Sem dúvida dormir 6 horas por dia, havia deixado de ser suficiente a bastante tempo, já que com o tempo percebi que era uma pessoa noturna, trocando facilmente o dia pela noite.
Mas isto não aconteceu por opção, mas sim por necessidade.
Desligo o despertador do celular que toca pontualmente todos os dias às 7 da noite, com os olhos semicerrados.
Afundando meu rosto no travesseiro, respiro fundo, lutando contra a vontade de voltar a dormir, saindo aos poucos da cama.
Ainda sonolenta, pego minha toalha e vou para o banheiro no corredor, ouvindo o som da televisão vindo da sala. O banho sempre era responsável em me acordar parcialmente, depois café.
Sentada no sofá velho que tinha na sala, Tati prestava atenção em uma novela.
- Tem café pronto - diz quando passo pela sala, entrando na cozinha.
Em cima da mesa redonda, estava a garrafa de café bege. Pegando um copo no armário pequeno, me sirvo um pouco de café, pegando bolachas de água e sal em um pote.
Aqueles eram o único momento de paz que tinha, antes de sair e apreciava cada minuto.
Voltando para meu quarto, pego a bolsa, celular e fone de ouvido, passando por Tati novamente.
- Tchau, né? - diz com uma perna peito do peito, enquanto pintava as unhas do pé~.
- Tchau - respondo sem olhá-la, saindo do apartamento de quatro andares, cedido pelo governo.
Com os fones no ouvido, começo minha caminhada até a guarita, que rendia alguns metros.
Há cerca de três anos, aquela era minha rotina e já não tinha vida social, tendo o único assunto com pessoas próximas drinks.
Já me considerava quase expert em drinks, já que a agilidade contava muito e isso adquiri com a prática.
Morava em Paraisópolis desde criança, acabando por esquecer que existia algo a mais além da comunidade. Contudo, muitas vezes o que via enquanto trabalhava, me fazia querer não conhecer o que existia além da comunidade.
Para chegar na boate em que trabalhava, precisava pegar dois ônibus. Fora o tempo que ficava no terminal, esperando o segundo ônibus.
No centro de São Paulo, ainda precisava andar mais um pouco até a boate Le Reve Club. Era uma casa noturna de músicas eletrônicas que toca hits antigos, com 3 salas temáticas e comida gourmet em um amplo local constituído por dois andares.
O local era bem requisitado e frequentado, devido as salas temáticas e a impressão de imersão na magia.
Depois de me vestir e cumprimentar alguns colegas de trabalho, vou para meu posto, verificando se estava tudo em ordem no bar.
Não percebendo quando tenho companhia.
- Oi, parceira - diz Rodrigo, no momento em que me dá um beijo no rosto, me surpreendendo, conseguindo dessa forma um sorriso inesperado.
- Oi - Olho rapidamente ao redor, antes de dar um beijo rápido nele.
Rodrigo poderia ser facilmente catalogado como hétero top, graças ao seu comportamento e suas vestimentas específicas. Seu visual ao mesmo tempo que era despojado, transmitia uma certa "fantasia de estar no top" e mesmo com tudo que o compunha, ainda me vi apaixonada por ele e senti sendo correspondida, mesmo não sendo o padrão ideal dele.
Era o contrário do que ele queria. Não era loira, muito menos alta e não tinha olhos azuis ou verdes. Tinha míseros 1.55, minha pele era parda, meu cabelo ondulado e meus olhos castanhos.
Rodrigo era exatamente o que ele queria. Só que no sexo masculino.
- Tudo certo por aqui? - Ele pergunta, olhando as prateleiras de vidro preenchidas por diversas garrafas.
Trabalhávamos juntos com a condição de manter o profissionalismo. Caso contrário, se notassem que estávamos sendo inadequados, com certeza eu poderia perder facilmente meu emprego.
- Já chequei tudo - digo, observando-o se movimentar pelo espaço, olhando com atenção tudo o que eu já havia visto.
Namorávamos a quase um ano. Já havia conhecido a mãe dele por acaso e a irmã de dez anos, mas ainda não havia tido coragem de levá-lo até a comunidade e ver estampado em seu rosto que aquele não era o tipo de lugar que ele estava habituado.
- Você ainda não me deu uma resposta - diz ele de repente, me fazendo piscar.
- Sobre...?
- Sobre o que estávamos falando ontem - Pego meu celular, abrindo o aplicativo de mensagem, refrescando minha memória.
E é claro que ele simplesmente não desistiria de conhecer meus pais, sendo o bom homem no qual havia sido ensinado.
- Eles são muito ocupados.
Ele me olha com um meio sorriso no rosto.
- Não é possível que eles não tenham meia hora - diz encurtando o espaço entre nós - Meia hora, Bruna.
Desvio meu olhar para o vazio, assentindo relutante.
- Vou falar com eles. De novo.
Com uma mão em meu braço, o afaga até o cotovelo.
- Pode dizer à eles que não vão se arrepender - Dito isto, ele se vira, pronto para começar o expediente.
No lugar que eu morava, infelismente, pessoas como Rodrigo, não eram muito bem vistas. Ainda eram taxados de riquinhos e envolvia um certo "preconceito". Para as pessoas que me conheciam, que me viram crescer, ver ele ao meu lado, com certeza as faria pensar que ele só estava ali para me usar de alguma forma e que na verdade, ele deveria ter uma loira escondida por aí.
Uma série de questões como essa já haviam passado diversas vezes em minha cabeça, conseguindo dessa forma contribuir com o fato de não me sentia boa o suficiente para Rodrigo.
Muitas vezes me pegava olhando para Rodrigo e não tinha como não sentir que não nos encaixávamos. Era como se não fossemos um para o outro ou algo do tipo, simplesmente a conclusão que tinha, era que Rodrigo, não era para mim.
Mesmo com todas essas inseguranças, fingir ser a pessoa mais segura do mundo.
Nosso expediente começou instantes mais tarde, quando os primeiros clientes começaram a chegar e em menos de uma hora, todo o lugar era um grande movimento constante de pessoas bebendo, conversando e se divertindo.
Até que era bom, estar em meio a tantas pessoas, me fazia esquecer dos problemas que havia fora dali. Muitas vezes as pessoas que chegavam no bar, eram simpáticas e tinham as conversas mais breves interessantes que já vi na vida.
Algumas delas, tinham o poder de contar sua vida em poucos minutos, o tempo o suficiente na preparação de um drink ou enquanto esperavam alguém sair do banheiro.
A minoria, apenas pedia um drink e o tomavam em silêncio, evitando trocar palavras mais do que necessário.
Eram noites sempre agitadas e longe da monotonia.
A maioria das pessoas que chegavam assim que a boate abria, permaneci até o fechamento ás 5 da manhã. E após o fechamento, o segundo turno começava.
Era quando começava a limpeza geral.
Apenas por volta das 7 da manhã, que deixava a boate com Rodrigo e como de costume, tomávamos café da manhã em uma lanchonete não muito longe dali.
- Já sabe o que vamos fazer na minha folga? - pergunto, tomando um copo do café com leite no copo americano.
Ele dá de ombros, usando o guardanapo de papel para pegar o misto quente cortado em diagonal.
- Ando tão cansado que a única coisa que penso em fazer, é dormir.
Dormíamos menos do que gostaríamos, passávamos um determinado tempo juntos, entretanto, da forma mais profissional possível e a única coisa que queria na minha folga, diferente dele, era ser um casal com ele.
Termino meu café da manhã, alternando minha atenção para a tv no suporte, onde o jornal passava as últimas notícias.
- Mas se quiser, podemos fazer alguma coisa - diz ele de repente, afagando meu joelho. Forço um meio sorriso, abrindo minha bolsa, pegando a quantia que havia dado meu café da manhã - O que acha?
O sexo com Rodrigo não era ruim, mais também não queria apenas transar em todas as folgas. Queria fazer algo mais.
- Vamos ver até lá - Ele aperta novamente meu joelho.
No momento em que pago minha conta e Rodrigo faz o mesmo, se preparando para deixar o local, somos surpreendidos.
- Oi, casal - diz Nádia de repente, se colocando entre nós dois - Vi vocês quando estava saindo. Já estão de saída?
- Já sim - Rodrigo responde de forma simpática.
Nádia trabalha também na boate, entretanto servindo mesas. Não tínhamos muita intimidade, contudo o meio social era o mesmo.
Suas características lembravam claramente características asiáticas, inclusive até seu comportamento contido.
- Seria pedir muito uma carona?
- Claro que não - Rodrigo mal pensa - Não é, Bruna?
- Não vou poder ir com vocês, ainda vou ter que ir em um lugar.
- Ah, que pena - diz Nádia, voltando a olhar para Rodrigo.
- Vamos lá então? - Ela assenti de imediato - Nos falamos depois - diz ao se virar para mim, me dando um beijo rápido.
Sorrio sem mostrar os dentes, os acompanhando até o lado de fora da lanchonete, não ficando para observá-los entrar no HB20 preto.
Rodrigo nunca havia me levado em casa, mesmo com os pedidos dele. O máximo que já o deixei fazer, foi me levar até um determinado ponto no qual dizia ser perto, mas que na verdade, estava mais do que longe.
No ponto de ônibus, espero impaciente o ônibus que precisava para ir para o terminal. Quando finalmente chega meia hora depois, me sento no fundo, colocando meus fones.
Aquela parte da manhã, não era muito movimentada, o que fazia com que o percurso fosse mais calmo. No terminal, o segundo ônibus já estava parado, o que me poupou tempo de espera.
Quando entrei no condomínio em que morava, o sono já começava a se intensificar e pelo horário, já sabia que estaria sozinha em casa. Então depois de um banho e vestir meu pijama, finalmente teria o sono dos justos.
Que naquele dia, não durou muito.
- Bruna! Bruna - A voz insistente de Tati não demora para me acordar, assim como meu corpo sendo sacudido quase rudemente.
Forço meus olhos se abrirem, pegando o celular, acreditando que já havia passado a hora de levantar. Entretanto, ainda faltava três horas para o despertador tocar.
- O que foi? - pergunto sonolenta, sentando na cama.
Na minha frente com as mãos na cintura, Tati me olha, ainda com o uniforme do mercado em que trabalhava.
- Você tem que ir embora daqui.
- Por quê?
- Seu pai vai ser solto amanhã.
Foi necessário apenas aquelas seis palavras para me acordar de vez e trazer como consequência uma ritimia.
Meu pai fora da prisão, era sem dúvida era a retomada de um pesadelo, no qual não tinha chance alguma de sair sem alguma sequela.
Era o que ele fazia de melhor, causar dor, de todas as formas possível e imagináveis, apenas para se sentir bem consigo mesmo.
Meu irmão, André, sempre foi mais esperto, então na primeira oportunidade que teve, fugiu de casa, me deixando para trás.
A situação piorou com a ausência dele, não muito, graças a Tati que me "protegia", fazendo o papel de mãe que era obrigatoriamente da minha mãe, claro, se ela não tivesse nos abandonado, casado novamente com outro homem e tido mais dois filhos.
Talvez na cabeça dela, deixar duas crianças ainda de menor com uma pessoa evidentemente agressiva e imprudente, parecia ser a melhor escolha, já que no final das contas, era nosso pai.
Mas ela só ajudou ele a criar cicatrizes, tanto em mim, quanto em André.
Depois que ele foi preso cerca de onze anos atrás por causa de droga, acreditei que nunca mais o veria se não fosse atrás das grades. Só que pelo jeito, estava muito enganada.
- Ele vai ficar em condicional - Ela continua - E acho que não vai querer estar aqui.
Claro que não.
- Pra onde eu vou? - murmuro, fixando o olhar no vazio.
- Você não pode ir pra casa de uma amiga?
A única amiga que eu tinha era a Rita e coincidentemente morava com André.
Saio da cama de beliche, indo até o guarda-roupa, onde coloco o máximo de roupas possíveis dentro de uma mochila, deixando para trocar de roupa por último.
- Você sabe que não queria que fosse embora, não é? - diz Tati, sentada na cama de baixo da beliche - Só que se você ficar aqui, não sei nem o que ele é...capaz de fazer.
Tati não estava em posição de madrasta má, pelo contrário, ela foi a melhor coisa que nos aconteceu, quatro anos depois que minha mãe foi embora. Cuidou de nós como se fossemos seus filhos, fez tudo que uma mãe deveria fazer.
E pelo menos eu era grata por isso.
Muitas vezes, para não deixar que apanhássemos, entrava na frente e levava no nosso lugar e no outro dia ainda cuidava de nós com um sorriso no rosto.
O que ela estava fazendo ali, novamente, era apenas me protegendo da pessoa que tinha o dever também de cuidar de mim.
- Vou dar um jeito - murmuro.
- Precisa de dinheiro?
- Não.
- Bruna - Insiste.
Olho para ela no mesmo instante.
- Tenho dinheiro.
Termino de arrumar minhas coisas e sem me despedir, saio de casa.
A medida que andava para fora do condomínio, listava mentalmente os lugares que poderia ficar e a casa de Rodrigo, estava fora de questão.
Não sabia como explicar o motivo pelo qual teria que sair de casa, sem ele não fazer mais perguntas.
Ficar num hotel ou numa pousada, faria com que eu gastasse mais do que deveria, o que sobrou apenas, a casa de André que, ficava numa distância considerável de onde eu morava.
Praticamente André morava no coração de Paraisópolis.
Precisei pegar um ônibus para encurtar o espaço, tendo que dividir o coletivo com alunos de uma escola ali mesmo na comunidade.
Depois que André saiu de casa, só o visitei duas vezes e esperava que ele ainda morasse no mesmo lugar.
Paro em frente a uma casa amarela de dois andares com portão vazado de ferro, batendo palma o mais alto possível.
As luzes no interior da casa, estava ligada e não demorou para que uma figura feminina, aparecesse na janela.
- Bruna? - diz Rita não acreditando, saindo rapidamente da janela e abrindo a porta - Por que não disse que estava vindo?
- Queria fazer uma surpresa.
Rita destranca o portão.
- Tá tudo bem? - pergunta num tom preocupado.
Dou de ombros.
- Não muito. André tá em casa?
- Ele só chega mais tarde. Mas entra aí - Obedeço, contente por pelo menos ser convidada para entrar.
Apesar da casa por fora não parecer muito luxuosa, por dentro tinha objetos caros espalhados por toda parte, começando pela televisão de 50 polegadas.
- Tá na cara que aconteceu alguma coisa e você não quer contar - Ela continua.
- Meu pai sai da cadeia amanhã e preciso de um lugar pra ficar - digo o mais direta possível.
Na cozinha, Rita se move de um lado para o outro, terminando de preparar a janta.
- Pensei que nunca mais ele iria sair da cadeia - murmura, lavando alguns utensílios que havia usado.
- Parece que não tinham motivos o suficiente para manter ele lá - Suspiro.
- Por mim, você pode ficar.
- E o André? - Ela se vira para mim.
- Ele nem passa muito tempo em casa. Além do mais, você é irmã dele.
Contudo já fazia algum tempo que não tínhamos uma certa aproximação. E eu até sentia falta disso.
Acabou que Rita cedeu o quarto de hóspedes, que ainda estava sem cama e guarda-roupa. Mas para uma pessoa que só precisava de um lugar para dormir, o colchão de solteiro que ela pegou emprestado com a vizinha até o dia seguinte, ajudou bastante.
Depois de jantar com ela, saio da casa em direção ao ponto de ônibus, recalculando mentalmente o tempo que gastaria para chegar na boate.
E para meu azar, chegaria atrasada.
A maioria dos funcionários já haviam chegado, quando entrei rapidamente na boate pela parte dos fundos, indo direto para o vestiário.
Substituo as roupas que estava vestindo rapidamente pelo uniforme preto, prendendo o cabelo num rabo-de-cavalo enquanto saia de um dos reservados.
Rodrigo ao me ver se aproximar, gesticula.
- O que aconteceu? - pergunta.
- Tive um imprevisto.
- Está tudo bem?
- Está - Dou de ombros - Só foi um imprevisto.
Por um breve momento, ele me olha, tentando me decifrar, antes de voltar para o que estava fazendo. Faço o mesmo, me obrigando a ocupar minha mente.
Horas depois quando a boate abre, o lugar não demora para encher. Pessoas transitam de um lado para o outro, alternando em dançar e cumprimentar conhecidos.
Ao meu lado, Rodrigo oferecia seu melhor serviço, sempre para mulheres, já que faziam questão de ser atendidas por ele e ele como um bom funcionário, aceitava as cantadas e o modo sedutor que o olhavam.
Isso não significava que eu não recebia cantadas as vezes, recebia. Tanto de homens, quanto de mulheres, lidando da melhor forma possível.
Boa parte das pessoas quando faziam isso, já estavam um pouco alcoolizadas e o máximo que eu podia fazer ou era ignorar ou fingir que era algo normal.
Mas em como todos os casos, sempre existia aquele que queria ultrapassar os limites, que me esperava do lado de fora da boate, para tentar realmente alguma coisa e era estes casos que me assustava. Pois haviam homens, que confundiam facilmente o fato de ser bem recepcionados, com um flerte.
Umas das garçonetes havia sido assediada por um dos clientes em meio a outras pessoas que, indignadas com a situação, a apoiaram em levar o caso para a polícia. A principio a garçonete se negou, já que não queria por seu emprego em risco, por ter uma filha pequena e a mãe doente dependente dela, mas devida a tanta pressão, acabou aceitando e como no país onde moramos nada faz sentido, foi demitida pouco tempo depois.
- Vou no banheiro - murmuro perto do ouvido de Rodrigo, quando já não estava mais aguentando minha bexiga.
Ele simplesmente assenti, voltando a atender a cliente em sua frente.
Saio do bar com o destino ao banheiro, precisando desviar de algumas pessoas no caminho. Levo alguns esbarrões no caminho e longos olhares, até ser parada abruptamente por alguém que segura meu braço com força.
- O que você tá fazendo aqui, Malu? - Viro automáticamente para o homem que segurava meu baço, sustentando seu olhar.
Franzo o cenho com um leve sorriso no rosto, balançando a cabeça, antes de puxar gentilmente meu braço e dar as costas.
Ele volta a segurar meu braço, dessa vez, me puxando para trás.
- Vai me ignorar mesmo? - Sua voz era suave em meio a música alta, entretanto, firme, com um pingo de raiva no final.
Me viro novamente, o olhando com atenção.
Era um homem alto, alguns centímetros mais alto que Rodrigo. Pele negra, olhos verdes-escuros e cabeça raspada.
Seu porte físico não demonstrava que fazia exercícios, entretanto dava para perceber seus bíceps apertados na manga da camisa polo azul marinho.
Uma aliança prateada brilhava na mão direita que apertava meu braço.
Volto a olhar para seus olhos verdes, mexendo na ponta do meu nariz.
- Você está me confundindo com outra pessoa! - grito por cima da música. Ele estreita os olhos, ainda não acreditando - Meu nome é Bruna - finalizo.
É apenas quando ele me olha com atenção, que a mão afrouxa em meu braço.
Se inclinando em minha direção, aproxima a boca do meu ouvido.
- Você se parece muito com uma pessoa que conheço - diz controlando o tom de voz - Poderiam até ser gêmeas - Ele dá um passo para trás, me olhando.
Ergo as sobrancelhas, sem entender exatamente o rumo que aquela conversa estava tomando.
- Já tenho um gêmeo - digo com um leve sorriso no rosto, antes de girar o tronco e finalmente ir para o banheiro.
De volta para o bar, em meio a todas as pessoas que estavam ali, meu olhar se cruza coincidentemente com o homem misterioso.
Fingindo toda a naturalidade do mundo, continuo meu trabalho. Até que ao terminar de fazer um drink e me virar, me deparo com o homem misterioso, sentado de frente para mim.
- Quer alguma bebida? - pergunto me aproximando do balcão.
Ele ergue o copo ainda pela metade.
Assinto, voltando minha atenção para a mulher ao lado.
- Trabalha há muito tempo aqui? - Ele pergunta de repente.
- Três anos - digo sem parar o que estava fazendo.
- E como nunca vi você?
Dou de ombros.
- Não faço ideia.
Ele olha ao redor.
- É sempre assim?
- Na maioria das vezes - Se ele costumava frequentar a boate, com certeza já sabia disso, mas preferia puxar assunto da forma mais aleatória possível.
- Mora por aqui por perto? - Ergo um dos cantos da boca, já tendo uma noção do rumo que aquela conversa estava tendo.
Franzo os lábios, os movendo de um lado para o outro.
- Já entendi - diz ele, baixando a cabeça para sorrir - Fui invasivo.
Rodrigo se aproxima, com um meio sorriso no rosto.
- Tudo bem por aqui?
- Tudo sim - Ele responde, dividindo sua atenção por míseros segundos com Rodrigo, antes de voltar a olhar para mim.
- Posso preparar alguma bebida?
- Ela já está me atendendo - diz apontando o queixo na minha direção.
Rodrigo assenti, antes de se afastar.
- Gostei de você, Bruna - Ele continua, os olhos brilhando na luz difusa.
- Você nem me conhece.
- Não preciso conhecer muito as pessoas. Minha intuição me ajuda com o julgamento.
Ergo uma sobrancelha.
Então ele era do tipo que julgava em silêncio.
- Como eu disse antes, você se parece muito com uma pessoa que conheço - Ele me analisa - Ela ficaria chocada em saber que tem uma pessoa igual a ela, andando por aí.
Qual a porcentagem de tal coisa acontecer? Acreditava que bem pouca, já que não conhecia muitos casos como aquele que ele mencionava. Mesmo assim, a pergunta pairava no ar.
Quem é Malu?
Uma irmã?
Prima?
Filha...?
Claro, seria estranho demais se perguntasse e ele poderia enxergar aquela simples pergunta, como um cartão verde para o que fosse que estivesse pensando.
Quando um grupo de pessoas se aproxima do bar, agradeço mentalmente por encerrar aquela conversa e quando percebo, ele já não estava mais, o que acabou sendo um alívio.
Por não ter dormido o suficiente, antes mesmo do turno acabar, já estava completamente bêbada de sono e contando os minutos para fecharem a boate.
Rodrigo me esperava do lado de fora da boate, depois do fim do turno, olhando alguma coisa no celular.
Me aproximo bocejando, gostando dos primeiros raios de sol da manhã contra meu rosto.
- Quer ir lá pra casa? - Ele pergunta, guardando o celular - Provavelmente não tem ninguém em casa e vamos ter a casa só pra gente.
Na maioria das vezes, era o que fazíamos.
Não havia outros planos a não ser ir para a casa de Rodrigo, passar o dia trancado em seu quarto, até chegar a hora de eu ir para a boate e o deixar em casa, curtindo o restante da folga dele.
Contudo, naquela manhã, passar o dia na cama dele, me soou bastante atraente, então não recusei.
Rodrigo não era rico, pelo contrário, sua mãe era professora e seu pai contador. Não eram ricos e nem pobres, estavam no meio, já que viajavam pelo menos todo ano, tinham um carro comum e previlegios.
Moravam numa parte afastada do centro, que diferente de Paraisópolis era bem vista por todos os moradores, graças a segurança que o local transmitia.
A casa era grande, espaçosa, bem construída; além de ser decorada do jeito que a mãe de Rodrigo queria.
Ela nunca mandou o filho me chamar para um almoço ou algo do tipo. Isto fazia eu acreditar que talvez, ela soubesse que eu não era exatamente a pessoa que mostrava ser.
Assim que entramos na garagem, deixo meus sapatos do lado de fora da casa, temendo sujar o chão impecavelmente limpo.
Como imaginava, a casa estava limpa e arrumada, não havia um prato se quer na cozinha americana ou uma almofada fora do lugar.
As vezes me pegava pensando se eles deviam ter alguém para limpar a casa, uma diarista, como costumavam dizer. Me continha em perguntar isso para Rodrigo, temendo ouvir que uma Jussara ou Cleide, limpava a casa três vezes na semana e que tinha que se locomover de Paraisópolis até ali. E dito isto, logo falaria em como a comunidade só gerava criminosos e em como sua extinção, seria gratificante.
Com certeza falar sobre Paraisópolis, o lugar em que cresci, vendo de perto em como as pessoas lutavam para sobreviver, não era o tipo de assunto que queria debater com ele.
O quarto de Rodrigo era o último do corredor, já conhecendo o caminho, entro no cômodo, sendo recebida pela bagunça costumeira.
Na cama ainda por fazer, me deito, respirando fundo com os olhos fechados, sentindo em seguida o colchão ao lado afundar e a boca de Rodrigo contra a minha.
Sua língua não demora para invadir minha boca, procurando pela minha, enquanto suas mãos, automaticamente deslizam para dentro da minha calça jeans.
Gemo baixo quando finalmente ele encontra meu clitóris, o estimulando lentamente.
Sexo antes depois de uma noite cansativa e antes de dormir, era o que eu precisava, então estava mais do que convidativa, já que não demorou para sentir os dedos dele deslizando para dentro de mim.
Sempre fui bastante exigente e mente aberta em relação a sexo. Com poucos dias namorando Rodrigo, fui bastante direta e clara, ao dizer que sem preliminares bem feita, não teria como ter qualquer tipo de relação sexual com ele.
Gostava de sentir meu corpo sendo incendiado aos poucos, juntamente com o prazer que em determinado ponto, começava a emanar de meus poros, fazendo assim com que me desconectasse do mundo ao redor e me conectasse com ele, esquecendo completamente que existia pessoas além de nós no mundo.
Era isso que o sexo era para mim. Uma conexão. E também por isso, que nunca fui de fazer sexo com qualquer pessoa, pois acreditava que trocava energias e não era todo tipo de energia que era boa.
Jogo minha cabeça para trás, quando os dedos colocam um certo ritmo, me fazendo esquecer aos poucos de tudo ao meu redor.
Rodrigo era bom com seus dedos, algo que compensava muito bem o fato de não fazer oral.
Segundo ele, não era muito higiênico e se podia pegar facilmente uma doença.
Resumindo, ele não gostava e também não fazia.
Muitas vezes fantasiei seus lábios rosados, meramente cheios, me chupando completamente. Sugando minha lumbrificação a ponto de me deixar sem fôlego, só que não passava de fantasias que nunca iriam se realizar.
Outra coisa que ainda precisávamos lidar, era com a limitação de posições. Rodrigo gostava de papai e mamãe e, no máximo de ladinho.
Em sua mente parecia não haver algo além dessas duas posições e isto me frustrava. Incontáveis vezes, tentei desbloquear isso nele, mas a resposta que tinha, era que não conseguia atingir o orgasmo de outro jeito.
Enfim, ele era bonito, sabia como fazer uma mulher gozar apenas com os dedos, só que só se limitava a isso. Não saia da própria bolha que havia criado ao redor dele.
Perto de gozar, simplesmente ele para, tirando minha calça jeans o mais rápido que podia e indo até o guarda-roupa, cujas roupas estavam todas bagunçadas.
Em meio a bagunça, ele tira um preservativo com cheiro de morando e o veste no pênis mediano, se adiantando em se colocar em meio as minhas pernas, sem ao menos tirar minha blusa ou a blusa dele.
Quando seu pênis entra dentro de mim, não sinto dor, o prazer volta a se instalar dentro de mim e impaciente, começo a me mover contra a pélvis dele, desejando que me fizesse gozar logo. Um pouco sem jeito, ele se move, com cada mão ao lado do meu corpo, evitando de aproximar nossos corpos suados.
Mantenho contato visual, mordendo o lábio inferior, tentando ver no rosto dele, uma expressão que me deixasse mais excitada.
Só que não.
Rodrigo também não era muito expressivo e não que isso fosse um problema, só que as vezes não sabia quando ele estava gostando ou não.
Continuo me movendo, procurando me saciar antes dele, tão envolvida com o que estava acontecendo, que não ouvi quando deixamos de estar sozinhos.
A primeira pessoa a perceber isso, infelizmente, foi Rodrigo, que ao olhar para a porta aberta do quarto, se deparou com o pai com os olhos cravados na cena em sua frente.
Mesmo diante daquela vergonha, não deixei de gozar. Foi como se meu corpo assumisse o controle e simplesmente um gemido baixo saiu da minha boca, me fazendo agarrar o lençol.
Rodrigo mais do que rapidamente, sai de cima de mim, se encolhendo no canto do quarto, só então após fazer contato visual pela segunda vez com o pai, que joga a coberta que estava no chão em cima de mim.
- Quero falar com você - diz o pai dele, sério, me olhando antes de ir para a sala.
Rodrigo pega a calça dele ao lado, não se dando o trabalho em tirar o preservativo ao vesti-la.
- Se veste - murmura, antes de sair em passos largos e rápidos do quarto.
Com o rosto queimando, obedeço, vestindo a calça que ainda estava com uma das pernas grudadas em meu pé. Não sabendo se me odiava pelo fato de ter gozado ou de ter sido pega naquela situação.
Ainda no quarto, ao lado da porta, ouço a conversa tensa que se iniciava.
- Quem é essa aí?
- Minha...minha namorada - Rodrigo gagueja.
- Desde quando?
- Um ano. Eu acho - murmura - A mãe sabia.
Breve pausa.
- Então era dela que a sua mãe estava falando - diz sério - Ela tinha razão em dizer que não havia gostado dela - Ele diminui o tom de voz - Manda ela ir embora antes que ela chegue.
O silêncio de Rodrigo, foi o suficiente para tirar minhas próprias conclusões.
Não era bem vinda ali e Rodrigo não fazia muita questão em mudar isso.
Pego minha bolsa ao lado do guarda-roupa, saindo do quarto antes de ser pedida para me retirar. No meio do caminho, no final do corredor, encontro Rodrigo e o pai que, automaticamente dão um passo para trás para que eu passasse.
- Já tô indo - murmuro.
Rodrigo desvia o olhar de mim para o pai rapidamente, antes de me olhar novamente e me seguir.
- Levo você, Bruna.
- Não precisa - Continuo a andar, ouvindo-o logo atrás.
- A gente se fala depois então - diz ele, quando já estávamos na garagem e eu prestes a passar pelo portão.
Não respondo.
Não me sentia bem suficiente para responder. Naquele momento, só queria sair dali o mais rápido que eu pudesse.
Ainda no ônibus, minutos mais tarde, Rodrigo me mandou mensagens de texto, perguntando se estava tudo bem e dizendo o quanto que o pai era ignorando com pessoas que não conhecia.
As palavras dele ainda ecoavam em minha cabeça e isto me fez me questionar o tipo de mulher que deveria ser a certa para Rodrigo. E sem pensar muito, o estereótipo que havia criado para Rodrigo, surgiu em minha mente e novamente o fato de eu ser o contrário disso, me fez acreditar que aquele relacionamento, não iria muito longe.
Em pé no ônibus, após dar sinal para descer no próximo ponto, vejo André não muito longe, conversando com dois homens.
Desço do ônibus, andando em sua direção, arrumando a alça da bolsa no ombro.
André continua conversando com os dois rapazes que dava entre 17 e 20 anos de idade. Ambos o escutavam atentamente, enquanto o mesmo gesticulava, apontando em algumas direções.
Continuo me aproximando, atraindo o olhar de um e só depois o do outro, por último André que me olha voltando a olhar para eles, me olhando novamente ao se dar conta que era eu.
Paro alguns passos deles, esperando que ele terminasse a conversa e quando termina, caminha até mim despreocupadamente, com os olhos fixos nos meus.
- Rita disse que brotou lá em casa ontem.
- Não tinha pra onde ir.
- O que tá pegando, Bruna?
André havia tido mudança significativa. Não era mais o menino alto, magro, que estava prestes a ser corcunda.
Em seu corpo tinha músculos por toda parte, tatuagens e um cavanhaque que não tinha antes.
Mas ele não havia mudado apenas fisicamente, seu olhar estava frio, como se não tivesse mais uma alma dentro dele.
Era difícil reconhecer o homem me minha frente, ver o menino que brincava de boneca comigo e que fazia tranças no meu cabelo.
- Provavelmente uma hora dessas ele já saiu.
Ele olha ao redor, antes de estreitar os olhos.
- Quem falou isso?
- Tati.
Os olhos dele vagam por cima da minha cabeça, pensativo.
- Se eu não puder ficar na sua casa, arrumo outro lugar - continuo - Na verdade, vou arrumar, só estou esperando minha folga.
- Você é bem vinda lá. Não precisa de convite.
- Só que você não parece muito feliz em me ter em sua casa.
- Não é isso.
- E o que é então? - Cruzo os braços, já completamente sem entender o comportamento dele.
- Meu único problema já não é mais saber se vou apanhar quando ver ele - murmura, desbloqueando automaticamente uma lembrança.
Costumávamos passar o dia bem, íamos para a escola pela manhã, a tarde brincávamos e quando a noite começava a se aproximar, o medo vinha junto. Pois sabíamos que quando ele chegasse, qualquer coisa o faria perder a paciência e descontar a raiva toda que teve durante o dia em nós.
Dessa forma, a noite quando ele estava em casa no telefone ou recebendo pessoas, fazíamos o mínimo barulho possível e mesmo assim, até o fato de respirarmos pelo dele, já era um motivo para usar o que estivesse por perto para nos bater.
Engulo em seco, sentindo a tensão pelo meu corpo.
Antes que dissesse alguma coisa, um carro se aproximou, parando ao nosso lado. Dou um passo para trás, enquanto André simplesmente encara o vidro fechado.
O vidro desce um pouco e metade do rosto do homem misterioso aparece, inicialmente os olhos se fixando em mim, antes de sustentar o olhar dele.
- Resolveu o problema dos ratos?
- Já espalhei as ratoeiras.
Ele apenas assenti, fechando novamente o vidro, colocando novamente o carro em movimento.
- Conhece ele? - pergunto com as sobrancelhas erguidas.
André me olha como se não entendesse exatamente o motivo da pergunta.
- Mais fácil você perguntar quem não conhece.
Dou de ombros.
- Eu.
Ele balança a cabeça de um lado para o outro, antes de andar em direção a um carro cinza do outro lado da rua.
- Estou falando sério - digo seguindo ele - Não tenho vida social. Então...
Ele não diz mais nada, mesmo eu querendo saber quem era aquele cara e como ele conhecia o meu irmão.
O trajeto até a casa de André, é feita em completo silêncio ou quase, já que tocava uma música do pen drive.
O silêncio dele, só me deixava ainda mais encucada.
Rita veio ao nosso encontro quando nos ouviu entrar na casa, secando a mão num pano de prato, enquanto em frente ao seu corpo havia um avental com o corpo de uma mulher de biquíni estampado.
- Mulher, onde você se meteu? Tava preocupada com você - diz me olhando.
- Passei num lugar depois que sai do trabalho - André sobe os degraus da escada, mantendo seu silêncio - Ele é sempre assim agora?
Rita continua a olhar para a escada, mesmo depois de André ter sumido de vista.
- Se tornou um homem de poucas palavras - Ela me olha - Mas ainda tem um bom coração.
Tinha minhas dúvidas se ainda havia um coração dentro de André. Ele me parecia tão distante.
Rita volta para a cozinha, se movendo com agilidade, dividindo sua atenção em ver as panelas e cortar temperos.
- Quer ajuda?
- E desde quando você sabe cozinhar?
- Eu sei cozinhar - Tati havia perdido um bom tempo tentando me ensinar tudo que sabia - Só não tão bem quanto você e a Tati.
- Então vem me ajudar a cortar esses temperos.
Me aproximo, me colocando ao lado dela na pia, após lavar as mãos, pegando a faca de sua mão, começando a cortar a salsinha.
Por alguns minutos ficamos em silêncio. O fato de estarmos no mesmo lugar, me fez lembrar de quando passava dias na casa de Rita, fingindo ser irmã dela, por que a mãe dela cuidava muito bem de nós duas.
Ela sempre deixava a gente ajudar na cozinha, fazia penteados nos nossos cabelos e vestidos para as bonecas. Era o tipo de mãe que eu queria em minha vida e que não tinha.
Chegou em um ponto, que já me sentia parte da família. Me sentia filha dela. E acredito que meu pai também percebeu isso, já que não me via mais e quando via, percebia o quanto ambas faziam bem para mim.
E com certeza foi com este pensamento, que num dia no meio da noite foi me buscar. A mãe de Rita ainda tentou argumentar, dizendo que da mesma forma que criava Rita com regras, essas regras também cabiam a mim, entretanto, ele estava irredutível, só dizia que meu lugar era em casa, junto com André e não nas casas dos outros.
Então sem mais nada para dizer, ela me deixou ir, mas pude ver estampado em seu rosto, que não queria. Ele me levou para casa e a primeira coisa que fez quando estava dentro de casa, ainda assimilando a volta brusca para a realidade, foi me bater e me fazer entender que não era para nunca mais voltar.
- Ainda está namorando com o Rodrigo? - Rita pergunta, indo até o fogão.
Costumava contar tudo o que acontecia em minha vida, até mesmo para desabafar, para ela. E quando comecei a namorar Rodrigo, não foi diferente.
Estava feliz por um homem como ele, me notar e mais feliz em ver como nos encaixávamos as vezes.
- Estou.
- Já tem um tempo, né?
- Um ano.
- E não pensam em morar junto não?
Como explicar para ela que naquele momento, seria algo impossível? Já que os pais dele haviam deixado claro que preferiam ver o filho com qualquer outra pessoa do que comigo.
- Mal tenho tempo de ter vida social, Rita.
- Você não vai morrer trabalhando naquela boate, Bruna. Uma hora ou outra, você vai querer por sua vida nos trilhos.
- Já está nos trilhos - rebato sem pensar.
- Nossa. Sério? - Ela me olha incrédula, já sabendo muito bem da resposta.
Minha vida não estava completamente nos trilhos. Ainda faltava pequenos detalhes, que faziam com que ela não estivesse exatamente nos trilhos. Como por exemplo, um canto para chamar de meu, alguém que me amasse e que quisesse ficar ao meu lado e construir uma família, mesmo eu não querendo ter filhos tão cedo.
- É só questão de tempo.
- Tá. Sei.
- É sério. No momento, tenho outras prioridades.
- Que seriam?
Paro de cortar não sabendo o responder, precisando pensar por alguns segundos. Mas naquele momento a única prioridade que eu parecia ter, era encontrar um lugar para ficar, para não ter que incomodar ninguém.
- Ter um canto só pra mim - murmuro.
- Você pode ficar aqui o quanto você quiser.
- E acabar com a intimidade de vocês?
Ela dá de ombros.
- Já não temos muita mesmo.
- Corta essa, Rita.
André entra de repente na cozinha, vestido em outra roupa.
- Vai demorar pro almoço sair? - pergunta abrindo a geladeira.
- Só falta temperar o bife - diz Rita.
Rita arruma a mesa para o almoço e coloca as panelas no centro, deixando para servir André por último.
Gentilmente ela coloca o prato na frente dele, que não hesita em começar a comer.
- Você costumava por sua própria comida - comento, me servindo.
- A Rita gosta de fazer isso - diz ele com os olhos no prato.
Dou uma rápida olhada em Rita.
- Não sabia que você gostava de fazer isso.
- Gosto de agradar as vezes - Ela começa a se servir - Quando tiver seu marido, vai entender.
- Se for assim, pretendo não me casar tão cedo.
- Casamento é cuidar, Bruna.
- Vou cuidar. Mas do meu jeito, não...- Me detenho, dando de ombros - Vocês dois são estranhos.
- Disse a pessoa que não é estranha - André murmura.
Mais uma vez, o silêncio pendura. Ninguém diz absolutamente nada, em relação a nada, mesmo eu ainda querendo saber da parte de André de onde que ele conhecia aquele homem e já sabendo que ele não me daria uma resposta. Já que levava muito a sério o silêncio.
No término do almoço, ajudo Rita a limpar a cozinha, preferindo lavar a louça, enquanto ela secava. Era uma rotina na qual não me via e que geralmente naquele horário, estava dormindo.
O sono era algo que mais prezava, mas invés disso, estava acompanhando a rotina da minha cunhada.
Depois da limpeza na cozinha, vou para meu quarto, onde após um banho e vestir meu pijama, sinto como se estivesse deitando nas nuvens ao deitar no colchão de solteiro.
Não demoro para dormir, mesmo sabendo que no dia seguinte, que seria minha folga, teria o dia inteiro para dormir.
Ainda estava dormindo, quando meu celular começou a tocar e acordei parcialmente apenas para atender.
- Alô - digo rouca.
- Acordei você, não foi? - Era Rodrigo.
- É. Eu estava dormindo.
- Então eu ligo outra hora.
Com os olhos fechados, respiro fundo.
- Pode falar agora. Era o quê?
- Não era nada. Você mal se despediu, saiu toda estranha. Nem as minhas mensagens respondeu.
- Eu não tinha nada pra falar.
- Bruna. Sem essa.
- O que você queria que eu dissesse? - pergunto com um pouco de irritação - Seu pai pegou a gente transando e não ficou nada feliz com isso.
- A culpa foi minha. Devia ter fechado a porta ou... ido pro motel com você.
E continuar contornando o problema?, penso. Não me parecia ser a melhor escolha.
Tínhamos que ser dois, contra o problema, que naquele caso, era o fato dos pais dele não gostarem de mim sem nenhum motivo aparente. Sem nunca terem trocado nenhuma palavra comigo.
Simplesmente haviam me visto e tirado as próprias conclusões. Fim.
- Realmente, a culpa é sua - Silêncio - Sabe por quê?
- Não - diz baixo.
- Você ainda mora dentro da casa deles. Ainda tem que dar satisfações da sua vida, principalmente da pessoa que namora.
- Você também mora com seus pais - Imediatamente vem a minha mente o quanto minha vida era uma bagunça, que diferente dele, não tive um lar estruturado, pais amorosos ou nada do tipo.
- Não moro mais - murmuro.
Silêncio.
- Por quê?
Claro que aquela seria a primeira pergunta que ele me faria.
- Era necessário.
- E onde você está agora?
- Na casa do meu irmão.
Silêncio.
- Posso ir você?
André havia saído pouco depois do almoço. Rita havia dito algo sobre ir fazer a unha ou o cabelo, algo assim, então naquele momento eu deveria estar sozinha.
Para verificar, levanto rapidamente, percorrendo os cômodos do segundo andar, concluindo que pelo menos ali, estava sozinha. Descendo os degraus da escada, encontro a sala vazia e os demais cômodos também, concluindo de uma vez que realmente estava sozinha.
- Só um oi e você vai embora.
- Não vou demorar não.
- Vou mandar a localização.
Em seguida, desligo, abrindo o aplicativo de mensagens. Após mandar a localização, volto para o segundo andar, decidindo no meio do caminho que não poderia receber ele vestida num pijama furado, os olhos sujos e um hálito que Deus me livre.
Apenas um banho poderia mudar aquela situação e foi o que fiz. Minutos mais tarde, sentada no meio do colchão, procuro algo para vestir, não encontrando nada confortável além de um short jeans e uma camiseta que, poderia jurar que era de André.