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A Farsa

A Farsa

Autor:: Barbara P.Nunes
Gênero: Romance
E se sua vida virasse do avesso? O que você estaria disposto à fazer para salvar sua família? Andreia sempre foi uma princesinha, linda e mimada. Até o destino mudar as coisas, depois de um grave acidente, a jovem perdeu o pai e sua mãe entrou em coma, sem dinheiro para bancar o tratamento, torná-se uma stripper e passa a levar uma vida dupla. Ametista, sua identidade secreta durante as noites, se torna um sucesso e o tratamento da sua mãe está garantido, durante o dia ela é uma simples garçonete na lanchonete de um hospital. E é nesse momento em que ela conhece Miguel, o filho do dono do hospital onde sua mãe está internada, uma atração explosiva e intensa, enganado pela áurea de boa moça da jovem, a pede em casamento, ficando cada dia mais apaixonado. Porém será que a paixão superará o ódio que ele nutrirá ao saber que foi enganado? Um amor doente deixa de ser amor?

Capítulo 1 Prólogo

Qual foi a maior mentira que você já contou?

Sabe aquela que só em pensar te enche de tremores e receios?

Pois bem, eu sou uma stripper! Sim, eu danço apenas de fio dental no colo de desconhecidos em troca de eles colocaram notas de altos valores na minha ínfima calcinha.

Saio de dentro de bolos de aniversário, faço acrobacias no pole dance, tudo para ter o máximo de dinheiro possível. Tudo para salvá-la.

O que a maioria das pessoas vê em mim no dia a dia é uma linda loira de inocentes olhos azuis. Muita gente me pergunta por que eu não fui modelo ou atriz, por que não me aproveitei da minha beleza. Não usarei de falsa modéstia.

Sou bonita.

E isso me fez ser o que sou de todas as maneiras possíveis.

As pessoas facilitavam a vida para mim, me davam cola, carona e tudo que você possa imaginar. E isso me tornou uma mulher preguiçosa... Se todas as pessoas bonitas são preguiçosas? Eu não sei. Porém, isso também não é relevante, já que esta história é sobre mim. E como eu perdi de todas as maneiras possíveis e imagináveis.

Capítulo 1

Todas as vezes que sirvo café para uma freira, eu me pergunto o que ela pensaria se soubesse que há algumas horas eu rebolava em um palco usando apenas um fio dental minúsculo, enquanto homens jogavam notas de dinheiro em minha direção. Tento conter este tipo de pensamento, porém ele é quase automático.

Eu não sou prostituta, também não critico quem é, sou uma stripper, uma não, sou a melhor stripper. Tenho que ser, pois não há escolhas.

Minha história não começou aqui, longe disso, posso lembrar-me de quando tudo deu absurdamente errado.

Há cerca de três anos, quando eu tinha apenas dezessete anos, era uma adolescente como tantas outras e apesar de ser muito bonita, não tinha permissão para namorar. Isso não impedia os homens de me notarem, mesmo enclausurada, porque minha mãe só me permitia sair sozinha para ir à igreja, onde suas amigas fanáticas não despregavam os olhos de mim.

Porém, durante uma missa, senti um olhar me queimando, olhos másculos e escuros, um nariz arrebitado e cheio de sardas apesar da pele cor de café com leite, cabelos cacheados que lhe dava um ar quase angelical; quando nossos olhos se cruzaram ambos sorrimos, tentei prestar atenção nos ritos, mas era difícil com aquele moreno absurdamente perfeito tão próximo.

No fim da missa ele veio me desejar a paz do senhor e pude sentir um papel sendo transferido para a minha mão, disfarcei e corri até o banheiro, onde o li, ciente de que aquilo era contra tudo que meus pais desejavam.

"Ligue-me amanhã, loira mais linda do mundo? Um beijo onde preferir, Denis".

Enfiei o papel no sutiã e saí do banheiro com um sorriso imenso, liguei no dia seguinte e no outro, e no outro...

Começamos a nos ver escondidos, até ficarmos juntos, e ele me virou a cabeça. Eu só pensava no meu moreno delícia, achava que era recíproco porque ele se tornou um membro ativo da igreja na época.

Em um sábado como tantos outros, eu fechava a sala de catequese - sim já fui catequista - Denis veio ao meu encontro, posso dizer cada detalhe do seu rosto e a intensidade dos seus olhos cor de avelã, enquanto ele sorria e pegava minha mão me fazendo estremecer de vontades que não combinavam com meu estado virginal.

- Estava te procurando, minha loira.

- Aqui não. Aqui meu pai vê.

Ele me arrastou para dentro da sala e não pude fazer nada, aqueles olhos mais escuros que uma noite sem estrelas me enlouqueciam. Quando dei por mim estava encaixada nele, num beijo arrebatador, a boca dele me sugava inteira, enquanto suas mãos brincavam com meu sutiã.

Logo estávamos deitados sobre a mesa onde eu ensinara tudo que jogava fora naquele momento.

Quando podíamos nos beijar como era o caso, beijávamos até dar câimbra na mandíbula.

- Aqui não, Denis.

Saímos correndo até uma casa vazia que pertenciam aos pais dele, pulamos o muro e ficamos numa área coberta por telhas de amianto.

As mãos dele mexeram comigo de uma maneira até ali inédita, era o primeiro a ver e tocar os meus seios, assim como também foi o primeiro a me deixar nua, os cachos de cabelo dele caiam sobre minha pélvis, enquanto ele me mostrava outras funções que uma língua poderia ter.

Contorci-me ante a pressão que a boca dele fazia contra meu clitóris, e aquele orgasmo ainda virginal liberou uma fera dentro de mim.

Um fim de semana após meu aniversário de dezoito anos, meus pais saíram em uma excursão da igreja, eu não pensei duas vezes: trouxe Denis para minha casa, que, sem nenhuma pressa, tirou minha virgindade com tanta presteza que o ardor intenso teve um toque de prazer. Eu pertencia a ele, e adorava. Depois disso acabamos com o estoque de preservativos da cidade, ele brincava comigo e me tinha onde bem quisesse, porém apesar do desejo que o consumia ele não falava mais sobre compromisso, até passou a evitar o assunto.

Porém eu estava louca por ele, e naquela época preferia não ver.

Na semana do aniversário dele de dezenove anos, os pais liberaram um sítio para que Denis desse uma festa para os amigos.

Meus pais vetaram, eu, uma moça de família, não iria me dar ao desfrute, entretanto, no tal sábado esperei meus pais dormirem, estourei meu cofrinho e pulei a janela, precisava dar um beijo de aniversário em Denis, era meu único pensamento. Eu voltaria antes que eles acordassem, fui até o ponto de táxi e entrei no primeiro que passou, meu coração parecia saltar da boca, paramos o mais próximo possível e saí do carro, num misto de excitação e medo, pois era a primeira vez que eu mentia para meus pais de maneira tão grande e foi a última.

Tive que caminhar um bom pedaço até a porteira, fiquei mais aliviada quando ouvi a música que vinha de lá.

Desci a ladeira íngreme que me levaria até a casa. Vários casais se pegavam sem pudores pelo caminho.

Entrei e soube que Dênis ainda não chegara, fiquei ali perto do bar, mesmo na época não bebendo; alguns rapazes me convidaram para dançar e eu recusei.

Lembro-me que levou bastante tempo até a buzina dele arrastar metade da festa para fora, todos gritavam, acenando e jogando copos descartáveis no carro.

Ele desceu e antes que eu pudesse chegar até ele, uma morena desceu do carro. Dênis não perdeu tempo, foi até ela e beijou-lhe a boca. Algumas pessoas começaram a me olhar, como que me chamando de corna. Passei por um rapaz que segurava um copo imenso cheio de cerveja, o peguei e fui até onde estavam e lancei todo o líquido sobre eles.

- O que está fazendo aqui, Andreia? Não disse que não estava a fim de te comer hoje?

Todos riram, eu olhei fundo em seus olhos castanhos e saí.

Voltei pela estrada de terra, chorando. Havia me guardado tanto para isso? Para ser "comida"?

Como eu o odiava, na verdade eu me odiava. Peguei o telefone no bolso de trás da minha calça jeans e fiz a maior de todas as burradas, liguei para casa.

O telefone tocou várias vezes, até ouvir a voz de minha mãe, foi a última vez que eu a ouvi.

- Andreia cadê você? Seu pai vai te matar! Olha, eu nunca deixei ele te bater, mas dessa vez eu vou deixar, você está merecendo.

Mamãe fazia aquela ameaça, que nunca se cumpriu, desde que eu era pequena.

Hoje eu queria meu pai ao meu lado, nem que fosse para me dar a tal surra.

- Manhê, tem como vocês virem me buscar? Me desculpe mãezinha, eu não devia ter vindo.

- E o namoradinho não foi?

- Eu não tenho...

- Tem sim filha, é até natural que tenha. Você já tem dezoito anos.

- Ele trouxe outra - desabei ali sozinha.

- Coração de mãe não se engana, não é? Passe o endereço - dei a minha localização exata - Vou acordar aquele velho preguiçoso e já vamos e Déia...

- Fala, mãe.

- Mamãe te ama muito, nunca se esqueça.

Todas as vezes que penso nas últimas palavras que minha mãe me disse eu choro. Lembro-me de ficar perto da rodovia por horas e estranhar a demora. Até que meu celular tocou.

- Boa noite, com quem eu falo?

- Andreia, quem é?

- Somos da polícia rodoviária, houve um acidente...

- Um o que?

- Um acidente perto do cruzamento da... Anotei mentalmente o endereço.

- Quem se acidentou? - perguntei já sabendo a resposta.

- Um carro - enquanto ele descrevia o modelo, a cor e o ano do carro, senti minhas forças me abandonarem.

Perguntei o local e eram quinze minutos de caminhada pelo acostamento, não sei dizer quanto tempo eu levei, sei que nunca corri tanto na minha vida.

Chegando perto vi que a rodovia estava interditada. O carro deles estava de ponta-cabeça, havia um corpo coberto pelo que me parecia ser papel alumínio, eu queria muito chegar lá, ao mesmo tempo em que não queria nunca ter saído de casa. Caminhei até o local do acidente como alguém que caminha no corredor da morte.

- Rodovia interditada, um dos motoristas veio a óbito no local, passageiro em estado grave, o outro carro sem feridos graves.

Andei o mais rápido que consegui, me sentia como dentro de um pesadelo.

Parei um guarda e falei que haviam me ligado sobre o tal acidente e que aquele era o carro dos meus pais. O policial me encarou e tirou o quepe, uma coisa que eu posso te ensinar, não sei muitas coisas, mas isso eu cansei de ver, quando um policial tira o quepe, ou o médico tira a touca é que algo terrível aconteceu.

- Quantos anos você tem, menina?

- Dezoito.

- Você tem algum parente que possa ficar com você? - ele desviou os olhos dos meus.

- Só os meus pais, eu não tenho tios ou avós.

- Gomes? A leve até a ambulância e lhe aplique um calmante.

- Não! Eu não quero calmante, eu quero saber o que está acontecendo.

Lembro-me de ser arrastada até uma ambulância e me aplicarem uma injeção hipodérmica, um policial de meia idade veio até mim.

- Andreia, houve um acidente e infelizmente seu pai não resistiu, sua mãe será transferida para um hospital da região.

Meus olhos desviaram dele e foram para o corpo estendido na estrada, era isso que meu pai se tornou: um corpo.

Seu Messias era o melhor pai que alguém poderia ter, e eu agradeço por Deus ter me concedido a graça de tê-lo em minha vida, meu pai só me chamava de princesa e me tratava feito uma. E agora, por causa da minha desobediência, era só um corpo jogado no asfalto.

Fui até lá e levantei a manta que o cobria. Seu rosto estava tão machucado quanto sereno. Não consegui nem chorar, a dor me transpassou.

Um helicóptero pousou na rodovia e levou minha mãe enquanto eu fiquei ali parada, tentando absorver a vida que se abria na minha frente.

O enterro do meu pai no dia seguinte foi o pior momento da minha vida, quase morri quando o caixão desceu. Havia algumas poucas pessoas, nossa família consistia em apenas nós três. E agora seria só mamãe em coma e eu.

Quando voltei do enterro, passei rapidamente em casa e fui para o hospital.

- Senhorita Andreia, sua mãe está passando por complicações, ela teve uma embolia e o único hospital capaz de cuidar do caso dela fica na capital, e não faz parte da rede pública.

Meu mundo caiu. Fechei minha poupança pró-faculdade e vendi tudo que podia a preço de banana para conseguir a transferência. Quando chegamos ao tal hospital de luxo, mais um golpe: o estado dela piorou e por isso teria de ficar numa máquina que faria a função dos pulmões e do coração. Como não tínhamos convênio, isso parecia impossível, porém um médico me mostrou uma brecha. Dei o dinheiro que ainda tinha para garantir o mês, quando ela acordasse eu trabalharia e ajuntaria tudo novamente.

Mal sabia que aquilo era o início da minha destruição.

Uma tarde em que eu chorava e sofria o fato de que só tinha dinheiro para dois meses de hospital e mais nada, as coisas começaram a mudar. Uma luz se acendeu quando conheci Clóvis Salgado, dono de uma rede de lanchonetes hospitalares.

Como não tinha qualificações fui contratada para ser garçonete, não dava para bancar o tratamento, porém eu poderia pagar o aluguel do cômodo em que eu morava num cortiço, era apenas servir lanches e café.

E no meu primeiro dia de trabalho arrumei meu segundo emprego, também como garçonete, porém agora o ambiente era o oposto a hospitais. O Burlesco era uma das maiores casas noturnas de São Paulo.

Era muito glamoroso, porém eu preferia o primeiro emprego, pois além de não ter a aura sexual, eu ainda o via. No pior momento da minha vida, arrumei uma paixonite. Era estranho e ao mesmo tempo muito bom vê-lo! Sem brincadeira, ele era o homem mais lindo que eu já havia visto, o cabelo escuro era bem curto, volta e meia usava uma barba, que minha nossa senhora das mulheres solteiras, era um escândalo, a pele alva esticada perfeitamente sobre ossos e músculos o tornando um homem alto e forte. Meu sonho era ver a nossa diferença de altura.

- Oh bonitona, vai lá.

Olhei para Patrícia, a pessoa mais próxima de uma amiga que eu tinha.

- Me deixa, Maionese. Me deixa. - A apelidei assim por causa do desenho Doug, uma paixão da infância.

Nessa época eu já era Ametista à noite, lucrava um bom dinheiro rebolando para estranhos, então namorados eu não tinha nem em sonho.

Fui para a cozinha e respirei fundo, ninguém sabia sobre Ametista, somente os funcionários do Burlesco. Então fingia uma falsa timidez.

Durante dois anos, essa foi minha vida, curtia minha paixão platônica pela manhã, era a coisa mais próxima que eu tinha de um amor, o vi colocar uma aliança de ouro na mão direita com tristeza e depois veio uma sensação de alívio quando o anel sumiu. Não que isso mudasse algo, a Ametista me afastava dele.

Nas noites de segunda eu ensaiava, a minha vontade de arrecadar dinheiro era tanta que não precisei de professores de pole dance, eu olhava e fazia, e amava. É um esporte maravilhoso.

Madame Bovary, a drag queen dona do Burlesco, me mimava, o sonho dela era financiar um show meu que rodasse o Brasil. Com ela aprendi a expor minha nudez, a me sentir segura ao ficar apenas de calcinha na frente de homens afoitos e velhos babões.

Tinha terminado o ensaio do número novo e me vestia quando ela entrou no camarim.

- Linda, Ametista eu tenho tanto orgulho de sua garra.

- Eu não tinha outra opção.

- Sempre há outra opção, minha rainha. Você é tão bonita e tão sozinha.

- Que homem iria me querer? - meu pensamento voou até o bonitão.

- Ih, esse olhar significa que você já tem um rapaz em vista.

- Não - desmenti - Não há ninguém.

- Ele frequenta aqui?

- Não, ele é um médico.

- Ah, um médico... Então ele não sabe sobre a Ametista?

- Ele não sabe nem sobre a Andreia.

Respirei fundo, enfiando a calça jeans. E a imagem dele veio perfeita em minha mente, ele bebendo café olhando no celular, ou lendo jornal.

- Por quê?

- Eu não tenho o direito de envolver ninguém nisso, além do mais tem a mamãe.

- Aí rainha, quantos anos?

- Minha mãe?

- Sim amada, quantos anos nesta situação?

- Quase três, muita gente disse que ela não conseguiria... - Senti meus olhos encherem de lágrimas.

- Rainha, não chore. Vamos, eu te dou uma carona.

Bovary me levou até a rua de casa, eu estava simplesmente morta, e ainda era segunda, não que na época eu tivesse folga, mas detestava as terças, se bem que aquela terça-feira foi diferente.

Eu acordei atrasada, saí quase que colocando as calças na rua, corri, peguei o metrô até a estação Santa Cecília e mal acreditei quando vi no celular que daria tempo, mesmo assim saí correndo da estação. Cheguei e cumprimentei seu Clóvis enquanto tirava o avental do bolso.

- Funcionária nova? - senti meu sangue gelar ao ouvir a voz atrás de mim, não precisava virar para saber que era ele.

- Nunca viu Andreia? Está aqui há uns dois anos...

- Oi Andreia...

Virei-me para encará-lo, oh Deus, de perto ele parecia um sonho, era impossível não sorrir ao olhar para ele.

- Oi...

- Miguel - nunca vi olhos castanhos mais lindos do que aqueles, acho que não existe - eu trabalho aqui também, não na lanchonete, no hospital.

- Eu sei...

- Você sabe? Interessante. Que tal tomar um cafezinho comigo?

- Não dá, estou em horário de trabalho.

- Que pena.

O vi sentar-se e pegar o celular, a rotina pareceu voltar ao normal, com exceção de eu estar com tesão, foi algo tão fora da minha rotina, que demorei a entender o sinal de perigo.

- Patrãozinho, cheguei. Antes tarde do que nunca.

Paty deu um sorriso e entrou. Como sempre, ela serviu Miguel, que tomou o café, deixou a gorjeta e saiu.

Confesso que fiquei decepcionada, ele sequer olhou para onde eu estava.

O dia foi corrido como geralmente era quando tinha plantão de pediatra. Por volta das seis, depois de uma hora de extra, eu só queria a minha cama; ainda bem que o Burlesco não funcionava às terças e quartas.

Estava saindo quando ouvi a voz dele próxima ao meu ouvido.

- E agora quer um cafezinho?

Virei-me para ele, que estava tão perto que pude sentir sua respiração em meu rosto.

- Não sei...

- Pode ser um refrigerante?

Era difícil pensar com ele tão próximo, acabei aceitando. Fomos até uma padaria que ficava na esquina e tomamos um café.

- Como eu nunca vi você por aqui?

- Ah, tem tanta gente naquele hospital, como conheceria uma das dezenas de garçonetes, ficamos todas iguais de uniforme.

- Não você, Andreia, você é muito bonita, com todo respeito.

- Obrigada.

Senti que ficava vermelha, era desconcertante flertar, um strip-tease para cinquenta homens era mais fácil que encarar esse único homem que mudava o tom da minha respiração, me encabulava, me afetando de um jeito inédito só de estar sentado à mesma mesa que eu.

- Antes que me pergunte, estou solteiro, não convidaria uma mulher tão bonita para um café se estivesse comprometido.

- Seu estado civil não me interessa - interessar, interessava, porém eu não devia em hipótese alguma sentir o que estava sentindo.

- Mas o seu me interessa.

Mordi o lábio superior, aquilo era tão absurdamente certo e estupidamente errado. Miguel tomou o café, sem desviar os olhos dos meus; meu pensamento era por que naquele momento?

- Solteira - me peguei respondendo.

- Que bom, porque eu passei o dia inteiro pensando em você, acho que nunca fiquei tão atraído, me desculpe ser tão direto, mas sou péssimo em demonstrar interesse.

- Hm... Eu vou nessa... Miguel né? Obrigada pelo café, foi um prazer.

- Eu te levo em casa, prometo que vou me comportar.

- Não precisa prometer nada, eu não quero sua carona.

Eu sabia que não podíamos ter nada, então apesar da atração que eu sentia, o certo era cortar aquela atração desde o princípio.

- Bonita e inacessível, tudo que um homem procura em uma mulher.

- Olha, Miguel. Por mais que eu quisesse ficar aqui falando com você, eu tenho que ir, tem um metrô lotado me esperando, e não vejo a hora de tirar este uniforme e dormir.

- No meu carro seríamos só você e eu...

- Não, passar bem.

- Me dê um beijo antes de ir?

Inclinei-me em sua direção e beijei a bochecha, e quando meus lábios tocaram a pele clara, eu senti que poderia desmaiar.

Saí da padaria, num misto de emoções, a vida era injusta, o cara que eu passei anos observando queria me levar e eu não podia aceitar. Como eu poderia me apresentar? Sou stripper, as chances de você conhecer alguém que já colocou dinheiro na minha calcinha é imensa.

Abanei a cabeça, eu não tinha escolhas sem a boate, sem o tratamento que minha mãe precisava. Nos últimos meses nem só a boate estava dando o suficiente.

- Andreia, Andreia - olhei para trás, Miguel abanava uma folha de papel - Você esqueceu isso.

Parei tentando lembrar em qual momento eu abri a bolsa, fiquei esperando por ele, peguei a folha quando ele parou perto de mim, e nela tinha uma sequência de números, que logo vi ser um telefone.

- Eu não esqueci isso...

- Estes são meus telefones.

O encarei de cenho fechado, será que ele não percebia os meus nãos?

- Você me disse que eu esqueci algo, você queria...

- E esqueceu mesmo - ele me interrompeu - Esqueceu isso.

Mal senti quando Miguel me enlaçou a cintura, me erguendo um pouco para que nossos lábios se unissem em um beijo devastador, eu nunca mais seria a mesma depois de provar o seu gosto. Entretanto, não corresponder estava fora de questão, foi como se ele tivesse acendido o estopim de uma bomba relógio que estava oculta em meu corpo.

Depois daquilo não poderia mais voltar atrás...

Capítulo 2 A outra vida

Fazia muito tempo que eu não era tocada por um homem, aliás, eu só havia sido tocada por Denis, tocada e trocada.

Desvencilhei-me daquele beijo e o encarei, o sorriso tinha um ar safado, a boca era um chamariz para minha mente lembrar que eu era uma mulher.

- Viu? Como poderia ir embora sem me beijar?

- Mas você é muito convencido. Eu...

E antes que pudesse falar algo, ele me puxou para outro beijo.

Quando nossas bocas se tocavam, por mais que as sirenes de perigo em minha cabeça gritassem, não conseguia soltar-me.

Saí sem dar tchau, peguei o metrô e segui para casa, com um sorriso bobo colado no rosto; cheguei ao meu quarto e fiquei um bom tempo fitando o mofo no teto, no entanto dessa vez isso não me incomodou.

Meu celular tocou me tirando do mundo da lua.

- Você está ficando com o bonitão? - era Patrícia, minha colega de trabalho e dona de um gostoso sotaque cearense, minha Paty Maionese.

- De onde tirou isso?

- Eu vi, tu deves estar mais feliz que pinto no lixo.

- Foi só um beijo, não estamos juntos não.

- Mas aposto que ficarão juntinhos. Casadinhos, fofinhos, já estou pensando no nome do primeiro bacuri.

Aquilo foi um choque de realidade, eu não teria aquela vida, por maior que fosse meu anseio. Desliguei o telefone e fui até o banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água gelada escorrer pelo meu corpo, até o beijo tornar-se uma lembrança. Mas nada tirava seu gosto dos meus lábios e a vontade de meu interior.

Naquela noite não dormi, foi péssimo constatar que eu estava realmente a um ponto de me apaixonar.

De manhã coloquei um uniforme limpo e fui para a lanchonete. O dia passou sem grandes acontecimentos. Era meu dia da limpeza, então, quando ele entrou, por um triz não dei um banho nele.

- Bom dia, moça loira.

- Bom dia, com licença - respondi sem nem levantar a cabeça, precisava afastá-lo de mim, Ametista era meu único compromisso.

Esfreguei o chão com afinco, como se retirar aquela sujeira limpasse meu coração.

- Você não me ligou, nem saí de casa ontem na esperança de você me ligar...

- Eu te ligaria para quê? Não somos amigos. - passei o pano seco no chão. Por que ele tinha que estar tão interessado? Não me bastava saber que Miguel e eu não teríamos nada?

- Estou te assediando? Caso seja isso...

- Não, não está me assediando. Agora com licença eu preciso passar o café.

Saí sem olhar para ele, quando cheguei à cozinha, as lágrimas queimavam meus olhos e um bolo de amargor obstruía minha garganta.

Pensei no Burlesco e em como eu não poderia sair de lá, era a única esperança da minha mãe, pois o hospital e a medicação eram muito caros.

Eu era uma stripper, e mais, era melhor no pole dance do que servindo mesas e fazendo café.

Entretanto, Miguel me arrepiava e me fazia lembrar que eu era uma mulher, o certo era afastá-lo; quando o rapaz perguntou se era assédio, devia ter falado que era. Porém, o flerte era uma delícia.

- Vim buscar o café do seu bonitão.

- Eu não tenho bonitão.

- Deixe de ser besta, que eu te vi olhar ele por bastante tempo, agora ele está te olhando. Então aproveite, beije aqueles beiços lindos.

- Eu não posso ter um homem na minha vida, eu tenho minha mãe.

- Quem falou para largar a sua mãe? Eu falei de arrastar o bonitão para um banheiro e conferir se ele é todo grandão.

- Não me interessa se ele é todo grandão... Minha mãe está em coma, e se eu vacilar... Não...

- Loira, olha pra mim, isso - a encarei, tentando segurar o choro - O que está acontecendo?

- Miguel quer algo comigo, eu não posso ter nada.

- Não pode ou não quer?

- Não posso... Não me faça perguntas.

- Eita que tem caroço neste angu. Sabe que estou aqui, né?

Concordei enquanto a vi bater o leite para virar um creme e decorar o café dele, fui para trás do biombo olhar Miguel.

Ele bebia o café e mexia no celular. Às vezes sorria, o que me fazia morder os lábios. Se existiu um homem mais provocante que ele não conheci. Tão inocente e concentrado, era tão bom olhar para aquele médico mais que bonito.

O vi levantar-se, pagar o café e sair. Patrícia veio como raio em minha direção.

- Loira, que homem cheiroso e discreto. Você é muito sortuda. Agarre ele.

- Paty Maionese, não tem nada entre a gente. Pare de viajar.

- Ele beija bem?

- Eu não acredito. Por favor...

- Por favor, digo eu - ela revirou os olhos castanhos e deu um sorriso metálico.

- Beija - suspirei ao lembrar-me daquela boca sobre a minha. Graças a Deus, Clóvis chegou e cortou o assunto.

O resto do dia foi uma correria, Paty teve de ir fazer os folhados e eu acabei ficando sozinha para servir todos. Mal pude acreditar quando as meninas do turno da noite chegaram.

Como o uniforme dava para mais um dia, troquei por uma velha calça jeans e uma regatinha surrada, nem lembrava há quanto tempo eu não comprava uma roupa para mim. Prendi os cabelos num coque e só então saí do hospital, o tempo parecia virar.

Coloquei os fones de ouvido, e caminhei de cabeça baixa, até sentir que ele me abraçava.

- ... Muito linda essa minha namorada. - Pude ouvir sua voz naquele timbre molha calcinha.

- Eu não sou sua namorada.

- Não é ainda.

- Eu não tenho tempo ou disponibilidade para namoros.

- Me fale de você então? Você gosta de alguém? - Gosto de você.

- Não, minha mãe está muito doente. Eu vivo por ela neste momento.

- Eu sou médico, aliás, sou um excelente neurocirurgião. Quem sabe não posso ajudar minha sogra.

- Você não desiste né? Me viu ontem e já fala que minha mãe é sua sogra. Quando eu olhava você, te imaginava mais sério e não um galinha.

- Ah você me imaginava? Eu também imagino você, só que não vou falar fazendo o que.

- Está perdendo seu tempo, doutor Miguel. Eu não vou cair na sua lábia.

- E na minha boca?

- Nossa você nem parece um médico falando...

- Gata, e como parece um médico falando?

- Sério, não um cantor de churrascaria que dedica uma música e o coração para todas as clientes.

- Então você está decepcionada comigo?

Miguel puxou meu quadril de modo que se encaixasse no dele. E naquele momento fiz o que não deveria. O beijei. E ele me acolheu num aperto de sofreguidão, não era repentino, eu o esperava desde que nasci.

- Vamos para minha casa? - disse quando nos soltamos.

- Não, vá para sua casa e eu vou para minha.

- Me deixe levá-la ao menos?

- Tudo bem, mas você não vai entrar.

Caminhamos até o estacionamento de mãos dadas, e aquilo acelerou tanto meu coração que eu poderia ter um colapso.

Ele só largou minha mão para abrir a porta do carona. Eu tremia feito vara verde, sabia que era encrenca, porém não conseguia parar.

Miguel colocou numa rádio de notícias e que também dava plantão sobre o trânsito, enquanto eu olhava pela janela do carro o mundo lá fora, absorvendo a ideia de que ele não poderia ser parte do meu mundo.

- Estou de folga domingo, pensei em irmos...

- Eu não tenho folgas, trabalho em dois empregos...

- Dois? Essa minha namorada é muito batalhadora...

- Eu não sou sua namorada...

- Por enquanto. - ele falou como quem mudasse de assunto temporariamente - O que você faz no outro trabalho?

Olhei novamente para a janela e menti.

- Sou babá folguista.

- Legal. E sua mãe? Você me disse que ela é doente. Qual é a doença dela?

- Minha mãe está em coma, ela sofreu um acidente de carro, meu pai faleceu neste dia e ela nunca acordou.

- Que coisa triste, minha gatinha. Faz quantos meses?

- Quase três anos.

- Hum - ele batucou no volante - Você tem irmãos?

- Filha única. Sou sozinha no mundo.

- Era sozinha, agora você tem eu... E nunca mais vai ficar sozinha.

Comecei a chorar, e foi como se minha alma chorasse, simplesmente não conseguia parar. Miguel levou umas duas ruas para perceber e parou o carro.

- Eu estou aqui - meu bonitão tirou o cinto e me amparou em seus braços, o que me fez chorar mais ainda, como se fosse possível.

- Eu não devia ter tocado neste assunto. Desculpe a minha falta de tato, gatinha. No trabalho, doenças são algo tão rotineiro que às vezes me esqueço do impacto em quem não é médico.

Como dizer a ele que não era o estado da minha mãe apenas? Como dizer que o fato de ele se mostrar tão interessado batia de frente com a minha vida oculta? O que ele via? Uma loira, gostosinha, que ele julgava difícil. Mas na verdade eu era Ametista, conhecida nas casas noturnas de entretenimento adulto. Como contar que amanhã algum desconhecido colocaria notas de dinheiro no meu fio dental enquanto eu rebolaria a pélvis o mais próximo possível de seu rosto, fazendo com que ele fosse mais generoso?

Como contar que eu o via durante estes dois últimos anos e sonhava em tê-lo tão próximo, mesmo sabendo que era impossível?

E foi quando a mão dele tocou meu joelho que eu pensei, por que eu não poderia ficar com ele sem compromisso? Por que eu não poderia apagar as chamas

acesas em meu corpo? Por que eu não poderia saber se ele era todo grandão? Se eu soubesse dar um ponto final na hora certa, não tinha motivos para me manter tão afastada.

Foi naquele momento que eu errei, se eu pudesse voltar no tempo eu teria descido do carro e sumido até ele não lembrar-se de minha existência.

5Mas fiz o contrário disso, eu o beijei, o enlacei com meus braços. Pude sentir a fome em seus lábios, que desceram pelo meu pescoço, soltando um gemido involuntário. Apesar do gosto de lágrimas era excitante beijá-lo, Miguel era definitivamente gostoso em toda a extensão e plenitude da palavra. E isso me excitou. Fazia tempo que não experimentava essa necessidade de pertencer a alguém de corpo e alma.

- Andreia assim não, você está me tirando do sério.

- Só estou te beijando. Não quer?

As mãos dele entraram por dentro da minha blusa, encontrando meus seios presos no sutiã.

- Vamos pra minha casa? Não te quero na rua.

- Na próxima, hoje não.

- E quando será a próxima? Amanhã?

- Terça, eu amanhã vou para o serviço de babá. Então sem chances.

- Essa minha namorada além de linda é muito difícil.

- Eu não sou sua namorada - por que ele tinha que dificultar as coisas?

- Tudo bem, minha namorada. - ele suspirou antes de prosseguir - Andreia, você sente este atropelo que eu sinto?

- Você mal me conhece, está me julgando por meu exterior.

- Não, não que você não seja gata pra caralho até mesmo vestida de garçonete. Mas seus olhos, são eles que me dizem que cheguei aonde deveria estar.

- Eu só tenho vinte anos, eu não quero compromisso, quero curtir a vida. - Deus sabe o quanto tentei fugir.

- E daí? Você me olhava atrás daquele biombo desde os dezoito. Nunca me aproximei por que achava que você era menor de idade.

- Mas você perguntou até se eu era funcionária nova, o que você quer comigo?

- Um compromisso, muito sexo, alguns filhos, envelhecer e morrer antes de

você.

Aquilo me deixou totalmente sem resposta, era o que eu queria também,

entretanto havia minha mãe. E eu não tinha condições financeiras para abrir mão de Ametista.

- Quem cala consente.

Miguel disse antes de me beijar, a urgência estava toda ali, senti que minha calcinha molhou, quando ele passou a mão sobre minha coxa por cima da calça jeans.

Desci do carro para que eu não desse para ele, ali mesmo. Subi a rua e corri para casa. O carro passou por mim e fez o retorno e só então pude ver que era um Renault Duster na cor prata. O ouvi buzinar quando entrei.

Como de praxe, as terças eu deitei e dormi logo cedo. Mas desta vez eu sonhei com Miguel descendo do carro e entrando em casa, me possuindo. Na estranheza que é um sonho, terminamos comigo de quatro sendo deliciosamente fodida no palco do Burlesco.

A quarta-feira foi como todas as outras, até a hora da saída, por sorte Miguel estava de plantão. Então, ele não poderia me levar, não que o bonitão fosse de qualquer maneira.

Meu amor me arrastou até o carro dele para me dar um CD de músicas que ele havia separado pra mim.

- Vai pensar em mim, quando ouvir? Eu pensei em você quando gravei.

- Não faz isso comigo, eu não quero que a gente...

- Se entenda? Se goste? Gatinha, seus olhos azuis me dizem que eu tenho um espacinho aí dentro.

- Minha mãe...

- Vamos fazer assim, eu tenho que entrar agora, tenho uma cirurgia à noite. Vá cuidar das crianças e amanhã este médico aqui estará pronto para te examinar todinha.

Quando os lábios dele tocaram os meus, eu derreti, não há outra expressão para o que senti. Era uma sensação gostosa o tesão que os braços dele em minha volta proporcionava.

- Não está certo, Miguel. Eu não posso...

- Não pode mesmo, deve...

- Miguel - sussurrei em seu ouvido.

- Se me chamar desse jeito de novo, serei obrigado a te enfiar em algum canto e fazer o que meu corpo tanto deseja.

- Com licença, doutor.

Saí de lá quase aos tropeções, subi a pé até a Consolação e peguei um ônibus; em quinze minutos estava no Burlesco, entrei pelos fundos junto com o pessoal da limpeza.

- Rainha, oh Deus. Achei que não viria. A casa está cheia, estava arrancando os cabelos da minha peruca egípcia, digna da Cleópatra.

- Eu não disse que viria? Não posso me dar o luxo de perder dias.

- Vamos, vou com você ao camarim, minha Dita Von Teese tupiniquim. Já te falei que ela era loirinha feito você?

Caminhei até o banheiro, tomei uma ducha rápida e Bovary me ajudou na maquiagem e a prender os cabelos num coque firme.

Coloquei o terno escuro e quando ouvi Cristina Aguilera cantando Candy man entrei no palco. Enquanto a voz potente dela entoava delicadamente uma música sobre um boy magia eu me despia. Comecei pelo blazer e colete, rebolando devagar, ouvindo as reações masculinas de admiração e desejo.

Arranquei a calça ao som de aplausos. Brinquei indo de encontro aos homens que gritaram, voltei ao mastro e me dependurei. Girei algumas vezes, inclinando o quadril para que tivessem uma visão privilegiada da minha bunda, não podia negar que eu amava aquilo. Fui até a parte mais próxima da plateia e abri os botões da camisa expondo um sutiã cor de rosa, com um ar inocente, alguns clientes babavam, um ou outro desavisado estendia a mão em minha direção.

Voltei ao centro do palco e abri o fecho frontal do meu sutiã, expondo meus seios brancos e macios, do tamanho exato para preencher uma mão masculina.

Voltei para perto da plateia, fiquei de quatro expondo praticamente minha nudez, a única parte nem tão vestida era minha boceta que estava oculta sob a renda cor de rosa, mas eu sabia que de determinados ângulos poderiam vê-la perfeitamente, algumas mãos subiam pelas minhas coxas, depositando notas na minha calcinha, uma ou outra tentava acariciar a fenda de minha boceta, mas eu já tinha uma posição para protegê-la.

Cristina deu lugar a uma sensual música eletrônica enquanto eu caminhei de quatro até o centro do palco, me sentei e fiz movimentos como se fosse tirar a única peça de roupa do meu corpo. A maioria dos clientes levantou-se vindo em direção ao palco, foi minha vez de rebolar maliciosa e jogar um beijo na direção deles, enquanto a música terminava.

Saí do palco, ovacionada e satisfeita, o dinheiro voltara a entrar.

Capítulo 3 A mesma vida

Voltei ao camarim exausta, madame Bovary veio ao meu encontro com um robe de seda negra.

- Rainha, você estava divina! Até eu que nunca fui chegado na fruta, tenho que admitir que hoje você estava excitante.

Encarei a drag queen parada a minha frente, era uma linda mulher, os olhos bem delineados, os cílios postiços de uma coloração azulada pareciam cortinas no rosto dourado, aquilo sim era uma maquiagem perfeita.

- Ah eu sempre fui assim, esforçada.

- Esforçada pode ser, mas você tem certo distanciamento do público, mon amour, hoje foi diferente. Hoje a sua alma estava naquele palco. E foi lindo de se ver.

- Para de falar besteira!

- Besteira o caralho, sou madame Bovary, diva do show adulto. Dona do Burlesco. Rainha da porra toda. Se eu digo que foi incrível , você sorria e aceite...

- Modesta e humilde.

- E gostosa... Não se esqueça disso, rainha.

- Me dá uma carona?

- Claro.

Terminei de me trocar, e fui para o estacionamento. Madame dirigia como um piloto de fuga. Fomos cantando Lady Gaga durante a volta, eu amava estas caronas. Cheguei em casa e liguei o celular.

- Mensagem recebida.

"Bons sonhos, minha, só minha loira".

Mordi os lábios, o que estava sentindo era um sentimento avassalador, desejava demais estar com Miguel, ao mesmo tempo em que morria de medo de perdê-lo.

Era tão recente, e descompromissado. E ainda assim perfeito.

Mesmo sabendo que não era para mim, eu não conseguia dizer não e me afastar. Então comecei a contar pequenas mentiras.

"Saudades, meu grandão, aliás, preciso saber se é todo grandão mesmo" - mensagem enviada.

- Mensagem recebida.

"Essa minha namorada, acordada a essa hora pensando na extensão do meu tamanho, hahaha parece que a noite faz minha gatinha virar uma onça".

"Vou dormir pensando em outras formas de saber isso, beijinhos" - mensagem enviada. - Mensagem recebida.

"Eu só vejo uma, mas não se preocupe, terça-feira você saberá e nunca mais esquecerá, te adoro minha loira, um beijo e durma bem".

Fiquei um bom tempo rolando na cama até pegar no sono, apesar de estar muito cansada, minha mente estava em um turbilhão.

Prometi a mim mesma que eu ficaria com ele até terça-feira, nesse nosso encontro eu mataria todo o tesão que sentia por ele, e romperia de vez com aquilo. Eu precisava tê-lo. Depois disso dormi um sono sem sonhos e revigorante.

A quinta-feira passou rápido, assim como a sexta. Já o fim de semana me deixou mal-humorada, fui visitar minha mãe e não me deixaram entrar, só vê-la através do vidro. Mamãe estava entubada novamente, pegou uma infecção que segundo os médicos já estava controlada. Toda vez que eu a visitava eu me lembrava de que era impotente, por mais que eu batalhasse pelo tratamento, remédios e tudo que pudesse aumentar e melhorar a qualidade de vida dela, eu não podia fazê-la acordar.

Voltei para casa, mais uma vez com o coração na mão. Queria um abraço do meu bonitão. Porém com Miguel de plantão e eu de folga, dificultava.

Queria vê-lo, porém tinha consciência de que se eu ficasse com ele o tempo todo, me apaixonaria fácil.

Quando o domingo terminou constatei que era a primeira vez na vida que fiquei feliz por ser uma segunda-feira, fui trabalhar com gosto.

Cheguei à lanchonete cinco minutos antes do meu horário, lavei o chão, coei o café e vi Patrícia correr com o avental ao entrar atrasada.

- Loira, peguei um ônibus que não andava.

- Imagino. Seu Clóvis não está.

- Ótimo. Assim não emenda com a bronca de ontem.

- O que aconteceu ontem? - me aproximei curiosa.

- Helena foi pega dando para um médico, no estoque.

- Que médico? - não vou negar que um fio de medo subiu pela minha espinha.

- Doutor João, aquele negão absurdamente gostoso.

- Sei quem é - suspirei aliviada.

- Ficou com ciúmes do bonitão? - ela gargalhou - Loira nunca vi esse homem olhando ninguém, nem ouvi boatos na rádio corredor. Quer dizer o povo agora fala de vocês dois.

- Fala o quê?

- Que tá rolando - ela esfregou uma mão na outra num ar de pura malícia.

- Bom dia - a voz dele encheu a sala.

- Bom dia - o sorriso que se estampou na minha cara foi involuntário.

- Como você está? - ele aproximou-se de mim - Eu senti saudades.

- Eu também.

- Porque não veio me ver? Você sabia meus horários de pausas.

- Achei melhor que você dormisse.

- Eu senti que você não está mais com vontade de ficar comigo.

- Estou sim, você sabe que estou.

- Como foi seu final de semana? - quando aqueles olhos escuros pousaram em mim, eu me sentia como uma fogueira crepitando.

- Dormi de dia, trabalhei à noite.

- Pensei que não tinha trabalhado fim de semana.

- Fim de semana que é mais puxado.

- Sério? - ele arregalou os olhos - Pensava que os pais preferiam ficar com as crianças aos finais de semana.

- Não. É difícil ter folga de sábado e domingo. - me doeu dizer aquela mentira, aliás, mentir para ele era doloroso.

- E teve alguma novidade sobre o caso de sua mãe?

- Na mesma, fui visitá-la. Desta vez não pude entrar. Não vejo a hora de isso terminar.

- Quer que eu vá até lá? Eu consigo um quadro clínico. Meu pai... Ele... Bem, ele trabalha neste hospital.

- Você faria isso por mim?

- Eu faria tudo por você.

- Ih - interrompeu Paty - Parece que alguém vai casar.

- Meu Deus, Patrícia você não cansa? - casamento não podia ser pauta.

O que sentíamos um pelo outro, era atração sexual, quando transássemos passaria.

- Quem sabe do futuro? - Miguel beijou minha bochecha com malícia evidente.

- Vá trabalhar Miguel.

- Me dá um tesão louco quando você chama meu nome.

Ele saiu sem nem tomar o café, e eu fiquei molhada só de ouvir aquela voz maravilhosa.

À noite não o vi quando saí, fui direto para o trabalho. Trocariam o mastro do pole dance e Bovary queria que eu visse se o serviço fora bem executado.

- Rainha, vem ver.

Madame me levou para dentro pela mão, o palco teve seu tapete preto trocado por um de tom vermelho. Estava bem mais bonito, devo admitir.

Subi e fui até o mastro dourado, dei alguns rodopios e sentei-me no chão.

- Rainha hoje não terá ensaio, as outras meninas foram dispensadas, mas eu queria que você visse.

- Está lindo.

- Ótimo, vamos pra casa então... Meu celular tocou enquanto nos despedíamos, olhei o visor, era meu bonitão.

- Linda? Estou saindo do hospital agora, vamos nos encontrar?

- Pode ser.

- Onde eu posso te pegar?

- Vai me pegar é? - pude ouvi-lo rindo do outro lado da linha.

- Se você quiser...

- Besta, estou perto da Rebouças, me encontra perto da casa de aulas de música?

- Chego em uns vinte minutos.

Madame Bovary me encarou, porém não falou nada, desci correndo e fui caminhando apressada até nosso ponto de encontro.

Não o esperei mais que dez minutos, Miguel estava lindo, como sempre, entrei no carro, sentei-me no banco do carona, demos um selinho rápido.

- Vamos para minha casa?

Acenei concordando com a cabeça, pude sentir sua mão em minha coxa e fiquei úmida.

Seria naquela noite, se bobear naquele carro.

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