O cheiro a limão e a flores frescas enchia a casa de Alfama. Preparei o pedido de casamento perfeito para o homem da minha vida, Jacob, com quem partilhava dez anos de amor.
Mas, ao procurar um isqueiro, as minhas mãos tremeram ao encontrar uma caixa secreta: dentro, a certidão de casamento de Jacob Gordon. O nome da noiva, para meu horror, não era o meu. Era Nancy Contreras, e a data, de há três anos.
Comecei a tremer quando vi a fotografia: Nancy era assustadoramente parecida comigo, até tinha o mesmo sinal distintivo. Mal tive tempo de assimilar a traição quando recebi uma chamada: a minha candidatura para o tratamento experimental da doença degenerativa foi aceite. A mesma doença que eu escondia de Jacob.
O meu mundo desabou. Eu, que planeava um "sim", descobria que era apenas um brinquedo, uma "fadista de estimação" para um homem que me via como "diversão", que queria a "família" que eu não lhe podia dar.
A humilhação de descobrir que o nosso "amor" era o lixo de outra mulher, as suas roupas e joias "dadas" a mim, tudo me esmagou. Caí, vomitei sangue, o meu corpo a ceder à doença enquanto ele me abandonava por ela. "Estou grávida", dizia a mensagem de Nancy, vinda do telefone de Jacob, com uma gravação dos seus gemidos.
Naquela noite, a minha decisão foi fria e clara como gelo: Jacob Gordon matara a Liza Murray. Agora era a vez de Helena Sousa nascer.
O ar da casa em Alfama cheirava a cera de limão e a flores frescas. Eu tinha passado a tarde toda a limpar e a decorar.
Balões dourados e brancos flutuavam junto ao teto, e uma faixa com as palavras "Queres casar comigo?" estava cuidadosamente escondida atrás de uma cortina, pronta para ser revelada.
Esta noite, eu ia pedir em casamento o homem com quem partilhava a vida há dez anos, Jacob Gordon.
Ele era tudo para mim. A minha única família.
Enquanto arrumava a sua secretária, à procura de um isqueiro para as velas, a minha mão esbarrou numa caixa de madeira escondida no fundo de uma gaveta. Não a reconheci.
A curiosidade levou a melhor. Abri-a.
Lá dentro, dobrada ao meio, estava uma certidão de casamento.
O meu coração parou por um segundo. Talvez fosse uma brincadeira, uma surpresa para mim.
Desdobrei o papel com os dedos a tremer.
O nome do noivo era Jacob Gordon.
Mas o nome da noiva não era o meu. Era Nancy Contreras.
A data do casamento era de há três anos.
Senti o chão a fugir debaixo dos meus pés. A minha visão ficou turva. Tive de me agarrar à beira da secretária para não cair.
Três anos. Ele estava casado com outra mulher há três anos, enquanto vivia comigo, enquanto me prometia um futuro.
O meu telemóvel vibrou na bancada da cozinha, o som estridente a cortar o silêncio pesado. Ignorei-o.
A minha atenção estava presa na fotografia anexada à certidão. A mulher, Nancy, sorria para a câmara. E o meu sangue gelou.
Ela parecia-se comigo. Assustadoramente parecida. O mesmo cabelo escuro, os mesmos olhos. E, o mais chocante de tudo, o mesmo sinal distintivo que eu tenho, logo acima do lábio.
Era como olhar para uma versão distorcida de mim mesma num espelho.
O telemóvel tocou novamente, insistente. Com a mão a tremer, atendi, esperando que fosse Jacob, que houvesse uma explicação para este pesadelo.
Mas não era ele.
"Boa tarde, falo com a Sr.ª Liza Murray?"
Uma voz profissional, calma.
"Sim, sou eu." A minha própria voz soou-me estranha, oca.
"Ligo do Centro de Investigação Médica de Coimbra. Tenho o prazer de informar que a sua candidatura foi aceite. A sua vaga no programa de tratamento experimental está confirmada."
A doença. A maldita doença degenerativa que me estava a roubar a dança, a vida, e que eu tinha escondido de Jacob para não o preocupar. A minha última esperança.
A ironia era tão cruel que me fez soltar uma gargalhada seca e sem alegria.
"Senhora Murray? Está tudo bem?"
"Sim," consegui dizer, engolindo em seco. "Obrigada. Obrigada por me ligarem."
Desliguei a chamada e deixei o telemóvel cair.
Olhei para a certidão de casamento, depois para a faixa escondida. O meu pedido de casamento. A nossa casa. A nossa vida.
Tudo uma mentira.
Com uma fúria fria que nunca tinha sentido, agarrei na certidão e rasguei-a em pedaços minúsculos. Um por um, fui rebentando os balões com as unhas. Arranquei as flores das jarras e atirei-as para o chão.
A minha casa, o meu santuário, transformou-se num campo de batalha da minha desilusão.
Eu precisava de ouvir da boca dele. Precisava de confirmação.
Peguei nas chaves do carro e saí, deixando a porta aberta para a ruína da festa que nunca iria acontecer.
Conduzi até à adega dele no Porto, com a mente vazia, o corpo a funcionar em piloto automático.
Quando cheguei, a porta do escritório dele estava entreaberta. Ouvi vozes lá dentro. A voz de Jacob e a de um amigo.
Parei, com a mão na maçaneta, o coração a bater descontroladamente.
"Mas e a Liza? Ela não vai descobrir sobre a Nancy?" perguntou o amigo.
A resposta de Jacob foi um riso desdenhoso, um som que me cortou mais fundo do que qualquer faca.
"A Liza? Ela é a minha fadista de estimação. Uma órfã que tirei da sarjeta. Ela não tem para onde ir, não tem ninguém. Acha mesmo que alguém no meu círculo a levaria a sério? Ela devia estar grata por eu lhe dar um teto."
A minha fadista de estimação.
As minhas pernas cederam. Encostei-me à parede fria do corredor, a lutar para respirar.
"Mas tu pareces gostar dela," insistiu o amigo.
"Gostar? Ela é um escape. A Nancy é estéril, a vida com ela é um negócio. A Liza é... diversão. Um corpo quente para me manter entretido. Mas o jogo está a acabar. Em breve, já não vou precisar dela."
O jogo. A nossa década juntos era um jogo.
Não entrei. Não o confrontei. Voltei para o carro, em silêncio, e conduzi de volta para Lisboa.
Quando entrei em casa, o caos que eu tinha criado pareceu-me calmo em comparação com a tempestade dentro de mim.
Sentei-me no chão, no meio dos balões rebentados e das flores esmagadas.
Horas mais tarde, Jacob chegou. Ele entrou e parou, a olhar para a desarrumação.
"Liza? Meu amor, o que aconteceu aqui?"
A sua voz estava carregada de uma preocupação fingida que me revirou o estômago. Ele aproximou-se, o cheiro do seu perfume caro a encher-me as narinas.
"Estás bem? Pareces pálida."
Ele estendeu a mão para tocar no meu rosto, e eu recuei instintivamente, como se o seu toque fosse veneno.
"Não me toques."
A minha voz foi um sussurro gelado.
Ele franziu a testa, confuso. "O que se passa? Tivemos uma discussão?"
Eu não respondi. Apenas o encarei, vendo pela primeira vez o monstro que se escondia atrás daquele rosto bonito.
"Estás doente? É por isso que estás assim? Já te disse que temos de pensar em ter um filho. Um herdeiro para o negócio. A tua saúde é importante para isso."
Um herdeiro. Era só isso que eu era para ele. Uma incubadora.
A bile subiu-me pela garganta. Levantei-me de repente e corri para a casa de banho, vomitando violentamente na sanita. O meu corpo tremia incontrolavelmente.
Quando olhei para a água, vi fios de sangue. A doença, sempre presente, a lembrar-me da minha fragilidade.
Jacob apareceu à porta, a sua expressão uma mistura de irritação e preocupação calculada.
"O que foi isso? Estás grávida?"
A esperança na sua voz era nojenta.
"Não," disse eu, limpando a boca. "É só... cansaço."
Ele não pareceu convencido. Mais tarde, enquanto eu estava deitada na cama, a fingir que dormia, ouvi-o ao telefone no corredor. A sua voz era baixa, íntima.
"Sim, meu amor... Não te preocupes com ela... A minha pequena diversão está a chegar ao fim... Sim, estivemos no nosso sítio especial na semana passada..."
O nosso sítio especial. Um pequeno miradouro com vista para o Tejo, onde ele me levou no nosso primeiro aniversário. Onde ele me disse que me amava pela primeira vez.
Ele estava a partilhar as nossas memórias com ela. A reescrever a nossa história, tornando-a deles.
Fechei os olhos, mas as lágrimas escorreram na mesma, quentes e silenciosas, pelo meu rosto.
O amor da minha vida não existia. A minha vida era uma fraude.
E eu estava a morrer.
Naquele momento, uma decisão formou-se na minha mente, fria e clara como o gelo.
Eu ia aceitar a oferta de Coimbra.
Ia desaparecer. Ia forjar a minha morte.
E ele, Jacob Gordon, nunca mais me veria.
Na manhã seguinte, agi como se nada tivesse acontecido. Preparei o pequeno-almoço, sorri quando ele me beijou de despedida. A submissão era a minha nova armadura.
"Tenho uma consulta em Coimbra hoje," disse eu, com a voz neutra. "Uma coisa de rotina."
"Coimbra? É longe. Vai com cuidado," disse ele, já a olhar para o telemóvel, distraído. Ele não perguntou porquê. Nunca perguntava.
A viagem de comboio deu-me tempo para pensar. A dor da traição era uma brasa constante no meu peito. Cada memória feliz que tínhamos partilhado estava agora manchada, transformada numa piada cruel.
Cheguei a Coimbra mais cedo e decidi tomar um café perto do hospital. O lugar estava cheio, mas encontrei uma mesa pequena num canto. Foi então que o vi.
O Dr. Hugo Neame, o médico que me tinha ligado, estava sentado a algumas mesas de distância, a ler um jornal. Ele tinha uma presença calma e tranquilizadora.
Antes que eu pudesse decidir se devia ir falar com ele, a porta do café abriu-se e duas mulheres entraram, a rir alto.
O meu coração congelou.
Era Nancy Contreras e a sua melhor amiga, uma blogger de lifestyle que eu reconheci do Instagram.
Elas sentaram-se na mesa ao meu lado, de costas para mim. Eu encolhi-me na cadeira, rezando para que não me vissem.
"Então, o Jacob ainda não se livrou daquela bailarina de Alfama?" disse a amiga, com a voz cheia de desdém.
Nancy riu-se, um som agudo e desagradável. "Ele diz que está quase. Coitado, tem de manter a sua pequena obra de caridade. Sabes a história de como ele a 'salvou' na universidade?"
"Claro, toda a gente sabe. Ele defendeu-a dos bullies que gozavam com ela por ser órfã. Tão nobre."
"Nobre?" Nancy bufou. "Foi ele que começou os rumores. Foi a maneira dele de a isolar, de a tornar completamente dependente dele desde o início. Ela era um projeto. Ele queria ver se conseguia moldar uma rapariga da rua numa dama."
Senti o ar a faltar-me nos pulmões. A fundação de toda a nossa relação, o momento que eu sempre guardei como prova do seu amor e proteção, era uma farsa. A maior manipulação de todas.
"E o talento dela para o fado," continuou a amiga, "é tão deprimente. Aquele drama todo de pobre. Não sei como o Jacob aguenta."
"Ele não aguenta. Ele acha ridículo," disse Nancy, e depois a sua voz baixou para um tom conspiratório. "O melhor é quando eu lhe dou as minhas roupas velhas e as joias de que já não gosto. Ele dá-lhas como se fossem presentes caros, e ela fica toda agradecida. Na semana passada, dei-lhe aquele colar que usei na gala. Ela provavelmente anda a exibi-lo como se fosse a rainha de Sabá."
O colar. O colar de safiras que ele me tinha dado no meu aniversário, dizendo que lhe lembrava os meus olhos. Era o lixo de Nancy.
Eu estava a ser vestida e adornada com as sobras da amante do meu namorado. A humilhação era tão profunda, tão avassaladora, que senti náuseas.
Levantei-me de repente, derrubando a minha chávena de café. O barulho fez com que elas se virassem.
Os olhos de Nancy encontraram os meus. Houve um flash de pânico, seguido por um sorriso lento e cruel. Ela sabia que eu tinha ouvido tudo.
Eu não conseguia mover-me. Estava paralisada pela vergonha e pela dor.
Foi então que o Dr. Neame se levantou. Ele caminhou calmamente até à minha mesa.
"Senhora Murray? Está na hora da nossa consulta."
A sua voz era firme e gentil. Ele colocou-se entre mim e as duas mulheres, protegendo-me dos seus olhares maliciosos. Ele pegou no meu braço com delicadeza.
"Vamos."
Ele guiou-me para fora do café, para o ar fresco da rua. Eu tremia tanto que mal me conseguia manter de pé.
"Respire fundo," disse ele, a sua mão ainda no meu braço, um ponto de apoio num mundo que se desmoronava. "Está segura agora."
Na consulta, ele foi profissional, mas os seus olhos mostravam uma compaixão que me comoveu. Ele explicou os detalhes do tratamento, os riscos, a necessidade de isolamento total na clínica na Serra da Estrela.
"Isto não é apenas um tratamento, Senhora Murray," disse ele, com seriedade. "É uma oportunidade para começar de novo. Uma nova identidade, uma nova vida. Longe de tudo o que lhe causa dor."
Ele sabia. Ele tinha percebido no café.
Quando voltei para Lisboa, eu era uma pessoa diferente. A tristeza tinha sido substituída por uma determinação gelada.
Jacob devia ter sentido a mudança. Ele tornou-se mais possessivo, mais desconfiado.
Uma noite, ele chegou a casa furioso. Atirou um envelope para cima da mesa.
"O que é isto, Liza?"
Dentro do envelope, havia fotografias. Eu e o Dr. Neame a sair do café em Coimbra.
"Quem é ele? Andas a trair-me?" gritou ele, o rosto vermelho de raiva.
"É o meu médico," disse eu, calmamente.
"Médico? Não me mintas! Achas que sou estúpido?"
Ele agarrou-me pelos braços, a sua força a assustar-me. "Depois de tudo o que fiz por ti! Tirei-te da miséria, dei-te uma vida! E é assim que me pagas?"
A discussão aumentou. O stress e a agitação física desencadearam os meus sintomas com uma violência que nunca tinha experimentado. Uma dor aguda atravessou o meu corpo, e as minhas pernas cederam.
Caí no chão, a contorcer-me de agonia.
"Liza! Para com o drama!" gritou ele, por cima de mim. "Não tentes manipular-me com as tuas doenças de órfã!"
Ele pensava que eu estava a fingir.
A dor era insuportável. Senti a consciência a fugir. A última coisa que vi foi Jacob a olhar para mim com nojo antes de se virar e sair, batendo a porta.
Acordei no hospital. A assistente de Jacob, uma jovem chamada Sofia que sempre me tratou com simpatia, estava ao meu lado.
"O Sr. Gordon teve de sair," disse ela, evitando o meu olhar. "Ele... ele estava muito zangado."
"Sofia," pedi, a minha voz fraca. "Não lhe digas o quão grave isto é. Por favor. Diz-lhe que foi só um desmaio por stress."
Ela hesitou, mas depois acenou que sim. "Ele não a merece, Liza."
Nesse momento, o meu telemóvel, que estava na mesinha de cabeceira, vibrou. Uma mensagem de um número desconhecido.
Era um ficheiro de áudio.
Hesitante, carreguei no play.
A voz de Jacob encheu o quarto silencioso, ofegante, cheia de raiva. "Aquela cabra... ela desmaiou só para me irritar... achas que ela sabe de nós?"
A risada de Nancy respondeu-lhe. "Claro que não, querido. Ela é demasiado estúpida. Agora esquece-a. Mostra-me o quanto estavas zangado."
Os sons que se seguiram, os gemidos, os sussurros, fizeram-me sentir um vazio absoluto. Ele tinha-me deixado a sofrer no chão para ir ter com ela, para usar o corpo dela para descarregar a sua raiva contra mim.
Uma nova mensagem chegou do mesmo número.
"Espero que estejas a gostar do espetáculo, órfã. Ele está aqui comigo agora. Onde devia estar sempre. A propósito, estou grávida. Vamos ter a família que tu nunca poderias dar-lhe."
Grávida.
A palavra ecoou no vazio dentro de mim. Era o fim.
Quando Jacob regressou ao hospital, horas mais tarde, o seu rosto era uma máscara de preocupação forçada.
"Meu amor, desculpa. Perdi a cabeça. Estás bem?"
Eu olhei para ele, para o homem que tinha destruído a minha alma, e sorri. Um sorriso submisso, quebrado.
"Sim, Jacob. Estou bem. A culpa foi minha. Eu não devia ter-te irritado."
Ele relaxou, visivelmente aliviado pela minha capitulação. "Exato. Agora descansa. Eu tenho de ir resolver um problema de negócios urgente."
O telemóvel dele tocou. Vi o nome "Nancy" no ecrã.
Assim que ele saiu do quarto, peguei no meu telemóvel e disquei o número do Dr. Neame.
"Dr. Neame? Sou eu, a Liza. Quero começar o tratamento. Agora."
"Liza, o que aconteceu? A sua voz..."
"Por favor. Ajude-me a desaparecer. Ajude-me a morrer."
Houve um silêncio do outro lado da linha. Depois, a sua voz, firme e decidida.
"Estou a caminho. Não se preocupe com nada. Nós vamos tratar de tudo."
Com a ajuda dele e da leal Sofia, o plano foi posto em marcha. Foram forjados documentos. A minha "morte" foi registada como uma complicação súbita e fatal da minha doença rara.
Assinei os papéis do programa de investigação, recebendo uma nova identidade.
Naquela noite, enquanto Jacob estava a celebrar a "gravidez" de Nancy, eu estava a ser transportada secretamente para uma clínica isolada na Serra da Estrela.
O dia da minha "morte" oficial era o dia do nosso décimo aniversário.
Um final poético e cruel para uma década de mentiras.