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A Ex Dele, Minha Cama: A Traição Suprema

A Ex Dele, Minha Cama: A Traição Suprema

Autor:: Charlotte
Gênero: Moderno
Sou uma neurocirurgiã que fatura milhões por ano. Eu sustento meu marido, Ricardo, e a família inteira dele. Durante meses, planejei as férias perfeitas em Fernando de Noronha para todos nós, pagando por cada mínimo detalhe. Dois dias antes da partida, Ricardo soltou a bomba. Ele deu minha passagem de primeira classe para a ex-namorada dele, Amanda. Meu novo itinerário? Uma série de voos em companhias de baixo custo, terminando num teco-teco famoso por seus pousos arriscados. A família dele, que vive do meu dinheiro, concordou. "Você é forte", ele disse. "A Amanda é mais sensível." Minha própria sogra, cujas preocupações com segurança lhe renderam um upgrade para a primeira classe que eu paguei, me disse que Amanda "precisa disso mais do que você". Eu não era família. Eu era apenas o caixa eletrônico deles, e minha vida era um preço baixo a se pagar pelo conforto deles. Naquela noite, encontrei Amanda dormindo na minha cama. A raiva era fria, cristalina. Cancelei a viagem. Congelei as contas deles. E liguei para minha advogada. "Peça o divórcio. E prepare-se para cobrar o empréstimo multimilionário que eles me devem."

Capítulo 1

Sou uma neurocirurgiã que fatura milhões por ano. Eu sustento meu marido, Ricardo, e a família inteira dele. Durante meses, planejei as férias perfeitas em Fernando de Noronha para todos nós, pagando por cada mínimo detalhe.

Dois dias antes da partida, Ricardo soltou a bomba. Ele deu minha passagem de primeira classe para a ex-namorada dele, Amanda.

Meu novo itinerário? Uma série de voos em companhias de baixo custo, terminando num teco-teco famoso por seus pousos arriscados.

A família dele, que vive do meu dinheiro, concordou. "Você é forte", ele disse. "A Amanda é mais sensível."

Minha própria sogra, cujas preocupações com segurança lhe renderam um upgrade para a primeira classe que eu paguei, me disse que Amanda "precisa disso mais do que você".

Eu não era família. Eu era apenas o caixa eletrônico deles, e minha vida era um preço baixo a se pagar pelo conforto deles.

Naquela noite, encontrei Amanda dormindo na minha cama. A raiva era fria, cristalina. Cancelei a viagem. Congelei as contas deles. E liguei para minha advogada.

"Peça o divórcio. E prepare-se para cobrar o empréstimo multimilionário que eles me devem."

Capítulo 1

Eu nunca pensei que chegaria o dia em que meu marido, Ricardo, trocaria meu assento na primeira classe pela tarifa econômica da ex-namorada dele, especialmente quando era eu quem estava pagando por tudo. Ricardo era personal trainer. Não um personal qualquer, mas um especializado em "bem-estar de boutique", o que significava que ele atendia um punhado de clientes ricos que pagavam uma fortuna por quase nada. Essas férias em Fernando de Noronha foram ideia minha. Um presente meu. Como neurocirurgiã, minhas semanas eram medidas em vidas salvas e faturas milionárias. Minhas mãos, firmes e precisas, ganhavam mais em uma única consulta do que Ricardo em um mês de suas sessões de "bem-estar". A diferença não era apenas gritante; era astronômica. Meu salário de sete dígitos anuais fazia o ganho modesto dele parecer uma piada, um fato sobre o qual raramente falávamos, mas que zumbia sob cada conversa como um ruído de fundo.

Passei meses planejando essa viagem. Meses. Cada detalhe, da villa particular aos passeios exclusivos de barco, foi meticulosamente organizado por mim. Noronha não é um pulo. Exige múltiplos voos, transfers e autorizações. É um lugar onde o luxo encontra pesadelos logísticos se você não souber o que está fazendo. Taxas de preservação, agendamentos, declarações de saúde – eu cuidei de cada pedaço de papelada. Para seis pessoas. Incluindo os pais de Ricardo, Heitor e Cecília, e sua irmã de vinte anos, Juliana. Nenhuma vez qualquer um deles se ofereceu para ajudar. A contribuição deles era simplesmente aparecer com suas malas de grife, cheias de roupas que eu comprei para eles.

Heitor e Cecília moravam na minha casa de hóspedes. Uma edícula enorme e reformada na minha propriedade no Morumbi, que eles chamavam de "anexo". A fortuna de "família tradicional" deles tinha evaporado anos atrás, deixando-os com nada além de um senso de direito e minhas contas bancárias. Juliana, ainda na faculdade, nunca conheceu uma vida sem meu apoio financeiro. As mensalidades da faculdade particular, seu SUV de luxo, seu guarda-roupa infinito – tudo por minha conta. E eu não me ressentia disso. Não de verdade. Eu amava Ricardo. Eu amava a família dele, ou pelo menos a ideia deles. Eu gostava de ser a provedora, aquela que podia realizar seus sonhos de uma vida luxuosa.

Meu trabalho era minha paixão. Meu nome, Doutora Helena Arruda, ressoava na comunidade médica. Eu viajava para congressos, apresentava avanços, salvava vidas. Eu era boa no que fazia, e isso era visível. Tirar uma folga era uma operação em si, exigindo meses de reagendamento de cirurgias e delegação de casos críticos. Meus pacientes dependiam de mim. Quando Cecília expressou "preocupações" sobre a segurança do voo fretado, eu fiz um upgrade para todos para voos comerciais de primeira classe, apesar do custo exorbitante. "Para nossa tranquilidade", ela disse, assentindo com superioridade.

Dois dias antes da partida, Ricardo soltou a bomba. "Helena", ele começou, mexendo no relógio, "a Amanda vai com a gente."

Amanda? A ex-namorada dele? Aquela que o abandonou quando a família dele faliu?

"É. Ela tá passando por uma fase difícil, e mamãe e papai queriam muito que ela fosse. Então, a gente, uh, trocou sua passagem de primeira classe pela dela. Você vai pegar a rota econômica com as outras, uh, conexões."

Meu celular vibrou. Um anexo em PDF. "Rota Econômica Noronha – Helena Arruda." Detalhava uma série de voos em companhias de baixo custo, escalas em ilhas obscuras e um pouso final aterrorizante em um teco-teco, numa pista notoriamente curta e à beira de um penhasco. Eu joguei a última etapa no Google. "Um dos aeroportos mais perigosos do mundo." Mortes anuais. Meu sangue gelou.

Minha voz era um sussurro, carregado de gelo. "Ricardo, pelo amor de Deus, o que você acabou de dizer? Por que a Amanda está vindo? E por que eu estou pegando essa rota da morte?"

Ele deu de ombros, evitando meu olhar. "Ela precisa de um descanso, Helena. E a família... eles se conectam com ela, sabe? Faz muito tempo que ela não se sente parte de nós."

Um nó frio e duro se formou no meu estômago. Não era apenas raiva. Era um ódio primitivo, borbulhando de um lugar que eu não sabia que existia. Meu cérebro repassou as "preocupações de segurança" de Cecília por seu assento na primeira classe. Minha própria segurança, aparentemente, era negociável. Minha vida, descartável.

"Ricardo, você está me dizendo que a Amanda, sua ex-namorada que te abandonou, é mais importante para esta família do que sua esposa? A que pagou por tudo?" Minha voz estava subindo, um tremor nela. Minhas mãos começaram a tremer. Meu maxilar se contraiu com tanta força que senti uma dor aguda nas têmporas. Minha visão se estreitou. "Então, eu tenho que arriscar minha vida em um avião que praticamente voa contra uma montanha, enquanto sua ex-namorada bebe champanhe no meu assento? O assento que eu paguei?"

"Bem, alguém tinha que ceder o assento, Helena", ele murmurou, ainda sem me olhar. "E você é... forte. Você aguenta o tranco. A Amanda é mais sensível."

"Sensível? Ricardo, isso não é apenas desconfortável. Pessoas morrem nessa rota. É um fato conhecido."

"Helena, não seja dramática. É só um voo. Pense nisso como uma aventura! Além disso, é pela família. Você sempre diz que faria qualquer coisa por nós." Suas palavras eram um bálsamo doentio, falhando em acalmar o fogo em minhas veias.

Virei-me para Heitor e Cecília, que estavam convenientemente absortos em uma revista. "Mãe? Pai? Vocês estão ouvindo isso?" Heitor pigarreou, sem levantar o olhar. Cecília ajustou os óculos.

"Helena, querida", disse Cecília, finalmente. "É só um pequeno inconveniente. A Amanda passou por tanta coisa. Ela perdeu todo o dinheiro que investiu, sabe. Ela precisa disso mais do que você. Você é tão forte, vai ficar bem." Seu tom era desdenhoso, condescendente.

Juliana, mexendo em seu novo celular (um presente meu), interveio: "É, Helena. Para de drama. A Amanda é super legal. Você vai chegar lá uma hora ou outra."

Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Era um som oco, vazio. "Uma hora ou outra. Certo."

"Então, deixa eu ver se entendi", eu disse, minha voz perigosamente baixa. "Eu organizo a viagem, pago por tudo, sustento todos vocês, e em troca, minha segurança é comprometida, meu conforto é sacrificado, e meu assento de primeira classe é dado a uma ex-namorada que não poderia se importar menos com nenhum de vocês, tudo isso enquanto vocês todos sentam aqui e concordam que isso é perfeitamente aceitável?"

O rosto de Ricardo ficou vermelho. "Helena! Para de fazer um escândalo por nada! A Amanda é da família pra gente, sempre foi!"

"Ela estava aqui antes de você, Helena. Ela nos entende. Nós temos história", ele insistiu, como se história fosse uma moeda válida para a traição. "Uma boa esposa, uma boa pessoa, entenderia. Ela faria o sacrifício pelo bem maior das férias em família", ele terminou, seus olhos me desafiando a discordar.

Nesse exato momento, a porta da frente se abriu. Uma aparição com um look de viagem impecável, uma mala de mão de grife na mão, entrou. Amanda Campos. Juliana praticamente pulou do sofá. "Amanda! Você chegou! Meu Deus, que saudade!" Ela envolveu Amanda em um abraço mais apertado do que qualquer um que já me dera.

O colar de pérolas de Amanda brilhava sob as luzes do hall de entrada. Seu lenço de seda, uma edição limitada de Paris, caía elegantemente sobre seu ombro. Cada detalhe gritava "luxo", um contraste gritante com a "fase difícil" que Ricardo alegava que ela estava passando. "Faz uma eternidade!", Juliana exclamou. "Que horrível que você teve que perder todos os nossos bons momentos nos últimos anos." A implicação pairava pesada no ar: nossos bons momentos, significando os bons momentos que eu paguei. Cecília se levantou, um sorriso genuíno enfeitando seus lábios, um calor que eu não via direcionado a mim há anos. "Amanda, querida! Bem-vinda de volta! Simplesmente não foi a mesma coisa sem você." Eles se reuniram ao redor dela, um círculo fechado, rindo e conversando, me ignorando completamente, a mulher parada no meio de sua própria sala de estar, aquela que tornou tudo isso possível. Eles estavam celebrando o retorno dela, não a minha presença.

O gelo no meu estômago se espalhou, cobrindo todo o meu ser. Não era mais apenas raiva. Era um vazio profundo e arrepiante. Uma clareza. Eu não era a esposa deles. Eu não era a nora deles. Eu era apenas o caixa eletrônico deles, e eles tinham acabado de drenar minha última gota de paciência.

Capítulo 2

A clareza era uma lâmina afiada, cortando anos de autoengano. Amanda Campos não era apenas uma ex-namorada qualquer. Ela era o amor de colégio de Ricardo, seu "primeiro amor", a garota com quem ele deveria se casar antes que a fortuna de família tradicional dele evaporasse da noite para o dia. Quando os Dorsey perderam tudo, Amanda não hesitou. Ela desapareceu, sua família retirando seus investimentos e deixando Ricardo para navegar pelos destroços sozinho.

Eu me lembrava da ligação de Ricardo, cinco anos atrás. Sua voz estava quebrada, crua. Sua família estava enfrentando a falência, sua grande propriedade prestes a ser hipotecada. Eles ligaram para a família de Amanda primeiro, é claro, mas foram recebidos com um silêncio frio. Ricardo estava à deriva, um homem bonito, mas inseguro, despojado de seu status herdado, de coração partido e humilhado.

Foi quando eu entrei em cena. Eu já era uma neurocirurgiã em ascensão, ganhando um bom dinheiro, mas ainda não a profissional de sete dígitos que sou hoje. Eu fiz um empréstimo multimilionário usando meus ganhos futuros como garantia, um acordo privado e legalmente vinculativo que eu mantinha trancado no meu cofre. Paguei as dívidas deles, salvei a propriedade de ser loteada e forneci um pouso suave para seus pais e irmã. Ricardo ficou grato, profundamente grato. Eu acreditei, ingenuamente, que essa gratidão floresceria em amor, uma parceria real. Eu acreditei que o amor poderia ser construído sobre tal fundação. A família dele, no entanto, sussurrava que ele só se casou comigo pelo meu dinheiro, uma verdade mordaz que eu sempre afastava.

Agora, parada aqui, observando-os bajular Amanda, a mulher que os abandonou, ficou claro. Eles me deviam tudo. Absolutamente tudo.

Eu praticamente criei Juliana. Desde pagar a mensalidade exorbitante do colégio de elite quando a família dela não podia mais arcar, até financiar sua vida de luxo na faculdade particular. Quando ela expressou inveja das bolsas de grife de suas amigas, eu comprei a última Chanel para ela. Quando ela reclamou de dividir um carro, eu comprei um SUV de luxo para ela. Eu era sua mãe substituta, sua fada madrinha, sua fonte inesgotável de recursos.

E Heitor e Cecília? Eles viviam na minha casa de hóspedes, uma propriedade mais luxuosa do que sua antiga e falida fazenda. Eu pagava por seus funcionários, suas compras orgânicas, suas matrículas em clubes de golfe de alto padrão. Quando Heitor precisou de um novo carro clássico para sua coleção, eu comprei. Quando a saúde de Cecília piorou, eu paguei pelos melhores especialistas e tratamentos experimentais, levando-os em voos particulares para clínicas em todo o mundo. Nossa casa principal, a que eu possuía integralmente, custava uma fortuna para manter – IPTU, contas, a equipe doméstica, a jardinagem. Eu pagava por tudo. Eu era o caixa eletrônico pessoal deles, sua linha de vida privada. Usei minha extensa rede no mundo médico e empresarial para garantir seu conforto, sua saúde, sua própria existência. Meu trabalho era exigente, muitas vezes requerendo 80 horas semanais, mas eu seguia em frente, impulsionada por um senso equivocado de amor e obrigação.

Mas agora, vendo-os receber Amanda, a mulher que os deixou afundar, na minha casa, na minha viagem, e depois sacrificar minha segurança pela dela... a raiva era um ácido queimando dentro de mim.

Amanda se aproximou, um sorriso de escárnio brincando em seus lábios. "Helena, querida", ela arrulhou, sua voz pingando falsa doçura. "Sinto muito pelo seu voo. O Ricardo me contou. É uma pena, mas sabe como é, família em primeiro lugar." Ela gesticulou para o clã Dorsey, que assentiu em concordância, uma frente unida e presunçosa.

Juliana riu, aninhando-se em Amanda. "É, Helena. Tipo, finalmente, alguém que realmente nos entende. Você é sempre tão... séria." Ela olhou para Amanda com adoração, como um cachorrinho encontrando seu mestre há muito perdido. "A Amanda sempre foi muito mais divertida. Não é à toa que o Ricardo ainda fala dela."

Os olhos de Amanda piscaram para os meus, um brilho triunfante neles. Ricardo e sua família apenas sorriram, confirmando sua cumplicidade nesta humilhação. Eles não se importavam que eu estivesse sendo enviada em uma rota perigosa. Eles não se importavam com a minha vida. Eu era apenas a máquina de lavar dinheiro.

Ricardo, sentindo a tensão, tentou me apaziguar. "Helena, olha, são só algumas horas. Quando você chegar lá, eu te compro aquele relógio super caro que você gostou. Aquele com os diamantes."

Eu olhei para ele, meu olhar congelante. "Ricardo. Me diz uma coisa. Você tem cinco milhões de reais, em dinheiro, pra me dar agora?"

Seu queixo caiu. "O quê? Helena, do que você está falando?"

"Dinheiro. Cinco milhões. Você pode simplesmente me dar um cheque?"

"Não! Claro que não! Por que você perguntaria isso?" Ele gaguejou, seu rosto empalidecendo. A súbita exigência de dinheiro tangível, do meu dinheiro, o abalou. Ele estava acostumado a eu pagar silenciosamente por tudo, não a exigir um saque direto.

"Porque foi isso que eu investi nesta família nos últimos cinco anos", afirmei, minha voz desprovida de emoção. "É o quanto custa para manter seus pais no 'anexo' deles, para financiar o estilo de vida da Juliana, para manter você com roupas de grife e uma academia de 'bem-estar de boutique' que mal se paga. Você não tem cinco milhões de reais. Você não tem nem cinquenta mil do seu próprio dinheiro."

Ele se encolheu, ferido pela verdade brutal. Sua família desviou o olhar, de repente achando o chão fascinante. Eles sabiam. Todos eles sabiam que sua renda miserável mal cobria suas despesas pessoais, muito menos sustentava uma família inteira. Seus clientes eram ricos, mas sua parte era sempre pequena. Ele era uma fachada, um rosto bonito, vivendo da minha generosidade infinita.

Um pensamento perigoso surgiu em minha mente. E se Amanda tivesse que sustentá-los? O que ela faria?

Cecília, sempre a mestra da manipulação, quebrou o silêncio. "Helena, querida, você deve estar cansada. Por que não vai fazer para nós aquela sua massa com trufas maravilhosa? A Amanda sempre adorou." Ela disse isso como se eu fosse sua chef pessoal, não a dona da casa e a única provedora de sua vida luxuosa. Então ela acrescentou, com um suspiro saudoso: "A Amanda costumava fazer os biscoitos mais deliciosos para o Ricardo. Ele os amava tanto."

Eu não me movi. Meu olhar estava fixo em Cecília, um desafio silencioso em meus olhos. "Cecília, acredito que você é perfeitamente capaz de fazer massa com trufas. Ou talvez a Amanda, já que ela é tão boa em 'fazer coisas' para o Ricardo, pudesse preparar algo para a família dela."

Eu me virei, caminhando calmamente para o banheiro da suíte. Podia ouvir seus murmúrios confusos atrás de mim. Olhei para o enorme e ornamentado espelho da penteadeira, uma peça que comprei em Florença. Preparei um banho, despejando óleos luxuosos que importei da França, do tipo que custava mais do que a mensalidade da academia "boutique" de Ricardo. Fiquei de molho, deixando o calor penetrar lentamente em meus ossos, tentando lavar a sensação de estar contaminada. Pensei nos milhões que derramei em suas vidas, nos anos da minha juventude, nos sacrifícios intermináveis. Eu era a galinha dos ovos de ouro deles, e eles estavam prontos para cortar minhas asas e me enviar em uma missão suicida.

Uma batida forte veio na porta. "Helena! O que você está fazendo? O jantar não está pronto!" A voz de Ricardo era áspera, carregada de impaciência.

Eu mal me dei ao trabalho de levantar a voz. "Cecília é perfeitamente capaz de cozinhar, Ricardo. Ou talvez a Amanda possa. Ela tem tanta história com a família, afinal."

"Helena, sua sogra não está bem!", ele sibilou através da porta.

Eu zombei. "Ah, é mesmo? A mesma mulher que estava agora mesmo se derretendo pela sua massa com trufas favorita e planejando férias de primeira classe? Engraçado como a 'doença' dela só parece surgir quando uma tarefa precisa ser feita."

"Helena, para de ser tão difícil! Apenas saia e cozinhe!"

"Não." Minha voz era firme. "Eu não vou cozinhar para eles. Nunca mais."

Ouvi um gemido frustrado, seguido por vozes abafadas. Eventualmente, os sons de panelas e frigideiras batendo relutantemente da cozinha confirmaram que Cecília, pela primeira vez em anos, estava cozinhando. Uma pequena e sombria satisfação floresceu em meu peito.

Mais tarde, revigorada e vestida com um roupão de seda, entrei na sala de jantar. O ar estava pesado com tensão e o cheiro de massa mal cozida. Juliana estava prestes a se sentar no meu lugar de costume na cabeceira da mesa, ao lado de Ricardo, com Amanda do outro lado dele.

"Helena, você pode sentar ali", Cecília estalou, apontando para uma cadeira solitária na extremidade oposta, longe do calor da família.

Olhei para o prato de massa sem graça. "Não, obrigada. Tenho outros planos."

Os olhos de Ricardo brilharam. "Outros planos? Que outros planos? Onde você vai?"

"Para algum lugar onde sou apreciada, Ricardo. Algum lugar onde minha vida não é considerada um bem descartável. Aproveitem a refeição. Não se preocupem, a conta do seu voo de primeira classe para Noronha ainda vai ser paga. Só não por mim."

Eu saí, deixando-os atordoados, o barulho de garfos caídos apressadamente ecoando em meus ouvidos. A porta da frente se fechou atrás de mim, o som um ponto final definitivo no fim de um capítulo longo e doloroso.

Capítulo 3

As luzes da cidade se borraram enquanto meu motorista navegava pelas ruas movimentadas. Naquela noite, eu estava retomando minha vida, uma mordida requintada de cada vez. Jantei sozinha no Fasano, pedindo o champanhe mais caro e um menu degustação que desafiava a descrição. Cada prato delicado, cada gole de espumante, tinha gosto de liberdade. Não havia necessidade de me preocupar com os olhares de desaprovação de Ricardo para a conta, nem de fingir gostar da comida sem graça de Cecília, nem de ouvir o drama interminável de Juliana. Apenas eu. E o mundo, servido como um banquete.

Já passava da meia-noite quando voltei para casa. A casa era um monólito escuro e silencioso. Nenhuma luz acesa, ninguém esperando. Nenhuma alma parecia notar ou se importar com a minha ausência. O frio familiar da negligência se instalou em meus ossos, mas naquela noite, não doeu. Apenas reforçou a verdade. Entrei, fechando a porta suavemente. Meus passos ecoaram nos pisos de mármore enquanto eu me dirigia ao quarto principal, o santuário que um dia pareceu nosso.

Um cheiro estranho e enjoativo pairava no ar, uma mistura do perfume de Ricardo e do perfume floral característico de Amanda. Era um fedor de invasão, agarrado aos meus lençóis, meus travesseiros, meu espaço. Uma onda de náusea me atingiu, quente e fria ao mesmo tempo. Eles estiveram na minha cama. Na nossa cama.

Meu território. Invadido. Profanado.

Caminhei para o meu lado da cama e me sentei. O colchão afundou, e um grito agudo e penetrante rasgou o silêncio.

"AHHHHHHH!"

Acendi o abajur da cabeceira. Amanda Campos estava esparramada do meu lado da cama, seu rosto contorcido em uma máscara de terror, agarrando um travesseiro de seda contra o peito. Seus olhos, arregalados e em pânico, saltavam de mim para o espaço vazio ao lado dela, onde Ricardo claramente estivera dormindo.

Um rugido primitivo irrompeu de algum lugar profundo dentro de mim. Não foi um pensamento; foi puro instinto, sem adulteração. Minha mão disparou, agarrando o braço de Amanda. Eu a puxei, com força, fazendo-a rolar para fora da cama com um baque surdo.

"Ai! Minha cabeça!", ela lamentou, lágrimas escorrendo instantaneamente por seu rosto. Ela era uma mestra em se fazer de vítima.

Ricardo, acordado pelo grito dela, sentou-se com um suspiro, os olhos arregalados. "Helena! Que porra é essa?" Ele saiu da cama, instintivamente protegendo Amanda, colocando seu corpo entre nós. "Amanda, querida, você está bem?"

"Ela... ela me atacou!", Amanda soluçou, apontando um dedo trêmulo para mim.

"Ela estava só... dormindo aqui, Helena! Foi um acidente!", Ricardo insistiu, sua voz carregada de uma urgência em pânico que gritava mentiras. Suas pupilas dilataram ligeiramente, um sinal revelador que eu reconhecia de anos observando-o. Ele estava mentindo.

"Dormindo?" Minha voz estava calma, calma demais. "Na minha cama? Esperando eu chegar em casa? Ou esperando você voltar de onde quer que tenha corrido quando me ouviu entrar?"

Seu rosto ficou vermelho. "Não seja ridícula, Helena! Ela só capotou. Estávamos conversando. Eu, uh, eu estava no sofá."

"No sofá", repeti, meus olhos varrendo os lençóis amassados, as duas marcas distintas. "Certo." Meu olho de cirurgiã notou a falta de qualquer intimidade física óbvia entre eles, mas a violação era clara. Ela estava na minha cama. No meu espaço.

"SAIA", ordenei a Amanda, minha voz agora um rosnado baixo. "Saia do meu quarto. Agora."

Amanda choramingou, agarrando-se a Ricardo. "Mas, Ricardo, para onde eu vou?" Ela olhou para ele com olhos de cachorrinho pidão, cheios de falsa vulnerabilidade.

Ricardo me fuzilou com o olhar, sua proteção por Amanda superando qualquer senso de propriedade. "Helena, você não pode simplesmente expulsá-la! Ela não tem para onde ir!"

Eu os observei irem, Amanda agarrada a Ricardo como uma tábua de salvação, seus soluços ecoando dramaticamente pelo corredor. No momento em que a porta se fechou, eu me movi. Tirei tudo da cama – lençóis, fronhas, edredom. Joguei tudo em um saco de lixo resistente. Então abri todas as janelas, mesmo sendo uma noite fria. Acendi um palo santo, deixando a fumaça purificadora se espalhar por todos os cantos do quarto, banindo o cheiro persistente de seu perfume barato. Borrifei um limpador antibacteriano potente em todas as superfícies, esfregando com energia furiosa até meus braços doerem. Isso não era apenas limpeza; era um exorcismo.

Momentos depois, Ricardo estava esmurrando a porta trancada do quarto. "Helena! Me deixa entrar! O que você está fazendo? Consigo ouvir você borrifando coisas!"

"Me livrando do fedor da traição, Ricardo", gritei de volta, minha voz monótona. "Não se preocupe, não vou contaminar sua preciosa Amanda com meu 'ciúme' por mais tempo."

"Não há nada para ter ciúmes! Não estamos fazendo nada!", ele protestou, sua voz tensa.

"Tem certeza disso, Ricardo? Porque sua família parece achar que a Amanda é simplesmente perfeita para você. E se for esse o caso, então talvez vocês dois devam ficar juntos, permanentemente."

Então a voz de Amanda, estridente e insistente, juntou-se do corredor. "Helena, por favor! Não faça uma cena! Deveríamos estar comemorando!"

"Ciúme é uma emoção tão feia, Helena!", Ricardo gritou, sua voz carregada de nojo.

A voz de Cecília, aguda e fria, cortou o barulho. "Helena, pare com essa bobagem! Você está nos envergonhando!"

"Sim, você deveria ter vergonha de si mesma!", Heitor latiu, sua voz cheia de uma falsa autoridade patriarcal que sempre me irritou.

Juliana riu de algum lugar ao fundo. "Parece que alguém está perdendo o filhinho da mamãe, hein?"

Amanda, espiando por cima do ombro de Ricardo, sorriu. Seus olhos, cheios de triunfo, encontraram os meus pela fresta da porta.

Ricardo de repente esmurrou a porta novamente. "Helena, abra esta porta! Agora! Temos que arrumar as malas para Noronha! A bagagem dos meus pais é pesada. A Amanda tem três malas. As malas de mão da Juliana são enormes. Você vai me ajudar a carregá-las para o carro de manhã!"

Então Cecília interveio, sua voz irritantemente doce: "Sim, Helena, querida. Todas elas. Estamos contando com você."

Eu sorri. Um sorriso lento e arrepiante que não alcançou meus olhos. "Claro, Cecília. Todas elas."

"Bom", Ricardo resmungou, o alívio evidente em sua voz. "Não se atrase. Saímos às cinco da manhã em ponto."

"Cinco da manhã em ponto", repeti, minha voz tão doce quanto veneno. "Eu não perderia por nada neste mundo."

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