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A Esposa, Sua Sentença de Morte

A Esposa, Sua Sentença de Morte

Autor:: Jing Yue Liu Guang
Gênero: Romance
Hoje era meu quinto aniversário de casamento. Foi também o dia em que um médico me disse que eu tinha, no máximo, três meses de vida. Meu único rim restante estava falhando, uma complicação da cirurgia onde doei meu outro rim para minha esposa, a Senadora Eleonora Vasconcelos. Então eu a vi, saindo do Congresso Nacional, e não estava sozinha. Estava com Henrique Castilho, seu namorado da faculdade, e ele a beijou, um beijo longo e profundo, bem ali, na escadaria. Mais tarde, Henrique me encontrou, oferecendo vinte e cinco milhões de reais para que eu desaparecesse. Ele me olhou com desprezo, como se eu fosse algo que ele tivesse raspado da sola do sapato. Lembrei de ter ouvido Eleonora dizer a Henrique: "Não é amor. É... gratidão. Uma responsabilidade." Meu amor era uma mercadoria, meu sacrifício uma transação. Uma dor aguda atravessou minha lateral. Meu celular vibrou. Uma mensagem de Henrique: uma foto dele e de Eleonora na minha cama, com a legenda: *Ela é minha agora. E sempre foi.* Eu era Júlio Barros, um garoto de orfanato, que a amou por dez anos, desde que salvei sua vida com meu rim. Pensei que a gratidão dela havia se transformado em amor. Eu fui um tolo. Meu telefone tocou. Era Eleonora, sua voz falsa, prometendo uma surpresa. Então ouvi a voz de Henrique e o som de um beijo. A linha ficou muda. Qualquer última e estúpida centelha de esperança que eu tinha morreu com aquilo.

Capítulo 1

Hoje era meu quinto aniversário de casamento. Foi também o dia em que um médico me disse que eu tinha, no máximo, três meses de vida.

Meu único rim restante estava falhando, uma complicação da cirurgia onde doei meu outro rim para minha esposa, a Senadora Eleonora Vasconcelos.

Então eu a vi, saindo do Congresso Nacional, e não estava sozinha. Estava com Henrique Castilho, seu namorado da faculdade, e ele a beijou, um beijo longo e profundo, bem ali, na escadaria.

Mais tarde, Henrique me encontrou, oferecendo vinte e cinco milhões de reais para que eu desaparecesse. Ele me olhou com desprezo, como se eu fosse algo que ele tivesse raspado da sola do sapato.

Lembrei de ter ouvido Eleonora dizer a Henrique: "Não é amor. É... gratidão. Uma responsabilidade." Meu amor era uma mercadoria, meu sacrifício uma transação.

Uma dor aguda atravessou minha lateral. Meu celular vibrou. Uma mensagem de Henrique: uma foto dele e de Eleonora na minha cama, com a legenda: *Ela é minha agora. E sempre foi.*

Eu era Júlio Barros, um garoto de orfanato, que a amou por dez anos, desde que salvei sua vida com meu rim. Pensei que a gratidão dela havia se transformado em amor. Eu fui um tolo.

Meu telefone tocou. Era Eleonora, sua voz falsa, prometendo uma surpresa.

Então ouvi a voz de Henrique e o som de um beijo. A linha ficou muda.

Qualquer última e estúpida centelha de esperança que eu tinha morreu com aquilo.

Capítulo 1

Hoje era meu quinto aniversário de casamento. Foi também o dia em que um médico me disse que eu tinha, no máximo, três meses de vida.

O único rim que me restava, aquele com o qual vivi por cinco anos, estava falhando. Era uma complicação da cirurgia. A cirurgia onde eu dei meu outro rim para a mulher que eu amava, minha esposa, a Senadora Eleonora Vasconcelos.

Eu estava sentado no meu carro, o laudo médico pousado como uma lápide no banco do passageiro. Eu havia desistido da minha arte, da minha paixão, por ela. Desisti da minha saúde. Pensei que era isso que o amor significava.

Então eu a vi. Ela estava saindo do Congresso Nacional, e não estava sozinha. Estava com Henrique Castilho, um lobista cuja família era tão poderosa quanto a dela. Ele era seu namorado da faculdade, o homem que todos achavam que ela deveria ter se casado.

Ele a puxou para perto, e ela não resistiu. Ele a beijou, um beijo possessivo, um beijo de quem demarca território, bem ali, na escadaria do Congresso.

Meu mundo se estilhaçou. A dor física na minha lateral não era nada comparada à dor no meu peito.

Mais tarde naquela noite, Henrique Castilho me encontrou no boteco que eu frequentava quando precisava pensar. Ele deslizou para o banco ao meu lado. Parecia perfeito, em seu terno sob medida, cheirando a colônia cara.

"Barros", disse ele, com a voz suave. "Eleonora se sente mal por você."

Ele deslizou um cheque pelo balcão. Era de vinte e cinco milhões de reais.

"Pegue isso", disse ele. "Desapareça. Deixe-a em paz. É o melhor para todos."

Ele me olhou com desprezo absoluto, como se eu fosse lixo que ele tivesse pisado na rua. A humilhação era uma coisa física, quente e sufocante.

Eu encarei o cheque, depois ele, minha mente um vórtex das palavras do médico e da imagem do beijo dele. Os anos de sacrifício passaram diante dos meus olhos. Não disse nada.

Henrique sorriu de lado, claramente se divertindo com meu silêncio atordoado. Ele o interpretou como a fraqueza de um homem derrotado.

"Vou te dar uma semana para pensar", disse ele, a voz escorrendo uma magnanimidade condescendente. "Mas não demore muito. Um homem na sua condição não tem muito tempo para indecisões."

Com um último olhar desdenhoso, ele pegou o cheque do balcão e o guardou de volta no bolso interno do paletó. A oferta havia sido feita; o símbolo do meu valor nulo foi guardado.

"Se eu não tiver notícias suas, vou assumir que é um 'não'", acrescentou ele, levantando-se e ajustando a gravata. "E as coisas vão ficar... bem desagradáveis."

Ele se afastou, me deixando com o fantasma de uma oferta de vinte e cinco milhões de reais e o gosto amargo da minha própria vida.

Eu ri, um som seco e vazio. Sacrifiquei minha carreira como artista, uma vida que eu amava, para apoiar suas ambições políticas. Dei a ela meu rim quando o dela falhou, ligando minha vida à dela da forma mais permanente que eu poderia imaginar. E este era o preço de tudo. Uma oferta para me apagar por vinte e cinco milhões de reais.

Minha mente divagou. Voltou para algumas semanas atrás, em uma gala política. Eu estava nas sombras, como de costume, enquanto Eleonora brilhava sob os holofotes. Eu não estava me sentindo bem, uma dor familiar pulsando na minha lateral. Fui para a varanda para tomar um ar.

Ouvi as vozes deles antes de vê-los. Eleonora e Henrique.

"Você não pode continuar torturando ele, Henrique", disse Eleonora. Sua voz estava tensa. "Ele me deu um rim. Eu devo a ele."

"Deve a ele?" A risada de Henrique foi cruel. "Você deu a ele cinco anos de uma vida que ele jamais poderia sonhar. Você não deve nada a ele. Você não o ama, Lili. Nunca amou."

Houve um longo silêncio. Prendi a respiração.

"Eu sei", ela finalmente sussurrou. As palavras foram baixas, mas me atingiram como um soco no estômago. "Não é amor. É... gratidão. Uma responsabilidade. Mas não posso simplesmente jogá-lo fora."

"Você tem que jogar", insistiu Henrique. "Ele é uma mancha na sua imagem. Um artista da classe trabalhadora. Meu Deus, o que seu pai estava pensando, deixando você se casar com ele?"

Gratidão. Não amor.

A memória se desvaneceu, e a realidade fria do bar voltou com tudo. Nos últimos cinco anos, eu fui um dever. Uma obrigação. Uma dívida a ser paga.

Meu celular vibrou. Uma mensagem de Henrique. Era uma foto. Ele e Eleonora, em nossa cama. A cabeça dela estava no ombro dele, e ambos sorriam. A legenda dizia: *Ela é minha agora. E sempre foi.*

Eu encarei a tela até a imagem borrar. Uma única lágrima escapou e rolou pelo meu rosto, quente e vergonhosa.

Eu a deixei cair.

Ela era uma Vasconcelos. Uma dinastia, como os Marinho. Eu era Júlio Barros, um garoto que cresceu em um orfanato. Nós nunca fomos feitos um para o outro.

Mas eu a amei por dez anos. Desde o dia em que eu, um artista esforçado, a encontrei desmaiada em uma rua chuvosa, seu corpo devastado pela dor de seus rins falhando. Eu a levei para o hospital. Quando disseram que ela precisava de um transplante, e que eu era compatível, não hesitei.

Eu dei a ela meu rim. Eu dei a ela minha vida.

Ela se recuperou. Estava tão grata. Segurou minha mão e disse que queria passar o resto da vida comigo.

Ela me pediu em casamento.

Pensei que sua gratidão havia se transformado em amor. Pensei que ela via a mim, Júlio, não apenas o homem que a salvou.

Eu fui um tolo.

Meu amor era uma mercadoria que ela usou e descartou. Meu sacrifício foi apenas uma transação.

Uma dor aguda e lancinante atravessou minha lateral, me fazendo ofegar. Estava acontecendo com mais frequência agora. Procurei no bolso o frasco de analgésicos que o médico me deu. Engoli dois a seco, esperando a dor latejante diminuir. Meu corpo era um relógio em contagem regressiva.

Meu telefone tocou. Era Eleonora.

"Júlio, querido", disse ela, a voz brilhante e alegre, completamente falsa. "Não vá para a cama ainda. Tenho uma surpresa para você quando chegar em casa. Um presentinho de aniversário."

A ironia era tão espessa que eu podia senti-la na boca.

Desliguei e liguei a pequena TV acima do bar. Um canal de notícias local estava passando. Lá estava ela, na tela, dando uma entrevista do lado de fora de um evento de caridade.

"Meu marido, Júlio, é minha rocha", disse ela para a câmera, um sorriso perfeito e ensaiado no rosto. "O apoio inabalável dele é a razão pela qual posso fazer o que faço. Sou a mulher mais sortuda do mundo."

A performance era impecável. O Brasil a amava. Eles viam uma líder brilhante e compassiva. Eu via uma estranha.

Senti um impulso súbito e desesperado. Uma última tentativa. Liguei para ela de volta.

"Eleonora", eu disse, minha voz rouca. "Você pode só... vir para casa? Agora?"

"Estou a caminho, querido. Só terminando aqui." A voz dela estava distante. Então, eu ouvi. A voz de um homem ao fundo, baixa e íntima. A voz de Henrique. E então, um som que fez meu estômago se contrair. O som de um beijo.

"Preciso ir, Júlio. Até logo."

Ela desligou.

A linha ficou muda. Qualquer última e estúpida centelha de esperança que eu tinha morreu com aquilo.

A dor na minha lateral explodiu, um fogo branco e ardente. Não era mais apenas o rim. Era tudo. A traição, as mentiras, os anos de amor desperdiçado. Dobrei-me, ofegando por ar, o mundo girando.

As palavras do médico ecoaram na minha cabeça. Falência renal. Terminal. Três meses.

Peguei meu celular, meus dedos tremendo. Enviei uma mensagem para Henrique Castilho.

*Eu aceito sua oferta. Quero o cheque. Hoje à noite.*

Capítulo 2

Os analgésicos finalmente fizeram efeito, me arrastando para um sono pesado e sem sonhos na superfície grudenta do bar. Quando cambaleei para casa horas depois, a casa estava escura. Desabei no sofá, exausto demais para chegar ao quarto.

Eleonora chegou por volta das 2 da manhã. Ela se moveu silenciosamente, uma sombra na luz da lua que se filtrava pelas grandes janelas. Ela me viu no sofá e se aproximou, puxando gentilmente um cobertor sobre mim.

"Júlio, você deveria ter ido para a cama", ela sussurrou, sua mão afastando o cabelo da minha testa.

Por um momento, o gesto pareceu real. Foi um eco doloroso de como ela costumava ser, de como eu pensei que ela era. Um lampejo de calor, rapidamente extinto pela verdade fria.

Ela sempre fora uma esposa perfeita na superfície. Lembrava-se das minhas comidas favoritas, comprava-me materiais de arte caros que eu não usava mais e sempre, sempre apresentava uma frente unida em público.

Ela era atenciosa. Ela era gentil. Ela era uma atriz brilhante.

Eu costumava pensar que esses pequenos gestos eram amor. Eu os valorizava, colecionava-os como tesouros. Agora eu sabia que eram apenas parte de sua performance. Pagamentos pela dívida que ela sentia que me devia.

A chegada de Henrique em nossas vidas havia estilhaçado a ilusão. Sua presença a fez derrubar a máscara, revelando o cálculo frio por baixo.

"Você está se sentindo bem?", ela perguntou, sua voz tingida com uma irritação fraca, quase imperceptível. "Você parece pálido."

Eu não abri os olhos. "Apenas cansado."

"Você não pode estar 'apenas cansado', Júlio", disse ela, seu tom endurecendo. "Temos o brunch com a imprensa amanhã. Você precisa parecer apresentável. Não dificulte as coisas."

Um aviso. Uma ordem. Continue com a farsa.

"Eu tenho seu presente de aniversário", disse ela, sua voz suavizando novamente, tentando soar doce. Ela deixou cair uma pequena caixa de veludo no meu peito. "Espero que goste."

Esperei até ouvir seus passos subindo as escadas antes de abrir os olhos. Peguei a caixa. Dentro, aninhado no veludo, havia um único brinco de diamante. Apenas um. Fiquei confuso por um segundo.

Então a porta da frente se abriu.

Henrique Castilho entrou como se fosse o dono do lugar.

E em seu lóbulo esquerdo, piscando na luz fraca, estava o pino de diamante correspondente.

O ar me faltou. O presente não era para mim. Era algo compartilhado entre eles. Eu estava recebendo a sobra, a peça de segunda mão. Um símbolo do meu lugar na vida dela. Um pensamento tardio.

Lembrei-me do dia do nosso casamento. Uma cerimônia pequena e tranquila no cartório. Ela me prometeu a eternidade. Ela prometeu me proteger. Agora ela estava me dando os restos de seu amante.

Uma onda de náusea me invadiu, e a dor na minha lateral voltou com força total.

"Ora, ora, veja o que temos aqui", disse Henrique, caminhando até o sofá. Ele parou sobre mim, um sorriso presunçoso no rosto. Ele acenou para a cozinha. "Eleonora diz que você faz um omelete fantástico. Estou com um pouco de fome."

Ele estava desempenhando o papel do homem da casa. Da minha casa.

"Não", eu disse, minha voz mal um sussurro.

O sorriso de Henrique se alargou. Ele se virou para Eleonora, que havia descido novamente. "Lili, querida, seu marido está sendo rude. Eu só pedi uma coisinha para comer." Ele fez beicinho, um gesto infantil e manipulador.

O rosto de Eleonora endureceu enquanto ela olhava para mim.

"Júlio, não seja infantil", ela retrucou. "Henrique é nosso convidado. Vá fazer um omelete para ele."

A ordem era absoluta. O olhar em seus olhos me disse que não havia espaço para discussão. Ela havia escolhido. Ela sempre o escolheria.

Senti um cansaço profundo se instalar em meus ossos. Estava cansado de lutar, cansado da dor, cansado da humilhação.

Lentamente, levantei-me do sofá e fui para a cozinha. Minhas mãos tremiam enquanto eu pegava os ovos e a frigideira. Eu me sentia como um servo em minha própria casa.

Enquanto eu cozinhava, minha mão escorregou. A frigideira quente bateu no fogão, espirrando óleo escaldante por todo o meu braço. Eu gritei, um grito agudo de dor.

Eleonora e Henrique entraram correndo.

Mas Eleonora passou por mim. Ela foi direto para Henrique, suas mãos esvoaçando sobre ele.

"Henrique, você está bem? Você se queimou?", ela perguntou, sua voz cheia de pânico.

Henrique, que estava a vários metros de distância e completamente ileso, agarrou o braço dramaticamente. "Acho que um pouco espirrou em mim, Lili. Está ardendo."

Ela nem sequer olhou para mim. Não viu a pele vermelha e empolada no meu braço. Não viu a dor em meus olhos.

Ela se preocupou com Henrique, de costas para mim, mimando e verificando seu braço perfeitamente bem. "Oh, meu pobrezinho. Vamos colocar um pouco de gelo nisso."

Ela o levou para fora da cozinha, o braço em volta da cintura dele, guiando-o como se ele fosse o único que estava realmente ferido.

Fui deixado sozinho, de pé no meio da cozinha, meu braço queimado latejando. O cheiro de ovos queimados enchia o ar.

Lembrei-me de sua promessa, sussurrada em um quarto de hospital anos atrás. *Eu sempre vou te proteger, Júlio. Sempre.*

A memória era apenas mais uma mentira.

Capítulo 3

Dirigi até uma UPA 24 horas. As luzes fluorescentes eram duras, fazendo o mundo parecer cru e feio. A queimadura no meu braço era feia, uma mancha vermelha desagradável já formando bolhas.

A enfermeira que me atendeu foi gentil. Ela estalou a língua enquanto limpava a ferida.

"Essa foi feia", disse ela. "Sua esposa deve estar morrendo de preocupação."

"Ela tinha uma reunião cedo", menti, as palavras com gosto de cinzas. "Ela não pôde vir."

A enfermeira me deu um olhar simpático. Ela não acreditou em mim, mas era profissional demais para dizer algo.

Enquanto ela enfaixava meu braço com gaze, eu os ouvi. Suas vozes vinham do corredor. Eleonora e Henrique. Devem tê-lo trazido aqui por causa de sua "terrível queimadura".

"É só uma marquinha vermelha, Henrique", dizia Eleonora, seu tom uma mistura de exasperação e afeto. "Você é um bebê chorão."

"Mas dói, Lili", ele choramingou. "Dá um beijinho pra sarar."

Lili. Um apelido. Em dez anos, ela nunca me chamou de nada além de Júlio. Nunca um termo de carinho. Nenhuma vez.

A queimadura no meu braço não era nada comparada à dor excruciante que me atravessou então. Eu era um tolo. Um completo e absoluto tolo. Eu havia construído minha vida sobre a fundação da gratidão de uma mulher, confundindo-a com um palácio de amor. Era apenas uma cabana, e as paredes estavam desmoronando.

Eu não merecia o amor dela. Essa era a verdade fria e dura. Eu não era do mundo dela. Não era feito do mesmo material.

Não consegui encará-los. Murmurei meus agradecimentos à enfermeira, paguei em dinheiro e fugi da clínica, meu braço latejando, meu coração em pedaços.

Quando cheguei em casa, Eleonora estava me esperando, de braços cruzados, o rosto uma máscara de raiva.

"Onde você esteve?", ela exigiu.

"Na UPA", eu disse, levantando meu braço enfaixado.

Seus olhos piscaram para a gaze, e por uma fração de segundo, eu vi algo - um lampejo de culpa, talvez. Desapareceu tão rápido quanto apareceu.

"O braço do Henrique mal estava vermelho", eu disse, a amargura afiada na minha voz. "Mas você correu com ele para o hospital."

"Pare com isso, Júlio!", ela retrucou. "Você está só fazendo birra. Henrique é sensível! Ele não é como você. Ele é importante para mim, e é importante para a minha carreira. Você precisa entender isso e ser gentil."

Ela estava me dizendo para aceitar o caso dela. Para ser um marido bom e compreensivo enquanto ela dormia com outro homem. Para colocar as necessidades dela, a carreira dela, o amante dela, antes da minha própria dignidade.

Meus olhos arderam, mas me recusei a chorar na frente dela.

Eu estava olhando para a mulher que amava, a mulher para quem eu havia dado tudo, e finalmente a estava vendo. Fria. Calculista. Egoísta. Ela não era o anjo que eu havia imaginado. Era apenas uma política.

"Em breve", sussurrei, tão baixo que não tinha certeza se havia dito em voz alta. "Em breve, estarei livre."

"O que foi que você disse?", ela perguntou, distraída.

"Nada."

Ela suspirou, a raiva se esvaindo, substituída por um cansaço performático. "Olha, me desculpe. Vamos para a casa de praia amanhã. Só nós dois. Podemos relaxar."

No dia seguinte, na casa de praia em Angra dos Reis, o "nós dois" incluía Henrique.

Ele e Eleonora estavam brincando nas ondas, rindo, agindo como um casal em lua de mel. Eu sentei na areia, um livro no colo que não conseguia ler. Eu não sabia nadar, um fato que Eleonora conhecia bem. Era outra maneira de me excluir, de me deixar à margem da vida perfeita deles.

Eles eram um par perfeito. Dourados, lindos e cruéis.

Eleonora recebeu uma ligação e subiu a praia para atendê-la, me deixando sozinho com ele. Henrique saiu da água, a água escorrendo de seu corpo perfeitamente esculpido.

"Se sentindo excluído, Barros?", ele zombou, sentando-se na areia ao meu lado. "Não se preocupe. Eu te ensino a nadar."

Antes que eu pudesse reagir, ele me agarrou. Ele era surpreendentemente forte. Ele me arrastou para a água, ignorando minhas tentativas de me soltar.

"Relaxa", ele sibilou no meu ouvido. "É fácil."

Então ele afundou minha cabeça na água.

O pânico me dominou. A água encheu meu nariz, minha boca. Meus pulmões ardiam. Eu me debati descontroladamente, mas sua mão era como um torno na parte de trás do meu pescoço. O mundo ficou escuro e silencioso.

Justo quando pensei que ia morrer, ele me puxou para cima. Eu tossi e engasguei, ofegando por ar.

Ele estava rindo. "Viu? Não é tão difícil."

Ele me afundou de novo. A queimação, o pânico, a escuridão. Ele estava brincando comigo. Me afogando lentamente.

Ele me puxou para cima novamente, seu rosto a centímetros do meu. "Você realmente acha que ela se importa se você vive ou morre?", ele sussurrou, sua voz cheia de veneno. "Ela está aliviada. Você é um fardo do qual ela pode finalmente se livrar."

Uma parte de mim, uma parte estúpida e teimosa, se recusou a acreditar nele. Ela não podia ser tão cruel. Não podia.

"Vamos descobrir", disse Henrique, como se lesse minha mente. Ele sorriu, um sorriso verdadeiramente maligno. "Vamos apenas esperar e ver."

Ele me segurou ali, minha cabeça logo acima da água agitada, enquanto esperávamos Eleonora terminar sua ligação.

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