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A Faxineira

A Faxineira

Autor:: Elle Magom
Gênero: Romance
Amber, uma jovem mimada e de família rica, enfrenta uma reviravolta devastadora quando seu pai perde tudo em golpes financeiros, obrigando-as a se mudarem para a periferia de Nova York em busca de abrigo. Despreparada para lidar com a dura realidade da vida na periferia, Amber se vê lutando para sobreviver em um ambiente hostil onde oportunidades são escassas. Por um golpe do destino, ela consegue um emprego em uma empresa inesperada, sob a liderança de um chefe do seu passado. Embora inicialmente relutante em aceitar o trabalho de faxineira, Amber percebe que essa humilde ocupação pode ser sua única chance de reconstruir sua vida. À medida que mergulha nas tarefas diárias, ela se depara com lembranças há muito esquecidas, desencadeando uma jornada de autodescoberta e redenção.

Capítulo 1 Mudanças

Amber Brown

O dia amanhecera cinzento, combinava em muito com o meu estado de espírito, mas isso já não era importante, o que eu sentia, ou o que eu deixava de sentir não mudava em nada a minha realidade, e ela era muito pior do que eu gostaria de viver, ou do que eu acreditava que merecia viver, minha vida era completamente perfeita, eu não tinha o que reclamar, porém de uma hora para a outra tudo mudou da água para o vinho em questão do quê? Dias? Horas?

Levantei da cama com muito custo, pois sabia que seria a última vez que me deitaria nela, caminhei lentamente, desfrutando da visão do meu quarto, enquanto ele ainda era meu, até que cheguei a janela para observar o jardim, pensava que talvez eu pudesse vê-lo novamente no futuro, mas muito provavelmente, eu jamais o veria de novo. Desci as escadas e vi mamãe sentada no sofá com os olhos perdidos, olhando para um ponto fixo, ela com certeza deve estar muito mais desorientada do que eu com tudo que nos aconteceu.

- Bom dia! Mamãe! - Chamei a sua atenção, tentando parecer animada - Já arrumou as suas coisas?

Ela nem se dignou a responder-me, apenas apontou para as inúmeras malas da Balenciaga organizadas ao lado do chapeleiro bem próximo à porta, mamãe nunca precisou economizar, comprava absolutamente tudo que desejasse, e eu por inferência, tinha o mesmo direito e hábitos que ela, pelo menos os nossos pertences pessoais o banco não confiscou, minha mente trabalhava em busca de soluções, e eu só pensava que poderia vender essas malas no e-bay por um valor suficiente para nos manter por alguns meses, ainda mais os itens de grife dentro delas.

Não tínhamos mais funcionários que pudessem nos ajudar a carregar tudo para o taxi, todos eles, sem exceção, debandaram assim que recebemos as notificações da justiça confiscando a nossa mansão localizada em Ridgewood, Nova Jersey, olhei ao redor admirando a propriedade incrível que possuíamos até semana passada, suspirei resignada, eu cresci nessa mansão, todas as minhas lembranças são oriundas daqui, dava-me um aperto imenso no peito ao saber que papai fez dívidas o suficiente para perdermos o nosso lar para quitá-las.

- Vamos ficar bem! - Afirmei nada convencida do que eu mesma falava naquele momento, mamãe apenas assentiu.

Sem demoras peguei o meu celular, que graças aos céus não fora confiscado quando o oficial de justiça veio tomar os carros de papai e abri o aplicativo do Uber para solicitar um transporte, visto que agora não tínhamos mais nenhum carro disponível, e assim seguir para o que seria agora a nossa residência temporária.

Como não poderíamos ser simplesmente jogadas na rua, o advogado da família, amigo de anos de papai nos ofereceu sua casa no Bronx, que segundo ele havia passado recentemente por uma reforma, e era usada por ele como renda extra, pois ele alugava para trabalhadores e afins, o mesmo disse que o último locatário tinha saído da casa e ela estava vazia, com isso poderíamos ficar lá sem nenhum custo por cerca de seis meses.

Depois disso ele passaria a nos cobrar um valor de aluguel, mas esse tempo nos daria um respiro até que nós achássemos um trabalho, ou vendêssemos as coisas de valor que possuíamos, eu já planejava mentalmente os bazares para os quais venderia cada coisa e assim poderíamos sem dificuldades custear o valor do aluguel, ou então encontrarmos um lugar melhor para viver, porém, como no momento estávamos sem dinheiro e se tivéssemos movimentações altas em conta o banco retiraria o dinheiro para quitação de dívidas de meu pai, apenas poderíamos0 ter valores baixos em conta e o restante precisaria ser dinheiro vivo.

Eu tinha recém completado vinte e quatro anos, eu era bonita, então para mim, não seria difícil arrumar um emprego além do que, eu sabia que com tudo que tínhamos, talvez, isso nem se fizesse necessário, obviamente não teríamos mais tantos luxos, teríamos que economizar, mas ainda assim daria para vivermos bem por um longo tempo.

Se considerasse o tanto de dinheiro que Bob, o advogado de papai ganhou nesse período trabalhando para nós, ele deveria era nos dar a casa e não alugar, mas isso também não seria viável, a mansão foi vendida por dezesseis milhões de dólares, e nem todo esse valor foi capaz de quitar as dívidas que papai tinha, ainda perdemos os carros e nossa ações, ainda restavam algumas, mas eram poucas, se tivéssemos qualquer imóvel, seria vendido para quitá-las.

Após cerca de oito viagens para trazer todas as malas, e notas que elas quase não couberam nele me senti melhor, realmente tivemos sorte de não terem confiscado os nossos bens pessoais.

Como eu disse, nós duas juntas tínhamos muitas roupas de marca, malas, joias, a verdade é que dentro daquelas malas havia uma pequena fortuna, que tão logo estivéssemos acomodadas na casa emprestada eu faria questão de organizar para vendê-las para saber exatamente o quanto teríamos e como viveríamos com isso.

Eu não fiz faculdade quando terminei o High School, pois eu e papai tivemos uma discursão muito séria sobre a profissão que eu queria seguir na época, ele exigia que eu me formasse em administração para assumir as empresas, mas eu sempre sonhei em trabalhar com maquiagens, eu disse a ele que me inscreveria no curso de química, tive um grande incentivador na época...

Bem, eu falei a ele que trabalharia com cosméticos, mesmo que o meu maior prazer fosse criar maquiagens, de todos os tipos, inclusive aquelas escabrosas usadas em filmes, mas sabia que papai nunca aceitaria, então a química era um meio para um fim, mas ele era esperto, percebeu o meu intento e logo tirou de mim essa possibilidade.

Ele não permitiu que eu me matriculasse na faculdade, me deixou presa em casa e com isso perdi os prazos na época, eu me senti tão atordoada que não dei a ele o que ele queria, e me recusei a ir trabalhar com ele, acabou que fiquei em casa durante os anos seguintes apenas gastando o dinheiro que ganhávamos, porém, eu era boa com contas, e entendia sobre investimentos, pois eu sempre lia sobre o assunto e acompanhava a bolsa de valores.

A viagem até o Bronx foi longa, mamãe dormia aperta ao meu lado, eu estava me sentindo temerosa do que iriamos encontrar, mas estava tentando ser otimista, esperava de todo meu coração que a casa fosse minimamente confortável, tínhamos tanto em nossa mansão, e agora eu sabia que teríamos pouco, muito pouco nessa nova casa, ao menos teríamos um teto, pensei, tentando me consolar, mas isso só me trouxe mais raiva ao saber que a culpa por isso havia sido dos erros cometidos por papai.

Tão logo o carro chegou ao destino eu saio do carro para avaliar com calma a nossa nova moradia, a casa era geminada e de dois andares, havia uma escada a frente que dava acesso à porta principal, olhei a largura dela, e era ridiculamente pequena, senti vontade de chorar ao notar o cubículo que teríamos que morar, meu quarto na mansão era maior que essa casa inteirinha, fechei meus olhos me contendo para não cair no choro, até que escuto a voz do motorista, deixando tudo ainda pior.

- Deu oitenta dólares a corrida!

Me senti miserável ao lembrar que eu tinha apenas duzentos dólares na carteira, e isso por pura sorte, pois eu iria sair e tinha sacado o dinheiro na semana anterior, porém minha amiga Lyn não pode ir por algum problema em casa, então desmarcou comigo em cima da hora, e com isso o dinheiro acabou ficando guardado, dei a ele a nota de cem com muito pesar e peguei os vinte dólares de troco, pensando em quanto tempo aquele valor ali duraria até eu precisar arrumar mais.

Eu abracei mamãe que olhava desolada para nossa nova casa, estávamos tão perdidas com aquela situação que não notamos quando o motorista se foi, ficamos nós duas chorando silenciosamente enquanto olhávamos nossa nova casa com tristeza e algo muito parecido com ódio, papai havia feito besteiras e nós estávamos pagando o preço por isso, não era justo, nem um pouco, não sei quanto tempo se passou durante nossos delírios de sofrimento, apenas me dei conta da estupidez que estávamos fazendo quando mamãe começou a gritar.

- SOLTA ISSO! ! ! ! NÃO É SEU! ! ! - Seu grito era estridente e apavorado, girei o corpo imediatamente para conseguir ver o que acontecia, e a cena era completamente assustadora.

Capítulo 2 Assalto

Amber Brown

- SOLTA ISSO! ! ! ! NÃO É SEU! ! ! - Seu grito era estridente e apavorado, girei o corpo imediatamente para conseguir ver o que acontecia, e a cena era completamente assustadora.

Três homens enormes estavam catando nossas malas, e minha mãe tentava inutilmente puxar sua frasqueira onde eu sabia estarem guardadas suas joias mais caras, num impulso eu tentei ajudá-la, apenas para sentir um poderoso tapa em meu rosto que me fez perder completamente o eixo, fiquei tonta, já não escutava nada, minha cabeça rodava, eu não consegui ver muita coisa depois disso apenas sentia minha cabeça girar com força, continuei escutando os gritos de mamãe, os gritos dos homens, era tudo como um borrão, não dava para entender o que eles falavam.

Depois de alguns minutos, que eu não saberia estimar quanto, senti minha consciência voltando lentamente, então consegui enfim me erguer do chão e o que vi depois disso me deixou completamente desolada, mamãe estava caída ao chão, em prantos, segurando com força algo que eu não conseguia ver o que era, e nenhuma, absolutamente nenhuma das nossas malas estavam ali, todas nossas roupas, nossos pertences pessoais, nossas roupas de marcas, perfumes, bolsas, joias, calçados, não tínhamos mais absolutamente nada.

Nos tiraram tudo!

Minha respiração começou a ficar acelerada, eu ia sentindo o desespero me corroer profundamente, não era só questão dos itens mais íntimos, era uma questão de sobrevivência, só a venda de uma daquelas malas vazias já nos sustentaria por meses, se fossemos econômicas e vivêssemos apenas com o necessário, duas malas daquelas, nos daria algum conforto e alguns passeios ainda, somando as joias que estavam em nosso poder, nós ainda tínhamos uma pequena fortuna que nos sustentaria por alguns anos sem muitos luxos, não era possível que absolutamente tudo que tínhamos para nos salvar da desgraça que estávamos metidas havia sido levado em questão de segundos.

Segundos!

Olhei ao redor do bairro e avistei inúmeras janelas abertas, muitas pessoas nos olhavam, mas nenhuma delas se dignava a nos ajudar, quando notaram que eu já os tinha flagrado, alguns fechavam as janelas, outros continuavam nos olhando, me senti completamente humilhada por estar naquela posição, eu não era a pessoa que estava jogada no chão, eu era a pessoa que jogava os outros no chão, sempre foi assim, mas agora eu estava aqui, largada como um mendigo na rua, me levantei correndo, peguei nos braços de mamãe e a ajudei a se erguer, tão logo fiz isso corremos para dentro da casa a fim de fugirmos de mais olhares curiosos.

Depois que entramos tranquei imediatamente a porta, rindo da minha estupidez, já nos levaram tudo, o que mais poderiam nos levar. Respirei fundo tentando entender o tamanho da desgraça que nos assolava, eu tinha esperanças, e todas elas estavam naquelas malditas malas, eu não tinha mais nada agora, me virei para olhar para a sala, por sorte havia um sofá, não precisaríamos sentar no chão, mas era apenas isso, mamãe se sentou nele chorando, eu não sabia o que fazer.

Olhei em volta para tentar me situar, vi ao lado a cozinha, havia o básico, tinha uma geladeira, fogão e micro-ondas, segui até lá, haviam algumas louças e talheres velhos, senti nojo deles.

Olhei para uma porta que havia ali ao lado e constatei que era um lavabo, era tão feio que me encheu de mais tristeza ainda, sai dele e fui até outra porta que havia na sala, tinha um jardim na parte de trás. Depois vi uma porta debaixo da escada e notei que se tratava do compartimento para uma máquina de lavar velha, pensei imediatamente que não tinha nenhuma roupa para lavar ali, quase chorei ao perceber isso.

Apertei os punhos com força, tentando manter meu desespero contido, eu não podia perder a cabeça agora, eu precisava pensar em alguma solução, duvido muito que mamãe me ajude com algo, ela provavelmente só vai chorar e chorar e chorar e me mandar arrumar um trabalho.

Subi a escada velha de madeira e vi acima dois quartos, logo entrei no primeiro e percebi que tinha uma cama de casal, uma escrivaninha, um closet pequeno e um banheiro, me encaminhei até a segunda porta, agradecendo aos céus que havia outro banheiro nele, pelo menos eu não precisaria dividir o mesmo com mamãe.

Dos males o menor, esse quarto era do mesmo tamanho do anterior e continha a mesma mobília, bem, pelo menos não dormiríamos no chão, retornei à sala e vi mamãe acariciando algo em sua mão, fui até ele para ver o que ela tinha conseguido salvar.

- Graças a Deus! - Exclamei quando vi que ela tinha ali uma de suas alianças cravejada com diamantes - Podemos penhorar ela, vai nos ajudar por algum tempo, não temos mais nada de valor, todas as bolsas, roupas, malas e joias se foram, ainda bem que conseguiu salvar algo - Falei me sentindo ligeiramente alivia, até minha respiração ficou mais leve nesse instante.

- Não vamos vendê-lo - Mamãe exclamou fechando as mãos em um gesto para proteger o anel. - É minha joia preferida, já não basta eu ter perdido absolutamente tudo que eu tinha? Não perderei isso também - Terminou me deixando incrédula e boquiaberta com a sua afirmação.

- Mas mamãe! Não sei se olhou ao redor - Disse enquanto andava circulando aquela sala absurdamente minúscula - mas não temos mais nada, a única coisa de valor que temos é esse bendito anel, e caso não o vendamos, não teremos se quer o que comer hoje.

- Você pode arrumar um emprego para nos sustentar - Falou já se levantando e indo em direção a escada - Mas não vou vender o anel - Meus olhos se arregalaram ao ver que ela não moveria uma palha por nós duas.

- Eu posso arrumar um emprego, mamãe, e vou, porém, até lá precisaremos de dinheiro -Tentei argumentar, para pôr algum juízo na cabeça dela.

- Você tem alguns dólares na sua carteira, eles não a levaram, não é? Tenho trezentos dólares no meu sapato, por precaução guardei aqui, dará para as primeiras compras até que você comece a trabalhar, pode usar esse dinheiro, mas não venderei a joia - Disse em seguida se abaixando para pegar o dinheiro escondido em seu sapato e jogando em cima do sofá, antes de dar ordens - Vá ao mercado e compre comida para o mês, quando retornar, nós vamos até alguma loja de pobre comprar algumas mudas de roupas baratas, pelo menos algo que dê para você ir em busca de um trabalho.

Assenti me sentindo derrotada, temos quatrocentos e vinte dólares, eu nem fazia ideia de como aquilo daria para comprar tudo que ela disse para comprar, e eu nem sabia como comprar mantimentos, o que eu precisava comprar? Eu nunca havia feito compras, eu nunca nem havia entrado em um super mercado na vida, como eu faria isso? Não era possível que ela fosse jogar toda a responsabilidade disso sobre as minhas costas, nós duas estávamos no mesmo barco.

Subi as escadas indo em direção ao primeiro quarto, notei que ela não estava lá, então fui em direção ao segundo, mamãe estava sentada na beira da cama, olhando perdida para um ponto qualquer, pensei em questioná-la, mas me senti apiedada dela, ela sempre teve pessoas para fazer tudo por ela, e agora perdeu tudo, não que diferisse comigo, mas eu era mais nova, era mais capaz de entender essa mudança, então ao invés de brigar com ela, perguntei o que eu deveria comprar de mantimentos para a semana.

- Não sei! Nunca fiz compras, as empregadas da mansão a faziam, eu apenas pedia o que queria comer!

Engoli em seco sabendo que de nada mais adiantaria aqueles questionamentos, desci até a sala e me sentei naquele sofá duro e velho, sentindo tanto nojo dele ao pensar em quantas bundas fedidas devem ter se sentado ali, a ânsia veio forte, então decidi ficar em pé, me apoiei no corrimão da escada e comecei a pesquisar no Google listas básicas de compra.

Olhei uma que me pareceu interessante, lista semanal, custo de cento e vinte dólares, tinha uma quantia razoável de alimentos que me deram um norte, depois eu descobriria como prepará-los, mais consciente do que fazer, guardei a lista no celular, olhei no GPS para saber aonde tinha algum mercado próximo, constatei que tinha um há cerca de dois quilômetros da casa que estávamos, era uma caminhada curta, daria para ir andando.

Saí de casa e olhei ao redor, não havia mais pessoas nos vigiando, isso me deixou mais aliviada, segui na direção indicada pelo GPS, mantendo o celular escondido nas calças, não poderia me dar ao luxo de perdê-lo também, continuei andando por cerca de uns vinte e cinco minutos até chegar ao tal mercado que havia visto antes.

Tentei encarar aquilo como uma nova experiência de vida, entrei no mercado e fiquei olhando tantos corredores e prateleiras que haviam ali, avistei um carrinho de compras e peguei um, abri a lista do celular e me guiei ao primeiro corredor.

- Você consegue fazer isso Amber, basta pensar que é como uma loja de roupas, basta escolher, colocar no carrinho e ir até o caixa pagar, é moleza - Sussurrei para mim mesma, euconsigo, eu vou conseguir.

Capítulo 3 A Vaga

Amber Brown

Havia se passado cerca de quinze dias desde que eu e mamãe nos mudamos para a casa nova no Bronx, eu estava começando bem aos poucos a me sentir familiarizada com a casa, não havia muito o que conhecer por aqui, era uma casa bem pequena, um dia foi mais que suficiente para ver tudo que havia nela, também aproveitei para conhecer parte do bairro.

Conheci a localização dos mercados mais pertos da casa, o parque Crotona Park que era relativamente próximo, não fui muito a frente pois se fosse chegaria ao zoológico, e era um lugar que eu não queria retornar, provavelmente nunca mais na minha vida, mapeei todos os pontos de ônibus e as estações de metrô para quando fosse necessário me locomover gastando pouco eu saber exatamente aonde ir, conheci alguns barzinhos, e outras lojas que haviam por aqui, mesmo que não tivesse desfrutado dos serviços oferecidos por ele em prol da economia forçada.

Tentei uma vaga de emprego em absolutamente todo o comércio existente nas redondezas, já que eu precisava trabalhar, então esperava trabalhar em um local próximo de casa, porém foi uma tarefa impossível, absolutamente ninguém me deu um emprego, nem mesmo aqueles que tinham placas anunciando vagas, e até hoje algumas placas ainda estão expostas lá, fiquei vigiando todos os dias para poder confirmar isso, o que me fez pensar que talvez eu seja o problema, eles não querem dar um emprego para mim.

Eu estava desolada!

A verdade é que morar naquele bairro era um inferno, ninguém ali olhava para mim, todos viravam a cara quando eu passava, sequer me respondiam quando eu ousava tentar me aproximar, os meus amigos, aqueles muitos que eu tinha quando era rica, um a um foi me bloqueando no WhatsApp quando descobriram que eu fiquei pobre, até minha melhor amiga Lyn, ou aquela que eu achava ser a melhor, me respondia mais, ninguém estava disposto a me ajudar, me sentia triste, deprimida, e pobre.

Cada vez mais pobre!

Ouvi batidas na porta da sala, respirei fundo já prevendo o que seria, estava terminando de preparar o meu café para seguir em mais um dia incansável de buscas de um emprego que nunca vinha.

Tentei disfarçar meu desanimo para abrir a porta, e lá estava o que eu poderia dizer agora? Nosso salvador! O homem a quem devemos hoje gratidão por ter um teto sobre a nossa cabeça, sorri para ele e ele entrou já se acomodando na bancada da cozinha onde estavam alguns pães e minha caneca de café, um luxo que eu tinha me dado quando fui ao mercado comprar mantimentos.

- Como está Amber? Se adaptando bem? - Sua voz era neutra, não dava para saber se ele estava realmente preocupado ou se estava satisfeito em me ver naquele lugar inóspito e velho, mas eu tinha a impressão de que ele me lançava um olhar de satisfação, eu só não conseguia entender exatamente a razão para isso.

- Estou bem Bob, me acostumando aos poucos, é bem menor que a mansão, mas estou grata por ter um teto sobre a minha cabeça. - Respondi forçando uma simpatia que eu não tinha, era humilhante depender dele para isso, mas não poderia irritá-lo e fazê-lo perder a sua benevolência para comigo e para minha mãe inerte no quarto acima, então optei pela cordialidade, era um caminho mais seguro.

- Fico feliz! Seu pai me pediu para vir te ver e entregar umas cartas, para vocês duas - Ele parou e olhou ao redor antes de me questionar - Onde está sua mãe? - Franziu a testa tentando inutilmente esconder o interesse na resposta para aquela pergunta.

- Está no quarto, não tem saído muito dele desde que viemos para cá, ela não está sabendo lidar... Lidar com tudo isso... - Parei de falar quando senti que ia começar a chorar, engoli o choro e me contive, ele não precisava ver isso.

- Vocês vão conseguir! Sou amigo de vocês! Estou aqui para ajudá-las Amber, no que for possível, podem contar comigo! - Ele falou e assentiu em concordância quando lhe ofereci café, ele tomou e ficou olhando para a xícara trincada por algum tempo antes de erguer os olhos e me perguntar:

- Já conseguiu um emprego? - E ali estava a pergunta que eu temia, eu sabia que em algum momento ela viria, eu estava procurando trabalho, eu sabia que teria que lhe pagar o aluguel da casa, mas eu ainda tinha alguns meses pela frente diante do prazo que ele nos deu inicialmente.

- Ainda não, mas estou procurando, todos os dias saio em busca de trabalho, já rodei todos os locais do bairro, porém ninguém quis me empregar, hoje irei até o Queens procurar algo por lá, com sorte esse mês ainda eu consigo algo. - Respondi me sentindo pressionada por algo que nem era culpa minha.

- Entendo! Tenho uma proposta para você! - Ele falou misterioso - Minha filha trabalha em uma empresa em Manhattan, ela me informou que seu chefe está contratando, eu posso pedir a ela para falar com ele sobre você, ela é muito bem quista na empresa, tenho certeza que com a indicação dela você será contratada.

Sua proposta me encheu de esperança, Manhattan era um pouco distante para mim, mas a possibilidade de ter um emprego era muito mais tentadora, as pessoas conseguiam trabalhar longe, ir e vir e tudo mais que envolvia essa coisa de pobres, bem, eu também conseguiria, mais esperançosa com as novas possibilidades falei aquilo que claramente ele queria ouvir.

- Eu agradeceria muito a você por isso! - Vi um sorriso se formando em seus lábios, ele parecia feliz, feliz demais, mas tinha algo suspeito ali, algo que eu não fui capaz de entender naquele momento, mas o futuro me faria entender exatamente o significado disso.

Sem muita demora Bob fez uma ligação e falou com sua filha, e em poucos minutos eu tinha uma entrevista agendada para hoje, isso fez nascer em mim uma pontada de esperança para a qual eu não estava preparada, com um emprego as coisas ficariam um pouco melhores, os riscos de estarmos na rua em pouco tempo começava a ser algo distante, e a possibilidade de talvez eu conseguir voltar a estudar, refazer os exames para a faculdade e assim melhorar minhas possibilidades em algum momento começava a se desenhar na minha mente como algo passível de realização.

Puxei o ar com força enquanto ouvia Bob dizer que estaria indo a cidade hoje, e caso eu quisesse ele me daria uma carona até a empresa que sua filha trabalhava, assenti feliz, eu não andava de carro desde que vim para cá, apenas a pé, ou então de ônibus ou metrô. Estava satisfeita em poder andar em um carro novamente, subi até meu quarto para me trocar, uma peça de roupa que eu tinha comprado em um brechó para poder procurar emprego dobrada em cima da escrivania já a postos para ser vestida, a coloquei e desci correndo, me sentindo cada vez mais esperançosa.

Bob foi me explicando no caminho sobre a empresa que sua filha trabalhava, e isso me deixou muito empolgada, era uma empresa de cosméticos muito famosa, a Make-Pró, era uma marca nova, tinha cerca de cinco anos no mercado, mas era altamente promissora, muitas blogueiras falavam sobre ela, e eu tinha a sua coleção inteira de batons em minha frasqueira que foi covardemente roubada assim que chegamos à casa que nos foi cedida por Bob no Bronx.

Eu me sentia cada vez mais animada, era uma grande chance que eu estava recebendo da vida, ainda mais para trabalhar em uma empresa que comercializava simplesmente a coisa que eu mais amo nessa vida, que é maquiagem. Eu não poderia pedir mais, talvez eu pudesse tentar alguma vaga de maquiadora, eu era boa nisso, eu poderia mostrar o que sei fazer, ou então eu poderia trabalhar em alguma loja vendendo as maquiagens, estava me sentindo tão ansiosa com as possibilidades.

Chegamos até o prédio lustroso, era bem no centro de Manhattan, a duas ruas da biblioteca pública de Nova York, ao entrarmos na edificação subimos até o último andar, Bob me dizia que sua filha elogiava muito o chefe, que era o tipo de chefe que gostava de conhecer todos os funcionários pessoalmente antes de contratá-los, e como eu era indicação dela, a vaga já seria minha, logo, eu não precisava passar pelas entrevistas com o recursos humanos, eu só falaria com ele, e provavelmente já começaria a trabalhar no dia seguinte.

Chegamos até uma antessala onde havia uma secretária, logo Bob me apresentou a Clara, sua filha, ela quem tinha sido a responsável por me ajudar a conseguir a vaga, então sorri verdadeiramente simpática para ela, que me retribuiu um pouco seca, mas não me importei, talvez fosse o jeito dela.

Ela logo entrou para anunciar minha chegada ao seu chefe, e logo depois disso Clara retornou informando que ele estava em uma reunião virtual, e que após isso me atenderia, eu assenti e me sentei no confortável sofá, apreciando o toque macio dele, era um sofá luxuoso, do tipo que eu estava acostumada, não aquela porcaria que eu tinha naquele cubículo que eu era obrigada a morar no momento.

Olhei para o relógio na parede e notei que eram dez horas da manhã, eu tinha comigo umas duas barrinhas de cereal, para caso não desse tempo de almoçar, Bob se despediu de mim dando um beijo na testa da filha e em seguida me desejou boa sorte. Eu fiquei ali, aguardando o momento de ser entrevistada, peguei umas revistas que estavam expostas na mesinha de centro e fiquei foleando, vendo as últimas modas, sentindo falta da minha antiga e confortável vida de milionária.

Olhei novamente para o relógio da parede e me assustei ao ver que já eram quatorze horas nesse momento, eu já estava ali há quatro horas e a reunião ainda não havia terminado? Me levantei, esticando o corpo e fui até a mesa de Clara, não queria ser intransigente, a garota tinha me garantido um emprego, porém, eu precisava saber se demoraria mais.

Ela me olhou e me informou que o chefe ainda estava em reunião, que quando ele saísse me chamaria, retornei para o sofá, me sentindo ligeiramente irritada com isso, fiquei atenta agora, vi diversas pessoas chegarem, entrarem e saírem, uma, duas, três, cansei de contar quando chegou a nona pessoa e entrou, sendo que eu já estava ali desde as dez da manhã.

- Sem querer te incomodar, mas será que você poderia olhar novamente se ele ainda está ocupado? Já entraram diversas pessoas que chegaram depois de mim e foram atendidas, eu já estou aqui há cinco horas e nada dele me atender - Torci que ela fosse capaz de entender minha aflição, ela não tinha culpa, mas isso já estava beirando o abuso.

- Vou verificar para você! - Clara me respondeu com má vontade, ignorei aquilo, talvez eu a estivesse atrapalhando, mas para a minha satisfação ela se ergueu da cadeira e entrou na sala do chefe, alguns minutos depois Clara retornou e falou aquilo que fez meu sangue ferver - Ele está em reunião, quando encerrar irá te chamar. - Esse anúncio para mim foi a gota d'agua, eu não era obrigada a aceitar isso, então sorri ironicamente para ela e falei.

- Então diga ao seu chefe que estou indo embora, sinto muito por você ter se dado o trabalho de me indicar, quero que saiba que sou muito grata por sua disposição em me ajudar, mas diga a ele que ele pode contratar outra pessoa! - Me virei para sair, completamente irritada pela falta de respeito comigo, quando ouvi o telefone dela tocar e em seguida a voz dela dizendo aquilo que eu estava a longas cinco horas esperando.

- Ele pediu para a você entrar, a reunião acabou

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