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A Família dos meus Sonhos

A Família dos meus Sonhos

Autor:: AutoraAngelinna
Gênero: Romance
Tudo o que o magnata grego desejava era... seu filho. Após um casamento relâmpago com Angolos Constantine, Georgie estava grávida e certa de que ele ficaria encantado. Mas, em vez disso, ele a mandou "sair de sua vida e nunca mais voltar". E foi exatamente o que ela fez. Assim, ele jamais viu seu filho... até agora. Angolos não achava que pudesse ter filhos... e não está preparado para deixar seu pequeno milagre escapar. Mesmo que Georgie pareça odiá-lo, ele terá o que considera seu... a qualquer preço.

Capítulo 1 Sinopse

Tudo o que o magnata grego desejava era... seu filho.

Após um casamento relâmpago com Angolos Constantine, Georgie estava grávida e certa de que ele ficaria encantado. Mas, em vez disso, ele a mandou "sair de sua vida e nunca mais voltar". E foi exatamente o que ela fez. Assim, ele jamais viu seu filho... até agora.

Angolos não achava que pudesse ter filhos... e não está preparado para deixar seu pequeno milagre escapar. Mesmo que Georgie pareça odiá-lo, ele terá o que considera seu... a qualquer preço.

CAPÍTULO UM

- Claro que eu sabia que não ia durar.

Aquelas palavras fizeram Georgie parar de repente e voltar quatro anos no tempo.

Para a maioria das pessoas, aquele fora um verão dos mais quentes, no qual a Inglaterra fria e úmida deleitou-se com temperaturas tropicais. Para Georgie, aquele fora o verão em que sua vida mudara.

Na ocasião, ela estava com apenas 21 anos, era uma tí¬pica estudante curtindo as férias de verão antes de voltar à faculdade, na qual cursava o último ano. Seus únicos planos envolviam a desejada carreira de professora e o carro que estava economizando para comprar.

No período letivo anterior, fora parada na rua por uma mulher com uma prancheta na mão, que fazia uma pesquisa para um programa de televisão.

- Você acredita em casamento?

- Eu não desacredito.

- Então você se casaria? - pressionou a entrevistadora.

- Eu...? Ah, sou muito nova para pensar nisso. - Georgie riu. - Quero me divertir antes de me amarrar.

Em pouco mais de três meses, ela estava se casando com um homem a quem conhecia fazia menos de um mês.

E, sim, sua avó disse que não iria durar, mas ela não estava sozinha nisto! Seria difícil achar alguém que achasse que aquele casamento era boa idéia!

Georgie, alheia por completo, sorriu serenamente ao ouvir todas as reprimendas e ignorou as previsões de desastre. Pelo menos a oposição fortalecera sua decisão, fazendo-a parecer de certo modo mais romântica.

Os lábios dela se curvaram num sorriso irônico ao se lembrar do futuro idílico que veria à sua frente.

- Mamãe...!

Georgie afastou as memórias que a atormentavam e se voltou para o menininho que queria mostrá-la algum tesou¬ro que trazia em sua mãozinha gorducha. Ele sorria para ela com seus longos cílios negros, cabelos cacheados brilhantes e bochechas rosadas.

Nem tudo que vinha de seu imprudente casamento era negativo. Georgie tinha Nicky, seu bebê. Na verdade, ele não era mais um bebê, pensou ela melancolicamente, en¬quanto exclamava os "oh" e "ah" que o menino esperava.

Quando Nicky voltou para sua brincadeira - ele era uma criança realmente feliz e bem-disposta -, Georgie bateu as sandálias com força na mesa de ferro do terraço.

Não teve o efeito desejado. Entretidas demais na conver¬sa, as duas mulheres lá dentro continuaram alheias à sua presença.

Era tudo de que eu precisava! Um lugar de camarote para a dissecação do casamento do inferno! Georgie podia ter-lhes poupado o trabalho: "péssima idéia" resumia a história.

- Estavam juntos fazia muito tempo?

Georgie reconheceu o sotaque típico de Yorkshire de Ruth Simmons, uma diretora de escola aposentada e aficionada em observação de pássaros que havia alugado a casinha ao lado da dela durante o verão.

- Seis meses.

O modo como a avó lhe disse isso fazia soar como uma condenação.

- Acha que existe alguma chance de reconciliação? Quem sabe se eles dessem mais tempo ao tempo... se tentassem outra vez...?

- Tentar... para quê?

Georgie encostou a testa ao umbral da porta e, sem per¬ceber, começou a raspar com o dedo a tinta que estava descascando. Ela dificilmente pensava como a avó, mas, desta vez, concordava inteiramente com seu ponto de vista. Ela poderia passar a vida inteira tentando ser o que Angolos queria e, mesmo assim, não conseguiria satisfazê-lo.

No final, contudo, quem quis se separar não foi ela.

Angolos terminara. E o fizera com brutal eficiência, mas ela refletiu que, afinal, Angolos não era do tipo que deixava as coisas pela metade, e não era nada sentimental.

- Poderiam tentar até o fim dos tempos que o resul¬tado seria o mesmo - ela ouviu Ann, sua avó, dizer com autoridade.

- Mas seis meses... pobre Georgie...

A tristeza sincera na voz daquela mulher fez Georgie ficar com um nó na garganta. Não houve muita compreensão para com ela quando resolveu engolir o orgulho e bater na porta do pai. Ouviu todos os "eu te avisei" e "quem procura, acha" que podia. Porém, nada de solidariedade.

- Era apenas questão de tempo para aqueles dois se sepa¬rarem. Questão de quando ele ficasse entediado ou quando ela acordasse para a realidade de que ambos viviam em mundos diferentes. Melhor assim. Ele só estava de brincadeira.

Na época, pareceu bastante verdadeiro para ela, mas talvez vovó estivesse certa. Você estava de brincadeira, Angolos? Às vezes, só queria poder ficar no mesmo recinto que ele por cinco minutos para fazê-lo responder por que ele fizera o que fizera.

- Tudo indica que a primeira esposa fez gato e sapato dele... Linda, impetuosa, fogosa... Aparentemente, ela podia ter feito uma carreira de sucesso como pianista se tivesse se dedicado aos concertos com a mesma energia com que se dedicava às festas.

- Na minha opinião, após o divórcio ele estava procu¬rando por uma nova esposa para ter uma vida calma... Infe¬lizmente, escolheu Georgie. Era inevitável, a novidade acabar quando ele se cansasse de ser certinho.

Não fazia muito bem ao ego ouvir alguém falando sobre você como se falasse de um capacho. Era triste, mas Georgie não podia rebater o que ouvia. Fora patéti¬ca na ânsia de agradar, e era muito difícil relaxar, ser ela mesma, ao lado de alguém que idolatrava - e ela de fato idolatrara Angolos.

- Acho que você está sendo injusta com Georgie - pro¬testou Ruth. - Ela é uma menina brilhante e inteligente.

Georgie encostou-se à parede, sorrindo sozinha. Obri¬gada, Ruth.

- Claro que é, mas... veja, deixe-me mostrá-la isto. Georgie ouviu um barulho de papel e soube de imediato o que a avó estava fazendo.

- Isto estava no suplemento do jornal do último domin¬go. Isto é Angolos Constantine.

Georgie sabia o que ela estava mostrando. Vira a revista antes de a avó escondê-la debaixo das almofadas no sofá. Era uma foto de duas páginas de Angolos saindo de um carro com chofer direto para o tapete vermelho de uma estréia cinematográfica. Ao lado dele, estava Sônia, sua glamourosa ex-esposa. Será que eles tinham voltado...? Boa sorte para eles, pensou Georgie com raiva. Eles se mereciam.

- Minha nossa! - ela ouviu a outra dizer. - Ele é mesmo bem... sim, muito! Dizem que os opostos se atraem... - acres¬centou.

Valeu a tentativa, Ruth.

- Há opostos... e há Angolos Constantine e minha neta.

Um sorriso amargo veio aos lábios de Georgie. Sempre podia contar com a avó para um toque de realidade.

- Sempre foi uma idéia absurda. Ela jamais se encaixaria no mundo dele, e eles não tinham absolutamente nada em comum, a não ser, talvez... - Ann Kemp abaixou a voz para um sussurro confidencial. Tinha um tom pesado, típico de atrizes amadoras.

- Sexo! Ou amor, como minha neta preferia chamar. Eu, pessoalmente, acho que a culpa é daqueles romances que ela ficava lendo na adolescência.

- Eu também gosto de um bom romance - disse a outra.

- Sim, mas você não é nenhuma moça jovem, tola e impressionável que espera que um cavaleiro em uma bri¬lhante armadura venha lhe salvar.

- Posso não ser jovem, mas não perdi de todo as es¬peranças.

Georgie não escutou a resposta seca. Um ar distraído tomou conta de seus traços suaves en¬quanto ela esfregava os braços que, apesar do calor, estavam com a pele arrepiada. Seus músculos do baixo ventre se contraíram. Ela apertou os olhos com força para apagar a imagem que lhe veio à mente, mas ela, assim como Angolos, se recusava a atendê-la, ou sequer a atender a suas súplicas, ela pensou com amargura, Desnorteada e com medo, acabou perdendo toda a dignidade e implorou que ele pensasse melhor. Não era possível que ele quisesse que ela fosse embora. Os dois eram felizes, iam ter um filho.

- Diga o que há de errado - pediu Georgie.

Angolos não disse nada. Apenas fixou seu olhar soturno, brilhante e duro como um diamante, nela.

Estranho como uma decisão podia afetar o curso da vida de uma pessoa.

No caso, se Georgie não tivesse dado ouvidos ao meio-irmão, que pedira para levá-lo à praia... Na verdade, ela pretendia se aninhar em uma poltrona e ler o último capítu¬lo de um livro. Se tivesse feito isso, jamais teria conhecido Angolos. Não que adiantasse ficar especulando naquele momento sobre o que poderia ter sido. Mas acaba-se sobrevivendo de qualquer forma, e Georgie pensou, com toda a modéstia, que não estava se saindo tão mal. Tinha uma boa carreira, alugara um apartamento, tinha um filho lindo. Uma amiga solteira dissera recente¬mente que não entendia como ela conseguia dar conta de ser mãe solteira de filho pequeno e trabalhar fora o dia inteiro em um emprego que exigia tudo de si.

- Não consigo imaginar minha vida sem Nicky. É por isso que dou conta - explicou Georgie. Era verdade, mas a amiga não acreditou em uma palavra sequer.

O fato de não haver um homem em sua vida era questão de escolha. Não que ela tivesse descartado a idéia de encontrar alguém, mas não conseguia imaginar isto acontecendo.

Às vezes, tentava imaginar outro homem tocando-a do jeito que Angolos tocara. Era um erro. Os nervos todos doíam só de pensar naqueles dedos longos em sua pele.

Angolos lhe causara muita dor.

Quando não estava pensando em como Angolos lhe causava dor, estava pensando em que tipo de pessoa teria sido se jamais o tivesse conhecido. Será que ainda seria tão ingênua e crédula como fora naquele verão?

Este tipo de conjetura não levava a nada, porque ela o conhecera e pronto. E porque em sua mente ardiam os mí¬nimos detalhes daquela ocasião fatídica, o momento em que pôs os olhos em Angolos Constantine, o momento em que sua vida mudou para sempre.

Estava na praia, sentada em uma canga, com um olho no livro que tentava terminar e outro no meio-irmão que brin¬cava com um grupo de garotos mais adiante. A primeira coisa que Georgie viu foram os brilhantes sapatos de couro dele, feitos à mão, e a calça de corte primoroso, calça cara, de bom gosto e loucamente imprópria para uma praia.

Georgie tinha que ver quem seria tão idiota de se aven¬turar em uma praia naqueles trajes! Ela protegeu os olhos do sol com a mão e franziu a testa ao levantar o rosto.

Ah, minha nossa...!

O dono daqueles sapatos tinha pernas muito, muito longas; e o resto dele era bem melhor que a média. Na verdade, para quem gostava de homens magros e musculosos - e qual mu¬lher não gosta, tendo a chance? - ele era quase perfeito.

Alcançou então seu rosto, e seu ímpeto de zombar desa¬pareceu ao se deparar com aqueles olhos cor de âmbar - olhos que ela jurou amar - que a deixaram abalada até o dia em que ele disse que queria que ela fosse embora.

- Embora...? - Desconcertada, mas certa de que se tratava de algum mal-entendido, ela perguntou - Por quanto tempo?

- Para sempre - respondeu ele, e saiu.

Mas, naquela primeira tarde de verão, não houve o menor indício da crueldade tranqüila de que ele era capaz. Ficou perple¬xa demais e era muito inexperiente para disfarçar o que sentiu ao se deparar com aqueles olhos de longos cílios que chegavam a sombrear as pronunciadas maçãs do rosto.

Aqueles olhos profundos, sedutores e aveludados ti¬nham um conhecimento do mundo que ela achou fascinan¬te. Mas, também, Georgie achava tudo nele fascinante, pensou, revoltada. Dos cabelos negros sedosos à sensual curva dos lábios.

Alto e magro, ameaçadoramente cativante, o rosto mo¬reno de Angolos possuía ângulos fortes e uma estrutura óssea maravilhosa, a verdadeira essência da beleza masculina.

- Olá - disse ele, iluminando-a com um sorriso lindo. Tal como sua aparência, a voz com ligeiro sotaque era impossivelmente masculina.

Ela estava com calor, seu rosto grudento, a pele lambu¬zada do suor que se alojou no vale entre os seios. A jaqueta pendurada casualmente em um ombro era a única concessão que o estranho fazia ao calor, que parecia não lhe afetar.

Ao passar meio que inconscientemente a mão nos cabe¬los, percebeu que ela estava cheia de areia. Georgie quis desesperadamente parecer tranqüila e dizer algo inteligente, porém só conseguiu dizer um "olá" sem graça. Seu coração batia de tal maneira que ela mal escutou a própria voz.

Ela sabia que o estava encarando, mas não conseguia parar. Simplesmente não conseguia tirar os olhos daquele homem espetacular. Homens daquele tipo não costumam ficar passeando em uma praia cafona freqüentada por famí¬lias apenas... Ela nem mesmo acreditava que homens daque¬les existiam fora das páginas de ficção!

Ficar imaginando aquele estranho sem roupa fazia dela uma depravada? Isso jamais lhe acontecera antes! Seria o calor? Não havia lido em algum lugar que o calor tinha efeito na libido? Mas sua libido jamais lhe dera problemas. Na verdade, até fica¬va pensando às vezes se não tinha libido de menos.

- Não conheço bem a área.

- Percebi.

Ele arqueou a sobrancelha e Georgie foi logo se expli¬cando, corando de vergonha.

- O lugar é pequeno e a gente nota quando aparece al¬guém que não é daqui. - Só que mesmo no lugar mais glamouroso do mundo ele teria se destacado! Não conseguia imaginar como seria entrar com ele em um quarto e parar de conversar. Como seria estar com ele?

Ela abaixou os olhos. Pare com isso, Georgie!

- Então você mora aqui?

Ele está falando comigo. Este homem incrível está fa-lando comigo! O que ele disse...?

- Desculpe?

- Você vive aqui? -Sim... não.

As rugas ao redor dos olhos dele se aprofundaram.

- Sim ou não?

Essa não! Ele ia voltar para o planeta de onde viera - sim, porque era lindo demais para ser deste planeta -, rindo do pessoal pouco privilegiado mentalmente do lugar. Ela fez um esforço supremo para dar uma de inteligente.

- Nós passamos as férias de verão aqui. Meu... - Georgie abaixou os olhos, como quem reprime o constrangedor impulso de contar a história de sua vida. Apesar de sua vida poder ser resumida em um parágrafo, as pálpebras daqueles olhos estupendos dele começariam a cair de tédio antes que ela terminasse.

Uma coisa digna de nota acontecera em sua vida e ela nem lembrava! Ela era bebê quando a mãe fugiu com um garçom grego. Desde então, o pai se recusava a viajar ao exterior. Daí, aquela casa para onde viajavam todos os verões que ela conseguia lembrar - primeiro com o pai e a madras¬ta, e posteriormente com a madrasta e o meio-irmão.

- Mas você conhece bem a região? Sabe os lugares aon¬de se vai?

- Lugares aonde se vai... - Desfez a expressão intrigada. - Acho que sei. - Estava feliz da vida de poder ser útil àquele homem incrível. - Bem, na verdade, depende - dis¬se ela seriamente.

- De quê?

- Se você tem problema com altura.

- Não tenho.

- Eu tenho - admitiu ela, tristonha. - Dizem que o ca¬minho até o pontal pela reserva é legal. Mas, se você prefe¬rir algo mais calmo, a trilha pelo pântano é bem traçada e há esconderijos onde se pode... Tem interesse por pássaros? A área atrai muitas pessoas com binóculos para observá-los. Não é o período de reprodução, mas...

- Não sou observador de pássaros. Prefiro me dedicar a coisas mais... ativas.

Depois que ele disse isso, Georgie não teve problema em vê-lo se adequar no clichê do sujeito incauto que gostava de esportes radicais... Daqueles que, muito provavelmente, terminavam em ferimentos ou coisa pior.

Só de pensar em vê-lo quebrar aquele pescoço lindo, ela acabou dando com a língua nos dentes.

- Você devia tomar cuidado.

- No momento, estou sob recomendações expressas de relaxar. - Ele sorriu de leve. - E de repente - disse ele em tom confidencial que deixou Georgie arrepiada - a idéia não me parece mais tão má.

Será que ele estava flertando com ela...? Georgie descar¬tou a idéia antes mesmo de formá-la.

- Estava pensando na vida noturna...

- Vida noturna? - repetiu ela. Distraída pela visão dos pêlos negros que apareciam debaixo do tecido branco e fino da ca¬misa, teve dificuldade em se concentrar no que ele dizia.

- Sim, boates, essas coisas.

- Boates? - repetiu ela, como se ele estivesse falando alguma língua estrangeira. - Aqui?

Seus lábios belamente desenhados se contorceram de estranheza.

- Nada de boates? - perguntou Angolos, e ela fez que não com a cabeça. - E restaurantes...?

Georgie arregalou os olhos mais ainda.

- Acho que você está no lugar errado. Tem uma casa de chá perto do correio. Eles têm um chá com creme delicioso, e também tem um restaurante de comida caseira, mas... Está rindo de mim?

- Você é adorável!

Apesar de saber que ele provavelmente quis dizer ado¬rável no sentido de gracinha, fofinha, algo assim, ela não conseguiu parar de sorrir.

- E esta parece a primeira vez que eu dou risada em muito tempo.

Georgie estava pensando nesta frase enigmática, quando uma bola de futebol caiu em seu colo, enchendo-a de areia. Então, veio o som de risadas quando ela se esparramou na areia.

- Jack Kemp! - gritou ela, cuspindo areia, enquanto o meio-irmão se aproximava. Georgie lutou para se pôr de pé e olhou para a figura cheia de culpa.

- O que deu em você? - perguntou o sardento garoto doze anos. - Não foi com força - continuou, zombando.

Ela jogou a bola de volta, avisando que era melhor ele tomar cuidado.

- E só mais cinco minutos - acrescentou, olhando para o relógio. - Prometi cuidar do jantar hoje.

- Certo... certo, Georgie - respondeu Jack antes de sair rolando pela areia.

- Georgie?

- Georgette - disse ela, um pouco sem graça. - Minha família me chama de Georgie. Este é meu meio-irmão - explicou, referindo-se ao menino que corria.

Ela se virou ao falar e viu que ele não estava olhando para o menino e, sim, para ela. Havia uma sensualidade no exame minucioso daqueles olhos sombrios que a deixava arrepiada, e seus mamilos não estavam nada discretos de¬baixo do tecido elástico da parte de cima do biquíni.

Ela olhou ao redor, corada de vergonha, procurando a camiseta que tinha tirado. Achou-a embolada debaixo do protetor solar e pegou apressadamente.

- Vou chamá-la de Georgette - decidiu ele.

Ela jamais o veria de novo, mas, no que dependesse de Georgie, aquele homem podia chamá-la como quisesse.

Capítulo 2 2

- Quantos anos você tem, Georgette?

Georgie considerou brevemente a idéia de se sair com algo como "tenho idade suficiente", mas sabia que não conseguiria. Além disso, seria um vexame se ele caísse na risada.

- Vinte e um - respondeu ela.

- Você gostaria de jantar comigo hoje? - perguntou Angolos sem perder tempo.

Ela o olhou com olhos perplexos.

- Eu... Você...?

- A idéia é essa.

Georgie engoliu em seco, passou a língua nos lábios salgados e olhou para ele com desconfiança.

- Não está falando sério. - Ela tentou rir, mas não con¬seguiu.

- Por que não estaria? - Ela balançou a cabeça e corou ao sentir o tom irônico dele. - Você é a mulher mais atraen¬te desta praia.

- Sou a única com menos de 60 anos sem marido e filhos, portanto não vou me entusiasmar com seu elogio.

A quem ela queria enganar? Por toda a vida, como uma garota normal, com um enorme mundo interior escondido. Mas será que alguém se daria ao trabalho de procurar saber? Agora, totalmente do nada, aparecia este homem incrível que a via como uma mulher desejável!

Se entusiasmar...? Ela estava nas nuvens!

Tentou fazer uma expressão divertida, mas falhou miseravelmente ao ver aqueles cílios de ébano. Flame-jantes era o termo para definir aqueles olhos esfumaçados que a fitavam.

- Nem sei seu nome - protestou Georgie.

O sorriso dele era seguro, com o toque de arrogância que vinha naturalmente de alguém como ele. E por que não seria, meditou ela quatro anos depois. Angolos Constantine estava acostumado a conseguir o que queria. Um pouquinho de complacência era compreensível, considerando-se que mal ele havia alcançado a puberdade e as mulheres já se jogavam aos seus pés!

- Não é nenhuma barreira insuportável, e eu já sei seu nome, Georgette. - Ele disse seu nome de um jeito quase palpável, que a fez sentir um arrepio na nuca e uma dor indefinível no ventre.

Ela olhou para ele, sonhando. Era só um jantar.

- É só um jantar - disse ele, como se lesse seus pen-samentos.

O que ela estava fazendo, hesitando? Todas as garotas que conhecia não precisariam ser convidadas duas vezes. Viam o que queriam e corriam atrás. Georgie as admirava, mas, por dentro, ficava pensando se essas garotas não seriam tão inseguras quanto ela própria.

Ao abrir a boca, ela quis dizer sim, mas seu pai não a criara para ser impulsiva. Desde pequena, sempre a educaram para ter cuidado, e seu condicionamento acabou falando mais alto no último instante.

- Obrigada, mas não posso. - Ele era um estranho. Podia ser um maníaco, ou, até mesmo, um maníaco casado. Ela fez que não com a cabeça; estava além de seu alcance e sabia disso. - Obrigada, mas acho que não posso. Meu na¬morado não iria gostar.

Em outras circunstâncias, a expressão de frustração e confusão no rosto dele seria risível.

Ela não estava com vontade de rir; nem mesmo de sorrir. Estava em dúvida se tinha mesmo feito "a coisa certa".

Angolos arqueou as sobrancelhas negras.

- Está se recusando?

Georgie percebeu que ele estava de fato pasmo. Não estava acostumado a ouvir não. Ela fez que sim. Desta vez, ele falou com um toque de irritação.

- Como quiser.

A irritação dele a fez se sentir ligeiramente melhor. Sua natureza normal, aquela que tinha quando não estava trans¬formada em uma devassa descerebrada por causa da aura sexual que irradiava daquele homem, voltou ao comando. Por que ele achara que ela era uma presa fácil? Podia ter sido um tantinho óbvia em sua atração por ele, mas uma garota podia olhar sem querer tocar, não podia?

Ela deu um sorriso que era, em parte, de desculpas. Não estava tentando puxar briga em nome da igualdade de direi¬tos entre homens e mulheres. - mulheres melhores e mais corajosas já haviam feito isto -, tudo o que ela queria era dar o fora de lá sem ficar parecendo mais idiota ainda!

Ciente que seus atos eram acompanhados pelos olhos dele, ela pôs de modo desajeitado suas coisas na bolsa de lona.

- Jack! - chamou ela enquanto fechava o zíper da bolsa, dando um suspiro de alívio.

- Esqueceu isto aqui.

Georgie se virou e viu que ele estava segurando o pro¬tetor solar.

Ela esticou a mão.

- Obrigada. - O contato entre os dedos durou menos que o tempo de uma batida de coração, mas foi o bastante para ela sentir uma onda elétrica por todo o corpo. Os olhos ar¬regalados e assustados dela se depararam momentaneamen¬te com os dele e Georgie percebeu, sem precisar dizer ne¬nhuma palavra, que ele sabia exatamente o que ela estava sentindo.

Bem, ao menos alguém sabia!

Sem esperar para ver se seu irritante irmão a estava acompanhando, Georgie tropeçou e correu pela areia até a faixa litorânea coberta por pedrinhas, o tempo todo lutando contra o insano impulso de voltar.

Um grito infantil puxou Georgie de volta ao presente. Ela fez sons de admiração ao ver o filho orgulhosamente lhe mostrar as pedrinhas que ele empilhara no terraço.

Ela lembrava de fazer a mesma coisa quando era criança, continuidade era importante. Estava longe de ter passado por grandes provações quando criança, mas havia um vazio; perguntas que continuavam sem resposta porque sua mãe não estava lá para responder. E agora Nicky tinha um pai ausente... A história se repetia!

Ela empinou o queixo. Rejeição não era coisa hereditária, era falta de sorte, e se Georgie tinha algo a ver com isto, Nicky saberia julgar a mãe melhor do que ela mesma.

Era estranho... Ela havia mudado tanto que não dava mais para reconhecer nela a menina correndo na praia naquele dia, mas a casa da praia e a cidade não haviam mudado nada. Era como se o lugar tivesse entrado numa cápsula do tempo.

A cidade continuava audaciosamente cafona. Não havia nenhum restaurante estiloso de frutos do mar, nem grandes ondas para atrair os surfistas, mas, apesar de tudo, Georgie tinha uma queda pelo lugar. Ela esfregou as mãos cheias de areia nos bolsos traseiros da bermuda e aceitou a concha que Nicky estava lhe dando com toda a pompa.

Era a primeira vez que ela voltava lá desde aquele verão fatídico. Em parte, viera para enterrar os fantasmas do pas¬sado, porém, em termos mais práticos, não havia como ela bancar as férias com Nicky de outra maneira.

Respirou fundo, curtindo o ar salgado. As memórias tomam conta da gente sem que a gente perceba, refletiu ela. As coisas mais inesperadas podem desencadeá-las: um cheiro... uma textura. Como antes, num segundo estava tentando tirar a areia dos pés antes de calçar as sandálias, e no outro... zap.

Foi incrivelmente vivido.

De repente, ela estava com o pé no colo de Angolos, com a cabeça abaixada, os olhos azul-escuros cintilando ao sol enquanto ele tirava a areia do seu pé. O toque de seus dedos a fez sentir pequenos arrepios pelo corpo todo. Ainda de olhos fixos nos dela, ele levantou o pé dela até sua boca e chupou um dedo.

Georgie apertou a areia com a mão, contorcendo o corpo.

- Você não pode fazer isso! - gritou ela, quase engas¬gando. Tirou o pé da mão dele, levando os joelhos até o queixo.

- Por quê? - perguntou ele com uma expressão estranha nos lábios.

- Porque assim você me mata - confessou, abalada.

O jeito que ele olhava para ela, aquele brilho predatório de desejo, aquilo a derretia por dentro.

- Você não vai ter que esperar muito tempo, yineka mou. Amanhã, seremos marido e mulher.

De volta ao presente, Georgie abriu seus punhos cerrados. Estava com as palmas das mãos suadas. Ela suspirou e es¬fregou as mãos na parte de trás da bermuda. Será que um dia ela seria capaz de pensar no marido sem ter um ataque de nervos?

- Eles mal conseguiam tirar as mãos um do outro.

Os detalhes lascivos... Disto, ela realmente não precisa¬va mesmo.

- Não sou puritana - prosseguiu a mulher mais velha -, mas francamente... ela não conseguia tirar as mãos dele...

Por mais mortificante que fosse o comentário da avó, Georgie não era dada a ficar se iludindo, portanto tinha de reconhecer que o que ela disse era verdadeiro.

Sempre com o leve desdém pelos relacionamentos amo¬rosos das meninas de sua geração, que ela considerava confusos e muitas vezes dolorosos, Georgie nunca esteve preparada para as emoções primitivas que Angolos desper¬tava nela. Ela ficou totalmente mesmerizada por ele.

- Meu filho e eu discordamos na maioria das coisas, mas, naquela ocasião, nós pensamos a mesma coisa. Robert dis¬se a ela: "Durma com esse homem, se quiser, até more com ele, mas casar... É insanidade".

- Mas uma insanidade pela qual todas nós passamos, Ann - foi a lúgubre resposta.

Georgie ficou imaginando as duas senhoras vivendo a luxúria cega e insana que ela sentira por Angolos.

- A menina colheu as conseqüências de sua estupidez.

O desdém na voz da avó fez o rosto bronzeado de Geor¬gie ficar mais vermelho ainda, de vergonha. Ela havia co¬metido um grande erro e estava pronta para reconhecer isto, mas, às vezes, pensava que, se dependesse de sua família, teria de ficar se culpando por aquilo até os oitenta anos!

- Ela era muito nova.

- Nova e achava que sabia de tudo.

- Os jovens são assim mesmo. Ele... o homem da revis¬ta... parecia mais velho?

- Trinta e dois ou algo assim, acho, na época. Você tem que entender que Georgie era muito ingênua para a idade dela, enquanto ele esbanjava experiência. Uma tentação em carne em osso, claro. Não me admira que ela tenha se apai¬xonado por ele.

Aquele reconhecimento impressionou Georgie. A avó jamais demonstrara solidariedade na frente dela. -Você acha que ele se aproveitou...?

- Bem, o que você acha? Um homem com um casamen¬to fracassado nas costas... E grego.

Pelo tom de sua avó, era difícil dizer qual erro ela consi¬derava mais difícil de perdoar: ser separado ou ser grego.

- Na hora em que bati os olhos nele, vi que não era de confiança. Eu disse a ela, nós todos dissemos a ela, e ela ouviu? Nada, ela o amava.

- Mesmo assim, você devia ter orgulho do modo como ela reconstruiu a vida e do menino lindo que ela tem.

- Um menino que nunca viu o pai,

- Nunca? Tem certeza...?

- Recusa-se categoricamente. Angolos Constantine dei¬xou claro que não quer nada com a criança. Nem ele, nem ninguém de sua família maravilhosa, jamais se aproximou... Se quer saber, eu acho uma bênção que fiquem longe.

Era tolice, porém, mesmo depois deste tempo todo, a verdade ainda doía. O nó de dor e raiva no peito de Georgie apertava ainda mais quando ela olhava para a pequena figu¬ra que cruzava o gramado em direção a ela.

Seu rostinho adorável era uma máscara de concentração ao carregar um pequeno balde cheio de pedrinhas. O olhar carinhoso dela o seguiu enquanto ele depositara cuidadosa¬mente o baldinho no chão, ajoelhava-se com as pernas gordinhas e começava a cavar a terra macia.

O amor que sentia pelo filho, amor que sentira desde o primeiro momento em que o segurou nos braços, pulsou em seu peito. Georgie imaginou que aquele momento mágico pudesse ser compartilhado com Angolos. , Como estava errada!

Ela deu à luz sozinha. Não teve marido para segurar sua mão nem ajudá-la a passar por aquela dor, não havia ninguém para ela compartilhar a magia daquele momento.

Angolos já não a amava mais... Ou será que, na verdade, jamais amara?

Mas por que a dúvida agora, Georgie? Afinal, homem nenhum podia tratar alguém por quem já sentira alguma coisa do jeito que ele a tratara.

Ela aceitou aquilo.

Claro que aceitou!

Mas como Angolos era capaz de rejeitar o filho que fizeram juntos? Nicky era perfeito... Como alguém poderia não querê-lo? Como um pai era capaz de não amar o próprio filho?

- Ainda bem que a família dela estava aqui para segurar as pontas.

A observação da avó foi perfeitamente audível, porém Georgie teve de se esforçar para ouvir a resposta da outra mulher. Este era o problema de ficar escutando atrás da porta: depois que se começara, era difícil parar.

- Que triste! Como um homem pode não querer ver o filho?

- Eu pergunto o mesmo. Só sei que ele não deu um cen¬tavo a ela e Georgie é cabeça-dura demais para lutar pelo que é dela por direito. Eu disse que ela devia entrar com o divórcio e exigir cada centavo que pudesse. Não houve acordo pré-nupcial. Meu medo é que Georgie tenha puxado à mãe, que não tem um pingo de senso prático.

Georgie ficou pensando no que a avó acharia se soubes¬se que Angolos comparecia com dinheiro todos os meses, mas que o dinheiro permanecia intocado.

A esta altura, já tinha bastante dinheiro na conta.

- Mamãe... - A vozinha cansada fez Georgie perceber o perigo de Nicky ouvir aquela conversa.

- Estou com sede. - A figura diminuta, com baldinho e pá na mão, puxou a perna da bermuda dela.

Georgie se abaixou para ficar na altura do menino, sor¬rindo, e afastou uma mecha cacheada e brilhante do cabelo, que lhe caía sobre o rosto. Jamais poderia esquecer do rosto de Angolos, pois o via em miniatura todos os dias.

- Também estou, querido - disse ela, falando alto para anunciar sua presença às duas senhoras. - Vamos ver se a vovó também quer uma limonada?

Capítulo 3 3

A realeza compareceu a um espetáculo de caridade e a mídia estava toda lá para cobrir o evento. No tapete vermelho, a estrela de uma novela estava ocupada em negar para as câmeras de tevê os boatos de que iria se casar com seu par na trama.

A entrada estava amontoada de outras caras, todas exibindo seus melhores sorrisos e roupas de grife. Apesar de a maioria dos homens presentes vestir basicamente os mesmos ternos escuros e formais, Paul não teve dificuldade em achar a pessoa que procurava.

Angolos Constantine se destacava na multidão. Não só por causa da altura e do visual. Ele tinha aquela qualidade rara chamada presença.

- Angolos...? - chamou ele, aliviado.

A figura alta, que tinha por companhia uma morena ele¬gante repleta de jóias, virou-se ao ouvir seu nome. Um sor¬riso se espalhou por seu rosto ao identificar de onde vinha.

- Paul! - exclamou ele, tirando o braço da acompanhan¬te e se aproximando com a mão estendida. - Não sabia que era fã de ópera.

- Não sou... e, mesmo que fosse, não seria o motivo de eu estar aqui - admitiu com franqueza. - Só vim até aqui para dizer a eles que sou seu médico particular.

O entalhe do forte nariz aristocrático de Angolos ficou mais pronunciado.

- Muito bem pensado da sua parte. - Ele virou a cabeça levemente para os lados, procurando alguém. - E onde está a adorável Miranda?

Paul Radcliff balançou a cabeça e olhou para o rosto do amigo que conhecia desde os tempos de universidade.

- Mirrie não veio.

- Pensei que vocês viessem juntos.

- A pressão dela estava um pouco alta... Nada sério. Angolos bateu com a mão na testa.

- Esqueci! - admitiu com um sorriso de autocensura! - Quando chega meu afilhado?

- Já chegou na semana passada.

Angolos arqueou as sobrancelhas.

- Agora a coisa ficou séria.

- Você está com ótima aparência, Angolos.

Ele sentiu que a frase soou incompleta. Ninguém que olhasse para sua figura esguia e saudável diria agora que poucos anos antes seu futuro era incerto. Paul era uma das poucas pessoas que sabiam disso, e ele mesmo mal conseguia acreditar!

- Sempre o médico, Paul - provocou ele, arqueando uma sobrancelha.

- E amigo, espero. - Foi por causa desta amizade que, após muito considerar, ele acabou vindo. Por isto e por causa da insistência da esposa.

- O homem tem direito de saber, Paul - insistiu ela. Ele estava inclinado a deixar a coisa como estava, mas esposas em estado avançado de gravidez precisam de trata¬mento especial. Miranda insistiu que ele tinha de falar com Angolos sem demora e que aquele era o tipo de coisa que não se fala por telefone.

Então ali estava ele, desejando não estar.

As feições duras do moreno grego se suavizaram com um sorriso devastador.

- E amigo - concordou Paul. - Então, qual o problema, Paul?

- Nenhum problema, exatamente - respondeu com desconforto.

Angolos não se deu ao trabalho de disfarçar que não acreditava naquilo.

- Não venha com essa. Tem de haver algo muito sério para você ter deixado Miranda sozinha numa hora dessas.

Aquele era Angolos, racional até o último fio de cabelo, a não ser quando se tratava de sua esposa. No que dizia respeito a Georgie, ele ficava bastante... grego... e imprevi¬sível, refletiu o inglês.

- Ela... Mirrie foi quem me fez vir - admitiu Paul. Angolos balançou a cabeça.

- Que bom que ela fez isso. Eu ficaria ofendido se você não viesse me procurar quando está com problemas. Espere um segundo e já estarei com você.

- Meu... problema...? Mas eu não tenho... - Paul parou e observou com uma expressão cômica de incredulidade enquanto o amigo trocava palavras com a morena, que não pareceu nada feliz com o que escutou. Segundos depois, Angolos estava ao seu lado de novo.

- Vamos sair daqui - sugeriu Angolos. - Tem um bar ali na esquina. Podemos conversar.

A primeira coisa que Paul pensou em dizer quando pe¬diram as bebidas foi:

- Deixe-me esclarecer uma coisa. Não estou aqui para lhe pedir dinheiro emprestado, Angolos.

- Eu sei muito bem que nem todos os problemas se re¬solvem com dinheiro, Paul. - Seu olhar grave deixou o outro homem desconfortável. - Mas, se o seu problema puder ser resolvido com dinheiro, eu vou resolvê-lo, queira você ou não. - Então ele sorriu calorosamente. - Meu ami¬go, se não fosse por você, eu nem estaria aqui.

- Besteira!

O evidente desconforto de Paul fez Angolos sorrir com dentes muito brancos, contrastando com o rosto moreno.

- Sua modéstia britânica chega a ser engraçada, Paul -observou ele secamente. Apoiou os cotovelos na mesa e se aproximou do outro com expressão atenta. - Então, qual é o problema?

- Eu não diria que é um problema... É só que o doutor Monroe se aposentou e seus pacientes foram repassados a nós... - Paul respirou fundo ao ver a testa franzida de An¬golos e prosseguiu rapidamente. - Ontem, meu sócio foi chamado para uma emergência e eu vi o nome dos novos pacientes. - Engoliu em seco. - Georgie... sua Georgie está entre eles.

A expressão de Angolos permaneceu a mesma, mas seu jeito de pegar a bebida e levar aos lábios pareceu estranho. Quando pôs a bebida na mesa de novo, ele olhou nos olhos do outro.

- Ela está doente?

- Não, não!

Os ombros de Angolos relaxaram quase imperceptivelmente.

Angolos reconheceu por dentro que aquilo era algo per¬verso, mas considerando que três anos e meio atrás ele havia amaldiçoado a esposa infiel com todas as suas forças, a possibilidade de ela estar doente agora talvez tivesse des¬pertado algum instinto primitivo de vingança.

- Na verdade, ela pareceu estar muito bem... um pouquinho magra, talvez - comentou Paul. - Ela sempre teve bons ossos.

- Não tenho o menor interesse em saber da parte estética dela. - O maxilar de Angolos enrijeceu enquanto o outro ho¬mem olhou para ele com ceticismo. - E não me lembro de você me dizer que Georgie tinha bons ossos quando veio me falar que casar com ela seria o maior erro de minha vida...

- Ah, bem, eu temia que você estivesse...

- Maluco? Pois no final você estava certo mesmo. - Ele se aproximou mais um pouco. - Ela pediu para você inter¬ceder? Pensei que você tivesse mais juízo e não fosse se deixar levar por...

O doutor pareceu indignado.

- Na verdade, parceiro, tenho a séria impressão que você é a última pessoa com quem ela gostaria de entrar em con¬tato - revelou com toda a franqueza.

- Realmente!

- Georgie ficou bastante chocada ao me ver. Na verdade - admitiu ele -, achei que ela fosse sair correndo do consul¬tório. E, quando eu toquei no seu nome, ela pareceu... - Ele parou. Não havia palavras para descrever a expressão nos olhos daquela jovem mãe. - Não pareceu muito contente - completou Paul.

Angolos se recostou à cadeira, abriu um botão da jaque¬ta e cruzou os braços.

- Mesmo assim, aqui está você.

- Sim. E é duro. Mirrie é bem melhor neste tipo de coi¬sa do que eu.

Neste ponto, se a conversa fosse com outra pessoa, An¬golos já teria mandado a pessoa passear, mas, como era Paul, ele controlou a impaciência.

- A questão, Angolos, é que ela trouxe o garoto. - A expressão de Angolos não estava nada encorajadora, mas Paul persistiu. - Você já viu...?

- Não, nunca vi o garoto - respondeu Angolos glacialmente.

- É um menino ótimo, e nada mimado. Georgie tem feito um bom trabalho, mas, pelo que percebi, ela está sem dinheiro.

Os lábios de Angolos se retorceram em uma expressão de revolta.

- Então é isso, ela está bancando a pobrezinha. Eu de¬posito uma quantia mais do que suficiente todo mês para as necessidades da criança. Se Georgette ficou gananciosa e se por um acaso tem esperança de conseguir mais dinheiro de mim, pode esquecer. Ela já me fez de bobo uma vez...

- Ela sinceramente não tocou no assunto "dinheiro". Angolos, se ela quisesse arrancar dinheiro de você... Você viu quanto aquele roqueiro que negou a paternidade de uma criança teve que pagar à mãe depois do exame de DNA?

- Pois o DNA a impediria de continuar fazendo a crian¬ça passar por minha. Se ela está tão desesperada, devia vender sua história para algum tablóide sensacionalista. -Suas narinas inflaram e ele tamborilou os dedos na mesa. - Seria bem o estilo dela.

- Será que ela já não teria feito isso, se quisesse? E, se quisesse dinheiro, posso imaginar que o divórcio teria um acordo financeiro bem vantajoso para ela.

- Só por cima de meu cadáver.

- Sinto que você diga isto. De verdade.

- Esperava que não chegasse a esse ponto - replicou Angolos. - Por acaso estamos dando voltas?

- Sim, bem, na verdade é... a questão do DNA...

- Que questão do DNA?

- Tem certeza que o teste daria negativo!

- Certeza...? - Angolos olhou para o amigo com incre¬dulidade. - Logo você me faz uma pergunta destas? A qui¬mioterapia salvou minha vida, mas me deixou estéril. Minha única chance de ser pai está armazenada em algum lugar a não sei quantos graus abaixo de zero.

- Falta de sorte - disse Paul, bastante consciente da iminente paternidade do amigo.

- Falta de sorte? - Angolos deu um risinho de canto de boca. - Sim, suponho que tenha sido falta de sorte. Contudo, considerando que, sem o tratamento, e mais importante, sem seu diagnóstico precoce, eu não estaria aqui, posso me con¬siderar sortudo, sim.

- Mas não é uma situação fácil.

- Intelectualmente, na verdade. Não tenho problema com a situação, mas, de alguma forma, não importa quantas vezes eu diga a mim mesmo que a masculinidade de um homem não está na contagem de espermatozóides, ainda sinto... - Deu um risinho sardônico e olhou nos olhos de Paul. - Quem sabe Georgette não estava certa e eu não passo de um machista irrecuperável...

- Há dúvidas quanto a isso?

A resposta fez Angolos dar um sorriso amargo.

- Por isso você nunca contou a ela sobre a quimioterapia e o câncer? Estava com medo que ela... - Paul deu um sor¬riso constrangido. - Desculpe, eu não devia...

- Se eu estava com medo que ela me achasse menos homem, é isso? O que você acha, Paul?

- Acho que, se eu soubesse o que se passava em sua mente, eu seria o único - respondeu o amigo com franqueza. - Sabe, quando se trata de responder a perguntas, você é mais escorregadio que um político. Se quer minha opinião, você estava errado. Sei que Georgie era jovem, mas ela sempre me pareceu bastante madura...

- Madura o bastante para me trair e tentar fazer o produ¬to de suas aventuras amorosas se passar por meu filho.

Paul fechou a cara.

- Bem, quanto a isto, Angolos..

- Vai querer discutir a infidelidade de minha esposa?

- Claro que não.

- Se descobriu quem era o amante dela... - No final, ela acabou se recusando a reconhecer sua culpa e a dizer o nome do amante. Apesar de Angolos saber quem era. - Saiba que não estou mais interessado.

- Quem sabe não havia amante nenhum?

As sobrancelhas escuras de Angolos se contorceram quando ele deu um sorriso revoltado.

- Amante nenhum...? O que está querendo dizer? Que ela ficou grávida do Divino Espírito Santo?

Paul levantou a mão.

- Angolos, me escute. Sei que este tipo de quimioterapia à qual você se submeteu normalmente causa infertilidade, mas há exceções... Você não fez nenhum teste...

- Não, como também não passei pela orientação psico¬lógica, que, pelo jeito, queria me fazer ficar contente por ser menos homem.

- Sim, você na época deixou bem claro o que achava da orientação psicológica.

- Não se pode alterar o que acontece, apenas aceitar.

- Terrivelmente fatalista.

- Nós, gregos, somos fatalistas.

- Você é a pessoa menos fatalista que já conhecia na vida. E, às vezes, conversar ajuda... Mas não vim aqui para dis¬cutir os benefícios de conversar para desabafar.

- Você vai me dizer o que tem para dizer ou não vai?

- O garoto é seu.

O rosto de Angolos foi tomado por um espasmo de raiva. Paul observou, alarmado, o amigo respirar fundo várias vezes e dizer, com voz bastante controlada:

- Até você, Paul?

- Você vai querer acabar comigo, eu sei, mas tenho de dizer mesmo assim. O garoto, Angolos, é você sem tirar nem pôr. E não estou dizendo que ele é parecido, ele é sua répli¬ca em miniatura. Não há qualquer sombra de dúvida: Nicky é seu filho.

- Isso é alguma piada, Paul?

- Tenho um senso de humor negro, Angolos, mas não sou cruel. Se não acredita em mim, sugiro que confira por si mesmo.

- Não vou embarcar nesta fantasia.

- Eles estão na casa de praia.

- Não tenho intenção de ir a lugar nenhum atrás dessa mulher.

- Bem, isto é contigo, mas se eu fosse você...

Os olhos de Angolos cintilaram.

- Mas não é. Você tem uma esposa à sua espera em casa, você vai segurar seu filho nos braços logo... - Ele viu o choque no rosto do amigo, e pior ainda, a compaixão que apareceu em sua expressão. - A verdade, Paul - acrescentou Angolos em tom mais moderado -, é que eu o invejo. Nunca menospreze o que você tem.

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