Por dois anos, meu marido Heitor exibiu o caso dele sem a menor vergonha, usando a falsa gravidez da amante para me torturar. Eu suportei tudo por nossa filha, presa em uma gaiola de ouro onde ele esperava que eu confundisse seu sufocamento com paixão.
Então, a amante dele sussurrou mentiras cruéis para minha filha de seis anos, dizendo que o papai a abandonaria pelo novo bebê. Minha filha desapareceu.
Enquanto eu a procurava freneticamente, Heitor estava inacessível, ainda com ela. Quando finalmente apareceu, ele protegeu a amante da minha fúria desesperada, sua aliança de casamento brilhando enquanto me afastava.
Com nossa filha ainda desaparecida, ele me implorou.
- Cristal, ela está grávida, não a machuque!
Os anos de raiva reprimida finalmente explodiram. Depois que nossa filha foi encontrada sã e salva, eu o encarei nos olhos e disse a verdade que ele estava desesperado para evitar.
- Eu quero o divórcio, Heitor. Eu nunca te amei. Eu te odeio.
Capítulo 1
Eu sabia que minha vida era uma gaiola de ouro, mas quando Heitor Bastos exibiu seu caso e depois fingiu uma gravidez para me provocar, percebi que ele estava me estrangulando lentamente, esperando que eu confundisse a luta com paixão.
Um sedã preto de luxo parou suavemente em frente à mansão. Meus olhos, pesados de uma noite cheia de pensamentos inquietos, mal registraram sua chegada.
Alana Pires saiu, seu vestido de seda ondulando ao seu redor. Ela parecia jovem demais, vibrante demais para este lugar.
Heitor Bastos se encostou na porta aberta do carro, um cigarro pendurado nos lábios. Seu olhar, mesmo através da fumaça, encontrou o meu. Era frio, perturbador, um aviso silencioso.
Baixei os olhos. Senti a mão de Alana deslizar na minha, um gesto que ela provavelmente achou que era de solidariedade. Afastei-me gentilmente.
- Ele está esperando por você - eu disse, minha voz sem vida, quase vazia de emoção.
Ela não encontraria a reação que desejava no meu rosto. Sem ciúmes, sem raiva. Apenas um vazio profundo.
Os lábios de Alana se contraíram, um brilho de decepção cruzando seu rosto. Ela mordeu o lábio, depois se virou e caminhou em direção a Heitor.
A porta do carro bateu. O motor rugiu, e eles se foram.
Fiquei ali por um longo tempo, congelada, o frio da noite se infiltrando em meus ossos. O silêncio da entrada vazia amplificava o aperto no meu peito.
- Mamãe? - uma vozinha inocente chamou atrás de mim.
Virei-me bruscamente. Luísa, minha filha de seis anos, estava na porta aberta, seus olhos arregalados de curiosidade.
- Por que o papai saiu com aquela moça? - ela perguntou, sua voz mal um sussurro.
Meu coração se partiu. Eu a peguei no colo, forçando um sorriso no rosto. Parecia frágil, prestes a quebrar.
- Ele só deu uma carona para ela, meu amor. Sabe, como um bom amigo faria.
Luísa assentiu, seus bracinhos envolvendo meu pescoço com força. Levei-a para dentro, a mentira um gosto amargo na boca.
Mais tarde naquela noite, muito depois de Luísa ter adormecido tranquilamente, Heitor ainda não havia voltado. Eu não estava surpresa. Sabia que ele não voltaria para casa.
Então, uma notificação apitou no meu celular.
Era Alana. Um novo post, uma foto da mão dela entrelaçada com a de Heitor. Um jantar luxuoso ao fundo. A legenda se gabava da noite perfeita deles, seu "futuro papai" a cobrindo de amor.
A imagem me atingiu como um soco no estômago. Era uma declaração silenciosa de uma felicidade que eu nunca poderia ter.
Lembrei-me da noite em que Heitor e Alana ficaram juntos pela primeira vez. Alana, uma digital influencer em ascensão, estava tão animada. Ela havia postado acidentalmente um story sobre sua "primeira vez" com Heitor, pensando que era uma mensagem privada.
Naquela noite, a fachada cuidadosamente construída da minha vida calma se partiu. Não foi uma quebra limpa. Foi um rasgo irregular, sangrando lentamente, mas, estranhamente, um raio de luz perfurou-o.
As noites intermináveis sempre traziam de volta as dores mais profundas. Eu havia dado um filho a Heitor, me amarrando a ele para sempre. Eu havia me resignado a uma vida inteira entrelaçada com ele.
Mas agora... Alana estava grávida. E Heitor estava levando-a a sério.
Uma pergunta desesperada surgiu em minha mente: será que eu finalmente poderia ser livre?
Nos dias que se seguiram, continuei a desempenhar o papel de esposa e mãe perfeita. Eu cozinhava, limpava, sorria. Mas o olhar de Heitor ficava mais frio a cada dia que passava. Era inquietante, como se ele estivesse calculando algo.
Uma noite, depois de colocar Luísa na cama, ele me chamou em seu escritório. O cômodo estava escuro, o ar pesado com o cheiro de charutos e livros velhos. Ele estava perto da janela, várias bitucas de cigarro já empilhadas no cinzeiro ao lado dele. Ele olhava para as luzes da cidade, de costas para mim.
Quando se virou, sua expressão era inesperadamente suave, quase gentil.
- Cristal - disse ele, com a voz baixa. - Acho que é hora de eu te dar sua liberdade.
Minha respiração falhou. Minhas mãos, apoiadas nas costas de uma poltrona de couro, tremeram involuntariamente. Eu ouvi direito?
Ele sorriu, uma curva lenta e deliberada de seus lábios. Ele caminhou em minha direção, seus movimentos sem pressa, e gentilmente afastou uma mecha de cabelo do meu rosto.
- Alana está grávida - ele confirmou, seu toque estranhamente terno. - E o filho é meu.
Meu coração era uma tempestade furiosa, mas mantive a cabeça baixa, o olhar fixo no assoalho polido. Eu não podia mostrar a ele a onda de esperança inesperada que ameaçava me dominar. Não podia deixar que um único brilho de alegria me traísse.
Lembrei-me dos primeiros dias do nosso casamento, minhas tentativas fúteis de escapar. Eu havia fugido inúmeras vezes, apenas para ser arrastada de volta por ele. Cada vez, seus olhos estavam injetados de sangue, aterrorizantes.
- Ainda planejando fugir, Cristal? - ele sussurrava, sua voz tingida de uma diversão cruel.
Sua mão sempre encontrava meu pescoço, pousando ali levemente, uma ameaça silenciosa. - Fique ao meu lado, e talvez, só talvez, um dia eu te deixe ir.
Essas memórias passaram pela minha mente, um rolo sombrio de medo e submissão. Eu não podia confiar em suas palavras. Não completamente.
Mas o pensamento de deixá-lo, a simples possibilidade disso, era como um broto frágil rompendo a terra árida. Era uma esperança minúscula e hesitante.
- Você... você pode mesmo me deixar ir? - ousei perguntar, minha voz mal um sussurro.
Seu sorriso permaneceu, mas o calor sumiu de seus olhos. Eles se tornaram frios, duros. Eu não sabia o que tinha dito para irritá-lo.
Ele bateu a mão na mesa, o som ecoando pela sala silenciosa. Meu corpo se encolheu. Ele agarrou meu braço, arrastando-me bruscamente em direção à mesa. Sua voz, um rosnado baixo, era um sussurro demoníaco em meu ouvido.
- Eu não posso te deixar ir, Cristal. Nunca. - Seu aperto se intensificou, uma manifestação física de seu controle sufocante sobre mim.
Ele não me deixaria ir. Mas estava construindo uma nova vida, uma nova família, com outra mulher. Meu estômago se revirou com uma mistura doentia de raiva e confusão. Alana era diferente. Ele realmente se importava com ela. Heitor, que sempre tratou as mulheres como descartáveis, era atencioso, até respeitoso, com Alana.
O caso de dois anos deles havia florescido, aparentemente, em algo estável, algo feliz. Ele permitia que ela se exibisse na minha frente e na de Luísa, uma provocação constante e sutil. Todas as noites, ele chegava em casa cheirando ao perfume dela, um aroma que se agarrava a ele como uma segunda pele.
Eu fingia não notar, não sentir o cheiro. Apenas suportava, esperando, desejando o dia em que ele se cansaria de mim. Ansiava que ele fosse quem pedisse o divórcio.
Por que, agora que Alana estava esperando um filho dele, ele ainda se agarrava a mim?
Lembrei-me da primeira vez que o conheci. Ele disse que me amava. Ele me perseguiu com uma determinação implacável, destruindo sistematicamente as finanças da minha família e a carreira de André, forçando-me a este casamento.
No dia em que André terminou comigo, ele chorou. Ele me disse que Heitor havia ameaçado sua família. Heitor estava lá, um sorriso vitorioso no rosto, puxando-me para seus braços.
- Você é minha, Cristal - ele sussurrou, seus olhos ardendo com um fogo possessivo. - Qualquer um que tentar te tirar de mim vai pagar o preço.
Eu vi o amor em seus olhos então, e a loucura. Se era assim que ele amava, pensei, então eu aceitaria meu destino.
Mas Alana era a exceção. Heitor a cobria de afeto, respeito e liberdade, tudo o que ele me negava. Ele só me enjaulou.
Ele parou de me amar há muito tempo. Eu tinha certeza disso.