Sozinha no apartamento silencioso da Barra da Tijuca, senti as primeiras dores do parto naquela madrugada. Era uma noite atípica, abafada demais para o mês de junho. O ar parecia parado dentro dos cômodos, pesado, difícil de respirar. Eu havia despertado com uma pressão incômoda no ventre, mas, ainda sonolenta, pensei que fosse apenas mais um desconforto da gravidez. Tentei mudar de posição na cama, puxei o travesseiro para debaixo da barriga e fechei os olhos novamente.
Então, a dor veio.
Começou nas costas, atravessou minha coluna e se fechou ao redor do ventre como um cinturão de ferro. Prendi a respiração, apertando o lençol entre os dedos. O corpo inteiro se enrijeceu. Por alguns segundos, não consegui pensar em nada. Quando a contração diminuiu, soltei o ar devagar e procurei me convencer de que ainda não era a hora. Foi quando senti o líquido quente e pegajoso escorrer por minhas pernas e encharcar o pijama.
Olhei para baixo, assustada. Meu coração disparou de tal maneira que parecia bater dentro da garganta. A bolsa havia rompido. Eu estava sozinha, sem minha mãe, sem telefone celular, sem ninguém por perto que pudesse ouvir se eu gritasse. Outra dor me dobrou antes que eu conseguisse sair da cama.
Apoiei uma das mãos na parede e a outra sob a barriga. Meu corpo parecia não me pertencer. Cada passo até a sala exigiu um esforço que eu não sabia possuir. O ventre estava pesado, duro, e a bebê se movia dentro de mim, como se também procurasse uma saída. Não consegui evitar o medo de que alguma coisa desse errado. Eu havia sobrevivido a um acidente, passado três meses em coma e acordado do outro lado do mundo carregando aquela criança em meu ventre. Agora, depois de tudo, temia não conseguir trazê-la à vida.
Sem pensar, alcancei o telefone da sala e liguei para pedir ajuda.
- Tia, por favor, me ajude. Acho que o nenê vai nascer.
Minha voz saiu entrecortada, quase irreconhecível. Eu respirava pela boca e tentava não chorar.
- Onde está sua mãe?
- Viajou para São Paulo, tratar de negócios.
Ouvi minha tia soltar uma exclamação do outro lado da linha.
- Deus! Você já está de nove meses e só tem seis que saiu de um coma. Estou indo, mas devo demorar uns vinte minutos. Como estão as contrações? De quanto em quanto tempo?
Fechei os olhos, tentando calcular, mas outra pontada subiu pelas costas e explodiu no baixo ventre. O telefone quase escapou da minha mão.
- Não sei, tia. Só sinto dor... É como se uma faca estivesse saindo de dentro de mim e me apunhalando na coluna.
- Já estou pegando o carro. Sabe o hotel onde sua mãe está ou o celular dela?
- Ela não quer celular e eu também não tenho um. O que faço?
Minha voz falhou. Naquele instante, senti-me pequena, frágil e abandonada, apesar de carregar uma vida dentro de mim.
- Espere-me. Não faça esforço. Respire. Estou indo o mais rápido que puder.
A ligação terminou, mas eu continuei segurando o aparelho junto ao ouvido, como se aquela voz ainda pudesse me proteger. Depois o deixei cair sobre o sofá e me apoiei no encosto. Não vi o tempo passar.
Entre uma contração e outra, eu tinha a impressão de que adormecia por alguns segundos, não por cansaço, mas porque a dor roubava minha consciência. Quando melhorava, eu respirava fundo, tentando reunir forças. Porém, o intervalo se tornava cada vez menor. Meu ventre endurecia, pressionava meus quadris e fazia minhas pernas tremerem. O suor escorria pelas têmporas, embora eu sentisse frio. Queria minha mãe. Queria alguém segurando minha mão. Queria ouvir que tudo ficaria bem.
A campainha tocou. Tentei caminhar até a porta, mas uma contração violenta me derrubou. Atendi com um grito de dor, de joelhos no chão, agarrada à maçaneta.
- Isabella!
Minha tia entrou e se abaixou ao meu lado. Seu rosto perdeu a cor quando me viu.
- Meu Deus, você está encharcada. Há quanto tempo a bolsa rompeu?
- Não sei... Não sei de nada, tia. Só faça isso parar.
- Vai ficar tudo bem. Olhe para mim. Respire.
Ela me ajudou a levantar, passou meu braço por seus ombros e me conduziu até o sofá. Depois correu para o quarto, fez uma mala para mim e para o bebê, pegando roupas quase ao acaso. Enquanto ela se movimentava pelo apartamento, eu ouvia gavetas abrindo, portas batendo e sua voz repetindo que tudo daria certo, embora o pânico estivesse estampado em cada palavra. Saímos em disparada para o hospital.
No carro, o trajeto pareceu interminável. Cada lombada fazia meu corpo se romper um pouco mais. Apertei o cinto, cravei as unhas no banco e tentei controlar a respiração. Minha tia dirigia depressa, lançando olhares preocupados em minha direção.
- Fique comigo, Isa. Não feche os olhos.
- Eu não aguento mais.
- Aguenta, sim. Sua filha precisa de você.
Aquelas palavras me fizeram levar as mãos ao ventre. Minha filha. Eu precisava resistir por ela. Já havíamos sobrevivido juntas a coisas que pareciam impossíveis. Não seria naquela madrugada que eu desistiria. Quando chegamos ao hospital, minha tia pediu ajuda, mas a recepcionista ainda olhou para mim com desconfiança. Meu rosto jovem enganava; todos pensavam que eu era menor de idade. Eu mal conseguia permanecer em pé. A dor vinha em ondas, arrancando o ar dos meus pulmões.
- Quem é a responsável por você?
- Ela é maior, só tem essa carinha de bebê asiática. O documento dela está aqui - minha tia quase enfiou a identificação no colo da atendente.
- Eu tenho um nome brasileiro. Isabella - consegui dizer, irritada e ofegante.
- Obrigada, mas não dou conta de ler esse nome, não. Tem outra Carteira de Identidade que seja brasileira? A senhora me entregou o documento errado.
Minha tia bateu a mão no balcão.
- Senhora, faça o que tem que fazer! Essa criança vai nascer aqui se não agilizarmos. A médica dela é a doutora Beatriz. Tem como ligar para ela?
Titia falava com a voz brava, mas o medo fazia suas mãos tremerem.
- Ela está de plantão. Já mandei chamar.
Uma enfermeira apareceu com uma cadeira de rodas. Sentei-me com dificuldade e fui levada às pressas para a sala de avaliação. Quando a médica examinou a dilatação, arregalou os olhos.
- Essa bebê está com pressa. Vamos levá-la para a sala de parto.
- Doutora, eu estou com medo.
A doutora Beatriz segurou meu rosto entre as mãos e me obrigou a encará-la.
- Eu sei, Isa. Mas você não está sozinha. Escute minha voz. Quando a contração vier, respire e faça força apenas quando eu mandar.
As duas horas seguintes pareceram uma vida inteira.
A dor já não tinha começo nem fim. Ela tomava meu corpo, queimava minhas costas, esmagava meus quadris e rasgava meu ventre por dentro. A cada contração, eu acreditava ter chegado ao meu limite. Então vinha outra, ainda mais intensa, provando que existia uma dor maior. Eu gritava, chorava e pedia para parar, mas ninguém podia interromper aquele processo.
Titia permanecia ao meu lado e deixava que eu apertasse sua mão.
- Eu não consigo! - gritei.
- Consegue, sim. Você já enfrentou a morte. Fez essa menina sobreviver dentro de você enquanto estava em coma. Não pare agora. A doutora pediu que eu fizesse força. Obedeci. Senti o corpo se abrir, uma pressão insuportável, como se eu estivesse sendo partida ao meio. Gritei o nome de minha mãe. Gritei que não queria mais. Gritei pelo homem que não estava ali e que talvez nem soubesse que sua filha estava nascendo.
- Mais uma vez, Isa! Ela está quase aqui!
Reuni o que restava de mim. Segurei o ar, fechei os olhos e empurrei com toda a força que ainda possuía. A dor atingiu o ponto máximo e, de repente, transformou-se em um grande vazio. Por um segundo, houve silêncio. Meu coração parou junto com o tempo. Então, o choro da bebê ocupou a sala. Era um som pequeno e forte, indignado, vivo. Abri os olhos e comecei a chorar antes mesmo de vê-la. A doutora Beatriz a ergueu por alguns instantes. Ela estava avermelhada, com os cabelos escuros grudados na cabeça e os olhos puxadinhos quase fechados. Linda. Perfeita. Minha.
Quando a colocaram sobre meu peito, o calor de seu corpo afastou toda a dor. Toquei suas costas com a ponta dos dedos, com medo de que fosse um sonho. Ela se acalmou ao ouvir minha voz e procurou se aninhar junto a mim.
- Oi, meu amor - sussurrei. - A mamãe está aqui.
A linda bebê de olhos puxados nasceu duas horas depois de minha chegada ao hospital. A doutora Beatriz, que vinha cuidando de mim desde o início de minha vida no Brasil, ficou emocionada.
- Isa, ela é linda, perfeita. Você ficou em coma durante três meses, do outro lado do mundo. Acordou, se curou, e essa bebê sobreviveu em seu ventre, mesmo enquanto você estava adormecida e doente. Ela veio para completar sua vida. Só falta o pai para pegá-la nos braços.
Minha tia, ao meu lado, apertou minha mão com força. O momento de paz se desfez. A lembrança dele atravessou meu peito com uma dor diferente, que nenhum remédio poderia aliviar.
- Depois do acidente, nunca mais me lembrei de nada referente ao cara que é pai de minha filha. Quero me esquecer, senhora. Essa criança não o merece como pai. É só o que posso dizer.
Minha voz saiu amarga. Eu não sabia se mentia para a médica ou para mim mesma. Às vezes, lembrava-me de seu sorriso com tanta nitidez que chegava a doer. Em outras, desejava apagar tudo o que havíamos vivido.
- Desculpe, não queria me intrometer. Achei que tivesse sido um relacionamento com amor. Vejo que não.
Olhei para minha filha sobre meu peito. Ela respirava tranquila, sem conhecer rejeição, saudade ou abandono.
- Até foi. Mas ele, capacho do pai e da irmã, não lutou por mim. Cortou-me da vida dele sem nem olhar para trás. Deixe-me ficar com minha filha, por favor.
A doutora a acomodou melhor em meus braços.
- Como ela vai se chamar?
Passei o dedo pela pequena bochecha. O nome já vivia dentro de mim havia meses.
- Byeol. Significa estrela.
- Mas não é um nome brasileiro.
- Aqui ela se chamará Estrela.
Ao dizer o nome em voz alta, percebi que era perfeito. Ela havia brilhado dentro de mim quando tudo era escuridão. Sobrevivera ao coma, ao acidente, à viagem e à minha tristeza. Agora iluminava meus braços.
- Hoje você ficará no hospital. Foi parto normal, então, logo cedo, ao final do meu plantão, eu a libero. Agora essa nenê vai para o berçário, para que a mamãe possa descansar.
Apertei minha filha contra o peito, tomada por um medo irracional de que pudessem levá-la e não a trouxessem de volta.
- Estrela, doutora.
A médica sorriu.
- Estrela.
- Vamos, Estrela. A mais linda do céu e de sua mãe - falou a enfermeira, saindo com a médica.
Acompanhei minha filha com os olhos até a porta se fechar. O quarto pareceu vazio demais sem ela. Todo o cansaço caiu sobre mim de uma vez, mas, ainda assim, não consegui dormir.
Passei a noite em claro. Quando trouxeram Estrela para mamar, senti uma emoção indescritível. Seu rostinho procurou meu peito por instinto, e eu chorei ao perceber a confiança com que ela se aconchegava em meus braços. Eu era tudo o que ela tinha. E, a partir daquele instante, ela também se tornava tudo para mim.
Depois que minha tia adormeceu na cama ao lado, virei o rosto para a janela e chorei em silêncio. Era uma saudade mesclada com decepção, raiva e amor. O nascimento de Estrela deveria ter preenchido todos os espaços dentro de mim, mas havia um lugar ferido que ainda pertencia ao passado. Enquanto tentava conter os soluços para não acordar minha tia, relembrei os momentos lindos de um grande amor. Vi o sorriso dele, o jeito como me olhava e as promessas que fizemos quando acreditávamos que nada poderia nos separar.
Olhei para o berço ao lado da cama, colocado depois de todos os procedimentos realizados no berçário. Estrela dormia com uma das mãos fechadas junto ao rosto. Na delicadeza de seus traços, havia muito dele. Aquilo me feriu e me consolou ao mesmo tempo.
- Nós duas vamos ficar bem - sussurrei. - Eu prometo.
Mesmo sem saber como, naquela madrugada fiz minha primeira promessa como mãe. Criaria minha filha cercada de amor. Ela jamais sentiria que fora abandonada. E, ainda que meu coração continuasse preso às lembranças de alguém que não lutara por nós, eu encontraria forças para construir uma nova vida. Por Estrela, eu sobreviveria outra vez.
Bae-Te-Mi
Se formos comparar com o padrão atual, a família Kim, a minha família, pertencia à classe média. Não éramos ricos, mas também nunca vivemos em situação de miséria. Mamãe era coreana; papai, brasileiro, descendente de coreanos e filho de imigrantes que foram para o Brasil na década de 70, levando poucas malas, muitos sonhos e a coragem de começar uma vida inteira em outro país. Meus pais se conheceram na faculdade, quando meus avós paternos mandaram papai de volta ao país de origem da família. O objetivo era dar a ele uma educação melhor, aproximá-lo das raízes e, principalmente, salvar aquela pobre alma da esbórnia em que parecia decidido a viver. Na cabeça de meus avós, Seul, os estudos e a disciplina fariam dele um homem responsável. O que eles não imaginavam era que, naquele mesmo lugar, ele encontraria o amor e mudaria o rumo de toda a família.
No ensino médio, papai já era o terror das meninas. Alto, musculoso, de cabelos lisos, sorriso fácil e um jeito galanteador que parecia natural, ele chamava a atenção por onde passava. Todas se apaixonavam, suspiravam pelos corredores e quase vendiam a alma por um beijo escondido no ginásio de esportes, longe dos olhos dos professores.
E o rapaz ainda era tão inteligente que, mesmo levando a vida com uma despreocupação irritante, tirava notas boas e escapava das broncas mais sérias. Por trás daquela aparência de bom moço, porém, existia um moleque que adorava uma farra, gostava de andar pelas ruas com um grupo de amigos e acreditava que a juventude jamais terminaria. Os companheiros fumavam, bebiam e sempre encontravam alguma festa, algum bar ou alguma confusão para transformar uma noite comum em aventura. Papai acompanhava tudo com entusiasmo, para desespero de meus avós.
Assim, meus avós o enviaram para a casa de meus bisavós, para fazer o último ano do ensino médio em Seul e se preparar para entrar em uma boa universidade. A mudança não foi apresentada como escolha, mas como a última tentativa de colocá-lo nos trilhos. Os pais queriam que ele se tornasse juiz ou médico renomado, alguém com uma profissão respeitada, salário seguro e um título capaz de encher a família de orgulho. Entretanto, não se pode controlar o destino, muito menos obrigar um espírito criativo a caber dentro de um plano pronto. Papai se tornou artista. Tinha talento, sensibilidade e mãos capazes de transformar ideias em beleza, mas não se deu muito bem na parte comercial. Não sabia empreender, cobrar pelo próprio trabalho ou transformar inspiração em um negócio estável. Ainda assim, foi com ele que aprendi a desenhar, observar detalhes e não desistir de uma criação só porque a primeira tentativa deu errado. No fim, eu, sua única filha, consegui voar alto apoiada justamente nos ensinamentos que ele me passou, mesmo sem perceber que estava preparando minhas asas.
No primeiro ano de faculdade, ele conheceu mamãe. Apaixonou-se com a rapidez de quem nunca teve paciência para viver nada pela metade. Em apenas um ano, sem preparar discursos, pedir bênçãos ou dar aos pais qualquer possibilidade de interferência, limitou-se a avisar: - Casei-me. Foi outra grande decepção para meus avós, talvez maior do que o abandono das carreiras que haviam escolhido para ele. Mas, como diz o ditado, o que não tem remédio, remediado está. O jeito foi aceitar a jovem esposa, engolir as expectativas frustradas e, ao mesmo tempo, libertar o filho das obrigações que até então assumiam por ele.
A resposta de vovô foi tão curta quanto o comunicado do casamento e muito mais dura: - Agora é por sua conta. Vire-se. A partir daquele instante, papai deixou de ser apenas o filho rebelde protegido pelo dinheiro da família. Precisava sustentar a casa, cuidar da mulher que amava e aprender, na prática, o preço das próprias escolhas.
Vivemos uma vida sem grandes provações materiais, mas sempre com o dinheiro contado. As contas eram pagas, havia comida na mesa e nunca me faltou o essencial, embora qualquer gasto fora do planejamento exigisse conversa, cálculo e, muitas vezes, renúncia. Mamãe também era artista, designer de interiores, e possuía um olhar especial para cores, espaços e formas. Ainda assim, só conseguiu alavancar de verdade a carreira nesse ramo quando viemos para o Brasil, onde encontrou mais oportunidades e liberdade para mostrar seu talento. Eu cheguei ao mundo em uma noite quente de vinte e três de junho. Na maternidade, mamãe dividiu o quarto com outra jovem muito bonita, que também aguardava o momento de conhecer o filho. Não me lembro de nada, é claro. Soube dessa história ao ler um diário antigo, encontrado por acaso, perdido na escuridão de uma despensa lá de casa, entre caixas empoeiradas, objetos esquecidos e lembranças que pareciam não querer ser encontradas.
A mulher também deu à luz naquele mesmo dia. Para ela, era o segundo filho; já tinha uma menina de cinco anos, que, mais tarde, se tornaria o terror de minha existência na Coreia do Sul. Naquela noite, porém, nossas mães eram apenas duas jovens cansadas, emocionadas e assustadas com os bebês recém-nascidos nos braços. Conversaram, dividiram confidências e acabaram criando uma proximidade breve, daquelas que parecem destinadas a desaparecer assim que cada uma deixa o hospital. E foi o que aconteceu.
Até os cinco anos, não nos vimos mais. Morávamos em regiões opostas: nós, no Norte; eles, no Sul. A distância, a rotina e as obrigações apagaram o contato, até que papai recebeu uma proposta de trabalho. Como coincidência não existe - ou pelo menos gosto de acreditar que não -, a linha do destino, ou outra força qualquer, amarrou novamente nossas histórias. Mudamos de bairro e fomos morar exatamente na mesma rua, na casa em frente à da antiga companheira de quarto de mamãe. Entre tantos bairros, tantas ruas e tantas casas em Seul, fomos parar diante da única família que já havia dividido conosco o início de uma vida.
No dia da mudança, tudo estava escuro na casa da frente. As janelas permaneciam fechadas, o portão imóvel e nenhum ruído denunciava que alguém morasse ali. Nunca imaginamos o que o destino nos reservava atrás daquela fachada silenciosa. Na manhã seguinte, um sábado de outono iluminado pelo sol, fomos à praça arejar os ânimos e descansar um pouco da bagunça das caixas, antes que o pior do inverno chegasse. O vento já soprava frio, mas o céu estava claro e convidativo. Como toda criança, brinquei, corri, pulei e inventei mundos até me cansar. Mesmo ofegante, eu continuava aos pulos quando um carro parou diante da casa da frente. As portas se abriram e uma família começou a descer, carregando bolsas e conversando entre si. Eu cantava para mamãe, sem qualquer vergonha, repetindo uma música que havia aprendido havia pouco.
A mulher, ao ouvir aquela voz infantil e olhar em nossa direção, primeiro diminuiu o passo. Depois ficou imóvel por um instante, observando o rosto de mamãe como quem procurava uma lembrança antiga. Reconheceu-a quase de imediato. A surpresa em seus olhos foi tão grande que parecia que os anos entre a maternidade e aquela manhã haviam desaparecido de uma só vez.
A mulher atravessou a rua apressada, ainda olhando para mamãe com uma expressão espantada, como se não acreditasse no que via. Quando chegou perto de nós, parou por alguns segundos, tentando confirmar se aquela lembrança antiga não era apenas uma peça pregada pela memória.
- É a senhora do hospital, não é? A jovem que dividiu o quarto comigo na maternidade? Como está?
Mamãe também pareceu surpresa. Abriu um sorriso cordial e segurou as mãos da mulher, reconhecendo nela a antiga companheira de quarto.
- Sou eu, sim. Que coincidência a encontrar depois de tantos anos! Estou bem, e você? - perguntou mamãe, cumprimentando-a com carinho. Depois apontou para a nossa casa. - Vocês moram aqui? Nós nos mudamos ontem para a casa da frente.
- Moramos aqui há algum tempo. Não acredito que serão nossos novos vizinhos! Quando ouvi sua filha cantando, achei a voz tão bonita que olhei para cá. Então reconheci você. Está diferente, é claro, mas o rosto continua o mesmo.
- E você também não mudou tanto assim - respondeu mamãe, sorrindo. - Parece que foi ontem que estávamos naquele quarto, cada uma com seu bebê nos braços.
Enquanto as duas conversavam, olhei para o menino que permanecia um pouco atrás da mãe. Ele mantinha a cabeça baixa e as mãos unidas diante do corpo, como se desejasse ficar invisível. Parecia desconfortável com toda aquela conversa de adultos e, de vez em quando, levantava os olhos apenas o suficiente para me observar. Não esperei que alguém nos apresentasse. Aproximei-me dele com a facilidade de quem, aos cinco anos, ainda não conhecia vergonha ou cerimônia.
- Sou Bae-Te-Mi. E você, como se chama?
Ele demorou um pouco para responder. Primeiro olhou para a mãe, talvez esperando que ela falasse por ele. Depois voltou os olhos para o chão e mexeu a ponta do sapato sobre a calçada.
- Sung-Jin - respondeu com a voz tão baixa que quase não consegui escutar.
Inclinei o corpo para a frente, tentando enxergar melhor seu rosto.
- Sung-Jin? É um nome bonito. Você mora mesmo naquela casa?
Ele apenas confirmou com a cabeça.
- E você estuda aqui perto?
Outra vez, ele balançou a cabeça afirmativamente. Era realmente muito tímido. Suas respostas pareciam ficar presas na garganta antes de conseguirem sair. Mesmo assim, percebi que continuava me observando por baixo da franja.
- Você não fala muito, não é? - perguntei.
Ele levantou os olhos por um instante, surpreso com minha sinceridade.
- Falo.
- Então fale comigo.
- Não sei o que dizer.
- Pode dizer que quer ser meu amigo.
Ele finalmente esboçou um sorriso, pequeno e contido.
- Mas eu ainda não conheço você.
- Conhece, sim. Eu acabei de dizer meu nome e moro na casa da frente. Já é suficiente.
Estendi a mão para ele com toda a segurança que uma criança poderia ter.
- Vamos ser amigos.
Sung-Jin olhou para minha mão, depois para meu rosto. Pareceu pensar seriamente sobre a proposta, como se aquela fosse uma decisão muito importante. Por fim, segurou meus dedos com cuidado.
- Vamos ser amigos - repetiu.
- Pronto. Agora você já tem uma amiga nova.
- E você tem um amigo novo - acrescentou ele, ainda falando baixo.
- Então venha brincar comigo. Tenho brinquedos dentro das caixas, mas ainda não sei em qual delas. Podemos procurar.
Pela primeira vez, ele ergueu a cabeça de verdade. Havia curiosidade em seu olhar.
- Sua casa está cheia de caixas?
- Muitas. Parece até um labirinto. Ontem quase não encontrei meu quarto.
Ele soltou uma risadinha, e aquela foi a primeira vez que ouvi o som de sua alegria.
Enquanto isso, nossas mães continuavam conversando, relembrando a maternidade, o nascimento dos filhos e os anos em que ficaram sem notícias uma da outra. Quando perceberam, já atravessávamos a rua juntos, como se a amizade estivesse decidida muito antes daquele encontro.
- Mamãe, Sung-Jin vai brincar comigo! - anunciei.
- Vai? E você perguntou à mãe dele se pode?
Olhei para a mulher, esperando a autorização.
- Pode, sim - respondeu ela, sorrindo. - Mas não incomode.
- Ele não incomoda. É muito quieto.
Sung-Jin ficou vermelho e baixou novamente a cabeça.
- Bae-Te-Mi, não deixe o menino sem graça - repreendeu mamãe, embora estivesse segurando o riso.
Pouco depois, já estávamos todos em nossa casa. Mamãe precisou afastar algumas caixas para abrir espaço na sala. Preparou chá quente para as duas, e o vapor subiu das xícaras enquanto elas continuavam a conversar como se tentassem recuperar, em uma única tarde, todos os anos em que permaneceram afastadas.
Eu e o menino tímido ficamos na sala, sentados no chão diante da televisão ligada. No começo, Sung-Jin permaneceu calado, com as pernas cruzadas e as mãos apoiadas nos joelhos. Eu falava pelos dois, mostrava meus brinquedos, contava sobre a mudança e reclamava das caixas espalhadas pela casa.
- Você sempre fala tanto assim? - ele perguntou depois de algum tempo.
- Sempre. E você sempre fala tão pouco?
- Quase sempre.
- Então vai dar certo. Eu falo e você escuta.
- E quando eu quiser falar?
- Eu deixo.
Ele riu novamente.
Nem preciso dizer que nossas mães se tornaram amigas inseparáveis. A antiga proximidade, nascida naquele quarto de hospital, voltou com ainda mais força. Passaram a tomar chá juntas, fazer compras, trocar receitas e dividir preocupações sobre os filhos. Se uma precisava de ajuda, a outra atravessava a rua sem cerimônia. Com o passar dos meses, as duas casas pareciam uma só.
Não se podia dizer o mesmo de nossos pais. Eles trabalhavam o dia inteiro, saíam cedo e voltavam tarde. Mal se encontravam e, quando isso acontecia, limitavam-se a cumprimentos educados e conversas curtas. Acredito que nunca gostaram verdadeiramente um do outro. Não chegavam a brigar, mas existia entre eles uma distância silenciosa, uma espécie de antipatia escondida sob a boa educação. Talvez fossem apenas diferentes demais para construir a mesma amizade que unia nossas mães.
A partir daquele dia, eu e Sung-Jin também nos tornamos inseparáveis. Brincávamos na rua, fazíamos as refeições juntos e atravessávamos de uma casa para a outra como se não existisse portão entre elas. Eu o tirava da solidão e ele, com seu jeito tranquilo, diminuía um pouco minha agitação. Quando eu me metia em alguma confusão, era Sung-Jin quem tentava me impedir. Quando ele se escondia do mundo, era eu quem o puxava pela mão.
- Venha, Sung-Jin. Não tenha medo.
- Não estou com medo.
- Está, sim.
- Só estou pensando.
- Você pensa demais.
- E você não pensa antes de fazer nada.
- Por isso somos amigos. Um compensa o outro.
Estudamos na mesma escola durante toda a infância. No ensino fundamental, dividimos carteiras, tarefas, brincadeiras e pequenos segredos. Ele continuou tímido com quase todo mundo, mas nunca comigo. Ao meu lado, falava, ria e até discutia quando eu exagerava. Eu conhecia o significado de cada silêncio dele, e Sung-Jin sabia reconhecer meu humor apenas pelo modo como eu atravessava o portão de casa.
Até o final do ensino fundamental, tudo foi tranquilo. Éramos apenas duas crianças que cresceram juntas, unidas por uma amizade que parecia indestrutível. Depois veio a adolescência, acompanhada de suas descobertas, inseguranças e sentimentos difíceis de explicar. No ensino médio, os olhares começaram a demorar mais do que deveriam, os silêncios ganharam outros significados e a amizade, tão simples durante tantos anos, passou a esconder algo que nenhum de nós tinha coragem de dizer.
Tudo permaneceu tranquilo até o dia em que...
- Filha, acorde. Em que estava pensando? Você parecia tão distante... - mamãe se aproximou do berço e sorriu. - Byeol é linda, igual à vovó.
Abri os olhos devagar, ainda presa às lembranças que rondavam minha cabeça.
- Oi, mamãe. A que horas chegou?
- De madrugada. Sua tia conseguiu falar comigo e vim assim que pude. A médica disse que já vai liberar você. - Ela me observou por alguns segundos, desconfiada. - Você estava sonhando acordada. Acho até que falou o nome daquele rapaz.
Desviei o olhar para minha filha, dormindo tranquila no berço ao lado.
- Deve ter sido impressão sua.
- Não foi. Filha, esqueça esse homem. Ele não merece você, muito menos essa criança. Lembre-se sempre das palavras que ouviu da boca dele e do acidente que sofreu depois de sair transtornada. Byeol tem você, seus avós e sua tia. Não precisa de um pai que virou as costas para as duas. Ele é um...
- Eu já tenho raiva suficiente dele, mamãe. Pode ficar em paz. Não precisa fazer elogios tão bonitos a seu respeito.
Ela respirou fundo e decidiu não continuar. Aproximou-se do berço outra vez, ajeitou a manta sobre o pequeno corpo e tocou delicadamente a bochecha da neta.
- E essa neném da vovó? Linda demais. Parece até uma bonequinha. - Depois se voltou para mim. - Filha, estive pensando... Vamos ensinar somente português para ela. Para que incentivá-la a voltar a um país que lhe traz lembranças tão dolorosas?
- Mamãe, nós ainda não sabemos falar português tão bem. Eu mesma me confundo com algumas palavras. Vamos ensinar as duas línguas. O coreano faz parte de quem somos e não tem culpa do que aconteceu comigo.
- Tenho medo de que, um dia, ela queira voltar para lá.
- Se isso acontecer, será uma escolha dela. Não quero criar minha filha com medo de um país ou presa às dores que são minhas. Além disso, ela precisa conseguir conversar com a senhora sem dificuldade.
Mamãe lançou um olhar indignado para mim.
- Está dizendo que meu português é ruim?
- Estou dizendo que o nosso português ainda precisa melhorar - respondi, contendo um sorriso. - Depois que nós duas aprendermos melhor, podemos usar mais o idioma daqui, onde vamos viver. Mas Estrela conhecerá suas duas origens.
- Estrela? - mamãe repetiu, olhando para a menina. - Então decidiu mesmo chamá-la assim?
- Aqui, sim. Byeol na Coreia e Estrela no Brasil. Os dois nomes terão o mesmo significado.
Mamãe sorriu, vencida.
- Combina com ela. Essa menina chegou para iluminar nossa vida.
Voltei para casa naquele mesmo dia. Era uma jovem de dezoito anos, com uma filha nos braços e sem o pai dela ao nosso lado. A partir dali, seríamos nós duas contra todas as dificuldades que aparecessem. Eu precisava amadurecer, crescer profissionalmente e encontrar uma maneira de sustentá-la sem depender para sempre de meus pais ou de minha tia.
Estrela havia sobrevivido comigo a um acidente, a três meses de coma e a uma mudança para o outro lado do mundo. Depois de toda aquela luta, eu faria o possível para que ela brilhasse. Seu nome não seria apenas bonito; seria também uma promessa.
Eu deixaria de ser a garota patética e incapaz que certas pessoas acreditavam que eu fosse. Não permitiria que as palavras ditas por Sung-Jin continuassem decidindo quem eu era. A dor ainda existia e, por mais que eu tentasse negar, as lembranças dele permaneciam vivas. Porém, agora havia alguém mais importante do que minhas mágoas.
Esperei apenas Estrela completar três meses para começar a trabalhar na loja de bijuterias de titia. Não foi fácil deixá-la em casa nas primeiras semanas. Eu saía com o coração apertado, conferia várias vezes se havia leite suficiente e telefonava sempre que encontrava alguns minutos livres. Entretanto, sabia que aquele esforço era necessário.
Comecei atendendo clientes, organizando vitrines e aprendendo tudo o que podia sobre vendas. Observava cada peça, os gostos das mulheres e a forma como uma joia simples conseguia mudar o brilho no olhar de alguém. Aos poucos, o talento que herdei de papai para o desenho encontrou um caminho.
Foi naquela pequena loja de bijuterias que comecei a construir minha vida. Ali, entre balcões, caixas e cadernos de esboços, dei os primeiros passos para me tornar uma grande empresária. Tudo por mim, mas, acima de qualquer coisa, por Estrela.
Enquanto criava Estrela, também trabalhava muito. Eu havia herdado de papai o dom para o desenho e, enquanto trabalhava como atendente na loja de titia, aproveitava as horas mais tranquilas para desenhar joias. Aos poucos, comecei a mostrar os esboços para algumas clientes da loja.
Na verdade, a primeira vez aconteceu por acaso. Em uma tarde de pouco movimento, com a loja vazia, apoiei o caderno sobre o balcão e comecei a desenhar. Estava tão absorta que não percebi quando uma jovem entrou, parou ao meu lado e fixou o olhar no colar que surgia no papel.
- Que lindo esse colar! É você quem desenha as bijuterias desta loja?
Levantei a cabeça, surpresa com a presença dela.
- Não. As mercadorias são compradas de fornecedores. Esse desenho é meu. Herdei esse dom de meu pai e de minha mãe.
- Você não deveria guardar esse talento só para si. Esse colar merece se tornar uma joia rara, inédita e maravilhosa. Não tenha medo de empreender. Acredito que você ainda vai revolucionar o mundo das joias.
- Obrigada. Fico muito feliz em ouvir isso. Sei que preciso fazer alguma coisa com meus desenhos, mas ainda tenho muitas dúvidas sobre como começar.
- Siga sua intuição. No momento certo, você saberá o que fazer.
A mulher saiu da loja sem olhar nenhuma bijuteria, mas suas palavras indicaram um novo caminho para mim. Naquela mesma hora, comecei a imaginar o que poderia fazer e como transformaria meus desenhos em um negócio. Meu primeiro ato, alguns dias depois, foi mostrar às clientes alguns esboços que eu já guardava.
Minha intenção era contar com a sorte de alguma delas gostar e fazer uma encomenda. Isso, é claro, não aconteceu de imediato. Os primeiros desenhos se transformaram em bijuterias baratas e mais acessíveis, vendidas em grandes quantidades, ainda sem exclusividade ou marca registrada. Foi a primeira ideia que tive. Conversei com titia, ela aceitou a proposta e, juntas, começamos a procurar pessoas especializadas na confecção das peças.
Quando Estrela completou cinco anos, começou a estudar. Eu já ganhava bem, agora como gerente das três lojas de titia, e consegui matriculá-la em uma escola particular. Foi ali que tive minha segunda grande ideia. Ao observar as mães, algumas bem mais velhas e muito mais ricas do que eu, percebi que levavam um padrão de vida elevado. Eram mulheres elegantes, que gostavam de peças bonitas e exclusivas. Entendi que poderia aproveitar aquela oportunidade.
Em uma reunião de pais, levei minha pasta de desenhos, tudo já pensado. Eu havia chegado mais cedo para conversar com a diretora sobre a possibilidade de apresentar minhas criações. Lembro-me de que, parada diante da porta, antes de bater, senti uma enorme insegurança. Ainda assim, uma força maior me empurrou para a frente.
Bati duas vezes.
- Entre, por favor.
Abri a porta e procurei esconder o nervosismo.
- Oi, senhora. Tudo bem? Meu nome é Isabelle. Sou mãe de Estrela.
- Tudo bem. Sente-se. A secretária avisou que você queria falar comigo. É algo particular sobre Estrela? Teremos uma reunião com os pais daqui a pouco.
- É algo particular, mas não é sobre minha menina. É sobre algumas criações que faço. Sou designer de joias e tenho alguns desenhos. Vim pedir uma oportunidade para mostrá-los às mães. Já percebi que muitas delas gostam de joias, inclusive a senhora - falei, apontando para o belo colar que ela usava.
A diretora tocou a peça junto ao pescoço.
- Isto é bijuteria, embora seja um pouco mais elaborada.
- Eu criaria uma bela peça para a senhora, se me desse essa oportunidade. Preciso de apenas cinco minutos.
Ela me observou com interesse.
- Posso ver seus desenhos antes?
- Claro.
Abri a pasta sobre a mesa. Quando a diretora olhou os dois primeiros desenhos, ficou extasiada.
- São realmente muito bonitos.
Meu coração se encheu de esperança.
- Escolha um. O que a senhora escolher, retiro agora mesmo da pasta. Será um desenho exclusivo, criado somente para a senhora.
Ela escolheu o primeiro. Depois de sua fala na reunião, concedeu-me a palavra.
- Mães, vou conceder cinco minutos para Isabelle, a mãe mais jovem deste lugar. Por favor, venha até aqui. Tenho certeza de que vocês gostarão do que ela tem para falar e mostrar.
Com a pasta nas mãos, peguei o microfone. Eu ainda tremia um pouco, mas a mesma força que havia me levado até a sala da diretora me empurrou mais uma vez.
- Boa tarde a todas. Primeiro, peço desculpas se eu cometer algum erro em português. Nasci e morei na Coreia do Sul. Sou filha de pai brasileiro, descendente de coreanos, e de mãe coreana. Durante muitos anos, falei apenas coreano. Estou reaprendendo o português, mas ainda me atrapalho com algumas conjugações verbais.
- Estamos entendendo tudo. Pode continuar - disse uma mãe, curiosa.
Respirei fundo e prossegui:
- Desde que coloquei Estrela nesta escola, observo mães lindas, chiques e elegantes. Contudo, senti que faltava alguma coisa. É isso que posso oferecer a vocês: desenhos de joias exclusivos, criados de acordo com o rosto, o corpo e até o modo de cada mulher se vestir e caminhar. Vou mostrar alguns.
Entreguei a pasta à primeira mãe, que imediatamente olhou os desenhos com admiração.
- Aprendi a desenhar ainda pequena. Meu pai sabe confeccionar as peças, e eu sei desenhá-las. Estes esboços nasceram de inspirações que tive observando vocês, suas roupas, seus gestos e seus sorrisos.
- Isabelle, essas peças são lindas. Você trabalha por encomenda? - perguntou uma delas.
- Sim.
- Quero encomendar esta. Parece ter sido criada para mim - disse uma mãe, vestida com um elegante vestido de seda vermelho. - Esta pulseira.
Sorri, porque ela tinha razão.
- E foi. Observei a senhora e percebi que gosta muito de pulseiras.
Saí da escola com três encomendas. Para mim, aquilo significava muito mais do que três vendas. Era a confirmação de que minhas ideias poderiam conquistar espaço. Ao chegar em casa, contei a papai o que havia feito.
- E sua tia, filha? Ela lhe deu emprego e, em cinco anos, entregou a gerência das lojas a você.
- Pai, já conversei com ela. Não estou fazendo nada escondido. Quero crescer, dar o melhor para Estrela e mostrar meu talento por meio de belas criações.
- E o que sua tia disse?
- Mandou que eu ganhasse dinheiro porque ela está cansada. Pensei que estivesse brincando, mas falou sério. Disse que, apesar do cansaço, só vai parar quando puder vender as lojas para mim. Somente para mim ela fará isso.
Papai permaneceu em silêncio por alguns segundos, até sorrir.
- Bom, então vamos trabalhar. Eu confecciono as peças, e você desenha.
- Quanto vai me cobrar, papai?
- Nada. Só quero que cresça como deseja e crie sua filha para ser uma pessoa maravilhosa, bem diferente do fraco do pai dela.
- Sim, senhor. E pare de falar dele. Parece que o senhor e mamãe fazem questão de ficar me lembrando.
- Não consigo nem imaginar que você ainda sinta alguma coisa por aquele rapaz.
- Aff, pai! Vou dar banho em Estrela. E não enrole, porque temos prazo para entregar as peças.
- E onde vai arranjar dinheiro para comprar o ouro e as pedras?
- Vou dar um jeito. Aguarde.
Encontrei Estrela dentro da banheira, brincando e dando banho em sua boneca. Ela cantarolava baixinho, distraída, enquanto enchia um pequeno recipiente de água e o despejava sobre os cabelos da boneca. Sentei-me perto dela, pronta para ajudá-la, quando minha filha soltou uma pergunta que eu jamais esperava ouvir naquele momento.
- Mamãe, quem é o meu papai?
Minha voz ficou presa na garganta, e minhas pernas começaram a tremer. Por alguns segundos, não soube o que dizer. Lembrei-me de Sung-Ji e de tudo o que havia acontecido. A vontade era de xingá-lo, esmagá-lo com toda a raiva que ainda guardava dentro de mim.
- Filha, por que está me perguntando isso?
Ela parou de brincar e me encarou com seus olhos curiosos.
- Porque, na escola, todo mundo tem papai. Menos eu.
Aquelas palavras apertaram meu coração. Procurei uma resposta que não machucasse uma menina de apenas cinco anos.
- Filha, lembra que a mamãe já contou que sofreu um acidente, ficou dormindo por muito tempo e, quando acordou, não se lembrava de muitas coisas?
- Sim, mamãe.
- Então... a mamãe não se lembra.
Era a desculpa mais esfarrapada da face da Terra, e eu sabia disso. Porém, por ora, teria que bastar. Estrela voltou a brincar, talvez satisfeita apenas por ter recebido uma resposta, mas eu não consegui afastar o peso daquela pergunta.
Mais tarde, no quarto, abri uma gaveta e peguei a última foto que havíamos tirado juntos. Naquele dia, ainda fizemos juras de amor eterno. Sorríamos abraçados, acreditando que nada seria capaz de nos separar. Poucos dias depois, porém, Sung-Ji me disse palavras tão duras que rasgaram meu coração e mudaram para sempre o rumo de nossas vidas.