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A Estrela da Manhã Que Renasceu

A Estrela da Manhã Que Renasceu

Autor:: Maura Dylan
Gênero: Moderno
Meus pais me chamaram à sala de estar, o ar pesado com uma formalidade gelada. Eu, Sofia Pereira, sempre fui a segunda, a dispensável, a sombra da minha irmã Beatriz. Até que a notícia do noivado da minha irmã Beatriz e Diogo Almeida me atingiu como um raio. E, para 'garantir a harmonia', fui sentenciada a um 'retiro espiritual': exilada num convento remoto na Serra da Estrela, até o casamento ser 'consumado'. O eufemismo 'problemas' pairou, mais uma condenação do que uma sugestão. Desde que nasci, fui apenas uma ferramenta: um rim sobressalente para a minha irmã doente, a minha vida inteira moldada pela necessidade deles. O meu amor por Diogo - a quem secretamente chamei 'Estrela da Manhã' - foi roubado: Beatriz aproveitou-se da amnésia dele, convencendo-o de que ela fora a sua salvadora. Diogo, o homem que eu amava, agora me via com desprezo e crueldade. Humilhada publicamente na festa de noivado, abandonada no hospital pelo desmaio, a minha família preocupava-se apenas em pagar a conta. Meu pai agrediu-me fisicamente, cego de raiva: 'A tua única utilidade foi o rim que deste. De resto, só tens sido um fardo!' Como pude ser tão cega? Como a crueldade deles me marcou? A minha existência era apenas um fardo, uma ferramenta. A dor excruciante, a traição dos que mais amava. Mas, no fundo do poço, algo estalou: uma clareza aterrorizante. A Sofia Pereira morreu ali. E comecei a fazer as malas, não para um convento, mas para uma nova vida. Uma vida onde eu serei a protagonista, não uma figurante sofredora.

Introdução

Meus pais me chamaram à sala de estar, o ar pesado com uma formalidade gelada. Eu, Sofia Pereira, sempre fui a segunda, a dispensável, a sombra da minha irmã Beatriz.

Até que a notícia do noivado da minha irmã Beatriz e Diogo Almeida me atingiu como um raio. E, para 'garantir a harmonia', fui sentenciada a um 'retiro espiritual': exilada num convento remoto na Serra da Estrela, até o casamento ser 'consumado'.

O eufemismo 'problemas' pairou, mais uma condenação do que uma sugestão. Desde que nasci, fui apenas uma ferramenta: um rim sobressalente para a minha irmã doente, a minha vida inteira moldada pela necessidade deles. O meu amor por Diogo - a quem secretamente chamei 'Estrela da Manhã' - foi roubado: Beatriz aproveitou-se da amnésia dele, convencendo-o de que ela fora a sua salvadora. Diogo, o homem que eu amava, agora me via com desprezo e crueldade. Humilhada publicamente na festa de noivado, abandonada no hospital pelo desmaio, a minha família preocupava-se apenas em pagar a conta. Meu pai agrediu-me fisicamente, cego de raiva: 'A tua única utilidade foi o rim que deste. De resto, só tens sido um fardo!'

Como pude ser tão cega? Como a crueldade deles me marcou? A minha existência era apenas um fardo, uma ferramenta. A dor excruciante, a traição dos que mais amava.

Mas, no fundo do poço, algo estalou: uma clareza aterrorizante. A Sofia Pereira morreu ali. E comecei a fazer as malas, não para um convento, mas para uma nova vida. Uma vida onde eu serei a protagonista, não uma figurante sofredora.

Capítulo 1

Os pais de Sofia Pereira chamaram-na à sala de estar, o ar pesado com uma formalidade que lhe gelava o sangue.

"Sofia," começou o pai, a voz desprovida de qualquer calor, "temos notícias importantes."

A mãe, ao lado dele no sofá de brocado, sorriu de forma tensa.

"A tua irmã Beatriz e o Diogo Almeida vão finalmente oficializar o noivado."

Sofia sentiu o chão a fugir-lhe dos pés, mas manteve a compostura.

"Parabéns a eles," conseguiu dizer, a voz um fio.

"Sim, é uma união maravilhosa para ambas as famílias," continuou o pai, ignorando a palidez da filha. "E, para garantir que tudo corre sem incidentes, pensámos que seria melhor para ti passares algum tempo num retiro espiritual."

"Um retiro?" Sofia repetiu, incrédula.

"Num convento sossegado na Serra da Estrela," explicou a mãe, com um tom falsamente carinhoso. "Para te reencontrares, rezares. Até o casamento estar consumado. Não queremos que causes mais problemas, querida."

O eufemismo "problemas" pairou no ar, carregado de acusações não ditas.

Desespero e resignação tomaram conta de Sofia, o anúncio do exílio era a confirmação final do seu papel naquela família.

No entanto, enquanto os pais detalhavam os "benefícios" do seu isolamento forçado, algo dentro de Sofia mudou.

Um clique.

Como se uma velha porta enferrujada se abrisse com um rangido, revelando uma passagem há muito esquecida.

Ela olhou para os rostos dos pais, para a satisfação mal disfarçada nos seus olhos, e uma clareza fria apoderou-se dela.

Isto não era um fim, era um começo.

Uma segunda oportunidade, arrancada das cinzas da sua antiga vida.

O choque inicial deu lugar a uma calma surpreendente.

"Eu renasci hoje," pensou Sofia, uma estranha serenidade a invadir-lhe o peito. "A Sofia que eles conheciam morreu."

A sua mente recuou, um turbilhão de memórias dolorosas.

A infância marcada pela doença renal de Beatriz, a constante sombra da sua obrigação.

"Tu nasceste para salvar a tua irmã, Sofia."

Quantas vezes ouvira aquela frase?

O sacrifício do seu rim, aos dezasseis anos, fora apenas o começo.

Seguiram-se anos de negligência emocional, de exigências constantes, de ser sempre a segunda, a dispensável.

Os seus sonhos, os seus desejos, esmagados sob o peso das necessidades de Beatriz.

A sua paixão por Diogo, um amor doce e secreto, roubado e pervertido.

A dor profunda do passado, o ressentimento acumulado, o trauma de uma vida vivida para os outros, contrastava brutalmente com a resolução que agora sentia.

Aquela Sofia, a sonhadora, a que amava incondicionalmente, essa sim, estava morta.

"Eu aceito," disse Sofia, a voz firme, surpreendendo os pais.

Não havia súplica, nem lágrimas. Apenas uma aceitação fria.

"Vou para o convento."

Ela viu a surpresa nos seus rostos, seguida de um brilho de desconfiança.

A sua submissão era demasiado fácil, demasiado rápida.

Mas a sua resolução era de ferro.

Cortaria os laços. Com a família, com Diogo, com o passado.

Não repetiria os erros. Abdicaria daquele amor que só lhe trouxera sofrimento.

A sua declaração concisa era a prova da sua nova postura.

"Oh, querida, que bom que entendes," disse a mãe, recuperando a compostura, embora um vinco de dúvida permanecesse na sua testa. "É para o teu bem."

"Claro," respondeu Sofia, um leve sorriso irónico a bailar-lhe nos lábios. "Sempre foi."

O pai pigarreou.

"Partes dentro de três dias. Organizaremos tudo."

A incredulidade deles era palpável, a ironia da situação não lhes escapava, mas não conseguiam decifrar a nova Sofia.

A injustiça fundamental da sua existência pesava-lhe na alma.

Nascera com um propósito, ser uma peça de substituição para a irmã.

Esse facto fora a justificação para todos os abusos, para toda a subjugação.

E a maior das injustiças fora o roubo da sua "Estrela da Manhã".

Diogo.

Um flashback doloroso invadiu-a.

A quinta isolada da família Almeida no Douro. O acidente de equitação de Diogo.

Grave, quase fatal. Amnésia temporária, dificuldades motoras.

Ela, então uma jovem de dezassete anos, encontrara-o por acaso, cuidara dele em segredo.

Ele não se lembrava do nome dela, mal via o seu rosto devido aos ferimentos e à luz fraca do quarto improvisado.

Mas sentia o perfume das madressilvas que ela plantara perto da janela.

Ouvia a sua voz suave a ler-lhe contos tradicionais portugueses ao amanhecer.

E chamava-a "Estrela da Manhã".

Um laço puro, ternurento, formado na vulnerabilidade e no cuidado.

Esse laço, essas memórias, foram cruelmente roubados.

Beatriz, com a cumplicidade e manipulação dos pais.

Quando Diogo começou a recuperar, a perguntar pela sua "Estrela da Manhã", eles apresentaram-lhe Beatriz.

Convenceram-no de que fora ela a sua salvadora, a dona daquela voz, a presença reconfortante.

A revelação desse segredo, a dimensão da traição, ainda a fazia sentir um desespero profundo, uma indignação que queimava por dentro.

Beatriz usurpara o seu lugar, roubara o seu amor, a sua identidade aos olhos de Diogo.

Ao longo dos anos, Sofia tentara, em vão, aproximar-se de Diogo, insinuar a verdade.

Mas ele, completamente enganado, via-a apenas como a irmã invejosa da sua amada Beatriz.

Tratava-a com desprezo, por vezes com crueldade calculada, instigado por Beatriz.

Cada tentativa de reconciliação, cada olhar esperançoso, resultava em mais humilhação.

A repetição do fracasso tornara-se uma constante dolorosa na sua vida.

Agora, essa luta infrutífera chegava ao fim.

"Então, está decidido," disse o pai, levantando-se, ansioso por encerrar o assunto. "É o melhor para todos."

"Para todos?" Sofia repetiu, a ironia mais acentuada. "Ou para a Beatriz?"

A mãe lançou-lhe um olhar de aviso.

"Não comeces, Sofia. A tua irmã merece ser feliz."

"E eu não?" A pergunta escapou-lhe, mais um desabafo do que um desafio.

Os pais olharam para ela como se tivesse dito um disparate. A desilusão era antiga, familiar.

O diálogo afiado apenas invertia as suas expectativas de uma Sofia submissa e chorosa.

No dia seguinte, o telemóvel de Sofia vibrou. Uma mensagem de Diogo.

O coração dela deu um salto estúpido, uma reação automática que ela amaldiçoou.

"Preciso de falar contigo. Encontra-me na Adega Almeida, no Porto, às sete. Sozinha."

Apreensão percorreu-a. Um mau pressentimento.

Diogo nunca lhe mandava mensagens. Nunca queria falar com ela.

Isto só podia significar mais dor.

Chegou à adega histórica, um dos muitos empreendimentos da família Almeida.

O local estava decorado para um evento de degustação de vinhos, cheio de gente elegante.

Procurou Diogo, nervosa.

E então viu-o. De braço dado com Beatriz, que sorria triunfante.

Diogo aproximou-se dela, o olhar frio, cortante.

"Ah, Sofia. Que bom que vieste."

A voz dele era alta o suficiente para que os convidados mais próximos ouvissem.

"Queria apenas que visses isto." Ele ergueu a mão de Beatriz, onde brilhava um enorme anel de noivado. "E que entendesses, de uma vez por todas, o teu lugar insignificante."

A humilhação pública foi como um soco no estômago.

O sangue fugiu-lhe do rosto. Beatriz saboreava cada momento.

A cena era uma repetição cruel de tantas outras humilhações passadas, mas desta vez, algo dentro dela observava com uma distância fria.

A dor estava lá, mas também uma resignação que se habituara ao sofrimento.

"Parabéns," murmurou Sofia, a voz quase inaudível.

Deu meia volta para sair, mas Diogo agarrou-lhe o braço.

"Não tão depressa. A festa de noivado é na quinta, no próximo sábado. Faz questão que estejas presente. A tua irmã insiste."

O convite formal, um cartão elegante, foi-lhe enfiado na mão.

A crueldade dele era calculada, a presença dela seria mais um troféu para Beatriz.

Sofia olhou para ele, para a frieza nos seus olhos azuis que um dia tinham olhado para ela com tanta ternura confusa.

Agora, só via o reflexo da manipulação de Beatriz.

A sua nova realidade era esta: ele desprezava-a. E ela tinha de aceitar isso.

"Estarei lá," disse, a voz surpreendentemente calma.

Soltou-se do aperto dele e afastou-se, a dignidade a única coisa que lhe restava.

No sábado seguinte, na festa de noivado faustosa na quinta dos Almeida, Sofia sentia-se um fantasma.

Movimentava-se entre os convidados, ignorada pela maioria, observada com pena ou desprezo por outros.

Diogo parecia confuso com a sua calma, com a ausência de lágrimas ou súplicas.

Ele observava-a de longe, uma ruga de interrogação na testa, mas Beatriz rapidamente o distraía com sorrisos e carícias.

Durante um momento de distração, ao servir-se de uma bebida, o pequeno lenço bordado que sempre trazia consigo caiu-lhe do bolso.

Um lenço simples, branco, com uma pequena estrela dourada bordada num canto. Um presente que fizera para Diogo, nos tempos da "Estrela da Manhã", mas que nunca tivera coragem de lhe dar diretamente. De alguma forma, ele ficara com ele, sem saber a sua origem, até Beatriz o "reclamar".

Antes que pudesse apanhá-lo, Diogo, que passava perto, viu-o.

Apanhou-o. O perfume ténue de madressilvas, quase impercetível, que emanava do tecido pareceu perturbá-lo por um instante.

"Este lenço..." começou ele, confuso.

Beatriz materializou-se ao seu lado, rápida como uma serpente.

"Oh, o meu lenço! Andava à procura dele!" Exclamou, arrancando-o da mão de Diogo.

Lançou um olhar acusador a Sofia. "Sofia, não acredito! Tentaste roubá-lo outra vez? Que invejosa!"

Os pais de Sofia, sempre atentos, aproximaram-se.

"Sofia!" A voz do pai era um trovão. "Que vergonha! A tentar imitar a tua irmã, a roubar as suas coisas! Peço desculpa, Diogo, Beatriz. Ela não tem emenda."

Sofia foi repreendida severamente diante de dezenas de convidados, a humilhação a consumi-la.

Ela não disse nada. Apenas olhou para o lenço na mão de Beatriz, depois para Diogo, que a olhava com uma mistura de desprezo e... seria confusão?

Não importava.

A dor física da repreensão do pai, um aperto forte no braço, misturava-se com a dor emocional.

Mas, por baixo de tudo, uma estranha sensação de alívio.

Este era o fim. A última humilhação.

A imagem final dela, ali, abandonada por todos, era a libertação.

A sua "Estrela da Manhã" apagara-se definitivamente.

E ela estava pronta para encontrar um novo amanhecer.

Capítulo 2

Sofia acordou no hospital no dia seguinte à festa de noivado.

A cabeça latejava, o braço onde o pai a agarrara estava dorido e com nódoas negras.

Aparentemente, depois da cena do lenço, sentira-se mal e desmaiara.

Ninguém da sua família a acompanhara ao hospital.

Uma enfermeira simpática, de meia-idade, entrou no quarto.

"Ah, acordou, menina Sofia. Estávamos preocupados."

"O que aconteceu?" perguntou Sofia, a voz rouca.

"Teve uma quebra de tensão, desmaiou. Mas os exames não revelaram nada de grave. Um pouco de repouso e fica como nova."

A enfermeira sorriu. "A sua família ligou há pouco. A sua irmã, a noiva, disseram que não podiam vir, muito ocupadas com os preparativos finais do casamento. Mas mandaram recomendações e disseram que pagariam a conta."

A ironia da situação não passou despercebida a Sofia.

Pagar a conta, como se isso compensasse a ausência, o desprezo.

Indiferença e mágoa preencheram o vazio no seu peito.

"Obrigada," disse Sofia, a voz neutra.

A enfermeira pareceu surpreendida com a sua frieza, com a ausência de lágrimas ou queixas.

Esta Sofia era diferente da rapariga assustada e submissa que dera entrada na noite anterior.

O desapego dela era palpável.

Mais tarde, ouviu duas auxiliares a cochichar no corredor.

"Coitadinha da rapariga, a família nem quer saber dela."

"Ouvi dizer que a irmã é a preferida, vai casar com um ricaço. Esta aqui só dá problemas."

A confirmação da injustiça que sofrera, vinda de estranhos, já não a feria como antes.

Era apenas um facto.

Aceitara a realidade cruel da sua vida.

Os pais viam-na como um fardo, um erro, exceto quando precisavam dela para Beatriz.

Beatriz via-a como uma rival a ser esmagada.

Diogo via-a como uma mentirosa invejosa.

"Eles têm a vida deles," pensou Sofia, enquanto olhava pela janela do hospital para o céu cinzento do Porto. "Eu terei a minha."

A solidão era uma companheira antiga, mas agora trazia consigo uma nova força interior.

Quando teve alta, dois dias depois, foi ela própria quem tratou da papelada e chamou um táxi.

Ninguém da família apareceu. Ninguém ligou.

Ao chegar a casa, encontrou os pais e Beatriz na sala, a discutir animadamente os detalhes do casamento.

Flores, música, a lista de convidados.

Beatriz usava um vestido novo, caro, e exibia o anel de noivado de forma ostensiva.

Os pais olhavam para ela com orgulho e adoração.

Sofia passou por eles em silêncio, dirigindo-se ao seu quarto.

A dor silenciosa de ser invisível era uma velha conhecida.

A cena apenas confirmava o favoritismo gritante que sempre existira.

"Sofia, querida!" chamou Beatriz, a voz falsamente doce. "Ainda bem que chegaste. Estava preocupada contigo."

Sofia parou à entrada do seu quarto, sem se virar.

"Não precisas de te preocupar, Beatriz. Estou ótima."

"Ótima? Depois de estragares a minha festa de noivado com o teu desmaio?" A voz de Beatriz tornou-se sibilante.

Diogo, que chegara nesse momento e ouvira a última parte, interveio.

"Beatriz tem razão, Sofia. Tens uma maneira incrível de chamar a atenção, sempre a fazer-te de vítima."

As palavras dele, cortantes, ainda tinham o poder de a magoar, mas a ferida já não era tão profunda.

Era como tocar numa cicatriz antiga.

Sofia lembrou-se de uma tarde, muitos anos antes.

Tinha sete anos, Beatriz nove.

Beatriz empurrara-a das escadas porque Sofia pegara numa boneca que Beatriz já não usava.

Sofia partira um braço.

Quando os pais chegaram, Beatriz chorava, dizendo que Sofia a tinha atacado e caído sozinha.

Os pais acreditaram em Beatriz, como sempre.

Sofia ficou de castigo, com o braço engessado, acusada de ser má e mentirosa.

O padrão de abuso e injustiça começara cedo.

Essa memória, e tantas outras, solidificaram a sua resolução.

"Não quero estragar mais nada," disse Sofia, virando-se lentamente para encará-los. Havia uma calma assustadora nos seus olhos. "Por isso, vou aceitar a vossa sugestão do retiro."

Beatriz sorriu, triunfante.

"Ótimo. Assim não causas mais problemas no dia do meu casamento."

"Não te preocupes, Beatriz," respondeu Sofia, a voz fria como gelo. "Depois do teu casamento, nunca mais me verão. Nunca mais causarei problemas a ninguém desta família."

A sua nova filosofia de vida era simples: paz e desapego.

Ela ia cortar todos os laços.

Beatriz aproximou-se dela, o olhar provocador.

"Ainda sonhas com o Diogo, não é, irmãzinha? Achas que ele alguma vez olharia para ti, uma simples dadora de órgãos, uma sombra?"

A irritação faiscou nos olhos de Sofia, mas ela controlou-se.

O desprezo de Beatriz era veneno puro.

"O Diogo é todo teu, Beatriz. Aproveita bem."

A resposta calma e desapegada de Sofia pareceu desarmar Beatriz por um momento.

Esperava lágrimas, raiva, mas encontrou apenas indiferença.

"Claro que é todo meu," Beatriz recuperou a arrogância. "Ele ama-me. Ele escolheu-me. Tu és apenas uma nota de rodapé esquecida na nossa história de amor."

Sofia limitou-se a encolher os ombros.

"Se é isso que te faz feliz acreditar, Beatriz."

Virou costas e entrou no seu quarto, fechando a porta suavemente.

Lá dentro, começou a fazer as malas. Não para um convento, mas para uma nova vida.

Uma vida onde ela seria a protagonista, não uma figurante sofredora.

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