pelo menos precisa aproveitar.
Olhando para o meu filho e vivendo algumas lembranças, uma nova surge e ela tem nome e sobrenome. Vivian Lima, a vi passar quando estava na recepção falando com aquela mulher descarada. No Brasil há muitas mulheres bonitas, Vivian é uma delas, o seu jeito contido me fez ansiar por uma resposta atrevida da parte dela. Saber que seria desafiado me anima, faria provavelmente por não me conhecer, mas não fez para não perder o emprego. Tenha em mente que, embora ela possa não ter consciência de mim, imagina que não sou uma pessoa comum.
Ah, Vivian, qual é a sua história?
Na manhã seguinte, depois do café da manhã, Dylan e sua babá sai do quarto à procura da Vivian. Acordo disposto para mais um dia de palestra, meu celular toca e o pego em cima do sofá.
- Droga. - Sussurro. Bárbara sabe que só atendo ela porque tem um dos meus filhos sob sua tutela. - Fala.
Acordei de bom humor? Não mais!
- Bom dia para você também, Nathan. Liguei porque quero falar com o meu filho, vocês viajaram às pressas e não pude me despedir. - A voz inocente não me engana.
- Você sabia sobre a viagem desde o mês passado. - Massageio as têmporas.
- Precisei trabalhar, minha agenda tem estado cheia. É preciso aproveitar as oportunidades que me vem, não estou ficando mais jovem.
Bárbara é modelo e atriz de Hollywood. Outro impasse é que estou morando com Dylan em Nova York, Bárbara e Mikael estão morando em Los Angeles, o que acaba dificultando nossos encontros.
- Você tem o número de celular dele, ligue direto. - ameaço desligar a ligação.
- Ele está com o celular direto agora? Nathan, combinamos sobre o tempo de tela que as crianças têm que ficar. - Bárbara começa a brigar comigo. - Não pode funcionar de um jeito aqui e aí de outro. Você...
- Bárbara estamos em viagem, sabemos qual é o esquema, não me venha se fazer desentendida agora. - Me estresso. - Me liga se Mika estiver precisando de algo, fora isso esquece a minha existência. - Desligo a ligação.
Irritado, coloco o meu celular no bolso e sai do quarto seguindo a minha agenda mais um dia.
Vivian Lima
Coloco as mãos na cintura e estreito meus olhos para o pequeno garoto que se aproximava. Dylan dá um sorriso tímido, sua babá o acompanhava e encolhe os ombros em um pedido de desculpas. Ontem não consegui arranjar ninguém que pudesse cuidar do Dylan, não deixaria o garoto trancado no quarto, precisava trabalhar e o que me restou foi levá-lo junto. Que Nathan não descubra que coloquei o filho dele para trabalhar junto, Dylan não é muito de falar, mas chegou uma hora que não podia mover um dedo e ele soltava uma pergunta. Ele queria saber o que eu fazia, então mostrei na prática.
E esse menino é espetacular, não é uma criança mimada e com frescura. Fomos a cada canto do hotel, precisava acompanhar alguns trabalhos pessoalmente e ele até me lembrou na hora certa do buffet que foi contratado e eu precisava supervisionar.
- Oi, gatinho.
- Oi, Tia Vivian. - Me abraça e beijo sua cabeça.
- Você me prometeu que hoje iria fazer coisas de criança. Tem uma piscina maravilhosa te esperando.
Dylan coloca os braços atrás do corpo e se balança nos calcanhares.
- Não posso ficar um pouquinho com você?
Ah, é sacanagem! Me olhando com aqueles olhinhos castanhos tão lindo. Dylan tem o mesmo sinal de nascença que seu pai, é uma réplica mais jovem de Nathan, confesso que no lugar da mãe dele estaria bastante irritada. Nove meses carregando a criança e sai a cópia do pai. Torço tanto para a minha filha ser minha cópia.
- Não, não pode. - Seguro em seus ombros e o viro em direção à piscina, dou um tapa em sua bunda. - Agora vai brincar, aproveita o sol que está fazendo e toma banho de piscina.
Desanimado, Dylan segue na direção que coloquei e a sua babá vai junto. Dylan é um garoto obediente e foi bom passar um tempinho com ele ontem, gosto de crianças e trabalhando demais mal posso ficar com a minha filha. Dylan supriu um pouco a saudade e a parte boa de ter uma criança conosco. Volto para minha correria, serão duas semanas intensas, é quase o mês todo para esse evento de negócios de várias áreas e diferentes pessoas do mundo estão em nosso país.
No hotel serão duas semanas seguidas nessa correria, porque algumas dessas conferências acontecem aqui. Porém, alguns hóspedes não ficam nesse período todo.
Ontem teve cinco dos hóspedes reclamando da fechadura. Hoje foram mais quatro, depois de falar com cada um deles, seguir para o escritório do Reinaldo. Dou duas batidinhas na porta e logo escuto a minha entrada ser liberada. Assim que me vê, Reinaldo suspira e revira os olhos, é um homem bonito de porte alto e loiro, mas o cérebro parece uma semente.
- Lá vem problema...
- De ontem para hoje tivemos nove reclamações sobre a fechadura das portas. - o interrompo, não suportando suas gracinhas. - No mês passado foram 100 reclamações. Você precisa resolver...
- Eu? Imagino que tenha dado um jeito nisso. - responde sem tirar os seus olhos do notebook.
- Um conserto temporário não é eficaz. Precisa trocar esse sistema.
Suspirando pesadamente, ele me olha irritado.
- Percebeu que você nunca vem com algo positivo? É exatamente isso que mostra o quanto somos diferentes. - aponta o dedo para mim e depois para ele. - Com você é sempre problema, não sei como meu pai a mantém aqui.
A diferença entre mim e ele é que quero as coisas certas, tudo funcionando no seu devido lugar e perfeitamente para garantir as cinco estrelas e comentários felizes desse lugar. Porque se esse hotel começar a fazer cortes e eu for uma das selecionadas, sou eu que perco o emprego e ele continua nadando no dinheiro.
- Talvez seja melhor você notificar o seu pai sobre os últimos acontecimentos. - Sugiro.
Estou se aplicando para que Carlos volte a liderar o hotel. Por que ele tirou férias? Não existem férias para o império que tem, pelo menos não conto se coloca Reinaldo em seu lugar. Carlos está querendo testar e ver seu império falir em vida? Reinaldo me olha sério.
- Você para uma simples empregada é muito petulante. - Olho para ele chocada. - Se põe no seu lugar e lembre que sou o dono deste hotel, não me estressa ou seu próximo problema será arranjar um novo trabalho.
Fecha as minhas mãos em punho e não usa abrir a minha boca para respondê-lo. Reinaldo me desafia com olhar, querendo que dê motivo a ele. Esse idiota terá o prazer de me demitir mesmo sabendo dos meus direitos, mas quer ter o gostinho de me mandar embora.
- Deseja mais alguma coisa?
Forço um sorriso.
- Não.
- Não o quê? - Dá um olhar inocente.
Sabia bem o que ele queria ouvir.
- Não, senhor.
- Perfeito! Saia da minha sala.
E assim faço. Que raiva! Dois reais ou um estresse diário? Deveria ter pedido minhas férias no exato momento que Carlos saiu de férias também, não seria o mesmo tempo que ele, mas seria menos tempo com Reinaldo. No corredor encosto na parede e respiro fundo, meu emocional está ferrado de um jeito que não sei explicar. Estou tão cansada. Financeiramente falando estou bem graças a Deus, tenho o meu apartamento que foi uma luta, mas consegui comprá-lo. Mora eu e minha filha, ela passou o dia todo e o início da noite com a minha mãe. Preciso sempre ir até o outro bairro para buscá-la e voltar para o Leblon.
Acaba aumentando o meu cansaço fisicamente, agora o emocional está ficando insuportável. Minha mãe, Adelaide, insiste que entre com um processo contra o pai da minha menina e, ao mesmo tempo, tenta defender a minha irmã. Maitê não precisa do pai, consigo nos manter perfeitamente, o grande problema mesmo de não fazer nada que envolva a ele é que dói demais a cachorrada que fizeram comigo.
Porra, era minha irmã e meu noivo!
A minha irmã mais nova me apunhalou pelas costas e meu noivo, quem dormia ao meu lado e todos os dias dizia que me amava, me fez passar como uma completa desconhecida do dia do nosso casamento.
É tão estranha ser considerada a melhor mulher do mundo, ser tratada como uma rainha e depois não passar de uma desconhecida. Dois anos de relacionamento e a única coisa boa foi a Maitê.
Enxugo as minhas lágrimas rapidamente. Trabalho! Preciso trabalhar.
Tento organizar tudo possível para a próxima conferência, o gerente geral me ajuda a manter as coisas no seu devido lugar. Houve mais dois hóspedes reclamando do sistema da fechadura, mais uma vez resolvo. Agora até quando irá durar, não sabemos.
Passando perto da área da piscina, vejo Dylan sentado abraçando as pernas contra o corpo sentado na espreguiçadeira. Ele olha as crianças brincando na água. Por que ele não está brincando com elas? Me aproximo dele, sua babá me ver e praticamente corre em minha direção.
- Não sei o que fazer. - Me olha nervosa. - Ele não quer mais conversar, fica olhando as crianças, mas não quer se aproximar delas. Penso em falar com o Sr. LeBlanc, será que devo?
Seguro sua mão e sorrir.
- Deixe eu conversar com ele, tá bom?
Ela concorda. Me aproximo de Dylan e ele só percebe a minha presença quando me sento ao seu lado. Um sorriso surge em seus lábios.
- Oi, gatinho.
- Oi, Tia Vivian.
O bom é que ele está falando.
- Posso saber porque você não quer brincar com as crianças? - O seu sorriso diminui e ele se cala. - Ei, não quero ver você desse jeito. - Abraço ele de lado. - Não sei o que está acontecendo, mas a qualquer momento que quiser conversar pode me chamar.
Ele balança a cabeça e nada diz.
- Por que não vai para seu quarto assistir desenho ou jogar um pouco? - Era melhor ele ficar no conforto do quarto e no ar condicionado do que nesse calor insuportável.
Dylan se anima, beijo seu rosto e ele segue com a sua babá para o quarto. Fecho meus olhos e suspiro, não tenho que me meter na vida pessoal dos hóspedes. E estou indo fazer exatamente ao contrário, abro os meus olhos e respiro fundo. Onde será que estaria Nathan LeBlanc?