Eu estava parada em frente ao Cartório Central, segurando um formulário de licença de casamento, esperando pelo homem que amei por cinco anos. Ele estava atrasado. De novo.
Esta era a 99ª vez que Dante Monteiro escolhia outra pessoa em vez de mim. Mas desta vez, uma foto no meu celular o mostrava sorrindo com seu amor de colégio, Isabela Almeida, a mulher que ele nunca superou.
Quando voltei para sua mansão, Isabela estava aninhada ao lado dele, e sua mãe sorria radiante. A mãe dele, Cecília, deu a Isabela uma pulseira, uma joia de família, me tratando como uma empregada. Dante, em vez de se desculpar, agarrou meu braço, me acusando de dar um chilique. Ele ainda achava que tinha o controle.
Mostrei a ele a licença de casamento rasgada, dizendo que não queria mais nada dele. Ele respondeu me arrastando para o meu quarto, me empurrando contra a parede e tentando me beijar. Eu disse que ele era nojento.
Então, meu pai desmaiou. Dante, vendo a jaqueta que um segurança me deu, se recusou a me deixar levar meu pai moribundo para o hospital, alegando que Isabela estava tendo um ataque de pânico. Sua mãe, Cecília, cortou os pneus do carro e jogou as chaves em uma fonte, rindo enquanto meu pai parava de respirar.
Meu pai morreu. No hospital, Dante enfiou uma agulha de acupuntura na minha mão, dizendo que era isso que acontecia quando eu o desobedecia. Ele ainda não sabia que a cicatriz nas minhas costas era do enxerto de pele que eu doei para ele.
Por que eu sacrifiquei tudo por um homem que me via como sua propriedade, que deixou meu pai morrer? Por que eu fiquei por cinco anos, apenas para ser tratada como lixo?
Liguei para Anderson, meu irmão adotivo, o CEO do Grupo Moraes. Era hora de voltar para casa. Era hora de Dante Monteiro pagar.
Capítulo 1
"Eu vou para casa, Anderson."
A voz de Alina Rodrigues era baixa, quase um sussurro, mas a decisão parecia uma bomba explodindo dentro dela.
Ela estava parada em frente ao Cartório Central, o imponente prédio de pedra uma testemunha fria de sua humilhação. Usava um vestido branco simples, algo que ela havia economizado para comprar, algo que achava especial. Agora, parecia barato e deslocado contra o cenário de colunas imponentes e o zumbido da vida na cidade. Ela apertava o formulário de licença de casamento na mão, o papel já amassado pelo suor de suas palmas.
Ele estava atrasado. De novo.
Esta era a 99ª vez. Por cinco anos, ela esteve esperando. Noventa e nove vezes ela ficou ali, ou em um restaurante, ou em algum evento que ele prometeu que iria com ela, e noventa e nove vezes, Dante Monteiro escolheu outra pessoa em vez dela.
"Ele não vem, não é?" A voz de Anderson soou pelo telefone, baixa e perigosa.
Alina não respondeu. Apenas encarou a entrada, uma centelha de esperança morrendo uma morte lenta e dolorosa.
Ela estava de pé há horas, e os saltos baratos que usava cravavam em sua pele. Uma dor aguda subiu por sua perna, uma dor familiar de uma lesão antiga. Ela mudou o peso do corpo, apoiando-se em uma parede de pedra fria, a superfície áspera arranhando seu braço nu.
"Alina, esse desgraçado não vale a pena", disse Anderson, a voz tensa de fúria. "Ele está te usando há cinco anos. Volte para casa. A família Moraes pode te dar qualquer coisa. Você não precisa ser a empregadinha de um filhinho de papai."
A palavra "empregadinha" doeu como um tapa, mas era verdade. Ela era filha do chefe de segurança da família Monteiro, mas por cinco anos, ela foi a cuidadora pessoal de Dante, sua enfermeira, seu tudo.
E seu capacho.
Com um movimento súbito e final, Alina olhou para a licença de casamento em sua mão. Seu próprio nome, Alina Rodrigues, estava escrito de forma organizada em uma linha. A outra estava em branco. Ela rasgou o papel ao meio, depois de novo, e de novo, até que os pedaços fossem pequenos demais para rasgar. Ela os deixou cair de sua mão, uma chuva de confete branco que dançou ao vento antes de pousar no pavimento sujo.
"Eu vou voltar", disse ela, a voz finalmente firme. "Mas você tem que me prometer uma coisa."
"Qualquer coisa."
"Meu pai... ele trabalhou para os Monteiro a vida toda. Preciso trazê-lo comigo. Ele precisa se aposentar e ser cuidado adequadamente."
"Claro", disse Anderson sem hesitar. "Vou providenciar os melhores médicos para ele. Vou mandar um carro agora mesmo."
Assim que ela encerrou a ligação, seu telefone vibrou com uma nova mensagem. Era de uma amiga, uma foto. Ela abriu.
Lá estava Dante, sorrindo. Ele estava em um restaurante chique, e sentada à sua frente estava Isabela Almeida, seu amor de colégio, a mulher que ele nunca superou. Ele estava dando um pedaço de bolo na boca dela, seus olhos cheios do afeto que Alina desejou por cinco anos.
Alina encarou a foto, mas não sentiu nada. Sem lágrimas, sem raiva. Apenas um vazio imenso e gelado. Tinha acabado.
Tudo começou há cinco anos.
Dante Monteiro, o garoto de ouro, o atleta estrela de um império imobiliário, bateu seu carro esporte. O acidente foi horrível. Ele foi retirado dos destroços, seu corpo mutilado, suas pernas paralisadas.
Alina estava lá. Ela era apenas uma estudante na época, a caminho de casa, mas não hesitou. Correu em direção às chamas, ignorando o perigo.
Ela o tirou do carro momentos antes de ele explodir. A força da explosão a jogou contra o asfalto, rasgando a pele de suas costas.
Mas esse foi apenas o começo de seu sacrifício. No hospital, o corpo de Dante estava falhando. Ele precisava de um transplante de medula óssea, um procedimento arriscado, e ninguém em sua família era compatível.
Alina fez o teste. Ela era uma combinação perfeita.
O procedimento foi excruciante. Eles tiraram medula do osso do seu quadril, uma doação secreta e dolorosa sobre a qual ela nunca lhe contou. Ela suportou, acreditando que salvaria o homem que amava.
Quando Dante acordou, o primeiro nome que ele chamou não foi o dela. Foi o de Isabela. Ele gritou por Isabela, que havia partido para a Europa no momento em que soube que ele estava paralisado.
Sua recuperação foi um pesadelo. A paralisia estilhaçou seu orgulho, tornando-o amargo e cruel. Ele era um monstro, preso em um corpo quebrado.
Ele atirava coisas. Ele gritava maldições. Ele tentava arrancar os soros de seus braços. Ele queria morrer.
Alina, ainda fraca de seu próprio procedimento, tentava detê-lo. Ela segurava sua mão, seu próprio corpo doendo, e tentava acalmar suas fúrias.
"Fique longe de mim!", ele rosnava, empurrando-a. "Você é só a filha de um empregado! O que você sabe sobre a minha dor?"
Suas palavras machucavam, mas ela ficou. Ela ficou porque se lembrava do garoto que ele costumava ser, aquele que sorria para ela quando era apenas uma criança rondando a propriedade. Aquele que uma vez lhe deu um doce e disse que ela tinha um sorriso bonito.
Ela o amava desde pequena. Uma paixão secreta e sem esperança pelo menino rico para quem seu pai trabalhava.
Um dia, em seu momento mais sombrio, quando ele segurou um caco de vidro em sua própria garganta, ela se confessou.
"Dante, eu te amo", ela sussurrou, lágrimas escorrendo por seu rosto. "Por favor, não faça isso. Eu ficarei com você. Não importa o que aconteça. Eu nunca vou te deixar."
Ela passava cada momento acordada com ele. Ela o alimentava, o banhava, lia para ele. Ela se tornou suas mãos e seus pés. Ela era sua sombra.
Ela até se tornou uma mensageira para seu amor não correspondido. Ela escrevia cartas para Isabela por ele, derramando o coração partido dele na página, e então as enviava obedientemente, sabendo que cada uma era um pedaço de seu próprio coração sendo enviado para longe.
Sua mãe, Cecília Monteiro, a observava com desconfiança. "O que você quer, garota?", ela perguntava, seus olhos frios. "Você acha que porque está cuidando dele, vai conseguir um pedaço da fortuna dos Monteiro?"
"Eu não quero nada", Alina respondia baixinho. "Eu só o amo."
Eventualmente, Dante começou a depender dela. Ele se acostumou com sua presença. Um dia, ele a pediu em casamento.
"Case-se comigo, Alina", ele disse, a voz desprovida de emoção. "Isabela não vai voltar para um aleijado. Mas se ela vir que estou casado, talvez sinta ciúmes. Talvez ela volte."
Seu coração se partiu, mas ela disse sim.
Por ele, ela abriu mão de tudo. Uma carta de aprovação chegou do ITA, uma bolsa integral para um doutorado em ciência da computação. Era o seu sonho. Ela olhou para a carta, depois para Dante em sua cadeira de rodas, e a escondeu em uma gaveta, para nunca mais ser vista.
Sua verdadeira família, os Moraes, os bilionários da tecnologia que a haviam perdido quando criança e a reencontrado pouco antes do acidente, imploraram para que ela voltasse para casa.
"Ele não vale a pena, Alina", Anderson havia implorado. "Volte para casa. Você é nossa princesa."
Mas ela se recusou. Ela escolheu Dante.
Ela se dedicou à fisioterapia dele. Aprendeu técnicas de massagem especializadas, estudando por horas todas as noites. Ela empurrava e puxava seus membros sem resposta, seu próprio corpo se esforçando, suas mãos se tornando ásperas e calosas. Ela suportou seu mau humor, seus insultos, suas fúrias.
Então, um milagre. Depois de cinco anos, a sensibilidade estava voltando para suas pernas. Era lento, mas estava acontecendo. O dia em que ele deu seu primeiro passo sem ajuda foi o mesmo dia em que uma carta de Isabela chegou. Ela estava voltando para casa.
Alina havia feito seu bolo favorito naquele dia, uma pequena celebração de seu progresso. Ela foi ao quarto dele, o coração cheio de esperança, apenas para encontrar Isabela já lá, envolta em seus braços.
"Foi você, Isabela", Dante estava dizendo, a voz embargada de emoção. "Pensar em você voltando... foi isso que me fez andar de novo."
Alina ficou na porta, segurando o bolo, sentindo-se como uma palhaça com um vestido barato na festa de outra pessoa. Ele nem a notou. Ele não reconheceu os cinco anos de sua vida que ela derramou em sua recuperação. Tudo foi por Isabela.
Os agendamentos para a licença de casamento começaram depois disso. Ele havia prometido se casar com ela, e ele manteria sua palavra, disse ele. Mas toda vez, Isabela tinha uma "crise". Uma dor de cabeça. Uma unha quebrada. Um pesadelo. E toda vez, Dante corria para o lado dela, deixando Alina esperando.
Noventa e oito vezes.
Ela dizia a si mesma que seria diferente. Ela dizia a si mesma que, uma vez casados, ele a veria. Ele finalmente a veria.
Mas hoje, parada do lado de fora do Cartório pela 99ª vez, olhando para uma foto dele com outra mulher, um único e claro pensamento cortou a névoa de seu amor.
Os saltos que ela usava eram um presente dele. Ele havia jogado a caixa para ela na semana passada. "Use estes no próximo agendamento", ele dissera. "Tente parecer decente."
Eles eram um número menor. Apertavam seus pés, uma dor constante e incômoda.
E agora ela entendia. Aos olhos dele, ela nunca foi feita para caber. Ela era apenas algo para ser usado e descartado.
Ela não esperaria pela 100ª vez.
Não haveria uma 100ª vez.
A decisão estava tomada. Ela estava indo embora. Ela estava indo para casa.
Quando Alina voltou para a mansão dos Monteiro, a governanta-chefe, Martha, olhou para ela com pena.
"Senhorita Alina, você voltou...", Martha começou, a voz sumindo.
"Está tudo bem, Martha. Estou acostumada", disse Alina, a voz vazia. Ela não tinha mais energia para a decepção.
Ela caminhou em direção à sala de estar e parou na porta. A cena lá dentro era como um retrato de família perfeito, um do qual ela nunca fez parte.
Dante estava no sofá, e Isabela estava aninhada ao lado dele, a cabeça em seu ombro. Sua mãe, Cecília Monteiro, sentava-se em frente a eles, radiante de aprovação. Era uma imagem de felicidade doméstica, e Alina a achou grotescamente irônica.
Isabela a viu primeiro e ofegou, pulando como se tivesse sido pega fazendo algo errado.
"Alina! Você voltou! Dante estava tão preocupado", disse Isabela, a voz escorrendo falsidade. "Meu carro quebrou, e ele teve que vir me buscar. Sinto muito."
Cecília bufou com desdém. "Algumas pessoas simplesmente não sabem o seu lugar. Dante, você não deveria ter que se desculpar com uma empregada."
Cecília então abriu uma caixa de veludo. Dentro havia uma linda pulseira de esmeraldas. Era uma joia da família Monteiro, passada de geração em geração.
"Isabela, minha querida", disse Cecília, a voz melosa. "Isto pertence à futura Sra. Monteiro. Quero que você fique com ela."
"Sra. Monteiro, eu não posso", disse Isabela, fingindo modéstia, mas seus olhos estavam grudados nas gemas brilhantes.
Dante parecia desconfortável. "Mãe, Alina e eu deveríamos..."
"Deveriam o quê?", Cecília o interrompeu. "Isabela é a única digna de ser sua esposa. Olhe para ela, tão elegante. E olhe para... ela." Ela gesticulou com desdém para Alina.
Isabela, sempre a atriz, olhou para Alina. "Oh, Alina, sinto muito. A culpa é toda minha. Eu não deveria ter ligado para o Dante. Você deve estar tão chateada."
Alina avançou, sua expressão indecifrável. Ela parou na frente de Isabela e pegou a pulseira da mão de Cecília.
"É linda", disse Alina, a voz calma. Ela pegou a mão delicada e bem-cuidada de Isabela e deslizou a pulseira em seu pulso. "Combina com você."
A pele de Isabela era macia e lisa. Alina olhou para suas próprias mãos, para os calos e pequenas cicatrizes de anos de fisioterapia e trabalho doméstico. O contraste era gritante.
"Pronto", disse Alina, dando um passo para trás. "Ficou perfeito."
Ela se virou para sair.
"Alina, espere!", Dante chamou, finalmente percebendo que dia era. "A licença de casamento..."
Ele a seguiu até o corredor, agarrando seu braço. "Eu ia vir. O carro da Isabela realmente quebrou."
"Eu sei", disse Alina, sem olhá-lo.
"Então por que você está agindo assim?", ele exigiu, a voz subindo em frustração. "É só um pedaço de papel. Podemos pegar a qualquer hora."
"Você deveria voltar para sua mãe", disse Alina, o tom gelado. "E para a Srta. Almeida."
Ela sempre chamou a mãe dele de 'Sra. Monteiro'. A formalidade súbita de 'sua mãe' não passou despercebida por ele. Era uma linha sendo traçada.
"O que há de errado com você?", ele retrucou, o aperto se intensificando. "Você está dando um chilique porque eu me atrasei? Depois de tudo que eu fiz por você, deixando você ficar aqui..."
"Tudo que você fez por mim?", Alina interrompeu, a voz perigosamente baixa. Ela finalmente se virou para encará-lo, e seus olhos eram como lascas de gelo. "Ou é depois de tudo que eu fiz por você?"
Ele pareceu surpreso com o tom dela. "Não se atreva a tentar me culpar com isso. Eu te devo, eu sei disso. Mas isso não significa que você me possui!"
A acusação, tão infundada e cruel depois de cinco anos de sua devoção altruísta, foi o golpe final. Uma risada amarga escapou de seus lábios.
Ela enfiou a mão na bolsa e tirou os pedaços rasgados do formulário de licença de casamento. Ela os segurou na frente do rosto dele.
"Você está certo", disse ela, a voz tremendo ligeiramente. "Você não me deve nada."
Ela deixou os pedaços flutuarem de seus dedos, espalhando-se a seus pés como folhas mortas.
"E eu não quero mais nada de você."
Seu rosto escureceu de raiva. "Você acha que esse draminha vai mudar alguma coisa? Acha que dar um chilique vai me fazer te querer mais?"
Ele a agarrou, puxando-a para perto. "Você quer ser a Sra. Monteiro? Tudo bem. Mas nunca mais faça uma cena como essa. Sou eu quem decide quando e se vamos nos casar. Não você."
Ele ainda achava que estava no controle. Ele ainda achava que ela era a mesma garota fraca que faria qualquer coisa por ele.
"Tire as mãos de mim, Dante", disse ela, a voz desprovida de toda emoção.
"O que você disse?", ele rosnou, o orgulho ferido.
"Eu disse, tire as mãos de mim", ela repetiu, olhando-o diretamente nos olhos. "E vá cuidar da Isabela. Ela parecia tão assustada quando eu entrei. Você deveria confortá-la."
Ele ficou tão atordoado com a frieza dela que seu aperto afrouxou. Ele sentiu um estranho desconforto, um lampejo de algo que não conseguia nomear, mas o reprimiu.
Ela estava apenas sendo dramática. Ela superaria. Ela sempre superava.
"Tudo bem", disse ele, soltando-a. "Fique no seu quarto e se acalme. Eu te ligo quando estiver pronto para lidar com você."
Ele se virou e voltou para a sala de estar, de volta para Isabela, sem dar a Alina um segundo olhar.
Alina o observou ir. Um sorriso amargo tocou seus lábios.
Me ligar?, ela pensou. Você não terá meu número por muito mais tempo.
O jogo havia acabado. E ela finalmente decidiu parar de jogar.
Alina tomou um banho longo e quente, tentando lavar a sujeira do dia, a imundície de cinco anos de humilhação. Quando saiu, enrolada em uma toalha, encontrou seu armário vazio.
Seus vestidos baratos, seus jeans gastos, suas camisetas simples – tudo sumido.
Ela soube instantaneamente o que havia acontecido. Saiu de seu quarto e foi para os fundos da casa. Lá, ao lado das latas de lixo, havia uma pilha de suas roupas, jogadas fora como lixo.
Este era um dos castigos favoritos de Cecília. Sempre que Alina fazia algo para desagradá-la, encontrava seus pertences no lixo. Era um lembrete de seu lugar, uma mensagem de que ela e suas coisas eram descartáveis.
Desta vez, no entanto, Alina apenas olhou para a pilha e sentiu uma estranha sensação de alívio.
Ótimo, ela pensou. Me poupa o trabalho de fazer as malas.
Ela voltou para seu quarto, exausta, e caiu em um sono profundo e sem sonhos.
Na manhã seguinte, ela acordou e teve que vestir o mesmo vestido simples do dia anterior. Era a única coisa que lhe restava.
Ela desceu para o café da manhã. Cecília estava à mesa, tomando seu chá, com um ar presunçoso no rosto.
"Oh, olhe", Cecília zombou, olhando para o vestido de Alina. "Ainda usando as roupas de ontem? Suponho que seja tudo o que você pode pagar. Algumas pessoas não têm vergonha."
Dante também estava lá, parecendo impaciente. "Alina, pegue minha pasta. E minha gravata, a azul. Tenho uma reunião cedo."
No passado, ela teria se apressado em obedecer, uma serva silenciosa e eficiente. Teria pego suas coisas, ajeitado sua gravata e entregado sua pasta com um sorriso esperançoso.
Desta vez, ela passou por ele sem uma palavra e serviu-se de um copo d'água.
Ele a encarou, estupefato. "Você não me ouviu?"
Alina tomou um gole lento de água, depois se virou para encará-lo. Seus olhos estavam frios e claros.
"Pegue você mesmo", disse ela.
A sala inteira ficou em silêncio. O queixo de Cecília caiu. Dante parecia que ela o havia esbofeteado.
"O que você acabou de me dizer?", ele exigiu, a voz perigosamente baixa.
"Eu disse, pegue você mesmo", Alina repetiu, a voz uniforme e calma. "Eu não sou sua empregada. E a partir de hoje, não sou mais uma moradora desta casa. Estou indo embora."
Ela colocou o copo na bancada e caminhou em direção à porta, ignorando seus rostos atônitos.
Seu destino era o pequeno alojamento dos funcionários nos fundos da propriedade, onde seu pai morava. O quarto dele era simples, mas limpo. Ele estava sentado em uma cadeira perto da janela, parecendo pálido.
Os saltos baratos que ela ainda usava apertavam seus pés a cada passo, uma dor aguda e lancinante que subia por sua perna. Ela estremeceu, a dor física um eco surdo da agonia em seu coração.
As palavras de Dante de ontem ecoavam em seus ouvidos: "Não se atreva a tentar me culpar com isso."
Todos os seus sacrifícios, todo o seu amor, reduzidos a uma mera chantagem emocional.
Quando chegou ao quarto de seu pai, a visão de sua forma frágil foi a rachadura final em sua compostura. As lágrimas que ela vinha segurando finalmente se libertaram.
Ela correu para ele, enterrando o rosto em seu colo, e soluçou.
"Pai... me desculpe", ela chorou, o corpo tremendo. "Sinto muito, muito mesmo."
O Sr. Rodrigues, um homem gentil com um coração fraco, acariciou seus cabelos suavemente. "Está tudo bem, Lina. Não é sua culpa. Você deveria ter ido embora há muito tempo."
"Nós vamos embora, pai", disse ela, olhando para ele, o rosto manchado de lágrimas. "Vamos embora hoje. Juntos."
"Bom", disse ele, um sorriso triste no rosto. "Essa é a minha garota."
Ela tomou a decisão naquele exato momento. Nunca mais poria os pés na mansão dos Monteiro.
Depois de se recompor, ela foi se despedir dos outros funcionários, as poucas pessoas que lhe mostraram bondade. Enquanto caminhava de volta pela casa principal, Cecília bloqueou seu caminho.
"Onde você pensa que vai?", Cecília gritou, o rosto contorcido de raiva. "Sua pirralha ingrata! Depois de tudo que fizemos por você!"
Alina a ignorou e tentou passar.
Cecília, em um acesso de fúria, a empurrou com força.
"Não se atreva a me dar as costas!"
Alina tropeçou, seu corpo fraco pelo esgotamento e pela turbulência emocional. O empurrão a fez cair no chão de mármore.
Ao cair, a parte de trás de seu vestido subiu, expondo sua pele.
Um suspiro coletivo percorreu a sala. Isabela, que observava de lado, soltou um grito agudo.
Descendo pelas costas de Alina, de sua omoplata até a cintura, havia uma cicatriz longa, irregular e feia. Era a cicatriz do enxerto de pele que ela havia se submetido secretamente para ajudar a curar as queimaduras nas costas de Dante após o acidente, uma doação que ele nunca soube.
Isabela apontou um dedo trêmulo. "O que é isso? É horrível!"
Dante, que havia seguido a comoção, encarou a cicatriz. Sua primeira reação, instintiva, foi de nojo. Ele recuou, dando um passo para trás, o rosto uma máscara de repulsa.
Ele puxou Isabela para trás dele, protegendo-a como se Alina fosse algum tipo de monstro.
Alina caiu no chão, o mármore frio chocando sua pele. Seu primeiro instinto foi puxar o vestido para baixo, para esconder a cicatriz, para esconder sua vergonha.
A voz cruel de Cecília cortou o ar. "Nojento! Ter uma coisa tão horrenda no corpo. Não é de se admirar que você não consiga encontrar um homem. Você está danificada."
Alina congelou. Ela parou de tentar se cobrir. Lentamente, levantou a cabeça e olhou para Dante.
Ela o observou proteger Isabela, viu a repulsa indisfarçável em seus olhos. Este era o homem que ela havia salvado, o homem por quem ela havia sacrificado seu corpo e seu futuro.
Sua voz tremeu quando ela perguntou: "Você também acha nojento, Dante?"
Ele não respondeu. Apenas segurou Isabela com mais força, seu silêncio uma confirmação mais alta que qualquer palavra.
"Tire-a de perto de mim", ele murmurou, os olhos fixos no rosto pálido de Isabela. "Ela está assustando a Isabela."
Um som, como vidro quebrando, ecoou na sala silenciosa. Era a risada de Alina. Começou como uma risada baixa e cresceu até se tornar um som selvagem e desesperado que era mais soluço do que risada.
Cinco anos. Cinco anos de devoção, de sacrifício, de amor. E tudo se resumia a isso. Ele olhou para ela, para a prova de seu sacrifício gravada em sua pele, e tudo o que sentiu foi nojo.
"Fora!", Cecília gritou, apontando para a porta. "Tire seu corpo nojento da minha casa!"
Caio Silva, um jovem segurança leal ao pai de Alina, deu um passo à frente. "Sra. Monteiro, essa cicatriz é porque..."
"Caio, pare", disse Alina, a voz subitamente calma. A risada havia morrido, deixando para trás uma quietude perturbadora.
Os olhos de Dante se estreitaram, vendo-a falar com outro homem. "Do que vocês dois estão cochichando? Caio, você está demitido! Fora!"
Ele caminhou até Alina, agarrando seu braço e a puxando para cima.
"Você esteve brincando comigo todo esse tempo, não é?", ele cuspiu, o rosto perto do dela. "É o seu novo truque? Tentar ganhar simpatia com alguma cicatriz velha?"
Ele a arrastou em direção ao seu pequeno quarto nos fundos da casa, seu aperto como ferro. A última gota de seu amor por ele virou pó.