Meu pai estava à beira da morte, e a única coisa que eu queria era o apoio do meu marido, Pedro.
Liguei para ele dezoito vezes, mas ele nunca atendeu.
Em vez disso, encontrei-o a confortar a minha "irmã" adotiva, Clara, que alegava ter um pulso magoado.
O meu pai morreu sozinho, enquanto Pedro me ignorava.
Quando lhe dei a notícia, a sua preocupação era zero.
A sua família considerou a morte do meu pai uma "coisinha de nada".
Eles viraram o jogo, acusando-me de ser "sensível", "louca", e "ingrata" por ousar pedir o divórcio.
Pedro e a família começaram uma campanha de difamação, cortando as minhas fontes de rendimento, para me forçar a rastejar de volta.
Por que ele me odiava tanto para destruir a minha vida? O que ele e Clara escondiam?
Eu não me ia render.
A minha vingança estava apenas a começar.
O meu pai morreu.
O médico entregou-me o atestado de óbito, e a sua voz era baixa.
"Senhora, as minhas condolências, fizemos tudo o que podíamos."
Olhei para o papel branco, e as palavras pareciam desfocadas. A hora da morte: 15h30.
Nessa hora, eu estava a ligar para o meu marido, Pedro. Liguei-lhe dezoito vezes.
Ele não atendeu nenhuma.
Agora, o corpo do meu pai estava deitado na morgue fria, coberto por um lençol branco.
O meu mundo desabou.
Tirei o telemóvel do bolso, com os dedos a tremer, e disquei o número de Pedro novamente.
Tinha de lhe contar. Tinha de lhe dizer que o meu pai, que o tratava como um filho, tinha falecido.
O telefone tocou durante muito tempo, um som frio e vazio que ecoava no corredor silencioso do hospital.
Quando eu estava prestes a desistir, ele finalmente atendeu. A sua voz estava cheia de impaciência.
"O que foi agora, Lúcia? Estou ocupado!"
Do outro lado da linha, ouvi uma voz feminina, suave e fraca.
"Pedro, a minha mão dói tanto, podes massajá-la para mim? O médico disse que preciso de descansar bem."
Era a voz de Clara, a minha "irmã" adotiva, a filha de um amigo falecido dos pais de Pedro.
A sua voz era delicada, como se fosse quebrar a qualquer momento.
Pedro respondeu-lhe imediatamente, o seu tom a mudar de irritado para gentil.
"Claro, claro, descansa. Eu trato de tudo."
Senti um nó na garganta.
Respirei fundo e disse, com a voz rouca.
"Pedro, o meu pai..."
Ele interrompeu-me bruscamente.
"O que tem o teu pai? Ele não está bem? Não me ligues por coisas pequenas, a Clara caiu e magoou o pulso, estou no hospital com ela. Ela é frágil, precisa de mim."
Frágil? O meu pai estava a morrer, e ele estava preocupado com um pulso magoado?
As lágrimas que eu tinha segurado começaram a cair, quentes e silenciosas.
"Pedro, vamos divorciar-nos."
A minha voz era um sussurro, mas soou alta no silêncio.
Houve uma pausa de dois segundos. Depois, a raiva de Pedro explodiu.
"Divórcio? Ficaste maluca? Só porque não atendi as tuas chamadas? Eu estava a cuidar da Clara! Ela não tem ninguém, Lúcia! Tens de ser mais compreensiva!"
Compreensiva?
O meu pai morreu sozinho enquanto o meu marido cuidava de outra mulher. Que tipo de compreensão ele queria de mim?
"Ela não tem ninguém?" perguntei, a minha voz a tremer de raiva contida. "E eu? Eu agora também não tenho ninguém."
"Não sejas dramática! O teu pai só deve estar com uma gripe ou algo assim. Para de fazer uma tempestade num copo de água! Falamos quando eu chegar a casa. A Clara precisa de mim agora."
Ele desligou.
O som do "bip" final foi como um golpe no meu peito.
Tentei ligar de volta. O número estava bloqueado.
Deixei o telemóvel cair. Ele bateu no chão com um som surdo.
Olhei para a porta fechada da morgue.
O meu pai estava lá dentro. Sozinho.
Ele sempre me disse que Pedro era um bom homem, que cuidaria de mim.
Ele estava enganado.
E eu estava enganada por ter acreditado nele.
A decisão estava tomada. Não havia volta a dar. O divórcio não era uma ameaça, era uma promessa.
Uma promessa a mim mesma.
Sentei-me no banco frio do corredor do hospital durante horas.
Não sei quanto tempo passou. Um, dois, talvez cinco horas.
O meu corpo estava dormente, a minha mente vazia.
O telemóvel que eu tinha deixado cair começou a tocar. O ecrã iluminou o chão escuro.
Era a minha sogra, a mãe de Pedro.
Hesitei, mas atendi. Talvez Pedro lhe tivesse contado. Talvez ela estivesse a ligar para me confortar.
Assim que atendi, a sua voz aguda e zangada atacou-me.
"Lúcia! O que se passa contigo? O Pedro acabou de me ligar! Como te atreves a pedir o divórcio? Por causa de uma coisinha de nada?"
Uma coisinha de nada. A morte do meu pai era uma coisinha de nada para eles.
"A Clara é como uma filha para mim! Ela está sozinha no mundo, o Pedro tem a obrigação de cuidar dela! Tu, como esposa dele, devias apoiá-lo, não criar problemas!"
Apertei o telemóvel com força. A minha voz saiu fria como gelo.
"O meu pai morreu."
Houve um silêncio do outro lado. Um silêncio curto, desconfortável.
Depois, a voz dela voltou, mas sem qualquer pingo de simpatia.
"Oh. Bem... isso é triste. Mas as pessoas morrem. Não é desculpa para ameaçares o meu filho com o divórcio. Ele já está sob muito stress a cuidar da Clara."
Senti uma vontade súbita de rir. Um riso amargo e doloroso.
"Eu não o estou a ameaçar," disse eu, com uma calma assustadora. "Estou a informá-lo. O casamento acabou."
"Tu... tu és uma ingrata! Depois de tudo o que fizemos por ti! O teu pai ficaria desapontado com o teu comportamento egoísta!"
Desliguei a chamada. Não conseguia ouvir mais.
O meu pai.
Ele ficaria desapontado, sim. Desapontado com o homem a quem entregou a sua filha.
Fui até à janela no final do corredor. A cidade brilhava lá em baixo, indiferente à minha dor.
As pessoas viviam as suas vidas, riam, amavam, discutiam.
O meu mundo tinha parado, mas o resto do mundo continuava a girar.
O meu pai ensinou-me a ser forte. Ele ensinou-me a não depender de ninguém.
Tinha esquecido essa lição. Tinha-me tornado dependente de Pedro, do seu amor, da sua aprovação.
Agora, lembrava-me.
A dor era imensa, uma ferida aberta no meu peito. Mas por baixo da dor, uma nova força começava a crescer.
A força da raiva. A força da resolução.
Voltei para a morgue e tratei da papelada. Cada assinatura era um passo para longe da minha vida antiga.
Quando saí do hospital, já era madrugada. O ar estava frio.
Chamei um táxi.
"Para onde, senhora?"
Dei a morada da casa que partilhava com Pedro.
Tinha coisas para fazer. Tinha de fazer as malas.